NARCISISMO: UMA HISTÓRIA PARA SE PENSAR AS ESTÓRIAS DE UMA MENINA

       Quase todo mundo conhece a história original (grega) sobre Narciso: um belo rapaz que, todos os dias, ia contemplar seu rosto num lago. Era tão fascinado por si mesmo que, certa manhã, quando procurava admirar-se mais de perto, caiu na água e terminou morrendo afogado. No lugar onde caiu, nasceu uma flor, que passou a chamar narciso.

            O escritor Oscar Wilde, porém, tem uma maneira diferente de terminar esta história.

Ele diz que, quando Narciso morreu, vieram as Oréiades – deusas do bosque – e viram que a água doce do lago havia se transformado em lágrimas salgadas.

            “Por que você chora?”, perguntaram as Oréiades.

            “Choro por Narciso.”

            “Ah, não nos espanta que você chore por Narciso”, continuaram elas. “Afinal de contas, apesar de todas nós sempre corrermos atrás dele pelo bosque, você era o único que tinha a oportunidade de contemplar de perto sua beleza.”

            “Mas Narciso era belo?”, quis saber o lago.

            “Quem melhor do que você poderia saber”, responderam, surpresas, as Oréiades. Afinal de contas, era em suas margens que ele debruçava todos os dias.”

            O lago ficou algum tempo quieto. Por fim, disse: “Eu choro por Narciso, mas jamais havia percebido que Narciso era belo. Choro por ele porque, todas às vezes que ele se deitava sobre minhas margens, eu podia ver, no fundo dos seus olhos, a minha própria beleza refletida.”

            No texto de Oscar Miguelez, “Narcisismo, religião e cultura: as torres gêmeas”, ele nos chama a atenção para uma das particularidades do conceito de narcisismo freudiano que é concebido dentro de uma dialética intersubjetiva eu/outro. É do encontro do olhar totalizador da mãe que um “eu” pode ser estruturado. A alteridade possibilita a subjetividade. Exterioridade e interioridade circulam em bandas opostas, mas inseparáveis. Impossível pensar uma sem a outra. É um equívoco imaginar o narcisismo como solipsismo ou como anobjetalidade.

            É no sentido dessa intersubjetividade que o narcisismo se presta de maneira singular a conceber-se como uma “ montagem”. Não há Narciso sem um outro que sustente a posição narcísica.

            Deste ponto de vista a versão final do mito de Narciso de Oscar Wilde está correta. Narciso não vê o lago, só vê a si mesmo refletido nas águas do lago; assim como o lago não vê a beleza de Narciso e nem chora por sua perda, chora por não ver a sua beleza refletida nos olhos de Narciso. Aparecendo a “montagem” entre Narciso e as águas do lago, um sustentando a posição narcísica do outro.

            Fazendo à algumas semanas atrás o diagnóstico de uma menina de dez anos, que apresentava um atraso motor e cognitivo, pedi-lhe desenhos-estórias para averiguação do emocional. Na entrevista a mãe havia me contado que entre os quatro e seis meses de vida esta menina havia apanhado da babá e que ela só soube porque os vizinhos vieram contar dos maus tratos; e que atualmente, a menina, espera o pai chegar para jantar, só come o que ele come e só vai dormir quando ele dorme, apresentando enurese noturna.

 Estes desenhos foram sofrendo uma deterioração e as estórias foram ficando cada vez mais agressivas e desconectadas; comecei a me questionar se esta menina estava com um funcionamento psicótico.

            No primeiro desenho ela fez um menino com uma faca na mão e uma cobra sangrando. Contou: “ Aqui tinha uma cobra, o menino falou: Sai daqui, cobra! Ele tinha uma faca na mão. Ele matou a cobra com a faca e ficou saindo sangue. Ele matou a cobra porque ela ia morder ele.” Título que deu para a estória: “A cobra e o Felipe”.

            O conflito psicótico se instala precocemente. Seu paradigma é o mito de Narciso, com uma estrutura fundamentalmente dual. O ego não se diferencia bem de seus objetos primários, e o acesso a organização genital é muito precário, se é que existiu. O ego não alcançou um grau de coesão interna que lhe dê estabilidade e está sempre ameaçado de desmoronar-se. Este ego mal constituído não é capaz de fazer uso do mecanismo da repressão e apela para defesas mais arcaicas, do tipo da identificação projetiva, a negação da realidade psíquica ou a renegação da realidade externa. Não se constitui um inconsciente diferenciado da consciência. A angústia dominante é a angústia da fragmentação do ego, pelo qual o sujeito busca desesperadamente uma imagem de si que possa sustentar o seu ego.

            O conflito psicótico é fundamentalmente intrasistêmico, por sua vez associado a um conflito intersistêmico, com a instância superegóica e a realidade.

            Vi neste primeiro desenho, relacionando-o com a estória narrada, um deslocamento para uma figura mais forte que ela, um menino, que pode afastar dela todos os perigos, defendendo-a contra as maldades persecutórias que a afligem. O ego está fragmentado e o único recurso é buscar forças fora de si, numa fantasia narcísica, de poder.

            No segundo, desenhou um urso e um leão lutando, o leão sangrando; os dois animais com uma aparência agressiva, unhas e dentes pontiagudos. Contou: “O leão e o urso estão lutando porque eles queriam ver quem era o mais forte. O urso disse: Eu vou ganhar de você! Você não vai me morder! Eu vou te morder sim e vou chupar todo o seu sangue! O leão ganhou.” Título: “O leão e o urso.”

            Ao ver este desenho e escutar esta estória fiquei refletindo sobre o texto “O canibal melancólico”; onde o conceito de incorporação sustenta-se em uma imagem que garante à oralidade a função de um modelo, permitindo dar às formas primitivas de identificação a evidência de um conteúdo corporal. Freud e Karl Abraham designaram sob o termo canibalismo a expressão desse gozo da unidade violenta, na perda de qualquer limite.

            O canibalismo deriva de uma verdadeira transgressão imaginária de uma falta (privação, perda, abandono, separação) cujo desconhecimento assume a figura de desmentido do próprio real. Não há margem para engano: quaisquer que sejam as expressões clínicas tomadas pela angústia de separação (no duplo sentido de “separar-se de” e de “ser separado”, ou seja, “em pedaços”), o canibalismo compreende essa agressividade presente na própria angústia de perder o objeto de amor e de aniquilá-lo em lugar de a ele renunciar destacando-se dele. O luto canibal é claramente essa solução incestuosa da união alimentar ao objeto de amor cujo desaparecimento pode entrar em um saber, mas – segundo a lei de clivagem – permanece decididamente fora do alcance do crer.

            Assim como Narciso devorou a sua própria imagem, jogando-se no lago para poder absorvê-la; o lago também o devora para ficar com a imagem refletida nos olhos de Narciso.

            Quando vi esta criança pela primeira vez, sua hipotonicidade de olhos me fez pensar em alguma síndrome, depois em melancolia. Seu histórico nos remete à segunda hipótese, criança que na época do desmame sofreu maus tratos; além da perda do seio, de se sentir desamparada e frustrada pelo objeto, ainda apanhava, sentindo-se mais desamparada, não havendo possibilidade de integração do ego. O que vemos na melancolia é que o eu vai junto com o objeto que se perdeu; não há um eu que suporte a perda e procure uma nova relação, não há possibilidade de distinção entre o eu e o objeto. O que fracassa na melancolia é que não há uma subjetividade que suporte a perda.

            A incorporação canibal não é de forma alguma o ato simbólico da resolução da perda. Ela é a satisfação-imaginária da angústia alimentando-se do objeto perdido – objeto cuja “perda” foi de algum modo necessária para que ele permanecesse vivo e presente em sua realidade primitiva alucinatoriamente conservada. O canibalismo seria a expressão mítica de um luto melancólico – espécie de assassinato – de um objeto, sob o encanto do qual o eu foi colocado e do qual ele não consegue resolver-se a se separar, como mostra a angústia de mantê-lo presente a partir de sua ausência.

            Este segundo desenho mostra o desejo de incorporar e beber o sangue do outro para se tornar mais forte e poder sobreviver à angústia desta separação que foi traumatizante para esta criança.

            No terceiro desenho realizou um céu, nuvens, chuva, sol, uma figura humana, um cachorro e um osso. Contou: “Céu, chovendo, sol, palhaço falando com o cão. Queria pegar o osso, mas estava chovendo e não podia pegar o osso. Volta aqui cão! O palhaço podia dar ração para o cão. O palhaço gosta do cão e o cão gosta do palhaço. Título: “O cão e o osso.”

Volta aqui a questão do ser alimentado, a ambivalência, a resolução do problema, mas que não aconteceu, e a defesa narcísica da sustentação do amor entre o palhaço e o cão. Havia um problema no estar sendo cuidada e alimentada, havia a mãe (o sol), porém também existia o obstáculo a babá (a chuva) que não permitia uma saída para a busca da satisfação (o osso), o palhaço (o pai) poderia ter interferido se não fosse tão ausente e percebido o que estava ocorrendo, o palhaço representa um papel, mas não assume o lugar de, assim é melhor continuar pensando que existe afeto entre eles (o palhaço e o cão).

            Freud assinala que na formação de sintomas na psicose esquizofrênica se perde o investimento da representação inconsciente do objeto primordial. Héctor Garbarino pensa que como esta representação está fusionada com as representações de si, do ego do sujeito, a perda dessa representação vem acompanhada da perda do próprio ego. O problema do psicótico é o de sobreviver, já que sua existência está ameaçada por não dispor de um ego com representações autônomas de si, independentes das representações do objeto primordial. Se por diversas razões sente que perdeu o objeto primário, seu ego não pode sofrer esta perda sem desintegrar-se.

            Se o neurótico modifica a realidade segundo suas fantasias, o psicótico a constrói de novo a seu modo, buscando reconectar-se com os objetos perdidos. Freud assinalou que o delírio que aparece como a manifestação da enfermidade constitui, na realidade, um processo de cura.

            Neste terceiro desenho-estória, descrito acima há uma tentativa de resgatar o objeto primário, transferindo a culpa para outro objeto e mesmo assim com um aplacamento do sentimento de amor dual, “o palhaço gosta do cão e o cão gosta do palhaço”.

            No quarto desenho fez duas figuras humanas, uma bem maior do que a outra, com chifres e dentes de vampiro, com o braço comprido querendo alcançar a figura menor; novamente o sol e nuvens. Contou: “O demônio e o menino. O demônio jogou um raio para matar o menino. O menino morreu e foi para o cemitério. Porque o demônio não gostava de criança, desorganizava a casa dele.”  Título:“ O demônio e o menino.”

            Seu deslocamento é sempre para a figura masculina, que sente como figura mais forte, mais poderosa. Novamente a ambivalência, sol e nuvens; a figura terrível de um demônio que lança raios para matar quem desorganiza a sua casa. Vemos aí uma identificação com a figura masculina, talvez por ter perdido o objeto primário ou por não ter podido se identificar com ele. Na análise da melancolia, a perda real ou emocional de um objeto amado causa como característica principal uma cruel autodepreciação do ego, combinada com uma inexorável autocrítica e muitas autocensuras. As análises demonstram que essa depreciação e essas censuras aplicam-se, no fundo, ao objeto e representam a vingança do ego sobre ele. A sombra do objeto caiu sobre o ego. A introjeção do objeto é inequivocamente clara.

            Essas melancolias mostram o ego dividido, separado em duas partes, uma das quais vocifera contra a segunda. Esta segunda parte é aquela que foi alterada pela introjeção e contém o objeto perdido. Porém a parte que se comporta cruelmente não a desconhecemos. Ela abrange a consciência, uma instância crítica dentro do ego, que até em condições normais assume uma atitude crítica para com a última. Levanta-se a hipótese de que no ego se desenvolve uma instância capaz de se isolar do resto daquele ego e entrar em conflito com ele. A essa instância chamamos de ideal de ego e lhe é atribuído a função de auto-observação, a consciência moral, a censura dos sonhos e a principal influência na repressão. Ele é o herdeiro do narcisismo original em que o ego infantil desfrutava de auto-suficiência; gradualmente reúne das influências do meio ambiente, as exigências que este impõe ao ego, das quais este não pode sempre estar à altura; de maneira que um homem, quando não pode estar satisfeito com seu próprio ego, tem possibilidade de encontrar satisfação no ideal do ego que se diferenciou do ego. Nos delírios de observação a desintegração dessa instância tornou-se patente e revelou sua origem na influência de poderes superiores e dos pais.

