Arquivo da categoria: Artigos – Psicanálise

“NAVEGAR É PRECISO, VIVER NÃO É PRECISO”

 

Introdução:

 

 

 

Os Argonautas”

 

O barco, meu coração não agüenta tanta tormenta, alegria

 

Meu coração não contenta o dia, o marco, meu coração o porto, não

 

Navegar é preciso, viver não é preciso

 

Navegar é preciso, viver não é preciso

 

O barco, no teu tão bonito

 

Sorriso solto, perdido

 

Horizonte madrugada o riso, o arco da madrugada, o porto, nada

 

Navegar é preciso, viver não é preciso

 

Navegar é preciso, viver não é preciso

 

O barco o automóvel brilhante o trilho solto, o barulho

 

Do meu dente em tua veia

 

O sangue, o charco, barulho lento o porto, silêncio

 

Navegar é preciso, viver não é preciso…

 

 

 

            Como a própria música citada acima diz, lançar-se numa aventura náutica com todos os recursos disponíveis, toda a aparelhagem naval, ou não, só poderá levar-lhe para um porto seguro; mesmo que não se tenham as aparelhagens para navegar, mesmo que só tenhamos mapas para nos orientar, ainda assim, navegar é mais preciso que viver. Viver é uma aventura onde não há aparelhagem suficiente que lhe garanta chegar a porto nenhum. Há o desamparo, o não saber se daremos conta de organizar o nosso aparelho psíquico; a cada guinada, a cada solavanco, a cada onda mais alta, o navio pode naufragar, porém vamos seguindo, somos sobreviventes dentro dessa grande massa humana que chamamos de cultura, sociedade, vida.

 

            Este foi um dos meus primeiros aprendizados quando iniciei o curso Formação em Psicanálise, em 2002. O professor Ede de Oliveira Silva, no seminário clínico, fez a citação desse mesmo trecho da música, para me fazer compreender metaforicamente, o caso de uma menina, Lúcia[1]. Caso que inclusive levou-me a querer buscar novos conhecimentos, novos parâmetros, novas rotas, chegando à psicanálise.

 

            Quando vi Lúcia pela primeira vez, na época com oito anos e dez meses, observei que havia alguma coisa a mais, e não somente como dizia a escola, um atraso motor. Ela era diferente das outras crianças que eu já tinha atendido. Seu comportamento não seguia as normas do chamado “adequado”, ela dava risada por qualquer motivo, babava, não tinha o chamado freio inibitório[2] (não obedecia às regras sociais), interrogava qualquer pessoa que via e ficava sem saber o que fazer quando era ignorada, freqüentemente perseverando até obter o que desejava, não era por “birra”, algo que não passava pelo âmbito dos limites, era diferente disso, parecia ser a única maneira como havia aprendido a se relacionar (fora da fronteira entre o eu dela e o eu do outro). Também não estava atrelada à deficiência cognitiva, sabia ler e escrever, embora sua orientação espaço-temporal estivesse defasada, não conseguindo se organizar numa folha pautada e muitas vezes se negando a colocar a data nos trabalhos e quando o fazia era sempre além ou aquém da data corrente (uma maneira de cindir com a realidade externa, ficando preservada no seu mundo interno).

 

            Naquele momento da minha vida profissional, psicopedagoga e psicomotricista, não sabia o que era um paciente psicótico; já havia ouvido falar em psicose, porém ainda não havia lido nada a respeito. Foi preciso buscar supervisão para fechar o diagnóstico e saber qual o percurso a ser feito.

 

            A primeira aula do professor José Carlos Garcia, “Uma Introdução Sobre a Loucura” e em seguida ler o seu artigo publicado na revista Boletim, “Alguns Elementos Sobre a História da Loucura” [3], fez-me retroceder no tempo e reviver os mesmos sentimentos da ocasião em que estava tentado entender, tentando pesquisar, tentando achar um rumo, o que será que aquela menina tinha além do comprometimento motor? O seu último parágrafo veio me reconduzir à pesquisa de entender o que se passa com Lúcia:

 

 

 

            “A abordagem psicanalítica das psicoses significou uma transformação da concepção de loucura como forma de anomalia cerebral para outra na qual a loucura é entendida como um desfecho especial na trajetória histórica de um determinado indivíduo. Ou seja, o foco primordial do enfoque psicanalítico para a doença mental é a preocupação de compreender como a mente humana chega a esta forma de funcionamento psíquico e de como seria possível intervir terapeuticamente nesta patologia.”

 

 

 

                Deixar-me ser conduzida pela programação do seminário: função materna, função paterna, Complexo de Édipo e psicose, o caso Schreber, pulsão e representação na clínica da psicose, foi de fundamental importância para ir tendo os insights e fazer as associações necessárias para poder articular a teoria aprendida com o caso clínico.

 

            Também assistir ao filme “A Fantástica Fábrica de Chocolate” , representou por meio da imagem, o que Schreber e Lúcia devem ter passado, vivendo à sombra do grande outro. O personagem Willy Wonka, criança ainda parece um monstro, com aparelhos dentários que o mantêm de boca aberta e com muita dificuldade de falar e de se alimentar, com a única finalidade de ficar com os molares perfeitos, submetendo-se ao despotismo paterno, deste pai que era dentista em Londres. A partir daí a história vai se desenrolando muito parecida com o caso Schreber e o de Lúcia. Lançarei mão de algumas imagens que ficaram impregnadas em minha mente e que podem contribuir como exemplos para esse meu trabalho.

 

 

 

 

 

Histórico Clínico:

 

 

 

                   Os pais de Lúcia, mãe com quarenta anos e pai com quarenta e dois anos (2001), funcionários públicos, professores doutores, tentaram uma gravidez durante oito anos. Não obtendo resultado positivo resolveram desistir e se voltaram para a carreira acadêmica que estava em andamento. A mãe conseguiu uma bolsa para o doutorado nos Estados Unidos e o marido a acompanhou, aproveitando para fazer cursos que complementariam a sua carreira. Nesta ocasião, já instalados naquele país, ficaram grávidos. A princípio, a mãe ficou muito irritada porque naquele momento seus planos eram outros. Depois de muito considerarem, resolveram pela gravidez e quando Lúcia nasceu, a avó e bisavó maternas foram morar junto com os pais para poderem cuidar da criança, já que os pais tinham que se dedicar aos estudos e pesquisas.

 

                        A mãe relatou que por volta de um ano e seis meses, após o nascimento da filha, começou a perceber as dificuldades motoras da criança: era toda mole, sentou e andou com atraso e não correspondia aos estímulos dados pelos pais. Quando retornaram ao Brasil, buscaram ajuda profissional neurológica; Lúcia foi encaminhada para fisioterapia, terapia ocupacional, natação e trabalho emocional.

 

                        Isto, na época, me fez pensar como teria evoluído a imagem corporal desta criança, já que Dolto (2002) fala da imagem de base que é um dos três aspectos dinâmicos da imagem do corpo.

 

 

 

               “O primeiro componente da imagem do corpo é a imagem de base.. A imagem de base é o que permite à criança sentir-se uma ‘mesmice de ser’, ou seja, em uma continuidade narcísica ou em uma continuidade espaço-temporal que permanece e vai preenchendo desde o nascimento, apesar das mutações de sua vida e dos deslocamentos impostos a seu corpo e, a despeito das provas a que ele é levado a submeter-se. É assim que eu defino o narcisismo: como a mesmice de ser, conhecida e reconhecida, indo-devindo para cada um no espírito de seu sexo.” (p. 38)

 

 

 

               Já Winnicott (1956) vai falar do ‘continuar a ser’, em seu texto “A Preocupação Materna Primária”:

 

 

 

               “A base para o estabelecimento do ego é um suficiente ‘continuar a ser’ não interrompido por reações à intrusão. Esse ‘continuar a ser’ será suficiente apenas no caso da mãe encontrar-se nesse estado que (conforme sugeri) é muito real no período próximo ao fim da gravidez e durante as primeiras semanas após o nascimento do bebê”.(p.403)

 

 

 

               Lúcia parece não ter tido esta ‘mesmice de ser’ ou o ‘continuar a ser’ dado pelos pais, pois na época de seu nascimento estavam voltados para a mesmice deles mesmos, empenhados em suas atividades acadêmicas. Talvez por isso essa dificuldade corporal e a necessidade de tantos profissionais empenhados na tarefa de estabelecer este primeiro componente da imagem corporal. Não teve a condição de suportar a angústia de aniquilamento de não ter sido cuidada por eles, principalmente pela mãe, que na ocasião parece não ter conseguido exercer a função materna, não conseguiu ‘adoecer’ para poder cuidar do seu bebê, delegando essa função para a sua mãe e para a sua avó. Segundo Winnicott (1956):

 

 

 

            “A falha materna provoca fases de reação à intrusão e as reações interrompem o ‘continuar a ser’ do bebê. O excesso de reações não provoca frustração, mas uma ameaça de aniquilação; ansiedade muito primitiva, muito anterior a qualquer ansiedade que inclua a palavra ‘morte’ em sua descrição”.(p.403)

 

 

            Aos seis anos, Lúcia estava estressada e seus pais também. Conversando com o neurologista resolveram parar com todos os atendimentos e colocaram-na numa escola próxima à residência em período integral. Ela repetiu o pré-primário e na primeira série, a escola me encaminhou com as seguintes queixas: hipotonia muscular, disgrafia (além de misturar letra cursiva com letra de forma), não produção de material gráfico em sala de aula, imaturidade e relacionamento apenas com adultos.

 

            Foi proposta uma avaliação motora, na qual foram observadas as seguintes questões: tônus muscular muito relaxado (segundo o neurologista nada tinha de físico); verbalização com vocabulário bem desenvolvido, mas apresentando ecolalia, perseverando numa tentativa de controlar as situações, agindo impulsivamente, parecendo querer esconder a sua capacidade e ver-se livre do que a incomodava; memória ativa muito presente, lembrando-se de pormenores; na área perceptivo-motora apresentou imaturidade, ficando na mediana entre quatro e cinco anos; o perfil motor oscilou muito, demonstrando dificuldade de equilíbrio, de coordenação dinâmica global e de movimentos simultâneos; não conseguiu integrar as instruções com a realização dos movimentos, por demonstrar dificuldade de trabalhar o seu corpo que aparentava ser o grande depositário de suas dificuldades, não conseguindo fazer sintonização entre o ritmo dado e o interno. Havia também uma questão quanto a não suportar crianças pequenas, principalmente bebês.

 

            Como uma criança que não teve a imagem de base pode evoluir e desenvolver o segundo aspecto dinâmico da imagem corporal que visa à realização de seu desejo, a imagem funcional?

 

 

                “O que passa pela mediação de uma demanda localizada no esquema corporal em um lugar erógeno onde se faz sentir a falta específica, é o que provoca o desejo. É graças à imagem funcional que as pulsões de vida podem, após serem subjetivadas no desejo, tender a manifestar-se para alcançar prazer, objetivar-se na relação com o mundo e com o outro”. (Dolto, 2002, p. 43)

 


Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

Comentários desativados em “NAVEGAR É PRECISO, VIVER NÃO É PRECISO”

Arquivado em Artigos - Psicanálise, Artigos - Psicopedagogia

Peversão, onde fica a Lei?!

“Bebe, come e vive bem com aqueles cujo poder é
grande. Dos bons aprenderás o bem; e com os maus,
se com eles te mesclares, acabarás perdendo o que
tens de bom “…

“Se possível fosse fabricar razão e colocá-la no
homem, grande fortuna ganhariam os que esse
segredo possuíssem”…

“Nunca um bom pai teria um filho mau, se este
fosse dócil aos sábios conselhos; mas jamais farás bom,
com simples lições, a um homem que seja mau”…

Como é difícil falar, pensar e escrever sobre perversão, já que o termo nos sugere várias conotações diferentes.
Antes de participar deste seminário teórico, perversão para mim era qualquer pessoa que se comportava como má, que não tinha respeito pelo outro, que recusava a castração e se colocava acima de qualquer lei. Não só os que participavam de práticas sexuais consideradas anormais, ou melhor, pouco comuns, como os sádicos, os masoquistas, os exibicionistas, os voyeuristas, etc…
Acho, já não tenho tanta clareza, que a minha resposta à questão formulada pelas mestras, no início deste seminário, a respeito do que entendíamos sobre o conceito de perversão, foi mais pela linha da maldade, do que o conceito dado pela psicanálise. E alguns teóricos colocam que há realmente esta confusão em função da amplitude de significados do termo.
No dicionário de língua portuguesa (Aurélio, 1995), perversão é:

1) Ato ou efeito de perverter (-se); 2) corrupção, desmoralização, depravação; 3) alteração, transtorno; 4) desvio ou perturbação de uma função normal, sobretudo no terreno psíquico.

Perverso é:

1) Que tem malíssima índole; muito mau; malvado; 2) que revela perversão; 3) indivíduo perverso.

Além dessa série de significados da palavra perversão, há ainda os que a consideram uma estrutura e outros que vêem a perversão como um modo de funcionamento psíquico, uma dinâmica psíquica, uma pulsão cujo objetivo é o gozo.
No Vocabulário da Psicanálise (Laplanche e Pontalis – 1998), definem o conceito da seguinte maneira:

“Desvio em relação ao ato sexual ‘normal’, definido este como o coito que visa a obtenção do orgasmo por penetração genital, com uma pessoa do sexo oposto.
Diz-se que existe perversão quando o orgasmo é obtido com outros objetos sexuais (homossexualidade, pedofilia, bestialidade, etc.) ou por outras zonas corporais (coito anal, por exemplo) e quando o orgasmo é subordinado de forma imperiosa a certas condições extrínsecas (fetichismo, travestismo, voyeurismo e exibicionismo, sadomasoquismo); estas podem mesmo proporcionar, por si sós, o prazer sexual.
De forma mais englobante, designa-se por perversão o conjunto do comportamento psicossexual que acompanha tais atipias na obtenção do prazer sexual.”

