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Entre a Psicomotricidade e a Psicanálise

INTRODUÇÃO:

Esse caso marcou a minha vida profissional de várias maneiras. Fez com que me deparasse com questões até então pouco avaliadas e chegasse a me perguntar se o que eu estava fazendo era válido no sentido de ser efetivo para os meus pacientes, ou será que havia algo mais que pudesse atendê-los melhor? Meus casos clínicos eram quase sempre distúrbios de aprendizagem, que depois de uma avaliação motora havia na sua grande maioria disfunções motoras.
Quando vi Olga (nome fictício) pela primeira vez, na época com oito anos e dez meses, observei que havia algo mais, não era somente, como dizia a escola, um atraso motor. Ela era diferente das outras crianças atendidas por mim, seu comportamento não seguia as normas do chamado “adequado”, ela dava risada por qualquer coisa sem importância, babava, não tinha o chamado freio inibitório (não obedecia às regras sociais), interrogava qualquer pessoa que via e ficava sem saber o que fazer quando era ignorada, normalmente perseverando até obter o que desejava, não era por “birra”, algo que não passava pelo âmbito dos limites, era diferente disso, parecia ser a única maneira como havia aprendido a se relacionar (fora da fronteira entre o eu dela e o eu do outro). Também não estava atrelada a deficiência cognitiva, sabia ler e escrever, embora sua orientação espaço-temporal estivesse defasada, não conseguindo se organizar numa folha pautada e muitas vezes se negava a colocar a data nos trabalhos e quando o fazia era sempre além ou aquém da data corrente (uma maneira de cindir com a realidade externa, ficando preservada no seu mundo interno).
O vínculo entre nós se estabeleceu rapidamente e fui buscar supervisão por não ter muito claro o que estava acontecendo com Olga. “Anne Alvarez cita Stern ao que chama de estados mentais partilhados, tenha de preceder a empatia e a empatia tenha de preceder a simpatia”. (Trabalho apresentado na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo – “Níveis de Trabalho Analítico e Níveis de Patologia” – abril de 2004)
Segundo o supervisor as hipóteses motoras estavam corretas e o que eu não sabia decodificar estava no seu funcionamento psicótico e recomendou-me a leitura de um livro que foi outro marco na minha vida profissional: “Companhia Viva” de Anne Alvarez, Artes Médicas, 1994.