            No quarto desenho-estória vemos uma autocrítica muito grande à figura do menino que é destruído pelo raio do demônio, ele desorganizou a vida deste demônio, portanto merece morrer e ser enterrado, para não mais molestá-lo.

Quinto e último desenho-estória, ela fez: sol, nuvens (agora pretos, nos outros eram amarelos e azuis), um rio, um castelo preto sobre o rio marrom e uma figura humana presa dentro do castelo. Contou: “Rio Tietê, castelo preto porque era de noite. O rio falou mentira. Falou mentira! Você vai para a morte! Não ia para a morte porque todo mundo contava mentira, dia do azar. Ficou o azar do menino. Ficou tudo cinza.” Título: “O castelo e o menino.”

Neste último desenho-estória percebe-se com clareza uma clivagem de ego expressa no grafismo, na verbalização e no conteúdo da estória. Há sol e nuvens, mas é noite. Há um rio que traz vida e movimento, porém é o Tietê (rio sem vida, poluído). Há um castelo que mostra riqueza e proteção, mas ele também aprisiona. Há o menino que conta mentiras e pode morrer por isto, no entanto não morre, fica aprisionado no azar, o azar de não ser o ideal de ego. A construção gramatical também sofre uma clivagem, frases soltas, sem conexão, sem o verbo que promove a ação.

Quando Freud se interessou pelas diferenças entre as estruturas clínicas, expôs a hipótese de que em cada uma o ego entra em conflito com algum de seus três grandes senhores: as pulsões, o id, nas neuroses de transferência, a realidade supostamente exterior nas psicoses (nas perversões) e o superego nas melancolias (às quais denominou de neuroses narcísicas).

Em cada uma destas estruturas, o ego se opõe a algum de seus senhores, ao defender-se de seus representantes psíquicos. Assim defende-se de certas representações e de certos pensamentos (representantes psíquicos da pulsão) mediante a repressão, ou se defende de certos juízos de existência (representantes psíquicos da suposta realidade) mediante a cisão e/ou o desmentido.

No caso das melancolias, Freud afirma que o conflito fundamental do ego não guarda relação nem com a pulsão nem com a realidade, mas com o superego. Ele sustentou que nas melancolias o superego é puro cultivo da pulsão de morte. Mas, se o conflito do ego se centra na relação com o superego, então cabe indagar em que consiste a defesa. Não se trata meramente da retirada dos investimentos e dos contra-investimentos, em face das frases admonitórias do superego, mas de outro mecanismo que culmina com o ego à mercê das auto-repressões, e em outras ocasiões de um mecanismo diverso, que consiste na refutação de um juízo do superego mediante um sacrifício. Dito de outro modo, podem ser erigidas duas defesas nas estruturas narcísicas perante o superego, a cisão e o desmentido. Quando sobrevem a cisão dos juízos do superego, também ocorreu o desmentido, mas a inversa não é necessária: pode haver desmentido sem cisão, como ocorre nas estruturas depressivas, não melancólicas.

A cisão do superego é correlativa de uma retirada dos investimentos da formação de ideais, e em conseqüência o superego é transformado em puro cultivo da pulsão de morte. Freud sustentou que no superego se reconciliam a realidade e as pulsões, e neste sentido cremos que a cisão do superego é uma defesa que atenta contra esta instância enquanto representante da realidade.

Tanto no mito de Narciso como nas estórias desta menina vemos claramente a defesa narcísica, o superego sendo transformado em cultivo de pulsão de morte. Morre-se por se quer alcançar algo inatingível, morre-se ou há o desejo de morte por não se conseguir atingir um ego ideal, aquele que é formado por uma “montagem”, sustentado pelo olhar de outro.

 

                                               Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

Referências Bibliográficas:

Freud, S. – “Introdução ao Narcisismo” – 1914 – Volume XIV – Edição Standard Brasileira.

Freud, S. – “Luto e Melancolia” – 1917 – Volume XIV – Edição Standard Brasileira.

Freud, S. – “Identificação” – 1921 – Volume XVIII – Edição Standard Brasileira.

Miguelez, O – “Arendt com Freud: o mal em questão.”

Miguelez, O. – “Narcisismo, religião e cultura: as torres gêmeas”.

“ O Canibal Melancólico” – Depressão.

Garbarino, H. – “Estudos Sobre Narcisismo” – 1986 – Biblioteca Uruguaia de Psicanálise – Volume II.

Maldavsky, D. – “Estruturas Narcisistas Constituição e Transformações” – 1992 – Imago Editora.

Anotações das Aulas do Seminário Teórico de Oscar Miguelez.

 Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

 

 

 

 

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Narcisismo

     Falar de um conceito tão complexo e abrangente, é falar de nós mesmos, enquanto sujeitos ligados a uma cultura que é cada dia mais narcisista. Basta ver os programas de TV de maior audiência: Big Brother Brasil, Ratinho, Domingão do Faustão, Domingo Legal, etc.; em que aparecer na mídia e ficar em evidência por alguns segundos vale tudo, até mesmo se expor as mais humilhantes situações.

            Entretanto, antes de falar em cultura, temos que olhar para algo mais específico, o desenvolvimento do ser humano.

            A sexualidade inicia com a libidinização da criança pelos pais. Colocada no papel de “sua majestade o bebê”, a criança na relação com a mãe vai aprendendo a saciar a sua fome ao mesmo tempo em que é despertada para o auto-erotismo, pois ao mamar ela sente prazer ao ser saciada e também no contato da mucosa da boca com o mamilo. Quando mais tarde leva o dedo aos lábios para sugá-lo ela está tentando reviver o prazer alcançado anteriormente da boca com o mamilo; temos aí a oralidade, uma das zonas erógenas que foi despertada pela pulsão autoconservadora e que depois se transformará em pulsão sexual.

            A boca não é a única zona erógena que será despertada na criança; no cuidado com a mesma, a mãe, ou quem exerce a maternagem, vai estimulando outras zonas erógenas – “qualquer revestimento cutâneo-mucoso susceptível de se tornar sede de uma excitação de tipo sexual; de forma mais específica, certas regiões que são funcionalmente sedes dessa excitação: zona oral, anal, uretro-genital, mamilo.”*

            Mesmo o olhar que a mãe dirige ao bebê, quando está amamentando libidiniza-o. É como se ela estivesse vendo a si mesma e parte de si nele, e o bebê estivesse se mirando nas “ águas da fonte de Téspias” (onde Narciso se viu e enamorou-se) – relação especular. Os dois se miram e se vêem nos olhos do outro. Os pais ficam tão embevecidos pela cria que depositam o seu narcisismo no bebê.

            Nasce assim o auto-erotismo, conceito que se apoia nas três características da sexualidade infantil: apoio na função vital (auto-preservação); auto-erótico (alucinando ou procurando pulsão parcial, chupar o dedo, por exemplo) e tudo isto comandada pelas zona erógenas. “De um modo mais específico, auto-erotismo é uma característica de um comportamento sexual infantil precoce pelo qual uma pulsão parcial, ligada ao funcionamento de um órgão ou à excitação de uma zona erógena, encontra a sua satisfação logo ali, isto é:

1-     sem recorrer a um objeto exterior;

2-     sem referência a uma imagem do corpo unificado, a um primeiro esboço de ego, tal como Freud caracteriza o narcisismo”. **

      Assim, a criança descobre que ela se dá prazer através das pulsões parciais, surgindo o narcisismo primário.

      É parte do papel dos pais a narcisização, colocando a criança no papel central, sua “majestade o bebê”. Mas também é parte da função dos mesmos ir aos poucos retirando-a deste papel para poder inseri-la na cultura. A criança então se volta à procura de um objeto que estabeleça com ela a mesma relação perdida com os pais.

      Nesta escolha de objeto, Freud confronta duas maneiras pelas quais o homem elege o objeto amado: a partir de sua própria imagem – “narcísico”; e a escolha “anaclítica” – de apoio. Apoio na função de autoconservação, um apoio no objeto, apoio na mãe.

      Este “apoio” é, na origem, um apoio da sexualidade infantil no instinto, se se compreende por instinto o que orienta esta “função corporal essencial à vida”, tratando-se da fome e da função alimentar.

      Depois da oralidade, primeira pulsão sexual parcial, o sujeito se voltará para outra zona erógena, a analidade. O erotismo anal é um dos componentes da pulsão sexual que, no decurso do desenvolvimento e de acordo com a educação que a nossa atual civilização exige, se tornarão inúteis para os fins sexuais. Os traços de caráter – a ordem, a parcimônia e a obstinação – com freqüência relevantes nos indivíduos que anteriormente eram anal-eróticos, serão os primeiros e mais constantes resultados da sublimação do erotismo anal.

      A limpeza, a ordem e a fidegnidade dão exatamente a impressão de uma formação reativa contra um interesse pela imundice perturbadora que não deveria pertencer ao corpo.

      O interesse erótico original na defecação está destinado a extinguir-se em anos posteriores. E não encontramos um acentuado grau de caráter anal nos indivíduos que conservaram na vida adulta o caráter erógeno da zona anal, os homossexuais.

      Freud viu nos homossexuais outra forma de escolha de objeto, diferente da escolha de apoio – anaclítica, a escolha narcísica:

  • o que ela própria é ( a imagem dela mesma);
  • o que ela própria foi ( na infância o objeto de amor dos pais);
  • o que ela gostaria de ser ( uma pessoa famosa, por exemplo);
  • alguém que foi uma vez parte dela mesma (figura de identificação com ela mesma – homossexual).

Para melhor compreendermos o narcisismo secundário temos que nos voltar para o estudo da doença orgânica; para a hipocondria e para a vida erótica dos sexos.

Avaliar a influência da doença orgânica sobre a distribuição da libido, levou Freud a observar que uma pessoa atormentada pela dor, deixa de se interessar pelas coisas do mundo externo, porque elas não dizem respeito ao seu próprio sofrimento. Retira também o interesse libidinal  de seus objetos amorosos.

O hipocondríaco também retira o interesse e a libido, a segunda de forma acentuada, dos objetos do mundo externo, concentrando ambos no órgão que lhe prende a atenção.

A diferença entre a hipocondria e a doença orgânica está que na segunda as  sensações aflitivas baseiam-se em mudanças demonstráveis, na primeira isso não ocorre.

Na hipocondria e parafrenia há o represamento da libido no ego. Na neurose histérica e obsessiva há o represamento da libido no objeto (recalcamento).

Os primeiros objetos sexuais de uma criança são as pessoas que se preocupam com a sua alimentação, cuidados e proteção, isto é, sua mãe ou quem quer que a substitua. Esse tipo e fonte de escolha objetal pode ser denominado o tipo anaclítico, ou de ligação, ou de apoio.

Em pessoas cujo desenvolvimento libidinal sofreu alguma perturbação, tais como pervertidos e homossexuais que em sua escolha ulterior dos objetos amorosos elas adotaram como modelo não sua mãe, mas seus próprios eus. Procuram a si mesmos como um objeto amoroso e exibem um tipo de escolha objetal que deve ser denominado narcisista.

Quando Freud vai buscar no mito de Narciso o termo para designar o conceito de narcisismo, não poderia ter feito escolha melhor. Pela definição do Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis: “Narcisismo – em referência ao mito de Narciso, amor que se tem pela imagem de si mesmo”. Uma das características da mitologia e de todo o mito é a onipotência de pensamento. Neste mito a onipotência de pensamento é acreditar que nos bastamos e que não há ideal de ego melhor do que o nosso. É tentar esconder o nosso desamparo com o pensamento onipotente de poder se bastar.

Por este motivo, o conceito de narcisismo está mais para a psicose do que para a neurose. Na neurose o conflito é com o objeto amoroso, havendo o recalcamento; na psicose há o desinvestimento do objeto e investimento da libido maior no ego, há o desligamento do objeto, negação do desamparo. O que torna necessário para o desenvolvimento da vida mental sadia é ultrapassar os limites do narcisismo e ligar a libido a objetos. Devemos começar a amar a fim de não adoecermos e estamos destinados a cair doentes se formos incapazes de amar.

A escolha narcísica do tipo que ela própria gostaria de ser é o mal da sociedade atual, onde o que vale é o “aparecer”, o se mirar nos olhos dos outros, o voltar a se mirar “nas águas da fonte de Téspias”; onde a nossa imagem é o que importa, estar sob o olhar de milhares de pessoas, mesmo virtualmente, por alguns segundos, nem que seja de maneira degradante.

 *Laplanche e Pontalis – Vocabulário da Psicanálise – Martins Fontes Editora Ltda – décima edicão brasileira; setembro de 1988.

**id, ibidem.

Referências Bibliográficas:

Freud, S. – Caráter e Erotismo Anal – Volume IX – 1908 – Imago.

