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FOBIAS, MEDOS, ANGÚSTIA DE ANIQUILAMENTO, E ANGÚSTIAS IMPENSÁVEIS. Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu – Parte II

CONFUSÃO DE LÍNGUAS, DE CONCEITOS, OU DE TERMOS?

Como apaixonada que sou pela psicanálise, pelo seu fundador, criador, e seus seguidores, não poderia deixar de tentar esclarecer um pouco a confusão dos termos que apareceram na descrição de um sintoma que atualmente se presentifica cada vez mais na clínica.
Fobia – termo derivado do grego phobos e utilizado na língua francesa como sufixo, para designar o pavor de um sujeito em relação a um objeto, um ser vivo ou uma situação.
Tal como utilizado em psiquiatria por volta de 1870, como substantivo, o termo designa uma neurose cujo sintoma central é o pavor contínuo e imotivado que afeta o sujeito, frente a um ser vivo, um objeto ou uma situação que, em si mesmos, não apresentam nenhum perigo real.
A utilização da expressão histeria de angústia deu lugar a palavra fobia; introduzida por Wilhem Stekel em 1908 e retomada por Freud, a histeria de angústia é uma neurose de tipo histérico, que converte uma angústia num terror imotivado, frente a um objeto, um ser vivo ou uma situação que não apresentam em si nenhum perigo real.
Entre os sucessores de Freud, a palavra tende a se sobrepor à ideia de histeria de angústia. (Dicionário De Psicanálise – Elisabeth Roudinesco e Michel Plon, pág. 243).
A seguir alguns conceitos de angústia, aniquilamento e medo:
Angústia Real – (Realangst) termo utilizado por Freud no quadro da sua segunda teoria da angústia: angústia perante um perigo exterior que constitui para o sujeito uma ameaça real. (Vocabulário da Psicanálise – Laplanche e Pontalis, pág. 26)
Angústia Automática – (Automatishche Angst) reação do sujeito sempre que se encontra numa situação traumática, isto é, submetido a um afluxo de excitações, de origem externa ou interna, que é incapaz de dominar. A angústia automática opõe-se para Freud ao sinal de angústia. (ibidem – pág. 26 e 27).
Aniquilamento – Klein, em 1946, assumiu a visão de que, central à experiência mais arcaica, está o medo da aniquilação pessoal, semelhante ao que é sentido por pacientes psicóticos, sendo esta a maneira pela qual a pulsão de morte é experienciada como operando dentro da personalidade.
O medo da aniquilação foi postulado por diversos psicanalistas, Jones (1927), por exemplo, postulou a existência de uma perda catastrófica, a afanisias, um temor que se estendia, mais além da castração, a uma privação de todos os instrumentos possíveis de prazer e, portanto, da existência. (Dicionário do Pensamento Kleiniano – Hinshelwood, pág. 232).
Medo da Loucura – Para Ferenczi, todo medo da loucura é o medo de re-experimentar o trauma, ou seja, o medo de reviver uma experiência de loucura já experienciada. A ausência de um registro consciente dessa vivência de enlouquecimento se deve exatamente ao fato de o paciente ter fracionado seu ego no momento do trauma. Em outros casos, a situação traumática ocorre em um momento tão inicial do desenvolvimento emocional do sujeito, em que não existe ainda um ego que possa registrar essa experiência. O que resta é apenas uma sombra de enlouquecimento pairando ameaçadora sobre o paciente. (Dicionário do Pensamento de Sándor Ferenczi: Uma Contribuição à Clínica Psicanalítica Contemporânea – Kahtuni, H. e Sanches G., pág. 249).
Medo do Colapso – Winnicott fala de uma situação em que o medo é da loucura, um medo à ausência de ansiedade na regressão ao estado não-integrado, ou à falta do sentimento de viver dentro do corpo etc. O medo, portanto, é de que não haja ansiedade, o que implicaria numa regressão da qual não haja volta: a desintegração da organização do ego. (Winnicott, 2000, pág. 167) “Em linguagem leiga, o colapso significa o surto psicótico.” (Lowen, 1980, pág. 158).
Observem: fobia, histeria de angústia, angústia real, angústia automática, aniquilamento, medo da loucura, ansiedade e medo do colapso. Todas as definições pesquisadas apontam para um sofrimento mental que tanto poderá ser real ou inexistente (fantasioso), não importa, entretanto mobilizam paralisações de um viver de maneira mais criativa, sem tantas dependências, gerando um círculo vicioso pernicioso. O sujeito não consegue se livrar do sofrimento, ou consegue por certo período para depois retomar, vê-se pouco progresso na análise, porque o paciente permanece “inventando” situações conflitantes, situações ansiógenas, que possam justificar o seu medo, porque, para ele, as ansiedades já são velhas conhecidas e espera por elas, enquanto viver situações onde não há conflito parece ser um risco. Segundo Balint: “Quanto pior, melhor”. (1955)
Na clínica, tenho pacientes que não conseguem se desvencilhar do cônjuge pelo medo da solidão, por mais que já vivam na solidão a dois sem o perceber; vivenciaram na infância um ambiente hostil e permanecem na dependência do outro com medo de não darem conta da existência se estiverem sozinhos, sentindo-se impotentes. Atendo crianças com medo de crescerem e até de aprender, pois se conseguirem integrar, as defesas cairão por terra; também a primeira infância não foi tranquila, não podendo dar “continuidade de ser”, desenvolveram ansiedades associadas a falhas nas técnicas do cuidar, ansiedades que as fariam sentir-se ameaçadas pela loucura. Jovens adolescentes procuram uma maneira de poder escolher a profissão, baseados no seu interesse e não nas expectativas dos pais, mas têm medo de decepcionar, de deixar de serem amados, ou de não suportarem a pressão das expectativas desses pais.
Se vocês leitores prestarem atenção nas definições de angústia ou fobia, dadas pelos vários autores, verão que há uma diferença entre a definição postulada por Freud e as de outros teóricos da psicanálise. Para Freud a questão reside no medo da castração, fase fálica. Ferenczi, Klein e Winnicott falam de uma ansiedade que se dá no início da história do indivíduo, onde ainda não há o desenvolvimento do ego, nos primeiros registros mnêmicos. Atendi um paciente que entrava em fobia quando não sentia o cheiro característico de sua casa, porque ainda bebê foi deixado na casa dos avôs para ser cuidado por eles, porque a mãe e o pai necessitavam trabalhar. Toda vez que ia de férias para a casa dos tios telefonava para os pais solicitando que fossem buscá-lo, porque estava angustiado, o cheiro da casa dos tios não era o mesmo da casa dele.
Outros autores, não psicanalistas, chamam a atenção para o atual momento contemporâneo vivido pelo homem: “A doença mais temida do planeta não é o câncer, nem a aids, mas o pensamento conflituoso do homem. É esse o esteio sobre o qual se apoia a habitual visão do mundo, o verdadeiro assassino planetário.” (Elio D’Anna, pág. 10)
E prossegue dizendo que a dependência é medo. “A dependência é uma doença do ser!… Nasce de sua própria incompletude. Depender significa deixar de acreditar em si mesmo. (Idem, pág 19)
Ora, qual será a origem do pensamento conflituoso do sujeito? O ser humano nasce totalmente dependente e necessita de outro ser humano para ampará-lo enquanto ainda não consegue se sustentar sozinho. Winnicott nos fala de uma dependência total, passando por uma dependência parcial até conseguirmos a nossa independência. Então, o que deveria se tornar algo comum, gera conflitos e muitas vezes não conseguimos viver a independência por medos. Mas medo do quê? O que no nosso caminho para a independência, para o crescimento gerou o medo? Autores que trabalharam com crianças nos apontam algumas direções para pesquisarmos na descoberta destes conflitos geradores de dependência e de medo. Pais e mães que vivenciaram um conflito transgeracional, transmitem para seus filhos o mesmo conflito, infligindo dependência e medo? O que poderemos fazer quanto a isso, somente entender e acolher? Será que somente esta atitude ajudará àqueles que sentem medo? Como será que poderemos desenvolver a confiança e a atitude positiva de se acreditar, se muitas vezes na infância o sujeito só recebeu mensagens negativas e de autodestruição? Será que só a escuta e a compreensão bastarão?

