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DOSTOIEVSKI – A ANÁLISE DA PERSONALIDADE DE UM ESCRITOR FAMOSO, ENFOCANDO O COMPLEXO DE ÉDIPO NUMA VERTENTE FREUDIANA – Primeira parte

“Mas eu sou filho ditoso do destino e não tenho medo de tal desonra”.

                                               Édipo

         Quanto mais leio Freud, mais fico impressionada com a sua genialidade em perceber o óbvio, o que esta por detrás do manifesto tão difícil de perceber aos olhos de um leigo. Como ele vai construindo a teoria através das observações de sua clínica e reformulando-a se necessário for. O que aconteceu com o Complexo de Édipo, havendo uma evolução do conceito, que vai descrevendo e fundamentando em cada um dos seus textos em que o defende. Tentarei aqui fazer uma breve introdução do caminho tomado por Freud na construção deste conceito, no menino, tão complexo, como o próprio nome diz; antes de falar sobre a análise da personalidade de Dostoievski.

Na carta 69, dirigida a Fliess, 21 de setembro de 1897, ele diz “não mais acreditar nas suas neuróticas”, isto é, na teoria da sedução e coloca algumas razões para isso:

  • Os contínuos desapontamentos em fazer a sua própria análise, fazendo uma alegoria ao conto “A Roupa Nova do Rei” e à fala de um súdito, “o rei está nu”;
  • A ausência dos êxitos completos de suas análises, os pacientes não davam continuidade ao tratamento, havia êxitos parciais;
  • A descoberta de que no inconsciente não há indicações da realidade, não se distinguindo entre a verdade e a ficção que é catexizada com o afeto. Existe uma fantasia sexual tendo os pais como tema;
  • Na psicose mais profunda a lembrança inconsciente não vem à tona, não sendo revelado o segredo da infância nem mesmo no delírio mais confuso, aparecendo de maneira destorcida.

Assim estava disposto a abandonar a resolução completa de uma neurose e o conhecimento seguro de sua etiologia na infância, pois não obtém uma compreensão teórica do recalcamento e de sua inter-relação de forças. Discutindo se são somente as experiências posteriores que estimulam as fantasias que então retornam à infância, ou o fator de uma pré-disposição hereditária que recupera uma esfera de influência da qual ele se incumbira de exclui-lo.

Já na carta 71, 15 de outubro de 1897, ele diz: “Também em mim percebi o amor pela mãe e o ciúme do pai”; quando analisando a sua fobia ao apito de trem, descobre que está vinculado ao Complexo Parental, pois em uma das viagens de trem que faz com os pais, quando tinha por volta de cinco anos, vê sua mãe seminua e fica desejando que ela se deite com ele e o abrace, o pai aparece para retirá-la do quarto e levá-la consigo e ele se sente excluído, sozinho, chorando muito, deslocando essa sua frustração para o apito do trem (filme “Freud Além da Alma”).

 Considerando um evento universal do início da infância, mesmo que não tão precoce como nas crianças que se tornaram histéricas, reprimiram. Compara essa descoberta com a tragédia grega “Édipo Rei” de Sófocles, dramas do destino posteriores estavam fadados a fracassar, está falando da interdição do incesto e do parricídio. E continua: “cada pessoa da platéia foi exatamente um Édipo como esse, e recua, horrorizada, diante da realização de sonho aqui transposta para a realidade, com toda a carga de recalcamento que separa seu estado atual”.

Também compara a sua descoberta com o inconsciente de Shakespeare em Hamlet: “A consciência nos torna a todos covardes?” Quando ele, o personagem, hesita em vingar o pai assassinado através do seu tio, porque ele próprio planejou perpetrar a mesma ação contra seu pai, por causa da paixão pela mãe. …“A se tratar cada homem segundo seu merecimento, quem escapará do açoite?…” Sua consciência moral é seu sentimento inconsciente de culpa. E não faz o castigo descer sobre si, de modo evidente como nos pacientes histéricos, sofrendo o mesmo destino do pai, ao ser morto pelo mesmo rival.

No texto “Sonhos Sobre a Morte de Pessoas Queridas”, em “A Interpretação dos sonhos”, 1900, vai falar da diferença entre os sonhos de morte que causam sofrimento e os que não causam. Os primeiros estão relacionados com o desejo da morte daqueles com os quais sonhou; os segundos estão relacionados em encontrar uma pessoa que se viu num enterro anterior, por exemplo.

Os irmãos e as irmãs são rivais desde cedo porque estão envolvidos com a disputa do amor dos pais. Os meninos se apaixonam pela mãe e sonham com a morte do pai. E as meninas sonham com a morte da mãe, já que se apaixonam pelo pai.

Relaciona estas descobertas ao personagem da tragédia grega: “Como Édipo, vivemos na ignorância desses desejos repugnantes à moral, que nos foram impostos pela natureza; e após a sua revelação, é bem possível que todos busquem fechar os olhos às cenas de nossa infância”. Indicação dos impulsos infantis para o incesto, que persistem no inconsciente.

Segundo Goethe, Hamlet representa o tipo de homem cujo poder de ação-direta é paralisado por um desenvolvimento excessivo do intelecto. Ele toma outras decisões na morte do curioso atrás da tapeçaria e dos dois cortesãos que tramam a sua morte, mas fica indeciso em relação ao tio, porque no seu inconsciente ele próprio gostaria de ter realizado o ato de matar o seu pai.

A diferença entre o Édipo e Hamlet está que no primeiro a fantasia imaginária que subjaz ao texto é abertamente exposta e realizada como o seria num sonho. No segundo ela permanece recalcada, como no caso de uma neurose, só ficamos cientes de sua existência através de suas conseqüências inibidoras.

Os sonhos de entes queridos escapam à censura, porque é uma monstruosidade pensar nisso, quanto mais desejar. Nos sonhos de angústia a censura promove a distorção dos sonhos: ela o faz para impedir a produção de angústia ou de outras formas de afeto aflitivo.

Somente em 1910 é que Freud vai usar o nome “Complexo de Édipo”, no artigo “Um Tipo Especial de Escolha de Objeto do Homem”, para os desejos incestuosos das crianças em relação a um dos pais, até esta época chamava-o de Complexo Parental. Considera tal complexo o inverso da teoria da sedução, o pai não seduziu a histérica, foi a histérica quem o seduziu. Concluindo: na histeria a punição vem pelo lado do desejo, a punição já traz um gozo. “Ó trevas execráveis da noite que sobre mim caístes, lamentáveis, invencíveis, sem remédio! Aí de mim! Aí de mim! Ao mesmo tempo me despedaçam as dores dos meus olhos e a lembrança dos meus crimes!” (fala de Édipo na tragédia de Édipo Rei, de Sófocles).

Ao considerar a tragédia de Édipo como um sonho, liga-a aos desejos incestuosos, aos sonhos de morte de entes queridos; sonhos de angústia de morte: desejo de morte da mãe ou do pai. Vê estes desejos incestuosos como algo universal e natural e os desejos de morte como a rivalidade com o progenitor do mesmo sexo. Cujos destinos serão o recalque, tanto para os desejos incestuosos, como para os desejos hostis. “Que pode temer o homem quando o destino tudo governa e toda a previsão é incerta? O melhor que há a fazer é viver ao acaso. Não temas casar com tua mãe; já muitos homens têm sonhado que casavam com as mães; mas continua sossegado aquele que sabe que os sonhos nada são”. (fala de Jocasta em Édipo Rei, de Sófocles).

Freud começa a se perguntar de onde vem a proibição do incesto? Vai achar a resposta a sua questão nos estudos realizados pelos antropólogos. Em “Totem e Tabu”, 1913, cita o exemplo de povos primitivos, tribos australianas, que não constroem casas, não cultivam a terra, se alimentam de raízes e caças, não tem animais domésticos, não tem cerâmicas; poderiam não ter nenhuma restrição a vida sexual, porém têm todo o cuidado de não terem relações sexuais incestuosas, desenvolvendo um tabu quanto a este aspecto.

O Totem era um animal que representava a origem de um grupo, a sua relação familiar, um símbolo diferencial de um grupo. Quase sempre era um animal comestível, que não podiam matar e nem comer. O Totem representava o pai que protegia de todos os perigos, o antepassado comum do clã. E para que permanecessem protegidos, se comprometiam a não matar, não comer e a não ter relações sexuais com as pessoas do mesmo Totem.

Em algumas tribos a restrição era ainda maior, porque no mesmo clã, com vários Totens, não podiam casar entre si, surgindo um sintoma de excesso, sintoma coletivo. Se alguém infringisse a lei era morto. A relação de incesto mais temida era entre a mãe e filhos. O pai da horda primitiva ficava com todas as mulheres para si e os filhos eram mandados para fora, ou mortos, ou castrados.

Roy Lewis, um jornalista americano do “The Times”, nascido em 1913, publicou em 1960 um romance muito bem humorado dos homens das cavernas, “Por Que Almocei Meu Pai”, onde tudo o que ocorre tem sólidos fundamentos científicos, porém com jargões de etnólogos, antropólogos, zoólogos, botânicos e outros cientistas do século XX. A história se passa no Pleistoceno médio, em algum lugar da atual Uganda, há cerca de dois milhões de anos. Conta no capítulo 8, como o pai da horda consegue ludibriar os filhos adolescentes, levando-os para longe de seu território, deixando-os sem armas para que não se voltassem contra ele e, faz o seguinte discurso: “Muito bem, rapazes, devo-lhes uma explicação. Mas não tentem nenhum truque… como atirar pedras, por exemplo. Tenho todos ao alcance, e muita munição. Não teriam a menor chance. Muito bem, é tudo muito simples, e não há motivos para pânico. Andei pensando muito e conversei com a mãe de vocês sobre a questão. Vocês já passaram da puberdade. Para todos os fins e propósitos, são adultos. Oswald, você tem pelo menos quinze anos. Ernest é cerca de um ano mais novo, assim como Alexander e Wilbur. Foram treinados para caçar; conhecem as matas, savanas e montanhas. Conseguem lascar pedras com competência, embora apenas Wilbur tenha se revelado um artista. São capazes de batalhar pela própria sobrevivência. Além disso, o que constitui excepcional vantagem para rapazes da sua idade, sabe como pegar o fogo bravio e domá-lo para que siga queimando. Chegou o momento de formarem suas famílias, para o bem da nossa espécie. E foi por isso que eu os trouxe aqui. Bem ao sul, daqui a uns trinta quilômetros, há uma horda… Há outra horda… E lá encontrarão as esposas que desejam.

_ Mas, Papai – protestei –, não queremos mulheres macacos estranhas como fêmeas. Temos nossas próprias moças em casa. Eu vou ficar com a Elsie e…

_Não, não vai – Papai interrompeu. _ Você escolherá uma das garotas daqui.

_ Mas isso é um absurdo! – exclamei. _ Já está tudo acertado.

_ As pessoas sempre se acasalam com as irmãs – Oswald argumentou.    _ É o costume.

_ Agora não é mais – Papai disse. _ A exogamia começa aqui e agora!

_Quando estiverem todos felizes e casados, podem voltar para casa com as mulheres. “Teremos uma tribo, então, em vez de uma mera horda”.

O sintoma do horror ao incesto faz com que as tribos mais primitivas se ponham a policiar os pais com os filhos, os cunhados, os irmãos, os sogros com as noras, as sogras com os genros. O que nos provoca horror é porque nos sentimos atraídos. O totemismo é fragmentado para classificar a vida social das tribos primitivas.

Freud fala dos neuróticos e os seus sintomas, como conflitos e frustrações às regressões aos desejos incestuosos da infância. Para ele, entre um neurótico e um homem primitivo não há tanta distância assim. E ele segue se perguntando, o que aconteceu com os filhos que não aceitaram ser banidos da horda e mataram o pai?

No “Ego e o Id”, 1923, capítulo 3, Freud vai responder a sua questão, dizendo aonde vão parar os desejos incestuosos e os desejos hostis. Quando fala das identificações primárias, antes de qualquer escolha de objeto, nos primórdios da fase oral, sem diferenciação, a identificação primária é que vai formar o ideal de ego. As identificações primárias aos pais vão ser reforçadas no curso do complexo de Édipo. O menino se identifica com o pai e escolhe como objeto à mãe, escolha de apoio, assim chamada por que está baseada na sobrevivência do nenê, a mãe irá libidinizar o bebê. Está situação se mantém por um bom tempo. Até chegar ao Complexo de Édipo, aonde irá se identificar com o pai para se tornar o dono da mãe. A identificação com o pai muda de sentido, agora ele quer ocupar o lugar do pai, empurrá-lo para fora em razão dos desejos hostis, de rivalidade, disputa pela mãe. Quando por fim tem que abandonar a posição do Édipo pela angústia da castração, ele renuncia ao objeto e reforça a identificação com o pai, firmando a masculinidade no caráter do menino, identificação secundária com o pai, agora tem o pai internalizado, incorporado, vistoria permanente, está formado o superego, que passa a ser o herdeiro do Complexo de Édipo. O herdeiro da libido colocada com os objetos incestuosos, sendo este o destino mais importante na vida de uma pessoa. Tomou a força proibidora do pai, não matar, não cometer incesto. O que acontece com o ego quando não recalcou os desejos incestuosos, ele não sabe, mas o superego sabe e castiga o ego. O superego nos transforma em crentes, a nossa moral repousa no superego.

Quando Freud se põe a analisar a personalidade do grande escritor russo, Dostoievski, ele o faz sob a vertente do Complexo de Édipo. Cita quatro facetas da personalidade do escritor: o artista criador, o neurótico, o moralista e o pecador. O artista criador é o menos duvidoso, comparando-o com Shakespeare, citando como obra mais grandiosa, o romance, “Os Irmãos Karamassovi”.

O moralista é o aspecto mais acessível, surgindo para Freud uma dúvida, para ele o homem moral é aquele que reage à tentação tão logo aparece, sem submeter-se a ela. Um homem que alternadamente peca e em seu remorso erige altos padrões morais, fica exposto à censura de tornar as coisas fáceis demais para si. Não alcançou a essência da moralidade, a renúncia. Aqui Freud parece nos falar que não houve a instalação de um superego suficientemente introjetado para que o escritor pudesse renunciar aos desejos incestuosos e hostis. Ponto fraco da personalidade do escritor, depois de violentas lutas para reconciliar as exigências pulsionais do indivíduo com as reivindicações da comunidade, caiu na posição retrograda de submissão à autoridade temporal e à espiritual, venerando o Czar e o Deus dos cristãos.

