Dostoievski – A Análise da Personalidade de Um Escritor Famoso, Enfocando o Complexo de Édipo numa Vertente Freudiana – segunda e última parte.

No livro de Dominique Arban, citado acima, na página 32,…Provavelmente Fiodor conhecia bem, naquela época, certa frase terrível de Hoffmann (um de seus escritores preferidos) sobre um de seus personagens, “culpado de ter desejado matar…”. Na mesma página, falando sobre um trecho do livro “Os Irmãos Karamassovi”…no tribunal em que Dimitri é julgado – Dimitri, que não matou o pai, mas que quis matá-lo – ele exclama de repente, do fundo do banco dos réus: “De cão, uma morte de cão!” Ora, são essas palavras exatas que disse a irmã de Fiodor, ao saber do assassinato de seu pai.

As primeiras crises tinham a significação de morte, uma identificação com uma pessoa morta, seja com alguém que está realmente morto ou com alguém que está vivo e que o indivíduo deseja que morra. A crise possui o valor de punição. Quisemos que outra pessoa morresse; agora somos nós essa outra pessoa e estamos mortos. A teoria psicanalítica introduz a afirmação de que para um menino, essa outra pessoa geralmente é o pai e de que a criança constitui uma autopunição por um desejo de morte contra um pai odiado.

O parricídio, de acordo com uma conceituação bem conhecida, é o crime principal e primevo da humanidade, assim como do indivíduo. – No livro de Roy Lewis, no último capítulo, ele conta como um dos filhos da horda planeja matar o pai, porque ele vinha se tornando uma ameaça à tribo, já que dividia com as outras tribos todas as invenções e descobertas que faziam. “ –Eu sei – interrompi – Sei muito bem que ele é um velho. E que não tem muito tempo de vida, de qualquer maneira. Já deveria ter se aposentado há muito, mas vocês o conhecem bem. Creio Oswald, que será melhor assim. Ele estará melhor nos felizes campos de caça do outro mundo. Ele que brinque de arco e flecha por lá! Levarão um grande susto, calculo. Mas ele não vai perder nada, a não ser os anos que lhe restaram no mundo sem sonhos. As varizes o incomodam demais, como sabem. – Conheço suas teorias – Oswald disse lentamente. Não morremos. Passamos para outro mundo. Isso ajuda bastante… no caso de um dever tão doloroso. Não gosto, mas creio que tem razão. Precisamos proteger o público.” -É a fonte principal do sentimento de culpa. O relacionamento de um menino com o pai é ambivalente. Além do ódio, procurando livrar-se do pai como rival, certa medida de ternura por ele também está presente. As duas atitudes mentais se combinam para produzir a identificação com o pai; o menino deseja estar no lugar do pai porque o admira e quer ser como ele, e também deseja colocá-lo fora do caminho. Todo esse desenvolvimento se defronta com um poderoso obstáculo, compreender que a tentativa de afastar o pai como rival seria punida por ele com a castração. Pelo temor à castração, no interesse de preservar sua masculinidade, abandona seu desejo de possuir a mãe e livrar-se do pai. Na medida em que esse desejo permanece no inconsciente, constitui a base do sentimento de culpa.

O que torna inaceitável o ódio pelo pai é o temor a este; a castração é terrível, seja como punição ou como preço do amor. Dos dois fatores que reprimem o ódio pelo pai, o primeiro, o medo direto da punição e da castração pode ser chamado de anormal; sua intensificação patogênica só parece surgir com o acréscimo do segundo fator, o temor à atitude feminina. Uma forte disposição bissexual inata se torna uma das pré-condições ou reforços da neurose.

