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PERVERSÃO: DUAS TEORIAS DIFERENTES QUE CONVERSAM SOBRE O MESMO CONCEITO – Parte IV – Berenice de Abreu

Ansiedades Primitivas: Manifestações na Sexualidade

Em seu texto “Observações sobre a Relação da Homossexualidade Masculina com a Paranóia, a Ansiedade e Narcisismo”, 1949, Rosenfeld demonstra como as ansiedades muito intensas da posição esquizoparanóide favorecem o desenvolvimento de tendências homossexuais como defesas; porque a homossexualidade está relacionada com a idealização do pai bom, como recurso para se defender contra o pai perseguidor; é um recurso usado pelo sistema de defesa maníaca cuja tríade é: o controle, o triunfo e o desprezo. Descreve a importância dos processos projetivos, onde a homossexualidade do tipo narcísico em que outro homem se identifica com o seu eu por meio da projeção. E esse mecanismo de identificação projetiva busca suas raízes nos impulsos infantis mais primitivos de forçar o eu para dentro da mãe. A fixação neste nível primitivo, posição esquizoparanóide, é responsabilizada pela combinação frequente da paranóia com a homossexualidade.
Betty Joseph, 1971, no artigo “Uma Contribuição Clínica para a Análise de Uma Perversão”, conta o caso de um paciente que na transferência atuava da mesma maneira que agia com a sua esposa e com as demais pessoas com quem mantinha contato, principalmente com as mulheres; ficava em silêncio, descaracterizava o que a analista dizia, inteletualizava, levando a analista a atuar. Esse paciente tinha uma espécie de fetiche, usar uma roupa de borracha no contato sexual. Este seu ‘artifício’ era, na realidade, para evitar contato, uma forma de proteção, um desligamento. Ele seduzia para em seguida frustrar, criando situações onde as pessoas necessitariam dele e experimentariam a dor de depender dele. O intuito era exercer o sadismo, o prazer subordinado à dor, o desejo era negado e o superego agia de modo sádico; toda vez que retornava o que era recusado, sentindo-se frustrado, erotizava a dor para evitar a angústia.
No texto de Hanna Segal, 1982, “Uma Fantasia Necrofílica”, é apresentado um caso de um paciente necrófilo, demonstrando por meio desse exemplo que na dinâmica do perverso aparece a fusão patológica, o sadismo e a sexualidade, isto é, a forma deste caso se expressa na sexualidade. Ela vai nos mostrando que a intenção não é só tirar a vida e devolver a vida, num constante liga-desliga, é uma evitação com o vínculo, porque numa relação sadia o risco é o estabelecimento do vínculo. No momento em que aparece o narcisismo, ponto mais frágil do paciente, ele se mostra moribundo, porque a relação que estabeleceu com o seio é de sadismo, o sugar muito para matar; para reavivar o seio precisa se identificar com ele. A relação com a analista ocorre na mesma linha, ou ela ou ele tem que morrer, como funcionava nas primeiras relações objetais.
Meltzer, 1968 , vai nos dar um novo elemento dentro da dinâmica perversa, a ética adoece, o paciente perverso fica fixado na sexualidade infantil polimorfa, onde aparece a imaturidade, o exibicionismo e o lúdico, para terminar numa ‘festa’, a masturbação; surgindo a onipotência para dar conta do sentimento de impotência, o aniquilamento do ego. Quando a ética está doente, o superego que deveria tolher, passa a ser permissivo. No adulto, quando a ética predomina, a sexualidade polimorfa só aparece nas preliminares; a sexualidade adulta é marcada pela privacidade, modéstia e humildade, o contrário da sexualidade infantil e a do perverso.
Armando Colognese Jr., 2003, em “Um Estudo Sobre a Perversão”, contribui para a compreensão do psiquismo perverso, levantando a questão que a única forma de sexualidade perversa é a sado-masoquista: primeiro porque perverte a pulsão, transformando a dor em prazer; segundo porque na fusão patológica, a genitalização se desenvolve precocemente numa tentativa de defender-se de uma angústia anal, tendo um prazer genital.

