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“EU E TU” – MARTIN BUBER – I PARTE

Nota: Li num artigo de Leopoldo Fulgencio, considerações a respeito de onde teria Winnicott se baseado para desenvolver os seus conceitos, como: as noções de ser, falso self, de saúde, cuidado e do lugar em que vivemos, entre outros; nas noções encontradas no existencialismo, não propriamente nos textos dos filósofos, mas de textos que procuram mostrar a aplicabilidade clínica dessas noções. Entre os filósofos citados estaria Martin Buber. Como há algum tempo li o livro desse filósofo e fiz um resumo, poque achei que havia conceitos que se poderia aplicar à clinica e entender um pouco mais a relação do homem consigo mesmo, com o outro e com o mundo, compartilharei com vocês o que escolhi de mais interessante. Berenice F.L. de Abreu.

 

EU E TU

MARTIN BUBER

(Mais um pensador do que um filósofo ou um teólogo profissional)

 

A mensagem buberiana evoca no pensamento contemporâneo uma notável nostalgia do humano. Sua voz ecoa exatamente numa época que paulatina e inexoravelmente se deixa tomar por um esquecimento sistemático daquilo que é mais característico no homem: a sua humanidade.

O fato primordial do pensamento de Buber é a relação, o diálogo na atitude existencial do face-a-face.

A semente do Tu: o lugar dos outros é indispensável para a nossa realização existencial.

Via sua missão como uma resposta à vocação que havia recebido: a de levar os homens a descobrirem a realidade vital de suas existências e a abrirem os olhos para a situação concreta que estavam vivendo.

O maior compromisso de sua reflexão é com a experiência concreta, com a vida. Ele aliou, com rara felicidade, a postura e as virtudes de um homem atual com as raízes profundas do Judaísmo primitivo. Em realidade, ele encarnava o sábio e o profeta tentando simplesmente advertir os homens a respeito de sua situação. Não se tratava de receitas tradicionalmente conhecidas ou imperativos inadiáveis, mas um apelo aos homens para que vivessem sua humanidade mais profundamente, movidos pela nostalgia do humano.

A união dos contrários permanece um mistério na profunda intimidade do diálogo. Diálogo é plenitude.

É notável em Buber o sentido profundo de diálogo que se estabelece entre sua própria vida e sua reflexão. Ambas firmam um pacto de profundo e mútuo compromisso. São auto-determinantes. Para Buber, porém, o conteúdo vivido da experiência humana, em todas as suas manifestações, vale mais que qualquer sistematização conceitual.

Não devemos tratar nosso semelhante simplesmente como meio, mas também como um fim; nos diversos tipos de relação Eu-Tu, o homem é considerado como fim e não como meio.

De modo geral, não é difícil constatar que as obras de Buber revelam um profundo compromisso com a vida. A vida é realizada e confirmada somente na concretude do “cada-dia”.

Não há distinção entre a relação direta com Deus e a relação com o companheiro. Ademais, a ética não se limita a uma ação ou a uma regra determinada. No Hassidismo a Kabbalah se tornou ethos; este movimento não reteve da Kabbalah senão o necessário para a fundamentação teológica de uma vida inspirada na responsabilidade de cada indivíduo pela parte do mundo que lhe foi confiada.

A imanência de Deus não implica absorção do mundo por Deus. Pelo contrário, a doutrina hassídica pode ser qualificada de panenteísta, isto é, longe de uma identificação entre Deus e o mundo ela significa e afirma a realidade do mundo como mundo-em–Deus. “O comércio real do homem com Deus tem não só seu lugar, mas também seu objeto no mundo. Deus se dirige diretamente ao homem por meio destas coisas e destes seres que Ele coloca na sua vida: o homem responde pelo modo pelo qual ele se conduz em relação a estas coisas e seres enviados de Deus”.

Para Buber, o Hassidismo denunciou e afastou o perigo da separação entre “a vida em Deus”e “a vida no mundo”. Buber considera esta separação como o pecado original e a doença infantil de “toda a religião”. Ele “eliminou”definitivamente o muro que dividia o sagrado e o profano, ensinando a executar toda ação profana como santificada.

Podemos dizer que a principal intuição de Buber foi exatamente o sentido de relação para designar quilo que, de essencial, acontece entre os seres humanos e entre o Homem e Deus.

O tu eterno é aquele que nunca poderá ser um Isso. Sobre a questão de Deus, a intuição fundamental de Buber é entender o novo tipo de relação que o homem pode ter com Ele, porque para o homem não importa talvez o que Deus é em sua essência, mas sim o que Deus é em relação a ele, homem. Deus é Aquele com o qual o homem pode estabelecer uma relação inter-pessoal. Buber encaminha o problema de Deus, ultrapassando a dicotomia sagrado-profano, através da realidade da existência humana.

O maior mérito que cabe a Buber está no fato de ter acentuado de um modo claro, radical e definitivo as duas atitudes distintas do homem face ao mundo ou diante do ser. As atitudes se traduzem pela palavra-princípio Eu-Tu e pela palavra- princípio Eu-Isso. A primeira é um ato essencial do homem, atitude de encontro entre dois parceiros na reciprocidade e na confirmação mútua. A segunda é a experiência e a utilização, atitude objetividade. Uma é atitude cognoscitiva e a outra atitude ontológica.

O mundo é múltiplo para o homem e as atitudes que este pode apresentar são múltiplas.

A atitude de abertura do homem e a doação originária do ser formam a estrutura da relação Eu-Ser. “A essência do ser se comunica no fenômeno.”

A própria condição de existência como ser-no-mundo é a palavra como diálogo. Há uma distinção radical entre as duas palavras-princípio. O Eu de uma palavra-princípio é diferente do Eu da outra. Isso não significa que existem dois “Eus” mas sim a existência de uma dupla possibilidade de existir como homem.

As duas palavras-princípio ao se atualizarem não só estabelecem dois modos de ser-no-mundo, mas também imprimem uma diferença no estatuto ontológico do outro. No entanto, o fundamento cabe à palavra-princípio Eu-Tu. Segundo Buber o Tu ou a relação são originários. O Tu se apresenta ao Eu como sua condição de existência, já que não há Eu em si, independente; em outros termos o si-mesmo não é substância mas relação. O Eu se torna Eu em virtude do Tu. Isto não significa que devo a ele o meu lugar. Eu lhe devo a minha relação a ele. Ele é meu Tu somente na relação, pois, fora dela, ele não existe, assim como o Eu não existe a não ser na relação.

Eu-Isso é proferido pelo Eu como sujeito de experiência e utilização de alguma coisa. Eu-Isso é posterior ao Eu-Tu. O Eu de Eu-Isso usa a palavra para conhecer o mundo, para impor-se diante dele, ordená-lo, estruturá-lo, vencê-lo, transformá-lo. Este mundo nada mais é que o objeto de uso e experiência.

O “entre”permitirá, como chave epistemológica, abordar o homem na sua dialogicidade; e só no encontro dialógico é que se revela a totalidade do homem. A ênfase sobre a totalidade acarreta, como corolário, a rejeição da afirmação da racionalidade da razão como característica distintiva do homem.

A atitude do Eu pode ser o ato essencial que revela a palavra proferida com a totalidade do ser, ou então uma postura noética, objetivante. Na primeira, o Eu é uma pessoa e o outro é o Tu; na segunda, o Eu é um sujeito de experiência, de conhecimento e o ser que se lhe defronta um objeto. A este segundo tipo de Eu, Buber chama de egótico, isto é, aquele que se relaciona consigo mesmo ou o homem que entra em relação com o seu si-mesmo. Eu-Tu e Eu-Isso traduzem diferentes modos de apreensão da realidade, ao mesmo tempo que instauram uma diferença ontológica no outro polo da relação, seja como Tu, seja como Isso.. A contemplação é a doação do ser como Tu ao Eu, pessoa que o aceita. Na contemplação, a atitude não é cognoscitiva, mas ontológica. No conhecimento ou na experiência a atitude não é presença do ser que se revela na contemplação, é um tornar-se presente ao ser e com o ser.

A afirmação da primazia do diálogo no qual o sentido mais profundo da existência humana é revelado não nos deve levar à conclusão de que a atitude Eu-Isso seja algo de negativo, inferior ou um mal. Ao contrário, ela é uma das atitudes do homem face ao mundo, graças à qual podemos compreender todas as aquisições da atividade científica e tecnológica da história da humanidade. Em si o Eu-Isso não é um mal; ele se torna fonte de mal, na medida em que o homem deixa subjugar-se por esta atitude, absorvido em seus propósitos, movido pelo interesse de pautar todos os valores de sua existência unicamente pelos valores inerentes a esta atitude, deixando, enfim, fenecer o poder de decisão e responsabilidade, de disponibilidade para o encontro com o outro, com o mundo e com Deus. A diferença entre as atitudes não é ética, mas ontológica. Não se deve distingui-las em termos de autencidade ou inaltenticidade. Enquanto humanas, as duas atitudes são autênticas. Quando, por esta razão, a relação perde o seu sentido de construtora do engajamento responsável para com a verdade do inter-humano, aí então, o Eu-Isso é destruição do si-mesmo, e o homem se torna arbitrário e submetido à fatalidade.

“Se o homem não pode viver sem o Isso, não se pode esquecer que aquele que vive só com o Isso não é homem.”

O critério de maior valor repousa sobre a reciprocidade. Assim a relação de maior valor existencial é o encontro dialógico, a relação inter-humana onde a invocação encontra sua verdadeira e plena resposta. Devemos estar alertas ao equívoco de atribuir ao Tu, em Buber, o significado simplista de pessoa e ao Isso o significado de coisa, objeto. Eu-Tu não é exclusivamente a relação inter-humana. Há muitas maneiras de Eu-Tu e o Tu pode ser qualquer ser que esteja presente no face-a-face: homem, Deus, uma obra de arte, uma pedra, uma flor, uma peça musical. Assim como o Isso pode ser qualquer ser que é considerado um objeto de uso, de conhecimento, de experiência de um Eu, Eu e Tu não aceita a distinção familiar entre as coisas e as pessoas.

O Eu não é uma realidade em si, mas relacional. Não se pode falar em Eu sem mundo, sem Isso, ou sem o Tu. Se o Eu decide-se por uma ou por outra atitude, significa que é o fenômeno da relação Homem-Mundo como um todo que define a possibilidade do Eu decidir.

O Tu orienta a atualização do Eu e este, pela sua aceitação, exerce sua ação na presentificação do outro, neste evento, é o seu Tu.

