Introdução:
“Os Argonautas”
O barco, meu coração não agüenta tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta o dia, o marco, meu coração o porto, não
Navegar é preciso, viver não é preciso
Navegar é preciso, viver não é preciso
O barco, no teu tão bonito
Sorriso solto, perdido
Horizonte madrugada o riso, o arco da madrugada, o porto, nada
Navegar é preciso, viver não é preciso
Navegar é preciso, viver não é preciso
O barco o automóvel brilhante o trilho solto, o barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue, o charco, barulho lento o porto, silêncio
Navegar é preciso, viver não é preciso…
Como a própria música citada acima diz, lançar-se numa aventura náutica com todos os recursos disponíveis, toda a aparelhagem naval, ou não, só poderá levar-lhe para um porto seguro; mesmo que não se tenham as aparelhagens para navegar, mesmo que só tenhamos mapas para nos orientar, ainda assim, navegar é mais preciso que viver. Viver é uma aventura onde não há aparelhagem suficiente que lhe garanta chegar a porto nenhum. Há o desamparo, o não saber se daremos conta de organizar o nosso aparelho psíquico; a cada guinada, a cada solavanco, a cada onda mais alta, o navio pode naufragar, porém vamos seguindo, somos sobreviventes dentro dessa grande massa humana que chamamos de cultura, sociedade, vida.
Este foi um dos meus primeiros aprendizados quando iniciei o curso Formação em Psicanálise, em 2002. O professor Ede de Oliveira Silva, no seminário clínico, fez a citação desse mesmo trecho da música, para me fazer compreender metaforicamente, o caso de uma menina, Lúcia[1]. Caso que inclusive levou-me a querer buscar novos conhecimentos, novos parâmetros, novas rotas, chegando à psicanálise.
Quando vi Lúcia pela primeira vez, na época com oito anos e dez meses, observei que havia alguma coisa a mais, e não somente como dizia a escola, um atraso motor. Ela era diferente das outras crianças que eu já tinha atendido. Seu comportamento não seguia as normas do chamado “adequado”, ela dava risada por qualquer motivo, babava, não tinha o chamado freio inibitório[2] (não obedecia às regras sociais), interrogava qualquer pessoa que via e ficava sem saber o que fazer quando era ignorada, freqüentemente perseverando até obter o que desejava, não era por “birra”, algo que não passava pelo âmbito dos limites, era diferente disso, parecia ser a única maneira como havia aprendido a se relacionar (fora da fronteira entre o eu dela e o eu do outro). Também não estava atrelada à deficiência cognitiva, sabia ler e escrever, embora sua orientação espaço-temporal estivesse defasada, não conseguindo se organizar numa folha pautada e muitas vezes se negando a colocar a data nos trabalhos e quando o fazia era sempre além ou aquém da data corrente (uma maneira de cindir com a realidade externa, ficando preservada no seu mundo interno).
Naquele momento da minha vida profissional, psicopedagoga e psicomotricista, não sabia o que era um paciente psicótico; já havia ouvido falar em psicose, porém ainda não havia lido nada a respeito. Foi preciso buscar supervisão para fechar o diagnóstico e saber qual o percurso a ser feito.
A primeira aula do professor José Carlos Garcia, “Uma Introdução Sobre a Loucura” e em seguida ler o seu artigo publicado na revista Boletim, “Alguns Elementos Sobre a História da Loucura” [3], fez-me retroceder no tempo e reviver os mesmos sentimentos da ocasião em que estava tentado entender, tentando pesquisar, tentando achar um rumo, o que será que aquela menina tinha além do comprometimento motor? O seu último parágrafo veio me reconduzir à pesquisa de entender o que se passa com Lúcia:
“A abordagem psicanalítica das psicoses significou uma transformação da concepção de loucura como forma de anomalia cerebral para outra na qual a loucura é entendida como um desfecho especial na trajetória histórica de um determinado indivíduo. Ou seja, o foco primordial do enfoque psicanalítico para a doença mental é a preocupação de compreender como a mente humana chega a esta forma de funcionamento psíquico e de como seria possível intervir terapeuticamente nesta patologia.”
Deixar-me ser conduzida pela programação do seminário: função materna, função paterna, Complexo de Édipo e psicose, o caso Schreber, pulsão e representação na clínica da psicose, foi de fundamental importância para ir tendo os insights e fazer as associações necessárias para poder articular a teoria aprendida com o caso clínico.
Também assistir ao filme “A Fantástica Fábrica de Chocolate” , representou por meio da imagem, o que Schreber e Lúcia devem ter passado, vivendo à sombra do grande outro. O personagem Willy Wonka, criança ainda parece um monstro, com aparelhos dentários que o mantêm de boca aberta e com muita dificuldade de falar e de se alimentar, com a única finalidade de ficar com os molares perfeitos, submetendo-se ao despotismo paterno, deste pai que era dentista em Londres. A partir daí a história vai se desenrolando muito parecida com o caso Schreber e o de Lúcia. Lançarei mão de algumas imagens que ficaram impregnadas em minha mente e que podem contribuir como exemplos para esse meu trabalho.