________ – Um Tipo Especial de Escolha de Objeto feita pelos Homens – Vol. XI – 1910 – Imago.

________ – A Depreciação na Esfera do Amor – Vol. XI – 1912 – Imago.

 ________ – Sobre o Mecanismo da Paranóia – Vol. XII – 1910/1911 – Imago.

_______ – Totem e Tabu – Animismo, Magia e Onipotência dos Pensamentos –  Vol. XIII 1912/1913 – Imago.

_______ – Sobre o Narcisismo – Uma Introdução – Vol. XIV – Caps. 1, 2 e 3 – 1909  Imago.

 Laplanche, P. – Vida e Morte em Psicanálise – 1985 – Artes Médicas.

 Green, A. – Narcisismo de Vida e Morte em Psicanálise.

 Laplanche, P.; Pontalis; J.B. – Vocabulário da Psicanálise – Martins Fontes.

Anotações do Seminário Clínico administrado pelo Prof. Oscar Migueles.

Por  Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

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Samba do Crioulo Doido – terceira e última parte

Vejam bem, estávamos nascendo para a psicanálise e para isso tínhamos que entender muitos conceitos, iniciávamos uma fratura na maneira de pensar. Se antes tínhamos a certeza, a previsibilidade, o esperado, a natureza, o automatismo, a repetição, a infinidade, a falta de angústia, o oráculo, o absoluto, o paraíso, o gozo, o amparo, o silêncio, a inércia, a estabilidade, a paz, a necessidade, o objeto fixo; agora tínhamos a incerteza, a imprevisibilidade, o inesperado, a cultura, a autonomia, a inovação, a finitude, a angústia, o enigma, o relativo, o inferno, o desprazer, o desamparo, o ruído, o mutacional, a instabilidade, a guerra (conflito), o desejo, o objeto contigente. E este renascer não é fácil, se já fomos expulsos do útero materno uma vez, tivemos que ser expulsos pela segunda vez, abandonar o paraíso perdido. A invasão desta pressão que vem do corpo e está fora do aparelho psíquico, causa dor psíquica, causa angústia. “Não seio, logo penso” (frase dita em classe pelo professor Ede de Oliveira Silva). Tivemos que abandonar uma série de premissas que tínhamos como certas, elaborar lutos e a sucessão de perdas faz emergir as pulsões de morte, porque causam angústia. A noção de não viver na própria vida vincula-se à falta de identidade pessoal, à falta de desejo. A falta de desejo remete a questões muito primitivas, arcaicas mesmo, de não poder viver a ferida narcísica. É a ferida narcísica que dá lugar ao desejo, em outra linguagem, é a castração simbólica representada pelo pai na relação fusional materna/bebê, que dá lugar à ferida narcísica. É a ferida narcísica, o espaço de desejo, que dá ao sujeito a pré-condição de escolher, desejar, buscar sempre uma completude que, irremediavelmente, não se dará nunca mais, mas que é a mola propulsora da vida, propiciando ao sujeito a busca da realização através dos estudos, do trabalho e na vida pessoal; ufa, chegamos à adolescência no estudo da psicanálise!

A pulsão de morte é traumática por natureza porque não tem um escudo protetor para o que vem de dentro do corpo. O aparelho psíquico está desamparado porque a pulsão já está presente desde o nascimento; para fazer ligação preciso ter uma experiência com o objeto. A qualificação da pulsão vai ser feita dentro do aparelho e na relação com o objeto; no encontro da pulsão com o objeto é que se dá a formação do aparelho.

O aparelho psíquico é um aparelho de captura dessa força, Drang, que está constantemente pressionando, mas é também um aparelho que destina; tem de estar o tempo todo organizando para dar conta dessa força constante e, tenta administrar através de descargas em momentos que são possíveis, dando-lhe destinos pulsionais. Há quatro maneiras de dar destinos a estas cargas, também chamados de defesas: reversão ao seu oposto, retorno ao próprio eu, repressão e sublimação. No primeiro destino existe um movimento da pulsão parcial, passando da atividade para a passividade e uma mudança de conteúdo, do voyerismo para o exibicionismo por exemplo. No segundo destino há uma volta a si mesmo, do masoquismo para o sadismo. No terceiro, o recalque faz parte da organização do aparelho psíquico e como já foi dito anteriormente há um conflito entre instâncias, desejo versus defesa. E na quarta, o destino da pulsão volta-se para um novo alvo não sexual, principalmente para atividade artística e a investigação intelectual. Foi o que o crioulo doido fez, sublimou, voltando-se para uma criação artística, fazendo do seu samba uma metáfora, um chiste.

O conceito de pulsão de morte, tão controvertido e especulativo, como uma força silenciosa que subjaz que é a raiz e a base dos processos psíquicos representacionais deu alento a um conhecimento mais profundo dos processos mentais. Para uma nova teoria pulsional, uma nova tópica teria de ser criada, mais ampla, mas abrangente que suportasse esses acréscimos.

A pulsão de morte, essa força viva, ainda não representada, seria a verdadeira pulsão. Uma energia livre de qualquer representante seria o atual, o novo, o ainda indivisível e irrepresentável. O trabalho maior do aparelho psíquico seria o de ligar esta força e transformá-la em uma já ligada aos seus representantes psíquicos, agora sob o império do princípio do prazer, com as leis correspondentes. Segundo Ede de Oliveira Silva, apud Garcia Roza, 1990: “A instalação dessa ordem ainda inicialmente anárquica inaugura o domínio de Eros. O aparelho psíquico (abrangendo o representado e o não representado) estaria regido por dois princípios: o princípio do além do princípio do prazer (Nirvana) onde reina o caos, o gozo, a desordem, o novo, a liberdade total, um verdadeiro caldo pulsional sob a regência da pulsão de morte; e o princípio do prazer, lugar da ordem e do prazer, do passado e da energia ligada, sob a regência da pulsão de vida.” No samba do crioulo doido vê-se o jogo entre Eros e Thanatos. Aparentemente os seus versos não têm ligação nenhuma com os fatos históricos e os personagens estão desconexos. Mas à medida que vemos uma vontade de quebrar com a ordem estabelecida, em fazer um chiste, há um destino dado à carga pulsional, que é o de sublimar, de criar algo novo, criticando-se um regulamento que submetia o sujeito e tentava enquadrar a sua criação. Observando-se, neste sentido a fusão das duas forças numa só, a mesma que pressiona que traumatiza, também é a que faz mover à procura de uma solução, de uma criação.

No texto de Joel Birman, “Psicanálise Uma Estilística da Existência?”, ele coloca como obstáculos atuais da psicanálise o masoquismo e o fim da análise. O masoquismo é uma problemática que se coloca tanto no nível de clínica, como a nível institucional. O masoquismo emanente (erógeno – uma parte da pulsão de morte que foi defletida permaneceu no ego; há uma dor, mas também há um prazer pela dor) dificulta o processo de elaboração, havendo maior possibilidade de desenvolver o masoquismo feminino (fálico), ou o masoquismo moral. Impedindo o fim da cura e também à transmissão da psicanálise em decorrência da posição identificatória assumida pelo sujeito de servidão voluntária. No masoquismo o sujeito se submete para ser aceito, para ser amado. O sambista também se submete para ser aceito pela comissão julgadora. Há uma relação sadomasoquista entre o regulamento que é estabelecido e o compositor que se submete ao mesmo.

No nível institucional, as diferentes formas de servidão aos mestres e aos poderes psicanalíticos que estão presentes em quase todos os grupos de analistas, também impedem a formação. Um princípio de base não pode ser transmitido ao sujeito, que é justamente o da ética, o respeito à individualidade. O encontro do sujeito com o seu desejo deveria produzir algo totalmente criativo, diferente; se passa justamente ao contrário. Traços masoquistas são bastante salientes e severas as perturbações depressivas, notando-se uma imensa arrogância que traduz os estragos deploráveis da onipotência narcísica por parte dos analistas, que é segredo de polichinelo. Justamente a instituição que nos compele a fazer análise com a promessa de sermos analistas, paradoxo contra a ética, está composta por um grupo de analistas, na sua maioria, que não foram castrados simbolicamente pela análise.

Iniciei o curso fazendo transferências positivas e negativas com os professores, ligando alguns aspectos desses aos meus representantes internos parentais. À medida que o curso avançou e fui compreendendo o processo que estava vivendo, estas transferências foram se modificando. Assim como modificou a visão da realização deste trabalho, se antes era algo inoperante, difícil, arbitrário e impositivo; realizá-lo fez com que percebesse o quanto aprendi e o quanto ainda tenho que fazê-lo. E como disse Maria Cristina Perdomo, “sublimar é o melhor destino”, numa tentativa de organizar o nosso aparelho psíquico, mesmo que seja através de um chiste. Voltamos ao início do trabalho ao retorno do reprimido, à formação de compromisso.

Como o crioulo teve que assimilar tanta história do Brasil para poder dar conta de realizar um samba enredo; espero durante estes quatro anos de formação dar conta de tantos conceitos que tive que articular, e poder passar de crioulo doido para crioulo entendido.

Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

Para quem não conhece O Samba do Crioulo Doido aqui está ele na íntegra:

         Samba do Crioulo Doido – 1968

                                               (Sérgio Porto)

Prefácio – Stanislaw Ponte Preta

Este é o samba do crioulo doido. A estória de um compositor que durante muitos anos obedeceu ao regulamento e só fez samba sobre a história do Brasil. E tome de Inconfidência, Abolição, Proclamação, Xica da Silva. E o coitado do crioulo teve que aprender tudo isto para o enredo da escola. Até que no ano passado escolheram um tema complicado: Atual Conjuntura. Ah! Aí o crioulo endoidou de vez e saiu este samba.

Foi em Diamantina,

onde nasceu J.K.

que a princesa Leopoldina,

arresolveu se casar.

Mas Xica da Silva,

tinha outros pretendentes

e obrigou a princesa,

a se casar com Tiradentes.

La, la, la, ia, la, la.

O bode que deu vou te contar.

Joaquim José,

que também é da Silva Xavier,

queria ser dono do mundo,

e se elegeu Pedro II.

Das estradas de Minas

seguiu prá São Paulo

e falou com Anchieta.

O vigário dos índios,

aliou-se a Dom Pedro

e acabou com a falseta.

Da união destes dois

ficou resolvida a questão,

e foi proclamada a escravidão.

Assim se conta esta história,

que é dos dois a maior glória.

A Leopoldina virou trem,

e Dom Pedro é uma estação também.

O, o, o o o o,

O trem tá atrasado, ou já passou.

Referências Bibliográficas

 

Birman, J. – Por uma Estilística da Existência – Editora Escuta – SP., 1995.

Freud, S. – Algumas Considerações para o Estudo Comparativo das Paralisias Motoras Orgânicas e Histéricas – Vol. I – pag. 180 – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – Carta 52 (06/12/1896) – Vol I – pag. 254 – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________­­ – Esboços para Comunicação Preliminar – 1893 – Vol. I – pag. 166 –­­­­ Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – Projeto para Psicologia Científica – 1895 – Vol. I – pag. 315 –­­­­ Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – Relatório sobre meus Estudos em Paris e Berlim – Vol. I – pag. 33 –­­­­ Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – Interpretação dos Sonhos – Vol. V – Cap. 7 – pag. 489 – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – Inconsciente – Vol. XIV – 198  – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – As Neuropsicoses de Defesa – Vol. III – pág. 57  –Edição Standard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – Os Instintos e suas Vicissitudes – Vol. IV – pag. 154Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – Além do Princípio do Prazer – Vol. XVIII – pag. 13 – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – Sobre os Sonhos – Vol. V – pag. 571 – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – Esquecimento dos Sonhos – Vol. V– pag. 471 – Edição Stardard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

_________ – Realização de Desejos – Vol. V – pag. 503 –  Edição Standard Brasileira – 2ª. Edição, 1987.

Hanns, L. – Dicionário Comentando do Alemão de Freud – Imago Editora – RJ, 1996.

Nasio, J.D. – O Prazer de Ler Freud – Jorge Zahar Editor – RJ, 1999.

Laplanche, J.; Pontalis, J.B. – Vocabulário da Psicanálise – Martins Fontes Editora – 10ª. Edição – SP, 1988.

Roudinesco, E.; Plon, Michel – Dicionário de Psicanálise – Jorge Zahar Editor – RJ, 1998.

Silva, E. O. – Uma Viagem pela Metapsicologia Freudiana – Boletim do Formação em Psicanálise – Ano VIII – Vol. VIII – Nº. 1 – Janeiro/Junho 1999.

