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Palestra Para Pais

PALESTRA PARA PAIS

(palestra realizada no Núcleo Educacional Ser Feliz e SER – Sistema Educacional)

ASSUNTOS ABORDADOS:

  • Papel da escola x o papel da família;
  • Dificuldade de aprendizado ou estratégia de ensino inadequada;
  • Atualização do currículo da escola para atender as novas diretrizes que regem o Ensino Fundamental;
  • A escolha da escola que dará continuidade à pré-escola.

Apesar de a palestra ter sido dada em setembro de 2000, há abordagens ainda pertinentes ao ano vigente, reflexões a se fazer.

            Para falar sobre o papel da escola e o da família faz-se necessário fazer um pequeno retrocesso na história de vida escolar. Quem tiver na faixa dos 40 a 50 anos se lembrará do que vivenciou na sua época de escola. O papel fundamental da escola era transmitir informações (quanto mais, melhor) e o da família era educar (colocar limites). Não havia confusão. Os pais não iam à escola para saber o que ela estava dando de conteúdo, nem a escola cobrava dos pais a educação de seus filhos. As duas instituições (escola e família) eram soberanas e não se contestava as atitudes tomadas. Quando a criança reclamava para os pais a atitude da escola ou de algum professor, havia algumas variações no comportamento dos pais: ignorar; dizer que a escola tinha razão; puni-la por ter tido um mau comportamento.

            Esta era a escola tradicional. Os pais só compareciam em festas ou quando eram convidados. Não existia reunião de pais e mestres. Sabia-se do rendimento da criança através da caderneta escolar.

            Entretanto sempre existiram aqueles alunos que não conseguiam acompanhar o ensino da escola tradicional. As informações eram decoradas e quando se ousava perguntar o que se faria com toda aquela informação, isto é, onde seria aplicada? Respondiam: “Cultura!” (em minha opinião, deveriam dizer cultura inútil).

            Para atender as crianças que não conseguiam acompanhar, eram indicados professores particulares, que insistiam no mesmo tema, da mesma maneira. Ensinava-se para decorar. Passar de ano!

            Paralelamente, começaram a surgir escolas alternativas, que passaram a buscar fundamentação em metodologias e filosofias de teóricos que se preocupavam como o ser humano aprende. Maria Montessori foi uma delas (médica italiana – criou uma metodologia de atendimento individual, visando crianças deficientes). Cada aluno poderia seguir o seu próprio ritmo e para isso o número de crianças por classe era restrito. Ainda hoje, encontramos escolas que adotam o seu método, principalmente na alfabetização, incoerente para a nossa língua que é silábica e não fonética, gerando muitos distúrbios de leitura e escrita.

            Depois, o mais famoso de todos, Piaget, zoologista, pesquisador, matemático, filósofo e acima de tudo um epistemologista genético, preocupado em descobrir os processos mediante os quais os corpos de conhecimento crescem, tanto historicamente, quanto internamente organizados. Observou nos seus filhos este crescimento e viu que cada um constrói o seu próprio conhecimento apesar do estímulo ser o mesmo. Porém ele nunca afirmou que a criança deveria ser deixada sozinha e sem orientação para aprender.

            Mesmo assim estas escolas alternativas não conseguiam dar conta do recado, as crianças continuavam a apresentar dificuldades, por quê? Pegavam teorias novas e aplicavam sem um estudo prévio, achando que pelo simples fato de fugir às regras tradicionais poderia dar certo. No entanto, os pais já entravam nas escolas, participavam cada vez mais de eventos, reuniões; a velha caderneta foi substituída pelo boletim ou por relatórios de avaliação. Iniciou-se uma troca de informações entre as duas instituições; muitas vezes uma interferindo no modo de atuar da outra. A algazarra começou: uma apontando o dedo para a outra na luta para buscar um responsável pelo fracasso da criança. Até onde a escola pode interferir no relacionamento familiar? Até onde a família pode intervir na metodologia e filosofia de uma escola? De quem é a tarefa de educar a criança?