Histórico Clínico:
Os pais de Lúcia, mãe com quarenta anos e pai com quarenta e dois anos (2001), funcionários públicos, professores doutores, tentaram uma gravidez durante oito anos. Não obtendo resultado positivo resolveram desistir e se voltaram para a carreira acadêmica que estava em andamento. A mãe conseguiu uma bolsa para o doutorado nos Estados Unidos e o marido a acompanhou, aproveitando para fazer cursos que complementariam a sua carreira. Nesta ocasião, já instalados naquele país, ficaram grávidos. A princípio, a mãe ficou muito irritada porque naquele momento seus planos eram outros. Depois de muito considerarem, resolveram pela gravidez e quando Lúcia nasceu, a avó e bisavó maternas foram morar junto com os pais para poderem cuidar da criança, já que os pais tinham que se dedicar aos estudos e pesquisas.
A mãe relatou que por volta de um ano e seis meses, após o nascimento da filha, começou a perceber as dificuldades motoras da criança: era toda mole, sentou e andou com atraso e não correspondia aos estímulos dados pelos pais. Quando retornaram ao Brasil, buscaram ajuda profissional neurológica; Lúcia foi encaminhada para fisioterapia, terapia ocupacional, natação e trabalho emocional.
Isto, na época, me fez pensar como teria evoluído a imagem corporal desta criança, já que Dolto (2002) fala da imagem de base que é um dos três aspectos dinâmicos da imagem do corpo.
“O primeiro componente da imagem do corpo é a imagem de base.. A imagem de base é o que permite à criança sentir-se uma ‘mesmice de ser’, ou seja, em uma continuidade narcísica ou em uma continuidade espaço-temporal que permanece e vai preenchendo desde o nascimento, apesar das mutações de sua vida e dos deslocamentos impostos a seu corpo e, a despeito das provas a que ele é levado a submeter-se. É assim que eu defino o narcisismo: como a mesmice de ser, conhecida e reconhecida, indo-devindo para cada um no espírito de seu sexo.” (p. 38)
Já Winnicott (1956) vai falar do ‘continuar a ser’, em seu texto “A Preocupação Materna Primária”:
“A base para o estabelecimento do ego é um suficiente ‘continuar a ser’ não interrompido por reações à intrusão. Esse ‘continuar a ser’ será suficiente apenas no caso da mãe encontrar-se nesse estado que (conforme sugeri) é muito real no período próximo ao fim da gravidez e durante as primeiras semanas após o nascimento do bebê”.(p.403)
Lúcia parece não ter tido esta ‘mesmice de ser’ ou o ‘continuar a ser’ dado pelos pais, pois na época de seu nascimento estavam voltados para a mesmice deles mesmos, empenhados em suas atividades acadêmicas. Talvez por isso essa dificuldade corporal e a necessidade de tantos profissionais empenhados na tarefa de estabelecer este primeiro componente da imagem corporal. Não teve a condição de suportar a angústia de aniquilamento de não ter sido cuidada por eles, principalmente pela mãe, que na ocasião parece não ter conseguido exercer a função materna, não conseguiu ‘adoecer’ para poder cuidar do seu bebê, delegando essa função para a sua mãe e para a sua avó. Segundo Winnicott (1956):
“A falha materna provoca fases de reação à intrusão e as reações interrompem o ‘continuar a ser’ do bebê. O excesso de reações não provoca frustração, mas uma ameaça de aniquilação; ansiedade muito primitiva, muito anterior a qualquer ansiedade que inclua a palavra ‘morte’ em sua descrição”.(p.403)
Aos seis anos, Lúcia estava estressada e seus pais também. Conversando com o neurologista resolveram parar com todos os atendimentos e colocaram-na numa escola próxima à residência em período integral. Ela repetiu o pré-primário e na primeira série, a escola me encaminhou com as seguintes queixas: hipotonia muscular, disgrafia (além de misturar letra cursiva com letra de forma), não produção de material gráfico em sala de aula, imaturidade e relacionamento apenas com adultos.
Foi proposta uma avaliação motora, na qual foram observadas as seguintes questões: tônus muscular muito relaxado (segundo o neurologista nada tinha de físico); verbalização com vocabulário bem desenvolvido, mas apresentando ecolalia, perseverando numa tentativa de controlar as situações, agindo impulsivamente, parecendo querer esconder a sua capacidade e ver-se livre do que a incomodava; memória ativa muito presente, lembrando-se de pormenores; na área perceptivo-motora apresentou imaturidade, ficando na mediana entre quatro e cinco anos; o perfil motor oscilou muito, demonstrando dificuldade de equilíbrio, de coordenação dinâmica global e de movimentos simultâneos; não conseguiu integrar as instruções com a realização dos movimentos, por demonstrar dificuldade de trabalhar o seu corpo que aparentava ser o grande depositário de suas dificuldades, não conseguindo fazer sintonização entre o ritmo dado e o interno. Havia também uma questão quanto a não suportar crianças pequenas, principalmente bebês.
Como uma criança que não teve a imagem de base pode evoluir e desenvolver o segundo aspecto dinâmico da imagem corporal que visa à realização de seu desejo, a imagem funcional?
“O que passa pela mediação de uma demanda localizada no esquema corporal em um lugar erógeno onde se faz sentir a falta específica, é o que provoca o desejo. É graças à imagem funcional que as pulsões de vida podem, após serem subjetivadas no desejo, tender a manifestar-se para alcançar prazer, objetivar-se na relação com o mundo e com o outro”. (Dolto, 2002, p. 43)