Os Vários Caminhos da Psicomotricidade

A Psicomotricidade, ciência que estuda as relações entre o comportamento humano e as funções mentais do sistema nervoso, não pode e nem deve ficar restrita às paredes de uma clínica. Seus caminhos são muitos e ainda há outros a se descobrir. Em 1979 comecei a aplicar a Psicomotricidade com sucesso na reeducação de crianças, adolescentes e adultos com distúrbios de aprendizagem.

Wallon e Piaget acreditavam que o desenvolvimento motor é condição para o da inteligência. O neuropsiquiatria Edouard Guilmain já recomendava, em 11987, trabalhos corporais para seus pacientes deficientes mentais.

Com o tempo, notei que os exercícios corporais e específicos podem ser aplicados não como fim, mas como meio de fazer com que o indivíduo percebesse e aprendesse a lidar com suas dificudades em todos os níveis: motor, sócio-emocional e cognitivo. Aos poucos, ia burilando os sintomas para chegar à causa, tornando o trabalho terapêutico do ponto de vista emocional. Indivíduos com dificuldades motoras, mas também emocionais e cognitivas, podem ser submetidos à Psicomotricidade. Para Wallon, o movimento é a única expressão e o primeiro instrumento do psiquismo. O alcance desta dimensão do movimento e do corpo da criança permitiu a ele apresentar uma concepção original da evolução mental. Ele advogava que o desenvolvimento psicológico da criança é o resultado da oposição e subtituição de atividades que precedem umas às outras, demonstrando que há ação recíproca entre funções mentais e motoras e que a vida mental não resulta de relações unívocas ou de determinismos mecanicistas.

Ao assumir a área pedagógica de uma pré-escola, inseri na programação metodologia psicomotora como prevenção. Isto porque o amplo espaço físico de outrora – hoje vivemos quase confinados – e as brincadeiras que criávamos nos garantiam uma coordenação equilibrada e um domínio preciso do corpo.

A vida moderna diminuiu não só o equilíbrio e o domínio do corpo nas crianças, como também a percepção visual, orientação espaço-temporal, esquema corporal, lateralização e ajuste entre o ritmo externo e interno. Assim, são cada vez mais frequentes as falhas de atenção e concentração, de memoria, de linguagem oral e escrita, de discalculia, de análise e síntese. Os sintomas são sincinesias, hipotonias e desequilíbrio emocional. Somente um psicomotricista ou neurologista ou psicólogo poderá discenir se a causa é mototra, física ou emocional.

Os resultados da utilização da Psicomotricidade como profilaxia têm sido bastante positivos para alunos e pais em todo o mundo. Para Vitor da Fonseca, a prevenção, a compensação, a reeducação e a terapia de disfunções psicomotoras podem impedir que um problema ligeiro se transforme em um mais sério.

Segundo Fonseca, “a Psicomotricidade busca perspectivar as relações incessantes e permanentes dos fatores  neurofisioógicos, psicológicos e sociais, que intervém na integração, elaboração e realização do movimento humano”;  ou seja, ela faz aflorar as possibilidades do indivíduo e aumenta sua capacidade de progresso e domínio de seu corpo por meio do movimento. É muito duro para uma criança ser preterida durante a formoção de uma equipe de jogo, por ser considerada inábil. E igualmente difícil para o adolescente ser taxado de desajeitado e para o adulto, apontado como desastrado. Se não trabalhadas, as inabilidades são carregadas pelo resto da vida, causando insegurança, baixo autoconceito e por fim isolamento.

Há alguns anos, trabalhei para  uma escola de inglês que enfrentava dificuldades para atender os alunos. Soube então que a instituição havia sido criada para trabalhar com adultos, mas a procura maior estava sendo de adolescentes e crianças. Com um trabalho psicomotor, aceito pelos profissionais e consonante à filosofia e metodologia da escola, realizado semanalmente por quase cinco meses, o grupo não só progrediu, como passou a lidar melhor com suas próprias dificuldades e, consequentemente, com as dos alunos. Estimulados, os professores participaram de congressos de linguística apresentando trabalhos baseados no nosso trabalho. Desta forma, contatei que a Psicomotricidade pode ser usada com o objetivo de quebrar esteriótipos e promover mudanças de paradigmas.

