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FOBIAS, MEDOS, ANGÚSTIA DE ANIQUILAMENTO, E ANGÚSTIAS IMPENSÁVEIS. Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

INTRODUÇÃO

“Quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, convence-se de que os mortais não conseguem guardar segredos. Se os lábios estão mudos, eles tagarelam com as pontas dos dedos; a traição força seu caminho por todos os poros.” Freud (apud Peter Gay, 1989, pág. 17).

Quem observa um fóbico vê a angústia escapulindo pelo seu corpo através do suor, ou da manipulação constante das mãos, ou da movimentação das pernas que não conseguem parar quietas, ou da preparação do corpo para uma fuga imediata de algo que o ameaça ou ainda por tremores, gagueira, perda da fala, deslocamento para um objeto, corpo rígido, etc..
Quando ainda não havia feito a minha formação em psicanálise, mas já me interessava pelo assunto, li alguns livros que falavam dos medos, fobias e angústias de sujeitos que pareciam revelar um sofrimento constante. Um destes livros foi “Medo da Vida” de Alexander Lowen (1980), que nos descreve vários relatos de casos para ilustrar os tipos de medos que para ele fazem parte do enfrentamento da vida: medo de viver e de morrer; medo do fracasso; medo do sucesso; medo do sexo; medo da insanidade; etc.. Todas as descrições destes medos são fundamentadas com teorias psicanalíticas que demonstravam as angústias presenciadas pelo autor e vividas pelos pacientes. Assim, para ele não havia muita diferença entre medo e angústia.
Durante a minha formação e depois da mesma, li muitos outros autores que não distinguem muito bem a diferença entre os termos, mas que acredito não ser muito relevante na nossa área, já o que importa é o sofrimento humano e como cuidar do mesmo, e não dar “nome aos bois”. No entanto, pretendo contribuir com àqueles que têm alguma dificuldade com estes conceitos, porque na história do estudo psicanalítico da fobia nos deparamos com um quadro complexo, através da pesquisa feita em vários dicionários de psicanálise, bem como livros que abordam o assunto, conforme segue abaixo.

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Autismo e Psicose Infantil – terceira parte.

Regressão ao Estado de Autismo Secundário (A.S.R.)

 

            Há certas situações patológicas em que a criança denota ter-se desenvolvido psicologicamente, embora sobre uma base bem precária, fato que se deve à circunstância de que grande parte de sua personalidade permaneceu autística, portanto fora da esfera de influência dos que cuidam dela, mas a quem reconhece como entes com limites corporais próprios. Essa situação ocorre quando a mãe lhe responde com demasiada adaptabilidade e de uma forma sedutora, o que nem sempre por isso quer dizer que a criança não se mostre extremamente passiva e pouco dada a integrar-se, fazendo o “bebê bom demais” que encontramos nas histórias clínicas. O tempo acabará provando que essa mútua adaptação não é tão boa como parecia, ou seja, que não há bebê nem mãe “modelos” e que a relação existente entre ambos é artificial. A criança deixará de se desenvolver na áreas da personalidade em que tinha progredido um pouco e seguirá um movimento regressivo. As fantasias, que geralmente indicam certo grau de desenvolvimento psicológico, serão preservadas e como que arrastadas para o modo autístico de funcionamento, centrado nas sensações.

A avaliação do aspecto fantasia do funcionamento mental da criança é forma bastante segura de estabelecer o diagnóstico diferencial entre o autismo regressivo e o autismo secundário encapsulado ,no primeiro ela cai num fantasiar que está intimamente ligado às sensações corporais; no segundo, ela pouco fantasia.

Bleuler (1913) descreveu um quadro de autismo com uma vida de fantasia muito primitiva e considerou-o típico da esquizofrenia do adulto, o que parece ser suficiente para justificar a idéia de que devemos reservar o termo esquizofrenia infantil para as crianças com autismo regressivo. A esquizofrenia do adulto e o autismo regressivo teriam em comum o seguinte:

  • a existência de fantasias,
  • uma interrupção do desenvolvimento psicológico que parecia seguir um curso normal.

 

Comparação entre A.S.R., A.S.E. e A.P.A.

 

Já foi dito que o autismo secundário regressivo (A.S.R.) se associa habitualmente à esquizofrenia infantil e o autismo secundário encapsulado (A.S.E.) à síndrome psicótica designada por autismo da infância primitiva.

Os processos de encapsulamento do A.S.E. não são mais do que uma intensificação dos processos de envolvimento extrusivo e intrusivo que fazem parte da maneira como a mente normal funciona, ao passo que aquilo que se observa no A.S.R., é um exagero dos processos que Melaine Klein designou por identificação projetiva. E que definiu assim (Klein, 1963, pág. 58): “A identificação por projeção implica uma combinação de divisão de partes do eu e de sua projeção sobre (ou melhor, dentro de) outra pessoa”.

Parte da dificuldade de entender esse conceito reside na confusão existente entre sujeito e objeto. O que está em jogo é uma espécie de reciprocidade empática em que a comunicação se faz através de certos canais, como o tom de voz, a tensão muscular, a expressão facial, a postura e o comportamento, todos eles meios de comunicação não-verbal que nos dão a possibilidade de sentirmos no lugar do próximo e nos entendermos uns aos outros. Quando os diversos aspectos do eu se fragmentam, em minúsculos pedaços espalhados por todo o lado e dispersos em vários depósitos independentes, podemos afirmar que esses processos passaram a ser patológicos. O grau de dispersão dos aspectos que foram banidos do eu, ajudará a estabelecer um prognóstico para o tratamento psicoterapêutico dessas crianças.

Winnicott (1958), se refere a uma situação de “dupla dependência” durante a infância primitiva, advertindo-nos de que “a noção de troca se baseia em ilusão”.

Uma das impressões que as crianças com A.P.A. deixam no observador, é que são incapazes de estabelecer diferenças como qualquer criança normal, ou que o fazem apenas de modo fragmentado, porque as mães impediram.

As criaanças com A.S.E. dão a impressão de se terem embrulhado em si mesmas, estão “completamente absortas em si mesmas” e que vivenciam os objetos externos como se estes fizessem parte do corpo, o que representa uma tentativa de enfrentar o traumatismo oral da perda da unidade primitiva com a mãe.

As crianças com A.S.R. conseguem diferenciar-se da mãe de forma precária, para voltarem a estar “absortas na mãe” quando o dito traumatismo prova ser excessivo para elas.

No desenvolvimento cognitivo: as crianças com A.P.A. têm “ilhas”, as crianças com A.S.E. denotam inibição do pensar que vem do fato de negarem a existência do mundo fora de si e as que têm A.S.R. pensam desintegradas e confusamente como resultado da divisão de aspectos do eu que confundem com aspectos que pertencem aos outros.

Na relação mãe-filho: a criança com A.P.A. estbelece pouca diferença entre si (seu corpo) e a mãe, a que tem A.S.E. transforma a mãe em um “nada” ou em um absurdo, e no A.S.R. a criança sente que a mãe é uma “misturada”.

A fala tanto pode ser muito limitada a uma “algaravia” no A.P.A.; não existir de todo (mudez), ou ser como um eco nas crianças com A.S.E., que às vezes se apresentam como uma espécie de linguagem privativa ( seja como for, quando elas chegam a falar fazem-no muito mais para aliviar a tensão do que para comunicar); e ser indistinta e mal organizada, ou então prolixa e confusa, no A.S.R.

As crianças com A.S.R. movem-se frequentemente de forma tosca e pesada que contrasta com a maneira ágil, graciosa e leve das que apresentam autismo da infância primitiva, o que é o mesmo que dizer que lhes falta a qualidade etérea destas últimas; quando olham para as pessoas parecem transpassá-las mais do que contemplá-las, assemelhando-se a uma pessoa muito idosa, já incapaz de focalizar os olhos enevoados, o que é um pouco diferente do que acontece com as crianças com A.S.E., as quais evitam completamente “olhar para”.

Experiências ulteriores realizadas por Tustin levaram-na a constatar que o autismo regressivo apresenta dois tipos de quadros diferentes, a que ela chamou de A.S.R. (1) e A.S.R. (2), respectivamente. Os primeiros estádios do autismo secundário regressivo são exatamente os mesmos que habitualmente levam ao autismo secundário encapsulado: quando confrontado com o fato de que é um ente separado da mãe, o bebê passa a distinguir entre o “eu” e o “não-eu”- “conhecido”e “desconhecido”- “familiar”e “estranho”. Por numerosas razões, o “não-eu”, desconhecido, estranho, é demasiaddo aterrador para ser tolerado. Para lidar com essa situação, usará diversos meios: o encapsulamento no A.S.E. – o que significa que o estado de separação é algo que foi completamente banido da esfera consciente; a dispersão de pedaços de si mesmo pelos (pedaços) dos objetos externos que passam a ser usados como uma espécie de dispositivo de segurança no A.S.R. – o que significa que aquilo de que a criança vai se defender, é de estar vagamente consciente de seu estado de separação. Se essa dispersão não for demasiado fragmentadora ou não tiver sido ativa por muito tempo, estaremos perante um quadro de A.S.R. (1). Essa forma de autismo incide em crianças pequenas e é tratável por psicoterapia. Se, a criança não for tratada, chegará a um estado de deterioração psicológica – sequela natural do processo de dispersão contra que o encapsulamento não é medida protetora adequada – que caracteriza o quadro de A.S. R. (2). ( as curas espontâneas, possíveis no caso do A.S.E., já não o serão no do A.S.R. (2), porque a mencionada deterioração vai tornar-se rapidamente irreversível.)

Tustin faz uma analogia na comunicação entre crianças considerdas psicóticas e ao depararmos com um estrangeiro cuja língua é para nós desconhecida. Temos a sensação delirante que se gritarmos o estrangeiro poderá nos entender. Ela diz: “se quisermos que a comunicação aconteça entre nós (terapeutas e essas crianças), teremos que aprender sua “língua”e entrar, tanto quanto humanamente possível, no mundo que elas vivem. Ou, nas palavras de Bion, teremos que ser capazes de “sonhar acordados”(reverie).

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“Autismo e Psicose Infantil”- segunda parte

Os Objetos Autísticos

            Os objetos autísticos consistem em:

  • partes do corpo da própria criança, ou
  • partes do mundo externo, por ela experimentadas como partes de si mesma.

O conceito de objeto transcional, formulado por Winnicott em 1958, é extremamente importante, mas a autora, Tustin, não acha que a diferença entre ele e o objeto autístico já tenha sido claramente definida, ou que Winnicott não a delineou como ela a entende: chama de objeto autístico, em sentido lato, todo aquele que é completamente experimentado como “eu”, e de objeto transcional aquele que conjuga em si um misto de “eu”e “não eu”- fato de que a criança só muito vagamente se dá conta – ou usando as palavras de Winicott, “o primeiro “não-eu”de que a criança toma posse”.

Para a criança, o objeto transicional é algo que ela distingue do próprio corpo, o que não faz com o objeto autístico, cuja função consiste exatamente em neutralizar toda e qualquer percepção da existência – demasiado intolerável e ameaçadora – de um “não-eu”. Não se deve esquecer que os objetos autístico e transicional podem como que se interpenetrar, muito embora também sejam distintos, e seja útil tentar diferenciá-los. Será talvez preferível dizer que alguns objetos transicionais são mais autísticos do que outros.

A maioria dos objetos do mundo externo serão imbuídos das características de objetos autísticos, se ancorarão, total e inseparavelmente, no “eu”, não deixando que as experiências transicionais se desenvolvam satisfatoriamanete. Isso quer dizer que a criança não fará grande uso das palavras ou repetirá em eco as dos outros – sua forma de preservar a idéia delirante de que as palavras “não-eu” fazem parte de sua boca, transformando-se por isso em “eu”. Há também o não-uso das faculdades cognitivas, para evitar o reconhecimento da existência do “não-eu”.

A necessidade de controlar os outros e as coisas em volta, que essas crianças demonstram, parece ser sem dúvida alguma à insegurança que lhes brota de um sentimento interno de separação (estar separada da mãe).

Se as ilusões primárias forem postas em causa demasiado cedo, o bebê tenderá a canalizar toda a sua energia para a procura das gratificações autísticas que lhe foram insuficientes da mesma forma que, se o mamilo permanecer em estado de objeto autístico, se tornará terrivelmente doloroso ter que desistir dele. O bebê persistirá em lançar mão de objetos autísticos anormais, de forma nem sempre muito evidente, e passará a chupar a própria língua ou a parte de dentro das bochechas, a contrair o ânus para reter as fezes, a fazer bolhas com a saliva ou a se agarrar – quase a se colar – a um objeto externo de sua escolha.

Certas crianças psicóticas mostram verdadeira obsessão pelos objetos mecânicos duros, por exemplo trens e carrinhos, tornando-se algumas delas tão agarradas a um em particular, que se este de alguma forma lhes faltar, entrarão num estado de verdadeiro desespero. Outras preferem colecioná-los; o mais característico em ambos os casos, é que não brinca com eles, como uma criança normal o faria, mas usa-os (psicologicamente) para repelir um sentimento de desastre (esse mesmo princípio está, na base dos amuletos e feitiços de que certos adultos lançam mão). É muito frequente vê-las adormecerem com um trem, por exemplo, quando uma criança normal dormiria, muito possivelmente, com um urso ou um objeto macio.

Outro traço característico dessas crianças psicóticas, é como tentam transformar a mão de outra pessoa em objeto autístico, usando-a como coisa destituída de vida ou vontade própria e como poderosa extensão de si mesmas que sirva para realizar seus desejos. Por exemplo, para abrir a porta, acender a luz, puxar o fecho das calças, etc. – o que denota certo reconhecimento do modo como os objetos do mundo externo operam. A incapacidade de reconhecer refere-se muito mais à qualidade “não-eu” das outras pessoas.

Os objetos autísticos “eu”visam a manter à distância o reconhecimento do terrível e ameaçador “não-eu”, e são, por isso, anormais e patológicos.

 

Sistemas de Autismo Patológico

 

            Tustin descreve três sistemas de autismo patológico e aponta o que os diferencia, chamando a atenção para o fato de que a depressão psicótica é fator precipitante comum a todos eles. Ela consiste em um tipo muito particular de depressão, que se caracteriza por vivências bucais de “buraco”, geralmente associadas a sentimentos de terror, de incapacidade de se bastar a si mesmo, e de ser defeituoso.

O primeiro dos três sistemas mencionados é chamado por ela, de autismo primário anormal (A.P.A.) e que define como prolongamento anormal do autismo primário, ocasionado por um dos seguintes fatores:

  1. Ausência quase total do que é básico para que a criança seja criada e nutrida de forma relativamente equilibrada.
  2. Ausência parcial da mesma coisa:
  • devido a graves deficiências das figuras nutridoras,
  • devido a impedimentos intrísecos à criança,
  • devido à combinação dos fatores (a) e (b).

 

Bowlby (1969) chamou a atenção para o fato de que o bebê humano necessita não só ser alimentado como também estimulado sensorialmente, embora não em demasia, bem como de ter a possibilidade de aliviar os estados de excitação derivados da ação dos estímulos internos e externos. Ele também necessita ter pais, particularmente uma mãe que seja capaz de tolerar as frustrações e as dificuldades que acompanham inevitavelmente os processos deles de se diferenciar do mundo e de se estabelecer diferenças dentro da própria mente. Nessa ordem de idéias, se os pais, ou um deles, forem demasiado maleáveis, contribuirão grandemente para que esses processos não sigam um curso satisfatório.

 

  1. 1. Ausência quase total do que é básico para que a criança seja criada e nutrida de forma relativamente equilibrada.