O amor não é algo possuído pelo Eu como se fosse um sentimento. Os sentimentos, o homem os possui; porém, o amor é algo que “acontece” entre dois seres humanos, além, do Eu e aquém do Tu na esfera “entre” os dois. Do mesmo modo, a “verdadeira comunidade não nasce do fato de que as pessoas têm sentimentos umas para com as outras (embora ela não possa, na verdade, nascer sem isso) ela nasce de duas coisas: de estarem todos em relação viva e mútua com um centro vivo e de estarem umas às outras em relação viva e mútua”.

A mensagem é a tarefa atribuída ao homem: realizar o “divino”no mundo, tornar possível uma teofania, ultrapassando o dogmatismo e o espírito objetivante das religiões estabelecidas pela religiosidade da existência concreta. Sem dúvida, há forte influênia do Hassidismo sobre Buber nesta proposta da responsabilidade do homem em realizar e instaurar o divino no mundo.

“Devo confessar que não gosto muito de religião e fico muito contente que esta palavra não se encontra na Bíblia.”

Nós podemos falar com Deus, o que significa voltar-se para Ele. O tema da “conversão”é importante em Eu e Tu. Conversão implica uma mudança radical.

Buber sentiu a exigência de procurar uma solução ao problema no qual estava mergulhada a humanidade, uma ruptura entre o homem e Deus. A tarefa a que Buber se impôs, foi a de buscar um meio para recuperar a relação com entre homem, Deus e o mundo, tornando de novo possível o diálogo entre Deu e o homem.

Realmente está no seio do próprio ser do homem o poder de sempre recomeçar.

Eu e Tu nos revela, como também a tradução buberiana da Bíblia, uma faceta importante do pensamento de Buber: a preocupação em captar o sentido originário das palavras. Como tradutor, ele foi um verdadeiro intérprete da Bíblia. Talvez a estranheza com que foi recebida sua tradução revele aquela força de ïndicação” de que nos fala Heráclito em seu fragmento 93: “O deus cujo oráculo está em Delfos, não fala nem esconde, ele indica”.

O modo como Buber apresenta Eu e Tu, como ele nos fala, lança a nós um desafio: qual é o modo pelo qual vamos entrar em contato com a obra?

A palavra-princípio Eu-Tu só pode ser proferida pelo ser na sua totalidade.

A palavra-princípio Eu-Isso não pode jamais ser proferida pelo ser em sua totalidade.

Aquele que profere uma palavra-princípio penetra nela e aí permanece.

O experimentar não participa do mundo: a experiência se realiza “nele”e não entre ele e o mundo.

O mundo não toma parte da experiência.

Ele se deixa experienciar, mas ele nada tem a ver com isso, pois, ele nada faz com isso e nada disso o atinge.

Graças a tudo aquilo que se torna presente, nós vislumbramos a orla do Tu eterno, nós sentimos em cada Tu um sopro provindo dele, nós o invocamos à maneira própria de cada esfera.

Entretanto pode acontecer que simultaneamente, por vontade própria e por uma graça, ao observar a árvore, eu seja levado a entrar em relação com ela; ela já não é mais um isso. A força de sua exclusividade apoderou-se de mim.

Ninguém tente debilitar o sentido da relação; relação é reciprocidade.

Eu não experiencio o homem a quem digo Tu. Eu entro em relação com ele no santuário da palavra-princípio. Somente quando saio daí posso experienciá-lo novamente. A experiência é o distanciamento do Tu.

O Tu encontra-se comigo por graça; não é através de uma postura que é encontrado. Mas endereçar-lhe a palavra-princípio é um ato de meu ser, meu ato essencial.

O Tu encontra-se comigo. Mas sou eu quem entra em relação imediata com ele. Tal é a relação, o ser escolhido e o escolher, ao mesmo tempo ação e paixão. Com efeito, a ação do ser em sua totalidade como suspensão de todas as ações parciais, bem como dos sentimentos de ação, baseados em sua limitação – deve assemelhar-se a uma passividade.

Toda vida atual é encontro.

Todo meio é obstáculo. Somente na medida em que todos os meios são abolidos, acontece o encontro.

O instante atual e plena mente presente, dá-se somente quando existe presença, encontro-relação. Somente na medida em que o Tu se torna presente a presença se instaura.

Presença não é algo fugaz e passageiro, mas o que aguarda e permanece diante de nós. Objeto não é duração, mas estagnação, parada, interrupção, enrijecimento, desvinculação, ausência de presença.

Os sentimentos , nós os possuímos, o amor acontece. Os sentimentos residem no homem mas o homem habita em seu amor. Isto não é simples metáfora mas a realidade. O amor não está ligado ao Eu de tal modo que o Tu fosse considerado um conteúdo, um objeto: ele se realiza, entre o Eu e o Tu. Aquele que desconhece isso, e o descobre na totalidade de seu ser, não conhece o amor, mesmo que atribua ao amor os sentimentos que vivencia, experimenta, percebe, exprime. O amor é uma força cósmica. Àquele que habita e contempla no amor, os homens se desligam do seu emaranhado confuso próprio das coisas: bons e maus, sábios e tolos, belos e feios, uns após outros, tornam-se para eles atuais, tornam-se Tu, isto é, seres desprendidos, livres, únicos, ele os encontra cada um face-a-face. A exclusividade ressurge sempre de um modo marailhoso; e então ele pode agir, ajudar, curar, educar, elevar, salvar. Amor é responsabilidade de um Eu para om um Tu: nisto consiste a igualdade daqueles que amam, igualdade que não pode consistir em um sentimento qualquer, igualdade que vai do menor, ao maior do mais feliz e seguro, daquele cuja vida está encerrada na vida de um ser amado, até aquele cucificado durante sua vida na cruz do mundo por ter podido e ousado algo inacreditável: amar os homens.

Relação é reciprocidade. Meu Tu atua sobre mim assim como eu atuo sobre ele. Nossos alunos nos formam, nossas obras nos edificam. O “mau”se torna revelador no momento em que a palavra-princípio sagrada o atinge. Quando aprendemos com as crianças e com os animais! Nós vivemos no fluxo torrencial da reciprocidade universal, irremediavelmente encerrados nela.

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“Neurose Obsessiva, Uma Tentativa de Articular Conceitos que Demandam uma História Dentro da Vida de um Sujeito” III Parte e conclusão.

COMPLEXO DE CASTRAÇÃO E PONTOS DE FIXAÇÃO:

Depois que o menino conhece e sabe que é possuidor de um pênis e que existe um outro sexo caracterizado por essa falta, haverá uma superestimação, um superinvestimento dessa posse. Em primeiro lugar, como veículo instrumentador das fantasias masturbatórias. Em segundo lugar, esse superinvestimento do pênis outorga-lhe uma supervalorização narcísica, que tende a ser assimilada pelo resto da personalidade. Este narcisismo extremo servirá como couraça protetora frente aos danos fantasiados que seu pênis poderia vir a sofrer.

Há três passos na angústia de castração do menino:

  • Inicialmente, o menino tenta rejeitar a realidade e negar a diferença. Como se trata da rejeição de um elemento externo ao aparelho psíquico, esse mecanismo será mais corretamente chamado de renegação, repúdio, recusa, desmentido. Aceita-se que em torno desse mecanismo se originam as perversões e as psicoses.
  • Logo após esta rejeição da realidade, o menino tenta se reafirmar, atribuindo a ausência do pênis no outro sexo a uma mutilação sofrida no passado por parte da menina. Toda a fantasia de mutilação é atribuída pelo menino a uma punição infligida pelos pais para castigar desejos de prazeres similares aos que ele mesmo sente como proibidos.
  • O terceiro passo caracteriza-se pela recusa em estender a todas as mulheres esta carência essencial. Para ele, só aquelas mulheres que tiveram a fantasia de obter prazer pela masturbação são as que sofreram esse “castigo”. Essa recusa em estender a todas as mulheres a propriedade fundamental da carência do pênis se constata na fantasia, válida para o menino e para a menina, de uma mãe com pênis, conhecida com o nome de “mãe fálica”.

O desenvolvimento psicossexual da menina é praticamente idêntico ao do menino. A vagina é ignorada e a atividade sexual é clitoridiana. A passagem do clitóris para a vagina só se dá numa época posterior: a puberdade e a adolescência. Talvez o mais importante a destacar no que se refere à castração seja que, na menina, essa constatação, que proporciona o acesso ao real, e a grande frustração que sobrevém logo após, acontece antes do complexo de Édipo. A castração é justamente a comprovação que permite entrar no Édipo.

Também na menina observam-se três passos perante a castração:

  • O tema da reivindicação fálica. Também conhecido com o nome de Inveja do Pênis, este conceito é equivalente ao da renegação da diferença por parte do menino. A menina fantasiará que possuía um pênis e que alguém o tirou. Toda essa fantasia reforçará a idéia de reconquistá-lo.
  • O agente dessa perda imaginária (que curiosamente é duas vezes imaginária, pois se imagina ter perdido um pênis que nunca se teve) será a mãe. A menina responsabilizará sua mãe por tal fato, e isso precipitará a vinculação com seu pai. A entrada da menina na estrutura de Édipo e, por conseguinte, o acesso à genitalidade adulta, tem muito de reacional e defensivo, posto que “cai nos braços do pai para fugir à ameaça materna”.
  • Num estágio mais avançado, o tema da reivindicação se transforma. Já ligada com seu objeto-pai, a menina substituirá o desejo de ter um pênis pelo desejo de ter uma criança. Para poder entender a estrutura dessa substituição, devemos lembrar a assimilação inconsciente de diversos elementos que vão se substituindo ao longo da evolução psicossexual: útero, seio, fezes, pênis, valor, dinheiro, bebê.

O menino manifestará dois tipos de fixações. O primeiro é uma disposição a depositar uma intensa carga libidinal na mãe. Manifesta esta disposição usando de todos os recursos captativos e ainda agressivos que reafirmam seu direito de possuir o progenitor do sexo oposto. O segundo tipo de fixação é a fixação libidinal no pai, o qual deve suportar este investimento libidinal. O pai adquire significados de dois tipos: como rival a substituir e, simultaneamente, como modelo a imitar.

 

 

COMPLEXO DE ÉDIPO E RESOLUÇÃO EDÍPICA (COMPLEXO PATERNO E SUPEREGO).

O Complexo de Édipo, nome atribuído por Freud em analogia ao antigo mito relatado na obra de Sófocles, é uma estrutura, uma organização central e alicerçadora da personalidade humana. O importante a reter será que, desde que todo ser humano deve a sua origem a dois seres chamados Pai e Mãe, não haverá nada possível de escapar a esta triangulação que constitui o âmago essencial do conflito humano. Toda esta conflitiva problemática edipiana eclode entre os três e os cinco anos de idade.