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PERVERSÃO: DUAS TEORIAS DIFERENTES QUE CONVERSAM SOBRE O MESMO CONCEITO – Parte III – Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

Compreensão do Psiquismo Perverso em Klein, John Steiner e Rosenfeld.

Em seus textos: “Tendências Criminais em Crianças Normais” (1927) e “Sobre a Criminalidade” (1934), Melanie Klein vai nos falar da perversão como desvios sexuais das ansiedades primitivas. Deixa de lado a teoria da libido e constrói a teoria das posições. Os desvios das ansiedades primitivas eram os sintomas; o que importa é a organização psíquica que se constituiu. A questão da castração tem importância trazida à luz do Édipo primitivo. O mecanismo da recusa da realidade é usado para o desenvolvimento de Identificação Projetiva (o bebê introjeta na mãe as suas ansiedades). O sadismo infantil tão ressaltado por Klein, não tem nada a ver com a perversão, por estar desvinculado do sadismo adulto. A perversão é um desvio das ansiedades primitivas, ligado a um superego sádico. Perversão é uma doença do superego; é um mau funcionamento do superego que pode gerar essa organização psíquica. Na criminalidade há o sentimento de culpa, mas ele não se sustenta, o sujeito parte para o acting-out. Todo ato criminal é um ato violento da persecutoriedade pela atuação. Klein dá o exemplo da criança que “pede” para apanhar. Se os pais continuam batendo e a criança continua desafiando, é porque os pais foram enredados pela perversão da criança. O perverso necessita de um par perverso.
John Steiner, (1990), em seu texto: “O Equilíbrio entre as Pulsões Esquizoparanóide e Depressiva” nos mostra o funcionamento psíquico dentro de cada posição, suas angústias e defesas, e como há um jogo entre as posições, o sujeito oscila entre as duas, como se estivesse numa dança de vai e vem constante, lembrando-me uma lei biológica que rege o desenvolvimento humano, chamada de ‘lei da diferenciação, onde para cada conquista do indivíduo há uma regressão, como se tivesse que tomar um impulso, fazendo um retrocesso, para depois tornar a se desenvolver. Na posição esquizoparanóide, a angústia principal é a de aniquilamento do ego e, suas defesas principais são: cisão, identificação projetiva e idealização. As relações de objeto são vivenciadas de maneira cindida, não há integração entre o objeto bom e o mau, os dois são mantidos separados, divididos. Na posição depressiva a angústia principal é de aniquilamento do objeto, começando a aparecer uma integração do objeto, surgindo a ambivalência, sentimentos de perda e de culpa, podendo ocorrer o luto e, em consequência, o desenvolvimento da função simbólica, surgindo a capacidade de reparar. A ideia de uma inter-relação entre as posições esquizoparanóide e depressiva é ampliada para incluir subdivisões em cada uma delas. Assim, na posição esquizoparanóide pode ocorrer desde uma fragmentação patológica, evoluindo para uma cisão normal e, na posição depressiva pode ocorrer a cisão normal, evoluindo para o medo da perda do objeto, para a experiência da perda do objeto e depois para o luto. Cada posição pode ser pensada como estando em equilíbrio com as que estão em cada um de seus lados e observamos o movimento entre elas se manifestar nos nossos pacientes no curso de uma sessão, no decorrer de semanas, meses e anos dentro da análise, dependendo de suas organizações psíquicas. O diferencial entre o movimento sadio e o patológico é o predomínio da maior parte do tempo de uma ou de outra angústia e das defesas que caracterizam as posições.