 

            Spitz descreve instituições onde as crianças são alimentadas e cuidadas de forma exemplarmente higiênica. Os bebês nunca são tirados dos berços – separados uns dos outros por cortinas opacas – por sucessivas enfermeiras que se limitam a alimentá-los e a limpá-los, raramente afagando, acalmando ou brincando com essas crianças. Essa quase completa ausência de estimulação sensorial e de possibilidade de os bebês encontrarem alívio para os estados de excitação interna, acabou por levar muito deles a um estado de marasmo que culminou na morte de alguns antes dos 2 anos e meio de idade.

Shevrin e Toussieng (1965), colocaram em evidência os efeitos destruidores (para as crianças) da escassez de estimulação tátil e provaram que em demasia ela pode ser igualmente nociva. O estado de irritabilidade não aliviada, no primeiro caso, e de estimulação excessiva, no segundo, acabaram por levar os bebês que esses autores observaram a terem reações idênticas às do autismo.

Quando Spitz descreve a psicopatologia desse tipo de criança em termos de “depressão anaclítica”, o faz do ponto de vista da teoria da libido. Pode-se dizer que os fenômenos psicopatológicos descritos são o resultado da depressão que é experimentada como “buraco” corporal e derivada das projeções que não foram modificadas pelas respostas de uma figura nutridora contínua. Para Winnicott (1958), essas crianças vivenciam o “cair sem fim” que acontece quando a “situação contensora” adequada não se materializa, acabando por levá-las ao estado de deterioração irreversível que precede a morte.

Winnicott diria que elas não sofreram “privação”, mas “carência total” (no sentido de uma ausência de ser cuidado), bem no começo da vida, quando “ser provido no essencial estava ainda completamente fora da (possibilidade de) percepção e de compreensão da criança” (Winnicott 1958, pág. 226). O autor menciona o que Burke diz acerca da “privação”: “Todas as privações universais são grandes porque são terríveis: o Vácuo, a Escuridão, a Solidão, o Silêncio”. “Privações” assim primordiais acontecem tão no início da vida, que suas consequências parecerão derivadas da constituição do indivíduo.

 

  1. Ausência parcial do que é básico para que a criança seja criada e nutrida de forma relativamente equilibrada.

 

Não há dúvida de que o clima emocional que se gera entre a criança e o meio ambiente, depende muito de sua personalidade, e que um bebê “fácil” apela, geralmente, para o melhor nos que o rodeiam, mas não é menos verdade que nem tudo depende exclusivamente dele e que certas características da mãe vão ser pelo menos importantes para corrigir eventuais deficiências dos ingredientes essenciais à sua criação.

Determinado tipo de mãe e filho dão a impresão de nunca se diferenciarem completamente um do outro, mas apenas em “retalhos”.

Tustin dá como exemplo um caso que atendeu em que tanto o pai como a mãe, particularmente esta última, davam a impressão de ter desenvolvido um sistema de passividade e inércia que tornava obscuro o sentido do que quer que estivesse em questão e toda a distinção indefinida, quase como se sua forma de responder ao mundo fosse sempre confusa – caminho que o filho parecia também trilhar. Quando a criança emergia passageiramente do nevoeiro e se dava conta de que estava corporalmente separado e distinto da mãe. Tinha ataques de choro. Se a mãe não conseguia controlá-lo e se sentia absolutamente incapaz de ajudá-lo, era exatamente por causa da tremenda inércia que a caracterizava e a que o filho recorria frequentemente, em si próprio, como única forma de escapar à ameaça que o nevoeiro encobria.

“É esse tipo de criança que o tempo me ensinou a chamar de “ameba”.

 

  1. Impedimentos intrísecos à criança.

 

            São várias as circunstâncias que podem impedir uma criança de receber e fazer uso dos cuidados que lhe são fornecidos por aqueles que a criam: a cegueira, a surdez, o atraso mental, a paralisia cerebral, a atonia e a hipotonia musculares, ou uma constituição emocional difícil são apenas exemplos de algumas delas. Também não podemos esquecer que é inevitável que as figuras nutridoras tenham deficiências, o que certamente contribuirá para acentuar as da criança. Isso não tem absolutamente nada a ver com passar culpas, mas sim com entender a verdade dos fatos.

Evidentemente, inferioridades sensoriais, musculares e cognitivas da criança interferirão no curso do desenvolvimento desta, mas é também óbvio que as características qualitativas dos cuidados que lhe serão dispensados por quem a cria, vão contribuir para a extensão da interferência.

Para criar satisfatoriamente uma criança, nem o agente criador deverá ser demasiado mole e submisso, nem rígido e obssessivamente falho de poder de adaptação. Uma mãe deprimida ou com pouca confiança em si, atua geralmente de uma dessas formas, ou oscila entre ambas, sem grande consistência. Uma criança com impedimentos intrísecos tem toda probabilidade de evocar superproteção. Se criada de forma demasiado adaptável e digamos mesmo sedutora, permanecerá em estado de autismo por tempo excessivo, sofrendo um choque doloroso quando perceber o fator incontroverso de que é um ser com entidade corporal própria. O caminho dos processos autísticos secundários se abrirá em sua frente como resposta ao choque, ou se a criança for possuidora da necessária força de personalidade, o autismo primário anormal (A.P.A.) poderá evoluir para um autismo secundário encapsulado (A.S.E.).

Tustin acha a frase de Winnicott “maternalizar de forma suficientemente boa”, muito útil e adequada, e constatando que as crianças que jamais tiveram a oportunidade de experimentar cuidados maternos “suficientemente bons”, desenvolvem processos autísticos secundários não poucas vezes, os quais são, em algumas, precedidos de uma permanência em estado de autismo primário além do habitual.

 

Autismo Secundário Encapsulado (A.S.E.)

 

            Essas crianças são as “crustáceas”, que desenvolvem um A.S. E. Como defesa contra o sentimento de pânico associado à percepção intolerável de que são entes com individualidade corporal.

Em Além do Princípio do Prazer , Freud faz distinção entre “susto[1]”, “medo”e “ansiedade”:

“Ansiedade”, diz ele, descreve um estado muito particular de expectativa ou de preparação para o perigo, que pode ser até desconhecido, ao passo que “medo”pressupõe a existência de um objeto definido, do qual se tem receio. “Susto”é o nome dado ao estado em que uma pessoa se encontra quando corre um perigo para que não está preparada, é uma palavra que dá ênfase ao fator surpresa.

Tustin acha que Freud tem razão quando afirma que há algo na ansiedade que protege o indivíduo de sentir “susto”, e ao sugerir que a proteção consiste exatamente no estar preparado – um estado que é produto da experiência. Esse é o motivo por que uma mãe experiente é indispensável a seu bebê: ao ter a possibilidade de prever as situações que o assustariam e de saber como confortá-lo se e quando elas ocorrerem, vai protegê-lo do susto. Em contrapartida, uma mãe preocupada e insegura não terá a possibilidade de proteção adequada à insegura criança.

É muito provável que, entre os diversos fatores constitutivos das crianças que se tornarão autísticas, existam uns quantos que as tornem mais predispostas a experimentar um choque e um sentimento de separação corporal, cedo demais e de forma demasiado dura. Entre as causas possíveis, destacam-se a hipersensibilidade de um ou mais órgãos dos sentidos, uma inteligência global fora do normal por razões inatas, e a existência de um enorme talento muito específico. Esses fatores, que são a contribuição da criança, podem combinar-se com outros inerentes aos pais, e com determinadas circunstâncias do ambiente: pode acontecer, por exemplo, que a família se mude frequentemente de casa ou de região e que isso perturbe a criança; ou que a mãe ande demasiado preocupada com problemas que não dizem diretamente respeito ao filho, ou muito deprimida. Neste último caso, vai-lhe ser muito penoso dispensar a atenção que ele requer e estimulá-lo como seeria necessário, passando a funcionar como um “espaço em branco” onde as projeções elementares do bebê caem e ficam relativamente intactas (não modificadas). Pode ser também que a mãe esteja tão submergida em suas próprias frustações e tensões internas, que lhe seja difícil ajudar o filho a suportar as suas.

Já vimos que um ambiente que a criança entreveja como catastroficamente transformado, atuará como fonte de traumatismo que a deixará sensibilizada à ação (traumática) de futuras ocorrências semelhantes à original. Se a isso juntarmos o processo de repetição compulsiva que é bem ativo nos níveis emocionais elementares, teremos o quadro do bebê que é dado a entrar em estado de traumatismo psicológico, para quem este é recorrente, com a consequência, por demais conhecida, de um estado de tensão que se acumulou por falta de meios que a aliviassem. Conforme a criança tenha um A.P.A. ou um A.S.E., assim variará sua forma de evitar o traumatismo. A primeira o fará quando camuflar a possibilidade de se dar conta de que a diversidade é um fato da vida, ficando em estado de subdiferenciação. A segunda, quando diferenciar exageradamente o “eu”do “não-eu”e colocar este último nitidamente à parte, apenas para experimentä-lo como barreira entre si e o mundo externo.

Entre as formas de atividade estereotipada e repetitiva dessas crianças, contam-se o dar voltas em torno de si mesmas e o girar objetos externos como se fossem seu próprio corpo. Esses movimentos desempenham a função de evitar o susto que os aspectos “não-eu” do mundo externo lhes provocariam, sendo também bastante possível que obtenham um estado de dissociação idêntico a uma auto-hipnose, que obscureça os alarmantes objetos “não-eu”.

Pode-se dizer que o animismo e o autismo patológico são duas formas opostas de a mente primitiva operar. O primeiro consiste em dotar os objetos de vida, ao passo que o segundo é uma maneira de lidar com a morte, definindo as coisas como se estas fossem feitas do próprio corpo (único meio de torná-las inexistentes), e reduzindo os vivos ao estado de criaturas inanimadas. O establecimento da possibilidade de distinção entre objetos vivos e não-vivos é uma das fases críticas do desenvolvimento psicológico da criança (Spitz, 1963). Enquanto a criança que tem A.P.A. não dá indicação de que tal diferença tenha sido claramente feita, a que tem A.S.E. mostra que esta chegou a ser estabelecida, mas foi posteriormente encoberta.

A experiência clínica mostra que o bebê criado com insegurança devido a impedimentos seus ou da mãe, exagerará a importância das experiências língua-mamilo. No curso do desenvolvimento psicológico normal, essas experiências servem como ponte entre a mãe e o filho e se o bebê tiver vivenciado a perda do mamilo antes de adquirir a capacidade de representar internamente os objetos ausentes, sentirá que a ponte ruiu. Isso é o que parece acontecer com a criança autística, que deseja evitar a repetição dessa experiência dolorosa. Assim, crianças que apresentam um A.S.E. chupam a própria língua e as bochechas, como forma de jamais voltarem a vivenciarem a perda tangível da mãe e de se conformarem com o “buraco”que esta lhes deixou. Outras derivam o mesmo bem-estar da sensação que a massa fecal produz em contato com o ânus.

A criança autística não pode prescindir do constante contato corporal com a mãe e recorre a atividades autísticas, em sua falta, como forma de manter a ilusão de sua existência, embora isso também a impeça de fazer uso da mãe real, a quem nega. Nega-a porque é vista como origem da vivência pavorosa de “não-eu”, o que impossibilita à mãe dispensar os cuidados de que seria capaz.

Tudo isso é fonte de profundo sofrimento para a mãe, que se torna cada vez mais insegura ao criar um filho que constantemente repele o ela oferece.

Uma das grandes dificuldades do A.S.E. consiste precisamente na quase impossibilidade de lutar contra um de seus principais efeitos, a exclusão de toda e qualquer influência do exterior, exclusão que piora a situação, já que só essa influência poderia modificá-la. Nunca será demais insistir em que ninguém tem “culpa” de que as coisas se passem assim, nem recordar o mal que se tem feito e a desnecessária mágoa ocasionada pela aceitação tácita de que cabe às mães toda a responsabilidade de perturbação das crianças autísticas.

A experiência de psicoterapeuta ensinou à Tustin que muitas crianças neuróticas conseguem funcionar com uma espécie de “bolso”, onde isolam os processos crônicos típicos do A.S.E., continuando a se desenvolverem normalmente até que o “bolso” de encapsulamento traga pertubarções ulteriores. Estas se apresentam sob a forma de fobias, dificuldade de dormir, anorexia nervosa, mutismo eletivo, doenças de pele, doenças psicossomáticas, dificuldade de aprender, perturbações da fala e algumas formas de delinquência. Esse “bolso”contém objetos autísticos e fenômenos de objeto transicional, que não chegaram a se desenvolver significativamente, com a consequência de que a imaginação dessas crianças vai ser primitiva e centrar-se nos objetos corporais e seu equivalente no mundo externo.

Rubinfine (1961) diz que as crianças com um A.S.E. apresentam invarialvelmente oscilações maniáco-depressivas de humor. Elas oscilam, entre o êxtase da onipotência e o “baque”do desespero quando saem do estado de autismo. O desespero provém do furor, que sentiram ao descobrir a qualidade “não-eu”dos objetos que até então haviam experimentado como “eu”.

Para Tustin não há algo de novo na afirmação de que os psicóticos não são uma espécie diferente dos indivíduos chamados “normais”, que é como quase todos nos consideramos; uma das razões é a constatação de que os ditos normais contêm, no fundo, vestígios de autismo patológico. Isso é tanto menos de estranhar quanto o crescimento infantil não se processa de maneira suave e regular, mas aos saltos, o que tornará qualquer bebê exposto a sofrer um abalo quando percebe sua condição de ente com individualidade corporal.

[1] A palavra alemã Schreck sugere algo mais drástico do que susto. Pânico, terror, choque, horror e temor estariam mais próximos do sentido original.

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AUTISMO E PSICOSE INFANTIL – Resumo do livro de Frances Tustin – Primeira parte

O sentido que Tustin dá à palavra autismo tem implícitas duas idéias fundamentais: a primeira, de existência de uma situação muito primitiva do desenvolvimento psicológico, e a segunda, de desenvolvimento psicológico cujo curso se desviou do habitual.

Literalmente, autismo significa viver em termos do próprio eu (self). Uma criança em estado de autismo parece centrada em si mesma, já que pouco responde ao mundo que a rodeia. Mas, paradoxalmente, uma criança nesse estado não se dá conta do que ser um eu (self) significa.

Autismo da Infância Primitiva. Trata-se de um dos estádios habituais do desenvolvimento infantil normal. Um bebê não percebe claramente a existência de um mundo externo, vivendo-o da mesma forma que os órgãos, processos e zonas de seu corpo. E, se vai emergir desse estado psicológico, é porque tem em si uma disposição inata que lhe permitirá reconhecer padrões, semelhanças, repetições e continuidades. Através desses processos mentais a criança constrói uma representação interna da realidade aceita pelos outros e toma consciência de si própria.

Autismo e Psicose. Quando os processos cognitivos primários seguem um curso francamnte desviado do habitual, diz-se que a criança é psicótica. O que irá distingui-la de uma criança neurótica é a extensão da falta de contato com a realidade. Um bebê sadio e absolutamente normal, que começa seus dias por estar fora da realidade, não pode ser chamado de psicótico, mas seguramente de autista.

Tustin sugere que os processos autísticos primários normais consistem fundamentalmente em sensações, originadas em disposições internas que ainda não chegaram ao ponto de ser apreensão, mas que, se assim o permitirem as circunstâncias, nela hão de se tornar. As ditas circunstâncias têm a ver com a maneira como a criança é criada, estando contidas na totalidade dos cuidados com que os pais a rodeiam.

Isso é o que geralmente acontece quando o desenvolvimento psicológico se processa dentro dos moldes normais. Mas, se seguir o caminho do autismo patológico, significa que as referidas circunstâncias foram quase inexistentes ou, mais frequentemente, que a capacidade de a criança receber e fazer uso dos cuidados dos pais esteve seriamente bloqueada ou desorganizada (no caso de uma criança em estado de confusão). Ve-la-emos permanecer num estado psicológico caracterizado de sensações, no primeiro caso, e regressar a ele, quando já o tinha ultrapassado, no segundo. Dito de outra forma: a criança pode sofrer uma parada ou uma deteriorização do desenvolvimento emocional e cognitivo.