Conhecer o PEI (Programa de Enriquecimento Instrumental) foi decisisvo para compreender a articulação entre o motor e o cognitivo. Segundo Reuven Feuerstein, que criou o PEI, o “input”(entrada), a elaboração e o “output”(saída) são fatores importantes para a flexibilização de experiências como maneira de organizar o mundo exterior e de transformá-lo – semelhante ao conceito de Piaget “assimilação e acomodação”.

Nossas experiências são corporais. O homem é essencialmente um ser em movimento. O “input” e o “output” se dão nas terminações aferentes. O “input” é a entrada pelas vias perceptivas e gnósicas. A elaboração é o ajuste entre a estimulação recebida do mundo exterior e a retroação feita com experiências vividas, até chegarmos ao “insight”, elaborando um novo conceito. O “output”, resposta ao estímulo, é necessariamente motor. Articulando o PEI ae a Psicomotricidade, podemos atingir o indivíduo, da criança ao adulto integralmente.

Trabalhada individualmente ou em grupo, a Psicomotricidade pode ser medida da profilaxia em pré-escola e escolas de ensino fundamental, serve para a reeducação, descondicionando o indivíduo dos movimentos imprecisos; e ainda pode ser aplicada em empresas, para mudança de paradigmas.

Meu atual desafio é trabalhar com pessoas da terceira idade com o objetivo de estabelecer uma nova meta de vida, que surge com a aposentadoria. Desta forma, afastando depressões, doenças e mortes prematuras. E cito novamente Wallon para finalizar este artigo: “Um dos grandes passos a ser realizado pela sociedade é aquele que deve unir o orgânico ao psíquico, o corpo à alma, o indivíduo ao seu grupo socio-cultural”.

Com Berenice Ferreira Leonhardt Abreu

PUBLICAÇÃO

Revista Instituto Pieron – n. 99 – Junho / 1999

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Valores humanos

Entrevista realizada pela revista In Formação em 2001 com o Dr. Antonio Geraldo de Abreu Filho.

Conforme proposto pela comunidade da escola no final do primeiro semestre de 2001, no dia 20 de Setembro, pais e professores se reuniram para dar início às reuniões de reflexão. Coincidência ou não, o tema escolhido em enquete realizada junto a comunidade escolar, “valores humanos”, veio ao encontro do inesperado acontecimento de Nova York onde, estarrecidos, quase todos pararam para pensar e rever seus valores e princípios.

Mediado pelo Dr. Antonio Geraldo de Abreu Filho – psicólogo e analista, as duas horas de reunião elucidaram vários pontos de nosso comportamento permitindo a todos uma melhor compreensão de suas atitudes e responsabilidades como pai   ou mãe. Extremamente enriquecedora, precisariamos de inúmeras páginas para relatar tudo que foi abordado na reunião. Mas nossa reportagem teve o privilégio de uma entrevista exclusiva com o Dr. Antonio Geraldo minutos antes do encontro, a qual transcrevemos abaixo.

ln for: O que são valores?

AG: É tudo aquilo que vai poder ser transmitido pelos pais aos filhos, calcado em responsabilidades éticas, morais e religiosas que servirão de alicerce e bússola norteadora para a formação de um bom indivíduo.

ln for: Vivemos na era da informação. Nossos filhos têm hoje acesso a milhares de informações externas. A televisão, o rádio e a internet invadem nossos lares tornando quase impossível filtrar o que chega a eles ainda muito cedo. Isso dificulta a transmissão de nossos valores a nossos filhos?

AG: Tudo depende do potencial interno de cada um. É função dos pais socializar a criança para que esta esteja preparada para o aprendizado e convivência em sociedade; de mostrar o que é certo e o que é errado para que esta, mais para a frente, possa tomar suas próprias decisões.