O Complexo de Édipo se institui como o resultado da cultura veiculada pelos pais e atuando sobre o aparelho psíquico da criança. A ação efetiva desta cultura nas diferentes sociedades é transmitida através de uma troca de símbolos e que se constitui numa linguagem. É dentro desse contexto simbólico que se transmite uma lei fundamental nas relações sociais: a proibição do incesto. Este incesto é superposto ao período pré-edipiano, entre o nascimento e os quatro ou cinco anos de idade. A esta altura do desenvolvimento, existe impossibilidade biológica de consumar o ato sexual-genital do tipo adulto. Mas sob o ponto de vista psicanalítico, a íntima relação erótica com a mãe proporciona um gozo, um prazer de tal ordem que é equivalente ao incesto adulto. O problema é um complexo. Com efeito, a uma íntima relação “incestuosa” com a mãe corresponde, invariavelmente, uma certa ausência ou queda da figura funcional do pai.

Teoriando-se desta maneira chega-se à conclusão de que o incesto é o modelo mesmo do gozo. De gozar com a própria mãe e, portanto, proibido. Então, o gozo será a transgressão, a abolição do limite máximo que é o próprio corpo da mãe.

Há uma certa especificidade na maneira como é resolvida, em cada sexo, a situação edipiana.

  1. No menino, motivada pelo medo de perder seu pênis, há a renúncia aos desejos genitais pela mãe. Simultaneamente, há um abandono dos sentimentos hostis contra o pai. Freud ficou vacilante em muitos textos no que se refere à designação desse processo de desaparecimento da estrutura edipiana. Em alguns fala da “destruição”, em outros de “dissolução”, em lugar da clássica “repressão”. O que se destrói não pode voltar, mas o que se recalca sim. A saúde mental do sujeito dependerá ou estará intimamente vinculada à distinção entre estes dois processos.
  2. Em comparação com o menino, o processo da menina é muito mais gradual e menos completo. A complicada e ambivalente vinculação da menina com a mãe é o empecilho principal que retarda o processo. Embora a angústia de castração esteja presente, a força que adquire o medo de perder o amor da mãe é hierarquicamente superior e contribui para que a renúncia aos desejos pelo pai não seja tão drástica como é no menino. Em ambos os sexos, finalmente se cumprem um velho ditado: “Quem não possui, é”. Ou seja, ao estar vedado o acesso aos objetos primários, pai e mãe, há uma espécie de introversão-regressão da libido sobre o ego, isto é, o ego identificando-se com os objetos paternos proibidos, se apresenta ele próprio aos desejos libidinosos como um novo objeto de amor. Este processo, decorrente de uma perda, culmina com uma identificação com o objeto perdido (identificação secundária). O resultado é uma libertação energética, que irá a busca de novos objetos para investir.

O Superego, herdeiro do Complexo Edípico, é uma instância tardia. É a representação, conseqüência de uma perda, de uma recusa dos objetos paterno e materno em satisfazer o desejo (incestuoso) do sujeito. A função do Superego é solidária com o que ele realmente é: uma Identificação. Esta Identificação (produto de uma interiorização), agora denominada Superego, está carregada de pulsão. Na realidade o objeto apenas mudou de lugar, já que anteriormente a pulsão procurava objetos exteriores que eram os pais reais e concretos e esses pais se introjetaram, transformando-se num “monumento”: a Identificação, o Superego. O fator desencadeante da instância superegóica é a perda de uma grande ilusão: a fusão narcísica e total com os pais.

O Superego se manifesta em forma de impedimentos, obstáculos, empecilhos, proibições: “Não faça isto! Não faça aquilo! Não seja como seu pai!” (Esta última expressão exprime a proibição do incesto: Eu posso ter relacionamento sexual em “sua” mãe, você não!!!).

As funções superegóicas estão alinhadas nas exigências de ordem moral. Exercem uma função crítica que produz um efeito de dominação sobre o Ego. Esta crítica é quase totalmente inconsciente e Freud denominou-a “sentimento inconsciente de culpa”; também conhecido como “complexo paterno”. Mas é preciso ressalvar que, na clínica, esse sentimento inconsciente de culpa só se observa como uma necessidade de punição, de castigo.

 

CONCLUSÃO:

Depois de percorrer este longo caminho passando pela teoria sexual infantil implantada como apoio na pulsão de autoconservação, pelas fantasias originárias, auto-erotismo e repressão primária, narcisismo, pela organização genital infantil, complexo de castração e pontos de fixação, Complexo de Édipo e resolução edípica; volto a reiterar o que disse na introdução deste trabalho, Freud foi um cientista brilhante, que soube observar o manifesto e dele retirar o latente, ficando agora fácil compreender toda a estrutura da neurose obsessiva.

            “Em uma neurose é contra as exigências da libido que o ego se defende e não contra as de qualquer outra pulsão. O impulso agressivo flui principalmente da pulsão destrutiva. O amor pela mãe, ou agressividade pelo pai?”

            Nesta frase Freud resume tudo o que foi dito até agora, isto é, se a criança é libidinizada pela mãe que lhe dá apoio no desamparo do nascimento (pulsão de autoconservação) e, o bebê se auto-erotiza numa busca de compensação pela falta que sente contra a perda do objeto amado, criando cenas imaginárias que são questões voltadas para o seu drama de desenvolvimento: cena primitiva, da sedução e da castração. Logo que o ego reconhece o perigo da castração dá o sinal de ansiedade e inibe através da instância do prazer-desprazer o iminente processo catexial no id. Acriança já na fase fálica (descoberta da castração), volta-se como defesa para uma fase anterior, a anal, fixando-se aí e agindo com toda a ansiedade e ambivalência que este estágio do desenvolvimento psicossexual desencadeia, ser dominado (seguir o complexo paterno), ou ser o dominador, ditar as suas próprias leis e agir de acordo com os seus desejos.

Nas neuroses obsessivas, o medo que o ego tem é de seu superego, o perigo está agora totalmente internalizado, o temor é uma extensão do castigo de castração, castigo imposto contra a lei do incesto. A ansiedade é uma reação a uma situação de perigo, criando-se sintomas para evitar uma situação de perigo cuja presença foi assinalada pela geração da ansiedade.

A análise de ansiedade revela a existência de: caráter específico de desprazer; atos de descarga; percepções desses atos. Tudo isto aparece na fase anal que controla a motilidade dos atos; isto é, o prazer ou o desprazer de reter ou expulsar as fezes, conforme são sentidas como produtos bons, ou como porcarias; o poder ou não controlar os seus atos motores, sentir-se potente, capaz de executar bem as praxias; perceber estes atos a serviço de algo produtivo, ou como movimentos parasitas que só servem para aplacar a ansiedade.

À medida que continua o desenvolvimento do ego, as situações de perigo mais antigas tendem a perder a sua força e a ser postas de lado, podemos dizer que cada período da vida do indivíduo tem seu determinante apropriado de ansiedade (fases do desenvolvimento psicossexual, ou organização pré-genital infantil).

O perigo de desamparo psíquico é apropriado ao perigo de vida quando o ego do indivíduo é imaturo; o perigo da perda do objeto está ligado a primeira infância, quando a criança ainda é dependente dos outros; o perigo da castração está ligado a fase fálica; e o medo do superego se estende por todo o período de latência.

Na neurose obsessiva o perigo que é externo, passa ser vivido como algo interno, culpa social e moral que o indivíduo carrega (origem do superego); a angústia de morte é a vivência da perda do superego protetor (perda dos pais dessexualizados), vivido como o superego pulsional, pais persecutórios, estágio sádico-anal-erótico.

Embora não possamos esquecer que é na puberdade que a neurose obsessiva é deflagrada, quando o sujeito percebe que neste momento poderá concretizar o ato sexual, o perigo vem à tona e o ego tenta se defender de todas as maneiras possíveis do desejo libidinal que até aquele momento estava adormecido.

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

 

  • Laplanche, J. e B. Pontalis, J. – “Fantasia Originária, Fantasia das Origens, Origens da Fantasia” – Jorge Zahar Editor – Rio de Janeiro, RJ – 1988;

 

  • Kusnetzoff, J. C. – “Introdução à Psicopatologia Psicanalítica” – Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, RJ – 1982 – sexta edição;

 

  • Freud, S. – “A Disposição à Neurose Obsessiva” – 1913 – Volume XII – Imago Editora Ltda – Rio de Janeiro, RJ – segunda edição;

 

 

  • _______ – “Inibição, Sintoma e Angústia” – 1926 – Capítulos V, VI, VII, IX – Volume XX – Imago Editora Ltda – Rio de Janeiro, RJ – segunda edição;

 

  • _______ – “Introdução ao Narcisismo” – 1914 – Volume XIV – Imago Editora Ltda – Rio de Janeiro, RJ – segunda edição;

 

 

  • _______ – “O Ego e o Id” – 1923 – Capítulos II e III – Imago Editora Ltda – Rio de Janeiro, RJ – segunda edição;

 

– Anotações das aulas do seminário teórico “Neurose Obsessiva”, ministradas pelo professor Homero Vettorazzo Filho do Curso Formação em Psicanálise, terceiro ano, primeiro semestre de 2004.

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“Neurose Obsessiva” – Uma tentativa de articular conceitos que demandam uma história dentro da vida de um sujeito – II Parte.

NARCISISMO (CONSTITUIÇÃO DO EGO, EGO IDEAL E IDEAL DE EGO):

Se prestarmos atenção à atitude de pais ternos para com os filhos, temos de reconhecer que ela é uma revivescência e reprodução de seu próprio narcisismo, que há muito abandonaram. A criança concretizará os sonhos dourados que os pais jamais realizaram – o menino se tornará um grande homem e um herói em lugar do pai, e a menina se casará com um príncipe como compensação para sua mãe. No ponto mais sensível do sistema narcisista, a imortalidade do ego, tão oprimido pela realidade, a segurança é alcançada por meio do refúgio na criança. O amor dos pais, tão comovedor e no fundo tão infantil, nada mais é senão o narcisismo dos pais renascido, o qual transformado em amor objetal, inequivocamente revela sua natureza anterior.

