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TRANSFORMANDO PROFESSORES EM EDUCADORES, ESSA SERÁ A GRANDE REVOLUÇÃO

Objetivos:

 Sensibilizar os professores que existem outros caminhos dentro da educação.

 Conhecer-se, é o primeiro passo para aceitar mudanças.

            No final do ano passado (2013), recebi um mail do meu filho (que também está comprometido com a educação, só que de empresários), com a palestra de Sir Ken Robison, cujo título era: “Façamos a revolução na aprendizagem”.

            Quando terminei de assistir refleti sobre a minha prática clínica, afastada indiretamente de instituições educacionais há quatorze anos; porque algumas vezes ainda visito escolas para conversar a respeito dos meus pacientes que atendo em psicopedagogia, ou em psicomotricidade, e ou na área emocional.

            Vi o quanto havia me afastado do meu talento inicial, que sempre foi o de participar do processo de aprendizagem. Lembro-me que quando criança, colocava na varanda de minha casa, em Belo-Horizonte, os meus amigos de infância e imitava as minhas professoras de pré-escola e do fundamental. Já estava traçada a minha carreira profissional, foi o que sempre quis ser, uma professora, depois mais tarde uma educadora.

            Descobri que professor qualquer um poderia ser, mais educador era para poucos. E descobri, quando comecei a me conhecer melhor, no curso Formação em Psicomotricidade Ramain-Thiers (metodologia vinda da França, criada por Simonne Ramain e disseminada no Brasil por Solange Thiers).  Isto porque no curso, os exercícios eram aplicados nos aprendizes para desenvolver a nossa consciência e aguçar a nossa percepção, primeiro de nós mesmos e depois dos outros que participavam da formação e por fim estar disponível para os que seriam entregues ao nosso cuidado. Foi um dos períodos mais fecundos da minha existência. Um simples exercício de cópia em folha de papel quadriculado levava-me a uma viagem profunda de mim mesma. Percebia como o meu raciocínio trabalhava, as interferências vindas do externo e os barulhos internos que estava começando a me permitir escutar (meus sentimentos), além da comunicação verbal, decodificada e interpretada, muitas vezes de modo diferente, das instruções para realizar o exercício; como eu não sabia escutar… Vivemos num mundo interessados em falar, mas não em escutar.

            Na época em que cursava a formação (três anos e meio para poder trabalhar com crianças e adolescentes), trabalhava numa grande instituição educacional e lecionava português e matemática para crianças de terceira e quarta séries do Fundamental I.  A primeira coisa que fiz foi tentar ampliar a percepção, a atenção e a escuta de meus alunos. Muitas das minhas estratégias (palavra que vem do militar) deram certo, meus alunos ficavam em silêncio quando precisava de sua atenção para desenvolver um novo tema, mas um silêncio participativo, de troca de ideias, uma comunicação onde havia ordem, porque todos queriam escutar o que seus colegas tinham a dizer a respeito.

            Depois fui requisitada para desenvolver e implantar um currículo para uma escola de educação infantil. A princípio a grade curricular seguia os parâmetros da cartilha ditada pelo MEC, que acabara de introduzir a motricidade no currículo da programação infantil. Por algum tempo foi satisfatório, mas sentia que ainda faltava algo, não era daquele jeito que queria levar adiante a educação das crianças que eram postas sob a minha orientação. As crianças não estavam felizes, muito menos eu.

            Resolvi implantar a metodologia Ramain-Thiers na escola, mas para isso precisava mudar a visão dos professores, necessitava transformá-los em educadores. Foi o que fizemos, eu e meus colaboradores, aqueles que acreditavam que os professores precisavam deixar suas antigas crenças, aquelas que aprenderam na escola e em sua formação. Teria que despertar seus espíritos, suas paixões e suas energias.

            Para isto, reuníamos toda a semana durante uma hora e meia e fazíamos um ou mais exercícios de psicomotricidade. Discutíamos o que eles tinham suscitado em cada um, como poderiam aproveitar as percepções descobertas para transpor para os alunos. Líamos textos de educadores que nos interessavam, refletíamos se algumas das ideias eram aproveitáveis ou não. E conversávamos sobre o comportamento de algum aluno que estava dificultando a convivência com as crianças do grupo a qual pertencia e quais seriam as medidas mais apropriadas a tomar.

            Os professores foram deixando de lado crenças educacionais que não cabiam mais numa escola que estava terminando um século e às portas de um novo milênio.  Foram se transformando, aprenderam a se escutar e a escutar o que as crianças tinham a dizer. Não éramos uma escola preocupada que nossos alunos entrassem nesta ou naquela escola de ensino fundamental que ficavam no mesmo bairro, porém eles iam tão despreocupados em prestar o tal vestibulinho, que entravam. Eles adquiriam a mesma confiança no vir a ser, que sentiam nos educadores que trabalhavam com eles.

            Na minha prática clínica, quando visito uma escola, tento escutar qual é a sua filosofia, qual a metodologia empregada, o que posso esperar de cooperação para podermos ajudar a criança que nos foi confiada e com a qual estamos trabalhando. A maioria das escolas se diz modernas, mas ainda são tradicionais, se preocupam em ensinar coisas para as crianças, que muitas vezes elas ainda não estão preparadas para aprenderem, porque há estágios de desenvolvimento que todos nós, como educadores, devemos respeitar. São escolas que estão preocupadas com a avaliação na aprovação do número de alunos no ENEM e ou vestibular. A que coloca mais alunos ganha a fama de ser a melhor. Estamos falando de escolas industriais, empresariais, que ficam de olho no número, na estatística.