A identificação com o pai finalmente constrói um lugar permanente para si mesmo no ego. É recebida dentro deste, mas lá se estabelece como um agente separado, em contraste com o restante do conteúdo do ego, o superego, herdeiro da influência parental, tomando para si as funções mais importantes do pai. “Ficou faltando alguma coisa quando Papai não se ergueu para fazer um discurso ao final do banquete. Mas tenho certeza de que ele gostaria que eu dissesse algumas palavras, e foi o que fiz. Sobre nosso dever de nos tornarmos verdadeiramente humanos, sobre o exemplo que ele deu a todos e a necessidade de se meditar sobre o progresso. Eu o sentia dentro de mim. Modelando as frases e sugerindo conclusões. Ao sentar, muito aplaudido, vi que Mamãe, coitada, estava banhada em lágrimas. “Você falou exatamente como seu falecido pai, pobrezinho”, ela disse. “Só espero que você tome um pouco mais de cuidado, no entanto.” (Fala do filho que planejou a morte do pai da horda, no banquete em que almoçaram o pai. – Livro de Roy Lewis). Ele tomou para si a função que o pai mais gostava que era o de discursar e falar sobre a evolução humana, sendo aplaudido pela horda e advertido pela mãe que poderia acontecer a mesma coisa com ele num futuro próximo. Assim como Dostoievski gostava de visitar os doentes do hospital em que o pai trabalhava e conversar com eles, intensificando esta atitude mais ainda depois da morte do pai, chegando até a ficar sem dinheiro, porque doava para os enfermos que estavam numa situação econômica precária.

Se o pai foi duro, violento e cruel, o superego assume dele esses atributos, nas relações entre o ego e ele, a passividade que se imaginava ter sido reprimida é restabelecida. O superego se tornou sádico e o ego se torna masoquista, passivo, de uma maneira feminina. Uma grande necessidade de punição se desenvolve no ego, que em parte se oferece como vítima ao destino e em parte encontra satisfação nos maus tratos que lhe são dados pelo superego (sentimento de culpa), pois toda punição é uma castração, realização da antiga atitude para com o pai. Mesmo o destino, em última instância, não passa de uma projeção tardia do pai. “Foi Apolo, foi Apolo, meus amigos quem me infligiu estas desgraças, todas estas desgraças; mas ninguém me feriu, a não ser eu. Que me importava ver, se nada me era agradável à vista?” (fala de Édipo – Édipo Rei,de Sófocles).

Importância maior, como fator acidental, que o pai, que é temido em qualquer circunstância, seja também especialmente violento na realidade. Segundo os biógrafos de Dostoievski, o pai dele era mito severo, um déspota e vinha de uma família de marechais, juízes, assassinos, dignitários da Igreja, bandidos e plenipotenciários de príncipes; assim também deveria ter um superego comprometido.

A fórmula para Dostoievski é: disposição bissexual inata especialmente intensa, que pode defender-se com intensidade especial contra a dependência de um pai especialmente severo. Seus sintomas precoces de crises semelhantes à morte podem ser compreendidos como uma identificação paterna por parte de seu ego, a qual é permitida pelo superego como punição. “Você queria matar seu pai, a fim de ser você mesmo o pai. Agora, você é seu pai, mas um pai morto. Agora, seu pai está matando você”. E, em seus cadernos, ele afirma: “O pai sou eu – o esposo”. (livro de Dominique Arban, página 36, referindo-se aos rascunhos que Dostoievski escrevia, em 1878). “…Passando em minha casa vários dias seguidos, pedia todas as noites, ao se deitar, que não tivéssemos pressa de enterrá-lo, se morresse durante o sono: temia horrivelmente cair em letargia e me descrevia todo o horror de acordar enterrado”. (idem ao livro citado acima, página 38, o escritor referia-se as suas crises de catalepsia, quando hospedado na casa de um amigo em São Petersburgo). Para o ego, o sintoma da morte constitui uma satisfação, em fantasia, do desejo masculino, uma satisfação masoquista ao mesmo tempo; para o superego, trata-se de uma satisfação punitiva, satisfação sádica. Ambos, o ego e o superego levam avante o papel de pai.

Durante a crise epiléptica, um momento de felicidade suprema é experimentado. Pode bem ser um registro do triunfo e do sentimento de liberação experimentada ao escutar as notícias de morte, seguidas imediatamente por uma punição mais cruel. Imaginamos essa seqüência de triunfo e de pesar, de alegria festiva e de luto, nos irmãos da horda primeva que mataram o pai, e encontramo-la repetida na cerimônia da refeição totêmica. “… E aquele foi o fim de Papai em carne e osso, meu filho, um final que ele teria desejado para si – ser abatido por uma arma realmente moderna e ser comido de modo civilizado. Assim garantiu sua sobrevivência, de corpo e sombra. Ele vive dentro de nós, enquanto sua sombra faz carne moída dos elefantes na terra dos sonhos, nos campos de caça do outro mundo… mas, não devemos nos esquecer de sua fé inabalável no futuro e devemos sempre recordar que, em sua partida, ele ajudou a dar a forma às instituições sociais básicas, como o parricídio e a patrifagia, que garantem a continuação tanto da comunidade quanto do indivíduo”. (Livro de Roy Lewis, fala do filho depois da morte e banquete dos restos mortais do pai).