Talvez, também pela mesma razão citada anteriormente, eu tenha visto no filme “The Shape of Things” , a perversão na personagem principal feminina – Evelyn – já que ela desconsidera o outro, vendo-o apenas como um objeto que a ajudaria a demonstrar que toda superfície pode ser moldável, esculpida e, que o outro é apenas um pedaço de carne. Seduzindo o rapaz que havia escolhido não por acaso, mas porque já o havia conhecido anteriormente, numa vídeo-locadora, analisando-o, sabendo que seria fácil enredá-lo na trama que havia planejado, para que ele fizesse tudo por ela solicitado: emagrecer, cortar o cabelo, pente á-lo de outra maneira, fazer esporte para criar musculação, vestir-se de modo mais esportivo e até plástica de nariz, mentindo para ele dizendo que ela mesma também já havia feito. Não é só por esse motivo que fiz um diagnóstico de perversa, porém porque só revela o seu itento no momento da apresentação de sua tese. Deixando os envolvidos na trama da estória escandalizados e indignados; principalmente o casal amigo do rapaz escolhido para ser a sua amostra da tese de pós graduação em artes. Além do mais, ela se comporta de maneira exibicionista e voyeurista o tempo todo, fotografando e filmado todas as relações sexuais entre eles, sem contar para o Adam que aquilo não era uma maneira diferente de fazer amor, mas que iria ser exibido na apresentação de sua tese.
Eu, como espectadora fiquei chocada no final do filme, quando ela se vira para a câmera que a filmava e faz um gesto obsceno, mandando a todos que não concordavam com o que ela fez para “aquele lugar”. Não pelo gesto em si, mas por constatar que ela também nos enreda, não compartilhando com o espectador qual era o objeto de sua tese. Durante todo o tempo Evelyn diz que está trabalhando nela, porém o espectador fica sem saber qual é o seu escopo. Somente na apresentação, final do filme, percebe-se que o espectador também participou da trama como voyeurista e para a personagem só o que ela pensava era verdadeiro e só a arte importava, o resto é resto.
Jean Clavreul, 1967, em seu texto sobre “O Casal Perverso”, vai nos falar da importância do terceiro na relação entre o casal perverso:

… “Esse terceiro, que está necessariamente presente para assinar, ou melhor, para endossar a autenticidade de um vínculo amoroso normal, deveria ser excluído aqui, mas está exatamente presente numa posição tal como se ele fosse necessariamente cego, cúmplice ou impotente.”…

Depois da leitura desse texto ficou mais claro qual foi o motivo da minha indignação, foi o ter-me tornado cúmplice e ficado impotente diante de toda a trama de Evelyn, o que, como espectadores, só percebemos a posterirori.
Na discussão em classe, ficamos com três diagnósticos: perversa, histérica e psicótica. Entretanto, ainda não fiquei convencida que ela não agiu perversamente. Ela forma par perverso com o amigo de seu namorado, que a contesta por ter pichado a estátua, cujo pênis estava encoberto por uma folha de parreira. Com medo que ele destrua o seu objetivo, influenciando o Adam a deixá-la, também o seduz e tem um caso amoroso com ele, mesmo sabendo que estava noivo e nas vésperas do casamento. E porque também não agüenta se sentir rejeitada pelo sexo oposto, fazendo desta conquista um desafio.
Citando Piera Aulagnier- Spairani (1967):

“Dizer que o perverso é aquele que está consciente de ter escolhido o ‘mal’ porque é perfeitamente capaz de conhecer o que a ética do mundo onde ele vive designa sob o termo do ‘bem’, que ele decide desafiar toda lei e que ele sabe que, por seu agir, ultraja a lei do seu semelhante, o que significa que ela se opõe à sua, que ele insulta através do que, dentro de uma dada ordem social, é julgamento e referência moral, tudo isso não somente é verdadeiro, mas resta como o eco fiel do que o perverso fala e, acrescentaria eu, constitui a razão principal que me autoriza falar de estrutura perversa para um tal sujeito. O que tenho insistido é que a posição mais ‘pura’ do sujeito perverso é justamente esta reivindicação que faz de seu agir a conseqüência de uma escolha que ele diz justificada por um saber sobre a verdade do que é o bem, assim como do que é o mal em sua articulação fundamental no registro do desejo.”

Vemos na personagem Evelyn a constante reivindicação do que ela afirma ser o correto, mesmo indo contra as leis da sociedade na qual está inserida. Quando ela picha a estátua e diz que foi uma declaração, um manifesto contra uma sociedade hipócrita que resolve encobrir o pênis da estátua com uma folha de parreira, insultando o artista que havia se esmerado para produzir tão bela obra de arte. Ou quando ela manipula o seu parceiro sexualmente, para conseguir dele o que deseja, transformá-lo numa obra de arte, como se ela estivesse utilizando o martelo e o cinzel para esculpir em mármore. Ou quando não agüenta que o amigo de seu namorado a rejeite e também o seduz, formando um triângulo amoroso para poder levar adiante o seu objetivo. O seu fetiche é a arte, e essa está acima de qualquer lei.
Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

Comentários desativados em Peversão, onde fica a Lei?!

Arquivado em Artigos - Psicanálise, Uncategorized

“A ESCUTA”

“É através da arte de escutar que seu espírito se
enche de fé e devoção e que você se torna capaz
de cultivar a alegria interior e o equilíbrio da mente.
A arte de escutar lhe permite alcançar sabedoria,
superando toda ignorância. Então, é vantajoso
dedicar-se a ela, mesmo que isto lhe custe a vida.
A arte de escutar é como uma luz que dissipa a
escuridão da ignorância. Se você é capaz de manter sua
mente constantemente rica através da arte de escutar,
não tem o que temer. Este tipo de riqueza jamais
lhe será tomado. Essa é a maior das riquezas.”
Dalai – Lama

Lembro-me de todos os professores que me iniciaram na teoria kleiniana, lembro-me mais de alguns que de outros. Lembro-me da professora Maria Luiza Persicano, no segundo semestre do segundo ano do curso Formação em Psicanálise, dizendo:

“Não queiram anotar tudo que o professor fala em sala de aula, relaxem, deixem a teoria kleiniana penetrarem em vocês, “escutem”, somente assim poderão absorver algo tão visceral!”

Foi assim que aprendi a ficar menos inquieta para “escutar” meus professores e meus pacientes e quanto mais o faço, mais consigo entrar no jogo de relações e de associações que esta nossa tarefa de analistas nos cobra.
Vou tentar articular o que aprendi no seminário teórico da professora Cecília Noemi de Camargo, com um caso de uma adolescente que já atento há três anos em análise e que tem partes da personalidade psicótica; mas que iniciei o atendimento em psicomotricidade.
Quando vi Olga (nome fictício) pela primeira vez, então com oito anos e dez meses, observei que havia alguma coisa a mais e não apenas um atraso motor como a escola se queixava. Ela era diferente das outras crianças que eu já atendera. Seu comportamento não seguia as normas do chamado adequado, ela dava risada por qualquer coisa sem importância, babava, não tinha o chamado “freio inibitório”. Interrogava qualquer pessoa que via e ficava sem saber o que fazer quando era ignorada, normalmente perseverando até obter o que desejava, não era por birra, algo que não passava pelo âmbito dos limites, era diferente disso, parecia ser a única maneira como havia aprendido a se relacionar (fora da fronteira entre o eu dela e o eu do outro). Também não estava atrelada à deficiência cognitiva, sabia ler e escrever, embora sua orientação espaço-temporal estivesse defasada, não conseguindo se organizar numa folha de papel pautada e muitas vezes se negava a colocar a data nos trabalhos e quando o fazia era sempre além ou aquém da data corrente (uma maneira de cindir com a realidade externa, ficando preservada no seu mundo interno).
Fui buscar supervisão por não ter muito claro o que estava acontecendo com Olga. Segundo o supervisor, o que eu não estava podendo decodificar, neste caso, era o seu funcionamento psicótico. Naquela ocasião, há cinco anos, 1999, a demanda era para um trabalho psicomotor; fui pesquisar em livros teóricos o que seria um funcionamento psicótico, sugestões dadas pelo mesmo supervisor e que foram se ampliando quando, no segundo ano do curso Formação em Psicanálise, começou o aprofundamento no estudo da teoria kleiniana.
“Tenho uma mãe morta no meu colo!” (imagem dada pelo meu supervisor, nas nossas discussões sobre o caso). Compreendido por mim, que ele estava falando das relações objetais, de posições, de angústias e defesas. E é justamente sobre isso que autores como Klein, Bion, Rosenfeld, Segal, Colognese, Meltzer, Britton e Steiner chamam a nossa atenção.
Participar do seminário teórico da professora Cecília Noemi de Camargo foi “escutar”, no módulo kleiniano, o que estes autores nos diziam sobre a psicose; foi compreender melhor o funcionamento de Olga; foi fazer a síntese a respeito do que pude aprender até aqui, durante estes três anos, sobre a teoria das relações objetais.

KLEIN, ROSENFELD, SEGAL, BION, MELTZER, COLOGNESE, BRITTON, STEINER E “OLGA”.

Os pais de Olga, mãe com trinta e nove anos e pai com quarenta dois anos (1999), funcionários públicos, professores doutores, tentaram uma gravidez durante oito anos. Não obtendo resultado positivo resolveram desistir e se voltaram para a carreira acadêmica que estava em andamento. A mãe conseguiu uma bolsa para o doutorado nos Estados Unidos e o marido a acompanhou, aproveitando para fazer cursos que complementariam a sua carreira universitária. Nesta ocasião, já instalados no país, ficaram grávidos. A princípio, a mãe ficou muito irritada porque naquele momento seus planos eram outros. Depois de muito considerar, resolveu pela gravidez e quando Olga nasceu, a avó e bisavó maternas foram morar junto com os pais para poderem cuidar da criança, porque os pais “tinham” (SIC) que se dedicar aos estudos e pesquisas.
A mãe relatou que por volta de um ano e seis meses, começou a perceber as dificuldades motoras da filha: era toda mole, tinha hipotonia , sentou e andou com atraso, e não correspondia aos estímulos dados por eles. Ao retornarem ao Brasil, buscaram ajuda profissional neurológica, sendo a criança encaminhada para fisioterapia, terapia ocupacional, natação e trabalho emocional.
Isto me fez pensar como teriam evoluído as relações objetais dessa criança? Klein,1958, vai nos dizer o seguinte:

“Atribuo ao ego, desde o começo da vida, uma necessidade e uma capacidade não apenas de cindir mas também de integrar a si mesmo. A integração, que vai gradualmente chegar ao ápice na posição depressiva, depende da preponderância da pulsão de vida e implica em certa medida a aceitação, pelo ego, do trabalho da pulsão de morte. Vejo a formação do ego como uma entidade a ser em grande parte determinada pela alternância entre a cisão e repressão, de um lado, e integração em relação a objetos, do outro.”(p.279)

Fico imaginando um bebê, ávido pela relação com a mãe, tentando receber as gotinhas de libido junto com o leite, que não vêm, porque a mãe está voltada para outros interesses. Quais recursos que tem senão o processo de cisão para dar conta das projeções e introjeções do objeto persecutório, o seio mau? Este ego fica extremamente fragilizado e estilhaçado, porque não consegue alternar entre a cisão e repressão e nem fazer integração em relação a objetos. Ele não tem só um objeto, tem mais três além da mãe, mas parece que nenhum deles dá conta de conter tamanha ansiedade. Até a sua hipotonia, é uma maneira de dizer, no latente, “tome conta bem de mim, porque sou frágil!”
Em seu texto “Sobre a teoria da Ansiedade e da Culpa”, 1948, Klein chega a duas conclusões fundamentais para entendermos de onde surge à ansiedade:

“Pode-se tirar duas conclusões (…): (a) em crianças pequenas, é a excitação libidinal, não satisfeita que se converte em ansiedade; (b) o conteúdo mais arcaico de ansiedade é a sensação de perigo experimentada pelo bebê de que suas necessidades não sejam satisfeitas porque a mãe está “ausente”.” (p.47)

Olga não tinha a excitação libidinal satisfeita, pelo menos a que ela ansiava o cuidado da mãe, tinha as das avós, mas será que para ela era o suficiente? Não era fantasia dela que a mãe estava ausente, a mãe realmente não estava presente. Estava cuidando de sua tese de doutorado.
Na segunda entrevista com os pais, eles também se queixaram que Olga não podia ver bebês na rua, ou em fotos, pois entrava em pânico, gritando e, às vezes, chorando desesperadamente. Fiquei me perguntando qual a origem desse fato? E o que a levava a reagir daquela maneira frente a bebês?… Depois de um tempo de trabalho com Olga, numa sessão em que escolheu trabalhar com argila, foram colocadas revistas velhas na mesa, como forração, começou a folhear uma delas e se deparou com uma foto de bebê que tomava conta da página inteira, ela teve um acesso de raiva e amassou o rosto da criança com argila, sujando toda a página, quando terminou estava mais calma, procurou outra página e trabalhou tranqüilamente com a argila, moldando um boneco. Interpretei que depois de ter colocado a sua raiva contra o bebê que ela não tinha podido ser, havia conseguido montar um bebê mais integrado e aceito por ela. Após esse episódio, os pais não assinalaram mais a sua pouca tolerância quanto às crianças pequenas, interessando-se em observá-las. Será que a relação transferencial com a analista, “companhia viva” , deu-lhe suporte para poder elaborar a marca de um bebê pouco acolhido pelos pais? Ou será que pôde estabelecer a construção de um ego mais integrado, com capacidade para suportar melhor as frustrações entre o que havia estabelecido em fantasia, de projetar no objeto substâncias nocivas e introjetar como partes de seu self esses mesmos elementos, podendo neste instante construir de outra maneira e se ver livre deles?

Rosenfeld (1964) vai nos mostrando que pacientes em estados psicóticos usam a transferência como defesa, numa relação de objeto narcísica, onde a onipotência desempenha um papel preponderante. O objeto, geralmente um objeto parcial, o seio, pode ser onipotentemente incorporado, implicando ser tratado como propriedade do bebê. Mais para frente, neste mesmo texto, ele nos fala o seguinte:

“Nas relações de objeto narcísicas, as defesas contra todo o reconhecimento da separação existente entre o eu e o objeto constituem uma parte predominante. A percepção da separação conduziria a sentimentos de dependência do objeto e, conseqüentemente, à ansiedade. A dependência do objeto implica amor por ele e reconhecimento do seu valor, o que ocasiona agressividade, ansiedade e sofrimento, por causa das frustrações inevitáveis e suas conseqüências. Além disso, a dependência estimula a inveja, quando se reconhece a bondade do objeto. As relações de objeto narcísicas onipotentes evitam, por conseguinte, tanto os sentimentos agressivos causados pela frustração como toda percepção da inveja”. (p.195)

Quando me deparei com este trecho de seu texto, lembrei-me que no final da maioria das sessões, Olga se queixava de ter que ir embora, muitas vezes negando-se a levantar da cadeira para sair, dizendo que queria permanecer comigo. Era necessário convencê-la que logo teríamos outra sessão e que então poderíamos ficar mais tempo juntas; ela sempre dizia que a outra sessão demoraria a chegar. Entretanto, assim que saía da sala e encontrava a sua mãe, “grudava” nela e perguntava-lhe o que iriam fazer depois dali, ignorando-me totalmente; na saída mal se despedia, era como se eu fosse transparente. Tive então o insight do que esteve sempre acontecendo, Olga não podia se separar de mim, porque ao fazê-lo sentia-se frustrada e ansiosa por perceber a dependência existente; como a separação era inevitável, voltava-se imediatamente para outro objeto por não poder conseguir lidar com os sentimentos agressivos que surgiam a cada separação. Numa das últimas sessões, já na saída, desejei-lhe bom final de semana e disse-lhe: “até terça-feira!” Ao que ela respondeu, sem olhar para trás: “Estou de férias!” Frase que traduzi da seguinte maneira: “Você não quis ficar mais tempo comigo, agora que parei com a escola, parei também com você, não virei, não adianta esperar por mim!”

Segal vai falar muito da dificuldade da formação de símbolos em pacientes esquizóides e em esquizofrênicos, ela diz que a verbalização é uma forma particular e altamente desenvolvida de simbolismo, sendo uma das grandes conquistas da posição depressiva, onde a capacidade do indivíduo de integrar e conter aspectos mais primitivos de suas experiências vai acontecer, incluindo as equações simbólicas mais primitivas. Para que os processos de simbolização progridam há a necessidade de que o sujeito também deva estar evoluindo para a posição depressiva, suportando a diferenciação entre o eu e o outro, suportando que o objeto vem e vá.
No início de nosso trabalho, Olga sempre ficava preocupada com a sua mãe, onde ela estaria, quando a mãe não ficava esperando por ela. Perguntava-me: “Berenice, aonde a minha mãe foi?” Quando lhe respondia não saber, ela ficava ansiosa e atenta à campainha, perguntando se era a mãe quem havia chegado. Quando foi formando um vínculo maior e podendo experenciar que a mãe sempre voltava para buscá-la, passou a não se importar mais com as saídas da mãe, permanecendo tranqüila na sala de espera, mesmo quando não vinham buscá-la ao término da sessão. Nesta mesma ocasião a escola me assinalou vários progressos na área cognitiva: elaboração de textos com início, meio e fim; respostas adequadas às questões formuladas; a dispensa da participação da mãe na realização das tarefas. Olga estava conseguindo evoluir para a posição depressiva, havia a possibilidade de reparação, elaborando o luto patológico, já não havia mais a imagem de “tenho uma mãe morta nos meus braços”, vivida com tanta intensidade.
“A teoria kleiniana sempre achou que experiências boas podem modificar a percepção do objeto e do self. Mas de que natureza seria estas experiências boas? Segundo Bion, a experiência boa para o bebê é aquela em que o objeto continente modifica de algum modo a parte que foi projetada para dentro dele. Ele descreve como a permanência temporária dentro do seio parece melhorar as partes projetadas.(…) Quando o bebê introjeta o seio como continente que pode desempenhar o que Bion designa como função alfa de converter os elementos beta em alfa, este é um continente que pode suportar ansiedade de modo suficiente para não expelir os elementos beta como descarga imediata de desconforto. Uma identificação com um continente bom capaz de desempenhar a função alfa é a base de um aparelho mental sadio.” (Segal, p.63/64)

Em muitas sessões, Olga chegava contando o que havia acontecido com ela na escola, ou em casa, para logo em seguida parar de fazê-lo e pedir para realizar atividades, como: desenhar, montar quebra-cabeças, fazer passatempos de revistas recreativas, ler livros de estórias infantis, etc. Passava para uma comunicação não verbal, tentando se livrar dos elementos beta que surgiam em nossa comunicação verbal. Quando isto lhe era interpretado, ela confirmava ou ia para o banheiro, dependendo do quanto estava podendo suportar de ansiedade, ou do quanto a analista conseguia ser continente o suficiente para desempenhar a função alfa.
Num dado momento da análise Olga passou por um período bem confuso, quando um colega, com quem ela tinha uma relação amorosa, pediu-lhe que ela se afastasse por um tempo, porque ele não queria ser mais amigo dela. Ela não se conformava com a situação oscilando entre a agressividade e sentimentos libidinosos. Nesta época seu rendimento escolar desabou e a mãe veio pedir socorro. Olga não sabia como agir, ora telefonava para ele, agredindo-o e chorando desesperadamente, ora mandava-lhe bilhetes amorosos, pedindo-lhe que voltasse a ser seu amigo. Rosenfeld, 1950 vai nos dizer sobre estes estados confusionais que aparecem nos pacientes quando fracassa a diferenciação normal entre os impulsos agressivos e libidinosos e entram em cena novos mecanismos de divisão ou se intensificam as tendências de divisão existentes.