Na escolha de objeto nas crianças de tenra idade, o que primeiro notamos foi que elas derivavam seus objetos sexuais de suas experiências de satisfação. As primeiras satisfações sexuais auto-eróticas são experimentadas em relação com funções vitais que servem a finalidade de autopreservação. As pulsões sexuais estão de início, ligadas à satisfação das pulsões do ego; somente depois é que elas se tornam independentes destes. Os primeiros objetos sexuais de uma criança são as pessoas que se preocupam com sua alimentação, cuidados e proteção, isto é, sua mãe ou quem quer que a substitua. Esse tipo e fonte de escolha objetal, que pode ser denominado o tipo anaclítico ou de ligação (apoio).

Em pessoas cujo desenvolvimento libidinal sofreu perturbação, que em sua escolha ulterior dos objetos amorosos elas adotaram como modelo não sua mãe, mas seus próprios eus; procuram inequivocamente a si mesmos como um objeto amoroso, e exibem um tipo de escolha objetal que deve ser denominado narcisista.

O ego tem início no sistema perceptivo, que é seu núcleo, e começa por abranger o pré-consciente, que é adjacente aos resíduos mnêmicos; mas o ego também é inconsciente. Quando acima foi falado das necessidades de cuidados que um bebê precisa para sobreviver, estávamos também falando da constituição de um aparelho psíquico, cujas trocas entre o bebê e o cuidador vão delineando um corpo e um ego, que não é simplesmente uma entidade de superfície, mas é, ele próprio a projeção de uma superfície. O ego em última análise deriva das sensações corporais, principalmente das que originam da superfície do corpo. Ele pode ser encarado como uma projeção mental da superfície do corpo. Também é inconsciente porque ao se relacionar com um objeto sexuado vai formando fantasias que são cenas de sua origem.

O ego é aquela parte do id que foi modificada pela influência direta do mundo externo, por intermédio do Perceptivo-Consciente; em certo sentido, é uma extensão da diferenciação de superfície. O ego procura aplicar a influência do mundo externo ao id e às tendências deste, e esforça-se por substituir o princípio de prazer (id) pelo princípio de realidade. Para o ego, a percepção desempenha o papel que no id cabe às pulsões.

A importância funcional do ego se manifesta no fato que o controle sobre as abordagens a motilidade compete a ele. O ego tem o hábito de transformar em ação a vontade do id, como fosse sua própria.

O ideal de ego é uma instância da personalidade resultante da convergência do narcisismo (idealização do ego) e das identificações com os pais, com os seus substitutos e com os ideais coletivos. Enquanto instância diferenciada, o ideal do ego constitui um modelo a que o indivíduo procura conformar-se. O ideal do ego é o herdeiro do complexo de Édipo e constitui também a expressão dos mais poderosos impulsos e das mais importantes vicissitudes libidinais do id. Erigindo esse ideal de ego, o ego dominou o complexo de Édipo, colocando-se em sujeição ao id. Enquanto o ego é essencialmente o representante do mundo externo, da realidade, o superego coloca-se como representante do mundo interno, do id. Os conflitos entre o ego e o ideal refletirão o contraste entre o que é real e o que é psíquico, entre o mundo externo e o mundo interno.

Já o ego ideal é uma formação intrapsíquica que certos autores, diferenciando-a do Ideal de Ego, definem como um ideal narcísico de onipotência forjado do modelo do narcisismo infantil.

 

ORGANIZAÇÃO PRÉ-GENITAL INFANTIL (ORAL, ANAL, GENITAL OU FÁLICA):

Freud observou que as crianças que mamam no peito, após a satisfação de sua fome, continuavam a ter uma série de movimentos labiais ou mesmo de toda a extremidade cefálica, inclusive chupando o dedo polegar ou a mão inteira. O princípio elementar a que o grande observador recorreu foi levantar a hipótese de que, se o bebê tinha satisfeito já os instintos que demandavam a alimentação específica, essa continuação dos movimentos era explicada por um excesso de energia não satisfeita e que demandava, em conseqüência, objetos não alimentícios (o ato de roçar a pele, as sensações de movimento músculo-esquelético, a sensação de suspensão ao colo, etc.).

Freud denominou a primeira classe de instintos (pulsões) de autoconservação e a segunda de instintos sexuais. A sexualidade infantil é composta por diversos fragmentos que agem como se fossem diversas estações que vão aparecendo e tomando lideranças e predominância dentro de todo um conjunto organizável, isto é, ela é composta por impulsos parciais. Só no adulto normal é que ela alcança níveis totais, integrativos, níveis sintetizadores desses fragmentos. Não há dúvida de que, sob o ponto de vista do ordenamento e do processo, este segue diversas etapas em seu desenvolvimento; sendo importante salientar que essas etapas não se dão nunca de um modo claro e seguindo uma cronologia etária definida. Existe uma evidente interpenetração das etapas que aumenta à medida que nos aproximamos das etapas genitais. A genitalidade é quem ordena todo o processo anterior enfileirado por trás dela.

Estágio Oral: é o primeiro período onde a fonte corporal das excitações pulsionais se dá predominantemente na zona bucal, mas também qualquer outro sistema ou atividade corporal que preencha os requisitos essenciais deste modelo – corpo oco, aconchegante, com movimentos de inclusão e expulsão, etc. – será entendido como boca. Assim, por exemplo: o complexo aerodigestivo; os órgãos da fonação e da linguagem; todos os órgãos dos sentidos; a pele. O objeto da etapa oral é o seio, ou seja, tudo aquilo que se refere ao seio materno ou o substitui. Seios também são os braços da mãe, os músculos que seguram o bebê, a voz que fala contemporaneamente à incorporação do leite, etc. é enorme a importância do vínculo seio-boca neste período, porque ele é herdeiro do vínculo estabelecido entre o feto e a mãe; isto é, o seio será o substituto do cordão umbilical. Neste período, a finalidade pulsional, o alcance ou a obtenção da descarga (satisfação), é duplo:

  • A incorporação do sustento biológico, cujo representante é o leite, sem o qual o sujeito não pode subsistir, pulsão de autoconservação;
  • Junto com a incorporação do leite, o sujeito obtém um plus de satisfação que é conseqüência de um excesso de energia que acompanha a pulsão oral de autoconservação, pulsão sexual, e sua satisfação se estendem além do limite espacial da boca em si mesma (estimulação lábio com lábio, dedos com dedos, dedos com boca, boca com dedos) e do limite temporal (antes e depois de mamar a pulsão se satisfaz em diversas partes do corpo).

Karl Abraham dividiu o período oral em dois subperíodos:

  1. Oral primário ou de sucção, que se estende até os seis meses de idade; é também conhecido como estágio narcísico-primário ou de incorporação, apresentando as seguintes características:
    • Predominância da incorporação ;
    • A satisfação auto-erótica;
    • Indiferenciação entre o bebê e o objeto;
    • A ausência de amor e de ódio propriamente ditos.
  2. Oral secundário ou Canibalístico, este estágio que transcorre do segundo semestre do primeiro ano de vida, é caracterizado pelo aparecimento dos dentes; a criança se vincula pela primeira vez com o mundo exterior, mordendo. A incorporação dos objetos é predominantemente sádica, destrutiva.

Estágio Anal: este estágio se denomina anal porque o ato de defecação ocupa um lugar importantíssimo no desenvolvimento psicossexual da criança; porém não se resume apenas no controle esfincteriano. Este serve de modelo para o controle motor em geral, sensações de domínio, prazer na expulsão ou na retenção, etc.

A fonte pulsional corporal, ou zona erógena parcial, de onde emanam as pulsões neste período é a mucosa ano-retal, que terá a seu cargo sensações conscientes de um processo muito importante para a autoconservação: a eliminação dos resíduos alimentares indigeríveis.

A mãe continua sendo o objeto privilegiado da criança, só que agora é um objeto visualizado por completo (objeto total). Porém, psicologicamente, passa a ser para a criança uma função que além de alimentar, dar aconchego e conter, demonstra interesse em sua capacidade de controlar ativamente esfíncteres, mãos, deslocamentos espaciais, etc. Para a criança “mãe” será tudo aquilo que tentar manipula-la e que ela também manipulará, tendo como modelo o controle e a “manipulação” das fezes.

Uma das primeiras descobertas da psicanálise foi justamente o controle e a manipulação que os neuróticos obsessivos fazem com os objetos reais, e até com os pensamentos, tratando-os como se fossem bolos fecais, que se retém, que se expulsam, e com os quais se obtém prazer.

O assim chamado “bolo fecal” se constitui num objeto intermediário entre a criança e o mundo exterior; é um verdadeiro “terceiro elemento” num conjunto em que haviam existido apenas dois. A importância que adquire o bolo fecal como campo de disputa e de controle entre os desejos dos objetos primários e os desejos da própria criança, torna-o apto para se constituir, por um lado, em herdeiro do objeto-peito da fase oral precedente – e, por outro, no antecessor do pênis, objeto privilegiado da fase psicossexual subseqüente.

O bolo fecal vai representar um valor de troca entre a criança e o mundo exterior. Eis aqui o substrato psicossexual das equivalências descritas por Freud entre as fezes – presentes que se oferecem ou se recusam – e o dinheiro, constituindo-se entre os adultos na representação daquilo que se oferece em troca de alguma coisa e que adquire determinado valor.

Karl Abraham descreveu dois subestágios:

  1. Fase Expulsiva – o prazer desta fase é fornecido por três vias:
  • A via fisiológica – agradáveis sensações na zona ano-retal, cada vez que se produz a eliminação de fezes (auto-erótico);
  • A via social – apoiando-se na via anterior, outorga importâncias a estas funções anais e conduz a criança a reforçar o interesse na função evacuatória e em tudo o que ela conota: puxar, empurrar, fazer esforço, libertar-se de uma tensão, etc.;
  • A via contingente, constituída pela introdução na zona anal de medicamentos como supositórios ou tomadas de temperatura, ou lavagens freqüentes, além de sua necessidade ocasional. Tais ações proporcionam uma série de sensações erógenas que podem se constituir, em conjunto com as outras vias citadas acima, em predisponentes para estruturas psicopatológicas da personalidade.

Esta primeira fase Anal Expulsiva proporciona dois aspectos que deverão ser salientados: o auto-erotismo e o aspecto sádico, sendo que para alguns autores considerado de tal importância que o denominam como estágio sádico-anal. Há uma dupla origem do sadismo na fase anal: por um lado, o ato fisiológico da expulsão, e as fezes em si, são vivenciados pela criança como atos e objetos de escasso valor e que é por isso mesmo que acontece o ato da expulsão; por outro lado o aspecto do sadismo está ligado a diversos fatores sociais, que “ensinam” a criança a instrumentalizar esta propriedade fisiológica para desafiar a autoridade dos pais, que querem justamente o contrário: ensina-lo a reter, a se limpar, a ser “educado”.