A necessidade de punição por parte da economia mental de Dostoievski explica o fato de ter passado inabalado pelos anos de tormento e humilhação. Quando é exilado na Sibéria, condenado por pertencer a um grupo revolucionário, que queria derrubar o Czar, a sua condenação foi injusta, aceitou o imerecido castigo das mãos do “Paizinho”, do Czar, como um substituto da punição que merecia por seu pecado contra o pai real. Conseguiu fazer-se punir pelo representante paterno. Grandes grupos criminosos desejam ser punidos. O superego deles exige isso; assim se poupam a si mesmos de se infligirem o castigo. Dostoievski nunca se libertou dos sentimentos de culpa oriundos de sua intenção de matar seu pai. Esses sentimentos também determinaram sua atitude nas duas outras esferas em que a relação paterna constitui o fator decisivo, ou seja, sua atitude para com a autoridade do Estado e para com a crença em Deus.

A simpatia de Dostoievski pelo criminoso é ilimitada; vai muito além da piedade a que o infeliz tem direito de nos lembrar do “temor sagrado” com que os epiléticos e os lunáticos eram encarados no passado. Não há mais a necessidade de que alguém mate, visto que ele já matou e há que lhe ser grato; identificação com base em impulsos assassinos semelhantes. Ele tratou primeiramente do criminoso comum (motivos egoístas) e do criminoso político e religioso, ao fim de sua vida retornou ao criminoso primevo, ao parricida, e utilizou-o, numa obra de arte, para efetuar sua confissão: “Os Irmãos Karamassovi”.

Fico me perguntando que necessidade o teria de se retirar do convívio familiar, que na época estava estável, para se enclausurar num mosteiro e escrever um romance que seria considerado sua confissão declarada de ter querido assassinar o seu pai?  Encontrei resposta no texto “Criminosos Em Conseqüência De Um Sentimento De Culpa”, Vol. XIV, página 376, onde Freud irá esclarecer: “O resultado invariável do trabalho analítico era demonstrar que esse obscuro sentimento de culpa provinha do complexo de Édipo e constituía uma reação às duas grandes intenções criminosas de matar o pai e ter relações sexuais com a mãe. Em comparação com esses dois, os crimes perpetrados com o propósito de fixar o sentimento de culpa em alguma coisa vinham como um alívio para os sofredores. Nesse sentido, devemos lembrar que o parricídio e o incesto com a mãe são os dois grandes crimes humanos, os únicos que, como tais, são perseguidos e execrados nas comunidades primitivas. Também devemos lembrar como outras investigações nos aproximaram da hipótese segundo a qual a consciência da humanidade, que agora aparece como uma força mental herdada foi adquirida em relação ao Complexo de Édipo”. Assim, Dostoievski não descansaria enquanto não fosse julgado e declarado culpado por todos aqueles que pudessem ler o seu romance, isto é, por toda uma comunidade.

O jogo era também um método de autopunição. Ele sempre permanecia nas mesas de jogo até haver perdido tudo e achar-se totalmente arruinado. “Só quando o prejuízo era completo é que o demônio por fim se retirava de sua alma e abria caminho para o gênio criador”. (Fülop-Miller e Eckstein, 1925). O vício da masturbação é substituído pela inclinação ao jogo – Freud sugere numa carta a Fliess, 22/12/1897, que a masturbação constitui a “inclinação primária”, da qual todas as adições são substitutas (carta 79).

Se a inclinação ao jogo, com as lutas mal sucedidas para romper o hábito e com as oportunidades que proporciona para autopunição, constitui uma repetição da compulsão a se masturbar, não nos surpreendemos em descobrir que ela tenha ocupado um espaço tão grande na vida de Dostoievski.