“Quando a divisão se acentua, a confusão e ansiedade desaparecem, mas há, clinicamente, uma deterioração do estado do paciente, de vez que a divisão ocasiona a desintegração progressiva do ego. Pode ocorrer um estado confusional agudo quando os processos de divisão diminuem, seja espontaneamente ou pela análise, e tanto se podem intensificar os impulsos libidinosos e os agressivos como podem temporariamente, predominar os impulsos agressivos e dificultar o esforço de recuperação”.(p.73).

CONCLUSÃO:
Ainda havia muito para falar a respeito desse desenvolvimento da minha “escuta”, que, penso eu, a cada dia se torna mais intenso. Havia mais para falar sobre Rosenfeld, muito mais sobre Bion, sobre Meltzer, Colognese, Britton e Steiner. Porém o espaço disponível é curto, ficando para um próximo trabalho. Trabalho este aqui que tive muito prazer em desenvolver, porque consegui acompanhar o entusiasmo da professora que “traduziu” muitas vezes para nós, alunos, de uma maneira mais simples e clara, quando nos perdíamos nas formas mais rebuscadas de alguns autores ao discorrerem sobre a teoria.
A idéia de Steiner sobre os refúgios psíquicos, estados mentais em que o paciente fica fora do alcance do analista, surgindo a partir de um poderoso sistema defensivo, deu-me o que pensar. Só para finalizar, liguei esta idéia ao fato de Olga, algumas vezes cortar comigo a comunicação verbal, se relacionando unicamente através do “fazer”, realizar alguma atividade, cindindo com a realidade externa, tentando preservar-se em seu mundo interno.
Dependendo da maneira como reajo, se sentindo compreendida ou não, Olga volta a restabelecer a comunicação comigo de maneira mais direta, ou se refugiando em alguma área onde fica difícil alcançá-la.
Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

Comentários desativados em “A ESCUTA”

Arquivado em Artigos - Psicanálise

SOMENTE O AMOR CONSTRÓI!

INTRODUÇÃO:

A Falta de Amor
A inteligência sem amor te faz perverso. A justiça sem amor te faz implacável.
A diplomacia sem amor te faz hipócrita. O êxito sem amor te faz arrogante.
A riqueza sem amor te faz avaro. A docilidade sem amor te faz servil.
A pobreza sem amor te faz orgulhoso. A beleza sem amor te faz ridículo.
A autoridade sem amor te faz tirano. O trabalho sem amor te faz escravo.
A simplicidade sem amor te deprecia. A oração sem amor te faz introvertido.
A lei sem amor te deixa egoísta. A fé sem amor te deixa fanático.
A cruz sem amor se converte em tortura. A vida sem amor… Não tem sentido.
Autor desconhecido.
Eu acrescentaria como diz Ryad Simon: “A interpretação sem afeto, é uma crueldade.”

Quando li este texto, várias associações se fizeram presentes, porém duas pareciam mais relevantes: o primeiro verso nos chama a atenção para a questão deste trabalho, a perversão; em seguida ele vai nos contando sobre as consequências da falta de amor. Se acontecem dessa forma, não sei… Entretanto, a associação mais importante foi que a minha permanência no curso de psicanálise se deveu ao acolhimento de dois professores. Este acolhimento, “esta não falta de amor”, começou desde a entrevista para a entrada no curso e, continuou através dos seminários clínicos, espaço em que um desses professores enfatizava a importância do leite com as famosas gotinhas de libido.
E ao chegar ao final do último semestre do quarto ano, do curso Formação em Psicanálise, vai ficando cada vez mais claro, a clínica nos mostra isso, como a falta das gotinhas de libido no leite desencadeia uma dinâmica mais conturbada no universo das relações objetais, já que o desamparo, do qual não escapulimos se torna maior, a angústia de aniquilamento aumenta, podendo ocorrer defesas que desfacelam o ego.
No seminário teórico do professor Armando Colognese Jr., o encadeamento dos textos, da maneira como o programa foi montado, permitiu visualizar essa dinâmica, a amálgama que se faz presente na perversão, como as gotinhas de libido não adicionadas no leite fazem a diferença, ou não, conforme o sujeito conseguiu recebê-las ou reconhecê-las.

COMPREENSÃO DO PSIQUISMO PERVERSO:

Em seus textos “Tendências Criminais em Crianças Normais” (1927), “Sobre a Criminalidade” (1934), Melanie Klein vai nos falar da perversão como desvios sexuais das ansiedades primitivas. Vai deixando de lado a teoria da libido e cria a teoria das posições. Os desvios das ansiedades primitivas eram os sintomas; o que importa é a organização psíquica que se constituiu. A questão da castração tem importância trazida à luz do Édipo primitivo. O mecanismo de recusa da realidade é usado para o desenvolvimento do conceito de Identificação Projetiva (conceito explicado mais adiante). O sadismo infantil tão ressaltado por ela, não tem nada a ver com a perversão, por estar desvinculado do sadismo adulto. A perversão é um desvio das ansiedades primitivas, ligado a um superego sádico. Perversão é uma doença do superego; é um mau funcionamento do superego que pode gerar essa organização psíquica. Na criminalidade há o sentimento de culpa, mas ele não se sustenta, o sujeito parte para o acting-out. Todo ato criminal é um ato violento da persecutoriedade pela atuação. Ela dá o exemplo da criança que “pede” para apanhar. Se os pais continuam batendo e a criança continua desafiando, é porque os pais foram enredados pela perversão da criança. O perverso necessita de um par perverso.
John Steiner, 1990, em seu texto “O Equilíbrio entre as Posições Esquizoparanóide e Depressiva” nos mostra o funcionamento psíquico dentro de cada posição, suas angústias e defesas, e como há um jogo entre as posições, o sujeito oscila entre as duas, como se estivesse numa dança de vai e vêm constantes; lembrando-me uma lei biológica que rege o desenvolvimento humano, chamada de lei da diferenciação, para cada conquista do indivíduo há uma regressão, como se tivesse que tomar um impulso para depois tornar a se desenvolver. Na posição esquizoparanóide, a angústia principal é a de aniquilamento do ego e, suas defesas principais são: cisão, identificação projetiva e idealização. As relações de objeto são vivenciadas de maneira cindida, não há integração entre o objeto bom e o mau, os dois são mantidos separados, divididos. Na posição depressiva a angústia principal é de aniquilamento do objeto, começando haver uma integração do objeto, surgindo a ambivalência, sentimentos de perda e de culpa, podendo ocorrer o luto e, em conseqüência o desenvolvimento da função simbólica e o surgimento da capacidade de reparar. A idéia de uma inter-relação entre as posições esquizoparanóide e depressiva é ampliada para incluir subdivisões em cada uma delas. Assim na posição esquizoparanóide pode acontecer desde uma fragmentação patológica, evoluindo para uma cisão normal e, na posição depressiva pode acontecer a cisão normal, evoluindo para o medo da perda do objeto, para a experiência da perda do objeto e depois para o luto. Cada posição pode ser pensada como estando em equilíbrio com as que estão em cada um de seus lados e vemos o movimento entre elas se manifestar nos nossos pacientes no curso de uma sessão, no decorrer de semanas, meses e anos dentro da análise, dependo de suas organizações psíquicas. O diferencial entre o movimento sadio e o patológico é o predomínio na maior parte do tempo de uma ou de outra angústia e das defesas que caracterizam as posições.
Rosenfeld, 1971 , vai nos mostrando através dos textos de Freud, Abraham e Klein, como a pulsão de morte, em alguns sujeitos, captura a pulsão de vida e a coloca sob o seu julgo, aprisionando-a, libidinizando assim a pulsão de morte; não havendo o predomínio da cisão, mas um tipo de integração, aglomeração da pulsão de vida com a pulsão de morte, o que ele dá o nome de fusão patológica, cujo objetivo é tirar a força da pulsão de vida para dar força à pulsão de morte. E considera a fusão patológica uma característica da perversão, criando um tipo de funcionamento ‘mafioso’, onde existe uma sedução, mas não uma subjugação ao poder. Neste tipo de dinâmica, certos estados onipotentes narcísicos são dominados pelos mais violentos processos destrutivos, de tal modo que o self libidinal fica quase completamente ausente ou perdido.
John Steiner, 1985, no seu artigo “O Interjogo Entre Organizações Patológicas e as Posições Esquizoparanóide e Depressiva”, mostra os modos como as defesas podem ser reunidas em organizações patológicas que têm um profundo efeito sobre a personalidade e podem levar a estados mentais que se tornam fixados de modo que o paciente em análise não apresenta insights e tem resistência a mudanças. Como no seu artigo anterior, citado acima, continua insistindo no movimento contínuo entre as posições, de modo que nenhuma delas prevalece em qualquer grau de completude ou permanência. Somente quando os estados mentais se tornam fixados, é que acontece a organização patológica e, é nas transições que ela ocorre, tanto no interior da posição esquizoparanóide como na depressiva, que o sujeito parece estar mais vulnerável à influência dessa organização. Por exemplo, na passagem da cisão do objeto para a dor, perda do objeto, acontece este tipo de organização patológica.

ANSIEDADES PRIMITIVAS: MANIFESTAÇÕES NA SEXUALIDADE:

Em seu texto “Observações sobre a Relação da Homossexualidade Masculina com a Paranóia, a Ansiedade Paranóide e Narcisismo”, 1949, Rosenfeld demonstra como as ansiedades muito intensas persecutórias da posição esquizoparanóide favorecem o desenvolvimento de tendências homossexuais como defesas; porque a homossexualidade está relacionada com a idealização do pai bom, como recurso para se defender contra o pai perseguidor; é um recurso usado pelo sistema de defesa maníaca, cuja tríade é: o controle, o triunfo e o desprezo. Descreve a importância dos processos projetivos, onde a homossexualidade do tipo narcísico em que outro homem se identifica com o seu eu por meio da projeção. E esse mecanismo de identificação projetiva busca suas raízes nos impulsos infantis mais primitivos de forçar o eu para dentro da mãe. A fixação neste nível primitivo, posição esquizoparanóide, é responsabilizada pela combinação freqüente da paranóia com a homossexualidade.
Ruth Malcom, 1970, em seu artigo “O Espelho: Uma Fantasia Sexual Perversa Em Uma Mulher Vista Como Defesa Contra Um Colapso Psicótico”, vai utilizar o conceito de Bion a respeito de partes psicóticas da personalidade para explicar o funcionamento psíquico perverso de uma paciente, como defesa contra um colapso psicótico. A autora chama a nossa atenção como surge esse funcionamento na transferência, que o psiquismo da paciente está atuando na perversão, uma parte de sua personalidade psicótica é perversa. E que a organização patológica pode se manifestar na sexualidade. A perversão não é uma sexualidade perversa, é uma mente perversa. A questão sexual é humana, não definindo uma organização perversa. A paciente teve uma atuação perversa homossexual com a irmã, interpretado como atuação psicótica; uma fragmentação psicótica ou atuação na perversão. Quando a cisão não funciona, o jeito de se identificar e controlar seriam ficar num surto de sadismo, dinâmica onde há satisfação. Os agentes paranóides que interferiam na frustração, na onipotência, na discriminação, visando o propósito de manutenção da facilidade, desviam-se deste propósito, afrontando a regra, criando regras para triunfar, humilhar, vingar-se, o que causa prazer. Na perversão são criadas regras próprias para manter um mundo humilhado, a seus pés. Quando a sexualidade é sádica, procura-se alguém que a satisfaça ao ser humilhada, erotizando a dor.
Já Betty Joseph, 1971, no artigo “Uma Contribuição Clínica para a Análise de Uma Perversão”, conta o caso de um paciente que na transferência atuava da mesma maneira que agia com a sua esposa e com as demais pessoas com quem mantia contato, principalmente com as mulheres; ficava em silêncio, descaracterizava o que a analista dizia, intelectualizava, levando a analista a atuar. Esse paciente tinha uma espécie de fetiche, usar uma roupa de borracha no contato sexual. Este seu ‘artifício’ era, na realidade, para evitar contato, uma forma de proteção, um desligamento. Ele seduzia para em seguida frustrar, criando situações onde as pessoas necessitariam dele e experimentariam a dor de depender dele. O intuito era exercer o sadismo, o prazer subordinado à dor, o desejo era negado e o superego age de modo sádico; toda vez que retorna o que é recusado, o sujeito sentindo-se frustrado, erotiza a dor para evitar a angústia.
No texto de Hanna Segal, “Uma Fantasia Necrofílica”, é apresentado um caso de um paciente necrofílico, demonstrando por meio desse exemplo que na dinâmica do perverso aparece a fusão patológica, o sadismo e a sexualidade, isto é, a forma deste caso se expressa na sexualidade. Ela vai nos mostrando que a intenção não é só tirar a vida e devolver a vida, num constante liga-desliga, é uma evitação com o vínculo, porque numa relação sadia o risco é o estabelecimento do vínculo. No momento em que aparece o narcisismo, ponto mais frágil do paciente, ele se mostra moribundo, porque a relação que estabeleceu com o seio é de sadismo, o sugar muito para matá-lo; para reavivar o seio precisa se identificar com ele. A relação com a analista ocorre na mesma linha, ou ela ou ele tem que morrer, como funcionava nas primeiras relações objetais.
Meltzer, 1968 , vai nos dar um novo elemento dentro da dinâmica perversa, a ética adoece, o paciente perverso fica fixado na sexualidade infantil polimorfa, onde aparece a imaturidade, o exibicionismo e o lúdico, para terminar numa ‘festa’, a masturbação; surgindo a onipotência para dar conta do sentimento de impotência, o medo de aniquilamento do ego. Quando a ética está doente, o superego que deveria tolher passa a ser permissivo. No adulto, quando a ética predomina, a sexualidade polimorfa só aparece nas preliminares; a sexualidade adulta é marcada pela privacidade, modéstia e humildade, o contrário da sexualidade infantil polimorfa e a do perverso.
Armando Colognese Jr., 2003, “Um Estudo Sobre a Perversão”, contribui para a compreensão do psiquismo perverso, levantando a questão que a única forma de sexualidade perversa é a sado-masoquista: primeiro porque perverte a pulsão, transformando a dor em prazer; segundo porque na fusão patológica, a genitalização se desenvolve precocemente numa tentativa de defender-se de uma angústia anal, tendo um prazer genital.