Isso leva-nos à conclusão de que os autismos normal e patológico são encarados mais como diferentes graus de uma mesma e única entidade, do que como dois tipos nosólógicos diferentes. Podendo-se dizer que o autimo normal é anterior à capacidade de pensar (pré-pensamento), ao passo que o autismo patológico é um estado de antipensamento.

Depressão Psicótica

“O período de profundo desgosto e luto interno que, segundo creio, precede inevitavelmente e anuncia um estado psicótico de completo divórcio da realidade, é algo que raramente temos ocasião de ver e poucas vezes tem sido descrito…”

                                                                      Margaret Mahler, 1961

 

Winnicott chamou-o de depressão psicótica, distinguindo-a da depressão reativa, que é uma forma consciente de reagir à perda de uma pessoa amada.

 

“Pode tratar-se, por exemplo, da perda de certos aspectos da boca que desapareceram[1] para o bebê, quando a mãe e o seio desapareceram.[2] Esse fenômeno, que se observa quando a separação aconteceu antes que a criança tenha atingido uma fase do desenvolvimento psicológico que providenciaria o equipamento necessário para fazer face à perda, já não se observaria alguns meses mais tarde, quando essa perda teria a ver apenas com o objeto, e não com uma parte do sujeito.” (Winnicott 1958, pág. 222).

 

Rank e Putnam, 1953, chegaram à conclusão de que a depressão psicótica – também chamada de “depressão primitiva” _ é o acontecimento que decide da parada do desenvolvimento emocional “das crianças atípicas”(psicóticas).

Tustin descreve um caso clínico de um menino de 3 anos e sete meses que foi tratado por ela durante 3 anos, tratamento intensivo (cinco vezes por semana). Diagnosticado primeiramente como suspeita de atraso mental e depois como suspeita de autismo primitivo. A autora considerou o caso como uma depressão psicótica.

Entre os que têm estudado e escrito sobre os primórdios da relação mãe-filho nas crianças autistas, destacam-se Kanner (1943, 1944), Bergman e Escalona (1949), Rank e McNaughton (1950), Mahler (1952, 1961) e, Meltzer (1963); a maioria desses autores pensa que fatores constitucionais da criança são seguramente necesários para que o autismo se desenvolva. Meltzer (1963) escreve que essas crianças frequentemente nascem “num período em que os pais estão separados e quando há enorme agitação na família, sobretudo depressão na mãe”, conclusão que, na experiência de Tustin, foi confirmado.

A falta de poder de discriminação do bebê de tenra idade e a capacidade de adaptação da mãe, que resulta de sua identificação empática com ele sob forma de reverie (Bion, 1961, pág. 309), completam-se reduzindo a brecha existente entre as ilusões primitivas da criança e a realidade. Tais “projeções”do bebê tornar-se-ão difíceis para uma mãe com áreas de insegurança não formulada, que lhe ficaram da própria infância, e que ela só muito dificilmente consegue tolerar, e ainda mais se lhe faltar o apoio de um ambiente que a ajude a suportá-las. “Deixar ao filho a liberdade de se mover, agir e excitar-se”é, segundo Winnicott (1958, pág. 310), tarefa difícil para essas mães. Se o bebê for, além disso, uma criança particularmente ansiosa, chega-se a uma situação dolorosa ao extremo. Sente que a sua ansiedade não será “contida”, sarada ou modificada pelo que a mãe lhe dá ou faz.

A capacidade de dar apoio a um bebê inseguro parece estar relacionada com a de dar atenção. Se a mãe for insegura e infeliz, sucumbirá facilmente ante os ataques à sua capacidade de dar atenção ao filho, ou seja, de o “conter”por sua impossibilidade de estar alerta. Os ditos ataques tanto podem vir de si mesma, de problemas infantis irresolvidos, como das pessoas e acontecimentos externos, do próprio filho e, de todos eles combinados. Se a mãe está presente em corpo, mas não em espírito, provoca a mesma vivência no filho. Há que sublinhar que não é porque quer, mas que não pode fazer de outra forma, que ela está espiritualmente ausente, e que a “a situação contensora”também pode ser afetada pela relação existente entre os pais, na medida em que esta condicionará a forma como a mãe vai lidar com a criança, que é quem está a mais.

Se essa situação não for desmantelada, deixará o bebê sozinho face a ansiedades intoleráveis e desproporcionais e às custas de enorme esforço e tensão que se vão acumulando. E o veremos fazendo uso do próprio corpo como se fosse o da mãe e a usar o dela como seu, o que lhe vai dar uma ilusão de continuidade, proteção psicológica de que tanto necessita, mas não irá deixá-lo sair do estado de indiferenciação e confusão com a mãe.

São diversos os fatores que podem levar ao sentimento de desenraizamento traumático, ou seja, de ser brutalmente arrancado da ilusão primitiva de ser um com a mãe. Um deles é a separação geográfica real; outro, as doenças físicas nos primeiros meses de vida; e um terceiro fator possível são as perturbações intra-uterinas. Rubinfine (1961) menciona que as crianças expostas a esse tipo de experiência, “dar-se-ão prematuramente conta de que o objeto é algo separado do eu”. Bergman e Escalona (1949) sugerem como quarto fator, a existência de hipersensibilidade constitucional combinada com uma experiência precoce de separação corporal, numa situação em que foi impossível fazer uso do “escudo protetor materno contra os estímulos”, e Winnicott (1958) opina que essas crianças tiveram que “reagir demasiado cedo”.

Quando o bebê – criatura em que a integração psicológica é muito frouxa – sofre o impacto da separação corporal, entra num estado de alarme, feito de susto e raiva, vivenciado como estar túrgido, cheio de substâncias venenosas. Com coisas que ela sente se expelirem do corpo, fabricará uma espécie de capa de segurança, que porá em volta do objeto, tornando-o assim parte da estrutura frouxa de que se sente composta. Como não há esperança de integração para o objeto, ele será novamente expulso e com os mesmos resultados, à medida que o terror da criança aumenta. Isso quer dizer que o núcleo do objeto de pesadelo é um terror de morte de que ela tenta escapar ao sair do próprio corpo e entrar noutro, que fez para si. Trata-se de uma manobra cíclica que se destina a por fim a um estado de coisas altamente indesejável.

Contanto que as diversas camadas de “concha”protetora dessas crianças não se tenham amalgamado irreversilvelmente, será ainda possivel ajudá-las a desenvolver-se psicologicamente. Segundo Tustin, é mais provável que uma criança “crustácea”seja tratada com êxito do que uma criança “amebiana”. Por “amebianas”, designa as crianças passivas e flácidas cujo comportamento está muito mais próximo de uma resposta fisiológica automática – como uma crise de tremor muscular, uma série de espirros, bocejar e tossir – do que qualquer outra forma, mais elaborada, de reação. Sugar a própria língua, fazer bolhas de saliva, pular no meio de grande excitação, estalar os dedos e retesar os músculos serão suas formas de tentar não se dar conta de um choque a que as crianças mais flácidas teriam certamente sucumbido. Ou seja, as “crustáceas” tentam fazer face à depressão psicótica encapsulando-se. O trágico é que se arriscam a ficarem para sempre isoladas da vida e das pessoas, já que têm uma concha externa particularmente desenvolvida, em lugar de um simples seio interno.

Quando estudamos o autismo primário, estamos claramente estudando um eu (self) em forma embrionária.

Para que o bebê possa enveredar pelo caminho da integração psicológica, será necessário, que possua um sentimento interno que é capaz de “ligar”, sentimento este que derivará das experiências de satisfação, que ele vive quando se sente a circundar o mamilo com a boca, ou quando se ente envolvido pelos braços da mãe e contido no clima criado pela atenção afetuosa desta. Integração significa a combinação das várias áreas da personalidade num todo, e a do eu emergente com os vários elementos de uma situação em que outros “quereres”, além do seu, existem. A ausência desse aentimento de ligação primária levará à hipertrofia compensadora dos processos de centralização no próprio corpo. Adquirindo todas as características de um sistema fechado, comparável a um cão correndo atrás do próprio rabo! Seu desenvolvimento psicológico passará a ser descontrolado e “falso”daí em diante, já que falho da integridade básica essencial à insercão na realidade externa.

É praticamente impossível dizer quando é que a criança entra no estado de autismo primário normal, por duas razões fundamentais: porque lhe falta a possibilidade verbal de transmiti-lo; porque nós mesmos não estamos de posse da recordação consciente do fato. Bion sugere que quando a mãe “sonha acordada”, está cmo que abrindo uma porta para o filho entrar naquele estado, e Winnicott chama a atenção para o fato de que a ausência da “situação contensora”primária dará ao bebê a certeza de que ela existe, deixando implícito que uma maneira de aprofundar nosso conhecimento sobre o autismo primário, cosistirá em estudar crianças em que esse processo não parece ter-se desenvolvido de forma normal, tendo os processos de autismo secundário tomado seu lugar. Daí a conclusão de que é mais fácil investigar o autismo patológico do que o normal.

Nota-se que o autismo patológico é muito diferente do autismo primário normal, sobretudo devido à rigidez, perseveração e falta de receptividade que o caracterizam.

Quando o desenvolvimento psicológico se processa normalmente, as respostas de uma mãe atenta às comunicações corporais do filho vão conter em si nem mais nem menos do que aquela pequena diferença qualitativa que é tudo quanto este consegue suportar. O que significa que a mãe não está tão cheia de suas próprias inquietações que não possa ajudá-lo a fazer face às suas. Ela não se sente de pés e ãos atadados, como se sentiria se sofresse as mesmas dores que o filho – se reagisse com demasiada empatia. Quando lhe tem simpatia, ou seja, quando se sente envolvidamente desapaegada dele, estará contribuindo para lhe aliviar o sofrimento.

O processo de identificação com um ser humano ordinário, em lugar de um objeto extraordinário feito à imagem e semelhança das substâncias e dos processos de seu corpo, terá começado para o autista. Esse estado psicológico é essencialmente caracterizado pela possibilidade de estabelecer uma certa diferença entre pessoas e “coisas”, marcando o início do caminho da introjeção e identificação com uma mãe que é capaz de tolerar a dor de ser um ente com limites corporais próprios. É o momento em que a criança começa a ser percebida como pessoa viva e pensante. É o ponto em que a psique, se inicia, e em que, de psicologicamente viável, a criança passa a ser psicologicamente continente. A enorme capacidade das crianças de fazerem isso por si mesmas, quando auxiliadas por um profissional que as estimule, nos surpreende e nos obriga a sermos humildes.

Para que isso ocorra, o bebê necessitará primeiro aprender a tolerar o fato de que as pessoas (do mundo que o rodeia) nem sempre são conforme o modelo de bem-aventurança que lhe completa as atividades instintuais, ou seja, necessitará aprender a tolerar a “divina insatisfação”.

Sensações que contêm em si a expectativa de uma forma de satisfação muito além das possibilidades humanas – por isso mesmo voltada a nunca encontrar a resposta esperada e a contribuir para aumentar sua frustração – tornam cumulativa essa situação. Essa situação cumulativa tem sido designada por autismo secundário patológico.

Tem sido clinicamente deduzido que não é possível ao bebê esperar por quem cuida dele, devido ao sentimento interno de “eriçada” frustração que a espera origina, com o consequente aumento da necessidade de mobilizar sensações corporais internas que o façam sentir-se “como se” tivesse, ali à mão, o cuidado de que precisa. Isso quer dizer que o bebê está constantemente entrando em ação, como se impulsionado por uma mola, devido a um sentimento de aguilhoamento interno que deriva da frustração de sentir que o fluxo de matéria corporal chegou ao fim. Essa inclinação natural pode eventualmente ser reforçada por uma mãe que tenda a propulsioná-lo a atuar, incrementando sua tendência a reagir exageradamente aos estímulos. As crianças psicóticas têm várias maneiras de escapar a esse aguilhoamento – que vem de si mesmas e dos outros. No caso concreto dos estados de autismo, a impressão de que a criança se sente quase permanentemente “confortável” reflete aquele sentimento de satisfação consigo própria e de pseudo-auto-suficiência, tão característico dos processos autísticos e tão responsável pela enorme dificuldade em revertê-los, sobretudo quando datam de muitos anos.

[1] Está aqui implícito que a representação psicológica que o bebê tem de sua boca é que sofre a perda.

[2] O desaparecimento tem mais a ver com o distanciamento físico da mãe (ou seu substituto).

Comentários desativados em AUTISMO E PSICOSE INFANTIL – Resumo do livro de Frances Tustin – Primeira parte

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“Mudança de Visão e de Escuta” segunda parte.

No Dicionário do Pensamento Kleiniano de Hinshelwood (1992), ele escreve:

“As fantasias inconscientes estão subjacentes a todo processo mental e acompanham toda a atividade mental. Elas são a representação mental daqueles eventos somáticos no corpo que abrangem as pulsões, e são sensações físicas interpretadas como relacionamentos com objetos que causam essas sensações. Irrompendo a partir de sua instigação biológica as fantasias inconscientes são transformadas por duas maneiras:

  • Pela mudança através do desenvolvimento dos órgãos para a percepção à distância da realidade externa;
  • Pelo surgimento no mundo simbólico da cultura, a partir do mundo primário do corpo.”(pág. 46).

 

Possivelmente Olga tinha a fantasia inconsciente de não ter sido um bom bebê, ou o bebê que sua mãe gostaria de ter tido, por isso a raiva quando via bebês na rua, ou mesmo em fotografias. Conseguindo elaborar esta sua fantasia quando pode agredir com argila=fezes, numa equação simbólica, o bebê que encontrou na revista, iniciando então a reconstrução de um outro bebê.

Esta sua fantasia inconsciente gerava muita angústia, tendo que jogá-la para o corpo com medo da sua agressividade e da sua raiva que eram muito intensas. Por isso a sua hipotonia corporal, uma maneira de neutralizar o corpo para não agredir com veemência os objetos bons internalizados e também uma forma de não ser agredida por eles – “cuidado comigo, olha como sou frágil!     

No mesmo dicionário citado acima, Klein fala da criação de um círculo vicioso (pág. 65):

“A preocupação especial com a agressão, e as consequências vingativas que despertam medo e agressão, são autoperpetuantes. Os ataques aos perseguidores tornam-se mais daninhos, porque deles se imagina, na fantasia, que estejam ainda mais enraivecidos e dispostos à violência retaliatória. Quando os objetos são introjetados, o ataque que sobre eles é lançado com todas as armas do sadismo desperta no sujeito o pavor de um ataque análogo sobre si mesmo, partindo dos objetos externos e dos objetos internalizados. Este tipo de círculo vicioso representa um estado paranóide de hostilidade, com imensa desconfiança de quaisquer figuras boas”.

Outra forma de defesa presente era o seu pensamento onipotente. Muitas vezes Olga verbalizava: “Eu não quero crescer e quero mandar, eu mando na minha mãe e no meu pai!

“O sentimento de onipotência é importante nos mecanismos primitivos de defesa que se acham envolvidos com o rompimento das fronteiras do ego, de maneira a que as experiências de separação e inveja sejam evitadas”(Hinshelwood, 1992, pág. 396).

Num momento clínico mais avançado do processo analítico, embora não parecesse demonstrar tanta ansiedade em relação ao tempo, não perguntava se as sessões iriam demorar a acontecer, nem se a segunda-feira iria demorar a chegar, para poder rever os colegas; apresentava ansiedade por qualquer mudança do que estava acostumada. Numa das sessões em que o pai a deixa no portão do consultório e avisa que estará esperando na saída, no término da sessão, ela não parece preocupada com o tempo que durara a sessão, porém com o que foi introduzido de novidade: ninguém a estará aguardando na sala de espera como de hábito. Ela fica aflita quando não sabe o que acontecerá, numa tentativa de controlar a surpresa, necessitando de alguém ao seu lado que lhe diga o que ocorrerá para não cindir.

