Insight: “O caso Dora”

Na sexta-feira passada fui assistir a uma palestra sobre a releitura do caso Dora. O palestrante, um filósofo e psicanalista conceituado, falou da abordagem de Freud e uma nova visão do caso, tendo como base o pensamento de Lacan. Também se falou de como Ferenczi viu o posicionamento de Freud, ao interpretar para a paciente que ela estava apaixonada pelo Sr. K. Muito se falou da falta de identificação de Dora e se a sua escolha sexual era hetero ou homossexual. Guardadas as prerrogativas que Freud estava começando a entender a histeria e que Dora só lhe deu três meses de análise para poder entender o que se passava no seu inconsciente, e porque havia desenvolvido uma dinâmica histérica; fiquei pensando num aspecto que na minha opinião, ainda não se falou a respeito: Dora tinha quatorze anos quando descobriu o relacionamento de seu pai com a Sra. K. Época do desabrochar da adolescência, quando a moça está retomando o seu complexo de Édipo para poder fazer a sua escolha de objeto. Fiquei imaginando o impacto da descoberta, e o desamparo que deve ter sentido, principalmente ao se deparar com a atitude do pai em sugerir um relacionamento dela com o Sr. K. para que o seu relacionamento com a Sra. K. ficasse desempedido.
Não sei se qualquer garota que estivesse no mesmo posicionamento não desenvolveria os mesmos sintomas histéricos, ou até mesmo não apresentasse traços psicóticos como forma de defesa. Não se esqueçam que esse “romance familiar” se desenrola no final do século XIX e início do XX, onde os padrões morais ainda eram muito rígidos.
Um trabalho de análise cuja a demanda era que os ataques histéricos da filha não atrapalhassem o relacionamento do pai fora do casamento, com a esposa de um casal amigo e de quem Dora tomava conta dos filhos.
Freud não soube responder a questão: “O que é ser uma mulher?” questão essa demonstrada por Dora de modo inconsciente. Qual o meu papel nisto tudo? O que devo fazer? Ainda havia uma mãe que estava apenas interessada em manter a casa excessivamente limpa, que não ocupava a sua posição de esposa em relação a seu pai.
Qual a saída para essa moça? Ficar divagando sobre hipóteses de como conduzir a análise deste caso, na nossa época autal é muito fácil. O difícil é sentar-se na cadeira de Freud e olhar para o seu divã não tendo ele os conhecimentos que temos hoje tanto sobre o caso, como quanto ao que foi desenvolvido sobre a teoria.

Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

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PERSONIFICAÇÃO NO BRINCAR DAS CRIANÇAS

O objetivo de M. Klein neste artigo é examinar os principais mecanismos dos jogos em que a criança inventa “personagens” diferentes, distribui seus papéis e o elemento de desejos que ocorre nestes jogos.
Chega à conclusão, após examinar vários casos, de que a cisão do superego entre as identificações primárias introjetadas em diferentes estágios do desenvolvimento é um mecanismo semelhante à projeção, à qual está intimamente ligado; que estes mecanismos (cisão e projeção) são fatores da tendência de personificação no jogo. Através deles, a síntese do superego pode ser temporariamente abandonada e a tensão causada pela tentativa de manter uma trégua entre o superego como um todo e o id se reduz. O conflito intrapsíquico se torna menos violento e pode ser deslocado para o mundo externo. O prazer assim obtido fica ainda maior quando o ego descobre que esse deslocamento para o mundo externo oferece várias provas reais de que os processos psíquicos, com seus investimentos de ansiedade e culpa podem ter uma solução favorável e a ansiedade pode sofrer uma grande redução.
O significado do mecanismo de personificação está por trás de um fenômeno universal essencial para o trabalho analítico tanto com crianças quanto com adultos: a transferência.
A redução do conflito ou seu deslocamento para o mundo externo através dos mecanismos de cisão e projeção é dos principais incentivos para a transferência e uma das forças motrizes do trabalho analítico. Uma maior atividade da fantasia e uma capacidade de personificação mais abundante e positiva são os pré-requisitos para uma maior capacidade de transferência.
Partindo da conclusão que de que a transferência está baseada no mecanismo da representação de personagem, a modificação gradual do rigor excessivo do superego é atingido quando o analista assume os papéis que lhe são atribuídos na situação analítica. Em outras palavras, o analista deve ser apenas um meio em relação ao quais as diferentes imagos podem ser ativadas e as fantasias vividas, a fim de serem analisadas.
M.K. constata que aquilo que afirmou a respeito da personificação em sua forma mais explícita, também é indispensável para o tipo mais disfarçado e obscuro de personificação que está por trás da transferência. O analista que pretende chegar às imagos mais antigas e criadoras de ansiedade, isto é, cortar pela raiz a severidade do superego, não pode ter preferência por nenhum papel em particular; ele deve aceitar aquilo que lhe é oferecido na situação analítica.

Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

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Entre a Psicomotricidade e a Psicanálise

INTRODUÇÃO:

Esse caso marcou a minha vida profissional de várias maneiras. Fez com que me deparasse com questões até então pouco avaliadas e chegasse a me perguntar se o que eu estava fazendo era válido no sentido de ser efetivo para os meus pacientes, ou será que havia algo mais que pudesse atendê-los melhor? Meus casos clínicos eram quase sempre distúrbios de aprendizagem, que depois de uma avaliação motora havia na sua grande maioria disfunções motoras.
Quando vi Olga (nome fictício) pela primeira vez, na época com oito anos e dez meses, observei que havia algo mais, não era somente, como dizia a escola, um atraso motor. Ela era diferente das outras crianças atendidas por mim, seu comportamento não seguia as normas do chamado “adequado”, ela dava risada por qualquer coisa sem importância, babava, não tinha o chamado freio inibitório (não obedecia às regras sociais), interrogava qualquer pessoa que via e ficava sem saber o que fazer quando era ignorada, normalmente perseverando até obter o que desejava, não era por “birra”, algo que não passava pelo âmbito dos limites, era diferente disso, parecia ser a única maneira como havia aprendido a se relacionar (fora da fronteira entre o eu dela e o eu do outro). Também não estava atrelada a deficiência cognitiva, sabia ler e escrever, embora sua orientação espaço-temporal estivesse defasada, não conseguindo se organizar numa folha pautada e muitas vezes se negava a colocar a data nos trabalhos e quando o fazia era sempre além ou aquém da data corrente (uma maneira de cindir com a realidade externa, ficando preservada no seu mundo interno).
O vínculo entre nós se estabeleceu rapidamente e fui buscar supervisão por não ter muito claro o que estava acontecendo com Olga. “Anne Alvarez cita Stern ao que chama de estados mentais partilhados, tenha de preceder a empatia e a empatia tenha de preceder a simpatia”. (Trabalho apresentado na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo – “Níveis de Trabalho Analítico e Níveis de Patologia” – abril de 2004)
Segundo o supervisor as hipóteses motoras estavam corretas e o que eu não sabia decodificar estava no seu funcionamento psicótico e recomendou-me a leitura de um livro que foi outro marco na minha vida profissional: “Companhia Viva” de Anne Alvarez, Artes Médicas, 1994.

Ele me disse que este livro seria muito importante na ajuda de poder entender Olga e que ao mesmo tempo era o que ela precisava, de “uma companhia viva”. Saí da supervisão preocupada, será que teria condições profissionais de atender Olga? O que será que significava ser uma companhia viva?
Já na primeira página do livro, antes da capa interna, do sumário, do prefácio e dos agradecimentos a autora diz: “As crianças que tiveram a mente e o corpo danificados por intrusões de abuso sexual, violência, ou negligência e aquelas outras, muito diferentes destas, que foram prejudicadas por sua própria e misteriosa sensibilidade exagerada que as tornou extremamente vulneráveis a privações muito menores, podem vivenciar um tipo de profundo desespero e ceticismo que requer um tratamento prolongado e põe à prova, ao máximo, a resistência do psicoterapeuta”. E na página próxima ao sumário ela cita Bion: “Não tenho dúvida nenhuma da necessidade de alguma coisa, na personalidade, que propicie contato com a qualidade psíquica”. (W. Bion, 1962).
Três coisas me chamaram atenção nestas citações: será que Olga havia sido negligenciada, ou será que fora prejudicada por sua própria e misteriosa sensibilidade exagerada, e mais preocupante, será que eu teria condições de agüentar e persistir, mesmo tendo tido uma opinião de ser uma “companhia viva”? Será que teria a qualidade psíquica dita por Bion?
Como curiosa que sou, fui procurar o que seria um funcionamento psicótico e encontrei uma citação de Bion no livro “Conferências Clínicas sobre Klein e Bion”, pág. 104:
“A diferenciação entre a personalidade psicótica e a não-psicótica depende de uma cisão, em pedaços mínimos, de toda aquela personalidade que se relaciona com a percepção da realidade interna e externa, e da expulsão destes fragmentos, de forma que eles ou penetram em seus objetos, ou os engolfam”.
É claro que na época não entendi muito bem o que o autor estava querendo dizer, ficando mais claro quando iniciei em 2003 os estudos sobre a teoria kleiniana.
Também fui procurar o que era “uma companhia viva”, achando a resposta no próprio livro da Anne Alvarez, já citado acima, pág. 71:
“O conceito de continência materna de Bion é o seguinte: ele descreve como a mãe, através de seu reverie, faz um tipo de digestão mental que, devido aos seus processos digestivos mentais mais maduros, possibilita-lhe vivenciar de uma forma suportável a angústia, a raiva ou o medo do bebê (1962). Assim, ela é capaz, sem um superenvolvimento sujeito a pânicos freqüentes, mas também sem um afastamento demasiado grande, de confortá-lo e acalmá-lo. Bion discute isso como uma função materna normal e comum. Todavia, é importante considerar algo mais: o que fazem as mães comuns quando seus bebês comuns estão moderadamente deprimidos – isto é, não que eles estão expressando ou mostrando sua angústia, mas quando não conseguem fazê-lo porque perderam temporariamente o interesse ou a esperança e ficaram um tanto retraídos. Em minha opinião, as mães funcionam como alertadoras e estimuladoras de seus bebês”.
Entendi que a terapeuta deveria fazer o papel dessa mãe alertadora e estimuladora de seus pacientes, tornando-se uma “companhia viva”, quando estes não estão em condições de se interessarem pelo mundo externo.
Aceitei o desafio e iniciei o atendimento psicomotor na metade de junho de 1999, Olga vinha duas vezes por semana e comecei a entender o que a Anne Alvarez falava em por a prova a resistência do terapeuta, a menor frustração e contrariedade negava a fazer os exercícios, mesmo quando havia sido ela quem tinha escolhido o queria fazer; principalmente quando já vinha com alguma contrariedade acontecida fora da sessão, com os seus pais, transferindo para mim toda a sua raiva. Na época não entendia muito de transferência, mas algumas vezes por intuição conseguia perceber o que estava acontecendo e traduzia para ela, às vezes aceitava, outras negava com veemência e outras ficava me olhando com um ponto de interrogação estampado no rosto. Aos poucos fomos nos entendendo melhor, as dificuldades de contato de ambas as partes foram cedendo e ela chegava na sessão com um sorriso e me perguntava: “O que temos para hoje?”
O que pretendo mostrar com este caso clínico é como algumas defesas da posição esquizoparanóide estavam presentes desde o início, isto é, desde a avaliação motora: projeção, introjeção, cisão, idealização, negação, identificação projetiva e identificação introjetiva; principalmente a cisão. É só observar o que foi dito no parágrafo anterior, na descrição de suas reações frente ao que era proposto, mesmo quando ela mesma escolhia.

HISTÓRICO:

Os pais de Olga, funcionários públicos, tentaram uma gravidez por um período de oito anos. Não obtendo resultando positivo resolveram desistir e se voltaram para a carreira acadêmica que estava em andamento. A mãe conseguiu uma bolsa para o doutorado nos Estados Unidos e o marido a acompanhou, aproveitando para fazer cursos que complementariam a sua carreira. Nesta ocasião, já instalados no país, ficaram grávidos. A princípio, a mãe ficou muito irritada porque naquele momento seus planos eram outros. Depois de muito considerar, resolveram pela gravidez e quando Olga nasceu, a avó e bisavó maternas foram morar junto com os pais para poderem cuidar da criança, já que os pais tinham que se dedicar aos estudos e pesquisas que estavam realizando.
A mãe relatou que por volta de um ano e seis meses, começou a perceber as dificuldades motoras da filha, era toda mole, sentou e andou com atraso, e não correspondia aos estímulos dados por eles. Quando retornaram ao Brasil, buscaram ajuda profissional neurológica, sendo encaminhados para: fisioterapia, terapia ocupacional, natação e trabalho emocional.
Aos seis anos, Olga estava estressada e seus pais também; conversando com o neurologista resolveram parar com tudo e colocaram-na numa escola próxima à residência em período integral. Olga repetiu o pré e na primeira série a escola me encaminhou com as seguintes queixas: hipotonia muscular, disgrafia (misturava letra cursiva com letra de forma), não produção de material gráfico em sala de aula, imaturidade e relacionamento apenas com adultos.
Foi proposta uma avaliação motora, na qual foram observadas as seguintes questões: tônus muscular muito relaxado (segundo o relatório do neurologista nada tinha de físico); verbalização adequada, vocabulário bem desenvolvido, apresentado ecolalia, perseverando numa tentativa de controlar as situações, agindo impulsivamente, parecendo querer esconder a sua capacidade e ver-se livre do que a incomodava; memória ativa, lembrando-se de pormenores; na área perceptivo-motora apresentou imaturidade, ficando entre quatro e cinco anos; o perfil motor oscilou muito, demonstrando dificuldade de equilíbrio, de coordenação dinâmica global e de movimentos simultâneos; não conseguiu integrar as instruções com a realização dos movimentos, por demonstrar dificuldade de trabalhar o seu corpo que aparentava ser o grande depositário de suas dificuldades, não conseguindo fazer sintonização entre o ritmo dado e o interno. Havia também uma questão quanto a não suportar crianças pequenas, principalmente bebês.