Anotações feitas em aulas dos seminários teóricos dos professores Maria Cristina Perdomo; Maria Teresa S. Rocco; Ede de Oliveira Silva e Durval M. Nogueira Filho, Instituto Sedes Sapientiae.

Comentários desativados em Samba do Crioulo Doido – terceira e última parte

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Samba do Crioulo Doido – segunda parte

Cada transcrição subsequente inibe a anterior e lhe retira o processo de excitação. Uma falha na tradução, recalcamento, produz desprazer, provocando distúrbio de pensamento para não permitir o trabalho de tradução. Assim, no caso do nosso compositor, ele comete atos falhos, faz deslocamentos e condensações: “Joaquim José, que também é da Silva Xavier, queria ser dono do mundo e se elegeu Pedro II. Das estradas de Minas, seguiu pra São Paulo e falou com Anchieta, o vigário dos índios aliou-se a D. Pedro e acabou com a falseta. Da união deles dois ficou resolvida a questão e foi proclamada a escravidão.” Tiradentes, que já havia morrido, se elege um imperador (um deslocamento e uma condensação). Proclamada a escravidão, em vez de abolição (um ato falho).

         Freud cada vez mais atinha-se às formações do Inconsciente numa tentativa de captar o seu modo de funcionamento; sintomas, atos falhos, sonhos e chistes era sua matéria prima tanto para reformular o seu aporte teórico à medida que ia investigando, como para decifrar os pensamentos oníricos de seus pacientes. No capítulo VII da Interpretação dos Sonhos, 1900, uma linguagem psicológica foi privilegiada, afastando-se de um corpo biológico da etapa anterior. Estuda o aparelho psíquico representacional, dirigindo-se para o representado, para o simbolizado. Tudo já estaria inscrito psiquicamente. Estava lidando com o representado que eqüivalia ao passado do paciente. O sujeito psíquico estava determinado como nos primeiros modelos do aparelho psíquico. É como se cada quantidade energética que aportasse ao aparelho já existisse o seu representante correspondente. O sujeito estaria amparado por esse automatismo. Estamos diante do modelo dinâmico, onde o que comanda o aparelho são as representações* (*vorstellung – representação = designa “aquilo que se representa, o que forma o conteúdo concreto de um ato de pensamento” e  “em especial a reprodução de uma representação anterior”).

Ao estudar os sonhos (fenômeno universal), Freud descobriu a linguagem onírica, e a compreensão dos sonhos, através de sua análise, era a via régia para o inconsciente. Ele entende os sonhos como guardiões do sono. O sono pode ser perturbado por estímulos externos como um som forte, por exemplo. O sujeito que dorme pode produzir um sonho no qual o ruído é incorporado de modo a não incomodar o sono, pois além de incorporar ao sonho, a perturbação é removida através de uma explicação. Porém, mais freqüentemente, o sono é perturbado por estímulos internos. Os fisiológicos, tais como sede, fome, etc., que também são incorporados ao sonho, de modo a prolongar o sono. Mas, principalmente, os desejos não satisfeitos e conflitos não resolvidos dão origem a tensões internas que poderiam perturbar o sono. No sono, nossa relação com a realidade externa é temporariamente suspensa. Parte da censura interna é relaxada e ocorre regressão, de forma que desejos arcaicos inconscientes esforçam-se por encontrar uma expressão. A motilidade e a ação ficam suspensas e os desejos reprimidos buscam expressão “numa experiência alucinatória benigna”.

A linguagem comum reconhece o aspecto de realização de desejo dos sonhos ao usar o mesmo termo “sonho”, tanto para o devaneio, como para o sonho que temos enquanto dormimos. Mas há uma diferença fundamental entre os dois: o devaneio expressa desejos conscientes, organizados, racionalizados, aceitáveis para a nossa consciência desperta; no sonho, ao contrário, são precisamente os desejos* reprimidos que perturbam nossa vida psíquica, que buscam satisfação. (*wunsch; begierde; lust – desejo = na concepção dinâmica freudiana, um dos pólos de conflito defensivo, o desejo inconsciente tende a realizar-se restabelecendo, segundo as leis do processo primário, os sinais ligados às primeiras vivências de satisfação. A psicanálise mostrou no modelo do sonho, como o desejo se encontra nos sintomas sob a forma de compromisso).

Na época em que escreveu “A Interpretação dos Sonhos” Freud pensava que os sonhos eram predominantemente de desejos inconscientes (reprimidos) de natureza sexual. Posteriormente adicionou os de natureza agressiva aos de natureza sexual. Para ele, desejos bastante poderosos e dinâmicos e, no entanto, reprimidos, invariavelmente tem suas raízes em conflitos infantis (reprimidos na infância), mas em contínua atividade no inconsciente, por não encontrarem expressão na realidade, expressam-se por vias outra, sendo uma delas os sonhos.

O sonho quase sempre está ligado a algum evento ocorrido durante o dia, os restos diurnos. É possível que tal evento seja suficientemente importante para que torne compreensível que influencie o sonho. Mas, seja ele importante ou trivial, o resto ou resíduo diurno é um evento que de alguma forma se liga, na mente do sonhador, a algum conflito inconsciente mais profundo, vindo a representá-lo (de alguma forma, o resíduo diurno que desencadeia o sonho é similar a um acontecimento que poderia ter dado início a um sintoma neurótico ou a uma neurose).

A não satisfação dos desejos profundamente arraigados dá origem a tensões internas. Sua satisfação, entretanto, daria origem à ansiedade e culpa. Não é sem razão que esses desejos foram reprimidos em sua origem.

Freud chama de censor, ou censura o agente repressor que proíbe a satisfação de desejos inaceitáveis para a consciência e descreve o conflito como sendo entre os desejos inconscientes que lutam por expressar e satisfazer-se no sonho e a censura que proíbe tal satisfação.

O ego não desaparece no sono. Ele tem de se proteger tanto da tensão que surge de desejos insatisfeitos, quanto da ansiedade e da culpa que acompanham a satisfação desses desejos. Freud concebe os sonhos como o resultado de um compromisso entre o reprimido e as forças repressoras, como um modo de desviar-se da censura.

O sonho é produzido pelo trabalho onírico. O trabalho ou elaboração onírica converte os pensamentos oníricos latentes inaceitáveis para o ego, mesmo no estado de sono, no aparentemente inócuo conteúdo manifesto do sonho (o trabalho ou elaboração onírica é a primeira descrição de Freud de um conceito mais amplo e fundamental para a compreensão da psicanálise: o de trabalho psíquico).

O trabalho ou elaboração onírica visa satisfazer os desejos inconscientes inaceitáveis e conflitantes, disfarçando-os, o que envolve um modo particular de expressão, a linguagem onírica. Esta é constituída por mecanismos tais como: condensação, deslocamento, representação indireta de vários tipos, simbolismo.

No trabalho do sonho está em ação uma força psíquica que despoja os elementos com alto valor psíquico de sua intensidade e por meio da sobredeterminação, cria, a partir de elementos de baixo valor psíquico, novos valores, que depois penetram no conteúdo do sonho. A conseqüência do deslocamento é que o conteúdo do sonho não mais se assemelha ao núcleo dos pensamentos do sonho, e que este não representa mais do que uma distorção do desejo do sonho que existe no inconsciente.

A condensação é um aspecto invariável dos sonhos. Por mais curto que seja o sonho, os pensamentos latentes que ele contém estendem-se amplamente e muitos pensamentos e desejos, às vezes contraditórios, estão contidos no sonho como um todo e em seus vários elementos. Trata-se de vários fios associativos que se originam de diferentes impulsos e tendências de pensamentos que convergem e são expressos num elemento condensado.

A representação indireta pode ocorrer de várias formas: por semelhança, pela posse de um atributo comum, pelo uso de uma parte pelo todo, por oposição, por conexão verbal, etc.. Cada sonhador tem um estilo próprio e o estilo em si revela sua personalidade, reflete a ampla combinação de relações objetais, ansiedades e defesas que molda a personalidade de alguém. Todos os diversos métodos de representação de uma idéia no sonho constituem o trabalho onírico. No trabalho do compositor também há representação indireta, vejamos os seus últimos versos: “A Leopoldina virou trem e D. Pedro é uma estação também” (representação indireta pela posse de um atributo comum, o mesmo nome).

Há outro fator que encobre o pensamento onírico e opera depois que o indivíduo acorda: a distorção na recordação efetiva do sonho quando o indivíduo está desperto, a elaboração secundária. À medida que recordamos, distorcemos o sonho. Essa elaboração secundária é a continuação da repressão dos pensamentos latentes do sonho. Freud também descreve quão intolerável é para a nossa mente desperta a falta de lógica, o caos e a desordem. Por isso racionalizamos para fazer sentido aos nossos sonhos. Essa necessidade de construir uma história lógica é muito semelhante à resistência contra pensamentos inconscientes latentes do sonho. O crioulo tenta fazer do seu devaneio, uma história que tem começo, meio e fim; embora os fatos históricos estejam misturados, não apenas na ordem cronológica dos acontecimentos, mas também pela não conexão dos personagens.

Freud considerou três tipos de sonho:

  1. Sonhos não disfarçados de satisfação de desejo, característicos de criança;
  2. Sonhos que envolvem trabalho onírico e a satisfação disfarçada de desejos inconscientes;
  3. Sonhos que parecem se opor à teoria da satisfação de desejo, ou seja, sonhos de ansiedade e punição. Os sonhos de ansiedade são uma tentativa de disfarce que não foi bem sucedida, o ego responde com ansiedade e acorda o sonhador. Quanto aos sonhos de punição, Freud nos lembra que os sonhos são o resultado de diversos compromissos entre o censor e os desejos, e nos últimos, é o censor que tem vantagem.

O ato falho* é outra formação de compromisso entre a intenção consciente do indivíduo e o recalcado, bastando lembrar o que Freud nos fala em seu texto, Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901): é, num outro plano, um ato bem sucedido; o desejo inconsciente realiza-se nele de uma forma muitas vezes muito manifesta. A expressão “ato falhado” traduz a palavra alemã fehlleistung, que engloba não apenas ações strito sensu, mas toda a espécie de erros, de lapsos na palavra e no funcionamento psíquico (*ato em que o resultado explicitamente visado não é atingido, antes se acha substituído por outro. Fala-se de atos falhados, não para designar o conjunto das falhas da palavra, da memória e da ação, mas para os comportamentos em o indivíduo é habitualmente capaz de obter êxito, e cujo fracasso é tentado a atribuir apenas à sua falta de atenção ou ao acaso. Freud demonstrou que os atos falhados eram, tal como os sintomas, formação de compromisso entre a intenção consciente do indivíduo e o recalcado).  No verso em que o compositor comete um ato falho: “Da união deles dois ficou resolvida a questão e foi proclamada a escravidão”; onde troca a palavra abolição por escravidão, ele estava querendo dizer da sua condição de ter que se submeter aos delírios de uma comissão julgadora que impôs um tema tão difícil para um samba enredo de escola de samba.

O chiste (1905) também é uma formação do Inconsciente, colocando-se como uma formação de compromisso. Porém no chiste ocorre um drible interessante, não se fala sobre o que é reprimido, substituindo por outra palavra que dá outro sentido. Na formação do chiste ocorrem processos de condensação, com ou sem a formação de substitutivos, de representação pelo nonsense ou pelo oposto, de representação indireta, mostrando uma concordância muito abrangente com os processos de elaboração onírica. Para a existência do chiste há a necessidade de se ter três pessoas: o locutor, que produz o chiste; a pessoa de quem se fala, ou melhor, de quem se ridiculariza; e o cúmplice do primeiro, quem ouve, identifica e compartilha da mesma linguagem que o locutor. No samba do crioulo doido, o sambista é o locutor, quem faz a história do Brasil virar um chiste; os personagens da nossa história são os ridicularizados, tentando-se ridicularizar também uma instituição, o regulamento da comissão julgadora; e nós que ouvimos a música, identificamos, compartilhamos da linguagem do compositor, somos os cúmplices.

 Enquanto o sonho é a expressão da realização de um desejo e de uma evitação do desprazer, que leva a uma regressão para o pensamento em imagens, o chiste é produtor de prazer. Recorre-se aos mecanismos de condensação e deslocamento, caracteriza-se, antes de tudo, pelo exercício da função lúdica da linguagem, cujo primeiro estádio seria a brincadeira infantil e o segundo, o gracejo. Dentre os diferentes Witze, Freud distingue os inofensivos dos tendenciosos, tendo estes por móbil a agressividade, a obscenidade ou o cinismo. Além desses, existe um quarto móbil, mais terrível que o outro três: o ceticismo. Os chistes desse registro empregam o contra-senso e atacam não uma pessoa ou uma instituição, mas a certeza do juízo. Mentem quando dizem a verdade e dizem a verdade através da mentira. No samba o compositor usa do cinismo para atacar uma instituição, o regulamento da comissão julgadora a qual tinha que se submeter.  