            O grito que ouvi de alguns palestrantes no Youtube, como: Ken Robison, José Pacheco (Escola da Ponte), Luciano Meira, Sidarta Ribeiro; a respeito de educação, é que ela deve ser mudada para uma escola que personalize o educando, que o faça descobrir qual é o seu talento e com o que gostaria de trabalhar, precisamos de toda uma diversidade de profissionais e técnicos que gostem do que fazem. Para isto devemos mudar a escola de um modelo industrial para um agrícola, onde os sonhos possam ser cultivados, despertados e colocados em prática.

            Penso que há ainda um grande desafio nesta mudança, que é da maior importância: Fazer a revolução no campo da Formação de Educadores, não de professores, porque sem eles qualquer mudança emperra, porque a filosofia e a metodologia de uma escola dependem deles, das crenças que carregam.

            Paulo Freire e Ira Shor, no livro: “Medo e Ousadia” – falam de um educador libertador e de uma prática dialógica. Um educador que está mais comprometido em participar da formação dos alunos, do que em transferência de conhecimentos. Mas que também é competente e rigoroso no que quer trabalhar com os estudantes e não inflexível.

            Como fiz outrora, quando fui orientadora pedagógica de uma pré-escola, proponho que os professores possam se conhecer, saber quais são os seus desejos,

com quem se identificam, onde colocam suas projeções, aprendam a identificar as suas dificuldades para não confundir com as dos seus alunos, saibam separar o que é deles, o que é dos outros. Só então, após se conhecerem e saberem qual a sua disposição, poderão se comprometer e virem a se tornar educadores; porque a educação também é um ato político, não havendo pedagogia neutra.

            Proponho um curso de autoconhecimento, enriquecimento e desenvolvimento de talentos, aprendendo quais são os seus recursos naturais e como aprimorá-los para se transformar num autêntico EDUCADOR. Aquele que faz a diferença neste processo que se inicia agora, com esta revolução.

Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

Texto enviado ao congresso Formação de Educadores.

 

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PARCERIA DA ESCOLA COM OS PAIS PARA O DESENVOLVIMENTO DA CAPACIDADE EMOCIONAL E COGNITIVA DO ADOLESCENTE

Todo adolescente “adora” estudar, não tem dificuldades de atenção, de interesse, de motivação, de organização, de memória, não é mesmo?

            Os professores fazem malabarismos para que prestem atenção, pelo menos um minuto, no assunto que estão abordando. Com todo um mundo novo descortinando, quem vai se interessar por matemática, física, química ou biologia?

O período de latência cedeu lugar a uma explosão hormonal, o corpo muda dia a dia, o esquema corporal é outro, necessitando refazê-lo. Perguntas como: Quem sou eu? Como irei ficar? As espinhas irão desaparecer? Se fizer sexo será que nascerá um bebê? Será que poderei pegar doenças sexualmente transmissíveis? O que eu faço com a liberdade que se abre a minha frente? Que profissão irei escolher?

Com todas estas questões para resolver, nós ainda queremos que ele pense em algo emergencial como: “a soma do quadrado dos catetos é igual a soma do quadrado da hipotenusa.” Para que lhe serve isto? E suas questões não são mais importantes? O que lhes parece?

Entra aqui a parceria da escola com os pais, para desenvolver a competência, individuação, identidade e auto-estima. Fatores fundamentais para o desenvolvimento da inteligência formal, só possível pelo convívio social que interage entre a maturação e a experiência.

Os pais são considerados, atualmente, mediadores de aprendizagem, tanto quanto os professores, o estímulo, o exemplo, o modelo vem de casa. Piaget acreditava que a aprendizagem se dava pelo seguinte esquema: S – O – R, isto é, estímulo, organismo e resposta, considerada a aprendizagem direta ou explicação passiva; se o estímulo coincide com o indivíduo, produz a resposta. Podemos desenvolver a capacidade somente pela exposição a estímulos? Podemos fazer inferências somente pela resposta a estímulos? Para os novos pesquisadores do desenvolvimento da inteligência, como Reuven Feuerstein, o esquema de aprendizagem deve ser o seguinte: S – H – O – H – R (H traduzido pelo mediador humano). O mediador humano se interpõe entre o estímulo e o indivíduo, oferecendo estímulos e transformando, assegurando criações ótimas de interação, criando modos de perceber, confrontando os estímulos, abrindo novas formas de abstrair. O organismo adquire comportamentos apropriados, formas de aprendizagem e estruturas operacionais que modificam constantemente sua estrutura cognitiva como resposta a estimulação direta.

No período de latência (dos sete aos dez anos mais ou menos) a criança desenvolve as seguintes funções de pensamento, quer tenham ou não esta mediação: observação, comparação, classificação, imaginação, codificação, interpretação e obtenção e organização de dados. Alguns podem demorar mais, outros menos, porém a maioria chega lá.

Na adolescência deverá desenvolver as funções mais abstratas de pensamento, chamadas de operações formais, como: resumo, crítica, busca de suposições, levantamento de hipóteses, aplicação de fatos a novas situações, decisão, planejamento de projetos e pesquisas. No entanto só o fará se for bem mediado, se conviver socialmente, se fizer troca. Nesta fase a escola é de fundamental importância. É comum encontrar adultos que não desenvolveram algumas das operações formais, apresentando ainda pensamentos concretos.

Alguns dos comportamentos que comprometem o desenvolvimento das funções de pensamento formal são: impulsividade, dependência em relação aos pais ou professores, incapacidade de concentrar-se, dificuldade em perceber o significado, comportamento dogmático, rigidez, falta de confiança no pensamento pessoal, falta de disposição para pensar.

