DOSTOIEVSKI – A ANÁLISE DA PERSONALIDADE DE UM ESCRITOR FAMOSO, ENFOCANDO O COMPLEXO DE ÉDIPO NUMA VERTENTE FREUDIANA – Primeira parte

“Mas eu sou filho ditoso do destino e não tenho medo de tal desonra”.

                                               Édipo

         Quanto mais leio Freud, mais fico impressionada com a sua genialidade em perceber o óbvio, o que esta por detrás do manifesto tão difícil de perceber aos olhos de um leigo. Como ele vai construindo a teoria através das observações de sua clínica e reformulando-a se necessário for. O que aconteceu com o Complexo de Édipo, havendo uma evolução do conceito, que vai descrevendo e fundamentando em cada um dos seus textos em que o defende. Tentarei aqui fazer uma breve introdução do caminho tomado por Freud na construção deste conceito, no menino, tão complexo, como o próprio nome diz; antes de falar sobre a análise da personalidade de Dostoievski.

Na carta 69, dirigida a Fliess, 21 de setembro de 1897, ele diz “não mais acreditar nas suas neuróticas”, isto é, na teoria da sedução e coloca algumas razões para isso:

  • Os contínuos desapontamentos em fazer a sua própria análise, fazendo uma alegoria ao conto “A Roupa Nova do Rei” e à fala de um súdito, “o rei está nu”;
  • A ausência dos êxitos completos de suas análises, os pacientes não davam continuidade ao tratamento, havia êxitos parciais;
  • A descoberta de que no inconsciente não há indicações da realidade, não se distinguindo entre a verdade e a ficção que é catexizada com o afeto. Existe uma fantasia sexual tendo os pais como tema;
  • Na psicose mais profunda a lembrança inconsciente não vem à tona, não sendo revelado o segredo da infância nem mesmo no delírio mais confuso, aparecendo de maneira destorcida.

Assim estava disposto a abandonar a resolução completa de uma neurose e o conhecimento seguro de sua etiologia na infância, pois não obtém uma compreensão teórica do recalcamento e de sua inter-relação de forças. Discutindo se são somente as experiências posteriores que estimulam as fantasias que então retornam à infância, ou o fator de uma pré-disposição hereditária que recupera uma esfera de influência da qual ele se incumbira de exclui-lo.

Já na carta 71, 15 de outubro de 1897, ele diz: “Também em mim percebi o amor pela mãe e o ciúme do pai”; quando analisando a sua fobia ao apito de trem, descobre que está vinculado ao Complexo Parental, pois em uma das viagens de trem que faz com os pais, quando tinha por volta de cinco anos, vê sua mãe seminua e fica desejando que ela se deite com ele e o abrace, o pai aparece para retirá-la do quarto e levá-la consigo e ele se sente excluído, sozinho, chorando muito, deslocando essa sua frustração para o apito do trem (filme “Freud Além da Alma”).

 Considerando um evento universal do início da infância, mesmo que não tão precoce como nas crianças que se tornaram histéricas, reprimiram. Compara essa descoberta com a tragédia grega “Édipo Rei” de Sófocles, dramas do destino posteriores estavam fadados a fracassar, está falando da interdição do incesto e do parricídio. E continua: “cada pessoa da platéia foi exatamente um Édipo como esse, e recua, horrorizada, diante da realização de sonho aqui transposta para a realidade, com toda a carga de recalcamento que separa seu estado atual”.

Também compara a sua descoberta com o inconsciente de Shakespeare em Hamlet: “A consciência nos torna a todos covardes?” Quando ele, o personagem, hesita em vingar o pai assassinado através do seu tio, porque ele próprio planejou perpetrar a mesma ação contra seu pai, por causa da paixão pela mãe. …“A se tratar cada homem segundo seu merecimento, quem escapará do açoite?…” Sua consciência moral é seu sentimento inconsciente de culpa. E não faz o castigo descer sobre si, de modo evidente como nos pacientes histéricos, sofrendo o mesmo destino do pai, ao ser morto pelo mesmo rival.

No texto “Sonhos Sobre a Morte de Pessoas Queridas”, em “A Interpretação dos sonhos”, 1900, vai falar da diferença entre os sonhos de morte que causam sofrimento e os que não causam. Os primeiros estão relacionados com o desejo da morte daqueles com os quais sonhou; os segundos estão relacionados em encontrar uma pessoa que se viu num enterro anterior, por exemplo.

