Quase todo mundo conhece a história original (grega) sobre Narciso: um belo rapaz que, todos os dias, ia contemplar seu rosto num lago. Era tão fascinado por si mesmo que, certa manhã, quando procurava admirar-se mais de perto, caiu na água e terminou morrendo afogado. No lugar onde caiu, nasceu uma flor, que passou a chamar narciso.
O escritor Oscar Wilde, porém, tem uma maneira diferente de terminar esta história.
Ele diz que, quando Narciso morreu, vieram as Oréiades – deusas do bosque – e viram que a água doce do lago havia se transformado em lágrimas salgadas.
“Por que você chora?”, perguntaram as Oréiades.
“Choro por Narciso.”
“Ah, não nos espanta que você chore por Narciso”, continuaram elas. “Afinal de contas, apesar de todas nós sempre corrermos atrás dele pelo bosque, você era o único que tinha a oportunidade de contemplar de perto sua beleza.”
“Mas Narciso era belo?”, quis saber o lago.
“Quem melhor do que você poderia saber”, responderam, surpresas, as Oréiades. Afinal de contas, era em suas margens que ele debruçava todos os dias.”
O lago ficou algum tempo quieto. Por fim, disse: “Eu choro por Narciso, mas jamais havia percebido que Narciso era belo. Choro por ele porque, todas às vezes que ele se deitava sobre minhas margens, eu podia ver, no fundo dos seus olhos, a minha própria beleza refletida.”
No texto de Oscar Miguelez, “Narcisismo, religião e cultura: as torres gêmeas”, ele nos chama a atenção para uma das particularidades do conceito de narcisismo freudiano que é concebido dentro de uma dialética intersubjetiva eu/outro. É do encontro do olhar totalizador da mãe que um “eu” pode ser estruturado. A alteridade possibilita a subjetividade. Exterioridade e interioridade circulam em bandas opostas, mas inseparáveis. Impossível pensar uma sem a outra. É um equívoco imaginar o narcisismo como solipsismo ou como anobjetalidade.
É no sentido dessa intersubjetividade que o narcisismo se presta de maneira singular a conceber-se como uma “ montagem”. Não há Narciso sem um outro que sustente a posição narcísica.
Deste ponto de vista a versão final do mito de Narciso de Oscar Wilde está correta. Narciso não vê o lago, só vê a si mesmo refletido nas águas do lago; assim como o lago não vê a beleza de Narciso e nem chora por sua perda, chora por não ver a sua beleza refletida nos olhos de Narciso. Aparecendo a “montagem” entre Narciso e as águas do lago, um sustentando a posição narcísica do outro.
Fazendo à algumas semanas atrás o diagnóstico de uma menina de dez anos, que apresentava um atraso motor e cognitivo, pedi-lhe desenhos-estórias para averiguação do emocional. Na entrevista a mãe havia me contado que entre os quatro e seis meses de vida esta menina havia apanhado da babá e que ela só soube porque os vizinhos vieram contar dos maus tratos; e que atualmente, a menina, espera o pai chegar para jantar, só come o que ele come e só vai dormir quando ele dorme, apresentando enurese noturna.
Estes desenhos foram sofrendo uma deterioração e as estórias foram ficando cada vez mais agressivas e desconectadas; comecei a me questionar se esta menina estava com um funcionamento psicótico.
No primeiro desenho ela fez um menino com uma faca na mão e uma cobra sangrando. Contou: “ Aqui tinha uma cobra, o menino falou: Sai daqui, cobra! Ele tinha uma faca na mão. Ele matou a cobra com a faca e ficou saindo sangue. Ele matou a cobra porque ela ia morder ele.” Título que deu para a estória: “A cobra e o Felipe”.
O conflito psicótico se instala precocemente. Seu paradigma é o mito de Narciso, com uma estrutura fundamentalmente dual. O ego não se diferencia bem de seus objetos primários, e o acesso a organização genital é muito precário, se é que existiu. O ego não alcançou um grau de coesão interna que lhe dê estabilidade e está sempre ameaçado de desmoronar-se. Este ego mal constituído não é capaz de fazer uso do mecanismo da repressão e apela para defesas mais arcaicas, do tipo da identificação projetiva, a negação da realidade psíquica ou a renegação da realidade externa. Não se constitui um inconsciente diferenciado da consciência. A angústia dominante é a angústia da fragmentação do ego, pelo qual o sujeito busca desesperadamente uma imagem de si que possa sustentar o seu ego.