  1. A segunda fase ou Fase Retentiva – o prazer se encontra no ato de retenção das fezes, mas a origem desse prazer é igual nas duas fases, embora instrumentalizado de maneira diferente. Nesta fase se encontraria o prazer auto-erótico masoquista. Masoquista neste contexto quer dizer uma série de sensações despertadas passivamente, a criança sente que o acúmulo das fezes na parte terminal do intestino provoca-lhe sensações de prazer.

Erotismo e agressividade são encontrados nas duas fases da analidade: na primeira, há uma tendência a destruir o objeto exterior (expulsão), na segunda, conservá-lo com a finalidade de controlá-lo (retenção). Ambas as tendências são igualmente fonte de prazer. O problema do sadismo proporciona facetas interessantes, como propriedade privada (fezes podem ser oferecidas ou negadas) e noção de poder (poder sobre o seu próprio corpo e poder afetivo sobre os objetos do mundo exterior). Associados a estas duas noções estão os dois sentimentos peculiares e característicos dessa fase: os sentimentos de onipotência e de superestimação narcísica que a criança experimenta opondo-se aos desejos de controle dos objetos externos sobre ela.

Estágio Fálico: por volta do terceiro ano de vida, onde os órgãos genitais serão alvo da concentração energética pulsional, enfileirando-se todas as outras pulsões anteriores e parciais sob o seu comando. O conceito “sexo” é muito ambíguo, já que não existe, por parte da criança, uma conscientização da diferença sexual anatômica; o que conta é o órgão anatômico masculino, que adquire o monopólio de ser o único valor da existência, tanto para o menino, que realmente o possui, quanto para a menina, que dele carece. Neste período fálico do desenvolvimento sexual que, ajudada pela contingência das preocupações sociais de limpeza, a excitação natural da micção ficará exacerbada. Nessa época, os jogos manuais das crianças representam o que se costuma chamar de “masturbação primária”. Uma vez adquirida a disciplina do esfíncter vesical, este prazer, inicialmente ligado apenas à emissão da urina, procurará ser obtido de forma dissociada dela, ativa, e de maneira repetitiva. Isto é o que se chama de “masturbação secundária”, a qual geralmente todos se referem.

Por esse período, a partir do estágio fálico, que os pais passam a negar a possibilidade de satisfação de desejos recentemente descobertos. Desde o momento em que a criança descobre o sentido e a funcionalidade da diferença sexual anatômica, ela passa a desejar também ter filhos. Evidentemente, este desejo é mera ilusão e está fadado ao fracasso. Daí que, para a criança, a “descoberta” da diferença começa com sua negação e culminará com toda a estruturação das funções do Complexo de Édipo.

Em relação ao drama da descoberta sexual anatômica, o sujeito pode se colocar três questionamentos básicos. Um deles é: “de onde venho?” Este questionamento é respondido pela fantasia da Cena Primária. Um outro será: “de onde vem esta sensação que me impulsiona até os outros, ou até o outro sexo?” Esta questão é respondida pela fantasia da sedução. E um terceiro: “por quê não posso fazer sexo como papai ou com a mamãe?” Questão respondida pela fantasia da castração. Veja que voltamos novamente às fantasias originárias, nosso ponto de partida desse trabalho.

Comentários desativados em “Neurose Obsessiva” – Uma tentativa de articular conceitos que demandam uma história dentro da vida de um sujeito – II Parte.

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“NEUROSE OBSESSIVA, UMA TENTATIVA DE ARTICULAR CONCEITOS QUE DEMANDAM UMA ‘HISTÓRIA’ DENTRO DA VIDA DE UM SUJEITO”. I Parte

INTRODUÇÃO:

Falar sobre neurose obsessiva é entrar em contato com o pensamento de um homem que sabia observar e traduzir para os leitores aquilo que acontecia com seus pacientes e que ele ia tecendo em sua teoria, pensando, repensando, reformulando, deixando conceitos para trás à medida que novos eventos vinham lhe mostrar outras maneiras de pensar que não estavam presentes no momento anterior. Certamente estou falando de Freud, uma mente brilhante, que transformava a sua atenção flutuante e as associações livres dos pacientes em conceitos e teorias comprovadas pelo modo de agir e “atuar” daqueles que se dispunham a serem analisados por ele.

A neurose obsessiva foi isolada por Freud nos anos 1894-95, colocando-a como afecção autônoma e independente, começando por analisar o mecanismo psicológico das obsessões em sintomas, como sentimentos, idéias, comportamentos compulsivos, etc.; reagrupando-a depois numa afecção psiconeurótica. Para ele dúvidas e inibições são conseqüências de um conflito que mobiliza e bloqueia as energias do indivíduo.

Freud definiu sucessivamente a especificidade etiopatogênica da neurose obsessiva do ponto de vista dos mecanismos (deslocamento do afeto para representações mais ou menos distantes do conflito original, isolamento, anulação retroativa); do ponto de vista da vida pulsional (ambivalência, fixação na fase anal e regressão); e, por fim, do ponto de vista tópico (relação sado-masoquista interiorizada sob a forma de tensão entre o ego e um superego particularmente cruel). Esta elucidação da dinâmica subjacente à neurose obsessiva e, por outro lado, a descrição do caráter anal e das formações reativas que o constituem, permitem ligar à neurose obsessiva a quadros clínicos em que os sintomas propriamente ditos não são evidentes à primeira vista.

 

TEORIA DA SEXUALIDADE IMPLANTADA COMO APOIO E AUTOCONSERVAÇÃO (FANTASIA ORIGINÁRIA):

O ser humano nasce totalmente indefeso e dependente do outro para sobreviver, o outro é um ser sexualizado, fonte de prazer e desprazer, conforme supre ou não as necessidades do desamparo da criança. A criança nasce sem o ego e este vai se constituir, como organizador das defesas através da relação com o outro; sendo lhe colocado um afluxo de excitação que na maioria das vezes ficam sem tradução. O que dá continência para o aparelho não descarregar é a fantasia, na troca com o outro, na ligação dos traços mnêmicos que vão formando a rede do aparelho psíquico, o ego se torna apoiado nas primeiras fantasias originárias.

As fantasias originárias constituem as fantasias inconscientes que a análise pode descobrir em todos os neuróticos e em todas as crianças. Em seu próprio conteúdo, em seu tema (cena primitiva, castração, sedução), as fantasias originárias indicam também essa postulação retroativa: elas reportam às origens. À semelhança dos mitos, elas pretendem proporcionar uma representação e uma solução ao que, para a criança, oferece-se como importantes enigmas; elas dramatizam como momentos de emergência, como origem de uma história. Na cena primitiva, é a origem do indivíduo que se vê figurada; nas fantasias de sedução, é a origem, o surgimento, da sexualidade; nas fantasias de castração, é a origem da diferença dos sexos. Em seus temas, encontra-se, portanto, significado de forma redobrada, o estatuto de já existente das fantasias originárias.

Freud pôde fazer de uma fantasia uma teoria científica, descobrindo por esse desvio a própria função da fantasia; é porque procurava explicar, em termos de origem, o modo como a sexualidade ocorre no ser humano.

Fala de dois tipos de fantasia, a inconsciente, conteúdo primário dos processos mentais inconscientes e, as imaginações conscientes, cujo protótipo é o devaneio diurno. A diferença ocorre no inconsciente: as fantasias inconscientes ou sempre foram inconscientes e formadas no inconsciente, ou, o que é o caso mais freqüente, foram outrora fantasias conscientes, devaneios diurnos, e depois esquecidos intencionalmente, tendo chegado ao inconsciente por meio do recalcado.

 

AUTO-EROTISMO E REPRESSÃO PRIMÁRIA:

Quando Freud se indaga se existe no homem algo comparável ao instinto dos animais, não é nas pulsões que ele aponta esse equivalente, mas nas fantasias originárias. A fantasia encontra sua origem alucinatória do desejo, reproduzindo o bebê sob forma alucinada, na ausência do objeto real, a experiência de satisfação original. Nesse sentido, as fantasias mais fundamentais seriam aquelas que tendem a reencontrar os objetos alucinatórios vinculados às primeiras experiências do afluxo e da resolução do desejo.

O surgimento da fantasia situa-nos no curso real da história da criança, no desenvolvimento de sua sexualidade, ligando-a ao aparecimento do auto-erotismo: momento em que, do mundo das necessidades, destacam-se aquelas funções de importância vital, cujas metas e cujos aparelhos estão assegurados, cujos objetos estão pré-formados – não como prazer encontrado na realização de uma função, no apaziguamento da tensão que faz nascer a necessidade, mas como produto marginal –aquilo que Freud chama a recompensa de prazer.

Quando Freud fala de auto-erotismo, ele não tem a intenção de negar a existência de uma relação primária com o objeto; pelo contrário, indica que a pulsão só se torna auto-erótica depois de ter perdido o seu objeto. Pode-se dizer do auto-erotismo que é sem objeto, não é porque tenha aparecido anteriormente a toda e qualquer relação com um objeto, nem mesmo porque, com o seu surgimento, todo o objeto deixasse de estar presente na busca de satisfação, mas porque o modo natural de apreensão do objeto se encontra clivado: a pulsão sexual separa-se das funções não sexuais, nas quais ela se apóia e que lhe indicavam sua meta e seu objeto.

A origem do auto-erotismo seria aquele momento no qual a sexualidade se desprende de todo o objeto natural, vê-se entregue à fantasia e desse modo se forma como sexualidade.

A satisfação auto-erótica define-se por um traço muito preciso: produto da atividade anárquica das pulsões parciais, estreitamente ligada à excitação de zonas erógenas especificadas – excitação que nasce e se apazigua in loco – não é prazer global de função, mas prazer fragmentado, prazer de órgão estritamente localizado.

Ao situar a origem da fantasia no tempo do auto-erotismo, assinala-se a ligação da fantasia com o desejo. Mas a fantasia não é objeto do desejo, é cena. Sem deixar de estar presente na fantasia, o sujeito pode aí figurar sob uma forma dessubjetivada, ou seja, na própria sintaxe da seqüência em questão. Por outro lado, na medida em que o desejo não é puro surgimento da pulsão, mas está articulada na fase da fantasia, esta constitui o lugar das operações defensivas mais primitivas, tais como a volta contra si, a inversão, a projeção, a denegação; essas defesas estão até indissoluvelmente ligadas à função primordial da fantasia – a encenação do desejo – o próprio desejo constitui-se como interdito, porque o conflito é conflito originário. Como tentativa para não se enredar neste conflito utiliza-se da repressão como uma operação psíquica tendente a fazer desaparecer da consciência um conteúdo desagradável ou inoportuno.