Os irmãos e as irmãs são rivais desde cedo porque estão envolvidos com a disputa do amor dos pais. Os meninos se apaixonam pela mãe e sonham com a morte do pai. E as meninas sonham com a morte da mãe, já que se apaixonam pelo pai.

Relaciona estas descobertas ao personagem da tragédia grega: “Como Édipo, vivemos na ignorância desses desejos repugnantes à moral, que nos foram impostos pela natureza; e após a sua revelação, é bem possível que todos busquem fechar os olhos às cenas de nossa infância”. Indicação dos impulsos infantis para o incesto, que persistem no inconsciente.

Segundo Goethe, Hamlet representa o tipo de homem cujo poder de ação-direta é paralisado por um desenvolvimento excessivo do intelecto. Ele toma outras decisões na morte do curioso atrás da tapeçaria e dos dois cortesãos que tramam a sua morte, mas fica indeciso em relação ao tio, porque no seu inconsciente ele próprio gostaria de ter realizado o ato de matar o seu pai.

A diferença entre o Édipo e Hamlet está que no primeiro a fantasia imaginária que subjaz ao texto é abertamente exposta e realizada como o seria num sonho. No segundo ela permanece recalcada, como no caso de uma neurose, só ficamos cientes de sua existência através de suas conseqüências inibidoras.

Os sonhos de entes queridos escapam à censura, porque é uma monstruosidade pensar nisso, quanto mais desejar. Nos sonhos de angústia a censura promove a distorção dos sonhos: ela o faz para impedir a produção de angústia ou de outras formas de afeto aflitivo.

Somente em 1910 é que Freud vai usar o nome “Complexo de Édipo”, no artigo “Um Tipo Especial de Escolha de Objeto do Homem”, para os desejos incestuosos das crianças em relação a um dos pais, até esta época chamava-o de Complexo Parental. Considera tal complexo o inverso da teoria da sedução, o pai não seduziu a histérica, foi a histérica quem o seduziu. Concluindo: na histeria a punição vem pelo lado do desejo, a punição já traz um gozo. “Ó trevas execráveis da noite que sobre mim caístes, lamentáveis, invencíveis, sem remédio! Aí de mim! Aí de mim! Ao mesmo tempo me despedaçam as dores dos meus olhos e a lembrança dos meus crimes!” (fala de Édipo na tragédia de Édipo Rei, de Sófocles).

Ao considerar a tragédia de Édipo como um sonho, liga-a aos desejos incestuosos, aos sonhos de morte de entes queridos; sonhos de angústia de morte: desejo de morte da mãe ou do pai. Vê estes desejos incestuosos como algo universal e natural e os desejos de morte como a rivalidade com o progenitor do mesmo sexo. Cujos destinos serão o recalque, tanto para os desejos incestuosos, como para os desejos hostis. “Que pode temer o homem quando o destino tudo governa e toda a previsão é incerta? O melhor que há a fazer é viver ao acaso. Não temas casar com tua mãe; já muitos homens têm sonhado que casavam com as mães; mas continua sossegado aquele que sabe que os sonhos nada são”. (fala de Jocasta em Édipo Rei, de Sófocles).

Freud começa a se perguntar de onde vem a proibição do incesto? Vai achar a resposta a sua questão nos estudos realizados pelos antropólogos. Em “Totem e Tabu”, 1913, cita o exemplo de povos primitivos, tribos australianas, que não constroem casas, não cultivam a terra, se alimentam de raízes e caças, não tem animais domésticos, não tem cerâmicas; poderiam não ter nenhuma restrição a vida sexual, porém têm todo o cuidado de não terem relações sexuais incestuosas, desenvolvendo um tabu quanto a este aspecto.

O Totem era um animal que representava a origem de um grupo, a sua relação familiar, um símbolo diferencial de um grupo. Quase sempre era um animal comestível, que não podiam matar e nem comer. O Totem representava o pai que protegia de todos os perigos, o antepassado comum do clã. E para que permanecessem protegidos, se comprometiam a não matar, não comer e a não ter relações sexuais com as pessoas do mesmo Totem.

Em algumas tribos a restrição era ainda maior, porque no mesmo clã, com vários Totens, não podiam casar entre si, surgindo um sintoma de excesso, sintoma coletivo. Se alguém infringisse a lei era morto. A relação de incesto mais temida era entre a mãe e filhos. O pai da horda primitiva ficava com todas as mulheres para si e os filhos eram mandados para fora, ou mortos, ou castrados.