O conflito psicótico é fundamentalmente intrasistêmico, por sua vez associado a um conflito intersistêmico, com a instância superegóica e a realidade.
Vi neste primeiro desenho, relacionando-o com a estória narrada, um deslocamento para uma figura mais forte que ela, um menino, que pode afastar dela todos os perigos, defendendo-a contra as maldades persecutórias que a afligem. O ego está fragmentado e o único recurso é buscar forças fora de si, numa fantasia narcísica, de poder.
No segundo, desenhou um urso e um leão lutando, o leão sangrando; os dois animais com uma aparência agressiva, unhas e dentes pontiagudos. Contou: “O leão e o urso estão lutando porque eles queriam ver quem era o mais forte. O urso disse: Eu vou ganhar de você! Você não vai me morder! Eu vou te morder sim e vou chupar todo o seu sangue! O leão ganhou.” Título: “O leão e o urso.”
Ao ver este desenho e escutar esta estória fiquei refletindo sobre o texto “O canibal melancólico”; onde o conceito de incorporação sustenta-se em uma imagem que garante à oralidade a função de um modelo, permitindo dar às formas primitivas de identificação a evidência de um conteúdo corporal. Freud e Karl Abraham designaram sob o termo canibalismo a expressão desse gozo da unidade violenta, na perda de qualquer limite.
O canibalismo deriva de uma verdadeira transgressão imaginária de uma falta (privação, perda, abandono, separação) cujo desconhecimento assume a figura de desmentido do próprio real. Não há margem para engano: quaisquer que sejam as expressões clínicas tomadas pela angústia de separação (no duplo sentido de “separar-se de” e de “ser separado”, ou seja, “em pedaços”), o canibalismo compreende essa agressividade presente na própria angústia de perder o objeto de amor e de aniquilá-lo em lugar de a ele renunciar destacando-se dele. O luto canibal é claramente essa solução incestuosa da união alimentar ao objeto de amor cujo desaparecimento pode entrar em um saber, mas – segundo a lei de clivagem – permanece decididamente fora do alcance do crer.
Assim como Narciso devorou a sua própria imagem, jogando-se no lago para poder absorvê-la; o lago também o devora para ficar com a imagem refletida nos olhos de Narciso.
Quando vi esta criança pela primeira vez, sua hipotonicidade de olhos me fez pensar em alguma síndrome, depois em melancolia. Seu histórico nos remete à segunda hipótese, criança que na época do desmame sofreu maus tratos; além da perda do seio, de se sentir desamparada e frustrada pelo objeto, ainda apanhava, sentindo-se mais desamparada, não havendo possibilidade de integração do ego. O que vemos na melancolia é que o eu vai junto com o objeto que se perdeu; não há um eu que suporte a perda e procure uma nova relação, não há possibilidade de distinção entre o eu e o objeto. O que fracassa na melancolia é que não há uma subjetividade que suporte a perda.
A incorporação canibal não é de forma alguma o ato simbólico da resolução da perda. Ela é a satisfação-imaginária da angústia alimentando-se do objeto perdido – objeto cuja “perda” foi de algum modo necessária para que ele permanecesse vivo e presente em sua realidade primitiva alucinatoriamente conservada. O canibalismo seria a expressão mítica de um luto melancólico – espécie de assassinato – de um objeto, sob o encanto do qual o eu foi colocado e do qual ele não consegue resolver-se a se separar, como mostra a angústia de mantê-lo presente a partir de sua ausência.
Este segundo desenho mostra o desejo de incorporar e beber o sangue do outro para se tornar mais forte e poder sobreviver à angústia desta separação que foi traumatizante para esta criança.
No terceiro desenho realizou um céu, nuvens, chuva, sol, uma figura humana, um cachorro e um osso. Contou: “Céu, chovendo, sol, palhaço falando com o cão. Queria pegar o osso, mas estava chovendo e não podia pegar o osso. Volta aqui cão! O palhaço podia dar ração para o cão. O palhaço gosta do cão e o cão gosta do palhaço. Título: “O cão e o osso.”