Freud aponta que no criminoso dois traços são essenciais: um egoísmo sem limites e um forte impulso destrutivo, ausência de amor, a falta de uma apreciação emocional de objetos (humanos). Vê tendências semelhantes em Dostoievski, a paixão pelo jogo e sua possível confissão de um ataque sexual a uma garotinha. Esta pulsão destrutiva poderia tê-lo transformado num criminoso, dirigindo-a contra a sua própria pessoa (para dentro, em vez de para fora), sendo uma expressão do seu masoquismo e sentimento de culpa. Nas coisas mínimas era um sádico para com os outros e nas maiores um sádico para consigo mesmo.

Freud seleciona da personalidade de Dostoievski três fatores, um quantitativo e dois qualitativos: a intensidade de sua vida emocional; sua pulsão inata e pervertida sado-masoquista; seus dotes artísticos inanalisáveis. Juntando-se a tudo isso a presença simultânea da neurose, um indício que o ego não conseguiu fazer uma síntese, ao tentar fazê-la, perdeu sua unidade. A sua epilepsia constituía apenas um sintoma de sua neurose, classificada como histeroepilepsia, mas que não se pode ter certeza por dois motivos:

  • Dados anamnésicos da epilepsia são deficientes e imerecedores de confiança; No livro de Dominique Arban, “Dostoievski”, na página 20 ele diz: “O primeiro biógrafo e a segunda esposa do escritor conheceram – mas não revelaram – o segredo relativo à causa que determinou a primeira crise epilética da criança: sabe-se apenas que aos sete anos, Fédia correu ao quarto dos pais. Que espetáculo se ofereceu aos seus olhos? Perdeu os sentidos. Não sabemos mais nada, mas não é suficiente?…”
  • Compreensão dos estados patológicos combinados com crises epileptiformes é imperfeita.

A “reação epiléptica” está à disposição da neurose, para livrar-se, através de meios somáticos, de quantidades de excitação com as quais não pode lidar psiquicamente.

Há uma diferença entre a epilepsia orgânica e a afetiva. O primeiro tipo tem uma moléstia no cérebro, a segunda é neurótica, expressão de sua própria vida mental. Suposição mais provável é a de que as crises remontavam muito atrás em sua infância, sintomas mais brandos que não assumiram forma epiléptica até depois da experiência dilaceradora de seu décimo oitavo ano de vida: o assassinato de seu pai. A vinculação existente entre o assassinato do pai em “Os Irmãos Karamassovi” e a sorte do próprio pai de Dostoievski.

Por : Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu (continua na próxima semana, próxima publicação).

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Recalque

“Recalcamento – relaxamento da censura – formação de compromisso: este é o modelo básico da gênese não apenas de sonhos, mas também de muitas outras estruturas psicopatológicas e nesses casos podemos observar também que a formação de compromisso é acompanhada por processos de condensação e deslocamento e pelo emprego de associações superficiais com as quais nos familiarizamos no trabalho do sonho.” – Freud – Sobre os Sonhos – capítulo X – Volume V.

         Recalque e defesa fazem parte da estrutura do indivíduo. O recalque é a operação em que o aparelho psíquico procura manter no inconsciente representações ligadas a uma pulsão. A defesa incide na excitação interna (pulsão) e numa das representações a que ela está ligada. O que descrevemos como nosso “caráter” baseia-se nos traços mnêmicos de nossas impressões, na primeira infância, e que são as que quase nunca se tornam conscientes. Não há maneira de se ter acesso direto ao inconsciente ficando este acessível quando sofre algum tipo de “tradução” para o pré-consciente e consciente. A matéria prima do inconsciente são as representações-coisa que não têm maneira de serem percebidas pelo pré-consciente e consciente.

         A “tradução” está marcada pelo disfarce. Na formação de compromisso aceitamos a idéia que não queríamos saber, desde que esteja disfarçada. Forma que o recalcado vai buscar para ser admitido no consciente, retornando no sintoma, no sonho e em quaisquer outras formações do Ics.

         O sonho tem um conteúdo manifesto que se relaciona com as idéias latentes inconscientes. Os quatro elementos que fazem parte do trabalho da construção do sonho são: condensação, deslocamento, figurabilidade e elaboração secundária.

         O trabalho do sonho é apenas o primeiro em que se descobriu, dentre toda uma série de processos psíquicos responsáveis pela gênese de sintomas histéricos, fobias, obsessões e delírios; a condensação e, sobretudo o deslocamento são características invariáveis desses outros processos. A transmutação numa forma pictórica permanece como uma peculiaridade do trabalho dos sonhos.

         No sonho a condensação traduz-se pelo fato do relato manifesto, comparado com o conteúdo latente, ser lacônico; constitui uma tradução resumida, mas nem por isso deve ser assimilada a um resumo.

         No deslocamento, o interesse, a intensidade de uma representação ser  susceptível de se soltar dela para passar a outras representações originariamente pouco intensas, ligadas à primeira por uma cadeia associativa. Esse fenômeno particularmente visível no sonho encontra-se na formação dos sintomas psiconeuróticos e, de um modo geral, em todas as formações do inconsciente.

         Na figurabilidade o sonho recebe uma espécie de fachada, ele sofre uma seleção e uma transformação que o torna apto a ser representado em imagens, sobretudo visual; e assim recebe uma primeira interpretação preliminar que é apoiada por interpolações e ligeiras modificações.

         A elaboração secundária entende o conteúdo com base em certas representações antecipatórias e o ordena já no momento de percebê-lo, segundo a pressuposição de que seja inteligível. Os sonhos que passaram por esse tipo de elaboração por parte de uma atividade psíquica completamente análoga ao pensamento de vigília podem ser descritos como “bem construídos”. Na produção da fachada do sonho empregam-se fantasias de desejos presentes nos pensamentos oníricos sob a forma pré-construída e que têm o mesmo caráter dos apropriadamente chamados “sonhos diurnos”, que nos são familiares na vida de vigília.

         Também nas estruturas psicopatológicas há a formação de compromisso nos sintomas produzidos, a diferença aparece no destino do afeto (carga), o destino da representação é sempre o isolamento, o recalque.

         Na histeria a representação incompatível é tornada inócua pela transformação de sua carga em algo somático, havendo conversão para o corpo.

         Na obsessão a representação enfraquecida persiste na consciência separada de qualquer associação. Seu afeto livre liga-se a outras representações que não são incompatíveis e graças a essa “falsa ligação”, tais representações se transformam em representações obsessivas e o afeto transforma-se em ansiedade.

         Na fobia a angústia liberada cuja origem sexual não deve ser lembrada, irá apoderar-se das fobias primárias comuns da espécie humana relacionada com animais, tempestades, escuridão, ou de coisas associadas com o que é sexual (micção, defecação, a sujeira e o contágio).

         Na “confusão alucinatória” o eu rejeita a representação incompatível justamente com o seu afeto e se comporta como se a representação, jamais lhe tivesse ocorrido, mas a partir do momento em que isso é conseguido, o sujeito fica numa psicose.

         Há indivíduos normais com vida psíquica inconsciente, que não padecem de uma sintomatologia neurótica, padecem de elementos provenientes de representações inconscientes, aparecendo na vida cotidiana associados a sonhos, a atos falhos ou chistes.

                                               Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

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As Origens da Transferência, segundo Melanie Klein

M.K.  diz que a transferência opera ao longo de toda a vida e influencia todas as relações humanas, mas está preocupada apenas com as manifestações da transferência na psicanálise. E que o trabalho psicanalítico vai abrindo caminho dentro do inconsciente do paciente, seu passado vai sendo gradualmente revivido, quanto mais profundamente se consegue penetrar dentro do inconsciente e quanto mais longe no passado for levada a análise, maior será a compreensão da transferência e para isto é necessário tomar conhecimento dos estágios mais iniciais do desenvolvimento humano.

            A primeira forma de ansiedade é de natureza persecutória. O trabalho interno da pulsão de morte, segundo Freud, é dirigido contra o organismo, dando origem ao medo de aniquilamento, sendo essa a causa primordial da ansiedade persecutória. O bebê dirige seus sentimentos de gratificação e amor para o seio “bom” e seus impulsos destrutivos e sentimentos de perseguição para aquilo que sente como frustrador, o seio “mau”. Nesse estágio, os processos de cisão, negação, onipotência e idealização, são predominantes durante os 3 ou 4 meses de vida – “posição esquizo-paranóide”, 1946. A ansiedade persecutória e seu contrário, a idealização, influenciam as relações de objeto (relação entre 2 pessoas, não entrando nenhum outro objeto).

            É próprio da vida emocional do bebê que haja rápidas flutuações entre amor e ódio; entre situações externas e internas; entre a percepção da realidade e fantasias sobre ela; um interjogo entre a ansiedade persecutória e a idealização, sendo o objeto idealizado um corolário do jogo do objeto persecutório, extremamente mau. O núcleo do superego é o seio da mãe, tanto o bom quanto o mau.

            A crescente capacidade do ego de integração e síntese dá origem à segunda forma de ansiedade, a depressiva. Entre o quarto e o sexto mês a ansiedade depressiva é intensificada, pois o bebê sente que destruiu ou está destruindo um objeto inteiro com sua voracidade e agressão incontroláveis e que estes impulsos são dirigidos contra uma pessoa amada; cuja essência é a ansiedade e a culpa relativa à destruição e perda dos objetos amados internos e externos.

            É nesse estágio que se instala o complexo de Édipo. A ansiedade e a culpa acrescentam um impulso em direção ao início do complexo de Édipo, aumentando a necessidade de externalização (projetar) figuras más e internalizar (introjetar) figuras boas; de encontrar representantes de figuras internas no mundo externo.

            O impulsionamento da libido, a crescente integração do ego, das habilidades físicas e mentais e a adaptação progressiva ao mundo externo, vão levando o bebê em direção aos novos alvos, dos desejos orais em direção aos desejos genitais.

            Para M.K., o auto-erotismo e o narcisismo incluem o amor pelo objeto bom internalizado e a relação com o mesmo, o qual, na fantasia, constitui parte do corpo e do self amados. As relações de objeto estão no centro da vida emocional.

            Sustenta que a transferência origina-se dos mesmos processos que, nos estágios iniciais, determinam as relações de objeto. Na análise temos de voltar repetidamente às flutuações entre objetos amados e odiados, externos e internos, que dominam o início da infância. A análise da transferência negativa constitui uma precondição para analisar as camadas mais profundas da mente. A análise tanto da transferência negativa quanto da positiva é um tratamento indispensável para o tratamento de todos os tipos de pacientes, crianças e adultos igualmente. Devido às pulsões de vida e de morte (amor e ódio) estarem na mais estreita interação, a transferência positiva e a negativa encontram-se basicamente interligadas.

            O analista pode representar uma parte do self, do superego, ou qualquer uma de uma ampla gama de figuras internalizadas. Também supor que o analista representa o pai ou a mãe real não o levará muito longe, a menos que compreenda qual aspecto dos pais está sendo revivido. O que é revivido ou torna-se manifesto na transferência é a mistura, na fantasia do paciente, dos pais como uma única figura “a figura dos pais combinados”. Estes pais estão combinados numa permanente gratificação mútua de natureza oral, anal e genital, sendo o protótipo de situações tanto de inveja quanto de ciúme.

            Falar da situação de transferência é falar de situações totais transferidas do passado para o presente, bem como em termos de emoções, defesas e relações de objeto.

            A concepção de transferência para M.K. é algo enraizado nos estágios mais iniciais do desenvolvimento e nas camadas profundas do inconsciente, envolvendo uma técnica através da qual os elementos inconscientes da transferência são deduzidos a partir da totalidade do material apresentado. O paciente se afasta do analista como tentou afastar-se de seus objetos primários; tenta cindir a relação com ele, mantendo-o ou como uma figura boa, ou como uma figura má, deflete alguns sentimentos e atitudes vividos em relação ao analista para outras pessoas em sua vida cotidiana, e isto faz parte da atuação.

            Para ela, M.K., é impossível encontrar acesso às emoções e relações de objeto mais antigas a menos que se examinem suas vicissitudes à luz de desenvolvimentos posteriores. Somente através da ligação contínua das experiências mais recentes com as anteriores e vice-versa, somente explorando consistentemente a interação dessas experiências é que o presente e o passado podem se aproximar da mente do paciente. Quando a ansiedade e a culpa diminuem e o amor e ódio podem ser melhor sintetizados, os processos de cisão, bem como as repressões, atenuam-se, enquanto o ego ganha força e coesão.

            Um dos fatores que levam à compulsão à repetição é a pressão exercida pelas primeiras situações de ansiedade. Quando as ansiedades persecutórias, depressivas e a culpa diminuem, há menos premência a repetir continuamente.

Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

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Angústia e Superego em Melanie Klein, Uma Tentativa de Articular a Teoria Através de Um Caso Clínico.

O meu percurso em clínica vem desde 1979, quando comecei a trabalhar com transtornos motores e dificuldades de aprendizagem. O nosso terror pedagógico em escolas e mesmo em consultórios, digo nosso porque era a queixa da maioria dos profissionais desta área, era lidar com crianças hiperativas, o que fazer com elas, como proceder em sala de aula e em clínica com sujeitos que não paravam nem para nos ouvir e nos exauriam, sugando toda a nossa energia.

 Já nesta época tinha um relacionamento amplo com psicólogos, psicanalistas e psiquiatras e ouvia deles, quando tal assunto era inserido na conversa: “Hiperatividade é excesso de angústia, segundo Melanie Klein”. O próprio J. J. de Ajuriaguerra, no seu livro, “Manual de Psiquiatria Infantil”, na descrição da Síndrome Hipercinética (páginas: 238 a 245) apresenta duas formas de instabilidade extremas: com distúrbios motores prevalentes e outra que ele chama de forma caracterial com retardo afetivo e motricidade expressional.

Diante disto ficava me perguntando de onde vinha tanta angústia? Por que alguns a apresentavam de maneira tão exacerbada e outros não? E o que fazer com quem a demonstrava agressivamente? Lembro-me que ficava tentando pesquisar em mim, nas lembranças infantis, se havia passado por tal processo. A única angústia que me vinha era a vontade de urinar diante de situações stressantes, por exemplo, diante de muita lição de casa, antes de iniciar necessitava ir ao banheiro para me acalmar e, então, dar conta do recado.