In for: Vemos hoje um elevado número de casais separados. Pode uma criança que vive essa realidade ter uma educação e desenvolvimento equilibrados?

AG: Se quem ficar com a responsabilidade da criança souber desempenhar tanto a função paterna como a maternal, poderá levar a criança a um estado de equilíbrio. Por outro lado, o fato de estarem separados não significa que os pais não possam continuar exercendo suas funções e papéis, de pai e mãe junto à criança. Por ser um estado mais comum, a criança moderna já começa a compreender e conviver com isso. Apenas destaco um detalhe: a figura do pai ou da mãe são intransferíveis. Apesar de todo o  carinho e dedicação, uma avó, tia, tio, padrasto, enteado, ou qualquer outro, jamais serão a mesma coisa que pai ou mãe.

ln for: Como o Sr. vê o caso do pai que teve uma infância difícil com pais problemáticos? Que valores este estará passando para seus filhos? Também problemáticos?

AG: A questão não é muito simples pois é muito subjetiva. No estudo do comportamento humano dificilmente 2+2 é igual a 4!  Novamente, tudo vai depender dos valores intemos de cada um. Se esse pai ou mãe tiver a percepção e a capacidade para identificar esses pontos de conflito, certamente poderá corrigi-los e dar aos seus filhos uma educação bem melhor. Se isso não fosse possível, como explicaríamos os casos onde crianças nascem em ambientes desfavorecidos, como favelas, e ainda assim conseguem uma ascensão e outras que vieram ao mundo em “berços de ouro” e acabam na marginalidade?

In for: Que outra mensagem gostaria de deixar a todos os pais?

AG: Não existem modelos ideais ou manuais de como ser pai ou mãe. Normalmente a coisa transcorre por ensaio e erro. Até porque não existem dois filhos idênticos e muito menos que raciocinem da mesma forma. Na falta de parâmetros o que deve falar mais alto é seu bom senso.

Com Antonio Geraldo de Abreu Filho

PUBLICAÇÃO

Revista In Formação – n. 1 – 2001

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Vídeogame causa problema motor

Segundo Berenice Leonhardt, jogos eletrônicos desenvolvem as mãos, mas prejudicam a coordenação dos outros membros.

Por Clayton Melo

As crianças de hoje dificilmente brincam na rua.  Estão cada vez mais confinadas dentro de apartamentos – cujos limites físicos estão bem mais restritos que praças e espaços públicos. O divertimento predileto vem da tecnologia, principalmente do videogame e do computador, equipamentos que exigem escassos movimentos, a não ser o das mãos. O resultado é que a boa parte da garotada apresenta “desequilíbrio motor”.

A psicomotricidade pode ser uma ótima solução para o problerna. É o que defende a pedagoga Berenice Leonhardt, da Escola de Educação Infantil Raízes, em São Paulo. Essa metodologia, há oito anos empregada no colégio, procura fazer a pessoa conhecer melhor o próprio corpo e assimilar com segurança o mundo exterior. Berenice baseia seu trabalho na filosofia da psicomotricista francesa Simonne Ramain e de Jean Piaget. O projeto Psicomotricidade – Um Sistema Integrado de Educação e Aprendizagem classidicou-se entre os quinze primeiros colocados no lll Educresce, realizado em Maio de 1998.

Ela percebeu que havia crianças descoordenadas, inseguras, dependentes, com uma verbalização riquíssima, mas que falhavam na execução das atividades. Aplicou um teste para identificar o perfil motor dos alunos e constatou o seguinte: nas provas de velocidade e coordenação das mãos o rendimento costumava estar acima da idade cronológica. Já nas atividades de equilíbrio e domínio corporal o aproveitamento era baixíssimo.