Rosenfeld, 1971 , nos mostra através dos textos de Freud, Abraham e Klein, como a pulsão de morte, entre alguns sujeitos, captura a pulsão de vida e a coloca sob o seu julgo, aprisionando-a, libidinizando assim a pulsão de morte; não havendo o predomínio da cisão, mas um tipo de integração, aglomeração da pulsão de vida com a pulsão de morte, o que ele dá o nome de fusão patológica, cujo objetivo é tirar força da pulsão de vida para dar à pulsão de morte. E considera a fusão patológica uma característica da perversão, criando um tipo de funcionamento ‘mafioso’, onde existe uma sedução, mas não uma subjugação ao poder. Neste tipo de dinâmica, certos estados onipotentes narcísicos são dominados pelos mais violentos processos destrutivos, de tal modo que o self libidinal fica quase completamente ausente ou perdido.
John Steiner, 1985, no seu artigo: “O Interjogo Entre Organizações Patológicas e as Posições Esquizoparanóide e Depressiva”, mostra os modos como as defesas podem ser reunidas em organizações patológicas que têm um profundo efeito sobre a personalidade e podem levar a estados mentais que se tornam fixados de modo que o paciente em análise não apresenta insights e tem resistência à mudanças. Como no seu artigo anterior, citado acima, continua insistindo no movimento contínuo entre as posições, de modo que nenhuma delas prevalece em qualquer grau de completude ou permanência. Somente quando os estados mentais se tornam fixados, é que acontece a organização patológica e, é nas transições que elas ocorrem, tanto no interior da posição esquizoparanóide como na depressiva, que o sujeito parece estar mais vulnerável à influência dessa organização. Por exemplo, na passagem da cisão do objeto para a dor, perda do objeto, ocorre este tipo de organização patológica.
Vamos construindo com estes autores a compreensão do psiquismo perverso. Klein contribui nos mostrando como a angústia de aniquilamento do ego não permite a integração do objeto, identificando-se com o objeto persecutório para dar conta do mesmo. Cria-se um superego mau para dar conta do objeto mau. O sentimento de culpa não se sustenta e o sujeito atua. A organização psíquica fica presa num círculo vicioso do mal. Steiner apresenta a necessidade de equilíbrio entre as posições e neste constante interjogo pode acontecer organizações patológicas, principalmente nas transições que ocorrem entre as posições, ou dentro de uma mesma posição, quando o sujeito se encontra mais vulnerável. Rosenfeld cria o conceito de fusão patológica, quando a pulsão de morte captura a pulsão de vida e coloca-a sob o seu julgo, sendo então libidinizada por ela. E que esta fusão patológica é uma das características da dinâmica da perversão.