Alguns anos atrás se falava muito em Q.I. (quoeficiente de inteligência), medida dada por testes elaborados por pesquisadores, a maioria das vezes restritas a um contingente de população urbano, com certo grau de conhecimento e corrigido pelo número de respostas certas e pela velocidade dada às respostas. Como ficavam outras populações como os índios, meninos de rua, populações carentes? Confundia-se inteligência com cultura.

Agora se fala em Q.E. (quoeficiente emocional), a facilidade para detectar e resolver problemas, sendo necessárias qualidades como flexibilidade e criatividade (os tecnocratas têm o conhecimento, teorizam, mas as propostas para as soluções do dia a dia permanecem difíceis). Também se acredita em vários tipos de inteligência, as inteligências múltiplas: a musical, a linguística, a lógica-matemática, a espacial, a motora, etc..

Para desenvolver pessoas com Q.E. é proposto um trabalho com blocos de construção de pensamento e ferramentas de aprendizagem independente, interligados; a cada dia se propõe um bloco de pensamento e uma ferramenta, por exemplo: Exploração Sistemática (bloco de pensamento) e Sentimento de Competência (ferramenta de aprendizagem); ou Fazendo Comparação (bloco de pensamento) e Autodesenvolvimento (ferramenta independente); ainda, Fazendo a Memória Funcionar (bloco de pensamento) e Comportamento Compartilhado (ferramenta independente).

Se a escola e os pais estiverem sintonizados, compartilhando dúvidas e experiências, é possível desenvolver a capacidade do adolescente, transformando-o em um indivíduo consciente, autônomo e responsável.

 

 

Palestra realizada no Colégio Oswaldo Cruz para pais de adolescentes.

Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

 

 

 

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Palestra Para Pais

PALESTRA PARA PAIS

(palestra realizada no Núcleo Educacional Ser Feliz e SER – Sistema Educacional)

ASSUNTOS ABORDADOS:

  • Papel da escola x o papel da família;
  • Dificuldade de aprendizado ou estratégia de ensino inadequada;
  • Atualização do currículo da escola para atender as novas diretrizes que regem o Ensino Fundamental;
  • A escolha da escola que dará continuidade à pré-escola.

Apesar de a palestra ter sido dada em setembro de 2000, há abordagens ainda pertinentes ao ano vigente, reflexões a se fazer.

            Para falar sobre o papel da escola e o da família faz-se necessário fazer um pequeno retrocesso na história de vida escolar. Quem tiver na faixa dos 40 a 50 anos se lembrará do que vivenciou na sua época de escola. O papel fundamental da escola era transmitir informações (quanto mais, melhor) e o da família era educar (colocar limites). Não havia confusão. Os pais não iam à escola para saber o que ela estava dando de conteúdo, nem a escola cobrava dos pais a educação de seus filhos. As duas instituições (escola e família) eram soberanas e não se contestava as atitudes tomadas. Quando a criança reclamava para os pais a atitude da escola ou de algum professor, havia algumas variações no comportamento dos pais: ignorar; dizer que a escola tinha razão; puni-la por ter tido um mau comportamento.

            Esta era a escola tradicional. Os pais só compareciam em festas ou quando eram convidados. Não existia reunião de pais e mestres. Sabia-se do rendimento da criança através da caderneta escolar.

            Entretanto sempre existiram aqueles alunos que não conseguiam acompanhar o ensino da escola tradicional. As informações eram decoradas e quando se ousava perguntar o que se faria com toda aquela informação, isto é, onde seria aplicada? Respondiam: “Cultura!” (em minha opinião, deveriam dizer cultura inútil).

            Para atender as crianças que não conseguiam acompanhar, eram indicados professores particulares, que insistiam no mesmo tema, da mesma maneira. Ensinava-se para decorar. Passar de ano!

            Paralelamente, começaram a surgir escolas alternativas, que passaram a buscar fundamentação em metodologias e filosofias de teóricos que se preocupavam como o ser humano aprende. Maria Montessori foi uma delas (médica italiana – criou uma metodologia de atendimento individual, visando crianças deficientes). Cada aluno poderia seguir o seu próprio ritmo e para isso o número de crianças por classe era restrito. Ainda hoje, encontramos escolas que adotam o seu método, principalmente na alfabetização, incoerente para a nossa língua que é silábica e não fonética, gerando muitos distúrbios de leitura e escrita.

            Depois, o mais famoso de todos, Piaget, zoologista, pesquisador, matemático, filósofo e acima de tudo um epistemologista genético, preocupado em descobrir os processos mediante os quais os corpos de conhecimento crescem, tanto historicamente, quanto internamente organizados. Observou nos seus filhos este crescimento e viu que cada um constrói o seu próprio conhecimento apesar do estímulo ser o mesmo. Porém ele nunca afirmou que a criança deveria ser deixada sozinha e sem orientação para aprender.

            Mesmo assim estas escolas alternativas não conseguiam dar conta do recado, as crianças continuavam a apresentar dificuldades, por quê? Pegavam teorias novas e aplicavam sem um estudo prévio, achando que pelo simples fato de fugir às regras tradicionais poderia dar certo. No entanto, os pais já entravam nas escolas, participavam cada vez mais de eventos, reuniões; a velha caderneta foi substituída pelo boletim ou por relatórios de avaliação. Iniciou-se uma troca de informações entre as duas instituições; muitas vezes uma interferindo no modo de atuar da outra. A algazarra começou: uma apontando o dedo para a outra na luta para buscar um responsável pelo fracasso da criança. Até onde a escola pode interferir no relacionamento familiar? Até onde a família pode intervir na metodologia e filosofia de uma escola? De quem é a tarefa de educar a criança?