Não foi à toa que o meu inconsciente pinçou na minha memória esse samba para tentar articular estes conceitos; primeiro como Freud e Lacan, gosto muito de chistes, talvez por me remeter às brincadeiras infantis e por gostar de gracejos; segundo, que enquanto representantes de uma instituição, os professores que fizeram esta proposta de trabalho, como falei no início, estavam, provavelmente, com o pensamento em alunos de quarto ano, talvez por isso a exigência que  teríamos que assimilar em tão pouco tempo conceitos que ainda necessitavam ser digeridos.

Continuação da publicação anterior, por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.  Ainda teremos uma terceira parte, onde incluirei as referências bibliográficas.

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SAMBA DO CRIOULO DOIDO

UMA TENTATIVA DE ARTICULAR OS CONCEITOS DE PULSÃO DE MORTE, DESEJO, INCONSCIENTE E FORMAÇÕES DO INCONSCIENTE

 

         Quando li a biografia de Sigmund Freud e constatei que em apenas oito meses foi nos dado ler e assimilar uma teoria que se inicia em 1885, desde a estada de Freud em Paris em companhia de Charcot, a 1920 com o texto “Além do Princípio do Prazer” e da descoberta do conceito de compulsão à repetição, pensei: “vou endoidar fazendo esse trabalho!” Minha memória pinçou de algum arquivo remoto o “Samba do Crioulo Doido”. Um compositor que por vários anos seguiu o regulamento e só fez samba sobre a história do Brasil: Inconfidência Mineira, Abolição, Proclamação da República, Xica da Silva.. E o coitado do crioulo teve que aprender tudo isto para o enredo da escola. Até que em determinado ano escolheram um tema complicado: “Atual Conjuntura” * (*1-situação nascida dum encontro de circunstâncias e considerada como um ponto de partida de uma evolução, uma ação, um fato; 2-lance difícil).  Ah! Aí o crioulo endoidou de vez!

         Assim estava eu, tentando articular um conjunto de conceitos importantes que Freud, considerado um gênio, levou 35 anos para criá-los, a partir de observações clínicas e trocas teóricas com seus amigos médicos e discípulos: levantando hipóteses sobre o que esteve presenciando e que tipo de pistas o levou a formular estas ou aquelas proposições, como só uma mente científica e original poderia chegar a tais conclusões. E, mais tarde, até reformular ou refutá-las, porque a prática clínica ia lhe mostrando outros aspectos que não havia percebido, ou sobre os quais não havia pensado. Sentia-me como o sambista da música que estudou conceitos separados e que agora teria que articulá-los. Esperava não entrar em delírios e poder cumprir o meu papel de aprendiz. Porque convenhamos é “um lance difícil”, “um ponto de partida de uma evolução” que leva muito mais tempo do que apenas oito meses.

Embarquei na viagem de Freud e comecei com a sua primeira descoberta, na sua permanência no Hospice de La Salpêtrière com Charcot, os sintomas* histéricos. (*Symptombildung = Sintoma – expressão utilizada para designar o fato de o sintoma psiconeurótico ser resultado de um processo especial, de uma elaboração psíquica, o retorno do recalcado).

         Charcot se afastou do estudo das doenças nervosas que se baseavam em alterações orgânicas e estava se dedicando exclusivamente à pesquisa das neuroses, especialmente da histeria. Freud investigou os ataques histéricos segundo um critério diferente do descritivo. Para ele, o ponto central de um ataque histérico é uma lembrança, a revivência alucinatória de uma cena que é significativa para o desencadeamento da doença. Com grande freqüência é algum fato da infância que estabelece um sintoma, mais ou menos grave, que persiste durante os anos subsequentes.  O conteúdo da lembrança geralmente é ou um trauma* psíquico que, por sua intensidade, é capaz de provocar a irrupção da histeria no paciente, ou é um evento, que devido a sua ocorrência em momento particular, tornou-se um trauma. (*Trauma = acontecimento da vida do indivíduo que se define pela sua intensidade, pela incapacidade em que se acha o indivíduo de lhe responder de forma adequada, pelo transtorno e pelos efeitos patogênicos duradouros que provoca na organização psíquica. Em termos econômicos, o traumatismo caracteriza-se por um afluxo de excitações que é excessivo, relativamente à tolerância do indivíduo e à sua capacidade de dominar e de elaborar psiquicamente estas excitações).    Foi o que ocorreu com o nosso sambista, acostumado a pesquisar sobre um único tema, quando lhe pedem um conjunto de circunstâncias atuais, um ponto de partida de uma evolução, ou seja, uma articulação, as excitações invadem o seu psiquismo, misturando os fatos e apresentando-os como se estivesse delirando ou sonhando.

         Sintomas: nevralgias, anestesias, contraturas, paralisias, ataques histéricos e convulsões epileptóides, petit mal, vômitos crônicos e anorexia, perturbação da visão, alucinações visuais. Pode haver uma relação simbólica* entre a causa precipitante e o fenômeno patológico; uma relação do tipo que as pessoas saudáveis formam nos sonhos. (*symbolik – simbolismo = em sentido lato, modo de representação indireta e figurada de uma idéia, de um conflito, de um desejo inconsciente: neste sentido, podemos em psicanálise considerar qualquer formação substitutiva. Em sentido restrito, modo de representação que se distingue principalmente pela constância da relação entre o símbolo e o simbolizado inconsciente; essa constância encontra-se, não apenas no mesmo indivíduo e de um indivíduo para outro, mas nos domínios mais diversos – mito, religião, folclore, linguagem, etc. – e nas áreas culturais mais distantes entre si).

         Na neurose traumática a causa atuante da doença não é o dano físico insignificante, mas o afeto do susto, o trauma psíquico. Na histeria comum não é rara a ocorrência de vários traumas parciais que forma um grupo de causas desencadeadoras (a sobredeterminação do sintoma).

         Cada sintoma histérico individual desaparecia, de forma imediata e permanente, quando se conseguia trazer à luz com clareza a lembrança do fato que o havia provocado e despertar o afeto que o acompanhara, e quando o paciente havia descrito esse fato com o maior número de detalhes possível e traduzido o afeto em palavras – os histéricos sofrem principalmente de reminiscências. O esquecimento das lembranças é intencional e desejado e seu êxito é aparente. As experiências que desempenharam um papel patogênico importante são retidas com exatidão na memória do paciente, mesmo quando parecem ter sido esquecidas; quando ele é incapaz de relembrá-las.

         O uso da linguagem passa a ter uma relevância já nessa época, chamando a atenção para algumas expressões como: desabafar pelo pranto, desabafar através de cólera, esvair-se em cólera. Quando a reação é reprimida, o afeto permanece vinculado à lembrança. A linguagem serve de substituto para a ação; com a sua ajuda um afeto pode ser ab-reagido quase com a mesma eficácia. Uma pessoa normal é capaz de provocar o desaparecimento do afeto concomitante por meio do processo de associação. No samba, o compositor faz desaparecer os afetos gerados pela submissão, usando uma linguagem figurada, criando chistes.

         Parece que essas lembranças correspondem a traumas que não foram suficientemente ab-reagidos, e se penetramos mais fundo nos motivos que impediram isso, encontraremos pelo menos dois grupos de condições sob as quais a reação ao trauma deixa de ocorrer. No primeiro grupo em que os pacientes não reagiram a um trauma psíquico porque a natureza do trauma não comportava reação. Ex. perda de um ente querido; delírios histéricos de mulheres que guardam a castidade e de crianças bem educadas. No segundo grupo é determinado não pelo conteúdo das lembranças, mas pelos estados psíquicos em que o paciente recebeu as experiências em questão.

         Por debaixo dos sintomas histéricos, ou psiconeuróticos, Freud descobre que existe um conflito psíquico, que mantém o afeto* e as representações não ab-reagidas quietas, uma incompatibilidade entre um afeto e uma idéia, a moralidade versus o erótico por exemplo. (*affekt – afeto = termo que a psicanálise foi buscar da terminologia psicológica alemã e que exprime qualquer estado afetivo penoso ou agradável, vago ou qualificado, quer se apresente sob a forma de uma descarga maciça, quer como tonalidade geral. Segundo Freud, toda a pulsão se exprime nos dois registros do afeto e da representação. O afeto é a expressão qualitativa da quantidade de energia pulsional e das suas variações.) Por isso os psiconeuróticos necessitam recalcar* suas lembranças que tanto os incomodam, criando uma barreira ao redor destes corpos estranhos para se defender da dor psíquica que seria mobilizada pela sua ativação, uma formação de compromisso. (*verdrängung – recalcamento ou recalque = no sentido próprio: operação pela qual o indivíduo procura repelir ou manter no inconsciente, representação – pensamentos, imagens, recordações – ligadas a uma pulsão. O recalcamento produz-se nos casos em que a satisfação de uma pulsão – susceptível de por si mesma proporciona prazer – ameaçaria provocar desprazer relativamente a outras exigências. Pode ser considerado um processo psíquico universal na medida em que estaria na origem da constituição do Inconsciente como domínio separado do resto do psiquismo).

                O sintoma psiconeurótico é uma falsa conexão, é uma tentativa de ligar, mesmo sendo uma defesa, uma formação de compromisso*. (*kompromissbildung – formação de compromisso = forma que o recalcado vai buscar para ser admitido no consciente. Retornando no sintoma, no sonho, e, mais geralmente, em qualquer produção do inconsciente: as representações recalcadas são então deformadas pela defesa ao ponto de serem irreconhecíveis. Na mesma formação podem assim satisfazer-se – num mesmo compromisso – simultaneamente o desejo inconsciente e as exigências defensivas). Na tentativa de se defender da dor psíquica, como o afeto ligado á representação não pode ser eliminado, o eu transforma essa representação poderosa numa representação fraca, retirando-lhe o afeto, a soma da excitação, catexia, do qual está carregada. A representação fraca não tem nenhuma exigência a fazer ao trabalho da associação. Mas a soma de excitação desvinculada dela tem que ser utilizada de alguma outra forma.

         Na histeria a representação incompatível é tornada inócua pela transformação de sua soma de excitação em alguma coisa somática; Freud propõe o nome a este fenômeno de conversão. E diz que o fator característico da histeria não é a divisão da consciência. Mas a capacidade de conversão, como parte importante da predisposição para a histeria; uma aptidão psicofísica para transpor enormes somas de excitação para inervação somática.

         A representação enfraquecida persiste na consciência separada de qualquer associação. Mas seu afeto, livre, liga-se a outras representações que não são incompatíveis em si mesmas e graças a essa falsa ligação tais representações se transformam em representações obsessivas. A vida sexual traz em si as mais numerosas oportunidades para o surgimento de representações incompatíveis. A obsessão representa um substituto ou sucedâneo da representação sexual incompatível, tendo tomado seu lugar na consciência para depois reprimir. As representações obsessivas e as representações sexuais de caráter aflitivo ocorrem simultaneamente.

         A angústia liberada cuja origem sexual não deve ser lembrada pelo paciente irá apoderar-se das fobias primárias comuns da espécie humana, relacionadas com animais, tempestades, escuridão, ou de coisas associadas com o que é sexual: micção, defecação, a sujeira e o contágio.

         Há uma espécie de defesa muito mais poderosa e bem sucedida; nela, o eu rejeita a representação incompatível justamente com o seu afeto e se comporta como se a representação jamais lhe tivesse ocorrido. Porém a partir do momento em que isso é conseguido, o sujeito fica numa psicose que só pode ser qualificada como “confusão alucinatória”. O eu rompe com a representação incompatível, esta fica inseparavelmente ligada a um fragmento da realidade, à medida que o eu obtém esse resultado, ele se desliga total ou parcialmente da realidade. O que aconteceu com o compositor, o crioulo doido. Vejamos alguns versos de seu samba: “Foi em Diamantina, onde nasceu J.K., que a princesa Leopoldina arresolveu se casar. Mas Xica da Silva, tinha outros pretendentes, e obrigou a princesa a se casar com Tiradentes.” Ele mistura acontecimentos mais atuais com antigos, troca a hierarquia dos personagens e subverte fatos históricos.