            Eu responderia: de ambas! Os pais não podem, nem devem delegar o seu papel de educar e orientar os seus filhos é de direito e dever deles. A escola deve participar desta educação promovendo a socialização da criança ao ambiente escolar e para que este ocorra harmoniosamente é preciso estabelecer regras; palestras para a orientação dos pais, trocar idéias sobre o comportamento de seus alunos com os respectivos pais. Contudo, a escola, não pode abrir mão de ter a sua filosofia e metodologia que nortei o caminho que ela acredita. Cabe aos pais escolher a escola que melhor se adapte ao que eles acreditam.

            O papel do professor também mudou muito nesta evolução histórica. De centralizador, quem detinha todo o poder do conhecimento; passou com as novas teorias (mal compreendidas) a ser a figura mais apagada da escola. Basta ver a desvalorização profissional que atualmente vive. Em algumas escolas o professor sofre deboches por parte dos alunos, muitas vezes sob os aplausos dos pais. E o respeito à pessoa humana, onde fica? Saiu-se do 80 para o 8. O aluno aprende sozinho não necessita mais do professor. Se isto fosse verdade não necessitaríamos mais de escolas, é só colocar a criança na frente de um computador que de lá sairia um gênio. O que vemos é que sem orientação, sem uma direção o aluno se aliena, pois não sabe qual é o estímulo adequado a seguir. A cada dia, um grande número de crianças chega aos consultórios de especialistas com distúrbios de atenção, devido, entre outras coisas, uma estimulação excessiva.

            Estamos falando de uma aprendizagem direta e de uma aprendizagem mediada. A primeira é a dos indivíduos considerados autodidatas e a segunda é a de experiências de aprendizagem; criada e desenvolvida por Vygotsky (um cientista social russo, psicólogo e filósofo). Ele desenvolveu uma pesquisa de campo para provar a sua hipótese de que o conhecimento só se dá pela troca social (gerando o sócio-construtivismo). A evolução das funções de pensamento só acontece se o indivíduo estiver inserido dentro de uma instituição que o estimule. Vemos muitos adultos operando com o pensamento concreto porque não tiveram a oportunidade de aprenderem a articular as funções mais abstratas.

            A escola que só coloca a criança diante da exposição direta seja dando muitas informações, ou deixando que escolha o que quer aprender, não está atendendo ao desenvolvimento natural da criança. Dar uma mediação adequada que oriente a criança no caminho a seguir e que tipo de informação necessita para resolver situações problemas, motivando-a a se tornar independente e autônoma, ensinando-a a pensar e não no que pensar, é a escola que atende ao desenvolvimento natural da criança.

            A teoria de Howard Gardner sobre as inteligências múltiplas vieram clarear questões como: porque algumas crianças gostam de matemática e outras de português; será que é apenas empatia com o professor/mediador; aquele que motiva e o outro não?

Em “Frames of Mind”, ele define sete principais tipos de inteligências:

  1. Linguística – escritores, debatedores, poliglotas;
  2. Musical – compõem ou executam músicas;
  3. Lógica matemática – matemáticos, cientistas e lógicos;
  4. Espacial – jogadores de xadrez, navegadores, arquitetos, artistas;
  5. Corporal cinestésica – dançarinos, atletas e certos tipos de inventores;
  6. Intrapessoal – compreensão poderosa e independente da própria vida emocional;
  7. Interpessoal – empatia pela vida emocional de outros indivíduos: políticos, líderes religiosos, professores e os que atuam em profissões de ajuda.

Então, é a criança que tem dificuldade de aprender ou são as escolas que não desenvolvem estratégias adequadas para atender os diferentes tipos de inteligências?

Com as novas diretrizes que regem o ensino fundamental as escolas terão que atualizar o currículo para atenderem os parâmetros que regem a lei Federal 9394/96.

Um dos parâmetros mais significativos desta nova lei é que o primeiro ciclo do ensino fundamental, do pré à quarta série, deve ser orientado para uma informação que eduque, isto é, que seja aplicada à vida do cidadão consciente, aprender a ser autônomo, levado ao conhecimento.