            Eu responderia: de ambas! Os pais não podem, nem devem delegar o seu papel de educar e orientar os seus filhos é de direito e dever deles. A escola deve participar desta educação promovendo a socialização da criança ao ambiente escolar e para que este ocorra harmoniosamente é preciso estabelecer regras; palestras para a orientação dos pais, trocar idéias sobre o comportamento de seus alunos com os respectivos pais. Contudo, a escola, não pode abrir mão de ter a sua filosofia e metodologia que nortei o caminho que ela acredita. Cabe aos pais escolher a escola que melhor se adapte ao que eles acreditam.

            O papel do professor também mudou muito nesta evolução histórica. De centralizador, quem detinha todo o poder do conhecimento; passou com as novas teorias (mal compreendidas) a ser a figura mais apagada da escola. Basta ver a desvalorização profissional que atualmente vive. Em algumas escolas o professor sofre deboches por parte dos alunos, muitas vezes sob os aplausos dos pais. E o respeito à pessoa humana, onde fica? Saiu-se do 80 para o 8. O aluno aprende sozinho não necessita mais do professor. Se isto fosse verdade não necessitaríamos mais de escolas, é só colocar a criança na frente de um computador que de lá sairia um gênio. O que vemos é que sem orientação, sem uma direção o aluno se aliena, pois não sabe qual é o estímulo adequado a seguir. A cada dia, um grande número de crianças chega aos consultórios de especialistas com distúrbios de atenção, devido, entre outras coisas, uma estimulação excessiva.

            Estamos falando de uma aprendizagem direta e de uma aprendizagem mediada. A primeira é a dos indivíduos considerados autodidatas e a segunda é a de experiências de aprendizagem; criada e desenvolvida por Vygotsky (um cientista social russo, psicólogo e filósofo). Ele desenvolveu uma pesquisa de campo para provar a sua hipótese de que o conhecimento só se dá pela troca social (gerando o sócio-construtivismo). A evolução das funções de pensamento só acontece se o indivíduo estiver inserido dentro de uma instituição que o estimule. Vemos muitos adultos operando com o pensamento concreto porque não tiveram a oportunidade de aprenderem a articular as funções mais abstratas.

            A escola que só coloca a criança diante da exposição direta seja dando muitas informações, ou deixando que escolha o que quer aprender, não está atendendo ao desenvolvimento natural da criança. Dar uma mediação adequada que oriente a criança no caminho a seguir e que tipo de informação necessita para resolver situações problemas, motivando-a a se tornar independente e autônoma, ensinando-a a pensar e não no que pensar, é a escola que atende ao desenvolvimento natural da criança.

            A teoria de Howard Gardner sobre as inteligências múltiplas vieram clarear questões como: porque algumas crianças gostam de matemática e outras de português; será que é apenas empatia com o professor/mediador; aquele que motiva e o outro não?

Em “Frames of Mind”, ele define sete principais tipos de inteligências:

  1. Linguística – escritores, debatedores, poliglotas;
  2. Musical – compõem ou executam músicas;
  3. Lógica matemática – matemáticos, cientistas e lógicos;
  4. Espacial – jogadores de xadrez, navegadores, arquitetos, artistas;
  5. Corporal cinestésica – dançarinos, atletas e certos tipos de inventores;
  6. Intrapessoal – compreensão poderosa e independente da própria vida emocional;
  7. Interpessoal – empatia pela vida emocional de outros indivíduos: políticos, líderes religiosos, professores e os que atuam em profissões de ajuda.

Então, é a criança que tem dificuldade de aprender ou são as escolas que não desenvolvem estratégias adequadas para atender os diferentes tipos de inteligências?

Com as novas diretrizes que regem o ensino fundamental as escolas terão que atualizar o currículo para atenderem os parâmetros que regem a lei Federal 9394/96.

Um dos parâmetros mais significativos desta nova lei é que o primeiro ciclo do ensino fundamental, do pré à quarta série, deve ser orientado para uma informação que eduque, isto é, que seja aplicada à vida do cidadão consciente, aprender a ser autônomo, levado ao conhecimento.

Quando li este parâmetro, fiquei refletindo como as grandes instituições, apoiadas no slogan que escola forte é aquela que enche o aluno de informações e cobra uma memorização, dando lições de casa repetitivas, para fixação do conteúdo, farão para aplicar esta diretriz sem perder a fama? Será que atualmente há necessidade de tanta informação sem aplicabilidade? Não é melhor desenvolver o potencial do indivíduo ensinando-o a pensar e a raciocinar e deixar que mais tarde ele pesquise a informação sobre a qual se interessa? Com a facilidade da Internet, é muito acessível buscarmos informações que desejamos. Portanto as informações supérfluas já não tem mais sentido!

Colocando todos estes pontos, acho que a tarefa dos pais ao procurarem uma escola adequada para seus filhos será um desafio e exigirá muito mais tempo de investigação e de reflexão. Apontarei algumas orientações que necessitam ser levadas em consideração na escolha:

  • A proximidade da escola, seja da casa ou do trabalho dos pais é fundamental, evitando o desgaste e o estresse do trânsito;
  • Uma escola que esteja preocupada com a formação do educando e não apenas com a informação;
  • Número de crianças por classe, só poderá atender as novas diretrizes da lei federal aquela que não tiver um número grande de alunos por classe;
  • O investimento na formação dos professores/educadores, para que possam atuar como mediadores;
  • Os valores que devem estar estabelecidos na filosofia da escola se batem com os valores da família;
  • Nem sempre uma escola grande que apresente um espaço físico bonito, atende às necessidades das crianças, ás vezes elas nem freqüentam todo o espaço;
  • Saber que a criança não é apenas um número na lista de chamada, mas é conhecido pelo nome, sobrenome e por suas características individuais;
  • Uma escola que esteja preocupada em desenvolver o potencial de cada aluno, lembrando das inteligências múltiplas, e que não aponte o dedo somente sobre o aluno que não aprende, mas que o direcione a ambos, ao mediador e ao aluno, perguntando-se o que acontece, porque a estratégia usada não está dando resultado?

Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

Pedagoga, psicopedagoga, psicomotricista e psicanalista.

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“NAVEGAR É PRECISO, VIVER NÃO É PRECISO”

 

Introdução:

 

 

 

Os Argonautas”

 

O barco, meu coração não agüenta tanta tormenta, alegria

 

Meu coração não contenta o dia, o marco, meu coração o porto, não

 

Navegar é preciso, viver não é preciso

 

Navegar é preciso, viver não é preciso

 

O barco, no teu tão bonito

 

Sorriso solto, perdido

 

Horizonte madrugada o riso, o arco da madrugada, o porto, nada

 

Navegar é preciso, viver não é preciso

 

Navegar é preciso, viver não é preciso

 

O barco o automóvel brilhante o trilho solto, o barulho

 

Do meu dente em tua veia

 

O sangue, o charco, barulho lento o porto, silêncio

 

Navegar é preciso, viver não é preciso…

 

 

 

            Como a própria música citada acima diz, lançar-se numa aventura náutica com todos os recursos disponíveis, toda a aparelhagem naval, ou não, só poderá levar-lhe para um porto seguro; mesmo que não se tenham as aparelhagens para navegar, mesmo que só tenhamos mapas para nos orientar, ainda assim, navegar é mais preciso que viver. Viver é uma aventura onde não há aparelhagem suficiente que lhe garanta chegar a porto nenhum. Há o desamparo, o não saber se daremos conta de organizar o nosso aparelho psíquico; a cada guinada, a cada solavanco, a cada onda mais alta, o navio pode naufragar, porém vamos seguindo, somos sobreviventes dentro dessa grande massa humana que chamamos de cultura, sociedade, vida.

 

            Este foi um dos meus primeiros aprendizados quando iniciei o curso Formação em Psicanálise, em 2002. O professor Ede de Oliveira Silva, no seminário clínico, fez a citação desse mesmo trecho da música, para me fazer compreender metaforicamente, o caso de uma menina, Lúcia[1]. Caso que inclusive levou-me a querer buscar novos conhecimentos, novos parâmetros, novas rotas, chegando à psicanálise.

 

            Quando vi Lúcia pela primeira vez, na época com oito anos e dez meses, observei que havia alguma coisa a mais, e não somente como dizia a escola, um atraso motor. Ela era diferente das outras crianças que eu já tinha atendido. Seu comportamento não seguia as normas do chamado “adequado”, ela dava risada por qualquer motivo, babava, não tinha o chamado freio inibitório[2] (não obedecia às regras sociais), interrogava qualquer pessoa que via e ficava sem saber o que fazer quando era ignorada, freqüentemente perseverando até obter o que desejava, não era por “birra”, algo que não passava pelo âmbito dos limites, era diferente disso, parecia ser a única maneira como havia aprendido a se relacionar (fora da fronteira entre o eu dela e o eu do outro). Também não estava atrelada à deficiência cognitiva, sabia ler e escrever, embora sua orientação espaço-temporal estivesse defasada, não conseguindo se organizar numa folha pautada e muitas vezes se negando a colocar a data nos trabalhos e quando o fazia era sempre além ou aquém da data corrente (uma maneira de cindir com a realidade externa, ficando preservada no seu mundo interno).

 

            Naquele momento da minha vida profissional, psicopedagoga e psicomotricista, não sabia o que era um paciente psicótico; já havia ouvido falar em psicose, porém ainda não havia lido nada a respeito. Foi preciso buscar supervisão para fechar o diagnóstico e saber qual o percurso a ser feito.

 

            A primeira aula do professor José Carlos Garcia, “Uma Introdução Sobre a Loucura” e em seguida ler o seu artigo publicado na revista Boletim, “Alguns Elementos Sobre a História da Loucura” [3], fez-me retroceder no tempo e reviver os mesmos sentimentos da ocasião em que estava tentado entender, tentando pesquisar, tentando achar um rumo, o que será que aquela menina tinha além do comprometimento motor? O seu último parágrafo veio me reconduzir à pesquisa de entender o que se passa com Lúcia:

 

 

 

            “A abordagem psicanalítica das psicoses significou uma transformação da concepção de loucura como forma de anomalia cerebral para outra na qual a loucura é entendida como um desfecho especial na trajetória histórica de um determinado indivíduo. Ou seja, o foco primordial do enfoque psicanalítico para a doença mental é a preocupação de compreender como a mente humana chega a esta forma de funcionamento psíquico e de como seria possível intervir terapeuticamente nesta patologia.”

 

 

 

                Deixar-me ser conduzida pela programação do seminário: função materna, função paterna, Complexo de Édipo e psicose, o caso Schreber, pulsão e representação na clínica da psicose, foi de fundamental importância para ir tendo os insights e fazer as associações necessárias para poder articular a teoria aprendida com o caso clínico.