            No início de maio de 2003, recebi no consultório, um menino de cinco anos de idade, encaminhado pela escola, cujas queixas principais eram: muita ansiedade, insegurança e dificuldade de aprendizagem. Os pais relataram que desde bebê, Victor (nome fictício) era agitado, mamava de meia em meia hora, depois foi espaçando para uma hora de intervalo e por fim, duas horas. Aos dois anos o pai anotou 120 atividades diferentes que a criança iniciava e largava e em seguida a este ciclo, tornava a reiniciar a partir da primeira atividade. Quando foi para a escola, aos quatro anos, começou a pedir para a mãe que não trocasse de roupa até ele retornar, dizendo: “Mamãe você está muito bonita com esta roupa, fique com ela até eu voltar da escola, está bem?” Também contaram que ele sempre foi mais apegado à mãe, brincando mais com ela e não aceitando as regras das brincadeiras que o pai propunha, desistindo das mesmas. Costumava obedecer mais às solicitações de adultos estranhos, do que aos pais. A mãe não trabalhava e o pai só trabalhava meio período, gerando uma desconfiança grande no menino do que podia acontecer na sua ausência. Quando os pais saíram da entrevista, fiquei pensando nos textos da Melanie Klein, que havíamos acabado de ler com a professora Suzana Viana, sobre o Complexo de Édipo, e o quanto a falta de acolhimento das angústias desta criança estavam levando-a a paralisar os seus impulsos epistemofílicos.

            Vejamos, os fatos estavam começando a se configurar, as experiências com crianças hipercinéticas, e o que eu ouvia a respeito delas dos profissionais da área emocional; a minha própria angústia diante da pressão escolar (sadismo uretral); o caso do Victor e sua angústia inicial não acolhida pelos pais; o que estávamos aprendendo sobre o Complexo de Édipo numa abordagem Kleiniana e agora, neste momento, o estudo com a professora Maria Luiza S. Persicano, sobre as angústias iniciais e o superego arcaico, junto com o caso de Leon descrito por Edna O’Schaughnessy. Ficou mais fácil adicionar e poder entender com mais clareza, obtendo respostas às minhas indagações iniciais.

            Antes do nascimento, segundo Klein, o bebê encontra-se com as pulsões de vida e morte fundidas. Depois do nascimento há uma defusão (separação da pulsão de vida e morte). A pulsão de morte passa a circular livremente, havendo uma ameaça de angústia de aniquilamento, o medo do desamparo, sendo esta ameaça a raiz da angústia. Já existe ego desde o início (não ainda integrado, é claro) e, ele como defesa usa a libido narcísica para defletir a pulsão de morte através do sadismo oral, fantasias contra o “seio mau”. Em conseqüência desse ataque, o objeto torna-se persecutório; para dar conta desta perseguição o ego faz um movimento contrário, ele tenta incorporar o objeto. Portanto, o ego inicial é capaz dessas duas defesas: expelir e incorporar, em fantasia. Não há instância ainda, mas existe o superego cheio de “ns” objetos persecutórios. A pulsão de morte faz com que a libido narcísica se ponha a trabalhar e ao fazer isto, acontecem os objetos persecutórios.

            M. Klein fala da importância fundamental das fantasias e dos impulsos sádicos, vindos de todas as fontes que confluem e atingem seu auge maior no início do desenvolvimento. Os processos iniciais de projeção e introjeção conduzem ao estabelecimento, dentro do ego, de objetos “bons”, bem como objetos “assustadores” e persecutórios. Essas figuras são concebidas à luz das fantasias e impulsos agressivos do próprio bebê, ele projeta sua agressividade nas figuras internas que fazem parte de seu superego arcaico. Á angústia proveniente dessas fontes acrescenta-se a culpa derivada dos impulsos agressivos do bebê contra seu primeiro objeto amado, tanto interno como externalizado. As primeiras defesas do ego se dirigem contra a angústia suscitada pelas fantasias e impulsos agressivos. O bebê está na posição esquizoparonóide que vai até os três meses aproximadamente (Klein, 1946). Nesta posição só existe ataque e defesa, não há exclusão, há o narcisismo. Conforme Klein vai recuando na teoria, o superego não só antecede o Édipo, mas também é concomitante; o Édipo aparece após o terceiro mês e continua até o Édipo clássico. O superego continua a evoluir e torna-se herdeiro do Édipo clássico; evoluindo conforme o tipo de angústia, o tipo de estrutura do ego, tipo de defesa e funcionamento específicos.

Leon, um menino de 11 anos, tinha como queixa principal pânico frente a qualquer experiência nova. Uma mudança para a escola secundária estava preste a acontecer e seus pais pensavam que ele nunca conseguiria realizá-la. Leon era o primeiro filho do casal, e quando estava com quatro meses sua mãe engravida de outro menino. Foi com dificuldade que a mãe conseguiu falar sobre a infância de Leon, disse ter sido terrível. Ele chorava horas a fio; ela não conseguia agüentar aquilo e nem alimentá-lo. “Não era o que eu esperava”, ela repetia.  Neste caso, a criança com quatro meses de idade, estava saindo da Posição Esquizoparanóide, onde somente há ataque e defesa, não há exclusão, ele projetava a sua agressividade nos objetos “maus” e tentava incorporar os objetos “bons” para se proteger da culpa de ter agredido e dos objetos persecutórios; porém a introjeção de objetos “bons” nessas circunstâncias, acabou sendo prejudicada, pois Leon não era o que ela esperava. Quando percebe que sua mãe se volta para o outro filho, ele projeta no seio todo o seu ódio e ele, o seio, é incapaz de contê-lo, pelo contrário não agüenta o seu choro e nem é capaz de alimentá-lo, provavelmente ocorreu o desmame, acontecendo uma frustração, que seu ego ainda estava imaturo para agüentar, a confirmação da exclusão muito precoce (se percebo três, estou excluído), criando uma fantasia terrorífica da mãe e ficando sem o acolhimento desta sua fantasia.

Nos primeiros estágios do Complexo de Édipo, a Posição Depressiva, apresenta-se como um quadro obscuro porque:

  1. O ego da criança é imaturo, não foi submetido à ordem da linguagem, do símbolo;
  2. O ego está sob a influência total das fantasias inconscientes, precisa projetar para dentro do outro para metabolizar;
  3. A vida pulsional acha-se na sua fase polimorfa (pré-genital);
  4. As primeiras etapas se caracterizam pelas flutuações rápidas entre objetos e finalidades, com as flutuações correspondentes (entre pênis e o seio, flutuando nas defesas).

            O bebê abandona o seio, porém ele se torna persecutório; indo procurar o pênis-mamilo, surgindo a primeira triangulação (seio – bebê – pênis-mamilo). Como defesa incorpora o objeto na categoria de objeto superegóico sádico. A pulsão libidinal procura satisfação e fica alternando entre seio e pênis-mamilo. Quando o sadismo é elevado no período anterior e no período concomitante à entrada do Complexo de Édipo, cria-se uma fantasia de defesa contra o Édipo, uma fragmentação dos objetos maus como maneira de se safar da persecutoriedade, dividindo em pedacinhos, uma defusão de impulsos, montando uma estrutura para se defender da exclusão e expelir a angústia. Foi o que aconteceu com Leon, demonstrado isto na sua primeira sessão, segundo as observações de sua psicanalista: “Ele podia transformar-se e parecer com alguma versão do seu pai, ou transformar-se e parecer com a mãe; ele também se tornava um bebezinho doente, e às vezes se parecia estranhamente maior”.  Se a criança for coisa, não tem Édipo, há uma cisão sexual, identidade cindida, numa tentativa de dividir o casal combinado porque não pode agüentar a angústia da exclusão, não podendo integrar. Assim ora se parecia com seu pai com quem estava mais ligado no momento, ora com sua mãe e, os personificava (flutuação das defesas).

            Como o ego de Leon ainda estava sob a influência total das fantasias inconscientes, ele tentava projetar para dentro do objeto estas suas fantasias de maneira que fossem metabolizadas; porém o objeto não estava mais voltado para as necessidades do bebê e sim para outro que estava a caminho, não podendo acolher e metabolizar estas fantasias; como defesa ele faz uma cisão dos objetos persecutórios, dividindo-os em pequenos pedaços que são projetados no chão da sala da analista.

 Como na ópera de Ravel, descrita por M. Klein, no capítulo 11, “Situações de Ansiedade Infantil Refletidas em uma Obra de Arte e no Impulso Criativo” (1929), do livro “Amor, Culpa e Reparação” (pág.241 a 248). Um menino de seis anos, diante da sua lição de casa (princípio de realidade), diz que não quer realizá-la, porque preferiria brincar no parque (princípio do prazer), ou colocar a sua mãe de castigo no canto do quarto. A mãe pergunta se ele fez o dever de casa e ele lhe mostra a língua. Então ela lhe diz: “Você vai comer pão seco e tomar chá sem açúcar!” Num acesso de raiva, a criança pula, bate na porta, derruba o bule e a xícara, tenta espetar o esquilo com a caneta, pula da janela e agarra o gato, grita e sacode as tenazes da lareira, atira a chaleira para o meio do quarto, rasga o papel de parede com as tenazes, abre a caixa do relógio e arranca o pêndulo, derrama tinta na mesa, cadernos e livros voam pelo ar. Diante de tantos maus tratos os objetos se rebelam e o atacam; para escapar ele se refugia no parque, mas os animais do parque entram numa disputa para ver quem morderá o menino. Um esquilo é mordido e cai gritando a seu lado. Instintivamente ele socorre o bichinho enrolando o seu cachecol em volta da ferida do animal. O menino murmura: “Mamãe!”… e os animais recuam.  Estes ataques do menino contra os objetos e animais, representam as armas do sadismo primário da criança, que usa dentes, as unhas, os músculos, etc. Só que esta criança teve a contenção da mãe e pôde se humanizar, reparando a sua destruição quando cuida do esquilo e chama por socorro pela mãe. Já Leon não teve a contenção da sua angústia e continua a esfacelar os objetos persecutórios, porque não pode integrar, fazer a reparação de objetos bons que foram precariamente introjetados, ele utiliza o recurso de separar os seus pais, colocando uma almofada de cada lado e sentando no meio das duas, numa tentativa de controlar o ataque do casal combinado e observa detalhadamente a sua analista, transferindo para ela o mesmo controle que fazia na relação com os pais. Fica claro que mudanças para esta criança era muito difícil, pois mudança implica em perda de controle, em lidar com o desconhecido, em lidar com perdas, em excluir coisas antigas para deixar entrar o novo.

            M.Klein, no mesmo capítulo do livro citado acima (pág. 243), diz: “… a fase em que o sadismo atinge seu auge, em todos os campos de onde é derivado, precede o estágio anal mais arcaico e adquire um significado especial pelo fato de ser o estágio de desenvolvimento em que as tendências edipianas se manifestam pela primeira vez. Isso equivale a dizer que o conflito edipiano se inicia sob o total domínio do sadismo. Minha suposição de que a formação do superego segue de perto o início das tendências edipianas –e que, portanto, o ego fica sob a influência do superego já nesse período inicial – explica, creio, porque essa influência é tão poderosa. Quando os objetos são introjetados, o ataque feito contra eles com todas as armas do sadismo provoca no sujeito o medo de sofrer um ataque semelhante dos objetos externos e internalizados…” (mais tarde ela dirá que o superego antecede ao Édipo, como já foi dito acima). Assim, Leon estando no auge do seu sadismo quando foi excluído pelo objeto, desenvolveu um superego muito rígido para se defender dos ataques que infligia contra os pais, que podiam se voltar contra ele e, via o genital do pai desenhado na porta da sala da analista, numa fantasia alucinatória, como um objeto cindido, persecutório, mas que ele podia controlar se permanecesse quieto e pudesse desviar o olhar da porta. Como ele poderia enfrentar o medo do desconhecido, se também não lhe foi permitido desvendar os mistérios da relação com um objeto “bom” que possa fantasiar como seu e transferir para um terceiro a sua raiva? Ele parou de projetar, dificuldade mais arcaica, ficando preso numa perseguição máxima, não havendo objetos “bons” para introjetar, somente “maus”.

            “O seu Complexo de Édipo não era do tipo em que o desejo sexual pela mãe e a rivalidade sexual com o pai são predominantes. Leon não começou com um par parental, mas com um três ameaçador – a mãe grávida com um novo bebê e um pai. Não houve rivalidade; ao invés disso, tal como ele mostrou nas sessões com as cartas de baralho, houve rendição. Leon não competiu nem com o pai nem com o irmão – ele se retirou. O início da situação edipiana foi tão intolerável para ele que ele expulsou a sua própria sexualidade e a dos pais”.(livro: “O Complexo de Édipo Hoje” – capítulo 4 – Edna O’Schaughnessy – pág 114).

            Tentando correlacionar o que Klein fala acima e a observação do paciente realizada por Edna O’Schaughnessy sobre como ele lidou com o seu Complexo de Édipo, vemos que o ego de Leon fica sob a influência de um superego arcaico e a saída para tentar distanciar a sua angústia persecutória é a retirada de sua própria sexualidade e a sexualidade de seus pais. A consciência de um par edipiano é forçada sobre ele, usando de defesas arcaicas para mantê-la à distância.

            Posso agora voltar as minhas indagações iniciais e tentar respondê-las. Crianças hiperativas do tipo caracterial, com retardo emocional, possivelmente não foram contidas na sua angústia inicial pelos primeiros objetos; a pulsão de morte fica circulando junto com as fantasias de destruição (sadismo oral, anal ou uretral) e não há objetos “bons” para se projetar, aumentado o sentimento de angústia persecutória e a culpa por destruir o primeiro objeto amado (superego). Como no caso de Victor que passava de uma atuação a outra e o pai ao invés de contê-lo ficava anotando e contando quantas atividades ele realizava, como se fosse mero espectador e não o pai. Há um aumento do seu sadismo e ele agride como defesa, para não ser atacado.

            Vejo agora, que o melhor caminho para lidar com a impulsividade e agressividade destas crianças seria a contenção, acolhendo, tentando entendê-las e interpretar a sua angústia dentro do seu histórico transferencial.

            A minha angústia frente à pressão diante de tarefas acadêmicas, nada mais era que o meu sadismo uretral colocado contra aquilo que me tirava do princípio do prazer, que era a brincadeira, como no caso do menino da ópera de Ravel. Devo mencionar que depois de alguns anos de análise ela desapareceu.

            Concluindo este trabalho pude observar o quanto aprendi sobre a abordagem Kleiniana, principalmente na integração da angústia, superego e Édipo arcaico e, citando Silvia Bleichmar, que no seu livro “A Fundação do Inconsciente”, pág. 130, falando sobre a discussão entre Klein e Anna Freud dá o seguinte exemplo: “… A criança cuja melhor arma contra suas pulsões era seu medo ao pai, tinha um superego ao qual lhe faltava, certamente maturidade. O desenvolvimento do superego infantil depende de diversos fatores que não é necessário descrever aqui. Se por alguma razão este desenvolvimento não foi completamente acabado, e se as identificações não foram totalmente conseguidas, a angústia, da qual toda a constituição do superego extrai sua origem, predomina no funcionamento deste”.

Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

                                               REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

–         Klein, M. – Amor, Culpa e Reparação – (1921 – 1945) – Imago, Capítulo 11 – “Situações de Ansiedade Infantil Refletidas Em Uma Obra de Arte e No Impulso Criativo” (1929);

–         Klein, M. – Inveja e Gratidão – 1946 a 1963- Imago, segunda edição – Capítulo 2 – “Sobre a Teoria da Ansiedade e da Culpa” (1948);

–         Klein, M. – Amor, Culpa e Reparação – (1921 – 1945) – Imago, Capítulo 8-  “Tendências Criminosas em Crianças Normais” (1927);

–         Klein, M. – A psicanálise de Crianças – Imago, Capítulo 8 – “Estágios Iniciais do Conflito Edipiano e da Formação do superego”;

–         Steiner, J; Britton, R; Feldman, M; O’Shaughnessy, E. – O Complexo de Édipo Hoje, Implicações Clínicas – Artes médicas – Capítulo 4 – “O Complexo de Édipo Invisível”;

–         Bleichmar, S. – A Fundação do Inconsciente, Destinos de Pulsão, Destinos do Sujeito – Artes Médicas – Porto Alegre/1994.

–         Anotações feitas em sala de aula do seminário teórico de “Angústia e Superego Arcaicos em Melanie Klein”, segundo ano do curso Formação em Psicanálise, professora Maria Luiza Scrosoppi Persicano.

Comentários desativados em Angústia e Superego em Melanie Klein, Uma Tentativa de Articular a Teoria Através de Um Caso Clínico.

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NARCISISMO: UMA HISTÓRIA PARA SE PENSAR AS ESTÓRIAS DE UMA MENINA

       Quase todo mundo conhece a história original (grega) sobre Narciso: um belo rapaz que, todos os dias, ia contemplar seu rosto num lago. Era tão fascinado por si mesmo que, certa manhã, quando procurava admirar-se mais de perto, caiu na água e terminou morrendo afogado. No lugar onde caiu, nasceu uma flor, que passou a chamar narciso.

            O escritor Oscar Wilde, porém, tem uma maneira diferente de terminar esta história.

Ele diz que, quando Narciso morreu, vieram as Oréiades – deusas do bosque – e viram que a água doce do lago havia se transformado em lágrimas salgadas.

            “Por que você chora?”, perguntaram as Oréiades.

            “Choro por Narciso.”

            “Ah, não nos espanta que você chore por Narciso”, continuaram elas. “Afinal de contas, apesar de todas nós sempre corrermos atrás dele pelo bosque, você era o único que tinha a oportunidade de contemplar de perto sua beleza.”

            “Mas Narciso era belo?”, quis saber o lago.

            “Quem melhor do que você poderia saber”, responderam, surpresas, as Oréiades. Afinal de contas, era em suas margens que ele debruçava todos os dias.”

            O lago ficou algum tempo quieto. Por fim, disse: “Eu choro por Narciso, mas jamais havia percebido que Narciso era belo. Choro por ele porque, todas às vezes que ele se deitava sobre minhas margens, eu podia ver, no fundo dos seus olhos, a minha própria beleza refletida.”

            No texto de Oscar Miguelez, “Narcisismo, religião e cultura: as torres gêmeas”, ele nos chama a atenção para uma das particularidades do conceito de narcisismo freudiano que é concebido dentro de uma dialética intersubjetiva eu/outro. É do encontro do olhar totalizador da mãe que um “eu” pode ser estruturado. A alteridade possibilita a subjetividade. Exterioridade e interioridade circulam em bandas opostas, mas inseparáveis. Impossível pensar uma sem a outra. É um equívoco imaginar o narcisismo como solipsismo ou como anobjetalidade.

            É no sentido dessa intersubjetividade que o narcisismo se presta de maneira singular a conceber-se como uma “ montagem”. Não há Narciso sem um outro que sustente a posição narcísica.

            Deste ponto de vista a versão final do mito de Narciso de Oscar Wilde está correta. Narciso não vê o lago, só vê a si mesmo refletido nas águas do lago; assim como o lago não vê a beleza de Narciso e nem chora por sua perda, chora por não ver a sua beleza refletida nos olhos de Narciso. Aparecendo a “montagem” entre Narciso e as águas do lago, um sustentando a posição narcísica do outro.

            Fazendo à algumas semanas atrás o diagnóstico de uma menina de dez anos, que apresentava um atraso motor e cognitivo, pedi-lhe desenhos-estórias para averiguação do emocional. Na entrevista a mãe havia me contado que entre os quatro e seis meses de vida esta menina havia apanhado da babá e que ela só soube porque os vizinhos vieram contar dos maus tratos; e que atualmente, a menina, espera o pai chegar para jantar, só come o que ele come e só vai dormir quando ele dorme, apresentando enurese noturna.

 Estes desenhos foram sofrendo uma deterioração e as estórias foram ficando cada vez mais agressivas e desconectadas; comecei a me questionar se esta menina estava com um funcionamento psicótico.

            No primeiro desenho ela fez um menino com uma faca na mão e uma cobra sangrando. Contou: “ Aqui tinha uma cobra, o menino falou: Sai daqui, cobra! Ele tinha uma faca na mão. Ele matou a cobra com a faca e ficou saindo sangue. Ele matou a cobra porque ela ia morder ele.” Título que deu para a estória: “A cobra e o Felipe”.

            O conflito psicótico se instala precocemente. Seu paradigma é o mito de Narciso, com uma estrutura fundamentalmente dual. O ego não se diferencia bem de seus objetos primários, e o acesso a organização genital é muito precário, se é que existiu. O ego não alcançou um grau de coesão interna que lhe dê estabilidade e está sempre ameaçado de desmoronar-se. Este ego mal constituído não é capaz de fazer uso do mecanismo da repressão e apela para defesas mais arcaicas, do tipo da identificação projetiva, a negação da realidade psíquica ou a renegação da realidade externa. Não se constitui um inconsciente diferenciado da consciência. A angústia dominante é a angústia da fragmentação do ego, pelo qual o sujeito busca desesperadamente uma imagem de si que possa sustentar o seu ego.

            O conflito psicótico é fundamentalmente intrasistêmico, por sua vez associado a um conflito intersistêmico, com a instância superegóica e a realidade.

            Vi neste primeiro desenho, relacionando-o com a estória narrada, um deslocamento para uma figura mais forte que ela, um menino, que pode afastar dela todos os perigos, defendendo-a contra as maldades persecutórias que a afligem. O ego está fragmentado e o único recurso é buscar forças fora de si, numa fantasia narcísica, de poder.

            No segundo, desenhou um urso e um leão lutando, o leão sangrando; os dois animais com uma aparência agressiva, unhas e dentes pontiagudos. Contou: “O leão e o urso estão lutando porque eles queriam ver quem era o mais forte. O urso disse: Eu vou ganhar de você! Você não vai me morder! Eu vou te morder sim e vou chupar todo o seu sangue! O leão ganhou.” Título: “O leão e o urso.”

            Ao ver este desenho e escutar esta estória fiquei refletindo sobre o texto “O canibal melancólico”; onde o conceito de incorporação sustenta-se em uma imagem que garante à oralidade a função de um modelo, permitindo dar às formas primitivas de identificação a evidência de um conteúdo corporal. Freud e Karl Abraham designaram sob o termo canibalismo a expressão desse gozo da unidade violenta, na perda de qualquer limite.

            O canibalismo deriva de uma verdadeira transgressão imaginária de uma falta (privação, perda, abandono, separação) cujo desconhecimento assume a figura de desmentido do próprio real. Não há margem para engano: quaisquer que sejam as expressões clínicas tomadas pela angústia de separação (no duplo sentido de “separar-se de” e de “ser separado”, ou seja, “em pedaços”), o canibalismo compreende essa agressividade presente na própria angústia de perder o objeto de amor e de aniquilá-lo em lugar de a ele renunciar destacando-se dele. O luto canibal é claramente essa solução incestuosa da união alimentar ao objeto de amor cujo desaparecimento pode entrar em um saber, mas – segundo a lei de clivagem – permanece decididamente fora do alcance do crer.

            Assim como Narciso devorou a sua própria imagem, jogando-se no lago para poder absorvê-la; o lago também o devora para ficar com a imagem refletida nos olhos de Narciso.

            Quando vi esta criança pela primeira vez, sua hipotonicidade de olhos me fez pensar em alguma síndrome, depois em melancolia. Seu histórico nos remete à segunda hipótese, criança que na época do desmame sofreu maus tratos; além da perda do seio, de se sentir desamparada e frustrada pelo objeto, ainda apanhava, sentindo-se mais desamparada, não havendo possibilidade de integração do ego. O que vemos na melancolia é que o eu vai junto com o objeto que se perdeu; não há um eu que suporte a perda e procure uma nova relação, não há possibilidade de distinção entre o eu e o objeto. O que fracassa na melancolia é que não há uma subjetividade que suporte a perda.

            A incorporação canibal não é de forma alguma o ato simbólico da resolução da perda. Ela é a satisfação-imaginária da angústia alimentando-se do objeto perdido – objeto cuja “perda” foi de algum modo necessária para que ele permanecesse vivo e presente em sua realidade primitiva alucinatoriamente conservada. O canibalismo seria a expressão mítica de um luto melancólico – espécie de assassinato – de um objeto, sob o encanto do qual o eu foi colocado e do qual ele não consegue resolver-se a se separar, como mostra a angústia de mantê-lo presente a partir de sua ausência.

            Este segundo desenho mostra o desejo de incorporar e beber o sangue do outro para se tornar mais forte e poder sobreviver à angústia desta separação que foi traumatizante para esta criança.

            No terceiro desenho realizou um céu, nuvens, chuva, sol, uma figura humana, um cachorro e um osso. Contou: “Céu, chovendo, sol, palhaço falando com o cão. Queria pegar o osso, mas estava chovendo e não podia pegar o osso. Volta aqui cão! O palhaço podia dar ração para o cão. O palhaço gosta do cão e o cão gosta do palhaço. Título: “O cão e o osso.”

Volta aqui a questão do ser alimentado, a ambivalência, a resolução do problema, mas que não aconteceu, e a defesa narcísica da sustentação do amor entre o palhaço e o cão. Havia um problema no estar sendo cuidada e alimentada, havia a mãe (o sol), porém também existia o obstáculo a babá (a chuva) que não permitia uma saída para a busca da satisfação (o osso), o palhaço (o pai) poderia ter interferido se não fosse tão ausente e percebido o que estava ocorrendo, o palhaço representa um papel, mas não assume o lugar de, assim é melhor continuar pensando que existe afeto entre eles (o palhaço e o cão).

            Freud assinala que na formação de sintomas na psicose esquizofrênica se perde o investimento da representação inconsciente do objeto primordial. Héctor Garbarino pensa que como esta representação está fusionada com as representações de si, do ego do sujeito, a perda dessa representação vem acompanhada da perda do próprio ego. O problema do psicótico é o de sobreviver, já que sua existência está ameaçada por não dispor de um ego com representações autônomas de si, independentes das representações do objeto primordial. Se por diversas razões sente que perdeu o objeto primário, seu ego não pode sofrer esta perda sem desintegrar-se.

            Se o neurótico modifica a realidade segundo suas fantasias, o psicótico a constrói de novo a seu modo, buscando reconectar-se com os objetos perdidos. Freud assinalou que o delírio que aparece como a manifestação da enfermidade constitui, na realidade, um processo de cura.

            Neste terceiro desenho-estória, descrito acima há uma tentativa de resgatar o objeto primário, transferindo a culpa para outro objeto e mesmo assim com um aplacamento do sentimento de amor dual, “o palhaço gosta do cão e o cão gosta do palhaço”.

            No quarto desenho fez duas figuras humanas, uma bem maior do que a outra, com chifres e dentes de vampiro, com o braço comprido querendo alcançar a figura menor; novamente o sol e nuvens. Contou: “O demônio e o menino. O demônio jogou um raio para matar o menino. O menino morreu e foi para o cemitério. Porque o demônio não gostava de criança, desorganizava a casa dele.”  Título:“ O demônio e o menino.”

            Seu deslocamento é sempre para a figura masculina, que sente como figura mais forte, mais poderosa. Novamente a ambivalência, sol e nuvens; a figura terrível de um demônio que lança raios para matar quem desorganiza a sua casa. Vemos aí uma identificação com a figura masculina, talvez por ter perdido o objeto primário ou por não ter podido se identificar com ele. Na análise da melancolia, a perda real ou emocional de um objeto amado causa como característica principal uma cruel autodepreciação do ego, combinada com uma inexorável autocrítica e muitas autocensuras. As análises demonstram que essa depreciação e essas censuras aplicam-se, no fundo, ao objeto e representam a vingança do ego sobre ele. A sombra do objeto caiu sobre o ego. A introjeção do objeto é inequivocamente clara.

            Essas melancolias mostram o ego dividido, separado em duas partes, uma das quais vocifera contra a segunda. Esta segunda parte é aquela que foi alterada pela introjeção e contém o objeto perdido. Porém a parte que se comporta cruelmente não a desconhecemos. Ela abrange a consciência, uma instância crítica dentro do ego, que até em condições normais assume uma atitude crítica para com a última. Levanta-se a hipótese de que no ego se desenvolve uma instância capaz de se isolar do resto daquele ego e entrar em conflito com ele. A essa instância chamamos de ideal de ego e lhe é atribuído a função de auto-observação, a consciência moral, a censura dos sonhos e a principal influência na repressão. Ele é o herdeiro do narcisismo original em que o ego infantil desfrutava de auto-suficiência; gradualmente reúne das influências do meio ambiente, as exigências que este impõe ao ego, das quais este não pode sempre estar à altura; de maneira que um homem, quando não pode estar satisfeito com seu próprio ego, tem possibilidade de encontrar satisfação no ideal do ego que se diferenciou do ego. Nos delírios de observação a desintegração dessa instância tornou-se patente e revelou sua origem na influência de poderes superiores e dos pais.

            No quarto desenho-estória vemos uma autocrítica muito grande à figura do menino que é destruído pelo raio do demônio, ele desorganizou a vida deste demônio, portanto merece morrer e ser enterrado, para não mais molestá-lo.

Quinto e último desenho-estória, ela fez: sol, nuvens (agora pretos, nos outros eram amarelos e azuis), um rio, um castelo preto sobre o rio marrom e uma figura humana presa dentro do castelo. Contou: “Rio Tietê, castelo preto porque era de noite. O rio falou mentira. Falou mentira! Você vai para a morte! Não ia para a morte porque todo mundo contava mentira, dia do azar. Ficou o azar do menino. Ficou tudo cinza.” Título: “O castelo e o menino.”