O peso do erro

Os professores da Escola Raízes não mostravam aos alunos como fazer determinado exercício, mas orientavam verbalmente. Dessa forma, a criança é levada a imaginar como é o movimento e não recebe um modelo externo pronto. “lsso é justamente para ela decodificar a instrução dada”, diz Berenice. A explicação do que foi pedido não é repetida. No caso de alguma criança não entender, o professor pede para quem compreendeu falar o que deve ser feito. A palavra “errado” nunca é utilizada. Se a atividade não estiver como foi pedida, é dito que está diferente”. “Errado tem uma conotação ruim, de incapacidade, burrice”, esclarece.

A borracha não faz parte dos acessórios dos alunos. Em vez de apagar, eles usam lápis de cor para refazer o exercício.

Com Berenice Ferreira Leonhardt Abreu

PUBLICAÇÃO

SIESP – Sindicato dos Estabelecimentos de ensino no Estado de São Paulo – Agosto de 1998.

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O papel dos avós na criação dos filhos, netos

 

Com Berenice Ferreira Leonhardt Abreu

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Escolha Profissional: Consciente e/ou inconsciente?

Este livro convida o leitor a perceber o que vai além do aspecto consciente envolvido na Escolha Profissional, mostrando a importância de se considerarem as questões inconscientes presentes nessa “escolha”. Isso possibilita que a “escolha” seja feita de modo mais pontual, evitando-se que haja um desvio no trilhar da carreira profissional. Outra contribuição deste trabalho foi a criação de dois novos tipos de reparação dentro de uma visão dinâmica, além das sugeridas por Bohoslavsky.

 

Quer saber mais?

Acesse: http://www.vetoreditora.com.br/produto_int.asp?secao=2&categoria=94&subcategoria=&id=153

 

Por Antonio Geraldo de Abreu Filho

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Psicomotricidade e o desenvolvimento do ser humano

Para Vítor da Fonseca, “Psicomotricidade é a evolução das relações recíprocas, incessantes e permanentes dos fatores neurofisiológicos, psicológicos e sociais que intervêm na integração, elaboração e realização do movimento humano”. Existem outros teóricos da área, Nelson Mendes, Le Boulch, Pierre Vayer, Ajuriaguerra, Paul Shilder e Piaget, que falam da importância do desenvolvimento motor como precursor de todas as demais áreas. Porém, a partir da orientação em uma pré-escola é que se pode constatar a abrangência do significado de todas as definições e de toda a teoria na prática.

Voltemos à definição de Vítor da Fonseca: quando alguns dos fatores deixa de se relacionar, o que será que acontece? Para o autor da definição, “a ausência de espaço e a privação de movimento é uma verdadeira talidomida da atual sociedade, continuando na família (urbanização) e na escola. A total não-aceitação da necessidade de movimento e da experiência corporal da criança põe em causa as atividades instrumentais que organizam o cérebro.

Na escola recebemos crianças de um a sete anos de idade – cada vez maior o número de hipotônicas (relaxamento exagerado da musculatura), descoordenadas (desajeitadas), arrítmicas (não conseguem um ajuste entre o ritmo interno e o externo), com andar de “periquito” (andar na ponta dos pés), dificuldade verbal (fala infantilizada, troca de letras, afásicas, omissões de letras etc.), dificuldade de orientação espaço-temporal, de percepção visual, de esquema corporal e de lateralidade.

Além das causas citadas por Vítor da Fonseca, ainda se juntam outras como superproteção, falta de limite, rejeição, impedimento de que cresçam e evoluam em sua independência, com mensagens do tipo: “deixa que eu faço para você, você ainda não sabe”, “demora muito”, “você ainda não consegue” (frases geralmente ditas pelos adultos que convivem com a criança). Também atividades do dia-a-dia como comer sozinha, ir ao banheiro e limpar-se, vestir-se, calçar, tomar banho, escovar os dentes, lavar as mãos etc. são adiadas. Fora os conselhos de profissionais da área de saúde de que a criança só deve ir para a escola depois dos três anos, quando já ganhou maior resistência imunológica. Então, criam-se, para os filhos de mães inexperientes, verdadeiras “bolhas” de proteção. É de sabedoria popular que somente em contato com os vírus criamos anticorpos; para isto existem as vacinas. Se não forem aplicadas antes dos três anos, as doenças da infância acontecerão depois. O que se perde nestes três anos, em que a criança ficou fora da escola numa cidade como São Paulo, só com muito esforço num consultório ou numa pré-escola, cujo enfoque é primordialmente o desenvolvimento motor, é que se poderá recuperar.