“A primeira realidade da criança é totalmente fantástica. Ela se vê cercada de objetos de ansiedade; os excrementos, os órgãos, os objetos, coisas animadas e inanimadas, que de início são igualadas umas às outras. À medida que o ego se desenvolve, uma relação verdadeira com a realidade vai se estabelecendo a partir dessa realidade irreal. Assim, o desenvolvimento do ego e a relação com a realidade dependem da capacidade do indivíduo tolerar a pressão das primeiras situações de ansiedade. É preciso um equilíbrio ideal entre os fatores envolvidos. É essencial que o ego possua a capacidade para tolerar a ansiedade a fim de elaborá-la de forma satisfatória.”(Klein, 1930, pág. 253).

Talvez Olga não tenha tido a capacidade para tolerar toda a ansiedade desse seu mundo fantástico e não tenha podido elaborá-la de maneira satisfatória, criando uma cisão e funcionando mergulhada na posição esquizoparanóide, como um modo de lidar com tamanha dor.

Com esse caso clínico, fui aprendendo a relacionar a teoria com o que observava nas sessões. Fez-se necessário, também, que eu aprendesse a estar ao lado de Olga e desenvolvesse o “marcar o lugar”, para que ela não se sentisse tão solitária e com medo de abandono, podendo evoluir da posição esquizoparanóide para a posição depressiva, mesmo que isso demandasse tempo, muito tempo.

Anne Alvarez cita Bruner, 1968:

“Precisei aprender que crianças muito prejudicadas não tinham condições para o tipo de pensamento espacial, temporal e causal envolvido no que Bruner chama de pensamento de dois trilhos. A suposição de que essas crianças tinham ego e self aos quais eu pudesse me dirigir e senso nítido de objeto ao qual eu pudesse me referir era falsa.” (Anne Alvarez 2004)

Aprendi que às vezes não poder falar sobre os seus sentimentos e querer “fazer algo”, não é só uma maneira de se afastar da frustração, com a qual tem muita dificuldade em lidar. Mas é também um modo mais arcaico de se comunicar, é uma identificação projetiva utilizada para a comunicação com outros objetos, uma comunicação não verbal. Um dos mecanismos projetivos utilizados pelos psicóticos, que é uma distorção ou intensificação do relacionamento infantil normal, uma comunicação entre o bebê e a mãe, são impulsos, partes do self e ansiedades difíceis demais para o bebê suportar que são projetados para dentro da mãe, que é instintivamente capaz de responder, contendo a ansiedade do bebê e aliviando-o com seu comportamento. O paciente projeta impulsos e partes do seu self para dentro do analista, para que o mesmo sinta e compreenda suas experiências e seja capaz de contê-las, de tal modo que elas percam sua qualidade assustadora ou insuportável e tornem-se significativas pela capacidade do analista colocá-las em palavras através das interpretações.

Muitas vezes, nas sessões, ficava frustrada porque Olga parava de conversar comigo e se voltava para “o fazer”, fazer passatempos em revistas recreativas, ou ler revistas em quadinhos, ou colar figurinhas em álbuns, como se ela tivesse cortado a comunicação comigo e se voltado para o seu mundo de fantasia. Quando em supervisão era me dito: “Tente ver o que ela está querendo lhe dizer, tente traduzir!”- não o conseguia. Acho que o meu inconsciente ficava impregnado por estes impulsos primitivos e também me sentia incapaz de me colocar, em transferência, como o objeto primitivo. Hoje, tenho outra escuta, vejo novos processos se descortinando diante dos meus olhos e me sinto mais apta para poder trabalhar nestas situações.

Aprendi muito sobre transferência. Na teoria kleiniana o fato do bebê viver, inicialmente como um ser não integrado, não quer dizer que ele não se relacione com os objetos que cuidam dele. A relação do bebê com a mãe não se dará como uma figura materna sentida como inteira e exterior ao bebê, mas como uma gama de objetos parciais (seio bom, seio mau, pênis, pênis-mamilo), que agem independentemente um do outro e são experimentados como prazerosos ou desagradáveis, de aordo com o estado de espírito do bebê no momento. O que acontece é que desde o princípio os objetos são revestidos de um colorido afetivo correspondente aos impulsos do bebê. Haveria primeiramente a projeção das sensações provocadas pelo objeto para dentro do mesmo e, em seguida, este objeto passaria a habitar o interior do bebê, incorporado justamente com os impulsos anteriormente projetados.

Essa dinâmica de projeções e introjeções é, para Klein, a base de todos os tipos de relacionamento humano e do mundo dos objetos internos de cada pessoa. Nesse contexto cabe ressaltar que o que é descrito como próprio funcionamento psíquico de um bebê não exclui a possibilidade de que recursos idênticos ou semelhantes sejam utilizados por pessoas adultas, em diferentes etapas e circunstânias da vida, de acordo com o seu maior ou menor nível de amadurecimento. A partir daí, pode-se entender o processo, utilizado normalmente pelo bebê, de expulsar, banir para fora de si sentimentos que de tão violentos não poderiam ser tolerados e depositá-los sobre os objetos; também é um mecanismo possível de ser utilizado, em menor ou maior escala, por indivíduos das mais diferentes idades. A este processo Klein deu o nome de “Identificação Projetiva”, cuja função básica é permitir ao bebê que vivencie seus impulsos mais hostis e agressivos fora de si, como se fossem pertencentes ao objeto, de modo que o bebê seria poupado de uma perturbação possivelmente excessiva e insuportável.

Deslocando essa visão do funcionamento do bebê para a observação dos fenômenos vivenciados na clínica, pode-se considerar que o paciente projeta aspectos de sua personalidade, partes de seu self, objetos e impulsos amorosos e hostis para o analista.

A relação com o analista passaria a uma relação com alguém que é visto como portador de atributos que, na verdade, são características pertencentes ao próprio paciente. Betty Joseph afirma que na base da transferência o que se tem é a identificação projetiva.

Na prática clínica não é possível apreender o material das sessões, qualquer que seja ele, sem que se leve em consideração às relações de objeto empreendidas pela pessoa, observando como estas se insinuam, se atualizam e se revelam no presente, no contexto do setting analítico e no contato entre analista e analisando. Se a análise é sempre a análise da transferência, nota-se como é importante o estudo das teorias sobre as relações do sujeito com os objetos. Afinal, as relações de objeto constituem nada mais, nada menos que o próprio material da transferência.

Como disse, no início deste artigo, ao iniciar o atendimento com Olga pouco sabia sobre transferência, mas percebia como as relações objetais, acontecidas fora do setting, influenciavam a sessão. Posso citar um exemplo, agora mais perceptível aos meus olhos: quando ela chega com o pai e tenta beijá-lo várias vezes na minha frente; o pai pede que ela pare porque não quer beijos a todo momento. Ela entra no consultório sem graça e dentro da sala me pergunta se gosto dela? Interpreto que por eu ter visto o pai não querendo os seus beijos, ela ficou com medo que eu pudesse fazer o mesmo, que eu não quisesse mais contato com ela. Ela me pergunta: “E você vai querer?” Digo-lhe que sim e que também vi uma menina querendo causar ciúmes em mim. Olga sorri e diz: “Ele é bobo, não percebeu nada disso! Às vezes tenho ciúmes quando ele beija a minha mãe.” Digo-lhe: Assim como você tem ciúmes quando vê outra criança chegar depois de você. Ela concorda com a cabeça e fica mais cooperativa no restante da sessão.

Para finalizar gostaria de citar duas frases de psicanalistas a quem tenho muita admiração: Gilberto Safra e Winnicott, respectivamente:

“Quando achamos que somos analistas é porque não o somos e, ao contrário, quando achamos que não o somos, neste momento estamos sendo.” (palestra proferida no Instituto Sedes Sapientiae, segundo semestre de 2002).

“Aos meus pacientes, que pagaram para me ensinar”. (verso da folha de rosto do livro O Brincar e a Realidade, 1975).

E ainda expressar a minha gratidão aos meus mestres Kleinianos que tanto contribuíram para o meu crescimento, neste caminho de sobreviventes que se faz necessário manter relações objetais para se desenvolver como ser humano, nem que para isso façamos, algumas vezes, identificações projetivas e introjetivas.

 

 

REFERÊNCIAS:

  • Klein, M. – Amor, Culpa e Reparação – Cap. 12(1930), 13(1930), 14(1931), 15(1933), 16(1934), 17(1935), 18(1936), 20(1940) e 21(1945) – Imago – Rio de Janeiro, RJ – 1996;
  • _________ – Inveja e Gratidão – Cap. 1(1946), 2(1948), 4(1952), 6(1952) e 10(1957) – Imago – Rio de Janeiro, RJ – 1991;
  • Hinshelwood, R. D. – Dicionário do Pensamento Kleiniano – Artes Médicas – Porto Alegre, RS – 1992;
  • Alvarez, A. – Companhia Viva – Artes Médicas – Porto Alegre, RS – 1994;
  • ____________ – Níveis de Trabalho Analítico e Níveis de Patologia – Trabalho apresentado na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, SP – abril de 2004;
  • Dolto, F. – A Imagem Inconsciente do Corpo – Editora Perspectiva – São Paulo, SP – 2002;
  • Anderson, R. – Conferências Clínicas – Imago – Rio de Janeiro, RJ – 1994;
  • Segal, H. – Sonho, Fantasia e Arte – Imago – Rio de Janeiro, RJ – 1993;
  • Rosenfeld, H. – Os Estados Psicóticos – Zahar Editores – Rio de Janeiro, RJ – 1965;
  • ________________ – A Psicose de Transferência no Paciente Fronteriço – Revisa Brasileira de Psicanálise – volume XXIII – 1989;
  • O’Shaughnessy, E. – Uma Identificação Melancólica com Um Objeto Original em Um Menino de 3 Anos e Meio de Idade – Revista Brasileira de Psicanálise – Volume XXV – n. 2 – 1991.

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MUDANÇA DE VISÃO E DE ESCUTA (Relações Objetais, Ansiedade e Defesas).

Neste artigo irei refletir sobre um casos clínico, que marcou a minha vida profissional de várias maneiras. Fez com que me deparasse com questões até então pouco avaliadas e chegasse a me perguntar se o que eu estava fazendo era válido no sentido de ser efetivo para os meus pacientes, ou se havia algo mais que pudesse atendê-los melhor? Meus casos clínicos eram quase sempre distúrbios de aprendizagem, que depois de uma avaliação motora eram constatadas disfunções motoras.[1]

Quando vi Olga (nome fictício) pela primeira vez, na época com oito anos e dez meses, observei que havia alguma coisa a mais, e não somente, como dizia a escola, um atraso motor. Ela era diferente das outras crianças atendidas por mim. Seu comportamento não seguia as normas do chamado “adequado”, ela dava risada por qualquer coisa sem importância, babava, não tinha o chamado freio inibitório[2] (não obedecia às regras sociais), interrogava qualquer pessoa que via e ficava sem saber o que fazer quando era ignorada, normalmente perseverando até obter o que desejava, não era por “birra”, algo que não passava pelo âmbito dos limites, era diferente disso, parecia ser a única maneira como havia aprendido a se relacionar (fora da fronteira entre o eu dela e o eu do outro). Também não estava atrelada à deficiência cognitiva, sabia ler e escrever, embora sua orientação espaço-temporal estivesse defasada, não conseguindo se organizar numa folha pautada e muitas vezes se negava a colocar a data nos trabalhos e quando o fazia era sempre além ou aquém da data corrente (uma maneira de cindir com a realidade externa, ficando preservada no seu mundo interno).

O vínculo entre nós se estabeleceu rapidamente e fui buscar supervisão por não ter claro o que estava acontecendo com Olga.

“Anne Alvarez cita Stern ao que chama de estados mentais partilhados, tenha de preceder a empatia e a empatia tenha de preceder a simpatia”. (Trabalho apresentado na Sociedade Breasileira de Psicanálise de São Paulo – Níveis de Trabalho Analítico e Níveis de Patologia – abril de 2004)

            Segundo o supervisor as hipóteses motoras estavam corretas e o que eu não sabia decodificar estava no seu funcionamento psicótico e recomendou-me a leitura de um livro que foi marco na minha vida profissional: “Companhia Viva”de Anne Alvarez, Artes Médicas, 1994.

Ele me disse que este livro seria muito importante na ajuda de poder entender Olga e que ao mesmo tempo era o que ela necessitava, de “uma companhia viva”. Saí da supervisão preocupada, perguntando: Será que teria condições profissionais de atendê-la? O que será que significava ser uma companhia viva?

Já na primeira página do livro a autora diz:

“As crianças que tiveram a mente e o corpo danificados por intrusões de abuso sexual, violência, ou negligência e aquelas outras, muito diferentes destas, que foram prejudicadas por sua própria e misteriosa sensibilidade exagerada que as tornou extremamente vulneráveis a privações, podem viveniar um tipo de profundo desespero e ceticismo que requer um tratamento prolongado e põe à prova, ao máximo, a resistência do psicoterapeuta”.

E na página próxima ao sumário ela cita Bion:

“Não tenho dúvida nenhuma da necessidade de alguma coisa, na personalidade, que propicie contato com a qualidade psíquica. (W. Bion, 1962)

Três coisas me chamaram atenção nestas citações: Será que Olga havia sido negligenciada, ou será que fora prejudicada por sua própria e misteriosa sensibilidade exagerada? Ou ambas? E mais preocupante: Será que eu teria condições de aguentar e persistir, mesmo tendo tido um feedback de ser “uma companhia viva”? Será que teria a qualidade psíquica dita por Bion?

Como curiosa que sou, fui procurar o que seria um funcionamento psicótico e encontrei uma citação de Bion no livro “Conferências Clínicas sobre Klein e Bion” (pág. 104):

“A diferenciação entre a personalidade psicótica e a não-psicótica depende de uma cisão, em pedaços mínimos, de toda aquela personalidade que se relaciona com a percepção da realidade interna e externa, e da expulsão deste fragmentos, de forma que eles ou penetram em seus objetos, ou os engolfam”.

Também fui procurar o que era “uma companhia viva”, achando a resposta no próprio livro da Anne Alvarez, já citado acima, (pág. 71):

“O conceito de continência materna de Bion é o seguinte: ele descreve como a mãe, através de seu revèrie, faz um tipo de digestão mental que, devido aos seus processos digestivos mentais mais maduros, possibilita-lhe vivenciar de uma forma suportável a angústia, a raiva ou o medo do bebê (1962). Assim, ela é capaz, sem um superenvolvimento sujeito a pânicos frequentes, mas também sem um afastamento demasiado grande, de confortá-lo e acalmá-lo. Bion discute isso como função materna normal e comum. Todavia, é importante considerar algo mais: o que fazem as mães comuns quando seus bebês comuns estão deprimidos – isto é, não que eles estão expressando ou mostrando sua angústia, mas quando não conseguem fazê-lo porque perderam temporariamente o interesse ou a esperança e ficaram um tanto retraídos. Em minha opinião, as mães funcionam como alentadoras e estimuladoras de seus bebês”.

Entendi que a terapeuta deveria fazer o papel dessa mãe alentadora e estimuladora de seus pacientes, tornando-se uma “companhia viva”, quando eles não estão em condições de se interessarem pelo mundo externo.