EVOLUÇÃO CLÍNICA:

O trabalho psicomotor foi iniciado em junho de 1999 e gradativamente foram acontecendo modificações na sua postura, tanto a nível físico, quanto de reações e respostas ao que lhe era solicitado, parando para ouvir as instruções e realizando as atividades de maneira menos impulsiva; seu tônus muscular foi se equilibrando e sua auto-estima progredindo, estabelecendo relacionamentos com os colegas de classe e verbalizava que tinha medo de mostrar sua capacidade, nos momentos de maior dificuldade dizia que não queria crescer e que queria continuar sendo sempre cuidada pelos pais.
Nesta ocasião, final de outubro, Olga parou de babar, sua hipotonia corporal estava desaparecendo, ainda conserva a de mãos, e a escola me relatou que estava mais interessada nas atividades e já não se jogava no chão, fazendo suas lições sentada, e havia conseguido estabelecer amizade com uma colega.
Numa sessão em que escolheu trabalhar com argila, foram colocadas revistas velhas na mesa como forração, começou a folhear e se deparou com bebê que tomava conta da página inteira, ela teve um acesso de raiva e amassou o rosto do bebê com argila, sujando toda a página, quando terminou estava mais calma, procurou outra página e trabalhou tranqüilamente com a argila, moldando um boneco. Interpretei que depois de ter colocado a sua raiva contra o bebê que ela não tinha podido ser, havia conseguido montar outro bebê mais integrado e aceito por ela. Depois disso os pais não assinalaram mais a sua pouca tolerância quanto às crianças pequenas, até se interessando em observá-las.
No ano seguinte, Olga mudou de escola, indo para longe de casa, permanecendo apenas meio período, numa escola alternativa, onde os alunos progridem por grupos e os conteúdos exigidos são conforme o avanço da classe.
Conforme eu ia adquirindo novos conhecimentos a nível motor e pedagógico, propunha mudanças no atendimento aos pais e à criança, no que era correspondida de pronto, pois os ganhos no desenvolvimento da menina eram visíveis. Embora, a princípio, sempre houvesse certa resistência de Olga, em aceitar mudanças. Ficava motivada com a novidade para logo em seguida se negar a realizar a proposta, dizendo que era difícil. Nestes momentos eu dizia a ela que entendia o seu medo da coisa nova, da mudança, mas que também estava vendo uma menina que estava querendo “moleza” e para isso seria necessário comer “pudim” ou “gelatina”. Ela dava risada, executando os exercícios.
Na metade de 2000, já cursando o curso Formação em Psicanálise, chamei os pais novamente, conversamos bastante sobre os ganhos e paradas de Olga e solicitei uma nova mudança, não mais um trabalho psicomotor, e sim um trabalho psicanalítico. Eles entenderam e concordaram; Olga foi quem teve mais dificuldade em entender, porque se acostumou com “um fazer atividades” e estranhou o falar de seus sentimentos e dificuldades.
Atualmente, com doze anos, conta mais das coisas que aconteceram com ela na escola, espontaneamente, tem mais relacionamentos com os meninos e fica muito preocupada no final de semana quando permanecerá distante de seus amigos e que as nossas sessões vão custar a chegar, fazendo carinho na minha mão e muitas vezes não quer ir embora, dizendo que não sabe para onde vai e com quem ficará. Digo-lhe para perguntar para a mãe e ela o faz na sala de espera. Tem demonstrado com maior freqüência as suas contrariedades, raivas e frustrações e reconhece quando magoou outra pessoa, pedindo desculpas, muitas vezes fazendo um jogo de sedução. Quando isto lhe é apontado dá risada e diz que é verdade.

DISCUSSÃO DO CASO:

No seminário teórico, “Angústia e Superego Arcaico”, ficou claro como a angústia (tradução de ansiedade) excessiva nos primeiros meses de vida prejudica o desenvolvimento do ego, interferindo no desenvolvimento das relações objetais. Klein acredita que as ansiedades esquizoparanóides dominam os primeiros três, quatro ou cinco meses de vida da criança e, por isso chama esta fase de sadismo máximo de “posição esquizoparanóide”. É para a posição esquizoparanóide que o psicótico regride.
No caso que estou discutindo, Olga não teve a atenção da mãe voltada para ela, como uma mãe continente, como uma “companhia viva”, já que ela estava mais empenhada na sua tese de doutorado; teve a atenção de avós que tentaram fazer a função materna, mas que não foi o suficiente para suportar as angústias de Olga.
Na sua fantasia inconsciente fica a imagem de um bebê destruído, de um bebê que não deu conta de interessar a sua mãe numa relação de troca, criando um processo de cisão para dar conta das angústias persecutórias que a invadem constantemente. No Dicionário do Pensamento Kleiniano de Hinshelwood, ele diz:
“As fantasias inconscientes estão subjacentes a todo processo mental e acompanham toda a atividade mental. Elas são a representação mental daqueles eventos somáticos no corpo que abrangem as pulsões, e são sensações físicas interpretadas como relacionamentos com objetos que causam essas sensações. Irrompendo a partir de sua instigação biológica as fantasias inconscientes são transformadas por duas maneiras:
 Pela mudança através do desenvolvimento dos órgãos para a percepção à distância da realidade externa;
 Pelo surgimento no mundo simbólico da cultura, a partir do mundo primário do corpo “(pág. 46).
Olga tinha a fantasia inconsciente de não ter sido um bom bebê, ou o bebê que sua mãe gostaria de ter tido. Por isso a sua raiva quando via bebês na rua, ou mesmo em fotografias. Conseguindo elaborar esta sua fantasia quando pode agredir com argila, fezes, o bebê que encontrou na revista, iniciando então a reconstrução de outro bebê.
Esta sua fantasia inconsciente gerava muita angústia, tendo que jogá-la para o corpo com medo da sua agressividade e da sua raiva que eram muito intensas. Por isso a sua hipotonia corporal, uma maneira de neutralizar o corpo para não agredir com veemência os objetos bons internalizados e também uma forma de não ser agredida por eles – “cuidado comigo, olha como sou frágil.”
No mesmo dicionário citado acima, Klein fala da criação de um círculo vicioso (pág. 65):
“A preocupação especial com a agressão, e as conseqüências vingativas que despertam medo e mais agressão, são autoperpetuantes. Os ataques aos perseguidores tornam-se mais daninhos, porque deles se imagina, na fantasia, que estejam ainda mais enraivecidos e dispostos à violência retaliatória. Quando os objetos são introjetados, o ataque que sobre eles é lançado com todas as armas do sadismo desperta no sujeito o pavor de um ataque análogo sobre si mesmo, partindo dos objetos externos e dos objetos internalizados. Este tipo de círculo vicioso representa um estado paranóide de hostilidade, com imensa desconfiança de quaisquer figuras boas”.
Outra forma de defesa presente era o seu pensamento onipotente, muitas vezes Olga verbalizava: “Eu não quero crescer e quero mandar, eu mando na minha mãe e no meu pai”. “O sentimento de onipotência é importante nos mecanismos primitivos de defesa que se acham envolvidos com o rompimento das fronteiras do ego, de maneira a que as experiências de separação e inveja sejam evitadas” (dicionário já citado acima, pág.396).
Também outras defesas da posição esquizoparanóide ocorriam com freqüência, projeção, introjeção, negação, idealização, identificação projetiva e introjetiva; das quais falarei numa outra oportunidade, visto que aqui o nosso espaço é restrito e eu já passei de muito do que foi acordado.

CONCLUSÃO:

Quando torno a reler o histórico deste caso aproprio-me de observações até então vedadas aos meus olhos. A queixa principal, de um bebê que não pode ser devidamente cuidado pela mãe, que estava naquele instante do nascimento voltada para outros interesses, é uma violência ao direito de existir, causando uma psicose. A marca doeu e Olga não consegue fazer de conta, não consegue ir para um falso self. De um lado a violência precoce e de outro a sensibilidade apurada, alguém funcionando em carne viva.
O manifesto é à maneira de se posturar, colocando pouca tonicidade muscular, o psicomotor; o latente é a violência a qual foi submetida. Olga lesa o corpo como maneira de indicar uma psicose. O trabalho psicomotor foi à recomposição do caminho que não pode ter. Agora, na psicanálise, é a possibilidade de sair do registro corporal e ir para a linguagem. O corpo poderá ser colocado através do que percebe do corpo.
Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

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Histeria de Angústia

I – INTRODUÇÃO: HISTERIA, QUAL O CAMINHO A SEGUIR?

As leituras dos textos de Freud sempre me trouxeram um encantamento. O modo de escrever, o ir e vir na busca de uma melhor idéia que definisse o conceito que estava querendo construir, a ligação com a clínica, ou melhor, a partir da clínica; principalmente, depois que iniciei o curso Formação em Psicanálise e comecei o atendimento à pacientes com o método psicanalítico. Coincidência ou não, fui identificando pacientes de acordo com o que estava estudando, ou será que a partir do aprofundamento em que me encontrava conseguia redimensionar a minha visão e a minha escuta?
Notar como Freud ia desenvolvendo a teoria e construindo os conceitos a partir do que observava na clínica, trazia para mim um enlevo de descoberta da genialidade de uma visão e uma escuta acurada. Peter Gay, no seu livro, ‘Freud Uma Vida Para o Nosso Tempo’ (1989), cita Freud: “Quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, convence-se de que os mortais não conseguem guardar segredos. Se os lábios estão mudos, eles tagarelam com as pontas dos dedos; a traição força seu caminho por todos os poros” (pág. 17). Eu traduziria esta frase da seguinte maneira: “Quem não é cego e nem surdo, pode perceber o que se desenrola embaixo do seu nariz.”
Lógico que a minha visão e a minha escuta necessitam ainda de muito desenvolvimento, mas os fenômenos foram acontecendo e eu pude fazer ligações com o que estava estudando e até escrever a respeito deles.
Outra qualidade de Freud foi fazer a sua auto-análise através do que ia percebendo nos outros e reconhecendo em si mesmo, sem medo de se expor e do que poderiam pensar a seu respeito, postura que acho muito difícil de articular. Digo isso porque entre escolher fazer o trabalho sobre histeria ou histeria de angústia, escolhi o segundo por estar neste momento atendendo a um caso com estas características.
Histeria de angústia foi o nome dado por Freud, a um tipo diferente de histeria, que também reprime, porém no lugar de fazer uma conversão, desloca para outro objeto o afeto, causando uma fobia, transformando o afeto em ansiedade, angústia. Neste primeiro momento, até 1926, é a angústia que causa a repressão.
Se pararmos para pensar na semântica da palavra ansiedade, verificamos que ela vem de ‘anseio’, desejar algo, ou alguém. A aflição de se separar do objeto, de ficar sem ele. A ansiedade é uma reação a uma situação de perigo. Criam-se sintomas a fim de evitar uma situação de perigo cuja presença foi assinalada pela geração de ansiedade.
Através de uma análise de uma fobia em um menino de cinco anos, o pequeno Hans, Freud vai descobrir e desenvolver toda a sua teoria sobre a histeria de angústia, como em todo o seu trabalho, ele irá construir, reformular e retornar ao que ele havia dito inicialmente. No texto ‘Inibição, Sintoma e Ansiedade’ (1926), ele reformula, desenvolvendo uma segunda teoria de angústia. Freud se pergunta qual é o motivo da angústia? E responde que a causa da angústia é a repressão, sendo necessário que haja um perigo para que o ego reprima; um perigo vindo do exterior, a castração.
O caminho que escolhi para seguir será o de comparar a análise do caso Hans, com o caso de um menino de seis anos, a quem chamarei de Carlos (nome fictício), por associar com vários Carlos que conheço e que têm uma personalidade bem marcante.

II – HISTÓRICO: COMO SE VÊ UM CASO, QUANDO SE ESTUDA OUTRO.

Os pais de Carlos vieram até o meu consultório por indicação da escola. A mãe estava com 46 anos, dona de casa, e o pai com 50 anos, arquiteto. Carlos nasceu depois de 14 anos de casados, tendo sido realizada uma inseminação, numa reprodução assistida. O parto foi cesárea e a mãe teve depressão puerperal durante seis meses. Contrataram uma babá, ficando a mãe sempre por perto, porque tinha medo de não dar conta do bebê.
Do sexto ao décimo segundo mês, por recomendação do pediatra, a mãe colocava–o para dormir sobre o seu corpo, para que pudessem ter um contato maior de pele, já que não tinha sido gerado de maneira convencional e porque a mãe não o tinha segurado suficientemente em razão de sua depressão.
Até os três anos dormia em seu quarto; quando se mudaram para o interior de Minas Gerais, em busca de qualidade de vida, o pai não os acompanhou, visitando-os nos finais de semana e feriados, em função do seu trabalho. A mãe ficava muito insegura de dormir sozinha à noite e trancava-se com o filho no mesmo quarto. Mesmo quando o pai estava presente, dormiam os três juntos, pois o menino podia se ressentir de ser excluído em razão da presença do pai.
Carlos começou a ficar muito inquieto e a apresentar comportamentos inadequados: pegava uma faca e fingia que iria se matar tentou pular da janela da escola, que ficava no terceiro andar e desenvolveu fobia por cães. Os pais tentaram caras, atenção, palmadas e castigo, como contensão. O que deu mais certo e, funciona ainda hoje, é o castigo.
A hipótese levantada pela escola era de hiperatividade. Porém a mãe questionava, porque Carlos conseguia assistir a filmes inteiros e quando se interessava por um brinquedo ou brincadeira, ficava entretido por um longo período. A própria criança começou a pedir para ir numa psicóloga.
Esse histórico chamou-me a atenção em alguns pontos:
 a ansiedade excessiva dessa criança;
 a fobia a cães;
 a questão deste casal.