 

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“Golfe – Sete lições para o jogo da vida”

Um livro surpreendente, não é um simples livro de auto-ajuda,  faz-nos refletir como a vida pode ser vivida sem complicações exageradas, sem dramalhões mexicanos (ambivalências constantes e conflitos sem propósitos), se nos dispusermos a conhecer as nossas capacidades e defeitos, lidando com elas de um modo mais sereno, despretensioso, menos arrogante.

            Comparando a vida com o jogo de golfe, o autor vai ensinando-nos a trabalhar alguns elementos que fazem parte de nosso desenvolvimento para atingirmos o objetivo final, que é jogar bem o golfe, e jogar bem o golfe é viver plenamente a vida.

            Fala da percepção, das emoções e das idéias: a percepção deve ser ampliada, clara; as emoções precisam ser enfrentadas e trabalhadas; e as idéias necessitam ser criativas, não se vence uma partida se seu modo de pensar é rígido, assim como não se vence na vida se não somos flexíveis.

            O livro nos devolve a esperança de vivermos a inocência do brincar pelo brincar, do jogar pelo jogar, onde não há perdedores e nem vencedores, somente jogadores. Mostra como a frustração provoca a amargura e a raiva destrói a capacidade de sentir alegria. Através de pequenas perdas, mais do que grandes privações, que esquecemos a inocência do viver.

            Através de sete lições, o autor nos ensina como sair das armadilhas que construímos para nós mesmos.

  • Manter a mente indivisa, o que será que isso significa? O desenvolvimento da percepção é a grande chave para este aprendizado (quem tem um funcionamento psicótico não consegue apreender esta lição).
  • Deixe o swing acontecer, dance conforme a música. As soluções se formam num nível profundo; as regiões sutis do seu eu não avançam com a velocidade que a mente exige. O que vem do fundo torna-se realidade (associações livres).
  • Encontre o agora e você encontrará a tacada; viva o agora e saberá o que fazer. “Grande parte do tempo é cedo demais. E quando não é cedo demais, é tarde demais. Se você esperar demais, pode não ser nunca.” Trata-se do momento presente, que pode ser resumida numa frase: o agora não acontece depressa; ele acontece com profundidade.
  • Jogue com o coração em direção ao buraco. Confie mais no que você sente do que no que você pensa.
  • Vitória é paixão com desapego. Ganhar ou perder é totalmente incerto. Não controlamos o desconhecido. A maior alegria da vida tem lugar quando as experiências internas e externas se igualam.
  • A bola tudo sabe. Quando você golpeia a bola, tudo muda. Nada pode ser o mesmo de novo. Uma nova dimensão é acrescentada.
  • Deixe o jogo conduzi-lo. Sinta o desconhecido. Não ficar preso à opinião dos outros, recusar-se a prestar atenção ao medo.

 

            Se pararmos para refletir sobre as sete lições, veremos que são muito semelhantes à técnica da psicanálise.

            A primeira diz respeito a ficar na atenção flutuante, escutar atentamente o que o paciente nos conta, para compreendermos o latente, o que ele nos comunica inconscientemente.

            A segunda, sair do controle, a sessão é do paciente, ele falará ou não se quiser e quando quiser. O não falar também é uma forma de comunicação. As elaborações e os insights devem partir dele.

            Terceira: saber esperar o momento certo para fazer uma interpretação, não é a todo o momento que o paciente está preparado. A angústia pode ser do analista.

            Desenvolver a sensibilidade para compreender o sofrimento humano é mais analítico do que tentar elaborar interpretações mirabolantes, intelectuais. É o que nos diz a quarta lição.

            Uma sessão é única, não acontecerá novamente. Não sabemos o que o paciente trará na próxima, ou se virá. Quando conseguimos nos fazer entender o que percebemos no latente, as experiências internas e externas se igualam; quinta lição.

            A bola é o inconsciente se manifestando através da comunicação. Se ficarmos atentos a ela, conseguiremos enxergar o buraco, o que realmente está acontecendo; sexta lição.

            Na sétima lição citarei uma máxima de Bion: “Sem memória e sem desejo”. Não ficar preso ao histórico do paciente e nem aos relatos anteriores, sessões passadas; não ficar com medo de perder o fio da meada.

            Para sermos analistas há que ampliar a percepção (desenvolvendo a escuta e a observação), trabalhar nossas emoções para não misturá-las com as dos pacientes e continuar aprendendo sempre, para desenvolver as idéias.

 

 

– Golfe, sete lições para o jogo da vida – Deepak Chopra – Editora Rocco ltda., Rio de Janeiro, RJ – 2003.

 

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“Perversão em Klein e Pós Kleinianos” – Conclusão e referências

CONCLUSÃO:

Vamos construindo com estes autores a compreensão do psiquismo perverso. Klein contribui nos mostrando como a angústia de aniquilamento do ego não permite a integração do objeto, identificando-se com o objeto persecutório para dar conta do mesmo. Cria-se um superego mau para dar conta do objeto mau. O sentimento de culpa não se sustenta e o sujeito atua. A organização psíquica fica presa num círculo vicioso do mal. Steiner apresenta a necessidade de equilíbrio entre as posições e neste constante interjogo podem acontecer organizações patológicas, principalmente nas transições que ocorrem entre as posições, ou dentro de uma mesma posição, quando o sujeito se encontra mais vulnerável. Rosenfeld cria o conceito de fusão patológica, quando a pulsão de morte captura a pulsão de vida e coloca-a sob o seu julgo, sendo então libidinizada por ela. E que esta fusão patológica é uma das características da dinâmica da perversão.

Já as ansiedades primitivas persecutórias podem causar manifestações na sexualidade da organização psíquica perversa, embora essas manifestações sejam apenas uma forma de manifestação e não a sua expressão. Autores como Rosenfeld, Malcom, Joseph, Segal, Meltzer e Colognese Jr., falam de um sadismo constante operando nessas organizações e que a única forma característica da sexualidade perversa é a sado-masoquista, pervertendo a pulsão, transformando a dor em prazer, fusão patológica, e que a genitalização se desenvolve precocemente numa tentativa de defender-se contra a angústia anal, tendo um prazer genital.

Autores como Steiner, Joseph e Brenman vão apontando outras formas de atuação da organização perversa, onde o fracasso das manifestações na sexualidade acontece: a perversão é uma doença da ética, surgindo a onipotência para dar conta da impotência, o medo de aniquilamento do ego; quando a ética está doente, o superego que deveria tolher, é permissivo; uma estreiteza mental é posta em operação e tem a função de esvaziar a humanidade e impedir que a compreensão humana modifique a crueldade; pode aparecer uma passividade aparente para esconder uma agressividade latente.

Estes mesmos autores, citados acima, nos chamam atenção para o fato que o perverso atua na transferência, não só apresentando uma reação terapêutica negativa, mas agindo da mesma forma que o faziam com as suas relações objetais mais primitivas e que o analista deve tomar cuidado para também não atuar.

Na análise, com essa forma de organização psíquica, somente a tolerância, a indiferença (no sentido de falta de desejo) e a interpretação podem quebrar o círculo do mal descrito por Klein em seus textos: “Sobre a Criminalidade” e “Tendências Criminais em Crianças Normais”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

  • Brenman, E. – “Crueldade e Estreiteza Mental” – 1970 – in Melanie Klein Hoje – Volume I – Imago – Rio de Janeiro, 1991.
  • Colognese Jr., A. – “Um Estudo Sobre a Perversão”, in A Trama do Equilíbrio Psíquico – Edições Rosari Ltda – São Paulo, 2003.
  • ______________ – “A compreensão na Transferência – Algumas Reflexões Sobre a Importância da Identificação Projetiva na Transferência como Situação Total”, in A Trama do Equilíbrio Psíquico – Edições Rosari Ltda – São Paulo, 2003.
  • Joseph, B. – “Uma Contribuição Clínica Para a Análise de uma Perversão”, 1971, in Equilíbrio Psíquico e Mudança Psíquica – Imago – Rio de Janeiro, 1992.
  • ________ – “O Vício Pela Quase Morte”, in Melanie Klein Hoje – Volume I- Imago – Rio de Janeiro, 1991.
  • ________ – “Sobre Passividade e Agressividade: sua Interrelação”, 1971, in Equilíbrio Psíquico e Mudança Psíquica – Imago – Rio de Janeiro, 1992.
  • ________- “Transferência a Situação Total”, 1985, in Equilíbrio Psíquico e Mudança Psíquica – Imago – Rio de Janeiro,1992.
  • Klein, M. – “Tendências Criminais em Crianças Normais”, 1927, “Sobre a Criminalidade”, 1934, in Amor, Culpa E Reparação – Imago – Rio de Janeiro, 1996.
  • Malcom, R. – “O Espelho: Uma Fantasia Sexual Perversa em uma Mulher Vista Como Defesa Contra um Colapso Psicótico”, 1970, in Melanie Klein Hoje – Volume I – Imago – Rio de Janeiro, 1990.
  • Meltzer, D. – “Sexualidade Polimorfa Adulta” , “Sexualidade Polimorfa Infantil”, “Sexualidade Perversa”, in Estados Sexuais da Mente – Imago – Rio de Janeiro, 1979.
  • Rosenfeld, H. – “Uma Abordagem Clínica Para A Teoria Psicanalítica Das Pulsões de Vida e de Morte: Uma Investigação dos Aspectos Agressivos do Narcisismo”, 1971, in Melanie Klein Hoje – Volume I – Imago – Rio de Janeiro, 1988.
  • _________- “Observações sobre a Relação da Homossexualidade com a Paranóia, a Ansiedade Paranóide e o Narcisismo”, 1949, in Os Estados Psicóticos – Zahar Editores – rio de Janeiro, 1968.
  • Segal, H. – “Uma Fantasia Necrofílica”, In A Obra de Hanna Segal – Imago – Rio de Janeiro, 1982.
  • Steiner, J. – “O Equilíbrio entre as Posições Esquizoparanóide e Depressiva”, 1990, in Conferências Clínicas Sobre Klein e Bion – Imago – Rio de Janeiro, 1992.
  • ________ – “O Interjogo entre Organizações Psicopatológicas e as Posições Esquizoparanóide e Depressiva”, 1985, in Melanie Klein Hoje – Volume I – Imago – Rio de Janeiro, 1988.
  • _______ – “Relações Perversas entre Partes do Self: Um Exemplo Clínico”, 1981, in Melanie Klein, Evoluções – Escuta – São Paulo, 1989.
  • Anotações das aulas do seminário teórico Perversão – Uma Visão Kleiniana, ministrado pelo professor Armando Colognese Jr.