Neste último desenho-estória percebe-se com clareza uma clivagem de ego expressa no grafismo, na verbalização e no conteúdo da estória. Há sol e nuvens, mas é noite. Há um rio que traz vida e movimento, porém é o Tietê (rio sem vida, poluído). Há um castelo que mostra riqueza e proteção, mas ele também aprisiona. Há o menino que conta mentiras e pode morrer por isto, no entanto não morre, fica aprisionado no azar, o azar de não ser o ideal de ego. A construção gramatical também sofre uma clivagem, frases soltas, sem conexão, sem o verbo que promove a ação.

Quando Freud se interessou pelas diferenças entre as estruturas clínicas, expôs a hipótese de que em cada uma o ego entra em conflito com algum de seus três grandes senhores: as pulsões, o id, nas neuroses de transferência, a realidade supostamente exterior nas psicoses (nas perversões) e o superego nas melancolias (às quais denominou de neuroses narcísicas).

Em cada uma destas estruturas, o ego se opõe a algum de seus senhores, ao defender-se de seus representantes psíquicos. Assim defende-se de certas representações e de certos pensamentos (representantes psíquicos da pulsão) mediante a repressão, ou se defende de certos juízos de existência (representantes psíquicos da suposta realidade) mediante a cisão e/ou o desmentido.

No caso das melancolias, Freud afirma que o conflito fundamental do ego não guarda relação nem com a pulsão nem com a realidade, mas com o superego. Ele sustentou que nas melancolias o superego é puro cultivo da pulsão de morte. Mas, se o conflito do ego se centra na relação com o superego, então cabe indagar em que consiste a defesa. Não se trata meramente da retirada dos investimentos e dos contra-investimentos, em face das frases admonitórias do superego, mas de outro mecanismo que culmina com o ego à mercê das auto-repressões, e em outras ocasiões de um mecanismo diverso, que consiste na refutação de um juízo do superego mediante um sacrifício. Dito de outro modo, podem ser erigidas duas defesas nas estruturas narcísicas perante o superego, a cisão e o desmentido. Quando sobrevem a cisão dos juízos do superego, também ocorreu o desmentido, mas a inversa não é necessária: pode haver desmentido sem cisão, como ocorre nas estruturas depressivas, não melancólicas.

A cisão do superego é correlativa de uma retirada dos investimentos da formação de ideais, e em conseqüência o superego é transformado em puro cultivo da pulsão de morte. Freud sustentou que no superego se reconciliam a realidade e as pulsões, e neste sentido cremos que a cisão do superego é uma defesa que atenta contra esta instância enquanto representante da realidade.

Tanto no mito de Narciso como nas estórias desta menina vemos claramente a defesa narcísica, o superego sendo transformado em cultivo de pulsão de morte. Morre-se por se quer alcançar algo inatingível, morre-se ou há o desejo de morte por não se conseguir atingir um ego ideal, aquele que é formado por uma “montagem”, sustentado pelo olhar de outro.

 

                                               Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

Referências Bibliográficas:

Freud, S. – “Introdução ao Narcisismo” – 1914 – Volume XIV – Edição Standard Brasileira.

Freud, S. – “Luto e Melancolia” – 1917 – Volume XIV – Edição Standard Brasileira.

Freud, S. – “Identificação” – 1921 – Volume XVIII – Edição Standard Brasileira.

Miguelez, O – “Arendt com Freud: o mal em questão.”

Miguelez, O. – “Narcisismo, religião e cultura: as torres gêmeas”.

“ O Canibal Melancólico” – Depressão.

Garbarino, H. – “Estudos Sobre Narcisismo” – 1986 – Biblioteca Uruguaia de Psicanálise – Volume II.

Maldavsky, D. – “Estruturas Narcisistas Constituição e Transformações” – 1992 – Imago Editora.

Anotações das Aulas do Seminário Teórico de Oscar Miguelez.

 Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

 

 

 

 

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Narcisismo

     Falar de um conceito tão complexo e abrangente, é falar de nós mesmos, enquanto sujeitos ligados a uma cultura que é cada dia mais narcisista. Basta ver os programas de TV de maior audiência: Big Brother Brasil, Ratinho, Domingão do Faustão, Domingo Legal, etc.; em que aparecer na mídia e ficar em evidência por alguns segundos vale tudo, até mesmo se expor as mais humilhantes situações.

            Entretanto, antes de falar em cultura, temos que olhar para algo mais específico, o desenvolvimento do ser humano.

            A sexualidade inicia com a libidinização da criança pelos pais. Colocada no papel de “sua majestade o bebê”, a criança na relação com a mãe vai aprendendo a saciar a sua fome ao mesmo tempo em que é despertada para o auto-erotismo, pois ao mamar ela sente prazer ao ser saciada e também no contato da mucosa da boca com o mamilo. Quando mais tarde leva o dedo aos lábios para sugá-lo ela está tentando reviver o prazer alcançado anteriormente da boca com o mamilo; temos aí a oralidade, uma das zonas erógenas que foi despertada pela pulsão autoconservadora e que depois se transformará em pulsão sexual.

            A boca não é a única zona erógena que será despertada na criança; no cuidado com a mesma, a mãe, ou quem exerce a maternagem, vai estimulando outras zonas erógenas – “qualquer revestimento cutâneo-mucoso susceptível de se tornar sede de uma excitação de tipo sexual; de forma mais específica, certas regiões que são funcionalmente sedes dessa excitação: zona oral, anal, uretro-genital, mamilo.”*

            Mesmo o olhar que a mãe dirige ao bebê, quando está amamentando libidiniza-o. É como se ela estivesse vendo a si mesma e parte de si nele, e o bebê estivesse se mirando nas “ águas da fonte de Téspias” (onde Narciso se viu e enamorou-se) – relação especular. Os dois se miram e se vêem nos olhos do outro. Os pais ficam tão embevecidos pela cria que depositam o seu narcisismo no bebê.

            Nasce assim o auto-erotismo, conceito que se apoia nas três características da sexualidade infantil: apoio na função vital (auto-preservação); auto-erótico (alucinando ou procurando pulsão parcial, chupar o dedo, por exemplo) e tudo isto comandada pelas zona erógenas. “De um modo mais específico, auto-erotismo é uma característica de um comportamento sexual infantil precoce pelo qual uma pulsão parcial, ligada ao funcionamento de um órgão ou à excitação de uma zona erógena, encontra a sua satisfação logo ali, isto é:

1-     sem recorrer a um objeto exterior;

2-     sem referência a uma imagem do corpo unificado, a um primeiro esboço de ego, tal como Freud caracteriza o narcisismo”. **

      Assim, a criança descobre que ela se dá prazer através das pulsões parciais, surgindo o narcisismo primário.

      É parte do papel dos pais a narcisização, colocando a criança no papel central, sua “majestade o bebê”. Mas também é parte da função dos mesmos ir aos poucos retirando-a deste papel para poder inseri-la na cultura. A criança então se volta à procura de um objeto que estabeleça com ela a mesma relação perdida com os pais.

      Nesta escolha de objeto, Freud confronta duas maneiras pelas quais o homem elege o objeto amado: a partir de sua própria imagem – “narcísico”; e a escolha “anaclítica” – de apoio. Apoio na função de autoconservação, um apoio no objeto, apoio na mãe.

      Este “apoio” é, na origem, um apoio da sexualidade infantil no instinto, se se compreende por instinto o que orienta esta “função corporal essencial à vida”, tratando-se da fome e da função alimentar.

      Depois da oralidade, primeira pulsão sexual parcial, o sujeito se voltará para outra zona erógena, a analidade. O erotismo anal é um dos componentes da pulsão sexual que, no decurso do desenvolvimento e de acordo com a educação que a nossa atual civilização exige, se tornarão inúteis para os fins sexuais. Os traços de caráter – a ordem, a parcimônia e a obstinação – com freqüência relevantes nos indivíduos que anteriormente eram anal-eróticos, serão os primeiros e mais constantes resultados da sublimação do erotismo anal.

      A limpeza, a ordem e a fidegnidade dão exatamente a impressão de uma formação reativa contra um interesse pela imundice perturbadora que não deveria pertencer ao corpo.

      O interesse erótico original na defecação está destinado a extinguir-se em anos posteriores. E não encontramos um acentuado grau de caráter anal nos indivíduos que conservaram na vida adulta o caráter erógeno da zona anal, os homossexuais.

      Freud viu nos homossexuais outra forma de escolha de objeto, diferente da escolha de apoio – anaclítica, a escolha narcísica:

  • o que ela própria é ( a imagem dela mesma);
  • o que ela própria foi ( na infância o objeto de amor dos pais);
  • o que ela gostaria de ser ( uma pessoa famosa, por exemplo);
  • alguém que foi uma vez parte dela mesma (figura de identificação com ela mesma – homossexual).

Para melhor compreendermos o narcisismo secundário temos que nos voltar para o estudo da doença orgânica; para a hipocondria e para a vida erótica dos sexos.

Avaliar a influência da doença orgânica sobre a distribuição da libido, levou Freud a observar que uma pessoa atormentada pela dor, deixa de se interessar pelas coisas do mundo externo, porque elas não dizem respeito ao seu próprio sofrimento. Retira também o interesse libidinal  de seus objetos amorosos.

O hipocondríaco também retira o interesse e a libido, a segunda de forma acentuada, dos objetos do mundo externo, concentrando ambos no órgão que lhe prende a atenção.

A diferença entre a hipocondria e a doença orgânica está que na segunda as  sensações aflitivas baseiam-se em mudanças demonstráveis, na primeira isso não ocorre.

Na hipocondria e parafrenia há o represamento da libido no ego. Na neurose histérica e obsessiva há o represamento da libido no objeto (recalcamento).

Os primeiros objetos sexuais de uma criança são as pessoas que se preocupam com a sua alimentação, cuidados e proteção, isto é, sua mãe ou quem quer que a substitua. Esse tipo e fonte de escolha objetal pode ser denominado o tipo anaclítico, ou de ligação, ou de apoio.

Em pessoas cujo desenvolvimento libidinal sofreu alguma perturbação, tais como pervertidos e homossexuais que em sua escolha ulterior dos objetos amorosos elas adotaram como modelo não sua mãe, mas seus próprios eus. Procuram a si mesmos como um objeto amoroso e exibem um tipo de escolha objetal que deve ser denominado narcisista.

Quando Freud vai buscar no mito de Narciso o termo para designar o conceito de narcisismo, não poderia ter feito escolha melhor. Pela definição do Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis: “Narcisismo – em referência ao mito de Narciso, amor que se tem pela imagem de si mesmo”. Uma das características da mitologia e de todo o mito é a onipotência de pensamento. Neste mito a onipotência de pensamento é acreditar que nos bastamos e que não há ideal de ego melhor do que o nosso. É tentar esconder o nosso desamparo com o pensamento onipotente de poder se bastar.

Por este motivo, o conceito de narcisismo está mais para a psicose do que para a neurose. Na neurose o conflito é com o objeto amoroso, havendo o recalcamento; na psicose há o desinvestimento do objeto e investimento da libido maior no ego, há o desligamento do objeto, negação do desamparo. O que torna necessário para o desenvolvimento da vida mental sadia é ultrapassar os limites do narcisismo e ligar a libido a objetos. Devemos começar a amar a fim de não adoecermos e estamos destinados a cair doentes se formos incapazes de amar.

A escolha narcísica do tipo que ela própria gostaria de ser é o mal da sociedade atual, onde o que vale é o “aparecer”, o se mirar nos olhos dos outros, o voltar a se mirar “nas águas da fonte de Téspias”; onde a nossa imagem é o que importa, estar sob o olhar de milhares de pessoas, mesmo virtualmente, por alguns segundos, nem que seja de maneira degradante.

 *Laplanche e Pontalis – Vocabulário da Psicanálise – Martins Fontes Editora Ltda – décima edicão brasileira; setembro de 1988.

**id, ibidem.

Referências Bibliográficas:

Freud, S. – Caráter e Erotismo Anal – Volume IX – 1908 – Imago.

________ – Um Tipo Especial de Escolha de Objeto feita pelos Homens – Vol. XI – 1910 – Imago.

________ – A Depreciação na Esfera do Amor – Vol. XI – 1912 – Imago.

 ________ – Sobre o Mecanismo da Paranóia – Vol. XII – 1910/1911 – Imago.

_______ – Totem e Tabu – Animismo, Magia e Onipotência dos Pensamentos –  Vol. XIII 1912/1913 – Imago.

_______ – Sobre o Narcisismo – Uma Introdução – Vol. XIV – Caps. 1, 2 e 3 – 1909  Imago.

 Laplanche, P. – Vida e Morte em Psicanálise – 1985 – Artes Médicas.

 Green, A. – Narcisismo de Vida e Morte em Psicanálise.

 Laplanche, P.; Pontalis; J.B. – Vocabulário da Psicanálise – Martins Fontes.

Anotações do Seminário Clínico administrado pelo Prof. Oscar Migueles.

Por  Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

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Samba do Crioulo Doido – terceira e última parte

Vejam bem, estávamos nascendo para a psicanálise e para isso tínhamos que entender muitos conceitos, iniciávamos uma fratura na maneira de pensar. Se antes tínhamos a certeza, a previsibilidade, o esperado, a natureza, o automatismo, a repetição, a infinidade, a falta de angústia, o oráculo, o absoluto, o paraíso, o gozo, o amparo, o silêncio, a inércia, a estabilidade, a paz, a necessidade, o objeto fixo; agora tínhamos a incerteza, a imprevisibilidade, o inesperado, a cultura, a autonomia, a inovação, a finitude, a angústia, o enigma, o relativo, o inferno, o desprazer, o desamparo, o ruído, o mutacional, a instabilidade, a guerra (conflito), o desejo, o objeto contigente. E este renascer não é fácil, se já fomos expulsos do útero materno uma vez, tivemos que ser expulsos pela segunda vez, abandonar o paraíso perdido. A invasão desta pressão que vem do corpo e está fora do aparelho psíquico, causa dor psíquica, causa angústia. “Não seio, logo penso” (frase dita em classe pelo professor Ede de Oliveira Silva). Tivemos que abandonar uma série de premissas que tínhamos como certas, elaborar lutos e a sucessão de perdas faz emergir as pulsões de morte, porque causam angústia. A noção de não viver na própria vida vincula-se à falta de identidade pessoal, à falta de desejo. A falta de desejo remete a questões muito primitivas, arcaicas mesmo, de não poder viver a ferida narcísica. É a ferida narcísica que dá lugar ao desejo, em outra linguagem, é a castração simbólica representada pelo pai na relação fusional materna/bebê, que dá lugar à ferida narcísica. É a ferida narcísica, o espaço de desejo, que dá ao sujeito a pré-condição de escolher, desejar, buscar sempre uma completude que, irremediavelmente, não se dará nunca mais, mas que é a mola propulsora da vida, propiciando ao sujeito a busca da realização através dos estudos, do trabalho e na vida pessoal; ufa, chegamos à adolescência no estudo da psicanálise!