Aceitei o desafio e iniciei o atendimento psicomotor. Olga vinha duas vezes por semana e comecei a entender o que a Anne Alvarez falava em por a prova a resistência do terapeuta, pois à menor frustração e contrariedade ela se negava a fazer os exercícios, mesmo quando havia sido ela quem tinha escolhido o queria fazer. Também quando já vinha com alguma contrariedade acontecida fora das sessões, com os seus pais, transferindo-a para mim. Na época não entendia muito de transferência, mas algumas vezes por intuição conseguia perceber o que estava acontecendo e traduzia para ela, às vezes aceitava, outras negava com veemência e outras ficava me olhando com um ponto de interrogação estampado no rosto. Aos poucos fomos nos entendendo melhor, as dificuldades de contato de ambas as partes foram cedendo e ela chegava na sessão com um sorriso e me perguntava: “O que temos para hoje?”

Aprendi com este caso clínico algumas defesas da posição esquizoparanóide, que se fizeram presentes desde o início, isto é, desde a avaliação motora: projeção, introjeção, cisão, idealização, negação, identificação projetiva e identificação introjetiva; principalmente a cisão, que aparecia com mais constância. Um exemplo disso apareceu numa das sessões de movimento, ainda trabalhando em psicomotricidade, Olga escolheu jogar “golfe”. Separou o material, bastões e uma bola pequena, colocou as regras e deu muita risada enquanto estava ganhando. Ao começar a perder, desanimou e pediu para mudar de jogo; afastando o principio de realidade, tentando e esquivar da frustração, fazendo uma cisão, para não lidar com a quebra do seu pensamento onipotente: “Eu criei esse jogo, portanto sou eu que tenho que ganhar, o jogo é meu!”

O trabalho psicomotor foi iniciado em junho de 1999 e gradativamente foram acontecendo modificações na sua postura, tanto ao nível físico, quanto nas reações e respostas ao que lhe era solicitado, parando para ouvir as instruções e realizar as atividades de maneira menos impulsiva; seu tônus muscular[3] foi se equilibrando e sua auto-estima progredindo, estabelecendo relacionamentos com os colegas de classe. Verbalizava que tinha medo de mostrar sua capacidade, nos momentos de maior dificuldade dizia que não queria crescer e que queria continuar sendo sempre cuidada pelos pais.

“A ansiedade psicótica infantil, principalmente a ansiedade paranóide (mais tarde muda o termo para ansiedade persecutória), é presa e modificada pelos mecanismos obsessivos que aparecem muito cedo”. (Klein, 1935, pág. 305).

            Este conceito explicava a avidez de Olga em se agarrar ao conhecido, menos persecutório, já que crescer significa lidar com o desconhecido, travar contato com outros objetos, com outra realidade, que não é a sua realidade, persistindo no mundo da fantasia. Por isso a sua perseveração em querer fazer sempre as mesmas coisas e até em repetir as palavras (ecolalia[4]), como para manter presente em sua mente algo já conhecido, afastando a persecutoriedade.

Por volta do final de outubro do mesmo ano, Olga parou de babar, sua hipotonia corporal[5] estava desaparecendo, ainda conservava a de mãos, e a escola me relatou que ela estava mais interessada nas atividades e já não se jogava no chão, fazendo suas lições sentada, e havia conseguido estabelecer amizade com uma colega.

Numa sessão em que escolheu trabalhar com argila, foram colocadas revistas velhas na mesa como forração, começou a folhear uma delas e se deparou com um bebê que tomava conta da página inteira, ela teve um acesso de raiva e amassou o rosto do bebê com argila, sujando toda a página. Quando terminou estava mais calma, procurou outra página e trabalhou tranquilamente com a argila, moldando um boneco. Interpretei que depois de ter colocado a sua raiva contra o bebê que ela não tinha podido ser, havia conseguido moldar um outro bebê mais integrado e aceito por ela. Depois deste evento, os pais não assinalaram mais sua pouca tolerância quanto às crianças pequenas, passando a se interessar em observá-las. Será que a relação transferencial com a terapeuta, que tentava ser uma companhia viva, deu-lhe suporte para elaborar a marca de um bebê que não correspondeu às expectativas dos pais? Ou será que pôde estabelecer a construção de um ego mais fortalecido, com capacidade para suportar melhor as frustrações entre o que havia estabelecido em fantasia, de projetar no objeto substâncias nocivas e introjetar como partes do seu self esses mesmos elementos, podendo neste instante construir de uma outra maneira e ser ver livre deles?

No ano seguinte, Olga mudou de escola, indo para longe de casa, permanecendo apenas meio período, numa escola alternativa, onde os alunos progridem por grupos e os conteúdos exigidos são conforme o avanço da classe.

Conforme eu ia adquirindo novos conhecimentos ao nível motor e pedagógico, propunha mudanças no atendimento aos pais e à criança, no que era correspondida de imediato, pois os ganhos no desenvolvimento da menina eram visíveis. Embora, a princípio, sempre houvesse uma certa resistência de Olga, em aceitar mudanças. Ficava motivada com a novidade para logo em seguida se negar a realizar a proposta, dizendo que era difícil. Nestes momentos eu dizia a ela que entendia o seu medo de algo novo, da mudança, mas que também estava vendo uma menina que estava querendo “moleza”e para isso teria que comer “pudim”ou “geladina”. Ela dava risada, executando os exercícios.

Na metade de 2002, já cursando o curso Formação em Psicanálise, no Instituto Sedes Sapientiae, chamei os pais novamente, conversamos sobre os ganhos e paradas de Olga e solicitei uma nova mudança, não mais um trabalho psicomotor, e sim um trabalho psicanalítico. Eles entenderam e concordaram; Olga foi quem teve mais dificuldade em entender, porque se acostumou com “um fazer atividades” e estranhou falar de seus sentimentos e dificuldades.

Depois de um ano e seis meses de análise, passou a contar mais sobre as coisas que aconteciam com ela na escola espontaneamente; ampliou seus relacionamentos com os colegas e ficava muito preocupada no final de semana quando permaneceria distante de seus amigos, que nossas sessões iriam custar a chegar, fazendo carinho na minha mão e muitas vezes não querendo ir embora, dizendo que não sabia para onde iria e com quem ficaria. Dizia-lhe para perguntar a sua mãe e ela o fazia na sala de espera.

Olga estava demonstrado com maior frequência as suas contrariedades, raivas e frustrações e reconhecia quando magoou outra pessoa, pedindo desculpas, muitas vezes fazendo um jogo de sedução; quando isto lhe era apontado dava risada e dizia que era verdade.

Não vinha demonstrado tanta ansiedade em relação ao tempo, portando-se muito bem quando a mãe se ausentou por quinze dias em viagem a trabalho. Tem-se voltado mais para o social, preocupando-se com os colegas, interagindo de modo mais efetivo, convidando-os no final de semana para irem ao cinema. Tem trazido perguntas, colocado suas dúvidas e ficado na expectativa das respostas, principalmente quando são inesperadas. Embora quanto à falta de ansiedade eu deveria ficar em alerta, porque Klein (1946) chama a nossa atenção:

“Essa falta de ansiedade em pacientes esquizóides é apenas aparente. Pois os mecanismos esquizóides implicam uma dispersão das emoções, inclusive da ansiedade, mas esses elementos dispersos ainda existem no paciente”. (pág. 40)

Isso foi se confirmando nas sessões seguintes: desapareceu a ansiedade quanto a questão do tempo, mas surgiram outras ligadas ao seu desenvolvimento, a necessidade de ajuda para lidar com a menstruação, com o namoro, com o luto de um corpo infantil, com a questão edípica, com a ambivalência da separação. Numa sessão conta que vai haver um acampamento com a escola e está excitada porque o colega de quem mais gosta também irá, ela irá dormir perto dele e ficar dois dias inteiros com ele; mas ao mesmo tempo está angustiada porque terá que faltar numa de nossas sessões.

Participando do seminário teórico, “Angústia e Superego Arcaico”, ministrado por Maria Luiza Persicano, ficou claro como a angústia (tradução de ansiedade, proposto pela professora) excessiva nos primeiros meses de vida prejudica o desenvolvimento do ego, interferindo no desenvolvimento das relações objetais. Klein acredita que as ansiedades esquizoparanóides dominam os primeiros três, quatro ou cinco meses de vida da criança e, por isso, chama esta fase de sadismo máximo, de “posição esquizoparanóide”. O ponto de fixação da doença psicótica está no final da posição esquizoparanóide e no início da posição depressiva; quando ocorre a regressão a pontos primitivos do desenvolvimento, perde-se o sentido de realidade e o bebê terá um funcionamento psicótico.

O conceito de posição depressiva e a sua ligação com os estados maníacos-depressivos, onde o bebê desenvolve os sentimentos depressivos durante e depois do desmame, o seio e o leite representando: o amor, a bondade e a segurança; pode também desenvolver uma melacolia em statu nascendi, perdendo tudo como resultado de suas incontroláveis fantasias e impulsos destrutivos.

Estes conceitos me ajudaram a ampliar o entendimento do caso que discuto: Olga não teve a atenção da mãe voltada para ela, como uma mãe continente, como uma “companhia viva”, já que estava mais empenhada em sua tese de doutorado; teve a atenção de avós que tentaram fazer a função materna, mas que não foi o suficiente para aplacar as angústias de Olga. Ela não conseguiu fazer o luto normal, perdendo o amor, a bondade e a segurança dados pelo seio bom, em razão de seus impulsos e fantasias destrutivas incontroláveis, projetando neste seio toda a sua angústia de aniquilamento, de desamparo. Na sua fantasia inconsciente fica a imagem de um bebê destruído, de um bebê que não deu conta de interessar a sua mãe numa relação de troca, criando um processo de cisão para dar conta das angústias persecutórias que a invadiam constantemente.

[1] Disfunção motora – termo utilizado em psicomotricidade para designar a falta de coordenação motora dinâmica ou motora fina, ou ambas.

[2] Freio inibitório – é a parada que o sujeito deve fazer para acompanhar um ritmo, por exemplo; ou para parar de escrever, de pintar, dentro de um espaço delimitado; ou para saber qual tipo de comportamento mais adequado para um determinado momento.

[3] Tônus muscular – é a tensão que colocamos na nossa musculatura, que nos auxilia na manutenção da nossa postura: sentada e em pé; muito relaxado causa a hipotonia, muito tenso causa a hipertonia. O ideal é o tônus equilibrado.

[4] Ecolalia – é um distúrbio de linguagem, onde o sujeito que a apresenta repete a última palavra dita pelo seu interlocutor, ou a última frase. Não porque não entendeu, mas por perserveração, uma maneira de confirmar aquilo que ouviu, fazendo “eco”do que escutou.

[5] Hipotonia – é o relaxamento excessivo dos grandes músculos, parecendo não haver um esqueleto muscular, como se o indivíduo fosse só osso e carne; não há contratura muscular e a aparência é de um sujeito que se arrasta, como se não tivesse força suficiente para se sustentar.

Comentários desativados em MUDANÇA DE VISÃO E DE ESCUTA (Relações Objetais, Ansiedade e Defesas).

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“SE CORRER O BICHO PEGA, SE FICAR O BICHO COME”

“SE CORRER O BICHO PEGA, SE FICAR O BICHO COME!”

 

         Em 1990, eu fazia parte de uma equipe multiprofissional formada por psicólogo, fonoaudióloga, psicopedagoga e psicomotricista.

Fomos procurados por um advogado, que na época, estava com 45 anos de idade, havia passado por um episódio de acidente vascular cerebral e conseguido se recuperar totalmente. Ele era casado com uma senhora de sessenta anos de idade e não haviam gerado filhos durante os vinte anos de casamento.

Resolveu então adotar uma criança porque, como conseguiu escapar do derrame, queria dar continuidade à família. Também não poderia ser uma criança muito pequena, porque sua esposa, já em idade avançada, não teria condições de cuidar de um bebê. Conversou com um colega advogado, que trabalhava na vara de menores, e ele lhe falou de uma menina que estava na FEBEM.

Foi conhecer a menina e gostou dela à primeira vista, só não a levou para casa imediatamente porque a assistente social o impediu, dizendo-lhe que a esposa também deveria conhecer a menina e seria necessária a aprovação dos dois.

Conseguido a aprovação da esposa, como advogado e sabendo dos trâmites, obteve a guarda quase que imediata da menina. Levou-a a médicos, dentista e agora estava trazendo-a para a clínica, onde na ocasião eu trabalhava, porque gostaria de saber se era possível recuperar sua defasagem cultural.

A criança, a quem chamarei de Juliana, tinha, supostamente, dez anos. A avaliação da idade foi feita por um dentista, através da arcada dentária. Ela havia sido trazida de uma cidade do interior, tinha por volta de sete anos, e abandonada pelos pais numa praça de São Paulo, sendo encaminhada para uma das unidades da FEBEM.

Na primeira entrevista somente o pai adotivo entrou na sala, porque trouxeram a menina e a mãe ficou com ela na sala de espera; apesar de terem sido orientados para não trazerem a criança, ele alegou não ter com quem deixar. Contou do acidente que sofreu e da razão da adoção, queixando-se que Juliana falava muito errado e ainda estava na segunda série do primeiro grau.

Na segunda entrevista marcada com o casal somente a mãe adotiva compareceu, deixou a menina na casa de um parente e o marido não pode vir porque estava trabalhando. Queixou-se de sua idade, havia passado por uma operação recentemente, sofria de depressão e tomava muitos remédios. Tentaram por vários anos uma gravidez, mas também não investigaram a causa, ficando essa elucidada quando teve que fazer uma cirurgia no baixo ventre e foi constatado que tinha o útero virado. A princípio não queria a adoção, mas o marido insistiu tanto e já estava tão apegado à criança que não havia mais jeito. Compraram roupas, sapatos, bonecas, etc.. A menina a todo o momento abria o guarda-roupa e contava os vestidos para ver se não havia sumido nenhum; porém também perdia as coisas com muita facilidade, tinha perdido dois lenços dos quatro que haviam comprado; ela suava muito nas palmas das mãos e no nariz. Chegou muito malcriada, respondia e batia as portas com força, não queria fazer a lição de casa, então tiveram que dar muitos corretivos, bater e colocar de castigo, até que melhorou. Agora, estava muito prestativa, ajudava nas tarefas de casa, fazia as lições da escola e escrevia num caderno as palavras que falava errado várias vezes; também tiveram que ensinar como fazer a sua higiene, pois veio como um “bichinho do mato”.[1] Ela ensinava algumas coisas e o marido outras, por exemplo, ela ensinou à Juliana a escovar os dentes e o marido ensinou-a se lavar e todo o dia na hora do banho ele ficava olhando para ver se ela fazia direito.

Uma coisa que contou, com certo constrangimento, foi que algumas vezes, a menina se colocava de cócoras em cima da cama do casal, abaixava as calcinhas e pedia que ela lhe batesse no “bumbum” com bastante força; perguntado onde havia aprendido aquilo, disse ter sido na FEBEM, que os monitores faziam isso com todas as crianças, principalmente com as meninas. Juliana também tinha lembranças de sua família, contando que moravam num barraco e que todos dormiam na mesma cama e que muitas vezes presenciara a cena primária entre seus pais e que uma vez viu uma gata parir e saiu muito sangue, mas não se lembrava do nome da cidade onde morava com os pais, ela era a do meio, entre cinco irmãos (SIC).

Juliana era uma menina de pele clara, olhos amendoados, não demonstrava ter a idade calculada pelo dentista, parecia ter entre oito e nove anos, franzina, seus botões mamários começavam a despontar; um pouco arredia e tímida, pouco falava, respondendo apenas às questões que lhe eram formuladas. Nos testes psicológicos, motores e pedagógicos apresentou regressão, entre seis e oito anos, mas não havia rebaixamento intelectual, o que realmente a prejudicava era a falta de estimulação e de informação.