Quando iniciei o estudo do caso do pequeno Hans, algumas conexões foram se realizando e mais uma vez, por coincidência ou não, tinha um caso na clínica que condizia com a teoria que estava estudando, ou será que a teoria é que correspondia ao caso clínico?
Também em Hans, há alguns aspectos que saltam aos nossos olhos:
 uma criança muito vivaz e muito libidinizada, entregue a si mesmo;
 a questão dos pais;
 a fobia a cavalos.

Quando vi Carlos pela primeira vez fiquei muito impressionada com o nível de ansiedade presente e com a dificuldade em estabelecer contato, ficando entre o querer se mostrar, se aproximar e o medo de fazê-lo e ser rechaçado. Chegou perguntando se no consultório havia cachorro e, enquanto ficou na sala de espera aguardando o horário da sessão, assobiou, fez batucada na parede. No momento em que fui buscá-lo se esquivou, correndo para perto da mãe. Perguntei-lhe se sabia o meu nome e ele disse: “Berenice Hepatite.” Mas não veio comigo para a sala, solicitando a mãe que o acompanhasse. Quando conseguiu entrar se mostrou muito arredio, não se interessando por nenhum brinquedo ou brincadeira proposta.
No final das sessões de observação fiquei sem saber se concordava com a hipótese da escola e indicava um neurologista para medicar, ou se toda essa atuação que apresentava era fruto de uma angústia muito intensa? Acabei optando por indicar um trabalho emocional e apostar na segunda hipótese.
Quando estamos atendendo um caso e temos dúvida do diagnóstico, ficamos aliviados ao encontrar na teoria outro parecido que venha em nosso socorro, ajudando a elucidar alguns aspectos. Foi assim que fui me sentindo ao ler os textos indicados pelo professor Esio dos Reis Filho, na primeira parte do seu seminário, sobre Histeria de Angústia.
O estudo do caso de Hans foi me trazendo tranqüilidade e me amparando na confirmação da minha hipótese, já que haviam vários pontos em comum.

III – CARLOS OU HANS/HANS OU CARLOS:

Vou iniciar esta comparação pela questão que mais me chamou a atenção e pela qual Freud não se ateve: ‘os pais’. Quem eram os pais? Como era a vida deles e o casamento? Qual a função desse filho na vida do casal?
Antes do nascimento da criança, os pais desenvolvem uma grande atividade imaginária. A imagem que cada um dos pais tem de si mesmo, a perspectiva educativa que concebeu – anterior até mesmo a qualquer encontro, casamento, ou idéia de um casal constituído – predeterminam sua relação ulterior com a criança. Cada um dos pais, portanto, vive separadamente, muitas vezes, à sua própria revelia, o porvir de sua descendência.
A espera de um filho é momento crucial na vida do casal e, em muitos aspectos, um momento essencial para o futuro desta criança. Colore, de fato, todos os desejos, propaga-se, irradia-se, ao mesmo tempo em que, pela primeira vez, coloca os pais frente a dimensões temporais e às conseqüências de sua relação.
Se por um lado à criança se insere em uma expectativa, a expectativa do filho se instala muitas vezes como um desafio. É um desafio ao tempo, um desafio à morte, perpetuação tão esperada. Para o adulto, trata-se principalmente de vencer o efêmero. Portanto, as pessoas ‘fazem’ um filho tanto para si mesmo, quanto por ele próprio. Em vários aspectos, apesar de desejar conscientemente que o filho se realize, os pais pedem-lhe que realizem a eles, pais; encarregam-no, muitas vezes até de projetos pessoais abortados. É por essa razão que observamos com freqüência, nos comportamentos educativos dos pais, aspectos desconcertantes, ambíguos e até contraditórios.
Max Graf era um dos integrantes do grupo de estudo de Freud. Em 1903, nasce seu filho, Herbert Graf. Em 1905, Freud escreve os ‘Três Ensaios Sobre A Teoria da Sexualidade’, escandalizando a sociedade vienense. Ele precisava provar que a sua teoria não era mera fixão científica. Assim, Max passa a observar o seu filho, escrevendo para Freud o que ia observando no comportamento do menino que comprovava a teoria escrita pelo seu professor e mestre. Ele agrega ao papel de pai o de observador e, de cientista, que tolera todas as pequenas perversões do filho em nome da ciência. A criança acaba ficando entregue a sua própria mercê. De um lado havia uma mãe muito sedutora que ‘mimava’ (fazer carinhos) a seu filho e, de outro um pai que não exercia a função de interditar esta ligação libidinosa entre mãe e filho para poder comprovar a teoria da sexualidade infantil de que toda criança é um perverso polimorfo.
O pequeno Hans é a perspectiva do pai de salvar o mestre e para a mãe a de completude, o falo que lhe foi negado pelo nascimento e adquirido, simbolicamente, através do filho. Porém, como foi dito anteriormente, há contradições no comportamento dos pais. A própria mãe que tanto o desejava como representante de uma falta, é quem introduz a castração quando o flagra se masturbando e lhe diz que ele poderia ficar sem o seu pipi. O pai que não exerce a função educativa paterna, mas que fica preocupado quando o filho passa a não querer mais sair de casa e apresentar medo por cavalos.
Já no caso de Carlos, há um casal que espera por um filho por quatorze anos, lançam mão de recursos não convencionais e quando a criança nasce a mãe entra em depressão, com medo de não dar conta do filho que tanto queria. O pai, de origem japonesa, vem de uma cultura onde a educação da criança fica sempre por conta da mãe, se posturando apenas como provedor. Acata todas as decisões da esposa, deixando que a família se mude para o interior sem que ele possa acompanhá-los. Não interfere quando a mãe resolve se trancar no quarto com o filho, mesmo quando ele está presente nos finais de semana. Começa a se preocupar somente quando o filho apresenta comportamentos inadequados de querer se matar, e a apresentar fobia por cães, tamanha a sua angústia.
Em seu livro, ‘Infertilidade e Reprodução Assistida’, Marina Ribeiro (2004), nos fala sobre o desejo narcísico de ter um filho: “Afinal, por que é importante gerar um filho? Por que é tão dramático quando um casal se vê impossibilitado de realizar esse desejo? A situação da infertilidade parece promover ou reativar uma profunda ferida narcísica nos casais, revelada por intensos sentimentos de inferioridade diante dos outros, de vergonha e baixa auto-estima.” (pág. 56)
O desejo de um filho, no período fálico feminino, é de que a mãe dê um filho para a menininha e de que esta também possa dar um filho para a mãe. O desejo que mobiliza a menina a voltar-se para o pai, é o de possuir o pênis que foi negado pela mãe. O desejo pelo pênis deve ser substituído pelo desejo por um bebê. Há uma primitiva equivalência simbólica pênis-bebê. Poderíamos dizer que, para Freud, o desejo da mulher de ter um filho é um tipo de compensação pelo fato de não possuir um pênis.
Se não ter um filho gera uma falta, tê-lo significa preenchê-la? Então porque este casal, com a falta preenchida, não consegue contê-lo? Será que a espera foi tão longa que Carlos não pode dar conta de todas as expectativas desses pais? Ou o narcisismo deles é tão grande que o filho não pode preenchê-los?
Tanto Hans como Carlos ficam a mercê de uma experiência científica com a qual não sabem lidar. Hans e Carlos ficam sem a função paterna, sem a interdição do incesto, criando uma angústia avassaladora. As mães dos meninos investem toda a libido nos falos que as complementam, os filhos, mas depois caem na própria armadilha, de não saberem como lidar com as angústias dos mesmos.
Outra questão é a ansiedade excessiva apresentada por essas duas crianças. De onde vem toda essa ansiedade? Freud vai dizer que a angústia tem a ver com a sexualidade. O mecanismo da neurose de angústia deve ser buscado numa deflexão da excitação sexual somática da esfera psíquica e no conseqüente emprego anormal dessa excitação.
A neurose de angústia é produto de todos os fatores que impedem a excitação sexual somática de ser psiquicamente elaborada. As manifestações da neurose de angústia aparecem quando a excitação somática que foi desviada da psique é subcorticalmente despendida em reações totalmente inadequadas.
A psique é invadida pelo afeto de angústia quando se sente incapaz de lidar com uma tarefa (um perigo) vinda de fora; e fica presa de uma neurose de angústia quando se percebe incapaz de equilibrar a excitação sexual vinda de dentro, ela se comporta como se estivesse projetando tal excitação para fora. O afeto e a neurose a ele correspondente estão firmemente inter-relacionados. O primeiro é uma reação a uma excitação exógena, e a segunda, uma reação à excitação endógena análoga. O afeto é um estado que passa rapidamente, enquanto a neurose é um estado crônico, porque, enquanto a excitação exógena age num único impacto, a excitação endógena atua como uma força constante.
Hans e Carlos ficam presos numa teia de excitação que não sabem como se desvencilhar. De fora toda a euforia de ter um objeto de amor só para eles, de mães que os levam para a cama no intuito de protegê-los e ‘mimá-los’. De dentro todo um desejo e uma excitação sexual que acompanha este ficar junto e com o qual não sabem lidar.
Uma histeria de angústia tende a desenvolver-se mais e mais para uma fobia (terceiro aspecto que me chamou a atenção). Nada lhe resta, a não ser cortar o acesso a todo possível motivo que possa levar ao desenvolvimento da ansiedade, erigindo barreiras mentais de natureza de precauções, inibições ou proibições; e são essas estruturas protetoras que aparecem sob a forma de fobias e que constituem a essência da doença.
Tanto Carlos como Hans se vêem numa trilha de mão única, ter quer cortar todo acesso possível que possa gerar ansiedade; já que não existe a castração vinda de fora, colocada pelos pais, têm que fazer um deslocamento para outro objeto que contenha a possibilidade de realização de seus desejos. Hans desloca para o cavalo com medo que o morda e arranque o seu pipi e, Carlos desloca para cães.
A reação ao perigo é uma mistura de afeto e ansiedade e de ação defensiva; causando um estado de preparação para o perigo, havendo um aumento da atenção sensória e da tensão motora. Este estado de preparação termina na geração de ansiedade. Uma pessoa se protege do medo por meio da ansiedade. O que reúne a combinação descrita acima, é a repetição de alguma experiência significativa determinada; sensações desprazíveis, perigo mortal, repetida como estado de ansiedade.
Se a angústia está sempre vinculada à repressão da sexualidade, Freud introduz o Complexo da Castração como fator que desencadearia o estabelecimento das diferenças sexuais (ausência ou presença do pênis); o menino evocaria e temeria a castração como a realização da ameaça paterna em resposta às suas atitudes sexuais; enquanto a menina se ressentiria da ausência do pênis como um dano sofrido que seria preciso negar, compensar ou reparar.
Sob a primazia do Complexo da Castração, operam-se reorganizações profundas na criança. Permitem, em particular, precisar as identificações maternas e paternas e organizar de outra forma às trocas individuais; mas para que essas novas leis de circulação das trocas possam estabelecer-se convenientemente, para que todas essas operações sejam realmente organizadoras, para que dêem à personalidade uma maior coerência e unidade, é preciso ainda que o indivíduo integre sua sexualidade e adquira de alguma maneira, o sentido de seu sexo. Melhor dizendo, é preciso que ele consiga vencer o Complexo de Castração e que não reviva, sem cessar, a angústia da perda.
Carlos e Hans revivem sem cessar a angústia de perda, a perda do objeto amado, que lhes foi retirado subitamente, não por uma interdição paterna, mas por circunstâncias da vida. Hans, com o nascimento da irmã, é retirado do quarto dos pais de maneira repentina; e Carlos, com o retorno para São Paulo, também é retirado do quarto dos pais.
Tanto Hans, como Carlos estavam respondendo às atitudes fálicas de suas mães e a uma aceitação passiva de seus pais em relação às esposas. Os pais eram quem tinham os pênis, porém eram pais desvalorizados pelas mães.
A criança fóbica busca um objeto externo para tentar resolver seus conflitos. Diante da problemática conflitiva edípica, o problema em questão é aceitar a impossibilidade de realizar seu desejo e de afrontar sua raiva, seu ciúme, sua rivalidade e acima de tudo, seu sentimento de ser incapaz.
O filho edípico é tanto um filho com o genitor do sexo oposto quanto um filho com o genitor do mesmo sexo. A bissexualidade é responsável pelo conflito edipiano dar-se tanto em sua forma positiva quanto em sua forma negativa, e pela ambivalência nas relações com os pais. Freud no seu texto ‘O Ego e o Id’ (1923), escreve: “Um estudo mais aprofundado geralmente revela o Complexo de Édipo mais completo, o qual é dúplice, positivo e negativo, e devido à bissexualidade originalmente presente na criança. Isto equivale a dizer que um menino não tem simplesmente uma atitude ambivalente para com o pai e uma escolha objetal afetuosa pela mãe, mas que, ao mesmo tempo, também se comporta como uma menina e apresenta uma atitude afetuosa feminina para com o pai e um ciúme e uma hostilidade correspondente em relação à mãe. É este elemento complicador introduzido pela bissexualidade (…). Pode mesmo acontecer que a ambivalência demonstrada nas relações com os pais deva ser atribuída inteiramente à bissexualidade”.(pág. 47)
Talvez por isso, por esse amor ao pai e hostilidade em relação à mãe, Carlos e Hans precisaram deslocar o medo para animais, preservando o objeto bom internalizado, sendo o superego que não lhes permitem se sentirem castrados pelos pais, pois um pai tão amoroso não pode ser odiado por ficar com o objeto que tanto queriam para eles, a mãe.