Ele me disse que este livro seria muito importante na ajuda de poder entender Olga e que ao mesmo tempo era o que ela precisava, de “uma companhia viva”. Saí da supervisão preocupada, será que teria condições profissionais de atender Olga? O que será que significava ser uma companhia viva?
Já na primeira página do livro, antes da capa interna, do sumário, do prefácio e dos agradecimentos a autora diz: “As crianças que tiveram a mente e o corpo danificados por intrusões de abuso sexual, violência, ou negligência e aquelas outras, muito diferentes destas, que foram prejudicadas por sua própria e misteriosa sensibilidade exagerada que as tornou extremamente vulneráveis a privações muito menores, podem vivenciar um tipo de profundo desespero e ceticismo que requer um tratamento prolongado e põe à prova, ao máximo, a resistência do psicoterapeuta”. E na página próxima ao sumário ela cita Bion: “Não tenho dúvida nenhuma da necessidade de alguma coisa, na personalidade, que propicie contato com a qualidade psíquica”. (W. Bion, 1962).
Três coisas me chamaram atenção nestas citações: será que Olga havia sido negligenciada, ou será que fora prejudicada por sua própria e misteriosa sensibilidade exagerada, e mais preocupante, será que eu teria condições de agüentar e persistir, mesmo tendo tido uma opinião de ser uma “companhia viva”? Será que teria a qualidade psíquica dita por Bion?
Como curiosa que sou, fui procurar o que seria um funcionamento psicótico e encontrei uma citação de Bion no livro “Conferências Clínicas sobre Klein e Bion”, pág. 104:
“A diferenciação entre a personalidade psicótica e a não-psicótica depende de uma cisão, em pedaços mínimos, de toda aquela personalidade que se relaciona com a percepção da realidade interna e externa, e da expulsão destes fragmentos, de forma que eles ou penetram em seus objetos, ou os engolfam”.
É claro que na época não entendi muito bem o que o autor estava querendo dizer, ficando mais claro quando iniciei em 2003 os estudos sobre a teoria kleiniana.
Também fui procurar o que era “uma companhia viva”, achando a resposta no próprio livro da Anne Alvarez, já citado acima, pág. 71:
“O conceito de continência materna de Bion é o seguinte: ele descreve como a mãe, através de seu reverie, faz um tipo de digestão mental que, devido aos seus processos digestivos mentais mais maduros, possibilita-lhe vivenciar de uma forma suportável a angústia, a raiva ou o medo do bebê (1962). Assim, ela é capaz, sem um superenvolvimento sujeito a pânicos freqüentes, mas também sem um afastamento demasiado grande, de confortá-lo e acalmá-lo. Bion discute isso como uma função materna normal e comum. Todavia, é importante considerar algo mais: o que fazem as mães comuns quando seus bebês comuns estão moderadamente deprimidos – isto é, não que eles estão expressando ou mostrando sua angústia, mas quando não conseguem fazê-lo porque perderam temporariamente o interesse ou a esperança e ficaram um tanto retraídos. Em minha opinião, as mães funcionam como alertadoras e estimuladoras de seus bebês”.
Entendi que a terapeuta deveria fazer o papel dessa mãe alertadora e estimuladora de seus pacientes, tornando-se uma “companhia viva”, quando estes não estão em condições de se interessarem pelo mundo externo.
Aceitei o desafio e iniciei o atendimento psicomotor na metade de junho de 1999, Olga vinha duas vezes por semana e comecei a entender o que a Anne Alvarez falava em por a prova a resistência do terapeuta, a menor frustração e contrariedade negava a fazer os exercícios, mesmo quando havia sido ela quem tinha escolhido o queria fazer; principalmente quando já vinha com alguma contrariedade acontecida fora da sessão, com os seus pais, transferindo para mim toda a sua raiva. Na época não entendia muito de transferência, mas algumas vezes por intuição conseguia perceber o que estava acontecendo e traduzia para ela, às vezes aceitava, outras negava com veemência e outras ficava me olhando com um ponto de interrogação estampado no rosto. Aos poucos fomos nos entendendo melhor, as dificuldades de contato de ambas as partes foram cedendo e ela chegava na sessão com um sorriso e me perguntava: “O que temos para hoje?”
O que pretendo mostrar com este caso clínico é como algumas defesas da posição esquizoparanóide estavam presentes desde o início, isto é, desde a avaliação motora: projeção, introjeção, cisão, idealização, negação, identificação projetiva e identificação introjetiva; principalmente a cisão. É só observar o que foi dito no parágrafo anterior, na descrição de suas reações frente ao que era proposto, mesmo quando ela mesma escolhia.

HISTÓRICO:

Os pais de Olga, funcionários públicos, tentaram uma gravidez por um período de oito anos. Não obtendo resultando positivo resolveram desistir e se voltaram para a carreira acadêmica que estava em andamento. A mãe conseguiu uma bolsa para o doutorado nos Estados Unidos e o marido a acompanhou, aproveitando para fazer cursos que complementariam a sua carreira. Nesta ocasião, já instalados no país, ficaram grávidos. A princípio, a mãe ficou muito irritada porque naquele momento seus planos eram outros. Depois de muito considerar, resolveram pela gravidez e quando Olga nasceu, a avó e bisavó maternas foram morar junto com os pais para poderem cuidar da criança, já que os pais tinham que se dedicar aos estudos e pesquisas que estavam realizando.
A mãe relatou que por volta de um ano e seis meses, começou a perceber as dificuldades motoras da filha, era toda mole, sentou e andou com atraso, e não correspondia aos estímulos dados por eles. Quando retornaram ao Brasil, buscaram ajuda profissional neurológica, sendo encaminhados para: fisioterapia, terapia ocupacional, natação e trabalho emocional.
Aos seis anos, Olga estava estressada e seus pais também; conversando com o neurologista resolveram parar com tudo e colocaram-na numa escola próxima à residência em período integral. Olga repetiu o pré e na primeira série a escola me encaminhou com as seguintes queixas: hipotonia muscular, disgrafia (misturava letra cursiva com letra de forma), não produção de material gráfico em sala de aula, imaturidade e relacionamento apenas com adultos.
Foi proposta uma avaliação motora, na qual foram observadas as seguintes questões: tônus muscular muito relaxado (segundo o relatório do neurologista nada tinha de físico); verbalização adequada, vocabulário bem desenvolvido, apresentado ecolalia, perseverando numa tentativa de controlar as situações, agindo impulsivamente, parecendo querer esconder a sua capacidade e ver-se livre do que a incomodava; memória ativa, lembrando-se de pormenores; na área perceptivo-motora apresentou imaturidade, ficando entre quatro e cinco anos; o perfil motor oscilou muito, demonstrando dificuldade de equilíbrio, de coordenação dinâmica global e de movimentos simultâneos; não conseguiu integrar as instruções com a realização dos movimentos, por demonstrar dificuldade de trabalhar o seu corpo que aparentava ser o grande depositário de suas dificuldades, não conseguindo fazer sintonização entre o ritmo dado e o interno. Havia também uma questão quanto a não suportar crianças pequenas, principalmente bebês.