Na devolutiva com os pais, informamos os nossos pareceres sobre a menina, propusemos um trabalho psicopedagógico e emocional e orientamos aos pais quanto à higiene da criança, já que ela era do sexo feminino, este encargo deveria ficar por conta da mãe. O pai poderia ajudar nas lições de casa, por exemplo. Lembro-me que a equipe discutiu muito a respeito do assunto, se deveria fazer ou não esta orientação.

Os pais não disseram quase nada durante a devolutiva, somente trocaram olhares na orientação da higiene da criança e ficaram de pensar quanto à questão do atendimento, porém nunca mais tivemos notícias de Juliana.

Naquela ocasião várias questões me inquietavam quanto ao destino daquela criança, abandonada pela família talvez por serem muito pobres, uma boca a menos para sustentar; colocada numa instituição cujo objetivo é reeducar crianças infratoras e acolhê-las, mas que sabemos que está muito longe deste propósito, embora não fosse infratora, aprende ali rituais pouco convencionais para uma menina de dez anos; é adotada por um casal atípico, com uma diferença de idade que sugere algo muito estranho quanto à escolha de objeto e que no momento da adoção estavam passando por uma crise conjugal, ela já velha e doente e ele querendo viver a todo vapor, já que a vida tinha lhe dado um alerta de que “para morrer basta estar vivo.” Veio a minha mente o provérbio popular de quando nos sentimos acuados e sem saída: “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come!” Era assim que eu conseguia enxergar o destino desta criança.

Durante o seminário teórico sobre perversão, várias vezes este caso voltou a minha memória e fui buscar no meu arquivo se ainda tinha guardado o relatório que faço com o resumo de cada caso que atendo. Para minha surpresa lá estava ele, folha amarelada pelo tempo, letras apagadas, porque a impressora era de fita e não a jato de tinta. E vieram outros questionamentos:

  • Por quê um casal abandona um filho numa praça de uma grande cidade, deixando-o no desamparo total? Perversão, ou perversidade?
  • Por quê um homem jovem, com vinte e cinco anos, casa-se com uma senhora com quarenta anos, o que estará por trás dessa escolha de objeto?
  • Por quê, depois de uma grave doença, vai buscar uma menina de dez anos para adotar? Será que era mesmo para dar continuidade à família, ou por quê sua esposa já estava velha e não poderia mais corresponder aos seus desejos incestuosos?
  • O ritual da menina, contado pela mãe adotiva, não lembra o texto de Freud – “Uma Criança é Espancada”?
  • Por quê na primeira entrevista os pais trouxeram a menina? Será que não queriam ser confrontados ? Temiam caírem em contradição?
  • Por quê será que a esposa aceitou a adoção, mesmo contra a sua vontade?
  • Por quê era ele quem cuidava da higiene corporal da menina e não ela? Por quê nos contou este fato?
  • Por quê querendo tanto ajudar à criança na “defasagem cultural”[2], não deram continuidade ao trabalho proposto?
  • Por quê demonstraram indignação ao serem orientados na troca de papéis quanto aos cuidados com a menina?

 

Poderíamos fazer muito mais perguntas a respeito deste caso, mas acho que por hora já tenho muito em que me ocupar, e mesmo assim vamos ver se darei conta de responder a todas elas.

Respondendo a primeira delas, alguns autores dizem que perversão não tem nada haver com perversidade, mas um casal que não se importa com os filhos, sendo estes apenas consequências da pulsão sexual, que é o gozo, que não se importa em ter relações sexuais mesmo com a presença deles na cama e que não pensa se terá condição de sustentá-los ou não, e quando a fome apertar será capaz de abandoná-los numa praça pública, numa grande cidade, isto não é perversão? Acho que sim, e nenhum sociólogo me fará mudar de idéia dizendo que a grande culpada é a falta de educação, a exposição à miséria constante que os fazem agir dessa maneira. Será? Então por quê outros com o mesmo tipo de vida, a mesma pobreza, não são capazes de abandonarem os filhos? Todos ficam juntos, ainda que passando fome. Abandonar uma criança, deixá-la no desamparo total não é negar-lhe a sua filiação, não é negar as suas características? Segundo Hanna Arendt (apud Maria Helena Saleme – Perversão: algumas reflexões):

 

“…na perversão o mal se tornou banal.”[3]

Ainda neste mesmo artigo ela cita outros autores, como Roberto Stoller, que definem perversão pelo desejo de fazer o mal, porque o gozo estaria em acabar com a qualificação do objeto; isto, sim, é fazer o mal. Nestes autores, o sadismo seria o componente primordial da perversão. Saleme prefere pensar que o mal é um acidente de percurso e não um objetivo, embora nestas pessoas o sofrimento do outro não provoque paralisação e sim excitação, o perverso passa ao ato sem culpa, pois não se identifica com a dor do outro.[4]

Fico imaginando a cena, um casal com vários filhos, tentando distrair uma garotinha entre seis e sete anos de idade, para que ela não perceba que está sendo abandonada. E ao constatar que seus pais e irmãos não estão mais ali, qual será a fantasia desta criança? Por quais sofrimentos deve ter passado? Será que este mesmo casal não voltou outras vezes a São Paulo para repetir o mesmo ato anterior, porque novamente a prole cresceu e não têm como sustentar, ou abrigar? Por quê será que Juliana foi à escolhida e não um outro de seus irmãos? Será que este casal, em nenhum momento sentiu culpa? Acho que não, porque no perverso a pulsão sexual fala mais alto.

Para responder a minha segunda questão recorro à escolha de objeto, que recairá na maioria das vezes sobre o objeto de apoio na primeira infância, sem necessariamente ter que ser tão fidedigno e concreto como o casal do qual estamos falando se nos apresenta; sugerindo uma tendência para a substituição da mãe, ou quem sabe uma recusa à castração, havendo apenas um deslocamento de objeto, já que não pode casar com a própria mãe, casa-se com alguém mais próximo de sua idade e que poderia funcionar como a mãe que ele não quer abandonar. A respeito disso Freud vai fazer uma formulação da função da recusa:

 

“Esta anomalia que se pode colocar entre as perversões baseia-se, sabe-se, no fato de que o paciente trata-se quase sempre de um homem – recusa-se a crer na falta de pênis na mulher, sendo para ele essa falta muito penosa porque prova a possibilidade de sua própria castração. É por isso que ele recusa-se a admitir, apesar do que a sua própria percepção sensorial permitiu-lhe constatar, que a mulher seja desprovida de pênis e se entrega à convicção oposta. Mas a percepção, ainda que negada, não deixou de agir e o sujeito, apesar de tudo, não ousa pretender que viu realmente um pênis. O que ele vai fazer? Ele escolhe alguma outra coisa, uma parte do corpo, um objeto ao qual atribui o papel desse pênis do qual não pode se abster. Em geral, trata-se de algo que o fetichista viu no momento em que olhava os órgãos genitais femininos ou de um outro objeto suscetível de substituir simbolicamente o pênis (…) Trata-se aí de um compromisso estabelecido com o auxílio de um deslocamento análogo àqueles que o sonho nos familiarizou. Mas nossas observações não param por aí. O sujeito criou para si um fetiche a fim de destruir toda e qualquer prova de uma possibilidade de castração, e para assim escapar ao medo da castração. Se, como outras criaturas vivas, a mulher tem um pênis, não há razão para temer que seu próprio pênis lhe seja tirado.”[5]

 

Talvez o seu fetiche seja a idade avançada da esposa, que corresponderia à idade da mãe, ou quem sabe a grande diferença de idade; o que nos levaria para a resposta da terceira questão. No momento em que sua esposa está velha e doente, já não mais corresponde ao seu fetiche, ele casou-se com a sua mãe e não com a sua avó. Está ainda no vigor da idade e a vida o confronta com o princípio de realidade, ele também está fadado a morrer, precisa compensar estes vinte anos em que esteve casado com a mãe, precisa agora de um objeto jovem que o faça reviver os anos de juventude perdidos, mas alguém que não ameace o seu casamento, que mantenha o status quo.

Sabe-se lá qual informação que pediu ao amigo advogado da vara de menores, a respeito do objeto ao qual estava interessado, e porque se apaixonou à primeira vista. O que sabemos foi que esta menina se encaixava perfeitamente em seus planos, não tinha registro, fora abandonada pelos pais, não sabia dizer em que cidade morava e seu nome de família; havia passado por uma instituição que não lhe proporcionou grande ganho, pelo contrário, aprendeu ritual atípico, enfim não tinha a quem recorrer e não haveria do que reclamar. Ensiná-la a se banhar e ficar observando se o fazia direito não era nada se levando em conta o que ela já havia passado.

“Um sentimento de culpa é invariavelmente o fator que converte o sadismo em masoquismo. Certamente, porém, não é este conteúdo total do masoquismo. (…) ‘O meu pai me ama’ queria expressar um sentimento genital; devido à repressão, converte-se ‘O meu pai está me batendo’ (estou sendo espancado pelo meu pai). Esse ‘ser espancado’ é agora uma convergência do sentimento de culpa e do amor sexual. Não é apenas o castigo pela relação genital proibida, mas também o substituto regressivo daquela relação. Deriva a excitação libidinal que se liga à fantasia a partir de então, e que encontra escoamento em atos masturbatórios, que é a essência do masoquismo.”[6]

 

Juliana havia presenciado a cena primária várias vezes, possivelmente o que lhe despertou a sexualidade bem cedo; fora abandonada pelos pais desenvolvendo um sentimento de culpa terrível, o que será que ela havia feito para ser desamparada daquela maneira, possivelmente a fantasia de ser espancada aliviava este sentimento horroroso, do qual era vítima. Quando na FEBEM lhe impigem tal castigo, o ato vem ao mesmo tempo como uma punição e como uma satisfação auto-erótica. Dar continuidade a ele, pedindo que sua mãe adotiva repita o mesmo gesto, é colocar-se duplamente nas mãos de seu algoz. Porque ela também recebia corretivos quando era malcriada e batia as portas com força, pelo menos que fosse do jeito que sentia mais prazer.

Respondendo a minha quinta pergunta, lembrei-me que quem marcou a entrevista por telefone foi o pai adotivo, a quem foi solicitado que não trouxesse a criança na mesma. Como advogado talvez tenha fantasiado uma espécie de acareação, onde ele e a esposa iam ser interrogados do por quê da escolha desta criança para adoção e tinha medo das respostas da esposa comprometer todo o seu plano, sabendo que ela não estava de acordo e havia aceitado por imposição dele, tendo se submetido a um casamento de 20 anos e estando agora com idade avançada, numa posição mais de ser cuidada do que de oposição. Trazendo a menina para a primeira entrevista não correria o risco de ser denunciado, pois alguém teria que ficar com ela na sala de espera, pelo que pudemos desprender da segunda entrevista, a posteriori, realizada apenas pela mãe, onde se arranjou um lugar para Juliana ficar e ele tinha a desculpa do trabalho. Segundo Jean Clavreul quando nos perguntamos o que acontece com o parceiro do jogo perverso:

 

“É claro que é como portador de um olhar que o Outro será o parceiro, ou seja, antes de tudo o cúmplice do ato perverso. Aqui tocamos naquilo que distingue radicalmente a prática perversa em que o olhar do Outro é indispensável porque é necessário à cumplicidade, sem o que não existiria o campo da ilusão, e o fantasma perverso, que não somente se adapta muito bem à ausência do olhar do outro mas exige, para concluir, satisfazer-se na solidão do ato masturbatório. Se o ato perverso distingue-se sem equívoco do fantasma que age, é portanto nesta linha em que se inscreve o olhar do Outro que distinguimos suas fronteiras, olhar cuja cumplicidade é necessária para o perverso, enquanto é denunciador para o normal e para o neurótico.”[7]

 

Ela não deveria denunciá-lo, pelo menos não na sua frente e nem na primeira entrevista, porque não poderia correr o risco de ser reforçada pelos profissionais que a decisão deveria ser tomada em comum acordo, já que a adoção de uma criança dependeria do compromisso do casal e não só de uma das partes. Ele queria a cumplicidade dos profissionais, a da esposa ‘por direito’ já tinha, mesmo sem tê-la.

A sexta questão, ela mesma nos responde em sua entrevista no manifesto: “A princípio não queria a adoção, mas o marido insistiu tanto e já estava tão apegado à criança que não havia mais jeito.” O que ela nos dizia no latente era que não dava para bater de frente com um homem apaixonado e com quem não tinha voz ativa, nunca teve, ela era apenas o objeto de um desejo que já havia passado e sabemos que o mais inconstante na vida do perverso é o objeto, o ponto de fixação é o fetiche, mas o objeto é mutável.

 

“Uma conclusão importante de Stoller, apud Ferraz, é a de que todo o trabalho de construção da fantasia a ser encenada pelo perverso tem por corolário a desumanização do objeto sexual. Este não é e nem pode ser – sob pena de colocar em risco a montagem perversa – encarado como pessoa ou alteridade. Muito embora, na prática, o objeto seja uma pessoa real com sua personalidade, o perverso nele procura vislumbrar uma criatura sem humanidade ou simplesmente um fragmento anatômico ou de personalidade. Isto explica por que o objeto é sempre descartável. (…) Em relação ao fragmento anatômico, Stoller parece referir-se ao que Freud chamava de objeto parcial: um órgão sexual ou qualquer outra parte do corpo do parceiro.”[8]

 

Ela nos conta que o marido é quem cuida da higiene pessoal da menina, principalmente do banho, respondendo a minha sétima questão, porque está com ciúmes. O marido não trouxe uma filha para casa, trouxe uma amante, ou uma futura amante, e ela sabe que foi destituída do lugar do desejo.O seu papel agora é de espectadora e tem se conformar com isto ou ficar no desamparo, depois de vinte anos de casamento. Ou agora, ela foi colocada no lugar da mãe? Da mãe que assiste ao filho tomar outra mulher como esposa?

“Para Stoller, a perversão masculina é, no fundo, um transtorno de gênero construído sobre uma tríade da hostilidade: raiva, medo e vingança. O menino tem raiva da identificação inicial com a mãe, tem medo de não conseguir escapar de sua órbita e almeja vingar-se dela porque sente que ela o colocou nessa condição.”[9]

 

Respondendo as minhas duas últimas questões, talvez eles tenham vindo buscar cúmplices para o seu ato perverso, na esperança de alimentarem a sua ilusão, de que estavam fazendo o ‘bem’ para aquela criança; ao serem denunciados na orientação da higiene que não estava de acordo com a moral comum, foram pegos de surpresa e não tiveram outra alternativa do que postergar uma decisão que não mais seria tomada, pelo menos com aqueles profissionais, de ajudarem a uma criança a se desenvolver sadiamente. Porque não era isto que buscavam. Isto reforça a minha posição de ter sido a mãe adotiva a denunciar, talvez por ciúmes e, com a esperança de voltar a ser o objeto de desejo de seu marido.

Triste destino desta menina, ser abandonada pelos pais e ficar numa instituição que nada tem de recomendável, ou ser adotada por um casal que ao meu ver formam um par perverso, será que se sentiu amparada por eles, ou foi mais um dos objetos parciais na mão destes ‘pais’, se é que podemos chamar isto de pais? …Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come…

 

[1] Grifo meu, fala da mãe adotiva.

[2] Grifo meu.

[3] Citação do livro “Eichmann em Jerusalém. Um Relato Sobre a Banalidade do Mal” de Arendt Hannah – 1963 – Companhia das Letras – São Paulo – 2000. No artigo de Maria Helena Saleme – “Perversão: algumas reflexões.”

[4] Stoller – “ Lê désir de faire mal” – Paris, Gallimard – 1980 – apud Maria Helena Saleme, no mesmo artigo citado acima.

[5] S. Freud, “Breve Resumo da Psicanálise”, volume XVIII, S.E., pág 139/207.