Volta aqui a questão do ser alimentado, a ambivalência, a resolução do problema, mas que não aconteceu, e a defesa narcísica da sustentação do amor entre o palhaço e o cão. Havia um problema no estar sendo cuidada e alimentada, havia a mãe (o sol), porém também existia o obstáculo a babá (a chuva) que não permitia uma saída para a busca da satisfação (o osso), o palhaço (o pai) poderia ter interferido se não fosse tão ausente e percebido o que estava ocorrendo, o palhaço representa um papel, mas não assume o lugar de, assim é melhor continuar pensando que existe afeto entre eles (o palhaço e o cão).
Freud assinala que na formação de sintomas na psicose esquizofrênica se perde o investimento da representação inconsciente do objeto primordial. Héctor Garbarino pensa que como esta representação está fusionada com as representações de si, do ego do sujeito, a perda dessa representação vem acompanhada da perda do próprio ego. O problema do psicótico é o de sobreviver, já que sua existência está ameaçada por não dispor de um ego com representações autônomas de si, independentes das representações do objeto primordial. Se por diversas razões sente que perdeu o objeto primário, seu ego não pode sofrer esta perda sem desintegrar-se.
Se o neurótico modifica a realidade segundo suas fantasias, o psicótico a constrói de novo a seu modo, buscando reconectar-se com os objetos perdidos. Freud assinalou que o delírio que aparece como a manifestação da enfermidade constitui, na realidade, um processo de cura.
Neste terceiro desenho-estória, descrito acima há uma tentativa de resgatar o objeto primário, transferindo a culpa para outro objeto e mesmo assim com um aplacamento do sentimento de amor dual, “o palhaço gosta do cão e o cão gosta do palhaço”.
No quarto desenho fez duas figuras humanas, uma bem maior do que a outra, com chifres e dentes de vampiro, com o braço comprido querendo alcançar a figura menor; novamente o sol e nuvens. Contou: “O demônio e o menino. O demônio jogou um raio para matar o menino. O menino morreu e foi para o cemitério. Porque o demônio não gostava de criança, desorganizava a casa dele.” Título:“ O demônio e o menino.”
Seu deslocamento é sempre para a figura masculina, que sente como figura mais forte, mais poderosa. Novamente a ambivalência, sol e nuvens; a figura terrível de um demônio que lança raios para matar quem desorganiza a sua casa. Vemos aí uma identificação com a figura masculina, talvez por ter perdido o objeto primário ou por não ter podido se identificar com ele. Na análise da melancolia, a perda real ou emocional de um objeto amado causa como característica principal uma cruel autodepreciação do ego, combinada com uma inexorável autocrítica e muitas autocensuras. As análises demonstram que essa depreciação e essas censuras aplicam-se, no fundo, ao objeto e representam a vingança do ego sobre ele. A sombra do objeto caiu sobre o ego. A introjeção do objeto é inequivocamente clara.
Essas melancolias mostram o ego dividido, separado em duas partes, uma das quais vocifera contra a segunda. Esta segunda parte é aquela que foi alterada pela introjeção e contém o objeto perdido. Porém a parte que se comporta cruelmente não a desconhecemos. Ela abrange a consciência, uma instância crítica dentro do ego, que até em condições normais assume uma atitude crítica para com a última. Levanta-se a hipótese de que no ego se desenvolve uma instância capaz de se isolar do resto daquele ego e entrar em conflito com ele. A essa instância chamamos de ideal de ego e lhe é atribuído a função de auto-observação, a consciência moral, a censura dos sonhos e a principal influência na repressão. Ele é o herdeiro do narcisismo original em que o ego infantil desfrutava de auto-suficiência; gradualmente reúne das influências do meio ambiente, as exigências que este impõe ao ego, das quais este não pode sempre estar à altura; de maneira que um homem, quando não pode estar satisfeito com seu próprio ego, tem possibilidade de encontrar satisfação no ideal do ego que se diferenciou do ego. Nos delírios de observação a desintegração dessa instância tornou-se patente e revelou sua origem na influência de poderes superiores e dos pais.
No quarto desenho-estória vemos uma autocrítica muito grande à figura do menino que é destruído pelo raio do demônio, ele desorganizou a vida deste demônio, portanto merece morrer e ser enterrado, para não mais molestá-lo.