A pulsão de morte é traumática por natureza porque não tem um escudo protetor para o que vem de dentro do corpo. O aparelho psíquico está desamparado porque a pulsão já está presente desde o nascimento; para fazer ligação preciso ter uma experiência com o objeto. A qualificação da pulsão vai ser feita dentro do aparelho e na relação com o objeto; no encontro da pulsão com o objeto é que se dá a formação do aparelho.

O aparelho psíquico é um aparelho de captura dessa força, Drang, que está constantemente pressionando, mas é também um aparelho que destina; tem de estar o tempo todo organizando para dar conta dessa força constante e, tenta administrar através de descargas em momentos que são possíveis, dando-lhe destinos pulsionais. Há quatro maneiras de dar destinos a estas cargas, também chamados de defesas: reversão ao seu oposto, retorno ao próprio eu, repressão e sublimação. No primeiro destino existe um movimento da pulsão parcial, passando da atividade para a passividade e uma mudança de conteúdo, do voyerismo para o exibicionismo por exemplo. No segundo destino há uma volta a si mesmo, do masoquismo para o sadismo. No terceiro, o recalque faz parte da organização do aparelho psíquico e como já foi dito anteriormente há um conflito entre instâncias, desejo versus defesa. E na quarta, o destino da pulsão volta-se para um novo alvo não sexual, principalmente para atividade artística e a investigação intelectual. Foi o que o crioulo doido fez, sublimou, voltando-se para uma criação artística, fazendo do seu samba uma metáfora, um chiste.

O conceito de pulsão de morte, tão controvertido e especulativo, como uma força silenciosa que subjaz que é a raiz e a base dos processos psíquicos representacionais deu alento a um conhecimento mais profundo dos processos mentais. Para uma nova teoria pulsional, uma nova tópica teria de ser criada, mais ampla, mas abrangente que suportasse esses acréscimos.

A pulsão de morte, essa força viva, ainda não representada, seria a verdadeira pulsão. Uma energia livre de qualquer representante seria o atual, o novo, o ainda indivisível e irrepresentável. O trabalho maior do aparelho psíquico seria o de ligar esta força e transformá-la em uma já ligada aos seus representantes psíquicos, agora sob o império do princípio do prazer, com as leis correspondentes. Segundo Ede de Oliveira Silva, apud Garcia Roza, 1990: “A instalação dessa ordem ainda inicialmente anárquica inaugura o domínio de Eros. O aparelho psíquico (abrangendo o representado e o não representado) estaria regido por dois princípios: o princípio do além do princípio do prazer (Nirvana) onde reina o caos, o gozo, a desordem, o novo, a liberdade total, um verdadeiro caldo pulsional sob a regência da pulsão de morte; e o princípio do prazer, lugar da ordem e do prazer, do passado e da energia ligada, sob a regência da pulsão de vida.” No samba do crioulo doido vê-se o jogo entre Eros e Thanatos. Aparentemente os seus versos não têm ligação nenhuma com os fatos históricos e os personagens estão desconexos. Mas à medida que vemos uma vontade de quebrar com a ordem estabelecida, em fazer um chiste, há um destino dado à carga pulsional, que é o de sublimar, de criar algo novo, criticando-se um regulamento que submetia o sujeito e tentava enquadrar a sua criação. Observando-se, neste sentido a fusão das duas forças numa só, a mesma que pressiona que traumatiza, também é a que faz mover à procura de uma solução, de uma criação.

No texto de Joel Birman, “Psicanálise Uma Estilística da Existência?”, ele coloca como obstáculos atuais da psicanálise o masoquismo e o fim da análise. O masoquismo é uma problemática que se coloca tanto no nível de clínica, como a nível institucional. O masoquismo emanente (erógeno – uma parte da pulsão de morte que foi defletida permaneceu no ego; há uma dor, mas também há um prazer pela dor) dificulta o processo de elaboração, havendo maior possibilidade de desenvolver o masoquismo feminino (fálico), ou o masoquismo moral. Impedindo o fim da cura e também à transmissão da psicanálise em decorrência da posição identificatória assumida pelo sujeito de servidão voluntária. No masoquismo o sujeito se submete para ser aceito, para ser amado. O sambista também se submete para ser aceito pela comissão julgadora. Há uma relação sadomasoquista entre o regulamento que é estabelecido e o compositor que se submete ao mesmo.

No nível institucional, as diferentes formas de servidão aos mestres e aos poderes psicanalíticos que estão presentes em quase todos os grupos de analistas, também impedem a formação. Um princípio de base não pode ser transmitido ao sujeito, que é justamente o da ética, o respeito à individualidade. O encontro do sujeito com o seu desejo deveria produzir algo totalmente criativo, diferente; se passa justamente ao contrário. Traços masoquistas são bastante salientes e severas as perturbações depressivas, notando-se uma imensa arrogância que traduz os estragos deploráveis da onipotência narcísica por parte dos analistas, que é segredo de polichinelo. Justamente a instituição que nos compele a fazer análise com a promessa de sermos analistas, paradoxo contra a ética, está composta por um grupo de analistas, na sua maioria, que não foram castrados simbolicamente pela análise.

Iniciei o curso fazendo transferências positivas e negativas com os professores, ligando alguns aspectos desses aos meus representantes internos parentais. À medida que o curso avançou e fui compreendendo o processo que estava vivendo, estas transferências foram se modificando. Assim como modificou a visão da realização deste trabalho, se antes era algo inoperante, difícil, arbitrário e impositivo; realizá-lo fez com que percebesse o quanto aprendi e o quanto ainda tenho que fazê-lo. E como disse Maria Cristina Perdomo, “sublimar é o melhor destino”, numa tentativa de organizar o nosso aparelho psíquico, mesmo que seja através de um chiste. Voltamos ao início do trabalho ao retorno do reprimido, à formação de compromisso.

Como o crioulo teve que assimilar tanta história do Brasil para poder dar conta de realizar um samba enredo; espero durante estes quatro anos de formação dar conta de tantos conceitos que tive que articular, e poder passar de crioulo doido para crioulo entendido.

Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

Para quem não conhece O Samba do Crioulo Doido aqui está ele na íntegra:

         Samba do Crioulo Doido – 1968

                                               (Sérgio Porto)

Prefácio – Stanislaw Ponte Preta

Este é o samba do crioulo doido. A estória de um compositor que durante muitos anos obedeceu ao regulamento e só fez samba sobre a história do Brasil. E tome de Inconfidência, Abolição, Proclamação, Xica da Silva. E o coitado do crioulo teve que aprender tudo isto para o enredo da escola. Até que no ano passado escolheram um tema complicado: Atual Conjuntura. Ah! Aí o crioulo endoidou de vez e saiu este samba.

Foi em Diamantina,

onde nasceu J.K.

que a princesa Leopoldina,

arresolveu se casar.

Mas Xica da Silva,

tinha outros pretendentes

e obrigou a princesa,

a se casar com Tiradentes.

La, la, la, ia, la, la.

O bode que deu vou te contar.

Joaquim José,

que também é da Silva Xavier,

queria ser dono do mundo,

e se elegeu Pedro II.

Das estradas de Minas

seguiu prá São Paulo

e falou com Anchieta.

O vigário dos índios,

aliou-se a Dom Pedro

e acabou com a falseta.

Da união destes dois

ficou resolvida a questão,

e foi proclamada a escravidão.

Assim se conta esta história,

que é dos dois a maior glória.

A Leopoldina virou trem,

e Dom Pedro é uma estação também.

O, o, o o o o,

O trem tá atrasado, ou já passou.

Referências Bibliográficas

 

Birman, J. – Por uma Estilística da Existência – Editora Escuta – SP., 1995.

Freud, S. – Algumas Considerações para o Estudo Comparativo das Paralisias Motoras Orgânicas e Histéricas – Vol. I – pag. 180 – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – Carta 52 (06/12/1896) – Vol I – pag. 254 – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________­­ – Esboços para Comunicação Preliminar – 1893 – Vol. I – pag. 166 –­­­­ Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – Projeto para Psicologia Científica – 1895 – Vol. I – pag. 315 –­­­­ Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – Relatório sobre meus Estudos em Paris e Berlim – Vol. I – pag. 33 –­­­­ Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – Interpretação dos Sonhos – Vol. V – Cap. 7 – pag. 489 – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – Inconsciente – Vol. XIV – 198  – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – As Neuropsicoses de Defesa – Vol. III – pág. 57  –Edição Standard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – Os Instintos e suas Vicissitudes – Vol. IV – pag. 154Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – Além do Princípio do Prazer – Vol. XVIII – pag. 13 – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – Sobre os Sonhos – Vol. V – pag. 571 – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – Esquecimento dos Sonhos – Vol. V– pag. 471 – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – Realização de Desejos – Vol. V – pag. 503 –  Edição Standard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

Hanns, L. – Dicionário Comentando do Alemão de Freud – Imago Editora – RJ, 1996.

Nasio, J.D. – O Prazer de Ler Freud – Jorge Zahar Editor – RJ, 1999.

Laplanche, J.; Pontalis, J.B. – Vocabulário da Psicanálise – Martins Fontes Editora – 10ª. Edição – SP, 1988.

Roudinesco, E.; Plon, Michel – Dicionário de Psicanálise – Jorge Zahar Editor – RJ, 1998.

Silva, E. O. – Uma Viagem pela Metapsicologia Freudiana – Boletim do Formação em Psicanálise – Ano VIII – Vol. VIII – Nº. 1 – Janeiro/Junho 1999.

Anotações feitas em aulas dos seminários teóricos dos professores Maria Cristina Perdomo; Maria Teresa S. Rocco; Ede de Oliveira Silva e Durval M. Nogueira Filho, Instituto Sedes Sapientiae.

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Samba do Crioulo Doido – segunda parte

Cada transcrição subsequente inibe a anterior e lhe retira o processo de excitação. Uma falha na tradução, recalcamento, produz desprazer, provocando distúrbio de pensamento para não permitir o trabalho de tradução. Assim, no caso do nosso compositor, ele comete atos falhos, faz deslocamentos e condensações: “Joaquim José, que também é da Silva Xavier, queria ser dono do mundo e se elegeu Pedro II. Das estradas de Minas, seguiu pra São Paulo e falou com Anchieta, o vigário dos índios aliou-se a D. Pedro e acabou com a falseta. Da união deles dois ficou resolvida a questão e foi proclamada a escravidão.” Tiradentes, que já havia morrido, se elege um imperador (um deslocamento e uma condensação). Proclamada a escravidão, em vez de abolição (um ato falho).

         Freud cada vez mais atinha-se às formações do Inconsciente numa tentativa de captar o seu modo de funcionamento; sintomas, atos falhos, sonhos e chistes era sua matéria prima tanto para reformular o seu aporte teórico à medida que ia investigando, como para decifrar os pensamentos oníricos de seus pacientes. No capítulo VII da Interpretação dos Sonhos, 1900, uma linguagem psicológica foi privilegiada, afastando-se de um corpo biológico da etapa anterior. Estuda o aparelho psíquico representacional, dirigindo-se para o representado, para o simbolizado. Tudo já estaria inscrito psiquicamente. Estava lidando com o representado que eqüivalia ao passado do paciente. O sujeito psíquico estava determinado como nos primeiros modelos do aparelho psíquico. É como se cada quantidade energética que aportasse ao aparelho já existisse o seu representante correspondente. O sujeito estaria amparado por esse automatismo. Estamos diante do modelo dinâmico, onde o que comanda o aparelho são as representações* (*vorstellung – representação = designa “aquilo que se representa, o que forma o conteúdo concreto de um ato de pensamento” e  “em especial a reprodução de uma representação anterior”).

Ao estudar os sonhos (fenômeno universal), Freud descobriu a linguagem onírica, e a compreensão dos sonhos, através de sua análise, era a via régia para o inconsciente. Ele entende os sonhos como guardiões do sono. O sono pode ser perturbado por estímulos externos como um som forte, por exemplo. O sujeito que dorme pode produzir um sonho no qual o ruído é incorporado de modo a não incomodar o sono, pois além de incorporar ao sonho, a perturbação é removida através de uma explicação. Porém, mais freqüentemente, o sono é perturbado por estímulos internos. Os fisiológicos, tais como sede, fome, etc., que também são incorporados ao sonho, de modo a prolongar o sono. Mas, principalmente, os desejos não satisfeitos e conflitos não resolvidos dão origem a tensões internas que poderiam perturbar o sono. No sono, nossa relação com a realidade externa é temporariamente suspensa. Parte da censura interna é relaxada e ocorre regressão, de forma que desejos arcaicos inconscientes esforçam-se por encontrar uma expressão. A motilidade e a ação ficam suspensas e os desejos reprimidos buscam expressão “numa experiência alucinatória benigna”.

A linguagem comum reconhece o aspecto de realização de desejo dos sonhos ao usar o mesmo termo “sonho”, tanto para o devaneio, como para o sonho que temos enquanto dormimos. Mas há uma diferença fundamental entre os dois: o devaneio expressa desejos conscientes, organizados, racionalizados, aceitáveis para a nossa consciência desperta; no sonho, ao contrário, são precisamente os desejos* reprimidos que perturbam nossa vida psíquica, que buscam satisfação. (*wunsch; begierde; lust – desejo = na concepção dinâmica freudiana, um dos pólos de conflito defensivo, o desejo inconsciente tende a realizar-se restabelecendo, segundo as leis do processo primário, os sinais ligados às primeiras vivências de satisfação. A psicanálise mostrou no modelo do sonho, como o desejo se encontra nos sintomas sob a forma de compromisso).

Na época em que escreveu “A Interpretação dos Sonhos” Freud pensava que os sonhos eram predominantemente de desejos inconscientes (reprimidos) de natureza sexual. Posteriormente adicionou os de natureza agressiva aos de natureza sexual. Para ele, desejos bastante poderosos e dinâmicos e, no entanto, reprimidos, invariavelmente tem suas raízes em conflitos infantis (reprimidos na infância), mas em contínua atividade no inconsciente, por não encontrarem expressão na realidade, expressam-se por vias outra, sendo uma delas os sonhos.

O sonho quase sempre está ligado a algum evento ocorrido durante o dia, os restos diurnos. É possível que tal evento seja suficientemente importante para que torne compreensível que influencie o sonho. Mas, seja ele importante ou trivial, o resto ou resíduo diurno é um evento que de alguma forma se liga, na mente do sonhador, a algum conflito inconsciente mais profundo, vindo a representá-lo (de alguma forma, o resíduo diurno que desencadeia o sonho é similar a um acontecimento que poderia ter dado início a um sintoma neurótico ou a uma neurose).