EVOLUÇÃO CLÍNICA:

O trabalho psicomotor foi iniciado em junho de 1999 e gradativamente foram acontecendo modificações na sua postura, tanto a nível físico, quanto de reações e respostas ao que lhe era solicitado, parando para ouvir as instruções e realizando as atividades de maneira menos impulsiva; seu tônus muscular foi se equilibrando e sua auto-estima progredindo, estabelecendo relacionamentos com os colegas de classe e verbalizava que tinha medo de mostrar sua capacidade, nos momentos de maior dificuldade dizia que não queria crescer e que queria continuar sendo sempre cuidada pelos pais.
Nesta ocasião, final de outubro, Olga parou de babar, sua hipotonia corporal estava desaparecendo, ainda conserva a de mãos, e a escola me relatou que estava mais interessada nas atividades e já não se jogava no chão, fazendo suas lições sentada, e havia conseguido estabelecer amizade com uma colega.
Numa sessão em que escolheu trabalhar com argila, foram colocadas revistas velhas na mesa como forração, começou a folhear e se deparou com bebê que tomava conta da página inteira, ela teve um acesso de raiva e amassou o rosto do bebê com argila, sujando toda a página, quando terminou estava mais calma, procurou outra página e trabalhou tranqüilamente com a argila, moldando um boneco. Interpretei que depois de ter colocado a sua raiva contra o bebê que ela não tinha podido ser, havia conseguido montar outro bebê mais integrado e aceito por ela. Depois disso os pais não assinalaram mais a sua pouca tolerância quanto às crianças pequenas, até se interessando em observá-las.
No ano seguinte, Olga mudou de escola, indo para longe de casa, permanecendo apenas meio período, numa escola alternativa, onde os alunos progridem por grupos e os conteúdos exigidos são conforme o avanço da classe.
Conforme eu ia adquirindo novos conhecimentos a nível motor e pedagógico, propunha mudanças no atendimento aos pais e à criança, no que era correspondida de pronto, pois os ganhos no desenvolvimento da menina eram visíveis. Embora, a princípio, sempre houvesse certa resistência de Olga, em aceitar mudanças. Ficava motivada com a novidade para logo em seguida se negar a realizar a proposta, dizendo que era difícil. Nestes momentos eu dizia a ela que entendia o seu medo da coisa nova, da mudança, mas que também estava vendo uma menina que estava querendo “moleza” e para isso seria necessário comer “pudim” ou “gelatina”. Ela dava risada, executando os exercícios.
Na metade de 2000, já cursando o curso Formação em Psicanálise, chamei os pais novamente, conversamos bastante sobre os ganhos e paradas de Olga e solicitei uma nova mudança, não mais um trabalho psicomotor, e sim um trabalho psicanalítico. Eles entenderam e concordaram; Olga foi quem teve mais dificuldade em entender, porque se acostumou com “um fazer atividades” e estranhou o falar de seus sentimentos e dificuldades.
Atualmente, com doze anos, conta mais das coisas que aconteceram com ela na escola, espontaneamente, tem mais relacionamentos com os meninos e fica muito preocupada no final de semana quando permanecerá distante de seus amigos e que as nossas sessões vão custar a chegar, fazendo carinho na minha mão e muitas vezes não quer ir embora, dizendo que não sabe para onde vai e com quem ficará. Digo-lhe para perguntar para a mãe e ela o faz na sala de espera. Tem demonstrado com maior freqüência as suas contrariedades, raivas e frustrações e reconhece quando magoou outra pessoa, pedindo desculpas, muitas vezes fazendo um jogo de sedução. Quando isto lhe é apontado dá risada e diz que é verdade.