Quinto e último desenho-estória, ela fez: sol, nuvens (agora pretos, nos outros eram amarelos e azuis), um rio, um castelo preto sobre o rio marrom e uma figura humana presa dentro do castelo. Contou: “Rio Tietê, castelo preto porque era de noite. O rio falou mentira. Falou mentira! Você vai para a morte! Não ia para a morte porque todo mundo contava mentira, dia do azar. Ficou o azar do menino. Ficou tudo cinza.” Título: “O castelo e o menino.”
Neste último desenho-estória percebe-se com clareza uma clivagem de ego expressa no grafismo, na verbalização e no conteúdo da estória. Há sol e nuvens, mas é noite. Há um rio que traz vida e movimento, porém é o Tietê (rio sem vida, poluído). Há um castelo que mostra riqueza e proteção, mas ele também aprisiona. Há o menino que conta mentiras e pode morrer por isto, no entanto não morre, fica aprisionado no azar, o azar de não ser o ideal de ego. A construção gramatical também sofre uma clivagem, frases soltas, sem conexão, sem o verbo que promove a ação.
Quando Freud se interessou pelas diferenças entre as estruturas clínicas, expôs a hipótese de que em cada uma o ego entra em conflito com algum de seus três grandes senhores: as pulsões, o id, nas neuroses de transferência, a realidade supostamente exterior nas psicoses (nas perversões) e o superego nas melancolias (às quais denominou de neuroses narcísicas).
Em cada uma destas estruturas, o ego se opõe a algum de seus senhores, ao defender-se de seus representantes psíquicos. Assim defende-se de certas representações e de certos pensamentos (representantes psíquicos da pulsão) mediante a repressão, ou se defende de certos juízos de existência (representantes psíquicos da suposta realidade) mediante a cisão e/ou o desmentido.
No caso das melancolias, Freud afirma que o conflito fundamental do ego não guarda relação nem com a pulsão nem com a realidade, mas com o superego. Ele sustentou que nas melancolias o superego é puro cultivo da pulsão de morte. Mas, se o conflito do ego se centra na relação com o superego, então cabe indagar em que consiste a defesa. Não se trata meramente da retirada dos investimentos e dos contra-investimentos, em face das frases admonitórias do superego, mas de outro mecanismo que culmina com o ego à mercê das auto-repressões, e em outras ocasiões de um mecanismo diverso, que consiste na refutação de um juízo do superego mediante um sacrifício. Dito de outro modo, podem ser erigidas duas defesas nas estruturas narcísicas perante o superego, a cisão e o desmentido. Quando sobrevem a cisão dos juízos do superego, também ocorreu o desmentido, mas a inversa não é necessária: pode haver desmentido sem cisão, como ocorre nas estruturas depressivas, não melancólicas.
A cisão do superego é correlativa de uma retirada dos investimentos da formação de ideais, e em conseqüência o superego é transformado em puro cultivo da pulsão de morte. Freud sustentou que no superego se reconciliam a realidade e as pulsões, e neste sentido cremos que a cisão do superego é uma defesa que atenta contra esta instância enquanto representante da realidade.
Tanto no mito de Narciso como nas estórias desta menina vemos claramente a defesa narcísica, o superego sendo transformado em cultivo de pulsão de morte. Morre-se por se quer alcançar algo inatingível, morre-se ou há o desejo de morte por não se conseguir atingir um ego ideal, aquele que é formado por uma “montagem”, sustentado pelo olhar de outro.
Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu
Referências Bibliográficas:
Freud, S. – “Introdução ao Narcisismo” – 1914 – Volume XIV – Edição Standard Brasileira.
Freud, S. – “Luto e Melancolia” – 1917 – Volume XIV – Edição Standard Brasileira.
Freud, S. – “Identificação” – 1921 – Volume XVIII – Edição Standard Brasileira.
Miguelez, O – “Arendt com Freud: o mal em questão.”
Miguelez, O. – “Narcisismo, religião e cultura: as torres gêmeas”.
“ O Canibal Melancólico” – Depressão.
Garbarino, H. – “Estudos Sobre Narcisismo” – 1986 – Biblioteca Uruguaia de Psicanálise – Volume II.
Maldavsky, D. – “Estruturas Narcisistas Constituição e Transformações” – 1992 – Imago Editora.
Anotações das Aulas do Seminário Teórico de Oscar Miguelez.
Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.