IV – CONCLUSÃO, DOIS GAROTOS ANGUSTIADOS E FÓBICOS:

A fobia de Hans pelo cavalo e a de Carlos por cães, simbolizam bem os conflitos enfrentados por duas crianças que temem animais que podem mordê-los, mas que ao mesmo são admirados e, por seus sentimentos agressivos contra os mesmos, podem castrá-los.
Freud em “Totem e Tabu” (1913), escreve que as fobias de crianças do sexo masculino em relações à animais eram, no fundo, medo do pai, que havia sido deslocado para cavalos, cães e outros. Ao lado do caso do pequeno Hans, cita outros, como o apresentado pelo Dr. Wulf, em que o medo que o menino sentia contra cães, era o medo do pai deslocado para estes animais e ligado a proibição de se masturbar.
Mas Freud não está falando apenas do pai de Hans e de outros casos aleatórios. O pai de Totem e Tabu é o pai imaginário, o pai onipotente da horda primitiva que possui todas as mulheres, castra seus filhos e que morto, dá origem à lei. A figura paterna passa a ser um elemento central da constituição do psiquismo humano. Porque ao interditar a mãe e mostrar à criança a existência de regras e normas para convivência entre as pessoas, ele a introduz na sociedade dos seres humanos. A criança deixa de ser um apêndice do corpo materno para tornar-se um indivíduo social, capaz de conviver com outros indivíduos sociais. Deixa de ser ‘falo’ para transformar-se em gente.
Mas o Complexo de Édipo em ‘Totem e Tabu’ também é visto como aquilo que dá origem à civilização. No antepassado mítico do clã repousa a lei. A refeição totêmica, que estava de alguma forma rememorando o assassinato do pai violento, tirânico, é o ponto de partida da organização das sociedades e de toda a sua produção posterior. O animal totêmico, portanto, estaria substituindo o pai morto – a refeição totêmica serviria igualmente para reafirmar os compromissos firmados entre os irmãos assassinos – para a sua própria segurança e continuidade cada qual renuncia uma parte de sua liberdade de exercer violentamente a força para que seja possível uma vida em comum. Em ‘Totem e Tabu’, Freud ancora o Complexo de Édipo não apenas nas fantasias dos neuróticos, mas no ponto de origem da civilização, propondo assim também a universalidade do Complexo de Édipo.
Esta aí posta toda a angústia e o conflito dos meninos. Como podem se sentir seguros se o pai internalizado não é um pai tirânico que estabelece a lei? Pelo contrário, é um pai passivo, companheiro, a quem só podem dedicar amor, não há lugar para o ódio. Não há outra saída a não ser deslocar o seu medo para o animal totêmico, o cavalo ou o cão, dependendo da representação que ocupam dentro do imaginário de cada um. A angústia surge toda vez que buscam segurança no superego e não encontram a lei estabelecida, a lei está fora, não foi internalizada.
Quanto sofrimento e quanta energia despendida desnecessariamente, pois a angústia vem a todo o momento em que um perigo externo assinala uma tensão motora, uma excitação vinda de dentro junta-se numa combinação que determina uma ansiedade constante. Por isso o meu espanto diante da ansiedade exacerbada de Carlos, do seu querer se aproximar e antecipar um rechaço, pois a lei não foi instaurada e ele não sabe como se comportar socialmente, ainda se encontra como um apêndice da mãe.
Estudar a histeria de angústia, através do caso do pequeno Hans, ajudou-me a entender melhor o que se passa com Carlos e a acolhê-lo com maior facilidade, compreendendo todo o seu sofrimento e a sua angústia, em transferência, causada por pais que não sabem como lidar com uma criança muito querida e desejada, mas que talvez não preencha as expectativas desses pais.

Por: Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

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Indicação de Livros: “A Morte de Freud” – O Legado de Seus Últimos Dias; “Terapeuta de Deus”; “O Manuscrito de Accra”.

Vamos começar pelo último: Paulo Coelho, publicou na íntegra um manuscrito encontrado no Egito por um arqueólogo inglês. Diferentemente dos demais manuscritos encontrados no mesmo local, este não fala sobre religião e sim sobre a vida, amor, solidão e ética. É um livro para se ter na cabeceira e relê-lo de vez enquando… Gostei tanto que o presentei a cinco amigos neste Natal.

O segundo livro é sobre a angústia de um homem que se acredita Deus. Sofre com as limitações de ter que viver no corpo de um humano e não pode ajudar a todos que lhe solicitam auxílio, por isso procura um terapeuta. Seu tempo também é limitado, ele tem disponível uma hora por semana durante dez semanas… Lembra o caso do Homem dos Lobos, onde Freud estipula um prazo para terminar a análise com o intuito de fazer  a mesma progredir … No caso, não é o terapeuta quem estipula, mas o paciente… No final se aprende sobre o viver a vida, o amor e o aqui e o agora, ” o nosso presente!”

O primeiro livro, dos três o que mais gostei, o autor (um historiador) localiza os últimos dias de Freud no ambiente austríaco da invasão de Hitler e, compara os dois homens, como dois líderes: um que acha o autoritarismo necessário para o início do processo e depois tenta desmestificá-lo e outro que impõe um autoritarismo como uma consequência de seu narcisismo. Vê-se no decorrer do livro muita pesquisa do autor que articula o momento de angústia de Freud com os textos produzidos por ele, principalmente a sua última produção: “Moisés e o Monoteismo”. Aprendi muito com a leitura, acho-a indispensável a todo psicanalista.

Berenice Ferreira Leonhardt

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Dostoievski – A Análise da Personalidade de Um Escritor Famoso, Enfocando o Complexo de Édipo numa Vertente Freudiana – segunda e última parte.

No livro de Dominique Arban, citado acima, na página 32,…Provavelmente Fiodor conhecia bem, naquela época, certa frase terrível de Hoffmann (um de seus escritores preferidos) sobre um de seus personagens, “culpado de ter desejado matar…”. Na mesma página, falando sobre um trecho do livro “Os Irmãos Karamassovi”…no tribunal em que Dimitri é julgado – Dimitri, que não matou o pai, mas que quis matá-lo – ele exclama de repente, do fundo do banco dos réus: “De cão, uma morte de cão!” Ora, são essas palavras exatas que disse a irmã de Fiodor, ao saber do assassinato de seu pai.

As primeiras crises tinham a significação de morte, uma identificação com uma pessoa morta, seja com alguém que está realmente morto ou com alguém que está vivo e que o indivíduo deseja que morra. A crise possui o valor de punição. Quisemos que outra pessoa morresse; agora somos nós essa outra pessoa e estamos mortos. A teoria psicanalítica introduz a afirmação de que para um menino, essa outra pessoa geralmente é o pai e de que a criança constitui uma autopunição por um desejo de morte contra um pai odiado.

O parricídio, de acordo com uma conceituação bem conhecida, é o crime principal e primevo da humanidade, assim como do indivíduo. – No livro de Roy Lewis, no último capítulo, ele conta como um dos filhos da horda planeja matar o pai, porque ele vinha se tornando uma ameaça à tribo, já que dividia com as outras tribos todas as invenções e descobertas que faziam. “ –Eu sei – interrompi – Sei muito bem que ele é um velho. E que não tem muito tempo de vida, de qualquer maneira. Já deveria ter se aposentado há muito, mas vocês o conhecem bem. Creio Oswald, que será melhor assim. Ele estará melhor nos felizes campos de caça do outro mundo. Ele que brinque de arco e flecha por lá! Levarão um grande susto, calculo. Mas ele não vai perder nada, a não ser os anos que lhe restaram no mundo sem sonhos. As varizes o incomodam demais, como sabem. – Conheço suas teorias – Oswald disse lentamente. Não morremos. Passamos para outro mundo. Isso ajuda bastante… no caso de um dever tão doloroso. Não gosto, mas creio que tem razão. Precisamos proteger o público.” -É a fonte principal do sentimento de culpa. O relacionamento de um menino com o pai é ambivalente. Além do ódio, procurando livrar-se do pai como rival, certa medida de ternura por ele também está presente. As duas atitudes mentais se combinam para produzir a identificação com o pai; o menino deseja estar no lugar do pai porque o admira e quer ser como ele, e também deseja colocá-lo fora do caminho. Todo esse desenvolvimento se defronta com um poderoso obstáculo, compreender que a tentativa de afastar o pai como rival seria punida por ele com a castração. Pelo temor à castração, no interesse de preservar sua masculinidade, abandona seu desejo de possuir a mãe e livrar-se do pai. Na medida em que esse desejo permanece no inconsciente, constitui a base do sentimento de culpa.

O que torna inaceitável o ódio pelo pai é o temor a este; a castração é terrível, seja como punição ou como preço do amor. Dos dois fatores que reprimem o ódio pelo pai, o primeiro, o medo direto da punição e da castração pode ser chamado de anormal; sua intensificação patogênica só parece surgir com o acréscimo do segundo fator, o temor à atitude feminina. Uma forte disposição bissexual inata se torna uma das pré-condições ou reforços da neurose.

A identificação com o pai finalmente constrói um lugar permanente para si mesmo no ego. É recebida dentro deste, mas lá se estabelece como um agente separado, em contraste com o restante do conteúdo do ego, o superego, herdeiro da influência parental, tomando para si as funções mais importantes do pai. “Ficou faltando alguma coisa quando Papai não se ergueu para fazer um discurso ao final do banquete. Mas tenho certeza de que ele gostaria que eu dissesse algumas palavras, e foi o que fiz. Sobre nosso dever de nos tornarmos verdadeiramente humanos, sobre o exemplo que ele deu a todos e a necessidade de se meditar sobre o progresso. Eu o sentia dentro de mim. Modelando as frases e sugerindo conclusões. Ao sentar, muito aplaudido, vi que Mamãe, coitada, estava banhada em lágrimas. “Você falou exatamente como seu falecido pai, pobrezinho”, ela disse. “Só espero que você tome um pouco mais de cuidado, no entanto.” (Fala do filho que planejou a morte do pai da horda, no banquete em que almoçaram o pai. – Livro de Roy Lewis). Ele tomou para si a função que o pai mais gostava que era o de discursar e falar sobre a evolução humana, sendo aplaudido pela horda e advertido pela mãe que poderia acontecer a mesma coisa com ele num futuro próximo. Assim como Dostoievski gostava de visitar os doentes do hospital em que o pai trabalhava e conversar com eles, intensificando esta atitude mais ainda depois da morte do pai, chegando até a ficar sem dinheiro, porque doava para os enfermos que estavam numa situação econômica precária.

Se o pai foi duro, violento e cruel, o superego assume dele esses atributos, nas relações entre o ego e ele, a passividade que se imaginava ter sido reprimida é restabelecida. O superego se tornou sádico e o ego se torna masoquista, passivo, de uma maneira feminina. Uma grande necessidade de punição se desenvolve no ego, que em parte se oferece como vítima ao destino e em parte encontra satisfação nos maus tratos que lhe são dados pelo superego (sentimento de culpa), pois toda punição é uma castração, realização da antiga atitude para com o pai. Mesmo o destino, em última instância, não passa de uma projeção tardia do pai. “Foi Apolo, foi Apolo, meus amigos quem me infligiu estas desgraças, todas estas desgraças; mas ninguém me feriu, a não ser eu. Que me importava ver, se nada me era agradável à vista?” (fala de Édipo – Édipo Rei,de Sófocles).

Importância maior, como fator acidental, que o pai, que é temido em qualquer circunstância, seja também especialmente violento na realidade. Segundo os biógrafos de Dostoievski, o pai dele era mito severo, um déspota e vinha de uma família de marechais, juízes, assassinos, dignitários da Igreja, bandidos e plenipotenciários de príncipes; assim também deveria ter um superego comprometido.

A fórmula para Dostoievski é: disposição bissexual inata especialmente intensa, que pode defender-se com intensidade especial contra a dependência de um pai especialmente severo. Seus sintomas precoces de crises semelhantes à morte podem ser compreendidos como uma identificação paterna por parte de seu ego, a qual é permitida pelo superego como punição. “Você queria matar seu pai, a fim de ser você mesmo o pai. Agora, você é seu pai, mas um pai morto. Agora, seu pai está matando você”. E, em seus cadernos, ele afirma: “O pai sou eu – o esposo”. (livro de Dominique Arban, página 36, referindo-se aos rascunhos que Dostoievski escrevia, em 1878). “…Passando em minha casa vários dias seguidos, pedia todas as noites, ao se deitar, que não tivéssemos pressa de enterrá-lo, se morresse durante o sono: temia horrivelmente cair em letargia e me descrevia todo o horror de acordar enterrado”. (idem ao livro citado acima, página 38, o escritor referia-se as suas crises de catalepsia, quando hospedado na casa de um amigo em São Petersburgo). Para o ego, o sintoma da morte constitui uma satisfação, em fantasia, do desejo masculino, uma satisfação masoquista ao mesmo tempo; para o superego, trata-se de uma satisfação punitiva, satisfação sádica. Ambos, o ego e o superego levam avante o papel de pai.