ANSIEDADES PRIMITIVAS: EM DIREÇÃO AO FRACASSO DAS MANIFESTAÇÕES NA SEXUALIDADE:

Beth Joseph, 1981, “O Vício Pela Quase Morte”, fala de um tipo de paciente onde existe uma destruição maligna de natureza de um vício à quase morte. Meltzer 1973; Rosenfeld 1971; Steiner 1982; falam da escravidão da parte do self que domina esses pacientes e não os deixa escapar, por mais que vejam a vida chamando-os lá fora. O paciente não fica dominado apenas por sua parte agressiva, que tenta controlar e destruir o trabalho do analista, mas esta parte é ativamente sádica em relação à outra parte do self que é masoquistamente capturada nesse processo, e que isto se torna um vício; fazendo-nos pensar num funcionamento psíquico sado-masoquista. É muito difícil para estes pacientes acharem que é possível abandonar estes terríveis deleites pelos prazeres incertos dos relacionamentos reais.
Outra característica da organização psíquica do perverso é descrita por Eric Brenman, 1985 , a manutenção da prática da crueldade por meio de uma estreiteza mental que é posta em operação e tem a função de esvaziar a humanidade e impedir que a compreensão humana modifique a crueldade. Nas primeiras relações objetais, quando o bebê começa a perceber a separação existente entre ele mesmo e o objeto, bloqueia o conceito de mãe humana inteira, o que restringe a imagem do mundo a um lugar cruel e sem amor.
Em 1971 , Betty Joseph, escreve sobre a agressividade e passividade que aparecem em alguns pacientes. De premissa achamos o paciente muito passivo, mas essa aparente passividade esconde uma agressividade intensa. O que está latente nesta passividade é uma amálgama pulsional, a pulsão de morte não é mitigada pela pulsão de vida, ocorrendo a fusão patológica. O perverso apresenta duas articulações: o que eu apresento e o que eu realmente sou. O falso self assume o espaço potencial e não dá espaço para o verdadeiro self. Na análise com o perverso somente a tolerância, a indiferença e a interpretação quebram o círculo do mal.

CONCLUSÃO:

Vamos construindo com estes autores a compreensão do psiquismo perverso. Klein contribui nos mostrando como a angústia de aniquilamento do ego não permite a integração do objeto, identificando-se com o objeto persecutório para dar conta do mesmo. Cria-se um superego mau para dar conta do objeto mau. O sentimento de culpa não se sustenta e o sujeito atua. A organização psíquica fica presa num círculo vicioso do mal. Steiner apresenta a necessidade de equilíbrio entre as posições e neste constante interjogo podem acontecer organizações patológicas, principalmente nas transições que ocorrem entre as posições, ou dentro de uma mesma posição, quando o sujeito se encontra mais vulnerável. Rosenfeld cria o conceito de fusão patológica, quando a pulsão de morte captura a pulsão de vida e coloca-a sob o seu julgo, sendo então libidinizada por ela. E que esta fusão patológica é uma das características da dinâmica da perversão.
Já as ansiedades primitivas persecutórias podem causar manifestações na sexualidade da organização psíquica perversa, embora essas manifestações sejam apenas uma forma de manifestação e não a sua expressão. Autores como Rosenfeld, Malcom, Joseph, Segal, Meltzer e Colognese Jr., falam de um sadismo constante operando nessas organizações e que a única forma característica da sexualidade perversa é a sado-masoquista, pervertendo a pulsão, transformando a dor em prazer, fusão patológica, e que a genitalização se desenvolve precocemente numa tentativa de defender-se contra a angústia anal, tendo um prazer genital.
Autores como Steiner, Joseph e Brenman vão apontando outras formas de atuação da organização perversa, onde o fracasso das manifestações na sexualidade acontece: a perversão é uma doença da ética, surgindo a onipotência para dar conta da impotência, o medo de aniquilamento do ego; quando a ética está doente, o superego que deveria tolher, é permissivo; uma estreiteza mental é posta em operação e tem a função de esvaziar a humanidade e impedir que a compreensão humana modifique a crueldade; pode aparecer uma passividade aparente para esconder uma agressividade latente.
Estes mesmos autores, citados acima, nos chamam atenção para o fato que o perverso atua na transferência, não só apresentando uma reação terapêutica negativa, mas agindo da mesma forma que o faziam com as suas relações objetais mais primitivas e que o analista deve tomar cuidado para também não atuar.
Na análise, com essa forma de organização psíquica, somente a tolerância, a indiferença (no sentido de falta de desejo) e a interpretação podem quebrar o círculo do mal descrito por Klein em seus textos: “Sobre a Criminalidade” e “Tendências Criminais em Crianças Normais”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

– Brenman, E. – “Crueldade e Estreiteza Mental” – 1970 – in Melanie Klein Hoje – Volume I – Imago – Rio de Janeiro, 1991.
– Colognese Jr., A. – “Um Estudo Sobre a Perversão”, in A Trama do Equilíbrio Psíquico – Edições Rosari Ltda – São Paulo, 2003.
– ______________ – “A compreensão na Transferência – Algumas Reflexões Sobre a Importância da Identificação Projetiva na Transferência como Situação Total”, in A Trama do Equilíbrio Psíquico – Edições Rosari Ltda – São Paulo, 2003.
– Joseph, B. – “Uma Contribuição Clínica Para a Análise de uma Perversão”, 1971, in Equilíbrio Psíquico e Mudança Psíquica – Imago – Rio de Janeiro, 1992.
– ________ – “O Vício Pela Quase Morte”, in Melanie Klein Hoje – Volume I- Imago – Rio de Janeiro, 1991.
– ________ – “Sobre Passividade e Agressividade: sua Interrelação”, 1971, in Equilíbrio Psíquico e Mudança Psíquica – Imago – Rio de Janeiro, 1992.
– ________- “Transferência a Situação Total”, 1985, in Equilíbrio Psíquico e Mudança Psíquica – Imago – Rio de Janeiro,1992.
– Klein, M. – “Tendências Criminais em Crianças Normais”, 1927, “Sobre a Criminalidade”, 1934, in Amor, Culpa E Reparação – Imago – Rio de Janeiro, 1996.
– Malcom, R. – “O Espelho: Uma Fantasia Sexual Perversa em uma Mulher Vista Como Defesa Contra um Colapso Psicótico”, 1970, in Melanie Klein Hoje – Volume I – Imago – Rio de Janeiro, 1990.
– Meltzer, D. – “Sexualidade Polimorfa Adulta” , “Sexualidade Polimorfa Infantil”, “Sexualidade Perversa”, in Estados Sexuais da Mente – Imago – Rio de Janeiro, 1979.
– Rosenfeld, H. – “Uma Abordagem Clínica Para A Teoria Psicanalítica Das Pulsões de Vida e de Morte: Uma Investigação dos Aspectos Agressivos do Narcisismo”, 1971, in Melanie Klein Hoje – Volume I – Imago – Rio de Janeiro, 1988.
– _________- “Observações sobre a Relação da Homossexualidade com a Paranóia, a Ansiedade Paranóide e o Narcisismo”, 1949, in Os Estados Psicóticos – Zahar Editores – rio de Janeiro, 1968.
– Segal, H. – “Uma Fantasia Necrofílica”, In A Obra de Hanna Segal – Imago – Rio de Janeiro, 1982.
– Steiner, J. – “O Equilíbrio entre as Posições Esquizoparanóide e Depressiva”, 1990, in Conferências Clínicas Sobre Klein e Bion – Imago – Rio de Janeiro, 1992.
– ________ – “O Interjogo entre Organizações Psicopatológicas e as Posições Esquizoparanóide e Depressiva”, 1985, in Melanie Klein Hoje – Volume I – Imago – Rio de Janeiro, 1988.
– _______ – “Relações Perversas entre Partes do Self: Um Exemplo Clínico”, 1981, in Melanie Klein, Evoluções – Escuta – São Paulo, 1989.
– Anotações das aulas do seminário teórico Perversão – Uma Visão Kleiniana, ministrado pelo professor Armando Colognese Jr.

Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

Comentários desativados em SOMENTE O AMOR CONSTRÓI!

Arquivado em Artigos - Psicanálise

A Escola dos Deuses

Duas semanas atrás sugeri a leitura do livro: “A Escola dos Deuses” de Elio D’Anna. Hoje, destaquei alguns parágrafos que achei interessantes e quero mostrar como um livro dirigido à economistas tem muitas conecções com a psicanálise.
Ele, o autor, começa dizendo que a única realidade é o sonho, o ser humano que não sonha está fadado a viver de repetições, numa mesmice contínua. A psicologia humana precisa mudar, o homem não pode viver de crenças e preconceitos ultrapassados, ele deve se auto-observar para poder se conhecer e se transformar. A realidade externa é uma contínua projeção, não podemos culpar eventos e circunstãncias que acontecem fora, porque fomos nós que a criamos. As doenças e a morte são nossas limitações internas, nossos conflitos e o medo de responsabilizar pela vida e se comprometer.
Será que conseguem visualizar alguma ligação com a psicologia de Freud? Trazer o inconsciente para o consciente não é uma maneira de se conhecer? O sonho não é o modo mais potente de nos autoregular? Por que será que recalcamos tanto os nossos sonhos? Não será uma maneira de nos autoboicotar? Culpar os acontecimentos externos não será um modo de não nos responsabilizarmos pelo que nos acontece, a projeção? E a pulsão de morte, também não será um jeito de nos limitarmos, dizendo: “Vou morrer mesmo, o que adianta me comprometer?”
Vou parar de especular e levantar hípoteses e deixar que vocês vejam o que o autor tem para nos dizer (não esqueçam que são parágrafos selecionados po mim).
A ESCOLA DOS DEUSES
Elio D’Anna
Para mudar o destino do ser humano é preciso mudar sua psicologia, seu sistema de convicções e crenças. É preciso extirpar de seu âmago a tirania de uma mentalidade conflituosa, frágil, mortal. A doença mais temida do planeta não é o Câncer nem a AIDS, mas o pensamento conflituoso do homem. É esse o esteio sobre o qual se apóia a habitual visão do mundo, o verdadeiro assassino planetário.
Sonhei uma revolução individual
Capaz de mudar completamente os paradigmas mentais da velha humanidade
E libertá-la para sempre dos conflitos,
Da dúvida, do medo, da dor.

Sonhei uma escola que edifique
Uma nova geração de líderes
E capacite-os a harmonizar os aparentes antagonismos de sempre:
Economia e ética, ação e contemplação,
Poder financeiro e amor.

Pode-se ensinar se não se sabe. Quem realmente sabe, não ensina!
Aquilo que compreendemos, o que realmente possuímos, não se pode transferir.
A felicidade, a riqueza, o conhecimento, a vontade, o amor não podem ser adquiridos fora, não podem ser dados, mas somente recordados. São bens inalienáveis do ser e, por isso, patrimônio natural de todo ser humano.
Nenhuma política, religião ou sistema filosófico pode transformar a sociedade. Somente uma revolução individual, um renascimento psicológico, um restabelecimento do ser, de cada ser humano, célula por célula, poderá conduzir a um bem-estar planetário, a uma civilização mais inteligente, mais verdadeira, mais feliz.
Pode dizer EU somente quem conhece a si mesmo, é dono da própria vida… Quem possui uma vontade. Observe-se… Descubra quem você é! Ser uma multidão significa ficar preso num sistema irreal, inescapável, um sistema autocriado de falsas crenças e mentiras.
A dependência é a negação do sonho. A dependência é a máscara que os homens vestem para esconder a ausência de liberdade, a renúncia à vida.
Um dia, uma sociedade que sonha não trabalhará mais. Uma humanidade que ama será suficientemente rica para sonhar, e infinitamente rica porque sonha. O universo é abundante, é uma cornucópia transbordante de tudo o que o coração de um humano pode desejar… Em um universo assim é impossível temer privação.
Pobreza significa não ver os próprios limites. Ser pobre significa ter cedido os próprios direitos de artífice em troca de um trabalho que não ama, que não foi escolhido por você.
Acorde!… Faça a sua revolução… Insurja-se contra si próprio! Sonhe a liberdade… A liberdade de todas as limitações. Você é o único obstáculo a tudo que possa desejar. Sonhe… Sonhe… Sonhe sem descanso! O Sonho é a coisa mais real que pode existir.
Um homem para renascer deve primeiro morrer! Morrer significa reverter completamente a própria visão. Morrer significa desaparecer de um mundo grosseiro, governado por sofrimento, para então reaparecer em um nível de ordem superior.
Tudo que acontece fora de você precisa de sua aprovação interna para se manifestar. Isto significa que qualquer coisa que acontece em sua vida é o fiel reflexo da sua vontade.
Lembre-se! Todas as possibilidades estão no agora!
Ninguém pode jamais prevalecer sobre os outros! A idéia de prevalecer sobre os outros é uma ilusão… Um preconceito da velha humanidade conflituosa, predatória, perdedora.
Se um homem muda sua atitude em relação àquilo que lhe acontece, no decorrer do tempo isso modificará a própria natureza dos eventos que encontra. Nosso ser cria nossa vida.
O homem está irremediavelmente hipnotizado. Atrás de cada infortúnio encontra-se o mal dos males: a crença irremovível na inevitabilidade da morte. O primeiro passo em direção à liberdade, o mais difícil, é compreender que esse medo governa tiranicamente toda a sua vida.
Para conquistar aquela especial condição de liberdade do ser, de conhecimento, de poder… são necessários anos de trabalho sobre si mesmo. É preciso perdoar-se dentro.
Perdoar-se dentro não é o exame de consciência de um santo obtuso, mas o verdadeiro fazer de um homem de ação, o resultado de um longo processo de atenção… de auto-observação. Significa entrar nas sinuosidades, nas partes mais íntimas da própria existência, bem lá onde é ainda lacerada… Significa lavar e curar as feridas ainda abertas… Liquidar todas as contas não pagas. Perdoar-se dentro tem o poder de transformar o passado com toda a sua carga.
Tudo é aqui, agora! Passado e futuro estão agindo juntos neste instante na vida de cada ser humano. O futuro, como o passado, está sob os seus olhos, mas você não pode ainda vê-los.
Auto-observação é olhar de cima a própria vida. É como submeter eventos, circunstâncias e relações do passado a um raio de luz.
Auto-observação é autocorreção. Auto-observação é cura… uma conseqüência natural do distanciamento que se cria entre o observador e o observado. A auto-observação permite a um ser ver tudo aquilo que o mantém grudado à esteira rolante do mundo: pensamentos absoletos, sentimentos de culpa, preconceitos, emoções negativas, previsões de desgraças… É uma operação de distanciamento, de desipnotizar, de despertar…
Coloque em ação o observador que existe em você! A auto-observação é a morte daquela multidão de pensamentos e emoções negativas que sempre governaram sua vida. Se você se observa internamente, o que é certo começa a acontecer e aquilo que não é começa a se dissolver.
Um ser humano pode olhar milhares de luas durante todos os seus anos, mas muito provavelmente, no final de sua vida, não terá encontrado tempo de observar ao menos uma… E isso está fora. Imagine o quão mais difícil é para o ser humano observar-se, inverter a posição da própria atenção. A auto-observação é só o início da arte de sonhar.
Tudo se repete na sua vida… Os fatos são recorrentes, sempre os mesmos, porque você não quer mudar… Ainda se lamenta, ainda acusa o mundo, certo de que alguém de fora possa prejudicá-lo ou ser a causa dos seus infortúnios… O ser humano comum, aprisionado na circularidade do tempo, não tem futuro de verdade, mas somente um passado que se repete e repete…
A morte física é apenas a materialização de milhões de mortes que a cada dia acontecem dentro de nós; é a cristalização da crença emprestada de uma humanidade que se acorrenta na dor e ama sofrer. Os seres humanos fizeram da morte sua via de fuga.
O corpo é indestrutível!… Ainda assim querem tornar o inevitável o impossível… Um ser humano não pode morrer; pode tão somente matar-se! Para conseguir isso, deve dedicar-se intensamente e fazer da autocomiseração e da autossabotagem um trabalho de tempo integral. A morte é sempre um suicídio. Quando esse modo de pensar se tornar carne da sua carne, sua visão mudará radicalmente e, com ela, sua realidade.
Os seres humanos veneram a morte e não a suprimiriam jamais, nem mesmo se pudessem, porque a consideram solução para os seus problemas, o fim do sofrimento e das inúmeras mortes psicológicas que se infligem… Mas a morte não é nunca uma solução!
Como em uma verdadeira cura, o processo deve vir de dentro… É o nosso ser que cria o mundo e não vice-versa! Como todas as pessoas, você sempre acreditou que fossem os eventos os geradores dos estados que você vive, e as circunstâncias externas, as responsáveis por fazê-lo infeliz e inseguro. Agora você sabe que essa é uma visão invertida da realidade.
(Esta é a primeira parte selecionada, em outra oportunidade publicarei mais.)
Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