         Freud declara que a teoria do recalcamento, ou defesa, para dar-lhe um nome alternativo, é a pedra angular sobre qual repousa toda a estrutura da psicanálise. (1894)

Então em 1895, Freud, perguntando-se sobre o recalcamento, os sintomas e os conflitos psíquicos, escreve o Projeto para uma Psicologia Científica. Segundo o que foi dito na aula do professor Durval, apresenta duas razões na formulação de uma teoria científica, que dará o nome de Metapsicologia* (*palavra que designa uma nova psicologia que privilegia os processos psíquicos que se davam fora da consciência.):

  • Primeira tentativa de Freud, em reunir certo saber no campo simbólico, da linguagem; como se poderia pensar a respeito do sintoma nervoso na época – aparelho psíquico, primeira tópica (Inconsciente, Pré-Consciente, Consciente).
  • Esforço freudiano em desenvolver aspectos que pudessem dar conta dos conceitos de sintoma, ato falho, recalque; vínculo com algo da representação que está fora da associabilidade, da ordem do esquecido. Freud começa a falar que o esquecido não quer dizer ineficiente é algo que faz o sujeito sofrer. Se um terapeuta consegue que o sujeito fale sobre o sofrimento, ele consegue fazer com que este sintoma desapareça; o que Freud denomina de método catártico (que produz uma catarse junto à palavra, se descarrega).

O inconsciente, neste momento, era formado por núcleos traumáticos e o objetivo específico do processo terapêutico era resgatar estas reminiscências e trazê-las à consciência. Sob a influência da medicina, Freud utilizava os seus conhecimentos, para explicar de um modo genético o funcionamento do cérebro de uma pessoa normal. Usava a unidade anatômica cerebral, os neurônios e seus processos dendríticos e axônicos e formulava a hipótese de uma quantidade circulando neles e nas comunicações entre eles. Utilizava o modelo do arco reflexo, onde o estímulo que entrava não tinha dificuldade de ser escoado totalmente. Porém este modelo era incompatível com a condição de vida biológica e do aparelho cerebral. O modelo de um aparelho que funcionasse como um neurônio com sua inércia de repouso seria incompatível face às exigências do processo vital.

Em 06/12/1896, na carta 52 escrita à Fliess, Freud modifica o modo de funcionamento do aparelho psíquico, apresentando uma característica menos neurológica e mais psíquica. O aparelho psíquico se gera por estratificação; há uma gênese, essa não é inata. Há a possibilidade de perceber, registrar, armazenar, mas vamos construindo-o, de tempos em tempos sofre rearranjos da estratificação. O material presente em traços de memória estaria sujeito a uma retranscrição. Essas retranscrições seriam as representações que ele divide em três tipos:

  • W – neurônios em que se originam as percepções;
  • Wz – indicação da percepção, visto como primeiro registro; incapaz de assomar à consciência e se dispõe conforme as associações por simultaneidade;
  • Ub – (inconsciência) é o segundo registro, lembranças conceituais, sem acesso a consciência; processo primário* (* do ponto de vista tópico – caracteriza o sistema inconsciente; do ponto de vista econômico- dinâmico – a energia psíquica escoa-se livremente, passando sem barreiras de uma representação para outra segundo os mecanismos de deslocamento e de condensação; tende a reinvestir plenamente as representações ligadas à vivências de satisfação constitutivas do desejo – alucinação primitiva).
  • Vb – (pré-conciência) terceira transcrição, ligada às representações verbais e correspondendo ao nosso ego, reconhecido como tal; processo secundário* ( *do ponto de vista tópico – caracteriza o sistema pré-consciente – consciente; do ponto de vista econômico-dinâmico – a energia começa por estar “ ligada”  antes de se escoar de forma controlada; as representações são investidas de uma maneira mais estável, a satisfação é adiada, permitindo assim experiências mentais que põem à prova os diferentes caminhos possíveis da satisfação).

         As catexias provenientes de Vb tornam-se conscientes de acordo com determinadas regras; essa consciência secundária do pensamento é posterior no tempo e se liga à ativação alucinatória das representações verbais, os neurônios da consciência seriam também os da percepção e destituídos de memória.

Continua na próxima edição, próxima semana…

By: Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

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“Não Seio, Logo Penso!”

… “durante o sonho o inconsciente não pode oferecer nada mais que a força pulsionante para um cumprimento de desejo?”

         … “toda a complexa atividade de pensamento que se desenrola desde a imagem mnêmica até o estabelecimento da identidade por obra do mundo exterior não é outra coisa  que um rodeio para o cumprimento de desejo, rodeio que a experiência tornou necessário. Portanto, o pensar não é senão o substituto do desejo alucinatório”…

         “Não seio, logo penso!”*

         Filogeneticamente o homem perdeu os instintos que estão inscritos nos animais, sendo estes substituídos por um circuito pulsional, necessitando de um objeto externo que o protegesse dessa pressão constante, a força pulsional. Como o objeto não dá conta, a mãe não é onipresente, o indivíduo é obrigado a construir uma malha que o proteja da invasão pulsional, construindo o aparelho psíquico, o aparelho representacional, que são as primeiras vivências que terá com o objeto, experiências representadas.

         O bebê faminto grita ou dá pontapés, mas a situação permanece a mesma, pois a excitação proveniente de uma necessidade interna não se deve a uma força que produza um impacto momentâneo, mas a uma força que está continuamente em ação. Só pode haver mudança, através do auxílio externo, chega-se a uma vivência de satisfação que põe fim ao estímulo interno. Um componente essencial dessa vivência de satisfação é uma percepção específica (a nutrição) cuja a imagem mnêmica fica associada, ao traço mnêmico da excitação produzida pela necessidade. Em decorrência do vínculo assim estabelecido, na próxima vez em que essa necessidade for despertada, surgirá de imediato uma moção psíquica que procurará recatexizar a imagem mnêmica da percepção e reevocar a própria percepção, restabelecendo a situação da satisfação original. Uma moção dessa espécie é chamada de desejo (arranca do desprazer e aponta para o prazer); o reaparecimento da percepção é a realização do desejo, e o caminho mais curto para essa realização é a via que conduz diretamente da excitação produzida pela necessidade para uma completa catexia da percepção, a alucinação. O objetivo dessa primeira atividade psíquica é produzir uma identidade perceptiva (algo perceptivamente idêntico à vivência de satisfação) _ uma repetição da percepção vinculada à satisfação da necessidade.

         Para Fecher, a cena de ação dos sonhos é diferente da cena da idéia representacional de vigília, principalmente ao que concerne a localização psíquica, correspondendo a um ponto no aparelho psíquico em que se produz um dos estágios preliminares da imagem.

         O aparelho psíquico é um instrumento composto, a cujos componentes dá-se o nome de instâncias ou sistemas, os quais têm um sentido, uma direção, parte de estímulos (internos ou externos) e termina em inervações; um processo que tende à descarga.

         O aparelho tem uma extremidade sensorial e uma extremidade motora, na primeira recebe as percepções; na segunda abre as comportas da atividade motora. Uma primeira diferenciação na extremidade sensorial permanece no aparelho psíquico, um traço das percepções que incidem sobre ele, traços mnêmicos.

         Nossas percepções acham-se mutuamente ligadas em nossa memória segundo a simultaneidade da sua ocorrência, associação. A associação consistiria no fato de que, em decorrência de uma diminuição das resistências e do estabelecimento de vias de facilitação, a excitação é mais prontamente transmitida de um primeiro elemento mnêmico, para um segundo do que para um terceiro. Assim conforme as primeiras experiências vão marcando o aparelho, vão se conectando e nos ensinando a descobrir maneiras de realizar os nossos desejos e simultaneamente vamos aprendendo a pensar.

         O último dos sistemas localizados na extremidade motora é o pré-consciente, indicando que os processos excitatórios nele ocorridos podem penetrar na consciência sem maiores empecilhos, desde que certas condições sejam satisfeitas: por exemplo, que eles atinjam certo grau de intensidade, que a função que só pode descrever como atenção esteja distribuída de uma maneira. Também é o sistema que detém a chave do movimento voluntário. O sistema que está por trás dele é o inconsciente, pois não tem acesso à consciência senão através do pré-consciente, ao passar pelo qual seu processo excitatório é obrigado a submeter-se a modificações.

         O impulso para a formação dos sonhos está no sistema Inconsciente, ligando-se a pensamentos oníricos pertencentes ao sistema Pré-Consciente, quando se considera apenas o desejo onírico, descobre-se que a força propulsora da formação dos sonhos é fornecida pelo inconsciente.

         A excitação se move em direção retrocedente em vez de propagar para a extremidade motora do aparelho, ela se movimenta no sentindo da extremidade sensorial e por fim, atinge o sistema perceptivo, dando aos sonhos um caráter regressivo.

         Durante o dia há uma corrente contínua que flui do sistema psíquico das percepções em direção à atividade motora, essa corrente cessa a noite e não constitui obstáculo a uma corrente de excitação que flua em sentido oposto, a exclusão do mundo exterior.

         A idéia de que a razão porque os sonhos são invariavelmente realizações de desejos é que eles são produtos do sistema Inconsciente. Atividade que não conhece outro objetivo senão a realização de desejos e não tem sob seu comando outras forças senão as moções de desejo.

O desejo que é representado num sonho tem que ser um desejo infantil, que se origina do Inconsciente, e trata-se de um desejo não realizado e não recalcado da vida de vigília. O sonho é um ressurgimento da vida anímica infantil já suplantada; o sonho é a realização alucinatória de um desejo sexual infantil reprimido; só o desejo pode colocar nosso aparelho anímico em ação. Assim, o pensamento não passa do substituto de um desejo alucinatório, ou seja, “não seio, logo penso!”

* Frase dita pelo professor Ede de Oliveira.

 Por: Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

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Imagem Especular e Corpo Social

 Quando fui convidada a discorrer sobre este tema, com o objetivo de ligá-lo aos transtornos alimentares, fiquei me questionando até que ponto pode a imagem especular ser influenciada pelo ambiente e como a construção da imagem especular pode gerar um transtorno alimentar, ou se é a imagem especular, no caso o corpo social, que gera o transtorno alimentar? O que vem primeiro, o ovo ou a galinha?

Para tentar resolver a questão, fui buscar nos primórdios do desenvolvimento do esquema corporal e em seguida, da imagem especular, se num determinado ponto desse desenvolvimento estamos suscetíveis às influências externas, pela não construção e desenvolvimento de um ego integrado, mas de um ego esfacelado e muitas vezes simbiótico na relação com os primeiros objetos.

Segundo Françoise Dolto (1992), o esquema corporal especifica o indivíduo enquanto representante da espécie, quaisquer que seja o lugar, a época, ou as condições nas quais ele vive; é o interprete da imagem do corpo, permitindo a objetivação de uma subjetividade; estrutura-se pela aprendizagem e experiência; é em parte inconsciente, mas também consciente.

Trocando em miúdos, estamos falando sobre a filogênese (desenvolvimento da espécie) e da ontogênese (desenvolvimento de cada sujeito, dependendo da sua história de vida). Assim, o esquema corporal vai se desenvolver de qualquer modo, independente da vontade ou não do sujeito; já que todos nós estamos fadados a um desenvolvimento neuromotor inerente à própria espécie. E a partir desse esquema corporal, das experiências sentidas e vividas, vamos construindo uma imagem especular, que se objetiva, isto é, se torna consciente, no momento em que o representamos, no desenho da figura humana, por exemplo.

Quando chega um paciente em nossa clínica, com uma demanda motora, um dos aspectos que iremos investigar é o esquema corporal: ele já o desenvolveu, sabe nomear as partes do corpo, sabe desenhar uma figura humana? Na realidade, o que estamos investigando não é o esquema corporal, mas a imagem corporal, que é a representação do corpo e da imagem que fazemos desse corpo, isto é, a imagem que temos de nós mesmos; porque o esquema corporal vai se desenvolver por meio das sensações interoceptivas, proprioceptivas e exterioceptivas.

Dolto (1992) ainda nos chama a atenção para a seguinte questão: se o esquema corporal, é em princípio, o mesmo para todos os indivíduos, a imagem corporal é peculiar a cada um, porque está ligada ao sujeito e a sua história; pode ser considerada como a encarnação simbólica inconsciente do sujeito desejante e é específica de um tipo de relação libidinal.

A imagem não está imbuída de sensações, mas é o símbolo das percepções e dos sentimentos. Somos a única espécie de seres vivos que de frente para um espelho, reconhecemos que a imagem refletida nele é apenas um símbolo e fazemos graça. Outras espécies, como a do chimpanzé, quando confrontados com o espelho, passam a mão por trás do mesmo e desistem, porque não se reconhecem como refletidos no mesmo. Mesmo nós humanos, levamos dois anos para compreender que a imagem especular é somente uma representação, um reflexo de nosso corpo num espelho e ela se desenvolve a partir da relação mãe-bebê, passando a ser um sujeito desejante, porque nos vemos também através dos olhos do outro.