Assistimos a casos clínicos de crianças de três anos que pareciam ter transtornos neurológicos e que, na realidade, apresentavam histórico de superproteção por motivo de doença. Uma menina de três anos e meio, que era constantemente carregada pelos pais com receio de que caísse e se machucasse (porque foi muito doente após o nascimento e o pai entrava em desespero quando a ouvia chorar), apresentava um atraso motor de dois anos em seu desenvolvimento e de um ano e seis meses em sua maturidade cognitiva e emocional. Um menino extremamente inteligente na verbalização, mas que não conseguia uma produção motora coerente com o desenvolvimento da linguagem, apresentando um atraso de um ano e meio em sua realização motora, por ter tido uma doença quando iniciou a marcha e, por isso, não lhe foi deixado experimentar nada com seu corpo, porque poderia ficar com hematomas.

Depois, quando a criança não consegue ler e escrever, vem a cobrança dos pais e toda a ansiedade e expectativas que se derramam sobre a mesma; “Como eu fiz de tudo por ela e agora não está rendendo nada, como é que pode?” Justamente porque fez tudo por ela. Para Ajuriaguerra (neuro-psiquiatra infantil), “o esquema corporal é o resumo e síntese de toda a experiência corporal no mundo. É pelo esquema corporal que a criança vai conseguindo realizar movimentos cada vez mais ajustados e criadores e pelos quais fica apta a descobrir o mundo que a cerca e a envolve”.

Filogeneticamente, a evolução do homem só se deu quando ficou na posição ereta e livre para usar as mãos. Foram os atos motores e a ação que desencadearam todo o nosso desenvolvimento intelectual. Começamos a construir objetos que nos deixassem mais livres para pensar e planejar. Vemos os recém-nascidos de hoje com um ritmo frenético em seu desenvolvimento motor e dizemos que as próximas gerações nascerão falando. E por quê? As faixas que amarravam os cordões umbilicais até cicatrizarem foram eliminadas, os cueiros, cobertores, mantas e toda a parafernália que envolviam os bebês e os deixavam sem movimento foram substituídos pelos macacões e fraldas descartáveis. Tudo isto permitiu uma maior movimentação e, por isso mesmo, ganho no amadurecimento neurológico e, consequentemente, motor. As antigas tabelas de expectativas do desenvolvimento motor necessitam ser revistas, para aquelas crianças as quais é permitido buscar seu desenvolvimento naturalmente, sem empecilhos.

O desenvolvimento da apreensão e a marcha vão depender tanto do amadurecimento neurológico quanto da estimulação socioafetiva que o ambiente permitir. Então, ontogeneticamente, o indivíduo também tem muito a ganhar ou a perder, dependendo da estimulação que lhe é dada. Pais que permitem que a criança fique mais tempo no chão, incentivando-a com objetos interessantes, adequados a sua idade, favorecem um desenvolvimento e amadurecimento mais rápido e harmônico.

Não devemos esquecer-nos de uma fase anterior a esta, talvez mais importante ainda, a amamentação. O importante não é só o tipo de leite, mas também a maneira como a mãe segura o bebê. Neste momento, ele percebe se ela está relaxada ou tensa, se o ato está sendo prazeroso ou não, se está sendo amado ou rejeitado pelo simples contato de pele, a maneira como é segurado e pelos batimentos do coração materno. Desta relação depende a aprendizagem do tônus muscular, se vai ser relaxado ou tenso, ou situar-se nos extremos: hipotônico ou hipertônico.