Roy Lewis, um jornalista americano do “The Times”, nascido em 1913, publicou em 1960 um romance muito bem humorado dos homens das cavernas, “Por Que Almocei Meu Pai”, onde tudo o que ocorre tem sólidos fundamentos científicos, porém com jargões de etnólogos, antropólogos, zoólogos, botânicos e outros cientistas do século XX. A história se passa no Pleistoceno médio, em algum lugar da atual Uganda, há cerca de dois milhões de anos. Conta no capítulo 8, como o pai da horda consegue ludibriar os filhos adolescentes, levando-os para longe de seu território, deixando-os sem armas para que não se voltassem contra ele e, faz o seguinte discurso: “Muito bem, rapazes, devo-lhes uma explicação. Mas não tentem nenhum truque… como atirar pedras, por exemplo. Tenho todos ao alcance, e muita munição. Não teriam a menor chance. Muito bem, é tudo muito simples, e não há motivos para pânico. Andei pensando muito e conversei com a mãe de vocês sobre a questão. Vocês já passaram da puberdade. Para todos os fins e propósitos, são adultos. Oswald, você tem pelo menos quinze anos. Ernest é cerca de um ano mais novo, assim como Alexander e Wilbur. Foram treinados para caçar; conhecem as matas, savanas e montanhas. Conseguem lascar pedras com competência, embora apenas Wilbur tenha se revelado um artista. São capazes de batalhar pela própria sobrevivência. Além disso, o que constitui excepcional vantagem para rapazes da sua idade, sabe como pegar o fogo bravio e domá-lo para que siga queimando. Chegou o momento de formarem suas famílias, para o bem da nossa espécie. E foi por isso que eu os trouxe aqui. Bem ao sul, daqui a uns trinta quilômetros, há uma horda… Há outra horda… E lá encontrarão as esposas que desejam.

_ Mas, Papai – protestei –, não queremos mulheres macacos estranhas como fêmeas. Temos nossas próprias moças em casa. Eu vou ficar com a Elsie e…

_Não, não vai – Papai interrompeu. _ Você escolherá uma das garotas daqui.

_ Mas isso é um absurdo! – exclamei. _ Já está tudo acertado.

_ As pessoas sempre se acasalam com as irmãs – Oswald argumentou.    _ É o costume.

_ Agora não é mais – Papai disse. _ A exogamia começa aqui e agora!

_Quando estiverem todos felizes e casados, podem voltar para casa com as mulheres. “Teremos uma tribo, então, em vez de uma mera horda”.

O sintoma do horror ao incesto faz com que as tribos mais primitivas se ponham a policiar os pais com os filhos, os cunhados, os irmãos, os sogros com as noras, as sogras com os genros. O que nos provoca horror é porque nos sentimos atraídos. O totemismo é fragmentado para classificar a vida social das tribos primitivas.

Freud fala dos neuróticos e os seus sintomas, como conflitos e frustrações às regressões aos desejos incestuosos da infância. Para ele, entre um neurótico e um homem primitivo não há tanta distância assim. E ele segue se perguntando, o que aconteceu com os filhos que não aceitaram ser banidos da horda e mataram o pai?

No “Ego e o Id”, 1923, capítulo 3, Freud vai responder a sua questão, dizendo aonde vão parar os desejos incestuosos e os desejos hostis. Quando fala das identificações primárias, antes de qualquer escolha de objeto, nos primórdios da fase oral, sem diferenciação, a identificação primária é que vai formar o ideal de ego. As identificações primárias aos pais vão ser reforçadas no curso do complexo de Édipo. O menino se identifica com o pai e escolhe como objeto à mãe, escolha de apoio, assim chamada por que está baseada na sobrevivência do nenê, a mãe irá libidinizar o bebê. Está situação se mantém por um bom tempo. Até chegar ao Complexo de Édipo, aonde irá se identificar com o pai para se tornar o dono da mãe. A identificação com o pai muda de sentido, agora ele quer ocupar o lugar do pai, empurrá-lo para fora em razão dos desejos hostis, de rivalidade, disputa pela mãe. Quando por fim tem que abandonar a posição do Édipo pela angústia da castração, ele renuncia ao objeto e reforça a identificação com o pai, firmando a masculinidade no caráter do menino, identificação secundária com o pai, agora tem o pai internalizado, incorporado, vistoria permanente, está formado o superego, que passa a ser o herdeiro do Complexo de Édipo. O herdeiro da libido colocada com os objetos incestuosos, sendo este o destino mais importante na vida de uma pessoa. Tomou a força proibidora do pai, não matar, não cometer incesto. O que acontece com o ego quando não recalcou os desejos incestuosos, ele não sabe, mas o superego sabe e castiga o ego. O superego nos transforma em crentes, a nossa moral repousa no superego.