A imagem corporal é o que se vive numa relação, por isso é sempre dinâmica. Na sócio-psicomoticidade Ramain-Thiers, não se utiliza espelho na sala onde será realizada a sessão de movimento, para não se quebrar a imagem corporal que irá sendo construída durante a execução dos movimentos. Porque para Simonne Ramain, a imagem corporal é construída por meio da conscientização das possibilidades do movimento e da postura corporal.

A imagem corporal, advinda da imagem especular, é a cada momento, memória inconsciente das vivências relacionais e, ao mesmo tempo, ela é atual, viva, em situação dinâmica, dependendo do papel que estamos desempenhando num determinado momento, camuflável ou atualizável na relação aqui e agora, por qualquer expressão “linguageira”: desenho, modelagem, criação musical, plástica, assim como a mímica e os gestos.

A imagem corporal pode ser expressa em qualquer tipo de linguagem. Na África, há uma tribo onde a mãe grávida, compõe uma canção para o seu filho que irá nascer. E esta canção é cantada em seu nascimento, quando aniversaria, quando dá os primeiros passos, quando entra na escola, quando se forma, quando se casa… Nos acontecimentos mais importantes de sua vida, acompanhando-o até no seu velório e enterro, como um registro, uma marca, uma imagem sonora de sua existência.

Estamos falando da imagem de base, a que permite à criança uma mesmice de ser, em uma continuidade narcísica ou em uma continuidade espaço-temporal que permanece e vai se preenchendo desde o nascimento, apesar das mutações da vida e dos deslocamentos impostos ao corpo e, a despeito das provas que ela é levada a submeter-se.

Esta imagem de base é a que já nasce com o indivíduo desde o namoro dos pais e se abre no, que Winnicott chama de espaço potencial. Garante ao sujeito a mesmice de ser, porque ele se reconhece como pertencente ao grupo familiar e ao seu ambiente. Será narcisizado pelos pais porque foi querido, foi desejado. Os pais também abrem um espaço temporal para se dedicarem a esta criança.

Para Winnicott (1983), a imagem corporal será desenvolvida ou não, por meio da função materna. A mãe capaz de alimentar o seu bebê é aquela cuja função de alimentar vai além da necessidade biológica, de sobrevivência. Faz parte da função materna segurar o seu bebê, envolvê-lo, contê-lo. O sentimento de estar vivo, de se reconhecer como tal, se dá primeiro pelo toque da mãe no corpo do bebê. O limite do seu corpo, o seu contorno é dado pela mãe. Se não há um limite dado pela manipulação, aparece a sensação de estar a diluir-se.

A mãe considerada suficientemente boa é aquela que se envolve com o seu bebê e a princípio não se diferencia dele; mas aos poucos vai se voltando para outros interesses e deixa o bebê viver como um ser diferenciado, independente dela. O diluir-se é uma das questões levantadas pelas anoréxicas, quando a imagem de base não foi instalada.

Winnicott também vai falar da função do espelho: “Sou visto, logo existo”. Para que alguém se veja, é preciso que antes tenha sido visto pelo outro. Quando o existir de uma criança é visto e compreendido por alguém, é devolvida, como a face refletida em um espelho, a evidência de ter sido percebida como existente evidência de que tanto necessita.

A brincadeira: “pude/achou”, é um bom exemplo de como a criança que ainda não desenvolveu a sua imagem especular age. Primeiro, ela gosta da brincadeira de se esconder e ser procurada, porque desta maneira, esta sendo vista, encontrada. Segundo, ela começa a brincadeira escondendo somente a sua cabeça e ficando com o resto de seu corpo a descoberto. Isto porque, como ela ainda não desenvolveu a imagem especular, ela se olha e vê somente partes do corpo, ela acha que escondendo a cabeça, estará também escondida para o outro. À medida que vai adquirindo a imagem especular e em conseqüência, a imagem corporal, vai percebendo que é preciso esconder também as outras partes de seu corpo, para não ser encontrada. A delícia de brincar de esconde-esconde permanece, mas com outra finalidade, agora pelo prazer de não ser encontrada, já que desenvolveu e garantiu para si mesma uma mesmice de ser, uma imagem de base que permitirá ser vista como um ser diferenciado, subjetivo.

Como não conseguimos nos ver por inteiro, necessitamos de um espelho, ou de alguém que nos olhe e diga: “Puxa, hoje você esta bonita!” Alguém que nos coloque no ideal de ego, ser acreditado que somos capazes naquilo que fazemos.

Os transtornos alimentares são uma distorção da imagem corporal? Houve falha na função do espelho?

Pesquisas mostram que há mais jovens mulheres anoréxicas do que homens. Levantando-se a questão da feminilidade. Seria uma negação do feminino, não ter formas, parar de menstruar, surgindo o nascimento de pelos. As mães não as vêem como sujeitos desejantes e mantém o controle, a simbiose. Não são vistas, provavelmente não tiveram a função do espelho, não desenvolveram a imagem especular, a imagem corporal acabou ficando distorcida.

Meninas anoréxicas não sabem se estão gordas, magras, a sensação é de estar se esparramando. Não sabem a forma de seu corpo, porque isso não foi interiorizado. Não foram vistas como separadas e diferentes de suas mães. A sensação é de não pertencimento, de não saber o seu lugar no mundo.

A distorção da imagem corporal seria uma falha na fase simbiótica?

Alguns autores relacionam a distorção da imagem corporal com possíveis falhas na fase simbiótica. A fase simbiótica é um estado diferenciado ou fusional que o bebê e a mãe vivem, possibilitando a construção da capacidade de viver, após a fase simbiótica, a separação- individuação.

O nascimento causa desamparo, que só é superado pela dedicação e cuidado materno.

A fase simbiótica é a que a mãe se volta para o bebê, é onde acontece a libidinização. O bebê se sente acolhido e protegido no seu desamparo, acolhido em suas angústias.

A importância da simbiose é produzir uma membrana capaz de impedir que o bebê sofra uma invasão precoce, pelas tensões da realidade, e mitigue as sensações internas.

Dentro desse interjogo mãe-bebê, que vai acontecendo uma diferenciação gradual, iniciando a formação da imagem especular; quando a criança se reconhece como um ser diferente de sua mãe.

Numa pesquisa realizada por antropólogos, descobriram-se algumas crenças dos índios Ianomâmi, que vivem no interior da floresta amazônica:

  • “As crianças são incompletas enquanto não encontram o peito materno.”
  • “O bebê não nasce no parto, mas do primeiro gole de leite.”
  • “Ao ser aceito no seio, terá o seu lugar garantido na aldeia.”

Vejam, que às vezes culturas consideradas “atrasadas”, são mais sábias que a nossa. Porque, o bebê enquanto sujeito dependente, se não encontrar o seio não só morrerá, como não conseguirá estabelecer uma relação libidinal que servirá de amparo. O leite é a garantia da sobrevivência e da libidinização que virá com ele: são as gotinhas de libido citadas por Melanie Klein. Só será reconhecido como membro da tribo, se sua mãe voltar o seu olhar para ele, estabelecendo a imagem de base, logo existirá.

Quando as anoréxicas se pronunciam, encontramos as seguintes falas:

  • “Sabe quando você chega numa festa e se sente por fora, totalmente bico? Assim eu me sinto no mundo…”
  • “Sabe como eu me sinto na minha casa? Um estorvo. Acho que desde quando eu nasci…”
  • “Magra eu me sinto mais contida”.
  • Tenho medo de engordar e me diluir.”
  • Me sinto esparramando quando sento no banco do ônibus e não tem ninguém do meu lado.”

Estas falas nos mostram as falhas na imagem especular, que não foram reconhecidas pela mãe e nem pelo grupo familiar. Não se sentem pertencentes, não foi aberto um espaço potencial para elas, a imagem de base não foi desenvolvida. As extremidades e o volume ficam mais próximos, já que não tiveram a contenção materna. O engordar é se diluir porque se sentem desamparadas: “O leite se transformou em veneno!”  Pedem por alguém ao seu lado, alguém que consiga conter as suas angústias.

Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu. 

 

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Psicomotricidade

Quando se fala em psicomotricidade, lembramos de motricidade e, consequentemente, do desenvolvimento motor que é assunto de criança. Será? Realmente, a criança que não teve a oportunidade de desenvolver todo o seu potencial motor está fadada a enfrentar sérias dificuldades de aprendizagem, às vezes aparecendo nas áreas da leitura e escrita, outras na matemática, dependendo de como a sua percepção visual, orientação espaço-temporal, lateralidade, esquema corporal e coordenação foram mais ou menos atingidas.

Antigamente não havia pré-escola e só começávamos a estudar a partir dos sete anos. Porém, desenvolvíamos a motricidade em brincadeiras de rua, pulando corda, soltando pipa, subindo em árvores, jogando bolinhas de gude, andando de carrinho de rolimã. Hoje, mesmo no interior, é raro encontrar crianças que tenham o mesmo tipo de atividades.

Corpo

A infância hoje é cercada de videos games, computadores e televisão. Quando se investiga o perfil motor das crianças, há uma oscilação. Enquanto o equilíbrio, a coordenação dinâmica geral e os movimentos simultâneos tornam-se rebaixados, a coordenação e a velocidade de mãos aumentam. Parece que se esqueceram do corpo e só se fixaram em suas mãos.

Normalmente as queixas nos consultórios não são da ordem da motricidade, mas de aprendizagem. São crianças desatentas, que não conseguem um bom desempenho escolar, têm o comportamento emocional alterado e vêm de muitos fracassos, estando sua auto-estima, rebaixada. Na avaliação, aparecem as dificuldades motoras. Por quê?

Nós humanos esquecemos que embora o nosso cérebro funcione como um computador, sendo o input (entrada) todas as percepções e sensações levadas por nosso corpo, como se fossem o teclado e o mouse; a elaboração, o planejamento, a confrontação com o que já temos e estamos recebendo, feita pelo nosso cérebro, que funciona como o Winchester de muitos megabytes, o output (saída) é realizado por nossa motricidade. Todas as respostas são motoras.

A fala é uma micromotricidade, para a qual necessitamos das cordas vocais, língua, musculaturas da face e dos lábios, além do encadeamento do pensamento.

A execução de qualquer elaboração é motora. O andar, a escrita, a leitura, o vestir-se, o comer, o beber, tudo é motor… A pessoa que falha no input, terá uma percepção distorcida da realidade.

A exploração de qualquer situação tende a ser impulsiva. Os conceitos e instrumentos verbais receptivos serão deficientes: provavelmente terá dificuldade em trabalhar com os conceitos espaciais e temporais; falhará na coleta de dados e a capacidade de considerar mais de uma fonte de informação será deficiente. Geralmente este indivíduo não foi suficientemente estimulado durante o seu desenvolvimento motor – dos zero aos seis anos, quando se dá toda a aprendizagem da recepção para a realização de tarefas ou resolução dos problemas.

Também falhará na elaboração, porque se não houve uma coleta de dados correta, como será possível definir um problema de forma precisa? Criando-se uma inabilidade de seleção de dados relevantes, uma inabilidade para assumir comportamento comparativo, um campo mental estreito e limitado, uso restrito para pensamento hupotético-inferencial, falta de planejamento e apreensão da realidade episódica.

Assim, durante o período da segunda infância (dos sete aos 10 anos) e na adolescência (dos 11 aos 18 anos), quando são desenvolvidas todas as operações formais, ele continuará falhando, porque todas as funções de pensamento têm como base o desenvolvimento perceptivo-motor e o indivíduo continua a não ser trabalhado na área motora.

Inteligência

No output provavelmente apresentará uma modalidade de comunicação egocêntrica, com respostas bloqueadas ou por tentaiva e erro, expressão de dados e transporte visual deficientes, e comportamento impulsivo e exibicionista.

Falar sobre inteligência é muito difícil, pois o conceito ampliou-se. Não temos mais somente a visão quantitativa – o quanto de resultado o indivíduo alcança num teste, dentro de um menor espaço de tempo, temos a visão qualitativa, a criatividade, a flexibilidade, o controle emocional, o saber se comunicar de maneira mais expressiva.

Fala-se também em múltiplas inteligências: verbal, lógico-matemática, espacial, musical, naturalista, pictórica, cinestésico-corporal, inter e intrapessoal, etc. Estar atento ao que acontece ao nosso redor é uma maneira de entender o que se passa e selecionar o que é relevante para respondermos aos estímulos de maneira mais criativa e inteligente.