[6] S. Freud – “Uma Criança é Espancada” – Volume XVII – 1919 – p. .225

[7] J. Calvreul – “O casal perverso” – 1967 – p.132

[8] Stoller apud F. C. Ferraz – “Perversão” – Casa do Psicólogo – 2001- p..59.

[9] Idem ao item anterior, p. 62

Comentários desativados em “SE CORRER O BICHO PEGA, SE FICAR O BICHO COME”

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A MEDICALIZAÇÃO DA VIDA E O IDEAL DA SAÚDE PERFEITA

Resumo do artigo de Rogério Paes Henriques e alguns comentários de Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu; do livro: “A Fabricação do Humano”.

 

Quando li o texto de Rogério Paes Rodrigues, muitas questões inquietaram-me; principalmente porque a medicalização é um tema da moda, despertando paixões. Também sou paciente crônica e como tal sujeita a medicalização para o restante da minha vida, mesmo que os medicamentos causem sérios efeitos colaterais e os médicos nem saibam realmente se ministrando alguns dos remédios viverei mais tempo ou não; ou se não morrerei por “eficácia” dos mesmos.

            Não sei se vocês estão ao par, mas os médicos não aprendem farmacologia na faculdade de medicina, quem aprende são os famacêuticos. Os médicos ficam sabendo dos medicamentos pelos vendedores, representantes farmacêuticos, que batem nas portas de seus consultórios e lhes falam da nova droga lançada no mercado por esta ou aquela indústria e que “opera milagres”. Entretanto eles não sabem dos efeitos colaterais e que a combinação de drogas diferentes pode causar danos sérios aos pacientes. E também que cada paciente, biologicamente, é único e o que serve para um, pode não ser o recomendável para outro.

Voltando ao texto, Rogério vai dizer que apesar de ser tratada como a nova vilã por alguns, como a nova panacéia do mundo contemporâneo, por outros, a medicalização resiste à redução aos extremos de seu espectro. O autor irá tomá-la como uma metáfora que constitui um ponto fixo, que ordena as queixas ao saber médico, tomado como dispositivo de controle social.

A medicalização reflete a preocupação obsessiva do contemporâneo com a norma e com os processos de normalização, dada a atual modalidade disciplinar do poder, que implicou sua horizontalização. Eu diria: “massificação”.

Segundo Rogério, há um consenso entre os estudiosos do assunto de que a medicalizacão resulta de problemas sociais, frequentemente associados ao corpo e que colocam dilemas morais (seja o desvio da norma, sejam as fases e os processos de vida), que vêm a ser reformulados como problemas médicos, sendo ressignificados como moléstias, perturbações, distúrbios, transtornos etc.

São fatores que influenciam os níveis da medicalização: disponibilidade de intervenções e tratamentos médicos específicos, existência de definições/explicações concorrentes (presença de grupos que desafiam a opinião médica), cobertura pelos planos de saúde – que abrangem somente tratamentos para problemas “médicos”.

Conrad (1992) assinala dois aspectos que historicamente favoreceram a medicalização nas sociedades industriais modernas. O primeiro diz respeito à secularização, o saber médico tomou o lugar da religião enquanto novo ideal, e a prática médica tornou-se a instância repressiva nessas sociedades – com o avanço da racionalidade científica e tecnológica, muitos fenômenos têm tido seu estatuto ontológico transformado do pecado para a doença; assim, o ideal da saúde como nova moral que recai, por exemplo, sobre a obesidade e a sexualidade, assemelha-se muito à moral cristã, que concebe respectivamente a “gula” e a “luxúria” como pecados capitais.

O segundo é a atual amplitude da medicalização relaciona-se à criação de novas ofertas de serviços pela própria medicina, cuja praxis, vem deslocando paulatinamente o seu enfoque da doença para a saúde, do patológico para o normal – a medicina predominantemente curativa e quando muito preventiva, vem se tornando, a cada dia, mais preditiva, chamada “medicina da vigilância”.

Assim, os processos de medicalização em jogo a partir da segunda metade do século XX substituiram a tradicional oposição binária bem/mal por outra: saudável/doente, como quadro cultural e conceitual maior do Ocidente.

Os conceitos de “vulnerabilidade” e “risco” são os principais responsáveis pela expansão da medicalização na contemporaneidade. Trata-se do que os anglicanos denominam healthicization ou, em português do Brasil, “promoção da saúde”.

Será que esta massificação da medicalização é realmente “promoção da saúde”? Tenho cá minhas dúvidas… Se cada vez mais a medicina diminue os índices do que antes era considerado ideal de saúde, como saber se não estão apenas querendo medicalizar algo que antes era aceito como normalidade? Por exemplo: antes era considerado dentro das normas de saúde quem tinha um índice de açúcar no sangue até 110, atualmente esse índice baixou para 90. Pergunto, baseado em quê?! O que também acontece com os índices de colesterol: bom/ ruim/ e total, estão sendo abaixados, e estudos recentes apontam que o vilão da alta taxa de mortalidade coronária não é o colesterol, mas o triglicéries. Isto falando da saúde física e na saúde mental? O DSM V nos apresenta como doenças, o que antes era considerado como transtorno, por exemplo.

Segundo Conrad (1992), a promoção da saúde nada mais é que uma atualização da medicalização clássica, à luz da contemporaneidade. Clarke et al. (2000) sugerem o termo “biomedicalização” para referirem a tal atualização.

A biomedicalização possui relações acumulativas e não excludentes com a medicalização, não havendo descontinuidade histórica nem necessidade de distinção conceitual entre ambas; trata-se de sobreposição do que de ruptura conceitual.

Um dos sintomas da medicalização na atualidade é a definição ampliada do conceito de saúde pela Constituição da Organização Mundial de Saúde (OMS) como “completo bem-estar físico, mental e social e não mera ausência de doença ou enfermidade”.

A saúde assume o lugar de novo ideal na medida em que sua atual definição como bem-estar, que demarca claramente sua inatingibilidade, é diretamente proporcional à proliferação exaustiva de práticas promocionais com vistas a atingi-la.

A noção de saúde como “completo bem-estar” remete-nos à regulação pelo que Freud denominava de “princípio do prazer”, ilustrada no conto do escritor argentino Jorge Luis Borges, O Imortal (Borges, 2008). Nele, o narrador protagonista após exaustiva busca pela Cidade dos Imortais, frusta-se com o que se depara ao encontrá-la – trata-se de uma cidade triste e monótona onde a inércia e a nadificação imperam, efeito do gozo da eterna longevidade… O conto nos possibilita indagar: seria tal estado de completo bem-estar atingido pelos imortais e sua correlata salubridade perfeita, compatíveis com a vida? Borges revela-nos que há um “além do princípio do prazer”que insiste, a despeito do ideal de saúde perfeita ter sido ficcionalmente alcançado.

Parens (2011) assinala que “medicalização” é um conceito sociológico descritivo e não se trata de algo bom ou ruim per se; bom e ruim são os usos que se fazem dela e é necessário distinguir a boa da má medicalização, sendo está uma das tarefas centrais da bioética.

O que se questiona é: (1) a medicalização de condições existenciais, isto é, a patologização da diversidade/variabilidade humana a partir de categorias de transtornos de etatuto ambíguo, tão ao gosto da nosografias psiquiátricas atuais; (2) a medicalização advinda do chamado “programa forte” das neurociências, responsável pela emrgência do cérebro como ator social, isto é, do cérebro como objeto de identificação, semblante da subjetividade contemporânea (“Eu sou o meu cérebro!”).

No rastro da medicalização da vida, alguns autores vêm assinalando supostas transformações profundas nos “sujeitos” contemporâneos. O senso de nós mesmos como seres “psicológicos”que desenvolvemos ao longo do século XX – de possuirmos uma psique formulada pela biografia e experiência, fonte de nossa subjetividade e locus de nosso descontentamento – estaria sendo suplementado pelo que vem chamando de “sujeito somático”.

Enquanto os descontentamentos puderam, anteriormente, ter sido mapeados em um espaço psíquico – o espaço do conflito por excelência – eles são, agora, mapeados sobre a superfície corporal ou sobre um órgão particular desse corpo, o cérebro (Rose, 2003). Tal concepção vem sendo bastante difundida entre os chamados psicólogos cognitivistas, que “redescobrem” o cérebro como objeto da psicologia.

Ehrenberg (2009) designa essa subjetividade emergente na contemporaneidade que subjaz ao programa forte das neurociências de “sujeito cerebral”. Esse autor considera equivalentes a “fetichização do cérebro” pelas neurociências e do “si mesmo” pelas ciências sociais, sobretudo, na vertente da antropologia médica de inspiração foucaultiana. O que Ehrenberg pretende desconstruir é o “mito individualista da interioridade”, seja na sua versão psíquica (substancialista) seja cerebral (materialita), para ele equivalentes. Ele faz coincidir o sujeito psicológico e o sujeito cerebral em torno do eixo comum da “interioridade”, segundo o qual “o cérebro é a versão materialista da totemização da personalidade”.

Segundo Cabas (2009), o sujeito freudiano é um correlato da pulsão, um efeito da satisfação (em tempo: do gozo). Que o lugar do sujeito é congruente com a fonte pulsional. Que sua materialidade é da ordem de um buraco. Que sua substância é da ordem de um furo e que, por tudo isso, o sujeito freudiano é – em última instância – um dos efeitos do real.
O sujeito da psicanálise é da ordem de um vazio, dado que “seu desejo não procede de nada consistente, mas só da pura falta da Coisa”, e na medida em que “a fonte pulsional gira em torno de um vácuo que nada pode saturar”, sendo sua vacuidade estruturante que possibilita a formatação do eu como função imaginária e constructo sócio-histórico, Cabas (2009).

A essência do sujeito da psicanálise ( se é que há alguma) é justamente a sua impossibilidade de substancialização, seja psicológica, via “tiranias da intimidade”, seja corporal/cerebral, via “subjetividades somáticas”, seja outra qualquer: se o sujeito freudiano for ‘algo’, esse ‘algo’ é a repetição [pulsional]. A repetição d’Isso que se impõe. Donde o sujeito se define em relação ao Isso. Significa que não existe por si. Sua chance […] é de advir ali onde o Isso era. A tal ponto que se fosse ‘alguém’ e se apresentasse falando na primeira pessoa, ele – o sujeito freudiano – diria: ‘Isso sou’. (Cabas, 2009).

O sujeito “somático” (nova configuração do eu ideal contemporâneo) confere uma ilusória consistência ontológica ao sujeito, identificando-o ao corpo biológico (ou, mais especificamente, a uma parte dele, o cérebro) e o alçando a mero semblante. Clinicamente, isso produz seus efeitos. Concluímos com o relato, à la Molière, de um médico psiquiatra que, ao perguntar a sua paciente se os antidepressivos que lhe havia prescrito estavam funcionando, ouviu dela: “Sim, eles estão funcionando bem… Sinto-me muito melhor. Porém, ainda estou casada com o mesmo alcoolista filho da puta. Só que, agora, consigo suportá-lo”. (Parens, 2011). Para além desse eu medicalizado, há a insistência de um sujeito que nada quer saber-fazer com Isso. Pergunta minha que não quer calar: “Qual foi o ganho da medicalização para essa paciente”?!

 

REFERÊNCIAS: páginas 93 e 94 do livro: “Fabricação do Humano”.

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“QUEM SÃO OS ESTRANHOS OU OS ESTRANGEIROS: É O OUTRO, OS OUTROS OU SOMOS NÓS MESMOS?!”

No artigo de Maurício Rodrigues de Souza, no livro: “A Fabricação do Humano”, ele compara um artigo de Freud, 1919, com um filme dirigido por Sofia Coppola, vencedor do Globo de Ouro e do Oscar de melhor roteito em 2004, “Encontros e Desencontros”.

A intenção do autor é debater as imbricações entre inconsciente e cultura, porque na virada do século XIX para o XX aconteceram os primeiros escritos de Freud e Breuer sobre a histeria e, também a projeção de imagens dos irmãos Lumière.

Para Maurício é a espantosa e necessária a capacidade de criação de uma realidade alucinatória que aproxima o sonho e a projeção cinematográfica da psicanálise. O seu foco recairá sobre os sabores e dissabores do trato com a alteridade, direcionando o olhar para a possibilidade presente tanto na clínica analítica quanto no filme em questão, do encontro com o inominável de si mesmo por intermédio de um estrangeiro. Trata-se de um entrechoque dialético entre o estranho mais íntimo e o íntimo mais estranho, vinculado ao processo primário, à lógica do inconsciente.

Para falar sobre alteridade em psicanálise, o autor irá buscar um escrito de Freud, 1919, traduzido como: “O Inquietante”, “O Estranho”, ou “O Sinistro”. Este texto apresenta uma ética peculiar à psicanálise: ao debater a alteridade, não aborda exatamente um estrangeiro, mas detecta a estranheza do inconsciente enquanto inominável de nós mesmos.

“O Inquietante”tem uma característica que o individualiza, trata-se de um texto que funciona como “dobradiça” entre as chamadas primeira e segunda tópicas freudianas, ocorrendo reformulações teóricas em dois planos: o tópico e o econômico. No tópico houve a organização do aparelho psíquico em “instâncias”; no econômico há o confronto da libido com as demandas de renúncia impostas pela cultura; sendo incluido ente as “instâncias”psíquicas o conceito de superego.

Freud havia proposto inicialmente a dominância do princípio do prazer, teorizando que todo organismo tenderia alcançar um grau estável de tensão mínima. Porém, a sua experiência clínica levou-o a questionar estas idéias e a acrescentar o que denominou de compulsão à repetição, uma tendência do psiquismo à reprodução de experiências desagradáveis e inviabilizadoras de satisfação.

“O Inquietante” representa uma importante transição na metapsicologia freudiana, precedendo a reorientação teórica da psicanálise rumo a uma nova teoria das pulsões. Agora a vida psíquica seria regida por dois princípios simultaneamente antitéticos e complementares: as pulsões de vida e morte. Neste texto, Freud, privilegia a questão aos domínios da estética – particularmente a literária.

Encontramos Freud (1919) às voltas com a capacidade da obra de arte de causar em nós a sensação de uma desconfortável inquietude, experiência esta relativa àquilo que seduz e, ao mesmo tempo, aterroriza. Todo prazer seria misturado, heterogêneo, havendo um estranhamento dos limites entre “positivo”e “negativo”.

Freud propõe duas vias para o estudo da sensação de dessassossego despertada pela criação artística. Uma de cunho etimológico, voltada ao desenvolvimento desta palavra no contexto de variadas culturas. Outra procurando elucidar uma essência do sinistro a partir da reunião de características particulares de coisas, pessoas e vivências capazes de despertar em nós tal impressão.

Freud utiliza o conto: “O homem de Areia”, do escritor alemão E. T. A. Hoffmann, para destacar que a experiência do inquietante nos remete a uma série de elementos, como o susto e a perda de sentido e realidade (suspensão do juízo de existência). Trata-se de emoções relativas ao desamparo infantil, as quais não se ligariam a nenhuma significação. Daí o surgimento da angústia enquanto representante pulsional afetivo indeterminado. Expõe a sua hipótese de que a vida psiíquica é essencialmente pulsional; dominada por um excesso de sentido intimamente vinculado a um impulso de repetição impossível de simbolização pela via de linguagem e que teima em reaparecer sob a inquietante forma do sinistro.

Para Freud, o caráter inquietante é provocado por qualquer sensação de um fim da distinção entre imaginação e realidade. Trata-se de uma (con) fusão entre o eu e o mundo para além do campo da linguagem representacional, quando aparece diante de nós como real algo que havíamos tomado por fantástico, quando um símbolo assume a plena operação e significado do simbolizado. Poderíamos perceber aí a presença de uma supervalorização da realidade psíquica em contraponto à realidade material, associada à chamada onipotência dos pensamentos.

