Arquivo da tag: castração

PERVERSÃO: DUAS TEORIAS DIFERENTES QUE CONVERSAM SOBRE O MESMO CONCEITO – PARTE I

                                                      Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

INTRODUÇÃO 

A inteligência sem amor, te faz perverso.
A justiça sem amor, te faz implacável.
A diplomacia sem amor, te faz hipócrita.
A riqueza sem amor, te faz avaro.
A docilidade sem amor, te faz servil.
A pobreza sem amor, te faz orgulhoso.
A beleza sem amor, te faz ridículo.
A autoridade sem amor, te faz tirano.
O trabalho sem amor, te faz escravo.
A simplicidade sem amor, te deprecia.
A oração sem amor, te faz introvertido.
A lei sem amor, te deixa egoísta.
A fé sem amor, te deixa fanático.
A cruz sem amor, se converte em tortura.
A vida sem amor… não tem sentido.
(autor desconhecido)
Acrescentaria, como diz Ryad Simon: “A interpretação sem afeto, é uma crueldade”.
Ler este texto remeteu-me a várias associações, a primeira delas foi sobre o verso um que fala diretamente sobre o tema deste artigo.: a perversão… Depois, lendo e relendo cada verso, conclui que todos eles falam sobre o mesmo tema, porque a falta de amor é a mola propulsora de tudo aquilo que é contrário ao que deveria fazer parte da natureza humana: o amor. Porque vão contra todos os princípios em que acreditamos serem benéficos às representações de cada palavra-conceito colocada no início de cada verso e o final de cada um deles está marcado pelo reverso da proposta inicial. Assim: inteligência, justiça, diplomacia, riqueza, docilidade, pobreza, beleza, autoridade, trabalho, simplicidade, oração, lei, fé, cruz, vida, afeto, são o contraponto ao que nos leva à falta de sensibilidade para com o outro: perverso, implacável, hipócrita, avaro, servil, orgulhoso, ridículo, tirano, escravo, depreciativo, introvertido, egoísta, fanático, torturador e crueldade.
Segundo André Green, perverso não é aquele que é sado-masoquista, fetichista, voyeurista ou exibicionista; porque todos nós, na relação com o objeto, lançamos mão de um ou outro tipo de funcionamento, com permissão do objeto, para nos satisfazer sexualmente. Porém, o perverso é aquele que usa deste tipo de funcionamento com a finalidade de ‘gozar’, sem se importar com a condição do outro, sem se importar com o desejo do outro. Para ele, o perverso é desde o que não segue as éticas de conduta com o outro, como aquele que se despe na frente de uma criança com a finalidade de se excitar, por exemplo. Neste sentido, o perverso é aquele que passou pelo processo de castração, curvou-se ao mesmo, mas recusa-se a aceitá-lo .
Assim, falar sobre o referido tema é tentar seguir o caminho trilhado por Freud, suas descobertas, seus avanços e retrocessos e complementar com outros autores que também partiram dele.
Quando Freud começou a estudar a histeria percebeu que havia algo mais que a dor física expressa pela paralização de algum membro por exemplo, existia a volúpia nas dores mais atrozes do sofrimento humano. Os sintomas entrelaçados pela dor mostravam ao mesmo tempo a paixão que estava por detrás e que possuía o sujeito e o colocava contra a parede. A proibição psíquica e o medo da discriminação social faziam com que os indivíduos não pudessem ver o que havia de mais repugnante em seu desejo.
Freud percebeu que os sintomas eram formações de compromisso do sujeito, procurando arrumar um modo de transitar entre os desejos e as proibições dadas pela sociedade da qual fazia parte, recalcando. Como formação de compromisso, o sintoma ficava numa situação insustentável, fazendo parte das exigências que não poderiam ser conciliadas. Porém, mesmo assim, o sintoma revelava uma força, uma energia, denunciando o que muitas vezes era negado pelo discurso do indivíduo (briga sempre presente entre o manifesto e o latente, as formações de compromisso).
Na “Interpretação dos Sonhos” Freud nos fala que o sonho é a realização de um desejo inconsciente que se manifesta através de formações de compromisso, como: condensações, figurabilidade, deslocamentos e elaborações secundárias. Começa também a perceber que há uma semelhança entre os sonhos e os sintomas que aparecem na clínica, fornecendo dados para a interpretação.
Essas percepções acabaram por se transformar em elaborações teóricas, fazendo-o pensar nas pulsões e na sexualidade humana. As pulsões seriam essa força, esse desejo, que demanda dos limites do corpo e que invade o aparelho psíquico, em busca de um meio de realização desse desejo. Nessa sua pesquisa descobre que a sexualidade humana seria essencialmente perverso-polimorfa, formada por pulsões parciais e anárquicas, buscando de forma constante o prazer. A finalidade da sexualidade seria o gozo. Assim, a reprodução da espécie seria algo secundário, o primário visaria o gozo e o prazer.
Em sua escuta na clínica, e na observação constante do ser humano, Freud vai percebendo que a sexualidade não é instintiva, vai sendo dada e desenvolvida na relação mãe-filho e nas relações com as demais pessoas que fazem parte do universo da criança, e a perversão não é uma forma de degeneração.