Durante a crise epiléptica, um momento de felicidade suprema é experimentado. Pode bem ser um registro do triunfo e do sentimento de liberação experimentada ao escutar as notícias de morte, seguidas imediatamente por uma punição mais cruel. Imaginamos essa seqüência de triunfo e de pesar, de alegria festiva e de luto, nos irmãos da horda primeva que mataram o pai, e encontramo-la repetida na cerimônia da refeição totêmica. “… E aquele foi o fim de Papai em carne e osso, meu filho, um final que ele teria desejado para si – ser abatido por uma arma realmente moderna e ser comido de modo civilizado. Assim garantiu sua sobrevivência, de corpo e sombra. Ele vive dentro de nós, enquanto sua sombra faz carne moída dos elefantes na terra dos sonhos, nos campos de caça do outro mundo… mas, não devemos nos esquecer de sua fé inabalável no futuro e devemos sempre recordar que, em sua partida, ele ajudou a dar a forma às instituições sociais básicas, como o parricídio e a patrifagia, que garantem a continuação tanto da comunidade quanto do indivíduo”. (Livro de Roy Lewis, fala do filho depois da morte e banquete dos restos mortais do pai).

A necessidade de punição por parte da economia mental de Dostoievski explica o fato de ter passado inabalado pelos anos de tormento e humilhação. Quando é exilado na Sibéria, condenado por pertencer a um grupo revolucionário, que queria derrubar o Czar, a sua condenação foi injusta, aceitou o imerecido castigo das mãos do “Paizinho”, do Czar, como um substituto da punição que merecia por seu pecado contra o pai real. Conseguiu fazer-se punir pelo representante paterno. Grandes grupos criminosos desejam ser punidos. O superego deles exige isso; assim se poupam a si mesmos de se infligirem o castigo. Dostoievski nunca se libertou dos sentimentos de culpa oriundos de sua intenção de matar seu pai. Esses sentimentos também determinaram sua atitude nas duas outras esferas em que a relação paterna constitui o fator decisivo, ou seja, sua atitude para com a autoridade do Estado e para com a crença em Deus.

A simpatia de Dostoievski pelo criminoso é ilimitada; vai muito além da piedade a que o infeliz tem direito de nos lembrar do “temor sagrado” com que os epiléticos e os lunáticos eram encarados no passado. Não há mais a necessidade de que alguém mate, visto que ele já matou e há que lhe ser grato; identificação com base em impulsos assassinos semelhantes. Ele tratou primeiramente do criminoso comum (motivos egoístas) e do criminoso político e religioso, ao fim de sua vida retornou ao criminoso primevo, ao parricida, e utilizou-o, numa obra de arte, para efetuar sua confissão: “Os Irmãos Karamassovi”.

Fico me perguntando que necessidade o teria de se retirar do convívio familiar, que na época estava estável, para se enclausurar num mosteiro e escrever um romance que seria considerado sua confissão declarada de ter querido assassinar o seu pai?  Encontrei resposta no texto “Criminosos Em Conseqüência De Um Sentimento De Culpa”, Vol. XIV, página 376, onde Freud irá esclarecer: “O resultado invariável do trabalho analítico era demonstrar que esse obscuro sentimento de culpa provinha do complexo de Édipo e constituía uma reação às duas grandes intenções criminosas de matar o pai e ter relações sexuais com a mãe. Em comparação com esses dois, os crimes perpetrados com o propósito de fixar o sentimento de culpa em alguma coisa vinham como um alívio para os sofredores. Nesse sentido, devemos lembrar que o parricídio e o incesto com a mãe são os dois grandes crimes humanos, os únicos que, como tais, são perseguidos e execrados nas comunidades primitivas. Também devemos lembrar como outras investigações nos aproximaram da hipótese segundo a qual a consciência da humanidade, que agora aparece como uma força mental herdada foi adquirida em relação ao Complexo de Édipo”. Assim, Dostoievski não descansaria enquanto não fosse julgado e declarado culpado por todos aqueles que pudessem ler o seu romance, isto é, por toda uma comunidade.

O jogo era também um método de autopunição. Ele sempre permanecia nas mesas de jogo até haver perdido tudo e achar-se totalmente arruinado. “Só quando o prejuízo era completo é que o demônio por fim se retirava de sua alma e abria caminho para o gênio criador”. (Fülop-Miller e Eckstein, 1925). O vício da masturbação é substituído pela inclinação ao jogo – Freud sugere numa carta a Fliess, 22/12/1897, que a masturbação constitui a “inclinação primária”, da qual todas as adições são substitutas (carta 79).

Se a inclinação ao jogo, com as lutas mal sucedidas para romper o hábito e com as oportunidades que proporciona para autopunição, constitui uma repetição da compulsão a se masturbar, não nos surpreendemos em descobrir que ela tenha ocupado um espaço tão grande na vida de Dostoievski.

Em 1840, ainda muito jovem com apenas 20 anos, ele escreve ao seu irmão Mikhail: “Vamos, meu irmão, creio que jamais minha glória atingirá o apogeu de agora. Por toda parte uma grande estima, uma curiosidade terrível a meu respeito. Travei conhecimento com uma multidão de pessoas das mais corretas. O príncipe Odoevski pediu-me a honra de minha visita, e o conde Sologub arranca os cabelos de desespero. Panaev lhe disse que existe um talento que os colocará mais abaixo do que a terra. Sologub correu por todos os lados e, passando pela casa de Kraevski, perguntou-lhe à queima roupa: _ Quem é esse Dostoievski? Onde posso arranjar o Dostoievski? _ Kraevski, que não se deixa desconcertar por ninguém, responde-lhe: _Dostoievski não desejará dar-lhe a honra de alegrar-se com sua visita. – E é profundamente exato; esse pequeno aristocrata pretencioso acha que me vai aniquilar com a majestade de suas carícias. Todos me acolhem como uma maravilha. Mal abro a boca, logo repetem por todos os cantos que Dostoievski disse isto, que Dostoievski que fazer aquilo. Bielinski não poderia gostar mais de mim do que gosta.” (Livro de Dominique Arban, pág. 49). Lendo este trecho da carta perguntei-me, porque com tanto êxito tinha que se destruir através do jogo, através dos ataques epiléticos, das crises de catalepsias, deixar-se ser pego e punido, através do Czar, por um crime que não havia cometido? Novamente, Freud vem em meu socorro em seu artigo “Os Arruinados Pelo Êxito”, 1916, através de vários exemplos encontrados na literatura, vai nos dizer: “O trabalho psicanalítico nos ensina que as forças da consciência que induzem à doença, em conseqüência do êxito, em vez de, como normalmente, em conseqüência da frustração, se acham com o Complexo de Édipo, a relação com o pai e a mãe – como talvez, na realidade, se ache o nosso sentimento de culpa em geral.”

No grande romance de Fiodor, “Os Irmãos Karamassovi”, a situação edipiana se situa no ponto focal de interesse. O velho Karamassovi fez-se detestar pelos filhos através de uma opressão cruel; aos olhos de um deles é um poderoso rival quanto à mulher que deseja. Esse filho, Dimitri, não faz segredo de sua intenção de vingar-se do pai pela força. É natural que, depois do pai ter sido assassinado e roubado, ele seja acusado como seu homicida e condenado. Dimitri é inocente, foi outro quem cometeu o ato.

Observando a grande semelhança entre as personagens do romance e as da vida real do grande escritor russo, podemos concluir através de tudo que foi dito até aqui, que ele só conseguiu se redimir do grande conflito que o afligia, depois de se colocar diante dos olhos dos leitores, despido de sua armadura e deixar-se julgar e condenar por uma vez ter desejado a morte de seu pai e ter querido o amor de sua mãe para si. “Entregar o romance a uma revista e colocar-se sob o jugo não só do primeiro maitre d’hotel, mas também de todos os ajudantes e aprendizes de cozinha que têm seu covil nos ninhos de onde se propaga a cultura. Um ditador? Não, vinte”. (fala de Fiodor ao seu irmão Mikhail, quando teme entregar o seu primeiro romance a uma revista, nesta época os romances russos eram primeiro publicados em revistas – livro de Dominique Arban, pág. 43).

“O homem é grande, demasiado grande, eu o encolherei”. Dostoievski Nesta frase ele estava se referindo a si, ao seu pai, aos dois, ou a todos nós?

Referências Bibliográficas

 

Freud; S. – Carta 69 – Vol. I – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

 Freud; S. – Carta 71 – Vol. I – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – O Sonho da Morte de Pessoas Queridas – Vol. IV – 2ª. Edição – Imago Edita Ltda – RJ.

 Freud, S. – Sobre um Tipo Especial de Escolha de Objeto no Homem – Vol. XI  – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – Totem e Tabu – Vol. XIII – Caps. 1 e 4 –  2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – O Ego e o Id – Cap. 3 – Vol.XIX – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – Organização Genital Infantil – Vol. XIX – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – A Dissolução do Complexo de Édipo – Vol. XIX – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – Dostoievski e o Parricídio – Vol. XXI – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – Os Arruinados pelo Êxito – Vol XIV – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Freud; S. – Os Delinqüentes pelo Sentimento de Culpa – Vol. XIV – 2ª. Edição – Imago Editora Ltda – RJ.

Arban; D. – Dostoievski – Editora José Olympio – RJ – 1989

Lewis; R. – Por que Almocei Meu Pai – Cia. Das Letras – SP – 1994

Anotações do Seminário Teórico “Complexo de Édipo”, ministrado por Nora S. Miguelez – Instituto Sedes Sapientiae – Curso Formação em Psicanálise – 2003

Sófocles – Tragédia de Édipo Rei – Edições de Ouro – RJ.

 Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

Comentários desativados em Dostoievski – A Análise da Personalidade de Um Escritor Famoso, Enfocando o Complexo de Édipo numa Vertente Freudiana – segunda e última parte.

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DOSTOIEVSKI – A ANÁLISE DA PERSONALIDADE DE UM ESCRITOR FAMOSO, ENFOCANDO O COMPLEXO DE ÉDIPO NUMA VERTENTE FREUDIANA – Primeira parte

“Mas eu sou filho ditoso do destino e não tenho medo de tal desonra”.

                                               Édipo

         Quanto mais leio Freud, mais fico impressionada com a sua genialidade em perceber o óbvio, o que esta por detrás do manifesto tão difícil de perceber aos olhos de um leigo. Como ele vai construindo a teoria através das observações de sua clínica e reformulando-a se necessário for. O que aconteceu com o Complexo de Édipo, havendo uma evolução do conceito, que vai descrevendo e fundamentando em cada um dos seus textos em que o defende. Tentarei aqui fazer uma breve introdução do caminho tomado por Freud na construção deste conceito, no menino, tão complexo, como o próprio nome diz; antes de falar sobre a análise da personalidade de Dostoievski.

Na carta 69, dirigida a Fliess, 21 de setembro de 1897, ele diz “não mais acreditar nas suas neuróticas”, isto é, na teoria da sedução e coloca algumas razões para isso:

  • Os contínuos desapontamentos em fazer a sua própria análise, fazendo uma alegoria ao conto “A Roupa Nova do Rei” e à fala de um súdito, “o rei está nu”;
  • A ausência dos êxitos completos de suas análises, os pacientes não davam continuidade ao tratamento, havia êxitos parciais;
  • A descoberta de que no inconsciente não há indicações da realidade, não se distinguindo entre a verdade e a ficção que é catexizada com o afeto. Existe uma fantasia sexual tendo os pais como tema;
  • Na psicose mais profunda a lembrança inconsciente não vem à tona, não sendo revelado o segredo da infância nem mesmo no delírio mais confuso, aparecendo de maneira destorcida.

Assim estava disposto a abandonar a resolução completa de uma neurose e o conhecimento seguro de sua etiologia na infância, pois não obtém uma compreensão teórica do recalcamento e de sua inter-relação de forças. Discutindo se são somente as experiências posteriores que estimulam as fantasias que então retornam à infância, ou o fator de uma pré-disposição hereditária que recupera uma esfera de influência da qual ele se incumbira de exclui-lo.

Já na carta 71, 15 de outubro de 1897, ele diz: “Também em mim percebi o amor pela mãe e o ciúme do pai”; quando analisando a sua fobia ao apito de trem, descobre que está vinculado ao Complexo Parental, pois em uma das viagens de trem que faz com os pais, quando tinha por volta de cinco anos, vê sua mãe seminua e fica desejando que ela se deite com ele e o abrace, o pai aparece para retirá-la do quarto e levá-la consigo e ele se sente excluído, sozinho, chorando muito, deslocando essa sua frustração para o apito do trem (filme “Freud Além da Alma”).

 Considerando um evento universal do início da infância, mesmo que não tão precoce como nas crianças que se tornaram histéricas, reprimiram. Compara essa descoberta com a tragédia grega “Édipo Rei” de Sófocles, dramas do destino posteriores estavam fadados a fracassar, está falando da interdição do incesto e do parricídio. E continua: “cada pessoa da platéia foi exatamente um Édipo como esse, e recua, horrorizada, diante da realização de sonho aqui transposta para a realidade, com toda a carga de recalcamento que separa seu estado atual”.

Também compara a sua descoberta com o inconsciente de Shakespeare em Hamlet: “A consciência nos torna a todos covardes?” Quando ele, o personagem, hesita em vingar o pai assassinado através do seu tio, porque ele próprio planejou perpetrar a mesma ação contra seu pai, por causa da paixão pela mãe. …“A se tratar cada homem segundo seu merecimento, quem escapará do açoite?…” Sua consciência moral é seu sentimento inconsciente de culpa. E não faz o castigo descer sobre si, de modo evidente como nos pacientes histéricos, sofrendo o mesmo destino do pai, ao ser morto pelo mesmo rival.

No texto “Sonhos Sobre a Morte de Pessoas Queridas”, em “A Interpretação dos sonhos”, 1900, vai falar da diferença entre os sonhos de morte que causam sofrimento e os que não causam. Os primeiros estão relacionados com o desejo da morte daqueles com os quais sonhou; os segundos estão relacionados em encontrar uma pessoa que se viu num enterro anterior, por exemplo.