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FOBIAS, MEDOS, ANGÚSTIA DE ANIQUILAMENTO, E ANGÚSTIAS IMPENSÁVEIS. Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

INTRODUÇÃO

“Quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, convence-se de que os mortais não conseguem guardar segredos. Se os lábios estão mudos, eles tagarelam com as pontas dos dedos; a traição força seu caminho por todos os poros.” Freud (apud Peter Gay, 1989, pág. 17).

Quem observa um fóbico vê a angústia escapulindo pelo seu corpo através do suor, ou da manipulação constante das mãos, ou da movimentação das pernas que não conseguem parar quietas, ou da preparação do corpo para uma fuga imediata de algo que o ameaça ou ainda por tremores, gagueira, perda da fala, deslocamento para um objeto, corpo rígido, etc..
Quando ainda não havia feito a minha formação em psicanálise, mas já me interessava pelo assunto, li alguns livros que falavam dos medos, fobias e angústias de sujeitos que pareciam revelar um sofrimento constante. Um destes livros foi “Medo da Vida” de Alexander Lowen (1980), que nos descreve vários relatos de casos para ilustrar os tipos de medos que para ele fazem parte do enfrentamento da vida: medo de viver e de morrer; medo do fracasso; medo do sucesso; medo do sexo; medo da insanidade; etc.. Todas as descrições destes medos são fundamentadas com teorias psicanalíticas que demonstravam as angústias presenciadas pelo autor e vividas pelos pacientes. Assim, para ele não havia muita diferença entre medo e angústia.
Durante a minha formação e depois da mesma, li muitos outros autores que não distinguem muito bem a diferença entre os termos, mas que acredito não ser muito relevante na nossa área, já o que importa é o sofrimento humano e como cuidar do mesmo, e não dar “nome aos bois”. No entanto, pretendo contribuir com àqueles que têm alguma dificuldade com estes conceitos, porque na história do estudo psicanalítico da fobia nos deparamos com um quadro complexo, através da pesquisa feita em vários dicionários de psicanálise, bem como livros que abordam o assunto, conforme segue abaixo.

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