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PERVERSÃO: DUAS TEORIAS DIFERENTES QUE CONVERSAM SOBRE O MESMO CONCEITO – Parte II

ALÉM DE FREUD: PIERA AULAGNIER, JEAN CLAVREUL, MARIA HELENA SALEME , GEORGES LANTERI-LAURA.

Falar de perversão é ter que olhar para a feminilidade e reconhecer ou não as diferenças sexuais, as diferenças de gênero, a oposição entre feminilidade e falicidade; já que a perversão está baseada no fetichismo, na recusa à castração, na recusa às diferenças sexuais. Freud teve muita dificuldade em desvendar o feminino, quando olhava para ele era sempre pensando e confrontando com o masculino, mesmo porque o sexo feminino, como o conhecemos atualmente, só foi inventado no século XVIII, com o aparecimento da palavra ‘vagina’. O útero era chamado de ‘falo negativo’.

“Seguindo Freud, de Feminilidade e de Análise Terminável e Interminável, podemos dizer que a feminilidade é da esfera dessa primeira ligação da criança com a mãe e que está especialmente relacionada com a histeria. A histeria é uma neurose de defesa, pela qual o sujeito se protege da feminilidade por meio da falicidade. O corpo pode ser tomado pelo psíquico em uma tentativa insuficiente de representação, sendo a conversão uma tentativa de expressão desse excesso sem representação e, portanto, uma tentativa de autocura. A histeria é uma feminilidade fálica.”

Como a ‘neurose é o negativo da perversão’, o perverso não faz sintoma, não fica comprimido entre o seu desejo e o recalque, ele simplesmente se recusa a aceitar a não falicidade materna e a substitui por um objeto qualquer que lhe permite prosseguir com o seu desejo, sem se importar com o desejo do outro. Aliás, fico imaginando que para o perverso o desejo do outro nem existe. O que será isso? O outro tem desejo?
Para Piera Aulagnier-Spairani, citando Freud em seu texto sobre a Feminilidade:

“A descoberta da castração marca uma etapa decisiva na evolução da menininha. Três caminhos são oferecidos a ela: o primeiro desemboca na inibição sexual ou na neurose; o segundo, numa modificação de caráter, na formação de um complexo de virilidade; e o terceiro numa feminilidade normal.”(…) “O ponto indicado por Freud como aquele de onde devemos partir para nos interrogarmos sobre a feminilidade coincide com o ponto de onde se origina o fetichismo. Ora, que é que vê aquele que poderá tornar-se o futuro fetichista? Não que ele seja privado de algo, mas que a mãe não tem falo. A descoberta da castração tira daí sua determinante. Seu amor se dirigia a uma mãe fálica e não a uma mãe castrada”. (…) “Qualquer que seja o sexo do sujeito, essa descoberta obriga-o a um requestionamento de tudo que faz parte do desejo com relação à falta que constitui seu objeto.”

Numa nota de rodapé, do mesmo texto de Piera, ela explica melhor o que ela chama de requestionamento:

“A angústia de castração tal como é geralmente definida pelo homem – ‘medo de perder seu pênis’ – não passa de uma outra maneira de formular essa verdade. Se o objeto de desejo por excelência não tem o falo, objeto privilegiado de seu desejo, então nada poderá garantir ao sujeito que ele como objeto do desejo materno não possa da mesma forma tornar-se carente dele.”