Os irmãos e as irmãs são rivais desde cedo porque estão envolvidos com a disputa do amor dos pais. Os meninos se apaixonam pela mãe e sonham com a morte do pai. E as meninas sonham com a morte da mãe, já que se apaixonam pelo pai.

Relaciona estas descobertas ao personagem da tragédia grega: “Como Édipo, vivemos na ignorância desses desejos repugnantes à moral, que nos foram impostos pela natureza; e após a sua revelação, é bem possível que todos busquem fechar os olhos às cenas de nossa infância”. Indicação dos impulsos infantis para o incesto, que persistem no inconsciente.

Segundo Goethe, Hamlet representa o tipo de homem cujo poder de ação-direta é paralisado por um desenvolvimento excessivo do intelecto. Ele toma outras decisões na morte do curioso atrás da tapeçaria e dos dois cortesãos que tramam a sua morte, mas fica indeciso em relação ao tio, porque no seu inconsciente ele próprio gostaria de ter realizado o ato de matar o seu pai.

A diferença entre o Édipo e Hamlet está que no primeiro a fantasia imaginária que subjaz ao texto é abertamente exposta e realizada como o seria num sonho. No segundo ela permanece recalcada, como no caso de uma neurose, só ficamos cientes de sua existência através de suas conseqüências inibidoras.

Os sonhos de entes queridos escapam à censura, porque é uma monstruosidade pensar nisso, quanto mais desejar. Nos sonhos de angústia a censura promove a distorção dos sonhos: ela o faz para impedir a produção de angústia ou de outras formas de afeto aflitivo.

Somente em 1910 é que Freud vai usar o nome “Complexo de Édipo”, no artigo “Um Tipo Especial de Escolha de Objeto do Homem”, para os desejos incestuosos das crianças em relação a um dos pais, até esta época chamava-o de Complexo Parental. Considera tal complexo o inverso da teoria da sedução, o pai não seduziu a histérica, foi a histérica quem o seduziu. Concluindo: na histeria a punição vem pelo lado do desejo, a punição já traz um gozo. “Ó trevas execráveis da noite que sobre mim caístes, lamentáveis, invencíveis, sem remédio! Aí de mim! Aí de mim! Ao mesmo tempo me despedaçam as dores dos meus olhos e a lembrança dos meus crimes!” (fala de Édipo na tragédia de Édipo Rei, de Sófocles).

Ao considerar a tragédia de Édipo como um sonho, liga-a aos desejos incestuosos, aos sonhos de morte de entes queridos; sonhos de angústia de morte: desejo de morte da mãe ou do pai. Vê estes desejos incestuosos como algo universal e natural e os desejos de morte como a rivalidade com o progenitor do mesmo sexo. Cujos destinos serão o recalque, tanto para os desejos incestuosos, como para os desejos hostis. “Que pode temer o homem quando o destino tudo governa e toda a previsão é incerta? O melhor que há a fazer é viver ao acaso. Não temas casar com tua mãe; já muitos homens têm sonhado que casavam com as mães; mas continua sossegado aquele que sabe que os sonhos nada são”. (fala de Jocasta em Édipo Rei, de Sófocles).

Freud começa a se perguntar de onde vem a proibição do incesto? Vai achar a resposta a sua questão nos estudos realizados pelos antropólogos. Em “Totem e Tabu”, 1913, cita o exemplo de povos primitivos, tribos australianas, que não constroem casas, não cultivam a terra, se alimentam de raízes e caças, não tem animais domésticos, não tem cerâmicas; poderiam não ter nenhuma restrição a vida sexual, porém têm todo o cuidado de não terem relações sexuais incestuosas, desenvolvendo um tabu quanto a este aspecto.

O Totem era um animal que representava a origem de um grupo, a sua relação familiar, um símbolo diferencial de um grupo. Quase sempre era um animal comestível, que não podiam matar e nem comer. O Totem representava o pai que protegia de todos os perigos, o antepassado comum do clã. E para que permanecessem protegidos, se comprometiam a não matar, não comer e a não ter relações sexuais com as pessoas do mesmo Totem.

Em algumas tribos a restrição era ainda maior, porque no mesmo clã, com vários Totens, não podiam casar entre si, surgindo um sintoma de excesso, sintoma coletivo. Se alguém infringisse a lei era morto. A relação de incesto mais temida era entre a mãe e filhos. O pai da horda primitiva ficava com todas as mulheres para si e os filhos eram mandados para fora, ou mortos, ou castrados.

Roy Lewis, um jornalista americano do “The Times”, nascido em 1913, publicou em 1960 um romance muito bem humorado dos homens das cavernas, “Por Que Almocei Meu Pai”, onde tudo o que ocorre tem sólidos fundamentos científicos, porém com jargões de etnólogos, antropólogos, zoólogos, botânicos e outros cientistas do século XX. A história se passa no Pleistoceno médio, em algum lugar da atual Uganda, há cerca de dois milhões de anos. Conta no capítulo 8, como o pai da horda consegue ludibriar os filhos adolescentes, levando-os para longe de seu território, deixando-os sem armas para que não se voltassem contra ele e, faz o seguinte discurso: “Muito bem, rapazes, devo-lhes uma explicação. Mas não tentem nenhum truque… como atirar pedras, por exemplo. Tenho todos ao alcance, e muita munição. Não teriam a menor chance. Muito bem, é tudo muito simples, e não há motivos para pânico. Andei pensando muito e conversei com a mãe de vocês sobre a questão. Vocês já passaram da puberdade. Para todos os fins e propósitos, são adultos. Oswald, você tem pelo menos quinze anos. Ernest é cerca de um ano mais novo, assim como Alexander e Wilbur. Foram treinados para caçar; conhecem as matas, savanas e montanhas. Conseguem lascar pedras com competência, embora apenas Wilbur tenha se revelado um artista. São capazes de batalhar pela própria sobrevivência. Além disso, o que constitui excepcional vantagem para rapazes da sua idade, sabe como pegar o fogo bravio e domá-lo para que siga queimando. Chegou o momento de formarem suas famílias, para o bem da nossa espécie. E foi por isso que eu os trouxe aqui. Bem ao sul, daqui a uns trinta quilômetros, há uma horda… Há outra horda… E lá encontrarão as esposas que desejam.

_ Mas, Papai – protestei –, não queremos mulheres macacos estranhas como fêmeas. Temos nossas próprias moças em casa. Eu vou ficar com a Elsie e…

_Não, não vai – Papai interrompeu. _ Você escolherá uma das garotas daqui.

_ Mas isso é um absurdo! – exclamei. _ Já está tudo acertado.

_ As pessoas sempre se acasalam com as irmãs – Oswald argumentou.    _ É o costume.

_ Agora não é mais – Papai disse. _ A exogamia começa aqui e agora!

_Quando estiverem todos felizes e casados, podem voltar para casa com as mulheres. “Teremos uma tribo, então, em vez de uma mera horda”.

O sintoma do horror ao incesto faz com que as tribos mais primitivas se ponham a policiar os pais com os filhos, os cunhados, os irmãos, os sogros com as noras, as sogras com os genros. O que nos provoca horror é porque nos sentimos atraídos. O totemismo é fragmentado para classificar a vida social das tribos primitivas.

Freud fala dos neuróticos e os seus sintomas, como conflitos e frustrações às regressões aos desejos incestuosos da infância. Para ele, entre um neurótico e um homem primitivo não há tanta distância assim. E ele segue se perguntando, o que aconteceu com os filhos que não aceitaram ser banidos da horda e mataram o pai?

No “Ego e o Id”, 1923, capítulo 3, Freud vai responder a sua questão, dizendo aonde vão parar os desejos incestuosos e os desejos hostis. Quando fala das identificações primárias, antes de qualquer escolha de objeto, nos primórdios da fase oral, sem diferenciação, a identificação primária é que vai formar o ideal de ego. As identificações primárias aos pais vão ser reforçadas no curso do complexo de Édipo. O menino se identifica com o pai e escolhe como objeto à mãe, escolha de apoio, assim chamada por que está baseada na sobrevivência do nenê, a mãe irá libidinizar o bebê. Está situação se mantém por um bom tempo. Até chegar ao Complexo de Édipo, aonde irá se identificar com o pai para se tornar o dono da mãe. A identificação com o pai muda de sentido, agora ele quer ocupar o lugar do pai, empurrá-lo para fora em razão dos desejos hostis, de rivalidade, disputa pela mãe. Quando por fim tem que abandonar a posição do Édipo pela angústia da castração, ele renuncia ao objeto e reforça a identificação com o pai, firmando a masculinidade no caráter do menino, identificação secundária com o pai, agora tem o pai internalizado, incorporado, vistoria permanente, está formado o superego, que passa a ser o herdeiro do Complexo de Édipo. O herdeiro da libido colocada com os objetos incestuosos, sendo este o destino mais importante na vida de uma pessoa. Tomou a força proibidora do pai, não matar, não cometer incesto. O que acontece com o ego quando não recalcou os desejos incestuosos, ele não sabe, mas o superego sabe e castiga o ego. O superego nos transforma em crentes, a nossa moral repousa no superego.

Quando Freud se põe a analisar a personalidade do grande escritor russo, Dostoievski, ele o faz sob a vertente do Complexo de Édipo. Cita quatro facetas da personalidade do escritor: o artista criador, o neurótico, o moralista e o pecador. O artista criador é o menos duvidoso, comparando-o com Shakespeare, citando como obra mais grandiosa, o romance, “Os Irmãos Karamassovi”.

O moralista é o aspecto mais acessível, surgindo para Freud uma dúvida, para ele o homem moral é aquele que reage à tentação tão logo aparece, sem submeter-se a ela. Um homem que alternadamente peca e em seu remorso erige altos padrões morais, fica exposto à censura de tornar as coisas fáceis demais para si. Não alcançou a essência da moralidade, a renúncia. Aqui Freud parece nos falar que não houve a instalação de um superego suficientemente introjetado para que o escritor pudesse renunciar aos desejos incestuosos e hostis. Ponto fraco da personalidade do escritor, depois de violentas lutas para reconciliar as exigências pulsionais do indivíduo com as reivindicações da comunidade, caiu na posição retrograda de submissão à autoridade temporal e à espiritual, venerando o Czar e o Deus dos cristãos.

Freud aponta que no criminoso dois traços são essenciais: um egoísmo sem limites e um forte impulso destrutivo, ausência de amor, a falta de uma apreciação emocional de objetos (humanos). Vê tendências semelhantes em Dostoievski, a paixão pelo jogo e sua possível confissão de um ataque sexual a uma garotinha. Esta pulsão destrutiva poderia tê-lo transformado num criminoso, dirigindo-a contra a sua própria pessoa (para dentro, em vez de para fora), sendo uma expressão do seu masoquismo e sentimento de culpa. Nas coisas mínimas era um sádico para com os outros e nas maiores um sádico para consigo mesmo.

Freud seleciona da personalidade de Dostoievski três fatores, um quantitativo e dois qualitativos: a intensidade de sua vida emocional; sua pulsão inata e pervertida sado-masoquista; seus dotes artísticos inanalisáveis. Juntando-se a tudo isso a presença simultânea da neurose, um indício que o ego não conseguiu fazer uma síntese, ao tentar fazê-la, perdeu sua unidade. A sua epilepsia constituía apenas um sintoma de sua neurose, classificada como histeroepilepsia, mas que não se pode ter certeza por dois motivos:

  • Dados anamnésicos da epilepsia são deficientes e imerecedores de confiança; No livro de Dominique Arban, “Dostoievski”, na página 20 ele diz: “O primeiro biógrafo e a segunda esposa do escritor conheceram – mas não revelaram – o segredo relativo à causa que determinou a primeira crise epilética da criança: sabe-se apenas que aos sete anos, Fédia correu ao quarto dos pais. Que espetáculo se ofereceu aos seus olhos? Perdeu os sentidos. Não sabemos mais nada, mas não é suficiente?…”
  • Compreensão dos estados patológicos combinados com crises epileptiformes é imperfeita.

A “reação epiléptica” está à disposição da neurose, para livrar-se, através de meios somáticos, de quantidades de excitação com as quais não pode lidar psiquicamente.

Há uma diferença entre a epilepsia orgânica e a afetiva. O primeiro tipo tem uma moléstia no cérebro, a segunda é neurótica, expressão de sua própria vida mental. Suposição mais provável é a de que as crises remontavam muito atrás em sua infância, sintomas mais brandos que não assumiram forma epiléptica até depois da experiência dilaceradora de seu décimo oitavo ano de vida: o assassinato de seu pai. A vinculação existente entre o assassinato do pai em “Os Irmãos Karamassovi” e a sorte do próprio pai de Dostoievski.

Por : Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu (continua na próxima semana, próxima publicação).

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Recalque

“Recalcamento – relaxamento da censura – formação de compromisso: este é o modelo básico da gênese não apenas de sonhos, mas também de muitas outras estruturas psicopatológicas e nesses casos podemos observar também que a formação de compromisso é acompanhada por processos de condensação e deslocamento e pelo emprego de associações superficiais com as quais nos familiarizamos no trabalho do sonho.” – Freud – Sobre os Sonhos – capítulo X – Volume V.

         Recalque e defesa fazem parte da estrutura do indivíduo. O recalque é a operação em que o aparelho psíquico procura manter no inconsciente representações ligadas a uma pulsão. A defesa incide na excitação interna (pulsão) e numa das representações a que ela está ligada. O que descrevemos como nosso “caráter” baseia-se nos traços mnêmicos de nossas impressões, na primeira infância, e que são as que quase nunca se tornam conscientes. Não há maneira de se ter acesso direto ao inconsciente ficando este acessível quando sofre algum tipo de “tradução” para o pré-consciente e consciente. A matéria prima do inconsciente são as representações-coisa que não têm maneira de serem percebidas pelo pré-consciente e consciente.