DISCUSSÃO DO CASO:

No seminário teórico, “Angústia e Superego Arcaico”, ficou claro como a angústia (tradução de ansiedade) excessiva nos primeiros meses de vida prejudica o desenvolvimento do ego, interferindo no desenvolvimento das relações objetais. Klein acredita que as ansiedades esquizoparanóides dominam os primeiros três, quatro ou cinco meses de vida da criança e, por isso chama esta fase de sadismo máximo de “posição esquizoparanóide”. É para a posição esquizoparanóide que o psicótico regride.
No caso que estou discutindo, Olga não teve a atenção da mãe voltada para ela, como uma mãe continente, como uma “companhia viva”, já que ela estava mais empenhada na sua tese de doutorado; teve a atenção de avós que tentaram fazer a função materna, mas que não foi o suficiente para suportar as angústias de Olga.
Na sua fantasia inconsciente fica a imagem de um bebê destruído, de um bebê que não deu conta de interessar a sua mãe numa relação de troca, criando um processo de cisão para dar conta das angústias persecutórias que a invadem constantemente. No Dicionário do Pensamento Kleiniano de Hinshelwood, ele diz:
“As fantasias inconscientes estão subjacentes a todo processo mental e acompanham toda a atividade mental. Elas são a representação mental daqueles eventos somáticos no corpo que abrangem as pulsões, e são sensações físicas interpretadas como relacionamentos com objetos que causam essas sensações. Irrompendo a partir de sua instigação biológica as fantasias inconscientes são transformadas por duas maneiras:
 Pela mudança através do desenvolvimento dos órgãos para a percepção à distância da realidade externa;
 Pelo surgimento no mundo simbólico da cultura, a partir do mundo primário do corpo “(pág. 46).
Olga tinha a fantasia inconsciente de não ter sido um bom bebê, ou o bebê que sua mãe gostaria de ter tido. Por isso a sua raiva quando via bebês na rua, ou mesmo em fotografias. Conseguindo elaborar esta sua fantasia quando pode agredir com argila, fezes, o bebê que encontrou na revista, iniciando então a reconstrução de outro bebê.
Esta sua fantasia inconsciente gerava muita angústia, tendo que jogá-la para o corpo com medo da sua agressividade e da sua raiva que eram muito intensas. Por isso a sua hipotonia corporal, uma maneira de neutralizar o corpo para não agredir com veemência os objetos bons internalizados e também uma forma de não ser agredida por eles – “cuidado comigo, olha como sou frágil.”
No mesmo dicionário citado acima, Klein fala da criação de um círculo vicioso (pág. 65):
“A preocupação especial com a agressão, e as conseqüências vingativas que despertam medo e mais agressão, são autoperpetuantes. Os ataques aos perseguidores tornam-se mais daninhos, porque deles se imagina, na fantasia, que estejam ainda mais enraivecidos e dispostos à violência retaliatória. Quando os objetos são introjetados, o ataque que sobre eles é lançado com todas as armas do sadismo desperta no sujeito o pavor de um ataque análogo sobre si mesmo, partindo dos objetos externos e dos objetos internalizados. Este tipo de círculo vicioso representa um estado paranóide de hostilidade, com imensa desconfiança de quaisquer figuras boas”.
Outra forma de defesa presente era o seu pensamento onipotente, muitas vezes Olga verbalizava: “Eu não quero crescer e quero mandar, eu mando na minha mãe e no meu pai”. “O sentimento de onipotência é importante nos mecanismos primitivos de defesa que se acham envolvidos com o rompimento das fronteiras do ego, de maneira a que as experiências de separação e inveja sejam evitadas” (dicionário já citado acima, pág.396).
Também outras defesas da posição esquizoparanóide ocorriam com freqüência, projeção, introjeção, negação, idealização, identificação projetiva e introjetiva; das quais falarei numa outra oportunidade, visto que aqui o nosso espaço é restrito e eu já passei de muito do que foi acordado.

CONCLUSÃO:

Quando torno a reler o histórico deste caso aproprio-me de observações até então vedadas aos meus olhos. A queixa principal, de um bebê que não pode ser devidamente cuidado pela mãe, que estava naquele instante do nascimento voltada para outros interesses, é uma violência ao direito de existir, causando uma psicose. A marca doeu e Olga não consegue fazer de conta, não consegue ir para um falso self. De um lado a violência precoce e de outro a sensibilidade apurada, alguém funcionando em carne viva.
O manifesto é à maneira de se posturar, colocando pouca tonicidade muscular, o psicomotor; o latente é a violência a qual foi submetida. Olga lesa o corpo como maneira de indicar uma psicose. O trabalho psicomotor foi à recomposição do caminho que não pode ter. Agora, na psicanálise, é a possibilidade de sair do registro corporal e ir para a linguagem. O corpo poderá ser colocado através do que percebe do corpo.
Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

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