Uma mãe teve três filhos homens. Por ter o mamilo “embutido” não conseguiu amamentar e os três foram alimentados no berço, no carrinho ou no bebê conforto, somente segurando a mamadeira, sem nenhum contato físico. Por mais que fosse orientada a proceder de maneira diferente, não seguia as recomendações; conclusão: o mais velho se desempenha bem na escola, mas não consegue relacionar-se com ninguém, não tem amigos, é inseguro e só vive agarrado à mãe; o do meio apresentou atrasos na linguagem e até hoje, aos 11 anos, não consegue aprender a ler e a escrever; e o terceiro é uma criança franzina, doente, com poucos recursos motores.

No consultório atendemos muitas crianças hipotônicas, cujo histórico era o mesmo. Citando Wallon: “Até a aquisição da linguagem, o movimento se torna simultaneamente a primeira estrutura de relação com o meio, com os objetos e os outros, a partir de onde se edificará a inteligência e esta é a primeira forma de expressão emocional e de comportamento. O movimento não é um puro deslocamento no espaço nem uma adição pura e simples de contrações musculares; o movimento tem um significado de relação afetiva com o MUNDO (é a expressão material de uma dialética subjetivo-afetiva), que projeta a criança na sua história biossocial”.

Outra grande conquista é o controle dos esfíncteres. Até bem pouco tempo atrás, por causa das fraldas de pano e da dificuldade em lavá-las, a criança atingia a idade de um ano e seis meses e, se coincidia com a estação do verão, a fralda era substituída pelo penico e a noturna ficava na dependência da criança amanhecer seca durante 15 dias seguidos. O processo era rápido e eficiente. Hoje, em função das fraldas descartáveis e, muitas vezes, da pouca disponibilidade do acompanhamento dos pais neste processo, vemos crianças grandes, com dois anos e seis meses a três anos, ainda usando fraldas. Quando a escola se propõe a participar do processo, os pais aceitam e se comprometem a fazer o mesmo em casa, o que, no entanto, só é feito na escola; em casa, principalmente nos fins de semana e quando vão sair de carro para passear, a fralda é recolocada. Imaginem o “nó” que fica na cabeça da criança: “quando será que posso fazer xixi e cocô nas calças?”; “será que é quando eu quero ou quando eles, os adultos, querem?”; “será que sou capaz de me controlar?”; “o que será que querem de mim?”; “o controle é meu ou é deles?”

A responsabilidade dos profissionais da área de saúde que intervêm direta ou indiretamente no desenvolvimento da criança não é só o de assegurar o crescimento físico saudável, mas o de orientar os pais no sentido de que crescimento e desenvolvimento envolvem independência e esta gera sentimentos de capacidade e segurança, levando-a a ter iniciativas, a ser capaz de tomar decisões, participando ativamente do seu meio sociocultural, aprendendo a utilizar-se de todas as suas capacidades. Para Piaget, “a criança estabelece relação com o exterior através da circulação entre as percepções (assimilação) e os movimentos (acomodação) e é o conjunto de adaptações que (na sua circulação materializada pela motricidade) irá transformar a inteligência prática (sensório-motora) em inteligência reflexiva (gnósica)”.

Em 14 anos de experiência orientando uma pré-escola e no final de cada ano aplicando uma teste de desenvolvimento do perfil-motor em crianças de três a sete anos, foi verificado um grande aumento no desenvolvimento da coordenação e da velocidade manual, em detrimento da coordenação global, do equilíbrio e da dissociação dos movimentos. Como as crianças ficam confinadas em apartamentos, sentados em frente a uma televisão ou no comando de um videogame ou computador, o que se desenvolve prematuramente são as mãos, que deveriam ser as últimas, já que uma das leis do nosso desenvolvimento neurológico é céfalo-caudal e próximo-distal, implicando numa série de não aquisições fundamentais para a aprendizagem da leitura e escrita e da organização do pensamento formal: as percepções (visual, auditiva, olfativa, gustativa e tátil), fundamentais para a assimilação do mundo externo; a coordenação motora global e o equilíbrio, importantes para o desenvolvimento espaço-temporal, interferindo nos processos de análise e síntese, na interiorização do esquema corporal que regula toda a noção de ser alguém independente e atuante e na concentração e atenção, responsáveis por diferenciar o real da fantasia e apreender as funções do pensamento mais elaboradas, como comparação, classificação, levantamento de hipóteses, suposições etc.