Comentários desativados em A Escola dos Deuses

Arquivado em Artigos - Psicanálise

Insight: “O caso Dora”

Na sexta-feira passada fui assistir a uma palestra sobre a releitura do caso Dora. O palestrante, um filósofo e psicanalista conceituado, falou da abordagem de Freud e uma nova visão do caso, tendo como base o pensamento de Lacan. Também se falou de como Ferenczi viu o posicionamento de Freud, ao interpretar para a paciente que ela estava apaixonada pelo Sr. K. Muito se falou da falta de identificação de Dora e se a sua escolha sexual era hetero ou homossexual. Guardadas as prerrogativas que Freud estava começando a entender a histeria e que Dora só lhe deu três meses de análise para poder entender o que se passava no seu inconsciente, e porque havia desenvolvido uma dinâmica histérica; fiquei pensando num aspecto que na minha opinião, ainda não se falou a respeito: Dora tinha quatorze anos quando descobriu o relacionamento de seu pai com a Sra. K. Época do desabrochar da adolescência, quando a moça está retomando o seu complexo de Édipo para poder fazer a sua escolha de objeto. Fiquei imaginando o impacto da descoberta, e o desamparo que deve ter sentido, principalmente ao se deparar com a atitude do pai em sugerir um relacionamento dela com o Sr. K. para que o seu relacionamento com a Sra. K. ficasse desempedido.
Não sei se qualquer garota que estivesse no mesmo posicionamento não desenvolveria os mesmos sintomas histéricos, ou até mesmo não apresentasse traços psicóticos como forma de defesa. Não se esqueçam que esse “romance familiar” se desenrola no final do século XIX e início do XX, onde os padrões morais ainda eram muito rígidos.
Um trabalho de análise cuja a demanda era que os ataques histéricos da filha não atrapalhassem o relacionamento do pai fora do casamento, com a esposa de um casal amigo e de quem Dora tomava conta dos filhos.
Freud não soube responder a questão: “O que é ser uma mulher?” questão essa demonstrada por Dora de modo inconsciente. Qual o meu papel nisto tudo? O que devo fazer? Ainda havia uma mãe que estava apenas interessada em manter a casa excessivamente limpa, que não ocupava a sua posição de esposa em relação a seu pai.
Qual a saída para essa moça? Ficar divagando sobre hipóteses de como conduzir a análise deste caso, na nossa época autal é muito fácil. O difícil é sentar-se na cadeira de Freud e olhar para o seu divã não tendo ele os conhecimentos que temos hoje tanto sobre o caso, como quanto ao que foi desenvolvido sobre a teoria.

Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

Comentários desativados em Insight: “O caso Dora”

Arquivado em Artigos - Psicanálise

PERSONIFICAÇÃO NO BRINCAR DAS CRIANÇAS

O objetivo de M. Klein neste artigo é examinar os principais mecanismos dos jogos em que a criança inventa “personagens” diferentes, distribui seus papéis e o elemento de desejos que ocorre nestes jogos.
Chega à conclusão, após examinar vários casos, de que a cisão do superego entre as identificações primárias introjetadas em diferentes estágios do desenvolvimento é um mecanismo semelhante à projeção, à qual está intimamente ligado; que estes mecanismos (cisão e projeção) são fatores da tendência de personificação no jogo. Através deles, a síntese do superego pode ser temporariamente abandonada e a tensão causada pela tentativa de manter uma trégua entre o superego como um todo e o id se reduz. O conflito intrapsíquico se torna menos violento e pode ser deslocado para o mundo externo. O prazer assim obtido fica ainda maior quando o ego descobre que esse deslocamento para o mundo externo oferece várias provas reais de que os processos psíquicos, com seus investimentos de ansiedade e culpa podem ter uma solução favorável e a ansiedade pode sofrer uma grande redução.
O significado do mecanismo de personificação está por trás de um fenômeno universal essencial para o trabalho analítico tanto com crianças quanto com adultos: a transferência.
A redução do conflito ou seu deslocamento para o mundo externo através dos mecanismos de cisão e projeção é dos principais incentivos para a transferência e uma das forças motrizes do trabalho analítico. Uma maior atividade da fantasia e uma capacidade de personificação mais abundante e positiva são os pré-requisitos para uma maior capacidade de transferência.
Partindo da conclusão que de que a transferência está baseada no mecanismo da representação de personagem, a modificação gradual do rigor excessivo do superego é atingido quando o analista assume os papéis que lhe são atribuídos na situação analítica. Em outras palavras, o analista deve ser apenas um meio em relação ao quais as diferentes imagos podem ser ativadas e as fantasias vividas, a fim de serem analisadas.
M.K. constata que aquilo que afirmou a respeito da personificação em sua forma mais explícita, também é indispensável para o tipo mais disfarçado e obscuro de personificação que está por trás da transferência. O analista que pretende chegar às imagos mais antigas e criadoras de ansiedade, isto é, cortar pela raiz a severidade do superego, não pode ter preferência por nenhum papel em particular; ele deve aceitar aquilo que lhe é oferecido na situação analítica.

Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

Comentários desativados em PERSONIFICAÇÃO NO BRINCAR DAS CRIANÇAS

Arquivado em Artigos - Psicanálise

Entre a Psicomotricidade e a Psicanálise

INTRODUÇÃO:

Esse caso marcou a minha vida profissional de várias maneiras. Fez com que me deparasse com questões até então pouco avaliadas e chegasse a me perguntar se o que eu estava fazendo era válido no sentido de ser efetivo para os meus pacientes, ou será que havia algo mais que pudesse atendê-los melhor? Meus casos clínicos eram quase sempre distúrbios de aprendizagem, que depois de uma avaliação motora havia na sua grande maioria disfunções motoras.
Quando vi Olga (nome fictício) pela primeira vez, na época com oito anos e dez meses, observei que havia algo mais, não era somente, como dizia a escola, um atraso motor. Ela era diferente das outras crianças atendidas por mim, seu comportamento não seguia as normas do chamado “adequado”, ela dava risada por qualquer coisa sem importância, babava, não tinha o chamado freio inibitório (não obedecia às regras sociais), interrogava qualquer pessoa que via e ficava sem saber o que fazer quando era ignorada, normalmente perseverando até obter o que desejava, não era por “birra”, algo que não passava pelo âmbito dos limites, era diferente disso, parecia ser a única maneira como havia aprendido a se relacionar (fora da fronteira entre o eu dela e o eu do outro). Também não estava atrelada a deficiência cognitiva, sabia ler e escrever, embora sua orientação espaço-temporal estivesse defasada, não conseguindo se organizar numa folha pautada e muitas vezes se negava a colocar a data nos trabalhos e quando o fazia era sempre além ou aquém da data corrente (uma maneira de cindir com a realidade externa, ficando preservada no seu mundo interno).
O vínculo entre nós se estabeleceu rapidamente e fui buscar supervisão por não ter muito claro o que estava acontecendo com Olga. “Anne Alvarez cita Stern ao que chama de estados mentais partilhados, tenha de preceder a empatia e a empatia tenha de preceder a simpatia”. (Trabalho apresentado na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo – “Níveis de Trabalho Analítico e Níveis de Patologia” – abril de 2004)
Segundo o supervisor as hipóteses motoras estavam corretas e o que eu não sabia decodificar estava no seu funcionamento psicótico e recomendou-me a leitura de um livro que foi outro marco na minha vida profissional: “Companhia Viva” de Anne Alvarez, Artes Médicas, 1994.

Ele me disse que este livro seria muito importante na ajuda de poder entender Olga e que ao mesmo tempo era o que ela precisava, de “uma companhia viva”. Saí da supervisão preocupada, será que teria condições profissionais de atender Olga? O que será que significava ser uma companhia viva?
Já na primeira página do livro, antes da capa interna, do sumário, do prefácio e dos agradecimentos a autora diz: “As crianças que tiveram a mente e o corpo danificados por intrusões de abuso sexual, violência, ou negligência e aquelas outras, muito diferentes destas, que foram prejudicadas por sua própria e misteriosa sensibilidade exagerada que as tornou extremamente vulneráveis a privações muito menores, podem vivenciar um tipo de profundo desespero e ceticismo que requer um tratamento prolongado e põe à prova, ao máximo, a resistência do psicoterapeuta”. E na página próxima ao sumário ela cita Bion: “Não tenho dúvida nenhuma da necessidade de alguma coisa, na personalidade, que propicie contato com a qualidade psíquica”. (W. Bion, 1962).
Três coisas me chamaram atenção nestas citações: será que Olga havia sido negligenciada, ou será que fora prejudicada por sua própria e misteriosa sensibilidade exagerada, e mais preocupante, será que eu teria condições de agüentar e persistir, mesmo tendo tido uma opinião de ser uma “companhia viva”? Será que teria a qualidade psíquica dita por Bion?
Como curiosa que sou, fui procurar o que seria um funcionamento psicótico e encontrei uma citação de Bion no livro “Conferências Clínicas sobre Klein e Bion”, pág. 104:
“A diferenciação entre a personalidade psicótica e a não-psicótica depende de uma cisão, em pedaços mínimos, de toda aquela personalidade que se relaciona com a percepção da realidade interna e externa, e da expulsão destes fragmentos, de forma que eles ou penetram em seus objetos, ou os engolfam”.
É claro que na época não entendi muito bem o que o autor estava querendo dizer, ficando mais claro quando iniciei em 2003 os estudos sobre a teoria kleiniana.
Também fui procurar o que era “uma companhia viva”, achando a resposta no próprio livro da Anne Alvarez, já citado acima, pág. 71:
“O conceito de continência materna de Bion é o seguinte: ele descreve como a mãe, através de seu reverie, faz um tipo de digestão mental que, devido aos seus processos digestivos mentais mais maduros, possibilita-lhe vivenciar de uma forma suportável a angústia, a raiva ou o medo do bebê (1962). Assim, ela é capaz, sem um superenvolvimento sujeito a pânicos freqüentes, mas também sem um afastamento demasiado grande, de confortá-lo e acalmá-lo. Bion discute isso como uma função materna normal e comum. Todavia, é importante considerar algo mais: o que fazem as mães comuns quando seus bebês comuns estão moderadamente deprimidos – isto é, não que eles estão expressando ou mostrando sua angústia, mas quando não conseguem fazê-lo porque perderam temporariamente o interesse ou a esperança e ficaram um tanto retraídos. Em minha opinião, as mães funcionam como alertadoras e estimuladoras de seus bebês”.
Entendi que a terapeuta deveria fazer o papel dessa mãe alertadora e estimuladora de seus pacientes, tornando-se uma “companhia viva”, quando estes não estão em condições de se interessarem pelo mundo externo.
Aceitei o desafio e iniciei o atendimento psicomotor na metade de junho de 1999, Olga vinha duas vezes por semana e comecei a entender o que a Anne Alvarez falava em por a prova a resistência do terapeuta, a menor frustração e contrariedade negava a fazer os exercícios, mesmo quando havia sido ela quem tinha escolhido o queria fazer; principalmente quando já vinha com alguma contrariedade acontecida fora da sessão, com os seus pais, transferindo para mim toda a sua raiva. Na época não entendia muito de transferência, mas algumas vezes por intuição conseguia perceber o que estava acontecendo e traduzia para ela, às vezes aceitava, outras negava com veemência e outras ficava me olhando com um ponto de interrogação estampado no rosto. Aos poucos fomos nos entendendo melhor, as dificuldades de contato de ambas as partes foram cedendo e ela chegava na sessão com um sorriso e me perguntava: “O que temos para hoje?”
O que pretendo mostrar com este caso clínico é como algumas defesas da posição esquizoparanóide estavam presentes desde o início, isto é, desde a avaliação motora: projeção, introjeção, cisão, idealização, negação, identificação projetiva e identificação introjetiva; principalmente a cisão. É só observar o que foi dito no parágrafo anterior, na descrição de suas reações frente ao que era proposto, mesmo quando ela mesma escolhia.

HISTÓRICO:

Os pais de Olga, funcionários públicos, tentaram uma gravidez por um período de oito anos. Não obtendo resultando positivo resolveram desistir e se voltaram para a carreira acadêmica que estava em andamento. A mãe conseguiu uma bolsa para o doutorado nos Estados Unidos e o marido a acompanhou, aproveitando para fazer cursos que complementariam a sua carreira. Nesta ocasião, já instalados no país, ficaram grávidos. A princípio, a mãe ficou muito irritada porque naquele momento seus planos eram outros. Depois de muito considerar, resolveram pela gravidez e quando Olga nasceu, a avó e bisavó maternas foram morar junto com os pais para poderem cuidar da criança, já que os pais tinham que se dedicar aos estudos e pesquisas que estavam realizando.
A mãe relatou que por volta de um ano e seis meses, começou a perceber as dificuldades motoras da filha, era toda mole, sentou e andou com atraso, e não correspondia aos estímulos dados por eles. Quando retornaram ao Brasil, buscaram ajuda profissional neurológica, sendo encaminhados para: fisioterapia, terapia ocupacional, natação e trabalho emocional.
Aos seis anos, Olga estava estressada e seus pais também; conversando com o neurologista resolveram parar com tudo e colocaram-na numa escola próxima à residência em período integral. Olga repetiu o pré e na primeira série a escola me encaminhou com as seguintes queixas: hipotonia muscular, disgrafia (misturava letra cursiva com letra de forma), não produção de material gráfico em sala de aula, imaturidade e relacionamento apenas com adultos.
Foi proposta uma avaliação motora, na qual foram observadas as seguintes questões: tônus muscular muito relaxado (segundo o relatório do neurologista nada tinha de físico); verbalização adequada, vocabulário bem desenvolvido, apresentado ecolalia, perseverando numa tentativa de controlar as situações, agindo impulsivamente, parecendo querer esconder a sua capacidade e ver-se livre do que a incomodava; memória ativa, lembrando-se de pormenores; na área perceptivo-motora apresentou imaturidade, ficando entre quatro e cinco anos; o perfil motor oscilou muito, demonstrando dificuldade de equilíbrio, de coordenação dinâmica global e de movimentos simultâneos; não conseguiu integrar as instruções com a realização dos movimentos, por demonstrar dificuldade de trabalhar o seu corpo que aparentava ser o grande depositário de suas dificuldades, não conseguindo fazer sintonização entre o ritmo dado e o interno. Havia também uma questão quanto a não suportar crianças pequenas, principalmente bebês.