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“Perversão em Klein e Pós Kleinianos” Parte III

ANSIEDADES PRIMITIVAS: EM DIREÇÃO AO FRACASSO DAS MANIFESTAÇÕES NA SEXUALIDADE:

 

            Beth Joseph, 1981, “O Vício Pela Quase Morte”, fala de um tipo de paciente onde existe uma destruição maligna de natureza de um vício à quase morte. Meltzer 1973; Rosenfeld 1971; Steiner 1982; falam da escravidão da parte do self que domina esses pacientes e não os deixa escapar, por mais que vejam a vida chamando-os lá fora. O paciente não fica dominado apenas por sua parte agressiva, que tenta controlar e destruir o trabalho do analista, mas esta parte é ativamente sádica em relação à outra parte do self que é masoquistamente capturada nesse processo, e que isto se torna um vício; fazendo-nos pensar num funcionamento psíquico sado-masoquista. É muito difícil para estes pacientes acharem que é possível abandonar estes terríveis deleites pelos prazeres incertos dos relacionamentos reais.

Outra característica da organização psíquica do perverso é descrita por Eric Brenman, 1985[1], a manutenção da prática da crueldade por meio de uma estreiteza mental que é posta em operação e tem a função de esvaziar a humanidade e impedir que a compreensão humana modifique a crueldade. Nas primeiras relações objetais, quando o bebê começa a perceber a separação existente entre ele mesmo e o objeto, bloqueia o conceito de mãe humana inteira, o que restringe a imagem do mundo a um lugar cruel e sem amor.

Em 1971[2], Betty Joseph, escreve sobre a agressividade e passividade que aparecem em alguns pacientes. De premissa achamos o paciente muito passivo, mas essa aparente passividade esconde uma agressividade intensa. O que está latente nesta passividade é uma amálgama pulsional, a pulsão de morte não é mitigada pela pulsão de vida, ocorrendo a fusão patológica. O perverso apresenta duas articulações: o que eu apresento e o que eu realmente sou. O falso self assume o espaço potencial e não dá espaço para o verdadeiro self. Na análise com o perverso somente a tolerância, a indiferença e a interpretação quebram o círculo do mal.

[1] – Brenman, E. – “Crueldade e Estreiteza Mental”, in Melanie Klein Hoje, Volume I.

[2] – Joseph, B. – “Sobre a Passividade e a Agressividade: Sua Interrelação” – in Equilíbrio Psíquico e Mudança Psíquica.

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Perversão em Klein e Pós Kleinianos – Parte II

ANSIEDADES PRIMITIVAS: MANIFESTAÇÕES NA SEXUALIDADE:

 

            Em seu texto “Observações sobre a Relação da Homossexualidade Masculina com a Paranóia, a Ansiedade Paranóide e Narcisismo”, 1949, Rosenfeld demonstra como as ansiedades muito intensas persecutórias da posição esquizoparanóide favorecem o desenvolvimento de tendências homossexuais como defesas; porque a homossexualidade está relacionada com a idealização do pai bom, como recurso para se defender contra o pai perseguidor; é um recurso usado pelo sistema de defesa maníaca, cuja tríade é: o controle, o triunfo e o desprezo. Descreve a importância dos processos projetivos, onde a homossexualidade do tipo narcísico em que outro homem se identifica com o seu eu por meio da projeção. E esse mecanismo de identificação projetiva busca suas raízes nos impulsos infantis mais primitivos de forçar o eu para dentro da mãe. A fixação neste nível primitivo, posição esquizoparanóide, é responsabilizada pela combinação freqüente da paranóia com a homossexualidade.

            Ruth Malcom, 1970, em seu artigo “O Espelho: Uma Fantasia Sexual Perversa Em Uma Mulher Vista Como Defesa Contra Um Colapso Psicótico”, vai utilizar o conceito de Bion a respeito de partes psicóticas da personalidade para explicar o funcionamento psíquico perverso de uma paciente, como defesa contra um colapso psicótico. A autora chama a nossa atenção como surge esse funcionamento na transferência, que o psiquismo da paciente está atuando na perversão, uma parte de sua personalidade psicótica é perversa. E que a organização patológica pode se manifestar na sexualidade. A perversão não é uma sexualidade perversa, é uma mente perversa. A questão sexual é humana, não definindo uma organização perversa. A paciente teve uma atuação perversa homossexual com a irmã, interpretado como atuação psicótica; uma fragmentação psicótica ou atuação na perversão. Quando a cisão não funciona, o jeito de se identificar e controlar seriam ficar num surto de sadismo, dinâmica onde há satisfação. Os agentes paranóides que interferiam na frustração, na onipotência, na discriminação, visando o propósito de manutenção da facilidade, desviam-se deste propósito, afrontando a regra, criando regras para triunfar, humilhar, vingar-se, o que causa prazer. Na perversão são criadas regras próprias para manter um mundo humilhado, a seus pés. Quando a sexualidade é sádica, procura-se alguém que a satisfaça ao ser humilhada, erotizando a dor.

            Já Betty Joseph, 1971, no artigo “Uma Contribuição Clínica para a Análise de Uma Perversão”, conta o caso de um paciente que na transferência atuava da mesma maneira que agia com a sua esposa e com as demais pessoas com quem mantia contato, principalmente com as mulheres; ficava em silêncio, descaracterizava o que a analista dizia, intelectualizava, levando a analista a atuar. Esse paciente tinha uma espécie de fetiche, usar uma roupa de borracha no contato sexual. Este seu ‘artifício’ era, na realidade, para evitar contato, uma forma de proteção, um desligamento. Ele seduzia para em seguida frustrar, criando situações onde as pessoas necessitariam dele e experimentariam a dor de depender dele. O intuito era exercer o sadismo, o prazer subordinado à dor, o desejo era negado e o superego age de modo sádico; toda vez que retorna o que é recusado, o sujeito sentindo-se frustrado, erotiza a dor para evitar a angústia.

            No texto de Hanna Segal, “Uma Fantasia Necrofílica”, é apresentado um caso de um paciente necrofílico, demonstrando por meio desse exemplo que na dinâmica do perverso aparece a fusão patológica, o sadismo e a sexualidade, isto é, a forma deste caso se expressa na sexualidade. Ela vai nos mostrando que a intenção não é só tirar a vida e devolver a vida, num constante liga-desliga, é uma evitação com o vínculo, porque numa relação sadia o risco é o estabelecimento do vínculo. No momento em que aparece o narcisismo, ponto mais frágil do paciente, ele se mostra moribundo, porque a relação que estabeleceu com o seio é de sadismo, o sugar muito para matá-lo; para reavivar o seio precisa se identificar com ele. A relação com a analista ocorre na mesma linha, ou ela ou ele tem que morrer, como funcionava nas primeiras relações objetais.

            Meltzer, 1968[1], vai nos dar um novo elemento dentro da dinâmica perversa, a ética adoece, o paciente perverso fica fixado na sexualidade infantil polimorfa, onde aparece a imaturidade, o exibicionismo e o lúdico, para terminar numa ‘festa’, a masturbação; surgindo a onipotência para dar conta do sentimento de impotência, o medo de aniquilamento do ego. Quando a ética está doente, o superego que deveria tolher passa a ser permissivo. No adulto, quando a ética predomina, a sexualidade polimorfa só aparece nas preliminares; a sexualidade adulta é marcada pela privacidade, modéstia e humildade, o contrário da sexualidade infantil polimorfa e a do perverso.

            Armando Colognese Jr., 2003, “Um Estudo Sobre a Perversão”, contribui para a compreensão do psiquismo perverso, levantando a questão que a única forma de sexualidade perversa é a sado-masoquista: primeiro porque perverte a pulsão, transformando a dor em prazer; segundo porque na fusão patológica, a genitalização se desenvolve precocemente numa tentativa de defender-se de uma angústia anal, tendo um prazer genital.

[1]– Meltzer, D. – “Sexualidade Polimorfa Adulta, Sexualidade Polimorfa Infantil, Sexualidade Perversa.”, in Estados Sexuais da Mente.

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“PERVERSÃO EM KLEIN E PÓS KLEINIANOS” PARTE I

A Falta de Amor

A inteligência sem amor te faz perverso. A justiça sem amor te faz implacável.

A diplomacia sem amor te faz hipócrita. O êxito sem amor te faz arrogante.

A riqueza sem amor te faz avaro. A docilidade sem amor te faz servil.

A pobreza sem amor te faz orgulhoso. A beleza sem amor te faz ridículo.

A autoridade sem amor te faz tirano. O trabalho sem amor te faz escravo.

A simplicidade sem amor te deprecia. A oração sem amor te faz introvertido.

A lei sem amor te deixa egoísta. A fé sem amor te deixa fanático.

A cruz sem amor se converte em tortura. A vida sem amor… Não tem sentido.

Autor desconhecido.[1]

Eu acrescentaria como diz Ryad Simon: “A interpretação sem afeto, é uma crueldade.”

 

            Quando li este texto, várias associações se fizeram presentes, porém duas pareciam mais relevantes: o primeiro verso nos chama a atenção para a questão deste trabalho, a perversão; em seguida ele vai nos contando sobre as consequências da falta de amor. Se acontecem dessa forma, não sei… Entretanto, a associação mais importante foi que a minha permanência no curso de psicanálise se deveu ao acolhimento de dois professores. Este acolhimento, “esta não falta de amor”, começou desde a entrevista para a entrada no curso e, continuou através dos seminários clínicos, espaço em que um desses professores enfatizava a importância do leite com as famosas gotinhas de libido.

            E ao chegar ao final do último semestre do quarto ano, do curso Formação em Psicanálise, vai ficando cada vez mais claro, a clínica nos mostra isso, como a falta das gotinhas de libido no leite desencadeia uma dinâmica mais conturbada no universo das relações objetais, já que o desamparo, do qual não escapulimos se torna maior, a angústia de aniquilamento aumenta, podendo ocorrer defesas que desfacelam o ego.

            No seminário teórico do professor Armando Colognese Jr., o encadeamento dos textos, da maneira como o programa foi montado, permitiu visualizar essa dinâmica, a amálgama que se faz presente na perversão, como as gotinhas de libido não adicionadas no leite fazem a diferença, ou não, conforme o sujeito conseguiu recebê-las ou reconhecê-las.