O objetivo é alertar sobre a necessidade de garantir à criança o direito a um desenvolvimento integral e harmônico, dando-lhe espaço para que se desenvolva, primeiramente na área motora e consequentemente na cognitiva, social e emocional. Somente assim estaremos garantindo o desenvolvimento de um ser humano na sua totalidade. Wallon lança-nos um desafio quando afirma: “Um dos grandes passos a ser realizado pela sociedade é aquele que deve unir o orgânico ao psíquico, o corpo à alma, o indivíduo ao seu grupo sociocultural”.

Por Berenice Ferreira Leonhardt Abreu

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

l. Fonseca, Vítor da; Mendes, Nelson – “Escola, Escola, Quem És Tu? Perspectivas Psicomotoras do Desenvolvimento Humano” – Artes Médicas, Porto Alegre, 1987.2.

2. Fonseca, Vítor da – “Psicomotricidade” – Martins Fontes, São Paulo, 1983.

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Educação Infantil “Psicomotricidade – Um sistema Integrado de Educação a Aprendizagem

Quando assumi a orientação pedagógica de uma escola de educação infantil particular de pequeno porte, comecei a observar as dificuldades motoras da grande maioria das crianças com idades entre 1 a 7 anos.

A escola ficava situada num bairro de classe média alta e as crianças moravam em apartamentos ou casas, mas pouco brincam fora das mesmas, por falta de tempo dos pais que trabalhavam fora, por superproteção, ou até mesmo por comodismo. Notei crianças hipotônicas, com andar de “periquito” (ponta dos pés), descoordenadas, inseguras, dependentes, com uma verbalização riquíssima, mas que falhavam na execução dos exercícios propostos em qualquer área.

Resolvi aplicar o teste do “Perfil Motor” de Ozeretski e Guilmain, observando algo muito interessante: nas provas de velocidade e coordenação de mãos, as crianças tinham um rendimento acima de sua idade cronológica, porém nas provas de equilíbrio, de coordenação dinâmica global e de movimentos simultâneos, o rendimento caía assustadoramente, apresentando uma leitura de déficit motor. Isto porque as crianças passavam muito tempo em fente da televisão, vídeo-game ou computador, as chamadas babás eletrônicas.

A falha estava portanto no global, em tomar consciência do corpo pouco explorado, em não dominá-lo. A programação oferecida era a tradicional, o professor trazia a informação tentando passá-la para os alunos através da memorização. Até as aulas de educação física eram ministradas tendo o professor como modelo a ser copiado nos exercícios propostos.

Em 1990 reformulei toda a programação da escola, com anuência dos diretores e a colaboração dos professores na preparação do material necessário.

Baseei-me nas quatro grandes áreas do desenvolvimento humano, que seguem abaixo, adaptando a metodologia de Simonne Ramain, com a filosofia de Jean Piaget. Eu já havia experenciado a eficácia do método como reeducação em consultório, queria testá-lo agora como medida profilática.

Sócio-Emocional:

  • auto-conceito;
  • socialização;
  • estudos sociais.

Linguagem:

  • oral;
  • escrita;
  • inglês (oral);
  • música;
  • expressão corporal.

Funções Psiconeurológicas:

  • educação física;
  • coordenação visomotora;
  • percepções: visual, auditiva, tátil,
  • olfativa e gustativa;
  • orientação espaço-temporal.

Operações Cognitivas:

  • atenção e concentração;
  • análise e síntese;
  • memória;
  • comparação;
  • classificação;
  • seriação;
  • ciências;
  • raciocínio lógico.