         A “tradução” está marcada pelo disfarce. Na formação de compromisso aceitamos a idéia que não queríamos saber, desde que esteja disfarçada. Forma que o recalcado vai buscar para ser admitido no consciente, retornando no sintoma, no sonho e em quaisquer outras formações do Ics.

         O sonho tem um conteúdo manifesto que se relaciona com as idéias latentes inconscientes. Os quatro elementos que fazem parte do trabalho da construção do sonho são: condensação, deslocamento, figurabilidade e elaboração secundária.

         O trabalho do sonho é apenas o primeiro em que se descobriu, dentre toda uma série de processos psíquicos responsáveis pela gênese de sintomas histéricos, fobias, obsessões e delírios; a condensação e, sobretudo o deslocamento são características invariáveis desses outros processos. A transmutação numa forma pictórica permanece como uma peculiaridade do trabalho dos sonhos.

         No sonho a condensação traduz-se pelo fato do relato manifesto, comparado com o conteúdo latente, ser lacônico; constitui uma tradução resumida, mas nem por isso deve ser assimilada a um resumo.

         No deslocamento, o interesse, a intensidade de uma representação ser  susceptível de se soltar dela para passar a outras representações originariamente pouco intensas, ligadas à primeira por uma cadeia associativa. Esse fenômeno particularmente visível no sonho encontra-se na formação dos sintomas psiconeuróticos e, de um modo geral, em todas as formações do inconsciente.

         Na figurabilidade o sonho recebe uma espécie de fachada, ele sofre uma seleção e uma transformação que o torna apto a ser representado em imagens, sobretudo visual; e assim recebe uma primeira interpretação preliminar que é apoiada por interpolações e ligeiras modificações.

         A elaboração secundária entende o conteúdo com base em certas representações antecipatórias e o ordena já no momento de percebê-lo, segundo a pressuposição de que seja inteligível. Os sonhos que passaram por esse tipo de elaboração por parte de uma atividade psíquica completamente análoga ao pensamento de vigília podem ser descritos como “bem construídos”. Na produção da fachada do sonho empregam-se fantasias de desejos presentes nos pensamentos oníricos sob a forma pré-construída e que têm o mesmo caráter dos apropriadamente chamados “sonhos diurnos”, que nos são familiares na vida de vigília.

         Também nas estruturas psicopatológicas há a formação de compromisso nos sintomas produzidos, a diferença aparece no destino do afeto (carga), o destino da representação é sempre o isolamento, o recalque.

         Na histeria a representação incompatível é tornada inócua pela transformação de sua carga em algo somático, havendo conversão para o corpo.

         Na obsessão a representação enfraquecida persiste na consciência separada de qualquer associação. Seu afeto livre liga-se a outras representações que não são incompatíveis e graças a essa “falsa ligação”, tais representações se transformam em representações obsessivas e o afeto transforma-se em ansiedade.

         Na fobia a angústia liberada cuja origem sexual não deve ser lembrada, irá apoderar-se das fobias primárias comuns da espécie humana relacionada com animais, tempestades, escuridão, ou de coisas associadas com o que é sexual (micção, defecação, a sujeira e o contágio).

         Na “confusão alucinatória” o eu rejeita a representação incompatível justamente com o seu afeto e se comporta como se a representação, jamais lhe tivesse ocorrido, mas a partir do momento em que isso é conseguido, o sujeito fica numa psicose.

         Há indivíduos normais com vida psíquica inconsciente, que não padecem de uma sintomatologia neurótica, padecem de elementos provenientes de representações inconscientes, aparecendo na vida cotidiana associados a sonhos, a atos falhos ou chistes.

                                               Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

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As Origens da Transferência, segundo Melanie Klein

M.K.  diz que a transferência opera ao longo de toda a vida e influencia todas as relações humanas, mas está preocupada apenas com as manifestações da transferência na psicanálise. E que o trabalho psicanalítico vai abrindo caminho dentro do inconsciente do paciente, seu passado vai sendo gradualmente revivido, quanto mais profundamente se consegue penetrar dentro do inconsciente e quanto mais longe no passado for levada a análise, maior será a compreensão da transferência e para isto é necessário tomar conhecimento dos estágios mais iniciais do desenvolvimento humano.

            A primeira forma de ansiedade é de natureza persecutória. O trabalho interno da pulsão de morte, segundo Freud, é dirigido contra o organismo, dando origem ao medo de aniquilamento, sendo essa a causa primordial da ansiedade persecutória. O bebê dirige seus sentimentos de gratificação e amor para o seio “bom” e seus impulsos destrutivos e sentimentos de perseguição para aquilo que sente como frustrador, o seio “mau”. Nesse estágio, os processos de cisão, negação, onipotência e idealização, são predominantes durante os 3 ou 4 meses de vida – “posição esquizo-paranóide”, 1946. A ansiedade persecutória e seu contrário, a idealização, influenciam as relações de objeto (relação entre 2 pessoas, não entrando nenhum outro objeto).

            É próprio da vida emocional do bebê que haja rápidas flutuações entre amor e ódio; entre situações externas e internas; entre a percepção da realidade e fantasias sobre ela; um interjogo entre a ansiedade persecutória e a idealização, sendo o objeto idealizado um corolário do jogo do objeto persecutório, extremamente mau. O núcleo do superego é o seio da mãe, tanto o bom quanto o mau.

            A crescente capacidade do ego de integração e síntese dá origem à segunda forma de ansiedade, a depressiva. Entre o quarto e o sexto mês a ansiedade depressiva é intensificada, pois o bebê sente que destruiu ou está destruindo um objeto inteiro com sua voracidade e agressão incontroláveis e que estes impulsos são dirigidos contra uma pessoa amada; cuja essência é a ansiedade e a culpa relativa à destruição e perda dos objetos amados internos e externos.

            É nesse estágio que se instala o complexo de Édipo. A ansiedade e a culpa acrescentam um impulso em direção ao início do complexo de Édipo, aumentando a necessidade de externalização (projetar) figuras más e internalizar (introjetar) figuras boas; de encontrar representantes de figuras internas no mundo externo.

            O impulsionamento da libido, a crescente integração do ego, das habilidades físicas e mentais e a adaptação progressiva ao mundo externo, vão levando o bebê em direção aos novos alvos, dos desejos orais em direção aos desejos genitais.

            Para M.K., o auto-erotismo e o narcisismo incluem o amor pelo objeto bom internalizado e a relação com o mesmo, o qual, na fantasia, constitui parte do corpo e do self amados. As relações de objeto estão no centro da vida emocional.

            Sustenta que a transferência origina-se dos mesmos processos que, nos estágios iniciais, determinam as relações de objeto. Na análise temos de voltar repetidamente às flutuações entre objetos amados e odiados, externos e internos, que dominam o início da infância. A análise da transferência negativa constitui uma precondição para analisar as camadas mais profundas da mente. A análise tanto da transferência negativa quanto da positiva é um tratamento indispensável para o tratamento de todos os tipos de pacientes, crianças e adultos igualmente. Devido às pulsões de vida e de morte (amor e ódio) estarem na mais estreita interação, a transferência positiva e a negativa encontram-se basicamente interligadas.

            O analista pode representar uma parte do self, do superego, ou qualquer uma de uma ampla gama de figuras internalizadas. Também supor que o analista representa o pai ou a mãe real não o levará muito longe, a menos que compreenda qual aspecto dos pais está sendo revivido. O que é revivido ou torna-se manifesto na transferência é a mistura, na fantasia do paciente, dos pais como uma única figura “a figura dos pais combinados”. Estes pais estão combinados numa permanente gratificação mútua de natureza oral, anal e genital, sendo o protótipo de situações tanto de inveja quanto de ciúme.

            Falar da situação de transferência é falar de situações totais transferidas do passado para o presente, bem como em termos de emoções, defesas e relações de objeto.

            A concepção de transferência para M.K. é algo enraizado nos estágios mais iniciais do desenvolvimento e nas camadas profundas do inconsciente, envolvendo uma técnica através da qual os elementos inconscientes da transferência são deduzidos a partir da totalidade do material apresentado. O paciente se afasta do analista como tentou afastar-se de seus objetos primários; tenta cindir a relação com ele, mantendo-o ou como uma figura boa, ou como uma figura má, deflete alguns sentimentos e atitudes vividos em relação ao analista para outras pessoas em sua vida cotidiana, e isto faz parte da atuação.

            Para ela, M.K., é impossível encontrar acesso às emoções e relações de objeto mais antigas a menos que se examinem suas vicissitudes à luz de desenvolvimentos posteriores. Somente através da ligação contínua das experiências mais recentes com as anteriores e vice-versa, somente explorando consistentemente a interação dessas experiências é que o presente e o passado podem se aproximar da mente do paciente. Quando a ansiedade e a culpa diminuem e o amor e ódio podem ser melhor sintetizados, os processos de cisão, bem como as repressões, atenuam-se, enquanto o ego ganha força e coesão.

            Um dos fatores que levam à compulsão à repetição é a pressão exercida pelas primeiras situações de ansiedade. Quando as ansiedades persecutórias, depressivas e a culpa diminuem, há menos premência a repetir continuamente.

Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

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Angústia e Superego em Melanie Klein, Uma Tentativa de Articular a Teoria Através de Um Caso Clínico.

O meu percurso em clínica vem desde 1979, quando comecei a trabalhar com transtornos motores e dificuldades de aprendizagem. O nosso terror pedagógico em escolas e mesmo em consultórios, digo nosso porque era a queixa da maioria dos profissionais desta área, era lidar com crianças hiperativas, o que fazer com elas, como proceder em sala de aula e em clínica com sujeitos que não paravam nem para nos ouvir e nos exauriam, sugando toda a nossa energia.

 Já nesta época tinha um relacionamento amplo com psicólogos, psicanalistas e psiquiatras e ouvia deles, quando tal assunto era inserido na conversa: “Hiperatividade é excesso de angústia, segundo Melanie Klein”. O próprio J. J. de Ajuriaguerra, no seu livro, “Manual de Psiquiatria Infantil”, na descrição da Síndrome Hipercinética (páginas: 238 a 245) apresenta duas formas de instabilidade extremas: com distúrbios motores prevalentes e outra que ele chama de forma caracterial com retardo afetivo e motricidade expressional.

Diante disto ficava me perguntando de onde vinha tanta angústia? Por que alguns a apresentavam de maneira tão exacerbada e outros não? E o que fazer com quem a demonstrava agressivamente? Lembro-me que ficava tentando pesquisar em mim, nas lembranças infantis, se havia passado por tal processo. A única angústia que me vinha era a vontade de urinar diante de situações stressantes, por exemplo, diante de muita lição de casa, antes de iniciar necessitava ir ao banheiro para me acalmar e, então, dar conta do recado.

            No início de maio de 2003, recebi no consultório, um menino de cinco anos de idade, encaminhado pela escola, cujas queixas principais eram: muita ansiedade, insegurança e dificuldade de aprendizagem. Os pais relataram que desde bebê, Victor (nome fictício) era agitado, mamava de meia em meia hora, depois foi espaçando para uma hora de intervalo e por fim, duas horas. Aos dois anos o pai anotou 120 atividades diferentes que a criança iniciava e largava e em seguida a este ciclo, tornava a reiniciar a partir da primeira atividade. Quando foi para a escola, aos quatro anos, começou a pedir para a mãe que não trocasse de roupa até ele retornar, dizendo: “Mamãe você está muito bonita com esta roupa, fique com ela até eu voltar da escola, está bem?” Também contaram que ele sempre foi mais apegado à mãe, brincando mais com ela e não aceitando as regras das brincadeiras que o pai propunha, desistindo das mesmas. Costumava obedecer mais às solicitações de adultos estranhos, do que aos pais. A mãe não trabalhava e o pai só trabalhava meio período, gerando uma desconfiança grande no menino do que podia acontecer na sua ausência. Quando os pais saíram da entrevista, fiquei pensando nos textos da Melanie Klein, que havíamos acabado de ler com a professora Suzana Viana, sobre o Complexo de Édipo, e o quanto a falta de acolhimento das angústias desta criança estavam levando-a a paralisar os seus impulsos epistemofílicos.

            Vejamos, os fatos estavam começando a se configurar, as experiências com crianças hipercinéticas, e o que eu ouvia a respeito delas dos profissionais da área emocional; a minha própria angústia diante da pressão escolar (sadismo uretral); o caso do Victor e sua angústia inicial não acolhida pelos pais; o que estávamos aprendendo sobre o Complexo de Édipo numa abordagem Kleiniana e agora, neste momento, o estudo com a professora Maria Luiza S. Persicano, sobre as angústias iniciais e o superego arcaico, junto com o caso de Leon descrito por Edna O’Schaughnessy. Ficou mais fácil adicionar e poder entender com mais clareza, obtendo respostas às minhas indagações iniciais.

            Antes do nascimento, segundo Klein, o bebê encontra-se com as pulsões de vida e morte fundidas. Depois do nascimento há uma defusão (separação da pulsão de vida e morte). A pulsão de morte passa a circular livremente, havendo uma ameaça de angústia de aniquilamento, o medo do desamparo, sendo esta ameaça a raiz da angústia. Já existe ego desde o início (não ainda integrado, é claro) e, ele como defesa usa a libido narcísica para defletir a pulsão de morte através do sadismo oral, fantasias contra o “seio mau”. Em conseqüência desse ataque, o objeto torna-se persecutório; para dar conta desta perseguição o ego faz um movimento contrário, ele tenta incorporar o objeto. Portanto, o ego inicial é capaz dessas duas defesas: expelir e incorporar, em fantasia. Não há instância ainda, mas existe o superego cheio de “ns” objetos persecutórios. A pulsão de morte faz com que a libido narcísica se ponha a trabalhar e ao fazer isto, acontecem os objetos persecutórios.