Em 1840, ainda muito jovem com apenas 20 anos, ele escreve ao seu irmão Mikhail: “Vamos, meu irmão, creio que jamais minha glória atingirá o apogeu de agora. Por toda parte uma grande estima, uma curiosidade terrível a meu respeito. Travei conhecimento com uma multidão de pessoas das mais corretas. O príncipe Odoevski pediu-me a honra de minha visita, e o conde Sologub arranca os cabelos de desespero. Panaev lhe disse que existe um talento que os colocará mais abaixo do que a terra. Sologub correu por todos os lados e, passando pela casa de Kraevski, perguntou-lhe à queima roupa: _ Quem é esse Dostoievski? Onde posso arranjar o Dostoievski? _ Kraevski, que não se deixa desconcertar por ninguém, responde-lhe: _Dostoievski não desejará dar-lhe a honra de alegrar-se com sua visita. – E é profundamente exato; esse pequeno aristocrata pretencioso acha que me vai aniquilar com a majestade de suas carícias. Todos me acolhem como uma maravilha. Mal abro a boca, logo repetem por todos os cantos que Dostoievski disse isto, que Dostoievski que fazer aquilo. Bielinski não poderia gostar mais de mim do que gosta.” (Livro de Dominique Arban, pág. 49). Lendo este trecho da carta perguntei-me, porque com tanto êxito tinha que se destruir através do jogo, através dos ataques epiléticos, das crises de catalepsias, deixar-se ser pego e punido, através do Czar, por um crime que não havia cometido? Novamente, Freud vem em meu socorro em seu artigo “Os Arruinados Pelo Êxito”, 1916, através de vários exemplos encontrados na literatura, vai nos dizer: “O trabalho psicanalítico nos ensina que as forças da consciência que induzem à doença, em conseqüência do êxito, em vez de, como normalmente, em conseqüência da frustração, se acham com o Complexo de Édipo, a relação com o pai e a mãe – como talvez, na realidade, se ache o nosso sentimento de culpa em geral.”

No grande romance de Fiodor, “Os Irmãos Karamassovi”, a situação edipiana se situa no ponto focal de interesse. O velho Karamassovi fez-se detestar pelos filhos através de uma opressão cruel; aos olhos de um deles é um poderoso rival quanto à mulher que deseja. Esse filho, Dimitri, não faz segredo de sua intenção de vingar-se do pai pela força. É natural que, depois do pai ter sido assassinado e roubado, ele seja acusado como seu homicida e condenado. Dimitri é inocente, foi outro quem cometeu o ato.

Observando a grande semelhança entre as personagens do romance e as da vida real do grande escritor russo, podemos concluir através de tudo que foi dito até aqui, que ele só conseguiu se redimir do grande conflito que o afligia, depois de se colocar diante dos olhos dos leitores, despido de sua armadura e deixar-se julgar e condenar por uma vez ter desejado a morte de seu pai e ter querido o amor de sua mãe para si. “Entregar o romance a uma revista e colocar-se sob o jugo não só do primeiro maitre d’hotel, mas também de todos os ajudantes e aprendizes de cozinha que têm seu covil nos ninhos de onde se propaga a cultura. Um ditador? Não, vinte”. (fala de Fiodor ao seu irmão Mikhail, quando teme entregar o seu primeiro romance a uma revista, nesta época os romances russos eram primeiro publicados em revistas – livro de Dominique Arban, pág. 43).

“O homem é grande, demasiado grande, eu o encolherei”. Dostoievski Nesta frase ele estava se referindo a si, ao seu pai, aos dois, ou a todos nós?

Referências Bibliográficas

 

Freud; S. – Carta 69 – Vol. I – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

 Freud; S. – Carta 71 – Vol. I – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – O Sonho da Morte de Pessoas Queridas – Vol. IV – 2ª. Edição – Imago Edita Ltda – RJ.

 Freud, S. – Sobre um Tipo Especial de Escolha de Objeto no Homem – Vol. XI  – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – Totem e Tabu – Vol. XIII – Caps. 1 e 4 –  2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – O Ego e o Id – Cap. 3 – Vol.XIX – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – Organização Genital Infantil – Vol. XIX – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – A Dissolução do Complexo de Édipo – Vol. XIX – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – Dostoievski e o Parricídio – Vol. XXI – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – Os Arruinados pelo Êxito – Vol XIV – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – Os Delinqüentes pelo Sentimento de Culpa – Vol. XIV – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Arban; D. – Dostoievski – Editora José Olympio – RJ – 1989

Lewis; R. – Por que Almocei Meu Pai – Cia. Das Letras – SP – 1994

Anotações do Seminário Teórico “Complexo de Édipo”, ministrado por Nora S. Miguelez – Instituto Sedes Sapientiae – Curso Formação em Psicanálise – 2003

Sófocles – Tragédia de Édipo Rei – Edições de Ouro – RJ.

 Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

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