 

            Também assistir ao filme “A Fantástica Fábrica de Chocolate” , representou por meio da imagem, o que Schreber e Lúcia devem ter passado, vivendo à sombra do grande outro. O personagem Willy Wonka, criança ainda parece um monstro, com aparelhos dentários que o mantêm de boca aberta e com muita dificuldade de falar e de se alimentar, com a única finalidade de ficar com os molares perfeitos, submetendo-se ao despotismo paterno, deste pai que era dentista em Londres. A partir daí a história vai se desenrolando muito parecida com o caso Schreber e o de Lúcia. Lançarei mão de algumas imagens que ficaram impregnadas em minha mente e que podem contribuir como exemplos para esse meu trabalho.

 

 

 

 

 

Histórico Clínico:

 

 

 

                   Os pais de Lúcia, mãe com quarenta anos e pai com quarenta e dois anos (2001), funcionários públicos, professores doutores, tentaram uma gravidez durante oito anos. Não obtendo resultado positivo resolveram desistir e se voltaram para a carreira acadêmica que estava em andamento. A mãe conseguiu uma bolsa para o doutorado nos Estados Unidos e o marido a acompanhou, aproveitando para fazer cursos que complementariam a sua carreira. Nesta ocasião, já instalados naquele país, ficaram grávidos. A princípio, a mãe ficou muito irritada porque naquele momento seus planos eram outros. Depois de muito considerarem, resolveram pela gravidez e quando Lúcia nasceu, a avó e bisavó maternas foram morar junto com os pais para poderem cuidar da criança, já que os pais tinham que se dedicar aos estudos e pesquisas.

 

                        A mãe relatou que por volta de um ano e seis meses, após o nascimento da filha, começou a perceber as dificuldades motoras da criança: era toda mole, sentou e andou com atraso e não correspondia aos estímulos dados pelos pais. Quando retornaram ao Brasil, buscaram ajuda profissional neurológica; Lúcia foi encaminhada para fisioterapia, terapia ocupacional, natação e trabalho emocional.

 

                        Isto, na época, me fez pensar como teria evoluído a imagem corporal desta criança, já que Dolto (2002) fala da imagem de base que é um dos três aspectos dinâmicos da imagem do corpo.

 

 

 

               “O primeiro componente da imagem do corpo é a imagem de base.. A imagem de base é o que permite à criança sentir-se uma ‘mesmice de ser’, ou seja, em uma continuidade narcísica ou em uma continuidade espaço-temporal que permanece e vai preenchendo desde o nascimento, apesar das mutações de sua vida e dos deslocamentos impostos a seu corpo e, a despeito das provas a que ele é levado a submeter-se. É assim que eu defino o narcisismo: como a mesmice de ser, conhecida e reconhecida, indo-devindo para cada um no espírito de seu sexo.” (p. 38)

 

 

 

               Já Winnicott (1956) vai falar do ‘continuar a ser’, em seu texto “A Preocupação Materna Primária”:

 

 

 

               “A base para o estabelecimento do ego é um suficiente ‘continuar a ser’ não interrompido por reações à intrusão. Esse ‘continuar a ser’ será suficiente apenas no caso da mãe encontrar-se nesse estado que (conforme sugeri) é muito real no período próximo ao fim da gravidez e durante as primeiras semanas após o nascimento do bebê”.(p.403)

 

 

 

               Lúcia parece não ter tido esta ‘mesmice de ser’ ou o ‘continuar a ser’ dado pelos pais, pois na época de seu nascimento estavam voltados para a mesmice deles mesmos, empenhados em suas atividades acadêmicas. Talvez por isso essa dificuldade corporal e a necessidade de tantos profissionais empenhados na tarefa de estabelecer este primeiro componente da imagem corporal. Não teve a condição de suportar a angústia de aniquilamento de não ter sido cuidada por eles, principalmente pela mãe, que na ocasião parece não ter conseguido exercer a função materna, não conseguiu ‘adoecer’ para poder cuidar do seu bebê, delegando essa função para a sua mãe e para a sua avó. Segundo Winnicott (1956):

 

 

 

            “A falha materna provoca fases de reação à intrusão e as reações interrompem o ‘continuar a ser’ do bebê. O excesso de reações não provoca frustração, mas uma ameaça de aniquilação; ansiedade muito primitiva, muito anterior a qualquer ansiedade que inclua a palavra ‘morte’ em sua descrição”.(p.403)

 

 

            Aos seis anos, Lúcia estava estressada e seus pais também. Conversando com o neurologista resolveram parar com todos os atendimentos e colocaram-na numa escola próxima à residência em período integral. Ela repetiu o pré-primário e na primeira série, a escola me encaminhou com as seguintes queixas: hipotonia muscular, disgrafia (além de misturar letra cursiva com letra de forma), não produção de material gráfico em sala de aula, imaturidade e relacionamento apenas com adultos.

 

            Foi proposta uma avaliação motora, na qual foram observadas as seguintes questões: tônus muscular muito relaxado (segundo o neurologista nada tinha de físico); verbalização com vocabulário bem desenvolvido, mas apresentando ecolalia, perseverando numa tentativa de controlar as situações, agindo impulsivamente, parecendo querer esconder a sua capacidade e ver-se livre do que a incomodava; memória ativa muito presente, lembrando-se de pormenores; na área perceptivo-motora apresentou imaturidade, ficando na mediana entre quatro e cinco anos; o perfil motor oscilou muito, demonstrando dificuldade de equilíbrio, de coordenação dinâmica global e de movimentos simultâneos; não conseguiu integrar as instruções com a realização dos movimentos, por demonstrar dificuldade de trabalhar o seu corpo que aparentava ser o grande depositário de suas dificuldades, não conseguindo fazer sintonização entre o ritmo dado e o interno. Havia também uma questão quanto a não suportar crianças pequenas, principalmente bebês.