            M. Klein fala da importância fundamental das fantasias e dos impulsos sádicos, vindos de todas as fontes que confluem e atingem seu auge maior no início do desenvolvimento. Os processos iniciais de projeção e introjeção conduzem ao estabelecimento, dentro do ego, de objetos “bons”, bem como objetos “assustadores” e persecutórios. Essas figuras são concebidas à luz das fantasias e impulsos agressivos do próprio bebê, ele projeta sua agressividade nas figuras internas que fazem parte de seu superego arcaico. Á angústia proveniente dessas fontes acrescenta-se a culpa derivada dos impulsos agressivos do bebê contra seu primeiro objeto amado, tanto interno como externalizado. As primeiras defesas do ego se dirigem contra a angústia suscitada pelas fantasias e impulsos agressivos. O bebê está na posição esquizoparonóide que vai até os três meses aproximadamente (Klein, 1946). Nesta posição só existe ataque e defesa, não há exclusão, há o narcisismo. Conforme Klein vai recuando na teoria, o superego não só antecede o Édipo, mas também é concomitante; o Édipo aparece após o terceiro mês e continua até o Édipo clássico. O superego continua a evoluir e torna-se herdeiro do Édipo clássico; evoluindo conforme o tipo de angústia, o tipo de estrutura do ego, tipo de defesa e funcionamento específicos.

Leon, um menino de 11 anos, tinha como queixa principal pânico frente a qualquer experiência nova. Uma mudança para a escola secundária estava preste a acontecer e seus pais pensavam que ele nunca conseguiria realizá-la. Leon era o primeiro filho do casal, e quando estava com quatro meses sua mãe engravida de outro menino. Foi com dificuldade que a mãe conseguiu falar sobre a infância de Leon, disse ter sido terrível. Ele chorava horas a fio; ela não conseguia agüentar aquilo e nem alimentá-lo. “Não era o que eu esperava”, ela repetia.  Neste caso, a criança com quatro meses de idade, estava saindo da Posição Esquizoparanóide, onde somente há ataque e defesa, não há exclusão, ele projetava a sua agressividade nos objetos “maus” e tentava incorporar os objetos “bons” para se proteger da culpa de ter agredido e dos objetos persecutórios; porém a introjeção de objetos “bons” nessas circunstâncias, acabou sendo prejudicada, pois Leon não era o que ela esperava. Quando percebe que sua mãe se volta para o outro filho, ele projeta no seio todo o seu ódio e ele, o seio, é incapaz de contê-lo, pelo contrário não agüenta o seu choro e nem é capaz de alimentá-lo, provavelmente ocorreu o desmame, acontecendo uma frustração, que seu ego ainda estava imaturo para agüentar, a confirmação da exclusão muito precoce (se percebo três, estou excluído), criando uma fantasia terrorífica da mãe e ficando sem o acolhimento desta sua fantasia.

Nos primeiros estágios do Complexo de Édipo, a Posição Depressiva, apresenta-se como um quadro obscuro porque:

  1. O ego da criança é imaturo, não foi submetido à ordem da linguagem, do símbolo;
  2. O ego está sob a influência total das fantasias inconscientes, precisa projetar para dentro do outro para metabolizar;
  3. A vida pulsional acha-se na sua fase polimorfa (pré-genital);
  4. As primeiras etapas se caracterizam pelas flutuações rápidas entre objetos e finalidades, com as flutuações correspondentes (entre pênis e o seio, flutuando nas defesas).

            O bebê abandona o seio, porém ele se torna persecutório; indo procurar o pênis-mamilo, surgindo a primeira triangulação (seio – bebê – pênis-mamilo). Como defesa incorpora o objeto na categoria de objeto superegóico sádico. A pulsão libidinal procura satisfação e fica alternando entre seio e pênis-mamilo. Quando o sadismo é elevado no período anterior e no período concomitante à entrada do Complexo de Édipo, cria-se uma fantasia de defesa contra o Édipo, uma fragmentação dos objetos maus como maneira de se safar da persecutoriedade, dividindo em pedacinhos, uma defusão de impulsos, montando uma estrutura para se defender da exclusão e expelir a angústia. Foi o que aconteceu com Leon, demonstrado isto na sua primeira sessão, segundo as observações de sua psicanalista: “Ele podia transformar-se e parecer com alguma versão do seu pai, ou transformar-se e parecer com a mãe; ele também se tornava um bebezinho doente, e às vezes se parecia estranhamente maior”.  Se a criança for coisa, não tem Édipo, há uma cisão sexual, identidade cindida, numa tentativa de dividir o casal combinado porque não pode agüentar a angústia da exclusão, não podendo integrar. Assim ora se parecia com seu pai com quem estava mais ligado no momento, ora com sua mãe e, os personificava (flutuação das defesas).

            Como o ego de Leon ainda estava sob a influência total das fantasias inconscientes, ele tentava projetar para dentro do objeto estas suas fantasias de maneira que fossem metabolizadas; porém o objeto não estava mais voltado para as necessidades do bebê e sim para outro que estava a caminho, não podendo acolher e metabolizar estas fantasias; como defesa ele faz uma cisão dos objetos persecutórios, dividindo-os em pequenos pedaços que são projetados no chão da sala da analista.

 Como na ópera de Ravel, descrita por M. Klein, no capítulo 11, “Situações de Ansiedade Infantil Refletidas em uma Obra de Arte e no Impulso Criativo” (1929), do livro “Amor, Culpa e Reparação” (pág.241 a 248). Um menino de seis anos, diante da sua lição de casa (princípio de realidade), diz que não quer realizá-la, porque preferiria brincar no parque (princípio do prazer), ou colocar a sua mãe de castigo no canto do quarto. A mãe pergunta se ele fez o dever de casa e ele lhe mostra a língua. Então ela lhe diz: “Você vai comer pão seco e tomar chá sem açúcar!” Num acesso de raiva, a criança pula, bate na porta, derruba o bule e a xícara, tenta espetar o esquilo com a caneta, pula da janela e agarra o gato, grita e sacode as tenazes da lareira, atira a chaleira para o meio do quarto, rasga o papel de parede com as tenazes, abre a caixa do relógio e arranca o pêndulo, derrama tinta na mesa, cadernos e livros voam pelo ar. Diante de tantos maus tratos os objetos se rebelam e o atacam; para escapar ele se refugia no parque, mas os animais do parque entram numa disputa para ver quem morderá o menino. Um esquilo é mordido e cai gritando a seu lado. Instintivamente ele socorre o bichinho enrolando o seu cachecol em volta da ferida do animal. O menino murmura: “Mamãe!”… e os animais recuam.  Estes ataques do menino contra os objetos e animais, representam as armas do sadismo primário da criança, que usa dentes, as unhas, os músculos, etc. Só que esta criança teve a contenção da mãe e pôde se humanizar, reparando a sua destruição quando cuida do esquilo e chama por socorro pela mãe. Já Leon não teve a contenção da sua angústia e continua a esfacelar os objetos persecutórios, porque não pode integrar, fazer a reparação de objetos bons que foram precariamente introjetados, ele utiliza o recurso de separar os seus pais, colocando uma almofada de cada lado e sentando no meio das duas, numa tentativa de controlar o ataque do casal combinado e observa detalhadamente a sua analista, transferindo para ela o mesmo controle que fazia na relação com os pais. Fica claro que mudanças para esta criança era muito difícil, pois mudança implica em perda de controle, em lidar com o desconhecido, em lidar com perdas, em excluir coisas antigas para deixar entrar o novo.

            M.Klein, no mesmo capítulo do livro citado acima (pág. 243), diz: “… a fase em que o sadismo atinge seu auge, em todos os campos de onde é derivado, precede o estágio anal mais arcaico e adquire um significado especial pelo fato de ser o estágio de desenvolvimento em que as tendências edipianas se manifestam pela primeira vez. Isso equivale a dizer que o conflito edipiano se inicia sob o total domínio do sadismo. Minha suposição de que a formação do superego segue de perto o início das tendências edipianas –e que, portanto, o ego fica sob a influência do superego já nesse período inicial – explica, creio, porque essa influência é tão poderosa. Quando os objetos são introjetados, o ataque feito contra eles com todas as armas do sadismo provoca no sujeito o medo de sofrer um ataque semelhante dos objetos externos e internalizados…” (mais tarde ela dirá que o superego antecede ao Édipo, como já foi dito acima). Assim, Leon estando no auge do seu sadismo quando foi excluído pelo objeto, desenvolveu um superego muito rígido para se defender dos ataques que infligia contra os pais, que podiam se voltar contra ele e, via o genital do pai desenhado na porta da sala da analista, numa fantasia alucinatória, como um objeto cindido, persecutório, mas que ele podia controlar se permanecesse quieto e pudesse desviar o olhar da porta. Como ele poderia enfrentar o medo do desconhecido, se também não lhe foi permitido desvendar os mistérios da relação com um objeto “bom” que possa fantasiar como seu e transferir para um terceiro a sua raiva? Ele parou de projetar, dificuldade mais arcaica, ficando preso numa perseguição máxima, não havendo objetos “bons” para introjetar, somente “maus”.

            “O seu Complexo de Édipo não era do tipo em que o desejo sexual pela mãe e a rivalidade sexual com o pai são predominantes. Leon não começou com um par parental, mas com um três ameaçador – a mãe grávida com um novo bebê e um pai. Não houve rivalidade; ao invés disso, tal como ele mostrou nas sessões com as cartas de baralho, houve rendição. Leon não competiu nem com o pai nem com o irmão – ele se retirou. O início da situação edipiana foi tão intolerável para ele que ele expulsou a sua própria sexualidade e a dos pais”.(livro: “O Complexo de Édipo Hoje” – capítulo 4 – Edna O’Schaughnessy – pág 114).

            Tentando correlacionar o que Klein fala acima e a observação do paciente realizada por Edna O’Schaughnessy sobre como ele lidou com o seu Complexo de Édipo, vemos que o ego de Leon fica sob a influência de um superego arcaico e a saída para tentar distanciar a sua angústia persecutória é a retirada de sua própria sexualidade e a sexualidade de seus pais. A consciência de um par edipiano é forçada sobre ele, usando de defesas arcaicas para mantê-la à distância.

            Posso agora voltar as minhas indagações iniciais e tentar respondê-las. Crianças hiperativas do tipo caracterial, com retardo emocional, possivelmente não foram contidas na sua angústia inicial pelos primeiros objetos; a pulsão de morte fica circulando junto com as fantasias de destruição (sadismo oral, anal ou uretral) e não há objetos “bons” para se projetar, aumentado o sentimento de angústia persecutória e a culpa por destruir o primeiro objeto amado (superego). Como no caso de Victor que passava de uma atuação a outra e o pai ao invés de contê-lo ficava anotando e contando quantas atividades ele realizava, como se fosse mero espectador e não o pai. Há um aumento do seu sadismo e ele agride como defesa, para não ser atacado.

            Vejo agora, que o melhor caminho para lidar com a impulsividade e agressividade destas crianças seria a contenção, acolhendo, tentando entendê-las e interpretar a sua angústia dentro do seu histórico transferencial.

            A minha angústia frente à pressão diante de tarefas acadêmicas, nada mais era que o meu sadismo uretral colocado contra aquilo que me tirava do princípio do prazer, que era a brincadeira, como no caso do menino da ópera de Ravel. Devo mencionar que depois de alguns anos de análise ela desapareceu.

            Concluindo este trabalho pude observar o quanto aprendi sobre a abordagem Kleiniana, principalmente na integração da angústia, superego e Édipo arcaico e, citando Silvia Bleichmar, que no seu livro “A Fundação do Inconsciente”, pág. 130, falando sobre a discussão entre Klein e Anna Freud dá o seguinte exemplo: “… A criança cuja melhor arma contra suas pulsões era seu medo ao pai, tinha um superego ao qual lhe faltava, certamente maturidade. O desenvolvimento do superego infantil depende de diversos fatores que não é necessário descrever aqui. Se por alguma razão este desenvolvimento não foi completamente acabado, e se as identificações não foram totalmente conseguidas, a angústia, da qual toda a constituição do superego extrai sua origem, predomina no funcionamento deste”.

Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

                                               REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

–         Klein, M. – Amor, Culpa e Reparação – (1921 – 1945) – Imago, Capítulo 11 – “Situações de Ansiedade Infantil Refletidas Em Uma Obra de Arte e No Impulso Criativo” (1929);

–         Klein, M. – Inveja e Gratidão – 1946 a 1963- Imago, segunda edição – Capítulo 2 – “Sobre a Teoria da Ansiedade e da Culpa” (1948);

–         Klein, M. – Amor, Culpa e Reparação – (1921 – 1945) – Imago, Capítulo 8-  “Tendências Criminosas em Crianças Normais” (1927);

–         Klein, M. – A psicanálise de Crianças – Imago, Capítulo 8 – “Estágios Iniciais do Conflito Edipiano e da Formação do superego”;

–         Steiner, J; Britton, R; Feldman, M; O’Shaughnessy, E. – O Complexo de Édipo Hoje, Implicações Clínicas – Artes médicas – Capítulo 4 – “O Complexo de Édipo Invisível”;

–         Bleichmar, S. – A Fundação do Inconsciente, Destinos de Pulsão, Destinos do Sujeito – Artes Médicas – Porto Alegre/1994.

–         Anotações feitas em sala de aula do seminário teórico de “Angústia e Superego Arcaicos em Melanie Klein”, segundo ano do curso Formação em Psicanálise, professora Maria Luiza Scrosoppi Persicano.

Comentários desativados em Angústia e Superego em Melanie Klein, Uma Tentativa de Articular a Teoria Através de Um Caso Clínico.

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