A não satisfação dos desejos profundamente arraigados dá origem a tensões internas. Sua satisfação, entretanto, daria origem à ansiedade e culpa. Não é sem razão que esses desejos foram reprimidos em sua origem.

Freud chama de censor, ou censura o agente repressor que proíbe a satisfação de desejos inaceitáveis para a consciência e descreve o conflito como sendo entre os desejos inconscientes que lutam por expressar e satisfazer-se no sonho e a censura que proíbe tal satisfação.

O ego não desaparece no sono. Ele tem de se proteger tanto da tensão que surge de desejos insatisfeitos, quanto da ansiedade e da culpa que acompanham a satisfação desses desejos. Freud concebe os sonhos como o resultado de um compromisso entre o reprimido e as forças repressoras, como um modo de desviar-se da censura.

O sonho é produzido pelo trabalho onírico. O trabalho ou elaboração onírica converte os pensamentos oníricos latentes inaceitáveis para o ego, mesmo no estado de sono, no aparentemente inócuo conteúdo manifesto do sonho (o trabalho ou elaboração onírica é a primeira descrição de Freud de um conceito mais amplo e fundamental para a compreensão da psicanálise: o de trabalho psíquico).

O trabalho ou elaboração onírica visa satisfazer os desejos inconscientes inaceitáveis e conflitantes, disfarçando-os, o que envolve um modo particular de expressão, a linguagem onírica. Esta é constituída por mecanismos tais como: condensação, deslocamento, representação indireta de vários tipos, simbolismo.

No trabalho do sonho está em ação uma força psíquica que despoja os elementos com alto valor psíquico de sua intensidade e por meio da sobredeterminação, cria, a partir de elementos de baixo valor psíquico, novos valores, que depois penetram no conteúdo do sonho. A conseqüência do deslocamento é que o conteúdo do sonho não mais se assemelha ao núcleo dos pensamentos do sonho, e que este não representa mais do que uma distorção do desejo do sonho que existe no inconsciente.

A condensação é um aspecto invariável dos sonhos. Por mais curto que seja o sonho, os pensamentos latentes que ele contém estendem-se amplamente e muitos pensamentos e desejos, às vezes contraditórios, estão contidos no sonho como um todo e em seus vários elementos. Trata-se de vários fios associativos que se originam de diferentes impulsos e tendências de pensamentos que convergem e são expressos num elemento condensado.

A representação indireta pode ocorrer de várias formas: por semelhança, pela posse de um atributo comum, pelo uso de uma parte pelo todo, por oposição, por conexão verbal, etc.. Cada sonhador tem um estilo próprio e o estilo em si revela sua personalidade, reflete a ampla combinação de relações objetais, ansiedades e defesas que molda a personalidade de alguém. Todos os diversos métodos de representação de uma idéia no sonho constituem o trabalho onírico. No trabalho do compositor também há representação indireta, vejamos os seus últimos versos: “A Leopoldina virou trem e D. Pedro é uma estação também” (representação indireta pela posse de um atributo comum, o mesmo nome).

Há outro fator que encobre o pensamento onírico e opera depois que o indivíduo acorda: a distorção na recordação efetiva do sonho quando o indivíduo está desperto, a elaboração secundária. À medida que recordamos, distorcemos o sonho. Essa elaboração secundária é a continuação da repressão dos pensamentos latentes do sonho. Freud também descreve quão intolerável é para a nossa mente desperta a falta de lógica, o caos e a desordem. Por isso racionalizamos para fazer sentido aos nossos sonhos. Essa necessidade de construir uma história lógica é muito semelhante à resistência contra pensamentos inconscientes latentes do sonho. O crioulo tenta fazer do seu devaneio, uma história que tem começo, meio e fim; embora os fatos históricos estejam misturados, não apenas na ordem cronológica dos acontecimentos, mas também pela não conexão dos personagens.

Freud considerou três tipos de sonho:

  1. Sonhos não disfarçados de satisfação de desejo, característicos de criança;
  2. Sonhos que envolvem trabalho onírico e a satisfação disfarçada de desejos inconscientes;
  3. Sonhos que parecem se opor à teoria da satisfação de desejo, ou seja, sonhos de ansiedade e punição. Os sonhos de ansiedade são uma tentativa de disfarce que não foi bem sucedida, o ego responde com ansiedade e acorda o sonhador. Quanto aos sonhos de punição, Freud nos lembra que os sonhos são o resultado de diversos compromissos entre o censor e os desejos, e nos últimos, é o censor que tem vantagem.

O ato falho* é outra formação de compromisso entre a intenção consciente do indivíduo e o recalcado, bastando lembrar o que Freud nos fala em seu texto, Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901): é, num outro plano, um ato bem sucedido; o desejo inconsciente realiza-se nele de uma forma muitas vezes muito manifesta. A expressão “ato falhado” traduz a palavra alemã fehlleistung, que engloba não apenas ações strito sensu, mas toda a espécie de erros, de lapsos na palavra e no funcionamento psíquico (*ato em que o resultado explicitamente visado não é atingido, antes se acha substituído por outro. Fala-se de atos falhados, não para designar o conjunto das falhas da palavra, da memória e da ação, mas para os comportamentos em o indivíduo é habitualmente capaz de obter êxito, e cujo fracasso é tentado a atribuir apenas à sua falta de atenção ou ao acaso. Freud demonstrou que os atos falhados eram, tal como os sintomas, formação de compromisso entre a intenção consciente do indivíduo e o recalcado).  No verso em que o compositor comete um ato falho: “Da união deles dois ficou resolvida a questão e foi proclamada a escravidão”; onde troca a palavra abolição por escravidão, ele estava querendo dizer da sua condição de ter que se submeter aos delírios de uma comissão julgadora que impôs um tema tão difícil para um samba enredo de escola de samba.

O chiste (1905) também é uma formação do Inconsciente, colocando-se como uma formação de compromisso. Porém no chiste ocorre um drible interessante, não se fala sobre o que é reprimido, substituindo por outra palavra que dá outro sentido. Na formação do chiste ocorrem processos de condensação, com ou sem a formação de substitutivos, de representação pelo nonsense ou pelo oposto, de representação indireta, mostrando uma concordância muito abrangente com os processos de elaboração onírica. Para a existência do chiste há a necessidade de se ter três pessoas: o locutor, que produz o chiste; a pessoa de quem se fala, ou melhor, de quem se ridiculariza; e o cúmplice do primeiro, quem ouve, identifica e compartilha da mesma linguagem que o locutor. No samba do crioulo doido, o sambista é o locutor, quem faz a história do Brasil virar um chiste; os personagens da nossa história são os ridicularizados, tentando-se ridicularizar também uma instituição, o regulamento da comissão julgadora; e nós que ouvimos a música, identificamos, compartilhamos da linguagem do compositor, somos os cúmplices.

 Enquanto o sonho é a expressão da realização de um desejo e de uma evitação do desprazer, que leva a uma regressão para o pensamento em imagens, o chiste é produtor de prazer. Recorre-se aos mecanismos de condensação e deslocamento, caracteriza-se, antes de tudo, pelo exercício da função lúdica da linguagem, cujo primeiro estádio seria a brincadeira infantil e o segundo, o gracejo. Dentre os diferentes Witze, Freud distingue os inofensivos dos tendenciosos, tendo estes por móbil a agressividade, a obscenidade ou o cinismo. Além desses, existe um quarto móbil, mais terrível que o outro três: o ceticismo. Os chistes desse registro empregam o contra-senso e atacam não uma pessoa ou uma instituição, mas a certeza do juízo. Mentem quando dizem a verdade e dizem a verdade através da mentira. No samba o compositor usa do cinismo para atacar uma instituição, o regulamento da comissão julgadora a qual tinha que se submeter.  

Não foi à toa que o meu inconsciente pinçou na minha memória esse samba para tentar articular estes conceitos; primeiro como Freud e Lacan, gosto muito de chistes, talvez por me remeter às brincadeiras infantis e por gostar de gracejos; segundo, que enquanto representantes de uma instituição, os professores que fizeram esta proposta de trabalho, como falei no início, estavam, provavelmente, com o pensamento em alunos de quarto ano, talvez por isso a exigência que  teríamos que assimilar em tão pouco tempo conceitos que ainda necessitavam ser digeridos.

Continuação da publicação anterior, por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.  Ainda teremos uma terceira parte, onde incluirei as referências bibliográficas.

Comentários desativados em Samba do Crioulo Doido – segunda parte

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SAMBA DO CRIOULO DOIDO

UMA TENTATIVA DE ARTICULAR OS CONCEITOS DE PULSÃO DE MORTE, DESEJO, INCONSCIENTE E FORMAÇÕES DO INCONSCIENTE

 

         Quando li a biografia de Sigmund Freud e constatei que em apenas oito meses foi nos dado ler e assimilar uma teoria que se inicia em 1885, desde a estada de Freud em Paris em companhia de Charcot, a 1920 com o texto “Além do Princípio do Prazer” e da descoberta do conceito de compulsão à repetição, pensei: “vou endoidar fazendo esse trabalho!” Minha memória pinçou de algum arquivo remoto o “Samba do Crioulo Doido”. Um compositor que por vários anos seguiu o regulamento e só fez samba sobre a história do Brasil: Inconfidência Mineira, Abolição, Proclamação da República, Xica da Silva.. E o coitado do crioulo teve que aprender tudo isto para o enredo da escola. Até que em determinado ano escolheram um tema complicado: “Atual Conjuntura” * (*1-situação nascida dum encontro de circunstâncias e considerada como um ponto de partida de uma evolução, uma ação, um fato; 2-lance difícil).  Ah! Aí o crioulo endoidou de vez!

         Assim estava eu, tentando articular um conjunto de conceitos importantes que Freud, considerado um gênio, levou 35 anos para criá-los, a partir de observações clínicas e trocas teóricas com seus amigos médicos e discípulos: levantando hipóteses sobre o que esteve presenciando e que tipo de pistas o levou a formular estas ou aquelas proposições, como só uma mente científica e original poderia chegar a tais conclusões. E, mais tarde, até reformular ou refutá-las, porque a prática clínica ia lhe mostrando outros aspectos que não havia percebido, ou sobre os quais não havia pensado. Sentia-me como o sambista da música que estudou conceitos separados e que agora teria que articulá-los. Esperava não entrar em delírios e poder cumprir o meu papel de aprendiz. Porque convenhamos é “um lance difícil”, “um ponto de partida de uma evolução” que leva muito mais tempo do que apenas oito meses.

Embarquei na viagem de Freud e comecei com a sua primeira descoberta, na sua permanência no Hospice de La Salpêtrière com Charcot, os sintomas* histéricos. (*Symptombildung = Sintoma – expressão utilizada para designar o fato de o sintoma psiconeurótico ser resultado de um processo especial, de uma elaboração psíquica, o retorno do recalcado).

         Charcot se afastou do estudo das doenças nervosas que se baseavam em alterações orgânicas e estava se dedicando exclusivamente à pesquisa das neuroses, especialmente da histeria. Freud investigou os ataques histéricos segundo um critério diferente do descritivo. Para ele, o ponto central de um ataque histérico é uma lembrança, a revivência alucinatória de uma cena que é significativa para o desencadeamento da doença. Com grande freqüência é algum fato da infância que estabelece um sintoma, mais ou menos grave, que persiste durante os anos subsequentes.  O conteúdo da lembrança geralmente é ou um trauma* psíquico que, por sua intensidade, é capaz de provocar a irrupção da histeria no paciente, ou é um evento, que devido a sua ocorrência em momento particular, tornou-se um trauma. (*Trauma = acontecimento da vida do indivíduo que se define pela sua intensidade, pela incapacidade em que se acha o indivíduo de lhe responder de forma adequada, pelo transtorno e pelos efeitos patogênicos duradouros que provoca na organização psíquica. Em termos econômicos, o traumatismo caracteriza-se por um afluxo de excitações que é excessivo, relativamente à tolerância do indivíduo e à sua capacidade de dominar e de elaborar psiquicamente estas excitações).    Foi o que ocorreu com o nosso sambista, acostumado a pesquisar sobre um único tema, quando lhe pedem um conjunto de circunstâncias atuais, um ponto de partida de uma evolução, ou seja, uma articulação, as excitações invadem o seu psiquismo, misturando os fatos e apresentando-os como se estivesse delirando ou sonhando.

         Sintomas: nevralgias, anestesias, contraturas, paralisias, ataques histéricos e convulsões epileptóides, petit mal, vômitos crônicos e anorexia, perturbação da visão, alucinações visuais. Pode haver uma relação simbólica* entre a causa precipitante e o fenômeno patológico; uma relação do tipo que as pessoas saudáveis formam nos sonhos. (*symbolik – simbolismo = em sentido lato, modo de representação indireta e figurada de uma idéia, de um conflito, de um desejo inconsciente: neste sentido, podemos em psicanálise considerar qualquer formação substitutiva. Em sentido restrito, modo de representação que se distingue principalmente pela constância da relação entre o símbolo e o simbolizado inconsciente; essa constância encontra-se, não apenas no mesmo indivíduo e de um indivíduo para outro, mas nos domínios mais diversos – mito, religião, folclore, linguagem, etc. – e nas áreas culturais mais distantes entre si).

         Na neurose traumática a causa atuante da doença não é o dano físico insignificante, mas o afeto do susto, o trauma psíquico. Na histeria comum não é rara a ocorrência de vários traumas parciais que forma um grupo de causas desencadeadoras (a sobredeterminação do sintoma).

         Cada sintoma histérico individual desaparecia, de forma imediata e permanente, quando se conseguia trazer à luz com clareza a lembrança do fato que o havia provocado e despertar o afeto que o acompanhara, e quando o paciente havia descrito esse fato com o maior número de detalhes possível e traduzido o afeto em palavras – os histéricos sofrem principalmente de reminiscências. O esquecimento das lembranças é intencional e desejado e seu êxito é aparente. As experiências que desempenharam um papel patogênico importante são retidas com exatidão na memória do paciente, mesmo quando parecem ter sido esquecidas; quando ele é incapaz de relembrá-las.

         O uso da linguagem passa a ter uma relevância já nessa época, chamando a atenção para algumas expressões como: desabafar pelo pranto, desabafar através de cólera, esvair-se em cólera. Quando a reação é reprimida, o afeto permanece vinculado à lembrança. A linguagem serve de substituto para a ação; com a sua ajuda um afeto pode ser ab-reagido quase com a mesma eficácia. Uma pessoa normal é capaz de provocar o desaparecimento do afeto concomitante por meio do processo de associação. No samba, o compositor faz desaparecer os afetos gerados pela submissão, usando uma linguagem figurada, criando chistes.