“Encontros e Desencontros” apresenta ao público um tempero delicado e muito bem distribuído entre o trágico e o cômico. Um filme que instiga por nos convidar a um constante jogo de movimento e indefinição, de transição entre espaços, de impossibilidade de tradução – seja do si mesmo, seja do outro. Um filme sobre um mal-estar específico, sobre uma angústia ligada ao vazio, a um irrepresentável que pode vir a adquirir alguns contornos pelo contato com um estranho.

Charlotte (Scarlett Johanson) é uma jovem recém-casada e recém-formada. Curiosamente uma filósofa incapaz de representar a si mesma após frustrações nos campos da fotografia e da escrita. Não se reconhece e tampouco é reconhecida pelo olhar do marido – que é um fotógrafo, um profissional do olhar – um estranho com o qual trocou alianças e divide um quarto de hotel no Japão.

A figura de Charlotte, filósofa graduada por uma das mais importantes faculdades dos Estados Unidos (Yale), torna-se muito representativa, já que a personagem não dá conta de si mesma em termos de desejo, presente, futuro ou relações objetais.

Bob (Bill Murray) se apresenta como um homem de meia-idade, ator de considerável sucesso em filmes da década de 1970, mas que vai a Tóquio para promover um uísque por vantajosa soma em dinheiro. Como Charlotte, também sugere uma imagem de decadência e despersonalização. Ele apresenta uma relação de estranheza com a esposa e filhos que ficaram na América. Diante da solidão e das inquietações com a própria vida e relações familiares, se refugia na bebida e na companhia de estranhos em um bar de hotel.

As vivências dos personagens principais de Encontros e Desencontros nos apresentam imagens de desfiliação, de desnaturalização e da busca pelo olhar tradutor de um outro. E é a partir da resposta deste último que advém a abertura ao novo, à possibilidade de diferentes olhares dos personagens sobre a cidade-alteridade e sobre as suas próprias vidas.

Embora trazendo consigo idades distintas e também diferentes experiências de vida, ambos apresentam pelo menos duas coisas em comum: uma insatisfação quanto ao presente, aliada à angústia em relação ao futuro. Na verdade, é a própria temática do duplo que aparece na relação entre os dois personagens, ao mesmo tempo tão diferentes e tão próximos a ponto de quase se confundirem.

Há uma inquietação que permanece, um não definido, um não traduzido, um persistente bordejar entre o contato com o outro e o mergulho nas próprias incertezas. Temos a idéia de vidas paralelas, de ditintas motivações e buscas de sentido para as próprias histórias de vida.

Torna-se digna de nota a inquietação imposta ao expectador pelo filme em termos de indefinição da relação entre seus dois personagens principais. Flertarão? Consumarão um encontro apaixonado ou irão se manter suspensos e desencontrados?

Aparece também no filme o lusco-fusco de sono (sonho) e vigília que marca as trajetórias de Bob e Charlotte. Quando se está dormindo? Quando se está acordado? O que é – ou parece- real e o que é imaginação? Temos um Oriente enquanto ambiente étnico e cultural distinto (por vezes inóspito), mas que também aparece como portador de duplos na forma de pastiches que remetem ao “american way life”.

Nas suas idas e vindas pela cidade, o próprio retorno de Bob e Charlotte acaba sempre por se dar em um lar que não é exatamente um lar por se tratar de um hotel – projetado para ser impessoal – e os quartos que ocupam podem ser pensados como metáforas do próprio sujeito do inconsciente. Afinal, trata-se de espaços do próximo, do familiar e, ao mesmo tempo, do distante – e, por isto mesmo – inquietante outro de si.

Encontros e Desencontros nos coloca frente a frente com pessoas que insistem em dizer a outras o que fazer em uma lígua desconhecida, isto é, que não provoca ou traz sentido. Em tal entrechoque entre o eu e o outro é possível perceber o peso do cotidiano da vida a dois, e nela o que por vezes pode soar demasiado medíocre ou superficial, levando os personagens a reflexões do tipo: ainda terá meu/minha companheira (o)/ alguma importância? Serei eu mesmo ainda importante? Tudo isto acompanhado da difícil constatação de que tal dúvida também atormenta o outro.

No texto de Freud (1919) e no filme Encontros e Desencontros – faz-se presente a simultaneidade de duas curiosas afirmações: uma relativa a um mal-estar, à angustiante presença do inominável na sombra do aparentemente familiar. Outra, inseparável da anterior, afirma que seria possível entrar em contato com ele por intermédio de um outro, de um estrangeiro com o seu olhar mais ou menos referente. É o entrechoque entre o estranho mais íntimo e o íntimo mais estranho, relativo a um não elaborado que inquieta por estar vinculado ao que temos de mais íntimo: o processo primário, o registro do inconsciente, algo pouco ou rudimentalmente representável e que, por isto mesmo, insistimos em repetir.

Eis portanto, o abismo imposto pela alteridade, revelando um inquietante que põe em cheque a nossa própria ilusão de autonomia. Já que não nos livramos de tal desconforto, resta fazer algo criativo.

Em última análise, trata-se mesmo da afirmação de um campo do possível que justifique renovadas aproximações entre inconsciente e cultura. Com a ressalva de que esta última seja pensada enquanto potência criativa que, resistindo à tentação de encarcerar o desejo, evite assim transformá-lo em uma espécie de mandamento.

 

Resumo feito por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

Refe

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“ Comparação da Apropriação do Corpo na Psicanálise e na Psicomotricidade”

Lendo o artigo de Isabel Fortes: “A função da dor na apropriação do corpo”, no livro A Fabricação do Humano, veio na minha lembrança os questionamentos que fazia aos professores no curso Formação em Psicanálise, a respeito de um assunto que muito me interessava por lidar na clínica com crianças, adolescentes e adultos que tinham dificuldade em trabalhar, reconhecer e se posturar diante da vida de um modo mais organizado com o seu corpo.

            Os professores geralmente me respondiam: na psicanálise, Berenice, o que interessa é o corpo erógeno. Eu compreendia a resposta, mas ficava pensando como separar um do outro, já que Freud afirmava que nosso ego é corporal.

Então vamos ver o que resumidamente Isabel vai nos contando sobre o reconhecimento do corpo através da dor.

Ela começa nos dizendo que o tema da angústia hipocondríaca já aparece nos primeiros escritos, quando Freud descreve as neuroses e mais tarde, em 1914, no ensaio sobre o narcisismo é trabalhada a associação entre a dor e o corpo. Tal associação é importante no que concerne à formação do ego na proposição da segunda tópica, na qual o componente da dor comparece nas elaborações teóricas acerca do ego em sua articulação com a dor corporal.

Ver se entendo: ele, Freud, está falando de uma dor psíquica, angústia, e dores relacionadas a um ego que funciona narcisicamente, retirando a libido do mundo real, para um mundo fantasioso, onde o órgão eleito para ficar doente nem sempre é a causa, somente o sintoma de que algo no aparelho psíquico não está bem. Mas e os sujeitos ditos hipotônicos (musculatura flácida), ou hipertônicos (musculatura rígida), os catatônicos, será que em vez de elgerem um órgão, não elegeram o corpo todo, ignorando-o, ou usando-o como um escudo, dissociando e utilizando apenas a área cognitiva para não enfretarem a realidade, psicotizando?

Isabel continua o seu discurso dizendo: a oposição entre a doença real e a doença “imaginária” encontra-se relativizada pelo fato de que em ambas ocorre uma retração psíquica, oriunda da estase libidinal do eu. O paciente hipocondríaco retira a libido dos objetos do mundo exterior para concentrá-la de modo narcísico sobre o órgão que o incomoda.

Fico me perguntando: o corpo é um objeto do mundo externo ou interno? Onde fica o limite? A pele, o contorno do corpo, o que vemos no espelho é o externo e o que está dentro da pele é o interno? E como ficam as anorexas que se vêem no espelho como estando gordas, quando na verdade estão pele e osso? Qual é o limite do corpo físico em contraposição com o corpo psíquico? Na psicomotricidade não separamos um do outro, vemos como um todo, com uma dinâmica desorganizada, por isso em sofrimento. O sujeito muitas vezes não se reconhece no corpo em que habita e nem presta atenção nele, por incomodá-lo. Trabalhamos com o “movimento” para que o sujeito vá percebendo o seu corpo, apropriando-se de como ele se articula, qual é o espaço que ele ocupa e quais são as possibilidades de movimentá-lo dentro de um espaço e tempo, numa tentativa de integrá-lo com a sua dinâmica psíquica.

Freud se esforçou em delimitar os sintomas corporais nos diversos quadros de neurose de angústia, demonstrando a sua intuição quanto às estreitas relações entre a angústia e corpo, tendo papel essencial ao longo de sua obra.

A hipocondria se caracteriza pela sua relação com a paranoia, pois o corpo passa a ocupar o lugar do objeto perseguidor. Freud mostrou como o hipocondríaco não percebe o seu mal como vindo de dentro, considerando-o como exógeno, apontando por essa via um mecanismo similar à projeção que não se dirige ao mundo dos objetos, mas ao próprio corpo, fazendo deste uma entidade exteriorizada em relação ao eu.

Para Tausk[1] (1911), a paranóia somática direciona os núcleos persecutórios para o corpo do sujeito, produzindo alterações físicas e psíquicas. O inimigo não se encontra encarnado em uma pessoa do mundo exterior, mas no próprio corpo do paciente, vivido como estranho ao sujeito. Esta análise oferece um estatuto de estrangeiridade radical do corpo, na medida em que ele não é reconhecido como integrando uma unidade psíquica com o eu.

Neste sentido, fiquei pensando como alguns professores de seminários clínicos, com os quais tive o prazer de compartilhar os meus pacientes, pediam que prestássemos atenção não só na linguagem verbal dos sujeitos, mas também na não verbal, expressa pelo corpo, pelos gestos e expreessões faciais que nos chamassem atenção para tentar entender melhor o latente e então fazer nossas interpretações; o corpo fala, muitas vezes no verbal estamos dizendo algo contrário com o que estamos demonstrando com o corpo.

Ali onde dói, há para o paciente a sinalização da presença do aparelho. Trata-se de uma concepção de corpo sobre o qual podemos dizer não somente que se trata de uma exterioridade, mas que pode ser conectado ao eu por meio da dor.

Na psicomoticidade também dizemos que só percebemos que temos um dedinho do pé, quando topamos com ele na quina de um móvel. Urramos e pulamos de dor e às vezes até “xingamos”. Assim, o que não estava “presente”, por se achar muito distante, no extremo do corpo, pela dor passamos a representá-lo e a tomar cuidado para não repetir a façanha de topá-lo contra algo duro, para não sofrermos. Passamos a integrá-lo ao nosso corpo.

A dor hipocondríaca que manifesta a estase libidinal no eu tem paradoxalmente a função de proteger o corpo, já que o investe de energia psíquica. A concentração de libido narcísica acaba sendo uma proteção e um modo de assunção do próprio corpo.

Assim, observamos que a dor física ou a dor psíquica podem ser índices que sinalizam a presença do corpo.

Trabalhando com crianças muito regredidas, observei que após o trabalho corporal, movimento, elas passam a integrar melhor o corpo, registrando-o em desenhos, com maior detalhes, que antes não eram percebidos.

Quando não é possível descarregar a angústia através das produções psíquicas, sejam elas neuróticas ou psicóticas, a descarga toma o corpo como alvo, fazendo dele o local por excelência para a expressão da dor. A hipocondria já apontava desde o início para a relação que se faria em textos posteriores entre o órgão dolorido e o conhecimento do próprio corpo.

Para nós, psicomotricistas, tomar consciência do próprio corpo é a maneira mais rápida de sabermos o que está acontecendo conosco. Por quê fazemos certa parte do corpo, ou algum órgão, sofrer? Qual é a razão de andarmos nas pontas dos pés, ou colocando o pé todo no chão? Por quê nos encurvamos ou nos mantemos eretos? Porque ao tomarmos a consciência do que fazemos com ele, o corpo, temos a possibilidade de elaborar e nos conhecermos melhor.

Se o eu é “antes de tudo um eu corporal”, a dor adquire uma função central nesta compreensão, como meio pelo qual o eu adquire a assunção do corpo próprio. Neste sentido, a dor seria um sinal que indica ao eu a presença do corpo para o eu.

Assim, ao realizarmos movimentos, o eu toma consciência das partes do corpo e do todo com suas partes, observando as posibilidades de agir e realizar movimentos cada vez mais precisos, mais harmoniosos e com menos perda de energia. Deslocando-se por um espaço e por entre objetos, desenvolvendo as noções de espaço e de tempo do próprio corpo e do mundo do qual fazemos parte; sem necessariamente ter que enfrentar dores, talvez a dor em se perceber.

Leclaire (1979)[2], o corpo erógeno se constrói a partir do caráter fragmentário. A parte erógena surge de maneira indiscriminada neste ou naquele ponto da superfície corporal. Este modo de entender o corpo erógeno o inscreve na ordem da dispersão e da anarquia, não sendo remissível ao domínio de uma totalização.

A dor oferece a possibilidade de apropriação do corpo, mas mantendo neste o seu caráter fragmentário. Ao apontar a dor como índice de conhecimento geral do corpo Freud não faz deste uma entidade unificadora, mas mantém a referência a ele enquanto um ser constituído por partes.

Se Freud afirmou que o nosso ego é corporal, mas não há como vê-lo ou senti-lo por inteiro, já que é o corpo é constituído por partes, significa que o nosso ego também é fragmentado?!!!

Então, como compreender o órgão em psicanálise?

O órgão, para a psicanálise, é importante como parte corporal que pode ser atravessada pela libido (Ortega, 2008).[3]

O registro do órgão na teoria freudiana liga-se às dimensões de prazer e de excitação, indicando que o órgão é portador de excitabilidade, sendo este o caráter que interessa no órgão quando investigado pela psicanálise. A noção de “prazer do órgão” indica parcialidade, pois consiste no próprio modo de satisfação das pulsões parciais que emanam de diversos lugares e regiões do corpo. Pelo “prazer do órgão”, a zona erógena encontra o caminho da satisfação no próprio lugar onde ocorre a excitabilidade, de maneira independente das outras zonas.

Assim, o órgão na psicanálise é visto a partir da lógica do prazer, da excitação e da libido; interessando na medida em que se constitui como veículo de dor, prazer e libido.

Analisar o registro do órgão em psicanálise implica também valorizar o lugar do corpo enquanto partes, concebendo-as como estando sempre atreladas ao campo da libido, do prazer, da dor e da excitação.

Talvez por isso, as crianças gostem de fazer movimentos, os adolescentes sentem certa vergonha e os adultos inibição. Porque a excitação, a libido e o prazer estão sempre presentes. Mas depois de um tempo vão percebendo que elaboram e quebram paradigmas ao observarem a maneira como seus corpos respondem ao serem observados do lado de dentro, o que chamamos de atenção interiorizada.

            A atenção interiorizada é desenvolvida quando o sujeito recebe a instrução do movimento que realizará, mentaliza-a e compara com a sua execução, tentando adequá-la ao que foi solicitado. Quando passam a conseguir realizar o que foi pedido na instrução, passam a prestar maior atenção ao corpo e a elaborar o que acontece interiormente entre o jogo do recebido, a instrução, e o do devolvido, a realização do movimento. Notamos que o ego vai se tornando mais integrado e a dinâmica muda.

 

Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

 

Referências completas na página 68 do livro: “A Fabricação do Humano”, Joel  Birman, Zagodoni Editora, São Paulo, 2014.

[1] Tausk – Da gênese do “aparelho de influenciar”no curso da esquizofrenia – 1911.

[2] – Leclaire, S. – O corpo érogeno. Escuta, São Paulo, 1979.

[3] – Ortega F. – O corpo incerto: corporeidade, tecnologias médicas e cultura contemporânea. Garamond, Rio de Janeiro, 2008.

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