 

COMPREENSÃO DO PSIQUISMO PERVERSO:

 

            Em seus textos “Tendências Criminais em Crianças Normais” (1927), “Sobre a Criminalidade” (1934), Melanie Klein vai nos falar da perversão como desvios sexuais das ansiedades primitivas. Vai deixando de lado a teoria da libido e cria a teoria das posições. Os desvios das ansiedades primitivas eram os sintomas; o que importa é a organização psíquica que se constituiu. A questão da castração tem importância trazida à luz do Édipo primitivo. O mecanismo de recusa da realidade é usado para o desenvolvimento do conceito de Identificação Projetiva (conceito explicado mais adiante). O sadismo infantil tão ressaltado por ela, não tem nada a ver com a perversão, por estar desvinculado do sadismo adulto. A perversão é um desvio das ansiedades primitivas, ligado a um superego sádico. Perversão é uma doença do superego; é um mau funcionamento do superego que pode gerar essa organização psíquica. Na criminalidade há o sentimento de culpa, mas ele não se sustenta, o sujeito parte para o acting-out. Todo ato criminal é um ato violento da persecutoriedade pela atuação. Ela dá o exemplo da criança que “pede” para apanhar. Se os pais continuam batendo e a criança continua desafiando, é porque os pais foram enredados pela perversão da criança. O perverso necessita de um par perverso.

            John Steiner, 1990, em seu texto “O Equilíbrio entre as Posições Esquizoparanóide e Depressiva” nos mostra o funcionamento psíquico dentro de cada posição, suas angústias e defesas, e como há um jogo entre as posições, o sujeito oscila entre as duas, como se estivesse numa dança de vai e vêm constantes; lembrando-me uma lei biológica que rege o desenvolvimento humano, chamada de lei da diferenciação, para cada conquista do indivíduo há uma regressão, como se tivesse que tomar um impulso para depois tornar a se desenvolver. Na posição esquizoparanóide, a angústia principal é a de aniquilamento do ego e, suas defesas principais são: cisão, identificação projetiva e idealização. As relações de objeto são vivenciadas de maneira cindida, não há integração entre o objeto bom e o mau, os dois são mantidos separados, divididos. Na posição depressiva a angústia principal é de aniquilamento do objeto, começando haver uma integração do objeto, surgindo a ambivalência, sentimentos de perda e de culpa, podendo ocorrer o luto e, em conseqüência o desenvolvimento da função simbólica e o surgimento da capacidade de reparar. A idéia de uma inter-relação entre as posições esquizoparanóide e depressiva é ampliada para incluir subdivisões em cada uma delas. Assim na posição esquizoparanóide pode acontecer desde uma fragmentação patológica, evoluindo para uma cisão normal e, na posição depressiva pode acontecer a cisão normal, evoluindo para o medo da perda do objeto, para a experiência da perda do objeto e depois para o luto. Cada posição pode ser pensada como estando em equilíbrio com as que estão em cada um de seus lados e vemos o movimento entre elas se manifestar nos nossos pacientes no curso de uma sessão, no decorrer de semanas, meses e anos dentro da análise, dependo de suas organizações psíquicas. O diferencial entre o movimento sadio e o patológico é o predomínio na maior parte do tempo de uma ou de outra angústia e das defesas que caracterizam as posições.

            Rosenfeld, 1971[2], vai nos mostrando através dos textos de Freud, Abraham e Klein, como a pulsão de morte, em alguns sujeitos, captura a pulsão de vida e a coloca sob o seu julgo, aprisionando-a, libidinizando assim a pulsão de morte; não havendo o predomínio da cisão, mas um tipo de integração, aglomeração da pulsão de vida com a pulsão de morte, o que ele dá o nome de fusão patológica, cujo objetivo é tirar a força da pulsão de vida para dar força à pulsão de morte. E considera a fusão patológica uma característica da perversão, criando um tipo de funcionamento ‘mafioso’, onde existe uma sedução, mas não uma subjugação ao poder. Neste tipo de dinâmica, certos estados onipotentes narcísicos são dominados pelos mais violentos processos destrutivos, de tal modo que o self libidinal fica quase completamente ausente ou perdido.

            John Steiner, 1985, no seu artigo “O Interjogo Entre Organizações Patológicas e as Posições Esquizoparanóide e Depressiva”, mostra os modos como as defesas podem ser reunidas em organizações patológicas que têm um profundo efeito sobre a personalidade e podem levar a estados mentais que se tornam fixados de modo que o paciente em análise não apresenta insights e tem resistência a mudanças. Como no seu artigo anterior, citado acima, continua insistindo no movimento contínuo entre as posições, de modo que nenhuma delas prevalece em qualquer grau de completude ou permanência. Somente quando os estados mentais se tornam fixados, é que acontece a organização patológica e, é nas transições que ela ocorre, tanto no interior da posição esquizoparanóide como na depressiva, que o sujeito parece estar mais vulnerável à influência dessa organização. Por exemplo, na passagem da cisão do objeto para a dor, perda do objeto, acontece este tipo de organização patológica.

 

[1] – Recebido por e-mail, em setembro de 2005.

[2] – Rosenfeld, H. – Uma Abordagem Clínica Para A teoria Psicanalítica das Pulsões de Vida e Morte: Uma Investigação dos Aspectos Agressivos do Narcisismo, in Melanie Klein Hoje, Volume I .

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PARCERIA DA ESCOLA COM OS PAIS PARA O DESENVOLVIMENTO DA CAPACIDADE EMOCIONAL E COGNITIVA DO ADOLESCENTE

Todo adolescente “adora” estudar, não tem dificuldades de atenção, de interesse, de motivação, de organização, de memória, não é mesmo?

            Os professores fazem malabarismos para que prestem atenção, pelo menos um minuto, no assunto que estão abordando. Com todo um mundo novo descortinando, quem vai se interessar por matemática, física, química ou biologia?

O período de latência cedeu lugar a uma explosão hormonal, o corpo muda dia a dia, o esquema corporal é outro, necessitando refazê-lo. Perguntas como: Quem sou eu? Como irei ficar? As espinhas irão desaparecer? Se fizer sexo será que nascerá um bebê? Será que poderei pegar doenças sexualmente transmissíveis? O que eu faço com a liberdade que se abre a minha frente? Que profissão irei escolher?

Com todas estas questões para resolver, nós ainda queremos que ele pense em algo emergencial como: “a soma do quadrado dos catetos é igual a soma do quadrado da hipotenusa.” Para que lhe serve isto? E suas questões não são mais importantes? O que lhes parece?

Entra aqui a parceria da escola com os pais, para desenvolver a competência, individuação, identidade e auto-estima. Fatores fundamentais para o desenvolvimento da inteligência formal, só possível pelo convívio social que interage entre a maturação e a experiência.

Os pais são considerados, atualmente, mediadores de aprendizagem, tanto quanto os professores, o estímulo, o exemplo, o modelo vem de casa. Piaget acreditava que a aprendizagem se dava pelo seguinte esquema: S – O – R, isto é, estímulo, organismo e resposta, considerada a aprendizagem direta ou explicação passiva; se o estímulo coincide com o indivíduo, produz a resposta. Podemos desenvolver a capacidade somente pela exposição a estímulos? Podemos fazer inferências somente pela resposta a estímulos? Para os novos pesquisadores do desenvolvimento da inteligência, como Reuven Feuerstein, o esquema de aprendizagem deve ser o seguinte: S – H – O – H – R (H traduzido pelo mediador humano). O mediador humano se interpõe entre o estímulo e o indivíduo, oferecendo estímulos e transformando, assegurando criações ótimas de interação, criando modos de perceber, confrontando os estímulos, abrindo novas formas de abstrair. O organismo adquire comportamentos apropriados, formas de aprendizagem e estruturas operacionais que modificam constantemente sua estrutura cognitiva como resposta a estimulação direta.

No período de latência (dos sete aos dez anos mais ou menos) a criança desenvolve as seguintes funções de pensamento, quer tenham ou não esta mediação: observação, comparação, classificação, imaginação, codificação, interpretação e obtenção e organização de dados. Alguns podem demorar mais, outros menos, porém a maioria chega lá.

Na adolescência deverá desenvolver as funções mais abstratas de pensamento, chamadas de operações formais, como: resumo, crítica, busca de suposições, levantamento de hipóteses, aplicação de fatos a novas situações, decisão, planejamento de projetos e pesquisas. No entanto só o fará se for bem mediado, se conviver socialmente, se fizer troca. Nesta fase a escola é de fundamental importância. É comum encontrar adultos que não desenvolveram algumas das operações formais, apresentando ainda pensamentos concretos.

Alguns dos comportamentos que comprometem o desenvolvimento das funções de pensamento formal são: impulsividade, dependência em relação aos pais ou professores, incapacidade de concentrar-se, dificuldade em perceber o significado, comportamento dogmático, rigidez, falta de confiança no pensamento pessoal, falta de disposição para pensar.

Alguns anos atrás se falava muito em Q.I. (quoeficiente de inteligência), medida dada por testes elaborados por pesquisadores, a maioria das vezes restritas a um contingente de população urbano, com certo grau de conhecimento e corrigido pelo número de respostas certas e pela velocidade dada às respostas. Como ficavam outras populações como os índios, meninos de rua, populações carentes? Confundia-se inteligência com cultura.

Agora se fala em Q.E. (quoeficiente emocional), a facilidade para detectar e resolver problemas, sendo necessárias qualidades como flexibilidade e criatividade (os tecnocratas têm o conhecimento, teorizam, mas as propostas para as soluções do dia a dia permanecem difíceis). Também se acredita em vários tipos de inteligência, as inteligências múltiplas: a musical, a linguística, a lógica-matemática, a espacial, a motora, etc..

Para desenvolver pessoas com Q.E. é proposto um trabalho com blocos de construção de pensamento e ferramentas de aprendizagem independente, interligados; a cada dia se propõe um bloco de pensamento e uma ferramenta, por exemplo: Exploração Sistemática (bloco de pensamento) e Sentimento de Competência (ferramenta de aprendizagem); ou Fazendo Comparação (bloco de pensamento) e Autodesenvolvimento (ferramenta independente); ainda, Fazendo a Memória Funcionar (bloco de pensamento) e Comportamento Compartilhado (ferramenta independente).

Se a escola e os pais estiverem sintonizados, compartilhando dúvidas e experiências, é possível desenvolver a capacidade do adolescente, transformando-o em um indivíduo consciente, autônomo e responsável.

 

 

Palestra realizada no Colégio Oswaldo Cruz para pais de adolescentes.

Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

 

 

 

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