Quando Freud se põe a analisar a personalidade do grande escritor russo, Dostoievski, ele o faz sob a vertente do Complexo de Édipo. Cita quatro facetas da personalidade do escritor: o artista criador, o neurótico, o moralista e o pecador. O artista criador é o menos duvidoso, comparando-o com Shakespeare, citando como obra mais grandiosa, o romance, “Os Irmãos Karamassovi”.

O moralista é o aspecto mais acessível, surgindo para Freud uma dúvida, para ele o homem moral é aquele que reage à tentação tão logo aparece, sem submeter-se a ela. Um homem que alternadamente peca e em seu remorso erige altos padrões morais, fica exposto à censura de tornar as coisas fáceis demais para si. Não alcançou a essência da moralidade, a renúncia. Aqui Freud parece nos falar que não houve a instalação de um superego suficientemente introjetado para que o escritor pudesse renunciar aos desejos incestuosos e hostis. Ponto fraco da personalidade do escritor, depois de violentas lutas para reconciliar as exigências pulsionais do indivíduo com as reivindicações da comunidade, caiu na posição retrograda de submissão à autoridade temporal e à espiritual, venerando o Czar e o Deus dos cristãos.

Freud aponta que no criminoso dois traços são essenciais: um egoísmo sem limites e um forte impulso destrutivo, ausência de amor, a falta de uma apreciação emocional de objetos (humanos). Vê tendências semelhantes em Dostoievski, a paixão pelo jogo e sua possível confissão de um ataque sexual a uma garotinha. Esta pulsão destrutiva poderia tê-lo transformado num criminoso, dirigindo-a contra a sua própria pessoa (para dentro, em vez de para fora), sendo uma expressão do seu masoquismo e sentimento de culpa. Nas coisas mínimas era um sádico para com os outros e nas maiores um sádico para consigo mesmo.

Freud seleciona da personalidade de Dostoievski três fatores, um quantitativo e dois qualitativos: a intensidade de sua vida emocional; sua pulsão inata e pervertida sado-masoquista; seus dotes artísticos inanalisáveis. Juntando-se a tudo isso a presença simultânea da neurose, um indício que o ego não conseguiu fazer uma síntese, ao tentar fazê-la, perdeu sua unidade. A sua epilepsia constituía apenas um sintoma de sua neurose, classificada como histeroepilepsia, mas que não se pode ter certeza por dois motivos:

  • Dados anamnésicos da epilepsia são deficientes e imerecedores de confiança; No livro de Dominique Arban, “Dostoievski”, na página 20 ele diz: “O primeiro biógrafo e a segunda esposa do escritor conheceram – mas não revelaram – o segredo relativo à causa que determinou a primeira crise epilética da criança: sabe-se apenas que aos sete anos, Fédia correu ao quarto dos pais. Que espetáculo se ofereceu aos seus olhos? Perdeu os sentidos. Não sabemos mais nada, mas não é suficiente?…”
  • Compreensão dos estados patológicos combinados com crises epileptiformes é imperfeita.

A “reação epiléptica” está à disposição da neurose, para livrar-se, através de meios somáticos, de quantidades de excitação com as quais não pode lidar psiquicamente.

Há uma diferença entre a epilepsia orgânica e a afetiva. O primeiro tipo tem uma moléstia no cérebro, a segunda é neurótica, expressão de sua própria vida mental. Suposição mais provável é a de que as crises remontavam muito atrás em sua infância, sintomas mais brandos que não assumiram forma epiléptica até depois da experiência dilaceradora de seu décimo oitavo ano de vida: o assassinato de seu pai. A vinculação existente entre o assassinato do pai em “Os Irmãos Karamassovi” e a sorte do próprio pai de Dostoievski.

Por : Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu (continua na próxima semana, próxima publicação).

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