 

            Como uma criança que não teve a imagem de base pode evoluir e desenvolver o segundo aspecto dinâmico da imagem corporal que visa à realização de seu desejo, a imagem funcional?

 

 

                “O que passa pela mediação de uma demanda localizada no esquema corporal em um lugar erógeno onde se faz sentir a falta específica, é o que provoca o desejo. É graças à imagem funcional que as pulsões de vida podem, após serem subjetivadas no desejo, tender a manifestar-se para alcançar prazer, objetivar-se na relação com o mundo e com o outro”. (Dolto, 2002, p. 43)

 


Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

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Valores humanos

Entrevista realizada pela revista In Formação em 2001 com o Dr. Antonio Geraldo de Abreu Filho.

Conforme proposto pela comunidade da escola no final do primeiro semestre de 2001, no dia 20 de Setembro, pais e professores se reuniram para dar início às reuniões de reflexão. Coincidência ou não, o tema escolhido em enquete realizada junto a comunidade escolar, “valores humanos”, veio ao encontro do inesperado acontecimento de Nova York onde, estarrecidos, quase todos pararam para pensar e rever seus valores e princípios.

Mediado pelo Dr. Antonio Geraldo de Abreu Filho – psicólogo e analista, as duas horas de reunião elucidaram vários pontos de nosso comportamento permitindo a todos uma melhor compreensão de suas atitudes e responsabilidades como pai   ou mãe. Extremamente enriquecedora, precisariamos de inúmeras páginas para relatar tudo que foi abordado na reunião. Mas nossa reportagem teve o privilégio de uma entrevista exclusiva com o Dr. Antonio Geraldo minutos antes do encontro, a qual transcrevemos abaixo.

ln for: O que são valores?

AG: É tudo aquilo que vai poder ser transmitido pelos pais aos filhos, calcado em responsabilidades éticas, morais e religiosas que servirão de alicerce e bússola norteadora para a formação de um bom indivíduo.

ln for: Vivemos na era da informação. Nossos filhos têm hoje acesso a milhares de informações externas. A televisão, o rádio e a internet invadem nossos lares tornando quase impossível filtrar o que chega a eles ainda muito cedo. Isso dificulta a transmissão de nossos valores a nossos filhos?

AG: Tudo depende do potencial interno de cada um. É função dos pais socializar a criança para que esta esteja preparada para o aprendizado e convivência em sociedade; de mostrar o que é certo e o que é errado para que esta, mais para a frente, possa tomar suas próprias decisões.

In for: Vemos hoje um elevado número de casais separados. Pode uma criança que vive essa realidade ter uma educação e desenvolvimento equilibrados?

AG: Se quem ficar com a responsabilidade da criança souber desempenhar tanto a função paterna como a maternal, poderá levar a criança a um estado de equilíbrio. Por outro lado, o fato de estarem separados não significa que os pais não possam continuar exercendo suas funções e papéis, de pai e mãe junto à criança. Por ser um estado mais comum, a criança moderna já começa a compreender e conviver com isso. Apenas destaco um detalhe: a figura do pai ou da mãe são intransferíveis. Apesar de todo o  carinho e dedicação, uma avó, tia, tio, padrasto, enteado, ou qualquer outro, jamais serão a mesma coisa que pai ou mãe.

ln for: Como o Sr. vê o caso do pai que teve uma infância difícil com pais problemáticos? Que valores este estará passando para seus filhos? Também problemáticos?

AG: A questão não é muito simples pois é muito subjetiva. No estudo do comportamento humano dificilmente 2+2 é igual a 4!  Novamente, tudo vai depender dos valores intemos de cada um. Se esse pai ou mãe tiver a percepção e a capacidade para identificar esses pontos de conflito, certamente poderá corrigi-los e dar aos seus filhos uma educação bem melhor. Se isso não fosse possível, como explicaríamos os casos onde crianças nascem em ambientes desfavorecidos, como favelas, e ainda assim conseguem uma ascensão e outras que vieram ao mundo em “berços de ouro” e acabam na marginalidade?

In for: Que outra mensagem gostaria de deixar a todos os pais?

AG: Não existem modelos ideais ou manuais de como ser pai ou mãe. Normalmente a coisa transcorre por ensaio e erro. Até porque não existem dois filhos idênticos e muito menos que raciocinem da mesma forma. Na falta de parâmetros o que deve falar mais alto é seu bom senso.

Com Antonio Geraldo de Abreu Filho

PUBLICAÇÃO

Revista In Formação – n. 1 – 2001

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Educação Infantil “Psicomotricidade – Um sistema Integrado de Educação a Aprendizagem

Quando assumi a orientação pedagógica de uma escola de educação infantil particular de pequeno porte, comecei a observar as dificuldades motoras da grande maioria das crianças com idades entre 1 a 7 anos.

A escola ficava situada num bairro de classe média alta e as crianças moravam em apartamentos ou casas, mas pouco brincam fora das mesmas, por falta de tempo dos pais que trabalhavam fora, por superproteção, ou até mesmo por comodismo. Notei crianças hipotônicas, com andar de “periquito” (ponta dos pés), descoordenadas, inseguras, dependentes, com uma verbalização riquíssima, mas que falhavam na execução dos exercícios propostos em qualquer área.

Resolvi aplicar o teste do “Perfil Motor” de Ozeretski e Guilmain, observando algo muito interessante: nas provas de velocidade e coordenação de mãos, as crianças tinham um rendimento acima de sua idade cronológica, porém nas provas de equilíbrio, de coordenação dinâmica global e de movimentos simultâneos, o rendimento caía assustadoramente, apresentando uma leitura de déficit motor. Isto porque as crianças passavam muito tempo em fente da televisão, vídeo-game ou computador, as chamadas babás eletrônicas.