         Parece que essas lembranças correspondem a traumas que não foram suficientemente ab-reagidos, e se penetramos mais fundo nos motivos que impediram isso, encontraremos pelo menos dois grupos de condições sob as quais a reação ao trauma deixa de ocorrer. No primeiro grupo em que os pacientes não reagiram a um trauma psíquico porque a natureza do trauma não comportava reação. Ex. perda de um ente querido; delírios histéricos de mulheres que guardam a castidade e de crianças bem educadas. No segundo grupo é determinado não pelo conteúdo das lembranças, mas pelos estados psíquicos em que o paciente recebeu as experiências em questão.

         Por debaixo dos sintomas histéricos, ou psiconeuróticos, Freud descobre que existe um conflito psíquico, que mantém o afeto* e as representações não ab-reagidas quietas, uma incompatibilidade entre um afeto e uma idéia, a moralidade versus o erótico por exemplo. (*affekt – afeto = termo que a psicanálise foi buscar da terminologia psicológica alemã e que exprime qualquer estado afetivo penoso ou agradável, vago ou qualificado, quer se apresente sob a forma de uma descarga maciça, quer como tonalidade geral. Segundo Freud, toda a pulsão se exprime nos dois registros do afeto e da representação. O afeto é a expressão qualitativa da quantidade de energia pulsional e das suas variações.) Por isso os psiconeuróticos necessitam recalcar* suas lembranças que tanto os incomodam, criando uma barreira ao redor destes corpos estranhos para se defender da dor psíquica que seria mobilizada pela sua ativação, uma formação de compromisso. (*verdrängung – recalcamento ou recalque = no sentido próprio: operação pela qual o indivíduo procura repelir ou manter no inconsciente, representação – pensamentos, imagens, recordações – ligadas a uma pulsão. O recalcamento produz-se nos casos em que a satisfação de uma pulsão – susceptível de por si mesma proporciona prazer – ameaçaria provocar desprazer relativamente a outras exigências. Pode ser considerado um processo psíquico universal na medida em que estaria na origem da constituição do Inconsciente como domínio separado do resto do psiquismo).

                O sintoma psiconeurótico é uma falsa conexão, é uma tentativa de ligar, mesmo sendo uma defesa, uma formação de compromisso*. (*kompromissbildung – formação de compromisso = forma que o recalcado vai buscar para ser admitido no consciente. Retornando no sintoma, no sonho, e, mais geralmente, em qualquer produção do inconsciente: as representações recalcadas são então deformadas pela defesa ao ponto de serem irreconhecíveis. Na mesma formação podem assim satisfazer-se – num mesmo compromisso – simultaneamente o desejo inconsciente e as exigências defensivas). Na tentativa de se defender da dor psíquica, como o afeto ligado á representação não pode ser eliminado, o eu transforma essa representação poderosa numa representação fraca, retirando-lhe o afeto, a soma da excitação, catexia, do qual está carregada. A representação fraca não tem nenhuma exigência a fazer ao trabalho da associação. Mas a soma de excitação desvinculada dela tem que ser utilizada de alguma outra forma.

         Na histeria a representação incompatível é tornada inócua pela transformação de sua soma de excitação em alguma coisa somática; Freud propõe o nome a este fenômeno de conversão. E diz que o fator característico da histeria não é a divisão da consciência. Mas a capacidade de conversão, como parte importante da predisposição para a histeria; uma aptidão psicofísica para transpor enormes somas de excitação para inervação somática.

         A representação enfraquecida persiste na consciência separada de qualquer associação. Mas seu afeto, livre, liga-se a outras representações que não são incompatíveis em si mesmas e graças a essa falsa ligação tais representações se transformam em representações obsessivas. A vida sexual traz em si as mais numerosas oportunidades para o surgimento de representações incompatíveis. A obsessão representa um substituto ou sucedâneo da representação sexual incompatível, tendo tomado seu lugar na consciência para depois reprimir. As representações obsessivas e as representações sexuais de caráter aflitivo ocorrem simultaneamente.

         A angústia liberada cuja origem sexual não deve ser lembrada pelo paciente irá apoderar-se das fobias primárias comuns da espécie humana, relacionadas com animais, tempestades, escuridão, ou de coisas associadas com o que é sexual: micção, defecação, a sujeira e o contágio.

         Há uma espécie de defesa muito mais poderosa e bem sucedida; nela, o eu rejeita a representação incompatível justamente com o seu afeto e se comporta como se a representação jamais lhe tivesse ocorrido. Porém a partir do momento em que isso é conseguido, o sujeito fica numa psicose que só pode ser qualificada como “confusão alucinatória”. O eu rompe com a representação incompatível, esta fica inseparavelmente ligada a um fragmento da realidade, à medida que o eu obtém esse resultado, ele se desliga total ou parcialmente da realidade. O que aconteceu com o compositor, o crioulo doido. Vejamos alguns versos de seu samba: “Foi em Diamantina, onde nasceu J.K., que a princesa Leopoldina arresolveu se casar. Mas Xica da Silva, tinha outros pretendentes, e obrigou a princesa a se casar com Tiradentes.” Ele mistura acontecimentos mais atuais com antigos, troca a hierarquia dos personagens e subverte fatos históricos.

         Freud declara que a teoria do recalcamento, ou defesa, para dar-lhe um nome alternativo, é a pedra angular sobre qual repousa toda a estrutura da psicanálise. (1894)

Então em 1895, Freud, perguntando-se sobre o recalcamento, os sintomas e os conflitos psíquicos, escreve o Projeto para uma Psicologia Científica. Segundo o que foi dito na aula do professor Durval, apresenta duas razões na formulação de uma teoria científica, que dará o nome de Metapsicologia* (*palavra que designa uma nova psicologia que privilegia os processos psíquicos que se davam fora da consciência.):

  • Primeira tentativa de Freud, em reunir certo saber no campo simbólico, da linguagem; como se poderia pensar a respeito do sintoma nervoso na época – aparelho psíquico, primeira tópica (Inconsciente, Pré-Consciente, Consciente).
  • Esforço freudiano em desenvolver aspectos que pudessem dar conta dos conceitos de sintoma, ato falho, recalque; vínculo com algo da representação que está fora da associabilidade, da ordem do esquecido. Freud começa a falar que o esquecido não quer dizer ineficiente é algo que faz o sujeito sofrer. Se um terapeuta consegue que o sujeito fale sobre o sofrimento, ele consegue fazer com que este sintoma desapareça; o que Freud denomina de método catártico (que produz uma catarse junto à palavra, se descarrega).

O inconsciente, neste momento, era formado por núcleos traumáticos e o objetivo específico do processo terapêutico era resgatar estas reminiscências e trazê-las à consciência. Sob a influência da medicina, Freud utilizava os seus conhecimentos, para explicar de um modo genético o funcionamento do cérebro de uma pessoa normal. Usava a unidade anatômica cerebral, os neurônios e seus processos dendríticos e axônicos e formulava a hipótese de uma quantidade circulando neles e nas comunicações entre eles. Utilizava o modelo do arco reflexo, onde o estímulo que entrava não tinha dificuldade de ser escoado totalmente. Porém este modelo era incompatível com a condição de vida biológica e do aparelho cerebral. O modelo de um aparelho que funcionasse como um neurônio com sua inércia de repouso seria incompatível face às exigências do processo vital.

Em 06/12/1896, na carta 52 escrita à Fliess, Freud modifica o modo de funcionamento do aparelho psíquico, apresentando uma característica menos neurológica e mais psíquica. O aparelho psíquico se gera por estratificação; há uma gênese, essa não é inata. Há a possibilidade de perceber, registrar, armazenar, mas vamos construindo-o, de tempos em tempos sofre rearranjos da estratificação. O material presente em traços de memória estaria sujeito a uma retranscrição. Essas retranscrições seriam as representações que ele divide em três tipos:

  • W – neurônios em que se originam as percepções;
  • Wz – indicação da percepção, visto como primeiro registro; incapaz de assomar à consciência e se dispõe conforme as associações por simultaneidade;
  • Ub – (inconsciência) é o segundo registro, lembranças conceituais, sem acesso a consciência; processo primário* (* do ponto de vista tópico – caracteriza o sistema inconsciente; do ponto de vista econômico- dinâmico – a energia psíquica escoa-se livremente, passando sem barreiras de uma representação para outra segundo os mecanismos de deslocamento e de condensação; tende a reinvestir plenamente as representações ligadas à vivências de satisfação constitutivas do desejo – alucinação primitiva).
  • Vb – (pré-conciência) terceira transcrição, ligada às representações verbais e correspondendo ao nosso ego, reconhecido como tal; processo secundário* ( *do ponto de vista tópico – caracteriza o sistema pré-consciente – consciente; do ponto de vista econômico-dinâmico – a energia começa por estar “ ligada”  antes de se escoar de forma controlada; as representações são investidas de uma maneira mais estável, a satisfação é adiada, permitindo assim experiências mentais que põem à prova os diferentes caminhos possíveis da satisfação).

         As catexias provenientes de Vb tornam-se conscientes de acordo com determinadas regras; essa consciência secundária do pensamento é posterior no tempo e se liga à ativação alucinatória das representações verbais, os neurônios da consciência seriam também os da percepção e destituídos de memória.

Continua na próxima edição, próxima semana…

By: Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

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“Não Seio, Logo Penso!”

… “durante o sonho o inconsciente não pode oferecer nada mais que a força pulsionante para um cumprimento de desejo?”

         … “toda a complexa atividade de pensamento que se desenrola desde a imagem mnêmica até o estabelecimento da identidade por obra do mundo exterior não é outra coisa  que um rodeio para o cumprimento de desejo, rodeio que a experiência tornou necessário. Portanto, o pensar não é senão o substituto do desejo alucinatório”…

         “Não seio, logo penso!”*

         Filogeneticamente o homem perdeu os instintos que estão inscritos nos animais, sendo estes substituídos por um circuito pulsional, necessitando de um objeto externo que o protegesse dessa pressão constante, a força pulsional. Como o objeto não dá conta, a mãe não é onipresente, o indivíduo é obrigado a construir uma malha que o proteja da invasão pulsional, construindo o aparelho psíquico, o aparelho representacional, que são as primeiras vivências que terá com o objeto, experiências representadas.

         O bebê faminto grita ou dá pontapés, mas a situação permanece a mesma, pois a excitação proveniente de uma necessidade interna não se deve a uma força que produza um impacto momentâneo, mas a uma força que está continuamente em ação. Só pode haver mudança, através do auxílio externo, chega-se a uma vivência de satisfação que põe fim ao estímulo interno. Um componente essencial dessa vivência de satisfação é uma percepção específica (a nutrição) cuja a imagem mnêmica fica associada, ao traço mnêmico da excitação produzida pela necessidade. Em decorrência do vínculo assim estabelecido, na próxima vez em que essa necessidade for despertada, surgirá de imediato uma moção psíquica que procurará recatexizar a imagem mnêmica da percepção e reevocar a própria percepção, restabelecendo a situação da satisfação original. Uma moção dessa espécie é chamada de desejo (arranca do desprazer e aponta para o prazer); o reaparecimento da percepção é a realização do desejo, e o caminho mais curto para essa realização é a via que conduz diretamente da excitação produzida pela necessidade para uma completa catexia da percepção, a alucinação. O objetivo dessa primeira atividade psíquica é produzir uma identidade perceptiva (algo perceptivamente idêntico à vivência de satisfação) _ uma repetição da percepção vinculada à satisfação da necessidade.

         Para Fecher, a cena de ação dos sonhos é diferente da cena da idéia representacional de vigília, principalmente ao que concerne a localização psíquica, correspondendo a um ponto no aparelho psíquico em que se produz um dos estágios preliminares da imagem.

         O aparelho psíquico é um instrumento composto, a cujos componentes dá-se o nome de instâncias ou sistemas, os quais têm um sentido, uma direção, parte de estímulos (internos ou externos) e termina em inervações; um processo que tende à descarga.

         O aparelho tem uma extremidade sensorial e uma extremidade motora, na primeira recebe as percepções; na segunda abre as comportas da atividade motora. Uma primeira diferenciação na extremidade sensorial permanece no aparelho psíquico, um traço das percepções que incidem sobre ele, traços mnêmicos.

         Nossas percepções acham-se mutuamente ligadas em nossa memória segundo a simultaneidade da sua ocorrência, associação. A associação consistiria no fato de que, em decorrência de uma diminuição das resistências e do estabelecimento de vias de facilitação, a excitação é mais prontamente transmitida de um primeiro elemento mnêmico, para um segundo do que para um terceiro. Assim conforme as primeiras experiências vão marcando o aparelho, vão se conectando e nos ensinando a descobrir maneiras de realizar os nossos desejos e simultaneamente vamos aprendendo a pensar.

         O último dos sistemas localizados na extremidade motora é o pré-consciente, indicando que os processos excitatórios nele ocorridos podem penetrar na consciência sem maiores empecilhos, desde que certas condições sejam satisfeitas: por exemplo, que eles atinjam certo grau de intensidade, que a função que só pode descrever como atenção esteja distribuída de uma maneira. Também é o sistema que detém a chave do movimento voluntário. O sistema que está por trás dele é o inconsciente, pois não tem acesso à consciência senão através do pré-consciente, ao passar pelo qual seu processo excitatório é obrigado a submeter-se a modificações.

         O impulso para a formação dos sonhos está no sistema Inconsciente, ligando-se a pensamentos oníricos pertencentes ao sistema Pré-Consciente, quando se considera apenas o desejo onírico, descobre-se que a força propulsora da formação dos sonhos é fornecida pelo inconsciente.

         A excitação se move em direção retrocedente em vez de propagar para a extremidade motora do aparelho, ela se movimenta no sentindo da extremidade sensorial e por fim, atinge o sistema perceptivo, dando aos sonhos um caráter regressivo.

         Durante o dia há uma corrente contínua que flui do sistema psíquico das percepções em direção à atividade motora, essa corrente cessa a noite e não constitui obstáculo a uma corrente de excitação que flua em sentido oposto, a exclusão do mundo exterior.

         A idéia de que a razão porque os sonhos são invariavelmente realizações de desejos é que eles são produtos do sistema Inconsciente. Atividade que não conhece outro objetivo senão a realização de desejos e não tem sob seu comando outras forças senão as moções de desejo.

O desejo que é representado num sonho tem que ser um desejo infantil, que se origina do Inconsciente, e trata-se de um desejo não realizado e não recalcado da vida de vigília. O sonho é um ressurgimento da vida anímica infantil já suplantada; o sonho é a realização alucinatória de um desejo sexual infantil reprimido; só o desejo pode colocar nosso aparelho anímico em ação. Assim, o pensamento não passa do substituto de um desejo alucinatório, ou seja, “não seio, logo penso!”

* Frase dita pelo professor Ede de Oliveira.

 Por: Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

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