Para isso é ecessário ter a atenção focalizada na percepção visual, na percepção auditiva, na cinestésica (todas as sensações corporais), na percepção do nosso esquema corporal e ter uma atenção interiorizada (a mais importante), sabendo distinguir analisar o que está se passando conosco em nível consciente e inconsciente: por que estamos com raiva e qual a melhor maneira de lidar com ela, por que estamos alegres, o que nos motiva e nos impulsiona a seguir adiante.

O desenvolvimento dessa inteligência mais plástica pode ser psicomotor. Como?

Percepção

De acordo com os neurologistas, toda vez que nos deparamos como uma tarefa para a qual não temos referencial, sendo a nossa primeira experiência, usamos uma área maior do nosso cérebro para poder realizá-la, abrimos mais “janelas”, fazemos mais sinapses.

Na segunda vez, a área utilizada já será menor e a execução, mais precisa, porque a confrontação com a experiência anterior sera possível. Como vimos, o input e o output são motores ou fazem parte do nosso desenvolvimento das funções psiconeurológicas e para a ampliação e flexibilização do campo mental.

A sessão de psicomotricidade lida com o movimento, propiciando a ampliação das percepções em geral, trabalhando a interiorização e propondo tarefas que mexem com o desequilíbrio e o equilíbrio – tão relevantes para a construção da inteligência qualitativa.

Desde o momento em que a instrução verbal da tarefa é dada, o indivíduo tem que ouvir (percepção auditiva), decodificar o que foi dito, fazer a imagem mental do que decodificou, colocar em execução e ainda comparar (ter o feedback), entre o que recebeu de informação e o que está realizando, se está ficando ou não de acordo com aquilo que planejou.

Mexendo com todo o processo que faz parte da nossa maneira de agir e funcionar, também pondo em jogo a área emocional do poder e querer ouvir o outro, de explorar adequadamente as informações, de não deixar que a ansiedade e a impulsividade tomem conta e atrapalhem a realização do processo e que a saída se apresente do melhor modo prossível, isto é, que realmente fiquemos contentes com a resposta apresentada, já que ela representa nossa inteligência, potencial.

Com a globalização, que tornou o mundo cada vez mais competitivo, procura-se por profissionais que sejam proativos, flexiveis, que saibam liderar e planejar a sua ação e a de seus colaboradores. Essas qualidades são aprendidas, não nascemos com elas.

Modelos

O que fazer se nossos modelos foram autoritários e nos ensinaram a repetir, memorizar, e não a criar, pensar, nos colocar no lugar do outro? Ficamos sem um referencial, sem saber o que fazer, procuramos cursos teóricos, em que a prática fica distante da realidade e não aprendemos a abandonar velhos hábitos, para que outros possam ser colocados no lugar.

O trabalho da psicomotricidade na busca de uma aprendizagem mais prática, que nos leva a tomar contato conosco, a aprender a descobrir o nosso potencial e a resgatar o que a escola nos assinalou como modelo, mais a busca do nosso próprio referencial, interno, que vamos descobrindo à medida em que construímos uma nova maneira de refletir sobre os sucessos ou fracassos.

Na psicomotricidade, o erro tem o mesmo peso que o acerto, porque é através do primeiro que aprendemos a reparar e crescemos; o segundo mantém a nossa auto-estima.

Procura-se por profissionais proativos, flexiveis, que saibam liderar e planejar a sua ação. Essas qualidade são aprendidas, não nascemos com elas.

Para Sara Pain, educadora e psicopedagoga argentina, o único conhecimento válido é o que foi processado pelo sujeito, o que consta como experiência pessoal, o que se adscreve ao total de sua memória, é deste conhecimento que o sujeito pode dispor quando precisa.

É deste conhecimento que a psicomotricidade nos fala. A vivência de um processo cujo objeto de estudo são os indivíduos, sendo os exercícios apenas o meio de atingi-lo, conscientizando-o que o saber está nele. Ele é o único que tem as ferramentas para propiciar a mudança, e que a teoria deveria ser a conlusão da prática e não o contrário.

Concluíndo: “A psicomotricidade é uma aprendizagem que propicia mudanças no pensar e no agir.”

 Berenice Ferreira Leonhardt Abreu

PUBLICAÇÃO

Revista Instituto Pieron – n. 32 – Junho / 2002

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ARTICULAÇÃO ENTRE O CONFLITO PSÍQUICO, DEFESA, TRAUMA E REMINISCÊNCIA

Quando Freud substituiu o uso da anamnese pela hipnose, sabia da dificuldade que o paciente tinha em buscar na lembrança, “reminiscência”, o que havia acontecido em anos anteriores, gerando o evento desencadeador do(s) sintoma(s) atual(ais). Usou a hipnose numa tentativa de ampliar a consciência e ter acesso às possibilidades associativas e à representação do conflito psíquico. O  “esquecimento” das lembranças é intencional e desejado, e seu êxito é aparente. As experiências que desempenharam um papel patogênico importante, são retidas com exatidão na memória do paciente, mesmo quando parecem ter sido esquecidas; quando ele é incapaz de relembrá-las. Apenas quando o paciente era inquirido sob a hipnose essas lembranças emergiam com a nitidez inalterada de um fato recente.

         O que provoca os sintomas é o “acidente”, a causa atuante da doença, não é o dano físico insignificante, mas o “afeto” do susto – o trauma psíquico- a angústia, a vergonha ou a dor física. Com grande freqüência é algum fato da infância que estabelece um sintoma, mais ou menos grave, que persiste durante os anos subsequentes.

         A criança vai formando um acúmulo de representações recebidas, principalmente, da pessoa que a cuida, a trama do aparelho psíquico. E este se organiza ao redor das representações e das proibições culturais, constituindo a estrutura da trama.

         O aparelho psíquico precisa se manter equilibrado dentro de um nível de carga, afeto, o mais baixo possível. Quando o nível de carga se eleva coloca em risco o aparelho que necessita se defender. O limite de carga vai depender da trama representacional – princípio da constância. O reservatório psíquico é diferente para cada sujeito; quanto mais pobre é a trama mais fácil de implodir; quanto mais rica menor é a possibilidade que a implosão aconteça.

         O aparelho psíquico tem que ser pego de surpresa, o trauma entra com violência, não está preparado para enfrentá-lo, não dando tempo de associar. Para se defender o aparelho psíquico permite que a carga entre e negocia para que fique quieta, transformando-a em sintoma; o sintoma em geral é consciente o que não aparece é a causa (representação isolada); o sintoma passa a se alimentar da carga, mas não sabe da representação que o causa.

         A dissociação de uma representação que fica isolada (incompatível), tem muita carga e precisa ser descarregada; é colocada para fora e atinge a motricidade, passagem da carga energética para o corpo, surgindo o sintoma como defesa.

         O conflito psíquico está justamente em manter a carga, o afeto não ab-reagido, quieta, não permitindo que venha à tona, deslocando-a para sintomas corporais; podendo o ego continuar alheio a ela.

         Para a aquisição da histeria deve haver o desenvolvimento de uma incompatibilidade entre o ego e alguma idéia a ele apresentada – conflito moral versus erótico.

         O método histérico de defesa reside na conversão da excitação em uma inervação somática; a vantagem disso é que a idéia incompatível é forçada para fora do ego consciente. Em troca, essa consciência guarda a reminiscência física surgida por meio da conversão e sofre por causa do afeto que se acha de forma mais ou menos clara ligado àquela reminiscência. A situação assim provocada passa a não ser suscetível de modificação, pois a incompatibilidade que teria exigido uma eliminação do afeto não existe mais, graças ao recalque e à conversão.

          Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu – 2002 (curso: Formação em Psicanálise, Instituto Sedes Sapientiae).

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Psicologia Infantil

Trabalho complexo e de ritmo intenso

A criança é movimento e o afeto e o trabalho é desgatante mesmo. O aviso é do psciólogo clinico Drausio Martins Ribeiro, especialista em psicologia infantile e de adolescentes. Segundo ele, o trabalho infantil é triplo: envolve a criança, os pais e a escola e deve ser tão dinâmico como é o seu crescimento. Com 23 anos de atuação na área infantil, Drausio diverte-se ao dizer que não trabalha atualmente com adultos porque está muito “regredido”, mas o fato é que a complexidade e o ritmo do trabalho exigem que o profissional tenha fôlego de sete gatos. “Elas estão em ebulição constante. Além de gostar muito de criança deve-se ter muita paciência”.

O psicólogo em geral não atende crianças muito pequenas porque ao fazer o psicodiagnóstico observa que a maioria dos problemas relaciona-se aos pais. “A não ser que haja alguma patologia específica”. Quando maior, a criança já vive um processo de so- cialização, em que existe maior amplitude de relações, e começa a dar outros tipos de respostas. Já o psicólogo clínico com especialização em psicanálise, Antonio Geraldo de Abreu Filho, atende crianças desde que já estejam falando e, diferente de Drausio, não trabalha com os pais. “Dentro de minha vivência, a experiência foi muito complicada. Quando necessário, encaminhoos pais para outros profissionais e privilegio a criança”.  Para ele o trabalho infantil é gratificante e também bastante frustante, mas no cômputo geral vale a pena. O psicólogo, que iniciou seu trabalho clinic há 25 anos com crianças e hoje atende também adolescents, adultos e mais recentemente idodos, lembra Melaine Klein: “A meta de nosso trabalho é assegurar o bem estar da criança e não a gratidão de seus pais”.

Já para Drausio, o vincula com os pais é fundamental no trabalho infantil. “Eles devem ter confiança e clareza sobre o que está acontecendo durante o processo terapêutico”. Caso contrário, o psicólogo lembra que não é raro os pais boicotarem o trabalho do psciólogo.

Ele realiza entrevistas assitemáticas com os pais, e se necessário, encaminha-os para um trabalho de orientação ou terapia de casal, de família ou individual. As entrevistas são convocadas pelo terapeuta, pela criança ou mesmo pelos pais. “Mas sempre acontecem junto com a criança , que mesmo quando pequena, está ligada, participa”.

Formação

Assim como é importante encontrar um método, um estilo prórpio de atuação, é fundamental para quem deseja lidar com crianças buscar uma linha de onduta, uma ferramenta com a qual se tenha total identidade. Antes de ministrar aulas no no Instituto Pieron, Antonio Geraldo trabalhou em psicopedagogia e ao notar que as causas dos problemas eram mais profundas, frequentou aulas de de psicodiagnóstico e ludoterapia no próprio Instituto. “Primeiro procurei alguns aportes teóricos para depois buscar respaldo na área emocional”.

O psicodiagnóstico para Drausio é a porta de entrada para o trabalho infantil. “Ele permite ver se a criança está mesmo tendo dificuldades ou se é apenas um reflex de uma situação do ambiente”. O fundamental num processo de psicodiagnóstico, explica o psicólogo, é saber fazer uma boa anamnese, complementar com os testes específicos e depois encaminhar para as condutas necessárias. Segundo ele, as condutas tanto podem ser psicoterapêuticas como atividades que também possam ter uma ação terapêutica. “A prática de esportes e aulas de artes”, exemplifica.

A escolha de um ferramental adequado deve ser sempre acompanhada de uma boa supervisão, lembram os psicólogos.

“A supervisão nos ajuda a desenvolver uma escuta e um olhar clínico”, explica Antonio. Drausio recomenda que após frequentar um bom curso de Psicodiagnóstico e Psicodinâmica, o professional deve com o tempo conhecer a dinâmica da família. Se possível, fazer um curso de terapia familiar. “Para a compreensão da dinâmica infantil, essas informações são muito importantes mesmo que não se vá trabalhar especificamente com a família”, diz Antonio, lembrando que a formação de grupos de estudo é fundamental para que o professional nunca pare de reciclar seus acontecimentos e trocar experiências.

Porém, alertam os psicólogos, todo esse investimento por parte dos futuros profissionais pouco adiantará se ele não tiver passado por um processo terapêutico ou de análise. “Me surpreendo ao ver que a maioria dos meus alunos não está em processo terapêutico”, diz Antonio, lembrando sobre a responsabilidade, seriedade, extensão e repercussões do trabalho do psicólogo. “O bisturi tanto pode salvar uma vida como ceifá-Ia”.

Com Antonio Geraldo de Abreu Filho

PUBLICAÇÃO

Revista Instituto Pieron – n. 98 – Julho / 1998

Para saber mais, leia:

Freud – Uma Vida para o Nosso Tempo

Peter Gay – Companhia das Letras

O mundo e a obra de Melaine Klein

Phyllis Grosskurth – Imago Editora

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