A falha estava portanto no global, em tomar consciência do corpo pouco explorado, em não dominá-lo. A programação oferecida era a tradicional, o professor trazia a informação tentando passá-la para os alunos através da memorização. Até as aulas de educação física eram ministradas tendo o professor como modelo a ser copiado nos exercícios propostos.

Em 1990 reformulei toda a programação da escola, com anuência dos diretores e a colaboração dos professores na preparação do material necessário.

Baseei-me nas quatro grandes áreas do desenvolvimento humano, que seguem abaixo, adaptando a metodologia de Simonne Ramain, com a filosofia de Jean Piaget. Eu já havia experenciado a eficácia do método como reeducação em consultório, queria testá-lo agora como medida profilática.

Sócio-Emocional:

  • auto-conceito;
  • socialização;
  • estudos sociais.

Linguagem:

  • oral;
  • escrita;
  • inglês (oral);
  • música;
  • expressão corporal.

Funções Psiconeurológicas:

  • educação física;
  • coordenação visomotora;
  • percepções: visual, auditiva, tátil,
  • olfativa e gustativa;
  • orientação espaço-temporal.

Operações Cognitivas:

  • atenção e concentração;
  • análise e síntese;
  • memória;
  • comparação;
  • classificação;
  • seriação;
  • ciências;
  • raciocínio lógico.

O método de Simonne Ramain toma como base uma das leis do desenvolvimento humano (passamos por fases, períodos ou estádios de progressos, paradas e retrocessos, para depois avançarmos novamente) e usa uma progressão de atividades diferente da tradicional, em “bico de serra”, os exercícios obedecem o mesmo critério da lei citada acima, podendo oscilar entre o fácil, o difícil e o médio. Tem como técnica o não uso da borracha, utilizando lápis de cor (vermelho, azul e verde) para a correção, com a finalidade do desenvolvimento maior da atenção e concentração; as instruções dos exercícios não são repetidas pela professora, quando não ouvidas ou compreendidas, e sim por uma criança que escutou ou entendeu, trabalhando-se com isso a memória; os materiais são simples, utilizando-se bastante sucata e diferentes tipos de papéis; a distribuição dos materiais é realizada de várias maneiras, com a intenção de trabalhar a flexibilidade; o professor não é o centro das atenções, os alunos os são, o professor é apenas quem organiza as propostas trazidas pelas crianças, ou quem propõe, quando o aluno não o faz.

A princípio, os professores ficaram bem inseguros e com medo da mudança, o que já era esperado. Tive que sensibilizá-los propondo tarefas adequadas a sua faixa etária; depois foi preciso mostrar como se aplicavam alguns dos exercícios que teriam que trabalhar. A medida que foi ficando patente as mudanças que ocorriam nas crianças e a evolução rápida obtida, foram ficando mais seguros e dispostos a participarem mais efetivamente da nova proposta.

Após um ano de experiência, tornei a aplicar o teste do “Perfil Motor” de Ozeretski e Guilmain e os resultados nos surpreenderam. Os níveis elevaram-se em todas as provas, principalmente nas de equilíbrio, coordenação dinâmica global e de movimentos simultâneos. E o mais comemorado pelos pais das crianças do pré (nossa última série), a entrada nos colégios que haviam escolhido. Uma criança passou em primeiro lugar num grupo de 89; outra em quinto num grupo de 200 crianças. A escola passou a ser reconhecida e conhecida pelos colégios do bairro, sendo recomendada pelas instituições  que não teinham pré-escola.

A minha satisfação maior foi ter revertido a situação motora de algumas crianças, de inabilidade, para segurança, alegria e disponibilidade ao executar qualquer tarefa proposta e de prevenir os distúrbios motores que causam algumas das dificuldades de aprendizagem. No atendimento de 735 crianças de 1990 para cá, sendo 102 do Pré-Primário, somente 5 não conseguiram alcançar os pré-requisitos básicos para entrarem nos colégios que optaram, correspondendo a 4,9%.

Por Berenice Ferreira Leonhardt Abreu

BIBLIOGRAFIA

CAPON; Jack J. – “Desenvolvimento de Percepção Motora” – cinco volumes São Paulo – Editora Manole – 1991.

COSTALLAT; Dalila M. – “Psicomotricidade” – São Paulo – Editora Globo – 1976.

DIENES; Z.P.; Holt; N. – “Zoo” – Great Britain – Editora Loweebrydone -1972.

DIENES; Z.P.; Golding; E.W. – “Primeiros Passos em Matemática” – São Paulo – Editora Herder – 1969.

FONSECA; Vítor; Mendes; Nelson – “Escola, Escola, Quem és Tu?” – Porto Alegre – Editora Artes Médicas – 1987.

FONSECA; Vítor – “Psicomotricidade” – São Paulo – Martins Fontes – 1963.

GUILLARMÉ; J.J. – “Educação e Reeducação Psicomotora” – Porto Alegre Editora Artes Médicas – 1975.

KOTHE; S. – “Pensar é Divertido” – São Paulo – E.P.U. – 1970.

PIAGET, J.J. – “Para Onde Vai a Educação?” – Rio de Janeiro – Editora José Olímpio – 1975.

POPPOVIC; Ana M. – “Pensamento e Linguagem” – São Paulo – Abril Educação – 1980.

RATHS; S. – “Ensinar a Pensar” – São Paulo – E.P.U. – 1970.

THIERS; S. – “Sócio-Psicomoticidade Ramain-Thiers” – São Paulo – Casa do Psicólogo – 1994.

 

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