O método de Simonne Ramain toma como base uma das leis do desenvolvimento humano (passamos por fases, períodos ou estádios de progressos, paradas e retrocessos, para depois avançarmos novamente) e usa uma progressão de atividades diferente da tradicional, em “bico de serra”, os exercícios obedecem o mesmo critério da lei citada acima, podendo oscilar entre o fácil, o difícil e o médio. Tem como técnica o não uso da borracha, utilizando lápis de cor (vermelho, azul e verde) para a correção, com a finalidade do desenvolvimento maior da atenção e concentração; as instruções dos exercícios não são repetidas pela professora, quando não ouvidas ou compreendidas, e sim por uma criança que escutou ou entendeu, trabalhando-se com isso a memória; os materiais são simples, utilizando-se bastante sucata e diferentes tipos de papéis; a distribuição dos materiais é realizada de várias maneiras, com a intenção de trabalhar a flexibilidade; o professor não é o centro das atenções, os alunos os são, o professor é apenas quem organiza as propostas trazidas pelas crianças, ou quem propõe, quando o aluno não o faz.

A princípio, os professores ficaram bem inseguros e com medo da mudança, o que já era esperado. Tive que sensibilizá-los propondo tarefas adequadas a sua faixa etária; depois foi preciso mostrar como se aplicavam alguns dos exercícios que teriam que trabalhar. A medida que foi ficando patente as mudanças que ocorriam nas crianças e a evolução rápida obtida, foram ficando mais seguros e dispostos a participarem mais efetivamente da nova proposta.

Após um ano de experiência, tornei a aplicar o teste do “Perfil Motor” de Ozeretski e Guilmain e os resultados nos surpreenderam. Os níveis elevaram-se em todas as provas, principalmente nas de equilíbrio, coordenação dinâmica global e de movimentos simultâneos. E o mais comemorado pelos pais das crianças do pré (nossa última série), a entrada nos colégios que haviam escolhido. Uma criança passou em primeiro lugar num grupo de 89; outra em quinto num grupo de 200 crianças. A escola passou a ser reconhecida e conhecida pelos colégios do bairro, sendo recomendada pelas instituições  que não teinham pré-escola.

A minha satisfação maior foi ter revertido a situação motora de algumas crianças, de inabilidade, para segurança, alegria e disponibilidade ao executar qualquer tarefa proposta e de prevenir os distúrbios motores que causam algumas das dificuldades de aprendizagem. No atendimento de 735 crianças de 1990 para cá, sendo 102 do Pré-Primário, somente 5 não conseguiram alcançar os pré-requisitos básicos para entrarem nos colégios que optaram, correspondendo a 4,9%.

Por Berenice Ferreira Leonhardt Abreu

BIBLIOGRAFIA

CAPON; Jack J. – “Desenvolvimento de Percepção Motora” – cinco volumes São Paulo – Editora Manole – 1991.

COSTALLAT; Dalila M. – “Psicomotricidade” – São Paulo – Editora Globo – 1976.

DIENES; Z.P.; Holt; N. – “Zoo” – Great Britain – Editora Loweebrydone -1972.

DIENES; Z.P.; Golding; E.W. – “Primeiros Passos em Matemática” – São Paulo – Editora Herder – 1969.

FONSECA; Vítor; Mendes; Nelson – “Escola, Escola, Quem és Tu?” – Porto Alegre – Editora Artes Médicas – 1987.

FONSECA; Vítor – “Psicomotricidade” – São Paulo – Martins Fontes – 1963.

GUILLARMÉ; J.J. – “Educação e Reeducação Psicomotora” – Porto Alegre Editora Artes Médicas – 1975.

KOTHE; S. – “Pensar é Divertido” – São Paulo – E.P.U. – 1970.

PIAGET, J.J. – “Para Onde Vai a Educação?” – Rio de Janeiro – Editora José Olímpio – 1975.

POPPOVIC; Ana M. – “Pensamento e Linguagem” – São Paulo – Abril Educação – 1980.

RATHS; S. – “Ensinar a Pensar” – São Paulo – E.P.U. – 1970.

THIERS; S. – “Sócio-Psicomoticidade Ramain-Thiers” – São Paulo – Casa do Psicólogo – 1994.

 

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