EVOLUÇÃO CLÍNICA:

O trabalho psicomotor foi iniciado em junho de 1999 e gradativamente foram acontecendo modificações na sua postura, tanto a nível físico, quanto de reações e respostas ao que lhe era solicitado, parando para ouvir as instruções e realizando as atividades de maneira menos impulsiva; seu tônus muscular foi se equilibrando e sua auto-estima progredindo, estabelecendo relacionamentos com os colegas de classe e verbalizava que tinha medo de mostrar sua capacidade, nos momentos de maior dificuldade dizia que não queria crescer e que queria continuar sendo sempre cuidada pelos pais.
Nesta ocasião, final de outubro, Olga parou de babar, sua hipotonia corporal estava desaparecendo, ainda conserva a de mãos, e a escola me relatou que estava mais interessada nas atividades e já não se jogava no chão, fazendo suas lições sentada, e havia conseguido estabelecer amizade com uma colega.
Numa sessão em que escolheu trabalhar com argila, foram colocadas revistas velhas na mesa como forração, começou a folhear e se deparou com bebê que tomava conta da página inteira, ela teve um acesso de raiva e amassou o rosto do bebê com argila, sujando toda a página, quando terminou estava mais calma, procurou outra página e trabalhou tranqüilamente com a argila, moldando um boneco. Interpretei que depois de ter colocado a sua raiva contra o bebê que ela não tinha podido ser, havia conseguido montar outro bebê mais integrado e aceito por ela. Depois disso os pais não assinalaram mais a sua pouca tolerância quanto às crianças pequenas, até se interessando em observá-las.
No ano seguinte, Olga mudou de escola, indo para longe de casa, permanecendo apenas meio período, numa escola alternativa, onde os alunos progridem por grupos e os conteúdos exigidos são conforme o avanço da classe.
Conforme eu ia adquirindo novos conhecimentos a nível motor e pedagógico, propunha mudanças no atendimento aos pais e à criança, no que era correspondida de pronto, pois os ganhos no desenvolvimento da menina eram visíveis. Embora, a princípio, sempre houvesse certa resistência de Olga, em aceitar mudanças. Ficava motivada com a novidade para logo em seguida se negar a realizar a proposta, dizendo que era difícil. Nestes momentos eu dizia a ela que entendia o seu medo da coisa nova, da mudança, mas que também estava vendo uma menina que estava querendo “moleza” e para isso seria necessário comer “pudim” ou “gelatina”. Ela dava risada, executando os exercícios.
Na metade de 2000, já cursando o curso Formação em Psicanálise, chamei os pais novamente, conversamos bastante sobre os ganhos e paradas de Olga e solicitei uma nova mudança, não mais um trabalho psicomotor, e sim um trabalho psicanalítico. Eles entenderam e concordaram; Olga foi quem teve mais dificuldade em entender, porque se acostumou com “um fazer atividades” e estranhou o falar de seus sentimentos e dificuldades.
Atualmente, com doze anos, conta mais das coisas que aconteceram com ela na escola, espontaneamente, tem mais relacionamentos com os meninos e fica muito preocupada no final de semana quando permanecerá distante de seus amigos e que as nossas sessões vão custar a chegar, fazendo carinho na minha mão e muitas vezes não quer ir embora, dizendo que não sabe para onde vai e com quem ficará. Digo-lhe para perguntar para a mãe e ela o faz na sala de espera. Tem demonstrado com maior freqüência as suas contrariedades, raivas e frustrações e reconhece quando magoou outra pessoa, pedindo desculpas, muitas vezes fazendo um jogo de sedução. Quando isto lhe é apontado dá risada e diz que é verdade.

DISCUSSÃO DO CASO:

No seminário teórico, “Angústia e Superego Arcaico”, ficou claro como a angústia (tradução de ansiedade) excessiva nos primeiros meses de vida prejudica o desenvolvimento do ego, interferindo no desenvolvimento das relações objetais. Klein acredita que as ansiedades esquizoparanóides dominam os primeiros três, quatro ou cinco meses de vida da criança e, por isso chama esta fase de sadismo máximo de “posição esquizoparanóide”. É para a posição esquizoparanóide que o psicótico regride.
No caso que estou discutindo, Olga não teve a atenção da mãe voltada para ela, como uma mãe continente, como uma “companhia viva”, já que ela estava mais empenhada na sua tese de doutorado; teve a atenção de avós que tentaram fazer a função materna, mas que não foi o suficiente para suportar as angústias de Olga.
Na sua fantasia inconsciente fica a imagem de um bebê destruído, de um bebê que não deu conta de interessar a sua mãe numa relação de troca, criando um processo de cisão para dar conta das angústias persecutórias que a invadem constantemente. No Dicionário do Pensamento Kleiniano de Hinshelwood, ele diz:
“As fantasias inconscientes estão subjacentes a todo processo mental e acompanham toda a atividade mental. Elas são a representação mental daqueles eventos somáticos no corpo que abrangem as pulsões, e são sensações físicas interpretadas como relacionamentos com objetos que causam essas sensações. Irrompendo a partir de sua instigação biológica as fantasias inconscientes são transformadas por duas maneiras:
 Pela mudança através do desenvolvimento dos órgãos para a percepção à distância da realidade externa;
 Pelo surgimento no mundo simbólico da cultura, a partir do mundo primário do corpo “(pág. 46).
Olga tinha a fantasia inconsciente de não ter sido um bom bebê, ou o bebê que sua mãe gostaria de ter tido. Por isso a sua raiva quando via bebês na rua, ou mesmo em fotografias. Conseguindo elaborar esta sua fantasia quando pode agredir com argila, fezes, o bebê que encontrou na revista, iniciando então a reconstrução de outro bebê.
Esta sua fantasia inconsciente gerava muita angústia, tendo que jogá-la para o corpo com medo da sua agressividade e da sua raiva que eram muito intensas. Por isso a sua hipotonia corporal, uma maneira de neutralizar o corpo para não agredir com veemência os objetos bons internalizados e também uma forma de não ser agredida por eles – “cuidado comigo, olha como sou frágil.”
No mesmo dicionário citado acima, Klein fala da criação de um círculo vicioso (pág. 65):
“A preocupação especial com a agressão, e as conseqüências vingativas que despertam medo e mais agressão, são autoperpetuantes. Os ataques aos perseguidores tornam-se mais daninhos, porque deles se imagina, na fantasia, que estejam ainda mais enraivecidos e dispostos à violência retaliatória. Quando os objetos são introjetados, o ataque que sobre eles é lançado com todas as armas do sadismo desperta no sujeito o pavor de um ataque análogo sobre si mesmo, partindo dos objetos externos e dos objetos internalizados. Este tipo de círculo vicioso representa um estado paranóide de hostilidade, com imensa desconfiança de quaisquer figuras boas”.
Outra forma de defesa presente era o seu pensamento onipotente, muitas vezes Olga verbalizava: “Eu não quero crescer e quero mandar, eu mando na minha mãe e no meu pai”. “O sentimento de onipotência é importante nos mecanismos primitivos de defesa que se acham envolvidos com o rompimento das fronteiras do ego, de maneira a que as experiências de separação e inveja sejam evitadas” (dicionário já citado acima, pág.396).
Também outras defesas da posição esquizoparanóide ocorriam com freqüência, projeção, introjeção, negação, idealização, identificação projetiva e introjetiva; das quais falarei numa outra oportunidade, visto que aqui o nosso espaço é restrito e eu já passei de muito do que foi acordado.

CONCLUSÃO:

Quando torno a reler o histórico deste caso aproprio-me de observações até então vedadas aos meus olhos. A queixa principal, de um bebê que não pode ser devidamente cuidado pela mãe, que estava naquele instante do nascimento voltada para outros interesses, é uma violência ao direito de existir, causando uma psicose. A marca doeu e Olga não consegue fazer de conta, não consegue ir para um falso self. De um lado a violência precoce e de outro a sensibilidade apurada, alguém funcionando em carne viva.
O manifesto é à maneira de se posturar, colocando pouca tonicidade muscular, o psicomotor; o latente é a violência a qual foi submetida. Olga lesa o corpo como maneira de indicar uma psicose. O trabalho psicomotor foi à recomposição do caminho que não pode ter. Agora, na psicanálise, é a possibilidade de sair do registro corporal e ir para a linguagem. O corpo poderá ser colocado através do que percebe do corpo.
Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

Comentários desativados em Entre a Psicomotricidade e a Psicanálise

Arquivado em Artigos - Psicanálise, Artigos - Psicomotricidade

Histeria de Angústia

I – INTRODUÇÃO: HISTERIA, QUAL O CAMINHO A SEGUIR?

As leituras dos textos de Freud sempre me trouxeram um encantamento. O modo de escrever, o ir e vir na busca de uma melhor idéia que definisse o conceito que estava querendo construir, a ligação com a clínica, ou melhor, a partir da clínica; principalmente, depois que iniciei o curso Formação em Psicanálise e comecei o atendimento à pacientes com o método psicanalítico. Coincidência ou não, fui identificando pacientes de acordo com o que estava estudando, ou será que a partir do aprofundamento em que me encontrava conseguia redimensionar a minha visão e a minha escuta?
Notar como Freud ia desenvolvendo a teoria e construindo os conceitos a partir do que observava na clínica, trazia para mim um enlevo de descoberta da genialidade de uma visão e uma escuta acurada. Peter Gay, no seu livro, ‘Freud Uma Vida Para o Nosso Tempo’ (1989), cita Freud: “Quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, convence-se de que os mortais não conseguem guardar segredos. Se os lábios estão mudos, eles tagarelam com as pontas dos dedos; a traição força seu caminho por todos os poros” (pág. 17). Eu traduziria esta frase da seguinte maneira: “Quem não é cego e nem surdo, pode perceber o que se desenrola embaixo do seu nariz.”
Lógico que a minha visão e a minha escuta necessitam ainda de muito desenvolvimento, mas os fenômenos foram acontecendo e eu pude fazer ligações com o que estava estudando e até escrever a respeito deles.
Outra qualidade de Freud foi fazer a sua auto-análise através do que ia percebendo nos outros e reconhecendo em si mesmo, sem medo de se expor e do que poderiam pensar a seu respeito, postura que acho muito difícil de articular. Digo isso porque entre escolher fazer o trabalho sobre histeria ou histeria de angústia, escolhi o segundo por estar neste momento atendendo a um caso com estas características.
Histeria de angústia foi o nome dado por Freud, a um tipo diferente de histeria, que também reprime, porém no lugar de fazer uma conversão, desloca para outro objeto o afeto, causando uma fobia, transformando o afeto em ansiedade, angústia. Neste primeiro momento, até 1926, é a angústia que causa a repressão.
Se pararmos para pensar na semântica da palavra ansiedade, verificamos que ela vem de ‘anseio’, desejar algo, ou alguém. A aflição de se separar do objeto, de ficar sem ele. A ansiedade é uma reação a uma situação de perigo. Criam-se sintomas a fim de evitar uma situação de perigo cuja presença foi assinalada pela geração de ansiedade.
Através de uma análise de uma fobia em um menino de cinco anos, o pequeno Hans, Freud vai descobrir e desenvolver toda a sua teoria sobre a histeria de angústia, como em todo o seu trabalho, ele irá construir, reformular e retornar ao que ele havia dito inicialmente. No texto ‘Inibição, Sintoma e Ansiedade’ (1926), ele reformula, desenvolvendo uma segunda teoria de angústia. Freud se pergunta qual é o motivo da angústia? E responde que a causa da angústia é a repressão, sendo necessário que haja um perigo para que o ego reprima; um perigo vindo do exterior, a castração.
O caminho que escolhi para seguir será o de comparar a análise do caso Hans, com o caso de um menino de seis anos, a quem chamarei de Carlos (nome fictício), por associar com vários Carlos que conheço e que têm uma personalidade bem marcante.

II – HISTÓRICO: COMO SE VÊ UM CASO, QUANDO SE ESTUDA OUTRO.

Os pais de Carlos vieram até o meu consultório por indicação da escola. A mãe estava com 46 anos, dona de casa, e o pai com 50 anos, arquiteto. Carlos nasceu depois de 14 anos de casados, tendo sido realizada uma inseminação, numa reprodução assistida. O parto foi cesárea e a mãe teve depressão puerperal durante seis meses. Contrataram uma babá, ficando a mãe sempre por perto, porque tinha medo de não dar conta do bebê.
Do sexto ao décimo segundo mês, por recomendação do pediatra, a mãe colocava–o para dormir sobre o seu corpo, para que pudessem ter um contato maior de pele, já que não tinha sido gerado de maneira convencional e porque a mãe não o tinha segurado suficientemente em razão de sua depressão.
Até os três anos dormia em seu quarto; quando se mudaram para o interior de Minas Gerais, em busca de qualidade de vida, o pai não os acompanhou, visitando-os nos finais de semana e feriados, em função do seu trabalho. A mãe ficava muito insegura de dormir sozinha à noite e trancava-se com o filho no mesmo quarto. Mesmo quando o pai estava presente, dormiam os três juntos, pois o menino podia se ressentir de ser excluído em razão da presença do pai.
Carlos começou a ficar muito inquieto e a apresentar comportamentos inadequados: pegava uma faca e fingia que iria se matar tentou pular da janela da escola, que ficava no terceiro andar e desenvolveu fobia por cães. Os pais tentaram caras, atenção, palmadas e castigo, como contensão. O que deu mais certo e, funciona ainda hoje, é o castigo.
A hipótese levantada pela escola era de hiperatividade. Porém a mãe questionava, porque Carlos conseguia assistir a filmes inteiros e quando se interessava por um brinquedo ou brincadeira, ficava entretido por um longo período. A própria criança começou a pedir para ir numa psicóloga.
Esse histórico chamou-me a atenção em alguns pontos:
 a ansiedade excessiva dessa criança;
 a fobia a cães;
 a questão deste casal.

Quando iniciei o estudo do caso do pequeno Hans, algumas conexões foram se realizando e mais uma vez, por coincidência ou não, tinha um caso na clínica que condizia com a teoria que estava estudando, ou será que a teoria é que correspondia ao caso clínico?
Também em Hans, há alguns aspectos que saltam aos nossos olhos:
 uma criança muito vivaz e muito libidinizada, entregue a si mesmo;
 a questão dos pais;
 a fobia a cavalos.

Quando vi Carlos pela primeira vez fiquei muito impressionada com o nível de ansiedade presente e com a dificuldade em estabelecer contato, ficando entre o querer se mostrar, se aproximar e o medo de fazê-lo e ser rechaçado. Chegou perguntando se no consultório havia cachorro e, enquanto ficou na sala de espera aguardando o horário da sessão, assobiou, fez batucada na parede. No momento em que fui buscá-lo se esquivou, correndo para perto da mãe. Perguntei-lhe se sabia o meu nome e ele disse: “Berenice Hepatite.” Mas não veio comigo para a sala, solicitando a mãe que o acompanhasse. Quando conseguiu entrar se mostrou muito arredio, não se interessando por nenhum brinquedo ou brincadeira proposta.
No final das sessões de observação fiquei sem saber se concordava com a hipótese da escola e indicava um neurologista para medicar, ou se toda essa atuação que apresentava era fruto de uma angústia muito intensa? Acabei optando por indicar um trabalho emocional e apostar na segunda hipótese.
Quando estamos atendendo um caso e temos dúvida do diagnóstico, ficamos aliviados ao encontrar na teoria outro parecido que venha em nosso socorro, ajudando a elucidar alguns aspectos. Foi assim que fui me sentindo ao ler os textos indicados pelo professor Esio dos Reis Filho, na primeira parte do seu seminário, sobre Histeria de Angústia.
O estudo do caso de Hans foi me trazendo tranqüilidade e me amparando na confirmação da minha hipótese, já que haviam vários pontos em comum.