No deslocamento do conceito de instinto para o de pulsão, a sexualidade sai da inscrição orgânica do sexo e da necessidade, passando para o campo psíquico. Em consequência, o corpo passa a ser pensado, por Freud, no registro do imaginário e do simbólico.
Ao afirmar que a sexualidade humana seria perversa em sua essência, não existindo a sexualidade sem estar atravessada pelas pulsões parciais e pelas formas polimorfas de gozar, Freud retira a perversão do negativismo. Formula então o importante enunciado: “a neurose é o negativo da perversão”. As construções neuróticas seriam formas de defesas, formações de compromisso, contra as demandas imediatas de gozar, cujos produtos seriam os sintomas, presos entre a cena perversa fantasiada e os recalques do sujeito.
Entretanto, somente vinte anos depois, com a apresentação de seu artigo sobre o fetichismo, é que se pode estabelecer significativamente a diferença fundamental entre a teoria perverso-polimorfa e uma leitura psicanalítica da perversão. Assim, o fetichismo foi elevado à condição de maneira de ser mais importante da experiência psíquica fundamentalmente perversa. O fetichismo é o modo pelo qual o sujeito se recusa a entrar em contato com a experiência de castração e a reconhecer a diferença sexual. A castração faz com que o sujeito lance um olhar sobre a figura materna, sendo destituída de sua falicidade e reconhecida em sua diferença sexual.
Se a diferença sexual não se constitui no indivíduo, este não é propriamente um sujeito, pois o desejo não se constitui como tal. Falar da existência do sujeito aceitando a diferença é dizer que este só pode ser constituído se o sujeito do desejo também se formar ao mesmo tempo. A consequência é que a intersubjetividade e a experiência da alteridade se constituem quando o sujeito é permeado pela diferença e pelo desejo.
Isto seria evitado pela individualidade regulada pelo funcionamento perverso. O fetiche seria um objeto que recusaria a perceber o corpo materno, preferindo falicizar a figura materna. O reconhecimento da castração materna é algo da ordem do horror.
O não poder perceber a diferença sexual e o terror provocado quando reconhecido tem efeitos devastadores no psiquismo do sujeito: fragmentação do ego, excesso de investimento narcísico para fazer contraponto à fragmentação e à impossibilidade de reconhecimento de qualquer outro.
No funcionamento perverso, o desejo do outro não pode ser reconhecido e nem valorizado, porque a individualidade perversa seria lançada na devastação psíquica, sendo impedida de colocar em ação sua voracidade de poder. Como exemplo temos o livro: “O Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde. Onde um jovem desafortunado recebe uma herança e é inserido numa sociedade frívola e cheia de si, esnobe. Ele é muito bem recebido pela sua beleza e acaba por seduzir a todos os que se aproximam dele. Dorian se apaixona por uma atriz de teatro e com promessas de casamento enreda a moça a ceder a seus caprichos. Ela engravida e pede-lhe que cumpra suas promessas, mas por medo de perder a influência que exercia sobre as figuras mais nobres dessa sociedade, nega-se a cumprir o que havia prometido e a moça se suicida. Ele começa a acumular muitos outros crimes sobre os seus ombros, porém não é ele quem sofre ou se transforma num monstro, mas o seu espelho, o retrato, que havia sido pintado por um artista muito conceituado dentro dessa mesma sociedade, a quem ele mata, para que seus segredos não fossem revelados. Podemos pensar que Dorian tem um triste destino, precisa reafirmar a sua potência, necessita crer que sua força de sedução é maior do que qualquer princípio, o desejo é maior do que qualquer outra coisa. É essa máxima da perversão. O desejo é maior do que a dor, do que os valores, do que qualquer outra coisa. A vida do perverso está voltada para provar a teoria de que nada barra seu próprio desejo. Por que ter que provar essa teoria? Será que é só disso que se trata?
Talvez possa responder a estas questões com o texto da Piera Aulagnier-Spairani: “A Perversão como Estrutura”; onde ela nos fala de três componentes que fazem parte do funcionamento do perverso: recusa, lei e desafio. Para ela, existe a lei do desejo que envolve toda uma dialética pré-genital mãe-filho e que se resume no binômio: ser o falo – ter o falo, com a condição de se lembrar que os dois enunciados se dirigem ao desejo do Outro (ser o falo da mãe – recebê-lo dela como prova de sua impossível castração). No entanto esta lei do desejo é somente um dos fatores que fazem parte do funcionamento do perverso, temos que levar em conta também à recusa em aceitar a castração e o desafio que é escandalizar aqueles que o julgam pela ofensa aos costumes.

Comentários desativados em PERVERSÃO: DUAS TEORIAS DIFERENTES QUE CONVERSAM SOBRE O MESMO CONCEITO – PARTE I

Arquivado em Artigos - Psicanálise, Berenice Abreu