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PERVERSÃO: DUAS TEORIAS DIFERENTES QUE CONVERSAM SOBRE O MESMO CONCEITO – PARTE I

                                                      Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

INTRODUÇÃO 

A inteligência sem amor, te faz perverso.
A justiça sem amor, te faz implacável.
A diplomacia sem amor, te faz hipócrita.
A riqueza sem amor, te faz avaro.
A docilidade sem amor, te faz servil.
A pobreza sem amor, te faz orgulhoso.
A beleza sem amor, te faz ridículo.
A autoridade sem amor, te faz tirano.
O trabalho sem amor, te faz escravo.
A simplicidade sem amor, te deprecia.
A oração sem amor, te faz introvertido.
A lei sem amor, te deixa egoísta.
A fé sem amor, te deixa fanático.
A cruz sem amor, se converte em tortura.
A vida sem amor… não tem sentido.
(autor desconhecido)
Acrescentaria, como diz Ryad Simon: “A interpretação sem afeto, é uma crueldade”.
Ler este texto remeteu-me a várias associações, a primeira delas foi sobre o verso um que fala diretamente sobre o tema deste artigo.: a perversão… Depois, lendo e relendo cada verso, conclui que todos eles falam sobre o mesmo tema, porque a falta de amor é a mola propulsora de tudo aquilo que é contrário ao que deveria fazer parte da natureza humana: o amor. Porque vão contra todos os princípios em que acreditamos serem benéficos às representações de cada palavra-conceito colocada no início de cada verso e o final de cada um deles está marcado pelo reverso da proposta inicial. Assim: inteligência, justiça, diplomacia, riqueza, docilidade, pobreza, beleza, autoridade, trabalho, simplicidade, oração, lei, fé, cruz, vida, afeto, são o contraponto ao que nos leva à falta de sensibilidade para com o outro: perverso, implacável, hipócrita, avaro, servil, orgulhoso, ridículo, tirano, escravo, depreciativo, introvertido, egoísta, fanático, torturador e crueldade.
Segundo André Green, perverso não é aquele que é sado-masoquista, fetichista, voyeurista ou exibicionista; porque todos nós, na relação com o objeto, lançamos mão de um ou outro tipo de funcionamento, com permissão do objeto, para nos satisfazer sexualmente. Porém, o perverso é aquele que usa deste tipo de funcionamento com a finalidade de ‘gozar’, sem se importar com a condição do outro, sem se importar com o desejo do outro. Para ele, o perverso é desde o que não segue as éticas de conduta com o outro, como aquele que se despe na frente de uma criança com a finalidade de se excitar, por exemplo. Neste sentido, o perverso é aquele que passou pelo processo de castração, curvou-se ao mesmo, mas recusa-se a aceitá-lo .
Assim, falar sobre o referido tema é tentar seguir o caminho trilhado por Freud, suas descobertas, seus avanços e retrocessos e complementar com outros autores que também partiram dele.
Quando Freud começou a estudar a histeria percebeu que havia algo mais que a dor física expressa pela paralização de algum membro por exemplo, existia a volúpia nas dores mais atrozes do sofrimento humano. Os sintomas entrelaçados pela dor mostravam ao mesmo tempo a paixão que estava por detrás e que possuía o sujeito e o colocava contra a parede. A proibição psíquica e o medo da discriminação social faziam com que os indivíduos não pudessem ver o que havia de mais repugnante em seu desejo.
Freud percebeu que os sintomas eram formações de compromisso do sujeito, procurando arrumar um modo de transitar entre os desejos e as proibições dadas pela sociedade da qual fazia parte, recalcando. Como formação de compromisso, o sintoma ficava numa situação insustentável, fazendo parte das exigências que não poderiam ser conciliadas. Porém, mesmo assim, o sintoma revelava uma força, uma energia, denunciando o que muitas vezes era negado pelo discurso do indivíduo (briga sempre presente entre o manifesto e o latente, as formações de compromisso).
Na “Interpretação dos Sonhos” Freud nos fala que o sonho é a realização de um desejo inconsciente que se manifesta através de formações de compromisso, como: condensações, figurabilidade, deslocamentos e elaborações secundárias. Começa também a perceber que há uma semelhança entre os sonhos e os sintomas que aparecem na clínica, fornecendo dados para a interpretação.
Essas percepções acabaram por se transformar em elaborações teóricas, fazendo-o pensar nas pulsões e na sexualidade humana. As pulsões seriam essa força, esse desejo, que demanda dos limites do corpo e que invade o aparelho psíquico, em busca de um meio de realização desse desejo. Nessa sua pesquisa descobre que a sexualidade humana seria essencialmente perverso-polimorfa, formada por pulsões parciais e anárquicas, buscando de forma constante o prazer. A finalidade da sexualidade seria o gozo. Assim, a reprodução da espécie seria algo secundário, o primário visaria o gozo e o prazer.