III – CARLOS OU HANS/HANS OU CARLOS:

Vou iniciar esta comparação pela questão que mais me chamou a atenção e pela qual Freud não se ateve: ‘os pais’. Quem eram os pais? Como era a vida deles e o casamento? Qual a função desse filho na vida do casal?
Antes do nascimento da criança, os pais desenvolvem uma grande atividade imaginária. A imagem que cada um dos pais tem de si mesmo, a perspectiva educativa que concebeu – anterior até mesmo a qualquer encontro, casamento, ou idéia de um casal constituído – predeterminam sua relação ulterior com a criança. Cada um dos pais, portanto, vive separadamente, muitas vezes, à sua própria revelia, o porvir de sua descendência.
A espera de um filho é momento crucial na vida do casal e, em muitos aspectos, um momento essencial para o futuro desta criança. Colore, de fato, todos os desejos, propaga-se, irradia-se, ao mesmo tempo em que, pela primeira vez, coloca os pais frente a dimensões temporais e às conseqüências de sua relação.
Se por um lado à criança se insere em uma expectativa, a expectativa do filho se instala muitas vezes como um desafio. É um desafio ao tempo, um desafio à morte, perpetuação tão esperada. Para o adulto, trata-se principalmente de vencer o efêmero. Portanto, as pessoas ‘fazem’ um filho tanto para si mesmo, quanto por ele próprio. Em vários aspectos, apesar de desejar conscientemente que o filho se realize, os pais pedem-lhe que realizem a eles, pais; encarregam-no, muitas vezes até de projetos pessoais abortados. É por essa razão que observamos com freqüência, nos comportamentos educativos dos pais, aspectos desconcertantes, ambíguos e até contraditórios.
Max Graf era um dos integrantes do grupo de estudo de Freud. Em 1903, nasce seu filho, Herbert Graf. Em 1905, Freud escreve os ‘Três Ensaios Sobre A Teoria da Sexualidade’, escandalizando a sociedade vienense. Ele precisava provar que a sua teoria não era mera fixão científica. Assim, Max passa a observar o seu filho, escrevendo para Freud o que ia observando no comportamento do menino que comprovava a teoria escrita pelo seu professor e mestre. Ele agrega ao papel de pai o de observador e, de cientista, que tolera todas as pequenas perversões do filho em nome da ciência. A criança acaba ficando entregue a sua própria mercê. De um lado havia uma mãe muito sedutora que ‘mimava’ (fazer carinhos) a seu filho e, de outro um pai que não exercia a função de interditar esta ligação libidinosa entre mãe e filho para poder comprovar a teoria da sexualidade infantil de que toda criança é um perverso polimorfo.
O pequeno Hans é a perspectiva do pai de salvar o mestre e para a mãe a de completude, o falo que lhe foi negado pelo nascimento e adquirido, simbolicamente, através do filho. Porém, como foi dito anteriormente, há contradições no comportamento dos pais. A própria mãe que tanto o desejava como representante de uma falta, é quem introduz a castração quando o flagra se masturbando e lhe diz que ele poderia ficar sem o seu pipi. O pai que não exerce a função educativa paterna, mas que fica preocupado quando o filho passa a não querer mais sair de casa e apresentar medo por cavalos.
Já no caso de Carlos, há um casal que espera por um filho por quatorze anos, lançam mão de recursos não convencionais e quando a criança nasce a mãe entra em depressão, com medo de não dar conta do filho que tanto queria. O pai, de origem japonesa, vem de uma cultura onde a educação da criança fica sempre por conta da mãe, se posturando apenas como provedor. Acata todas as decisões da esposa, deixando que a família se mude para o interior sem que ele possa acompanhá-los. Não interfere quando a mãe resolve se trancar no quarto com o filho, mesmo quando ele está presente nos finais de semana. Começa a se preocupar somente quando o filho apresenta comportamentos inadequados de querer se matar, e a apresentar fobia por cães, tamanha a sua angústia.
Em seu livro, ‘Infertilidade e Reprodução Assistida’, Marina Ribeiro (2004), nos fala sobre o desejo narcísico de ter um filho: “Afinal, por que é importante gerar um filho? Por que é tão dramático quando um casal se vê impossibilitado de realizar esse desejo? A situação da infertilidade parece promover ou reativar uma profunda ferida narcísica nos casais, revelada por intensos sentimentos de inferioridade diante dos outros, de vergonha e baixa auto-estima.” (pág. 56)
O desejo de um filho, no período fálico feminino, é de que a mãe dê um filho para a menininha e de que esta também possa dar um filho para a mãe. O desejo que mobiliza a menina a voltar-se para o pai, é o de possuir o pênis que foi negado pela mãe. O desejo pelo pênis deve ser substituído pelo desejo por um bebê. Há uma primitiva equivalência simbólica pênis-bebê. Poderíamos dizer que, para Freud, o desejo da mulher de ter um filho é um tipo de compensação pelo fato de não possuir um pênis.
Se não ter um filho gera uma falta, tê-lo significa preenchê-la? Então porque este casal, com a falta preenchida, não consegue contê-lo? Será que a espera foi tão longa que Carlos não pode dar conta de todas as expectativas desses pais? Ou o narcisismo deles é tão grande que o filho não pode preenchê-los?
Tanto Hans como Carlos ficam a mercê de uma experiência científica com a qual não sabem lidar. Hans e Carlos ficam sem a função paterna, sem a interdição do incesto, criando uma angústia avassaladora. As mães dos meninos investem toda a libido nos falos que as complementam, os filhos, mas depois caem na própria armadilha, de não saberem como lidar com as angústias dos mesmos.
Outra questão é a ansiedade excessiva apresentada por essas duas crianças. De onde vem toda essa ansiedade? Freud vai dizer que a angústia tem a ver com a sexualidade. O mecanismo da neurose de angústia deve ser buscado numa deflexão da excitação sexual somática da esfera psíquica e no conseqüente emprego anormal dessa excitação.
A neurose de angústia é produto de todos os fatores que impedem a excitação sexual somática de ser psiquicamente elaborada. As manifestações da neurose de angústia aparecem quando a excitação somática que foi desviada da psique é subcorticalmente despendida em reações totalmente inadequadas.
A psique é invadida pelo afeto de angústia quando se sente incapaz de lidar com uma tarefa (um perigo) vinda de fora; e fica presa de uma neurose de angústia quando se percebe incapaz de equilibrar a excitação sexual vinda de dentro, ela se comporta como se estivesse projetando tal excitação para fora. O afeto e a neurose a ele correspondente estão firmemente inter-relacionados. O primeiro é uma reação a uma excitação exógena, e a segunda, uma reação à excitação endógena análoga. O afeto é um estado que passa rapidamente, enquanto a neurose é um estado crônico, porque, enquanto a excitação exógena age num único impacto, a excitação endógena atua como uma força constante.
Hans e Carlos ficam presos numa teia de excitação que não sabem como se desvencilhar. De fora toda a euforia de ter um objeto de amor só para eles, de mães que os levam para a cama no intuito de protegê-los e ‘mimá-los’. De dentro todo um desejo e uma excitação sexual que acompanha este ficar junto e com o qual não sabem lidar.
Uma histeria de angústia tende a desenvolver-se mais e mais para uma fobia (terceiro aspecto que me chamou a atenção). Nada lhe resta, a não ser cortar o acesso a todo possível motivo que possa levar ao desenvolvimento da ansiedade, erigindo barreiras mentais de natureza de precauções, inibições ou proibições; e são essas estruturas protetoras que aparecem sob a forma de fobias e que constituem a essência da doença.
Tanto Carlos como Hans se vêem numa trilha de mão única, ter quer cortar todo acesso possível que possa gerar ansiedade; já que não existe a castração vinda de fora, colocada pelos pais, têm que fazer um deslocamento para outro objeto que contenha a possibilidade de realização de seus desejos. Hans desloca para o cavalo com medo que o morda e arranque o seu pipi e, Carlos desloca para cães.
A reação ao perigo é uma mistura de afeto e ansiedade e de ação defensiva; causando um estado de preparação para o perigo, havendo um aumento da atenção sensória e da tensão motora. Este estado de preparação termina na geração de ansiedade. Uma pessoa se protege do medo por meio da ansiedade. O que reúne a combinação descrita acima, é a repetição de alguma experiência significativa determinada; sensações desprazíveis, perigo mortal, repetida como estado de ansiedade.
Se a angústia está sempre vinculada à repressão da sexualidade, Freud introduz o Complexo da Castração como fator que desencadearia o estabelecimento das diferenças sexuais (ausência ou presença do pênis); o menino evocaria e temeria a castração como a realização da ameaça paterna em resposta às suas atitudes sexuais; enquanto a menina se ressentiria da ausência do pênis como um dano sofrido que seria preciso negar, compensar ou reparar.
Sob a primazia do Complexo da Castração, operam-se reorganizações profundas na criança. Permitem, em particular, precisar as identificações maternas e paternas e organizar de outra forma às trocas individuais; mas para que essas novas leis de circulação das trocas possam estabelecer-se convenientemente, para que todas essas operações sejam realmente organizadoras, para que dêem à personalidade uma maior coerência e unidade, é preciso ainda que o indivíduo integre sua sexualidade e adquira de alguma maneira, o sentido de seu sexo. Melhor dizendo, é preciso que ele consiga vencer o Complexo de Castração e que não reviva, sem cessar, a angústia da perda.
Carlos e Hans revivem sem cessar a angústia de perda, a perda do objeto amado, que lhes foi retirado subitamente, não por uma interdição paterna, mas por circunstâncias da vida. Hans, com o nascimento da irmã, é retirado do quarto dos pais de maneira repentina; e Carlos, com o retorno para São Paulo, também é retirado do quarto dos pais.
Tanto Hans, como Carlos estavam respondendo às atitudes fálicas de suas mães e a uma aceitação passiva de seus pais em relação às esposas. Os pais eram quem tinham os pênis, porém eram pais desvalorizados pelas mães.
A criança fóbica busca um objeto externo para tentar resolver seus conflitos. Diante da problemática conflitiva edípica, o problema em questão é aceitar a impossibilidade de realizar seu desejo e de afrontar sua raiva, seu ciúme, sua rivalidade e acima de tudo, seu sentimento de ser incapaz.
O filho edípico é tanto um filho com o genitor do sexo oposto quanto um filho com o genitor do mesmo sexo. A bissexualidade é responsável pelo conflito edipiano dar-se tanto em sua forma positiva quanto em sua forma negativa, e pela ambivalência nas relações com os pais. Freud no seu texto ‘O Ego e o Id’ (1923), escreve: “Um estudo mais aprofundado geralmente revela o Complexo de Édipo mais completo, o qual é dúplice, positivo e negativo, e devido à bissexualidade originalmente presente na criança. Isto equivale a dizer que um menino não tem simplesmente uma atitude ambivalente para com o pai e uma escolha objetal afetuosa pela mãe, mas que, ao mesmo tempo, também se comporta como uma menina e apresenta uma atitude afetuosa feminina para com o pai e um ciúme e uma hostilidade correspondente em relação à mãe. É este elemento complicador introduzido pela bissexualidade (…). Pode mesmo acontecer que a ambivalência demonstrada nas relações com os pais deva ser atribuída inteiramente à bissexualidade”.(pág. 47)
Talvez por isso, por esse amor ao pai e hostilidade em relação à mãe, Carlos e Hans precisaram deslocar o medo para animais, preservando o objeto bom internalizado, sendo o superego que não lhes permitem se sentirem castrados pelos pais, pois um pai tão amoroso não pode ser odiado por ficar com o objeto que tanto queriam para eles, a mãe.

IV – CONCLUSÃO, DOIS GAROTOS ANGUSTIADOS E FÓBICOS:

A fobia de Hans pelo cavalo e a de Carlos por cães, simbolizam bem os conflitos enfrentados por duas crianças que temem animais que podem mordê-los, mas que ao mesmo são admirados e, por seus sentimentos agressivos contra os mesmos, podem castrá-los.
Freud em “Totem e Tabu” (1913), escreve que as fobias de crianças do sexo masculino em relações à animais eram, no fundo, medo do pai, que havia sido deslocado para cavalos, cães e outros. Ao lado do caso do pequeno Hans, cita outros, como o apresentado pelo Dr. Wulf, em que o medo que o menino sentia contra cães, era o medo do pai deslocado para estes animais e ligado a proibição de se masturbar.
Mas Freud não está falando apenas do pai de Hans e de outros casos aleatórios. O pai de Totem e Tabu é o pai imaginário, o pai onipotente da horda primitiva que possui todas as mulheres, castra seus filhos e que morto, dá origem à lei. A figura paterna passa a ser um elemento central da constituição do psiquismo humano. Porque ao interditar a mãe e mostrar à criança a existência de regras e normas para convivência entre as pessoas, ele a introduz na sociedade dos seres humanos. A criança deixa de ser um apêndice do corpo materno para tornar-se um indivíduo social, capaz de conviver com outros indivíduos sociais. Deixa de ser ‘falo’ para transformar-se em gente.
Mas o Complexo de Édipo em ‘Totem e Tabu’ também é visto como aquilo que dá origem à civilização. No antepassado mítico do clã repousa a lei. A refeição totêmica, que estava de alguma forma rememorando o assassinato do pai violento, tirânico, é o ponto de partida da organização das sociedades e de toda a sua produção posterior. O animal totêmico, portanto, estaria substituindo o pai morto – a refeição totêmica serviria igualmente para reafirmar os compromissos firmados entre os irmãos assassinos – para a sua própria segurança e continuidade cada qual renuncia uma parte de sua liberdade de exercer violentamente a força para que seja possível uma vida em comum. Em ‘Totem e Tabu’, Freud ancora o Complexo de Édipo não apenas nas fantasias dos neuróticos, mas no ponto de origem da civilização, propondo assim também a universalidade do Complexo de Édipo.
Esta aí posta toda a angústia e o conflito dos meninos. Como podem se sentir seguros se o pai internalizado não é um pai tirânico que estabelece a lei? Pelo contrário, é um pai passivo, companheiro, a quem só podem dedicar amor, não há lugar para o ódio. Não há outra saída a não ser deslocar o seu medo para o animal totêmico, o cavalo ou o cão, dependendo da representação que ocupam dentro do imaginário de cada um. A angústia surge toda vez que buscam segurança no superego e não encontram a lei estabelecida, a lei está fora, não foi internalizada.
Quanto sofrimento e quanta energia despendida desnecessariamente, pois a angústia vem a todo o momento em que um perigo externo assinala uma tensão motora, uma excitação vinda de dentro junta-se numa combinação que determina uma ansiedade constante. Por isso o meu espanto diante da ansiedade exacerbada de Carlos, do seu querer se aproximar e antecipar um rechaço, pois a lei não foi instaurada e ele não sabe como se comportar socialmente, ainda se encontra como um apêndice da mãe.
Estudar a histeria de angústia, através do caso do pequeno Hans, ajudou-me a entender melhor o que se passa com Carlos e a acolhê-lo com maior facilidade, compreendendo todo o seu sofrimento e a sua angústia, em transferência, causada por pais que não sabem como lidar com uma criança muito querida e desejada, mas que talvez não preencha as expectativas desses pais.

Por: Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

Comentários desativados em Histeria de Angústia

Arquivado em Artigos - Psicanálise

Dostoievski – A Análise da Personalidade de Um Escritor Famoso, Enfocando o Complexo de Édipo numa Vertente Freudiana – segunda e última parte.

No livro de Dominique Arban, citado acima, na página 32,…Provavelmente Fiodor conhecia bem, naquela época, certa frase terrível de Hoffmann (um de seus escritores preferidos) sobre um de seus personagens, “culpado de ter desejado matar…”. Na mesma página, falando sobre um trecho do livro “Os Irmãos Karamassovi”…no tribunal em que Dimitri é julgado – Dimitri, que não matou o pai, mas que quis matá-lo – ele exclama de repente, do fundo do banco dos réus: “De cão, uma morte de cão!” Ora, são essas palavras exatas que disse a irmã de Fiodor, ao saber do assassinato de seu pai.

As primeiras crises tinham a significação de morte, uma identificação com uma pessoa morta, seja com alguém que está realmente morto ou com alguém que está vivo e que o indivíduo deseja que morra. A crise possui o valor de punição. Quisemos que outra pessoa morresse; agora somos nós essa outra pessoa e estamos mortos. A teoria psicanalítica introduz a afirmação de que para um menino, essa outra pessoa geralmente é o pai e de que a criança constitui uma autopunição por um desejo de morte contra um pai odiado.