Um exemplo disso nos é dado quando Freud tenta analisar o comportamento sexual de Leonardo da Vinci, em seu texto: “Uma lembrança infantil de Leonardo da Vinci”, 1910. Embora não tenha ficado claro o seu homossexualismo, ele se cercava de garotos que eram tomados como ajudantes e discípulos, numa tentativa de reviver o amor da mãe que lhe foi dedicado quando ainda menino e rapaz. Para Freud Leonardo recusa-se a enxergar a castração materna e a vê investida de emblemas fálicos, então seu objeto de amor só poderia ser alguém tão fálico quanto sua mãe.
Como já citado acima, na introdução, Piera se faz a pergunta: “Pode-se falar da perversão como uma estrutura?” E irá ressaltar os pontos que serviram de referência para justificar a sua resposta: “Recusa, Lei e Desafio”. Quanto à recusa ela falará do desejo da criança que tem como dimensão identificatória o desejo materno, de ser o único representante do desejo da mãe. O pensamento onipotente infantil é acreditar-se o desejo da mãe e que a força do seu desejar possa também influenciar o desejo materno. Assim o menino recusa-se a reconhecer que o objeto do desejo materno está em outro lugar que não ele mesmo. Num outro momento, com o princípio de realidade, a descoberta do sexo feminino, que ele irá se defrontar com um mundo de gozo do qual ele está excluído e ao qual a mãe tem acesso somente através do pai. Aparecendo neste momento, o fantasma da castração, fantasma que só poderá ser elaborado no momento em que percebe a diferença entre o corpo sexuado e o poder do gozo.
Para a menina essa descoberta tem um efeito de fascinação, no momento em que descobre que não há jeito de desfazer a diferença, transformando o que poderia se tornar em horror (permanecendo para o perverso) em algo fascinante. A inveja do pênis se transforma em ‘inveja de um filho do pai’. É nisto que reside, para a mulher, a sua relação com a feminilidade.
Aceitar a castração é sair do paradigma – ‘a mãe foi castrada pelo pai’- e substituí-lo por outro: ‘a mãe é desejada pelo pai e é desejante dele’. É este ponto que falha no perverso, ele não faz a passagem de um paradigma para o outro, fica fixado no primeiro.
Já a lei para Piera, na estrutura perversa, está claramente explicada no contrato estabelecido entre o perverso e o seu companheiro ou companheira; nada neste contrato lembra uma declaração de amor, o imperativo imposto ao sujeito é o de gozo, o gozo como um dever, como um sacrifício. O estatuto que o perverso tenta se dar enquanto sujeito da lei, é que se deve ter que desejar. A lei sempre estará em lugar diferente daquele onde se coloca para o outro; ela é o seu saber secreto, a razão de ser de seu desafio.
O desafio aparece explicitamente no comportamento do perverso, pois o seu objetivo é o escândalo, chocando aos que tentam observar ‘os bons costumes’. O que é escandaloso para o espectador é trazer à luz algo que compartilha com o perverso. O que o perverso desafia sem saber é o real. E se ele desafia esse real pelo viés da lei é porque a lei vem, em nome do saber, designar e codificar a realidade. Toda lei está baseada sobre um postulado de um saber que se quer verdade porque esse saber tem a pretensão de encontrar suas fontes no real.
O perverso desafiará a realidade do sexo feminino, seja através do fetiche em sua função de véu, seja disfarçando a mulher como agente da castração, dando-lhe esse poder absoluto, tornando-se o mestre que lhe proporcionará o prazer, o gozo; e do lado da mulher, encontraremos as noções de escravo e de dor. Porém há uma diferença: se o masoquista demanda a dor, o sádico demanda que o outro demande sofrer. O masoquista, como o sádico, pouco importa o lugar de partida do sujeito, postula que o outro, sujeito de uma demanda, é aquele que ignora o que é o objeto do seu desejo e que é ele, o próprio perverso, o único que sabe a verdade a respeito do gozo do outro; ponto importante da temática perversa.
Georges Lanteri-Laura em seu livro: “Leitura das Perversões”, discute exaustivamente se a perversão, no parecer psiquiátrico e psicanalítico, em vários autores, no decorrer da história, é vista como uma estrutura, como constituição ou como condutas de comportamentos. E conclui dizendo:

“Da primeira revolução russa até a crise mundial, o discurso psicanalítico, afigurou-se, a princípio, subversivo e escandaloso: fez do perverso alguém próximo do normal e lembrou ao normal que ele não passava de um perverso honorário. Vimos que, posteriormente, esse discurso evoluiu através de múltiplos meandros, primeiro os de Freud e, depois, os de seus discípulos, dos ortodoxos e dos outros, fazendo advir a noção de estrutura perversa, que desempenhou, quarenta anos depois de E. Dupré, exatamente o mesmo ofício da noção de constituição, e também restaurando um neo-moralismo em que o acesso ao estádio genital garantia uma função normativa, da qual a cultura não parece poder libertar-se.
Assim, elucidamos de que maneiras a apropriação dos comportamentos perversos pelo discurso psiquiátrico acarretou, ao mesmo tempo, a elaboração parcial de um certo conhecimento da sexualidade e o fornecimento permanente à cultura de regulamentação das condutas, assegurada por um referencial admissível. Está fora de dúvida que, sem essa função social, esse conhecimento jamais teria encontrado condições eficazes de realização. Aliás, a única perversão autêntica talvez seja apenas a inibição do gozo”.

Jean Clavreul vai nos chamar a atenção para um outro modo de funcionar, a formação do par perverso, ou do casal perverso. Ele vai nos dizer sobre os mesmos componentes já citados por outros autores, que acabam atraindo e ligando o casal, porém o mais importante é a importância dada ao olhar do outro:

“Voltando mais diretamente a nosso assunto, iremos nos perguntar o que acontece com o outro no caso, ou seja, com o parceiro do jogo perverso. É claro que é como portador de um olhar que o Outro será o parceiro, ou seja, antes de qualquer coisa o cúmplice do ato perverso. Aqui tocamos naquilo que distingue radicalmente a prática perversa em que o olhar do Outro é indispensável porque é necessário à cumplicidade, sem o que não existiria o campo da ilusão, e o fantasma do perverso, que não somente se adapta muito bem à ausência do olhar do outro mas exige, para concluir, satisfazer-se na solidão do ato masturbatório. Se o ato perverso distingue-se sem equívoco do fantasma que age, é portanto nessa linha em que se inscreve o olhar do Outro que distinguimos suas fronteiras, olhar cuja cumplicidade é necessária para o perverso, enquanto é denunciador para o normal e para o neurótico.”

Um exemplo da necessidade desse olhar ficou-me claro quando no filme “Dogville”, no último ato (o filme é apresentado como uma peça de teatro), a personagem principal, filha de um gangster, concorda com o pai em exterminar os moradores da vila, que haviam abusado sexualmente dela, tornando-a uma escrava também. Um dos participantes da gangue pede aos dois, pai e filha, que abram as cortinas do carro, para que eles, os componentes da gangue, possam também participar, através da observação, do ato da chacina. Ou, quando a personagem principal dá a ordem para matar os filhos de uma das habitantes da cidadezinha em sua presença e só parar se a mãe conseguir ficar olhando e não chorar.

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