Quando li este parâmetro, fiquei refletindo como as grandes instituições, apoiadas no slogan que escola forte é aquela que enche o aluno de informações e cobra uma memorização, dando lições de casa repetitivas, para fixação do conteúdo, farão para aplicar esta diretriz sem perder a fama? Será que atualmente há necessidade de tanta informação sem aplicabilidade? Não é melhor desenvolver o potencial do indivíduo ensinando-o a pensar e a raciocinar e deixar que mais tarde ele pesquise a informação sobre a qual se interessa? Com a facilidade da Internet, é muito acessível buscarmos informações que desejamos. Portanto as informações supérfluas já não tem mais sentido!

Colocando todos estes pontos, acho que a tarefa dos pais ao procurarem uma escola adequada para seus filhos será um desafio e exigirá muito mais tempo de investigação e de reflexão. Apontarei algumas orientações que necessitam ser levadas em consideração na escolha:

  • A proximidade da escola, seja da casa ou do trabalho dos pais é fundamental, evitando o desgaste e o estresse do trânsito;
  • Uma escola que esteja preocupada com a formação do educando e não apenas com a informação;
  • Número de crianças por classe, só poderá atender as novas diretrizes da lei federal aquela que não tiver um número grande de alunos por classe;
  • O investimento na formação dos professores/educadores, para que possam atuar como mediadores;
  • Os valores que devem estar estabelecidos na filosofia da escola se batem com os valores da família;
  • Nem sempre uma escola grande que apresente um espaço físico bonito, atende às necessidades das crianças, ás vezes elas nem freqüentam todo o espaço;
  • Saber que a criança não é apenas um número na lista de chamada, mas é conhecido pelo nome, sobrenome e por suas características individuais;
  • Uma escola que esteja preocupada em desenvolver o potencial de cada aluno, lembrando das inteligências múltiplas, e que não aponte o dedo somente sobre o aluno que não aprende, mas que o direcione a ambos, ao mediador e ao aluno, perguntando-se o que acontece, porque a estratégia usada não está dando resultado?

Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

Pedagoga, psicopedagoga, psicomotricista e psicanalista.

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Indicação de Livros: “A Morte de Freud” – O Legado de Seus Últimos Dias; “Terapeuta de Deus”; “O Manuscrito de Accra”.

Vamos começar pelo último: Paulo Coelho, publicou na íntegra um manuscrito encontrado no Egito por um arqueólogo inglês. Diferentemente dos demais manuscritos encontrados no mesmo local, este não fala sobre religião e sim sobre a vida, amor, solidão e ética. É um livro para se ter na cabeceira e relê-lo de vez enquando… Gostei tanto que o presentei a cinco amigos neste Natal.

O segundo livro é sobre a angústia de um homem que se acredita Deus. Sofre com as limitações de ter que viver no corpo de um humano e não pode ajudar a todos que lhe solicitam auxílio, por isso procura um terapeuta. Seu tempo também é limitado, ele tem disponível uma hora por semana durante dez semanas… Lembra o caso do Homem dos Lobos, onde Freud estipula um prazo para terminar a análise com o intuito de fazer  a mesma progredir … No caso, não é o terapeuta quem estipula, mas o paciente… No final se aprende sobre o viver a vida, o amor e o aqui e o agora, ” o nosso presente!”

O primeiro livro, dos três o que mais gostei, o autor (um historiador) localiza os últimos dias de Freud no ambiente austríaco da invasão de Hitler e, compara os dois homens, como dois líderes: um que acha o autoritarismo necessário para o início do processo e depois tenta desmestificá-lo e outro que impõe um autoritarismo como uma consequência de seu narcisismo. Vê-se no decorrer do livro muita pesquisa do autor que articula o momento de angústia de Freud com os textos produzidos por ele, principalmente a sua última produção: “Moisés e o Monoteismo”. Aprendi muito com a leitura, acho-a indispensável a todo psicanalista.

Berenice Ferreira Leonhardt

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