O parricídio, de acordo com uma conceituação bem conhecida, é o crime principal e primevo da humanidade, assim como do indivíduo. – No livro de Roy Lewis, no último capítulo, ele conta como um dos filhos da horda planeja matar o pai, porque ele vinha se tornando uma ameaça à tribo, já que dividia com as outras tribos todas as invenções e descobertas que faziam. “ –Eu sei – interrompi – Sei muito bem que ele é um velho. E que não tem muito tempo de vida, de qualquer maneira. Já deveria ter se aposentado há muito, mas vocês o conhecem bem. Creio Oswald, que será melhor assim. Ele estará melhor nos felizes campos de caça do outro mundo. Ele que brinque de arco e flecha por lá! Levarão um grande susto, calculo. Mas ele não vai perder nada, a não ser os anos que lhe restaram no mundo sem sonhos. As varizes o incomodam demais, como sabem. – Conheço suas teorias – Oswald disse lentamente. Não morremos. Passamos para outro mundo. Isso ajuda bastante… no caso de um dever tão doloroso. Não gosto, mas creio que tem razão. Precisamos proteger o público.” -É a fonte principal do sentimento de culpa. O relacionamento de um menino com o pai é ambivalente. Além do ódio, procurando livrar-se do pai como rival, certa medida de ternura por ele também está presente. As duas atitudes mentais se combinam para produzir a identificação com o pai; o menino deseja estar no lugar do pai porque o admira e quer ser como ele, e também deseja colocá-lo fora do caminho. Todo esse desenvolvimento se defronta com um poderoso obstáculo, compreender que a tentativa de afastar o pai como rival seria punida por ele com a castração. Pelo temor à castração, no interesse de preservar sua masculinidade, abandona seu desejo de possuir a mãe e livrar-se do pai. Na medida em que esse desejo permanece no inconsciente, constitui a base do sentimento de culpa.

O que torna inaceitável o ódio pelo pai é o temor a este; a castração é terrível, seja como punição ou como preço do amor. Dos dois fatores que reprimem o ódio pelo pai, o primeiro, o medo direto da punição e da castração pode ser chamado de anormal; sua intensificação patogênica só parece surgir com o acréscimo do segundo fator, o temor à atitude feminina. Uma forte disposição bissexual inata se torna uma das pré-condições ou reforços da neurose.

A identificação com o pai finalmente constrói um lugar permanente para si mesmo no ego. É recebida dentro deste, mas lá se estabelece como um agente separado, em contraste com o restante do conteúdo do ego, o superego, herdeiro da influência parental, tomando para si as funções mais importantes do pai. “Ficou faltando alguma coisa quando Papai não se ergueu para fazer um discurso ao final do banquete. Mas tenho certeza de que ele gostaria que eu dissesse algumas palavras, e foi o que fiz. Sobre nosso dever de nos tornarmos verdadeiramente humanos, sobre o exemplo que ele deu a todos e a necessidade de se meditar sobre o progresso. Eu o sentia dentro de mim. Modelando as frases e sugerindo conclusões. Ao sentar, muito aplaudido, vi que Mamãe, coitada, estava banhada em lágrimas. “Você falou exatamente como seu falecido pai, pobrezinho”, ela disse. “Só espero que você tome um pouco mais de cuidado, no entanto.” (Fala do filho que planejou a morte do pai da horda, no banquete em que almoçaram o pai. – Livro de Roy Lewis). Ele tomou para si a função que o pai mais gostava que era o de discursar e falar sobre a evolução humana, sendo aplaudido pela horda e advertido pela mãe que poderia acontecer a mesma coisa com ele num futuro próximo. Assim como Dostoievski gostava de visitar os doentes do hospital em que o pai trabalhava e conversar com eles, intensificando esta atitude mais ainda depois da morte do pai, chegando até a ficar sem dinheiro, porque doava para os enfermos que estavam numa situação econômica precária.

Se o pai foi duro, violento e cruel, o superego assume dele esses atributos, nas relações entre o ego e ele, a passividade que se imaginava ter sido reprimida é restabelecida. O superego se tornou sádico e o ego se torna masoquista, passivo, de uma maneira feminina. Uma grande necessidade de punição se desenvolve no ego, que em parte se oferece como vítima ao destino e em parte encontra satisfação nos maus tratos que lhe são dados pelo superego (sentimento de culpa), pois toda punição é uma castração, realização da antiga atitude para com o pai. Mesmo o destino, em última instância, não passa de uma projeção tardia do pai. “Foi Apolo, foi Apolo, meus amigos quem me infligiu estas desgraças, todas estas desgraças; mas ninguém me feriu, a não ser eu. Que me importava ver, se nada me era agradável à vista?” (fala de Édipo – Édipo Rei,de Sófocles).

Importância maior, como fator acidental, que o pai, que é temido em qualquer circunstância, seja também especialmente violento na realidade. Segundo os biógrafos de Dostoievski, o pai dele era mito severo, um déspota e vinha de uma família de marechais, juízes, assassinos, dignitários da Igreja, bandidos e plenipotenciários de príncipes; assim também deveria ter um superego comprometido.

A fórmula para Dostoievski é: disposição bissexual inata especialmente intensa, que pode defender-se com intensidade especial contra a dependência de um pai especialmente severo. Seus sintomas precoces de crises semelhantes à morte podem ser compreendidos como uma identificação paterna por parte de seu ego, a qual é permitida pelo superego como punição. “Você queria matar seu pai, a fim de ser você mesmo o pai. Agora, você é seu pai, mas um pai morto. Agora, seu pai está matando você”. E, em seus cadernos, ele afirma: “O pai sou eu – o esposo”. (livro de Dominique Arban, página 36, referindo-se aos rascunhos que Dostoievski escrevia, em 1878). “…Passando em minha casa vários dias seguidos, pedia todas as noites, ao se deitar, que não tivéssemos pressa de enterrá-lo, se morresse durante o sono: temia horrivelmente cair em letargia e me descrevia todo o horror de acordar enterrado”. (idem ao livro citado acima, página 38, o escritor referia-se as suas crises de catalepsia, quando hospedado na casa de um amigo em São Petersburgo). Para o ego, o sintoma da morte constitui uma satisfação, em fantasia, do desejo masculino, uma satisfação masoquista ao mesmo tempo; para o superego, trata-se de uma satisfação punitiva, satisfação sádica. Ambos, o ego e o superego levam avante o papel de pai.

Durante a crise epiléptica, um momento de felicidade suprema é experimentado. Pode bem ser um registro do triunfo e do sentimento de liberação experimentada ao escutar as notícias de morte, seguidas imediatamente por uma punição mais cruel. Imaginamos essa seqüência de triunfo e de pesar, de alegria festiva e de luto, nos irmãos da horda primeva que mataram o pai, e encontramo-la repetida na cerimônia da refeição totêmica. “… E aquele foi o fim de Papai em carne e osso, meu filho, um final que ele teria desejado para si – ser abatido por uma arma realmente moderna e ser comido de modo civilizado. Assim garantiu sua sobrevivência, de corpo e sombra. Ele vive dentro de nós, enquanto sua sombra faz carne moída dos elefantes na terra dos sonhos, nos campos de caça do outro mundo… mas, não devemos nos esquecer de sua fé inabalável no futuro e devemos sempre recordar que, em sua partida, ele ajudou a dar a forma às instituições sociais básicas, como o parricídio e a patrifagia, que garantem a continuação tanto da comunidade quanto do indivíduo”. (Livro de Roy Lewis, fala do filho depois da morte e banquete dos restos mortais do pai).

A necessidade de punição por parte da economia mental de Dostoievski explica o fato de ter passado inabalado pelos anos de tormento e humilhação. Quando é exilado na Sibéria, condenado por pertencer a um grupo revolucionário, que queria derrubar o Czar, a sua condenação foi injusta, aceitou o imerecido castigo das mãos do “Paizinho”, do Czar, como um substituto da punição que merecia por seu pecado contra o pai real. Conseguiu fazer-se punir pelo representante paterno. Grandes grupos criminosos desejam ser punidos. O superego deles exige isso; assim se poupam a si mesmos de se infligirem o castigo. Dostoievski nunca se libertou dos sentimentos de culpa oriundos de sua intenção de matar seu pai. Esses sentimentos também determinaram sua atitude nas duas outras esferas em que a relação paterna constitui o fator decisivo, ou seja, sua atitude para com a autoridade do Estado e para com a crença em Deus.

A simpatia de Dostoievski pelo criminoso é ilimitada; vai muito além da piedade a que o infeliz tem direito de nos lembrar do “temor sagrado” com que os epiléticos e os lunáticos eram encarados no passado. Não há mais a necessidade de que alguém mate, visto que ele já matou e há que lhe ser grato; identificação com base em impulsos assassinos semelhantes. Ele tratou primeiramente do criminoso comum (motivos egoístas) e do criminoso político e religioso, ao fim de sua vida retornou ao criminoso primevo, ao parricida, e utilizou-o, numa obra de arte, para efetuar sua confissão: “Os Irmãos Karamassovi”.

Fico me perguntando que necessidade o teria de se retirar do convívio familiar, que na época estava estável, para se enclausurar num mosteiro e escrever um romance que seria considerado sua confissão declarada de ter querido assassinar o seu pai?  Encontrei resposta no texto “Criminosos Em Conseqüência De Um Sentimento De Culpa”, Vol. XIV, página 376, onde Freud irá esclarecer: “O resultado invariável do trabalho analítico era demonstrar que esse obscuro sentimento de culpa provinha do complexo de Édipo e constituía uma reação às duas grandes intenções criminosas de matar o pai e ter relações sexuais com a mãe. Em comparação com esses dois, os crimes perpetrados com o propósito de fixar o sentimento de culpa em alguma coisa vinham como um alívio para os sofredores. Nesse sentido, devemos lembrar que o parricídio e o incesto com a mãe são os dois grandes crimes humanos, os únicos que, como tais, são perseguidos e execrados nas comunidades primitivas. Também devemos lembrar como outras investigações nos aproximaram da hipótese segundo a qual a consciência da humanidade, que agora aparece como uma força mental herdada foi adquirida em relação ao Complexo de Édipo”. Assim, Dostoievski não descansaria enquanto não fosse julgado e declarado culpado por todos aqueles que pudessem ler o seu romance, isto é, por toda uma comunidade.

O jogo era também um método de autopunição. Ele sempre permanecia nas mesas de jogo até haver perdido tudo e achar-se totalmente arruinado. “Só quando o prejuízo era completo é que o demônio por fim se retirava de sua alma e abria caminho para o gênio criador”. (Fülop-Miller e Eckstein, 1925). O vício da masturbação é substituído pela inclinação ao jogo – Freud sugere numa carta a Fliess, 22/12/1897, que a masturbação constitui a “inclinação primária”, da qual todas as adições são substitutas (carta 79).

Se a inclinação ao jogo, com as lutas mal sucedidas para romper o hábito e com as oportunidades que proporciona para autopunição, constitui uma repetição da compulsão a se masturbar, não nos surpreendemos em descobrir que ela tenha ocupado um espaço tão grande na vida de Dostoievski.

Em 1840, ainda muito jovem com apenas 20 anos, ele escreve ao seu irmão Mikhail: “Vamos, meu irmão, creio que jamais minha glória atingirá o apogeu de agora. Por toda parte uma grande estima, uma curiosidade terrível a meu respeito. Travei conhecimento com uma multidão de pessoas das mais corretas. O príncipe Odoevski pediu-me a honra de minha visita, e o conde Sologub arranca os cabelos de desespero. Panaev lhe disse que existe um talento que os colocará mais abaixo do que a terra. Sologub correu por todos os lados e, passando pela casa de Kraevski, perguntou-lhe à queima roupa: _ Quem é esse Dostoievski? Onde posso arranjar o Dostoievski? _ Kraevski, que não se deixa desconcertar por ninguém, responde-lhe: _Dostoievski não desejará dar-lhe a honra de alegrar-se com sua visita. – E é profundamente exato; esse pequeno aristocrata pretencioso acha que me vai aniquilar com a majestade de suas carícias. Todos me acolhem como uma maravilha. Mal abro a boca, logo repetem por todos os cantos que Dostoievski disse isto, que Dostoievski que fazer aquilo. Bielinski não poderia gostar mais de mim do que gosta.” (Livro de Dominique Arban, pág. 49). Lendo este trecho da carta perguntei-me, porque com tanto êxito tinha que se destruir através do jogo, através dos ataques epiléticos, das crises de catalepsias, deixar-se ser pego e punido, através do Czar, por um crime que não havia cometido? Novamente, Freud vem em meu socorro em seu artigo “Os Arruinados Pelo Êxito”, 1916, através de vários exemplos encontrados na literatura, vai nos dizer: “O trabalho psicanalítico nos ensina que as forças da consciência que induzem à doença, em conseqüência do êxito, em vez de, como normalmente, em conseqüência da frustração, se acham com o Complexo de Édipo, a relação com o pai e a mãe – como talvez, na realidade, se ache o nosso sentimento de culpa em geral.”

No grande romance de Fiodor, “Os Irmãos Karamassovi”, a situação edipiana se situa no ponto focal de interesse. O velho Karamassovi fez-se detestar pelos filhos através de uma opressão cruel; aos olhos de um deles é um poderoso rival quanto à mulher que deseja. Esse filho, Dimitri, não faz segredo de sua intenção de vingar-se do pai pela força. É natural que, depois do pai ter sido assassinado e roubado, ele seja acusado como seu homicida e condenado. Dimitri é inocente, foi outro quem cometeu o ato.

Observando a grande semelhança entre as personagens do romance e as da vida real do grande escritor russo, podemos concluir através de tudo que foi dito até aqui, que ele só conseguiu se redimir do grande conflito que o afligia, depois de se colocar diante dos olhos dos leitores, despido de sua armadura e deixar-se julgar e condenar por uma vez ter desejado a morte de seu pai e ter querido o amor de sua mãe para si. “Entregar o romance a uma revista e colocar-se sob o jugo não só do primeiro maitre d’hotel, mas também de todos os ajudantes e aprendizes de cozinha que têm seu covil nos ninhos de onde se propaga a cultura. Um ditador? Não, vinte”. (fala de Fiodor ao seu irmão Mikhail, quando teme entregar o seu primeiro romance a uma revista, nesta época os romances russos eram primeiro publicados em revistas – livro de Dominique Arban, pág. 43).

“O homem é grande, demasiado grande, eu o encolherei”. Dostoievski Nesta frase ele estava se referindo a si, ao seu pai, aos dois, ou a todos nós?

Referências Bibliográficas

 

Freud; S. – Carta 69 – Vol. I – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

 Freud; S. – Carta 71 – Vol. I – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – O Sonho da Morte de Pessoas Queridas – Vol. IV – 2ª. Edição – Imago Edita Ltda – RJ.

 Freud, S. – Sobre um Tipo Especial de Escolha de Objeto no Homem – Vol. XI  – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – Totem e Tabu – Vol. XIII – Caps. 1 e 4 –  2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – O Ego e o Id – Cap. 3 – Vol.XIX – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – Organização Genital Infantil – Vol. XIX – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – A Dissolução do Complexo de Édipo – Vol. XIX – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – Dostoievski e o Parricídio – Vol. XXI – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – Os Arruinados pelo Êxito – Vol XIV – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – Os Delinqüentes pelo Sentimento de Culpa – Vol. XIV – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Arban; D. – Dostoievski – Editora José Olympio – RJ – 1989

Lewis; R. – Por que Almocei Meu Pai – Cia. Das Letras – SP – 1994

Anotações do Seminário Teórico “Complexo de Édipo”, ministrado por Nora S. Miguelez – Instituto Sedes Sapientiae – Curso Formação em Psicanálise – 2003

Sófocles – Tragédia de Édipo Rei – Edições de Ouro – RJ.

 Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

Comentários desativados em Dostoievski – A Análise da Personalidade de Um Escritor Famoso, Enfocando o Complexo de Édipo numa Vertente Freudiana – segunda e última parte.

Arquivado em Artigos - Psicanálise