Em sua escuta na clínica, e na observação constante do ser humano, Freud vai percebendo que a sexualidade não é instintiva, vai sendo dada e desenvolvida na relação mãe-filho e nas relações com as demais pessoas que fazem parte do universo da criança, e a perversão não é uma forma de degeneração.
No deslocamento do conceito de instinto para o de pulsão, a sexualidade sai da inscrição orgânica do sexo e da necessidade, passando para o campo psíquico. Em consequência, o corpo passa a ser pensado, por Freud, no registro do imaginário e do simbólico.
Ao afirmar que a sexualidade humana seria perversa em sua essência, não existindo a sexualidade sem estar atravessada pelas pulsões parciais e pelas formas polimorfas de gozar, Freud retira a perversão do negativismo. Formula então o importante enunciado: “a neurose é o negativo da perversão”. As construções neuróticas seriam formas de defesas, formações de compromisso, contra as demandas imediatas de gozar, cujos produtos seriam os sintomas, presos entre a cena perversa fantasiada e os recalques do sujeito.
Entretanto, somente vinte anos depois, com a apresentação de seu artigo sobre o fetichismo, é que se pode estabelecer significativamente a diferença fundamental entre a teoria perverso-polimorfa e uma leitura psicanalítica da perversão. Assim, o fetichismo foi elevado à condição de maneira de ser mais importante da experiência psíquica fundamentalmente perversa. O fetichismo é o modo pelo qual o sujeito se recusa a entrar em contato com a experiência de castração e a reconhecer a diferença sexual. A castração faz com que o sujeito lance um olhar sobre a figura materna, sendo destituída de sua falicidade e reconhecida em sua diferença sexual.
Se a diferença sexual não se constitui no indivíduo, este não é propriamente um sujeito, pois o desejo não se constitui como tal. Falar da existência do sujeito aceitando a diferença é dizer que este só pode ser constituído se o sujeito do desejo também se formar ao mesmo tempo. A consequência é que a intersubjetividade e a experiência da alteridade se constituem quando o sujeito é permeado pela diferença e pelo desejo.
Isto seria evitado pela individualidade regulada pelo funcionamento perverso. O fetiche seria um objeto que recusaria a perceber o corpo materno, preferindo falicizar a figura materna. O reconhecimento da castração materna é algo da ordem do horror.
O não poder perceber a diferença sexual e o terror provocado quando reconhecido tem efeitos devastadores no psiquismo do sujeito: fragmentação do ego, excesso de investimento narcísico para fazer contraponto à fragmentação e à impossibilidade de reconhecimento de qualquer outro.
No funcionamento perverso, o desejo do outro não pode ser reconhecido e nem valorizado, porque a individualidade perversa seria lançada na devastação psíquica, sendo impedida de colocar em ação sua voracidade de poder. Como exemplo temos o livro: “O Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde. Onde um jovem desafortunado recebe uma herança e é inserido numa sociedade frívola e cheia de si, esnobe. Ele é muito bem recebido pela sua beleza e acaba por seduzir a todos os que se aproximam dele. Dorian se apaixona por uma atriz de teatro e com promessas de casamento enreda a moça a ceder a seus caprichos. Ela engravida e pede-lhe que cumpra suas promessas, mas por medo de perder a influência que exercia sobre as figuras mais nobres dessa sociedade, nega-se a cumprir o que havia prometido e a moça se suicida. Ele começa a acumular muitos outros crimes sobre os seus ombros, porém não é ele quem sofre ou se transforma num monstro, mas o seu espelho, o retrato, que havia sido pintado por um artista muito conceituado dentro dessa mesma sociedade, a quem ele mata, para que seus segredos não fossem revelados. Podemos pensar que Dorian tem um triste destino, precisa reafirmar a sua potência, necessita crer que sua força de sedução é maior do que qualquer princípio, o desejo é maior do que qualquer outra coisa. É essa máxima da perversão. O desejo é maior do que a dor, do que os valores, do que qualquer outra coisa. A vida do perverso está voltada para provar a teoria de que nada barra seu próprio desejo. Por que ter que provar essa teoria? Será que é só disso que se trata?
Talvez possa responder a estas questões com o texto da Piera Aulagnier-Spairani: “A Perversão como Estrutura”; onde ela nos fala de três componentes que fazem parte do funcionamento do perverso: recusa, lei e desafio. Para ela, existe a lei do desejo que envolve toda uma dialética pré-genital mãe-filho e que se resume no binômio: ser o falo – ter o falo, com a condição de se lembrar que os dois enunciados se dirigem ao desejo do Outro (ser o falo da mãe – recebê-lo dela como prova de sua impossível castração). No entanto esta lei do desejo é somente um dos fatores que fazem parte do funcionamento do perverso, temos que levar em conta também à recusa em aceitar a castração e o desafio que é escandalizar aqueles que o julgam pela ofensa aos costumes.

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