APRENDENDO A APRENDER, GERANDO MUDANÇAS E TRANSFORMAÇÕES.*Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

 

  • O que é Aprender a Aprender, que Mudanças e Transformações favorecem:

 

As organizações têm sido afetadas por uma onda de mudanças cada vez mais profundas e rápidas. Iniciaram processos de mudança com uma série de modelos que estavam na “moda” e que não deram o resultado esperado, porque a capacidade de muitas empresas em lidar com mudanças não foi fortalecida, as pessoas vestiam o novo traje organizacional por fora e tinham dificuldade de livrar-se de antigos conceitos, hábitos e atitudes; o processo não era interno, era externo.

As instituições que Aprendem a Aprender operam mudanças e transformações profundas, de dentro para fora, gerando flexibilidade, antevendo problemas ou dificuldades, procurando soluções criativas que venham a resolvê-las.

Quanto mais conhecemos o que é cognição, ou seja, o ato de captar, integrar, elaborar e exprimir informação, melhores soluções encontraremos para resolver os nossos problemas.

O Aprender a Aprender surge do conceito de transformar a maneira de pensar e apreender, vendo a inteligência humana como uma construção dinâmica, flexível e que está na base da adaptação da espécie ao longo do seu percurso histórico-social.

A adaptação às novas condições de produtividade e de qualidade, quer no estudante ou no trabalhador, depende da sua capacidade de aprendizagem a que estiveram sujeitos.

O Aprender a Aprender pode ter inúmeras aplicações, desde a educação até a formação, quer profissional, quer ao longo da vida, como defendem hoje muitas instituições internacionais. Exemplos:

 

A Revista Fortune – “Esqueçam suas antigas idéias sobre liderança. A empresa mais bem sucedida da década de 90 em diante será a organização que aprende”.

 

“A capacidade de aprender mais rápido do que seu concorrente pode ser a única vantagem competitiva sustentável”. Disse Arie de Geus, ex-vice-presidente de Planejamento da Royal Dutch/Shell.

 

 

 

 

  • O processo de Aprender a Aprender, gerando Mudanças:

 

É um trabalho que utiliza duas metodologias diferentes, mas ao mesmo tempo integradas, com o objetivo de flexibilizar as pessoas e prepará-las para aceitarem mudanças mais rápidas, a partir de um autoconhecimento, revelando modos de funcionamento que muitas vezes impedem as transformações. Só quando tomamos consciência da nossa maneira de enxergar o mundo externo é que temos condição de mudar, de conhecer e de relacionar de modo mais adequado.

Estas duas metodologias que se completam são: a psicomotricidade de Simonne Ramain, criada na França em 1952, e desenvolvida na Câmara do Comércio e Indústria de Paris, com o objetivo de recuperar a mão de obra existente e escassa, do após guerra; e o P.E.I. (Programa de Enriquecimento Instrumental) de Reuven Feurestein, criado em Israel, com o objetivo de recuperar crianças vindas do holocausto, metodologias integradas por mim e aplicadas na Empresa Network e na Escola de Educação Infantil Raízes.

Na primeira, os objetivos eram mobilizar os gerentes e coordenadores de áreas, vindos de outra empresa, para que não repetissem os mesmos modelos apreendidos na empresa anterior. O trabalho foi desenvolvido durante um ano, às sextas-feiras, durante duas horas, e a equipe foi aprendendo a ter uma nova visão do que a empresa estava querendo, havendo depoimentos dos participantes do quanto foi significativo a mudança em suas vidas, não só profissional, como pessoal, tornando-se pessoas mais criativas. Na segunda, havia a necessidade de promover mudanças, já que a escola estava querendo implantar uma nova metodologia de aprendizagem. No início a equipe de professores mostrou muita resistência, mas à medida que notaram uma transformação na maneira de pensar e agir, ficaram mais confiantes, solicitando maior número de horas para o desenvolvimento do trabalho. Até hoje, quando encontro com algum integrante desta equipe de profissionais, agradecem-me pelo crescimento que tiveram durante o trabalho e que continuam buscando desenvolvimento.

A empresa Termotécnica decidiu que para crescer vai investir no desenvolvimento das pessoas, para que venham utilizar toda a capacidade que possuem. Com a atual valorização da área de Recursos Humanos, fica evidente que quer mudar e passar a investir no potencial humano de que dispõe.

O desenvolvimento de pessoas através dessas duas metodologias favorece o estabelecimento do pensamento sistêmico, modelos mentais adequados, a visão compartilhada, a aprendizagem em equipe e o diálogo, elementos indispensáveis para uma organização que quer Aprender a Aprender.

Empresas como a 3M, Hewlett-Packard, Corning, Procter & Gamble e Shell International, identificaram três elementos de “contexto”, os quais definiram como “criadores de significado e definidores da perspectiva nos esforços da organização que aprende: visão, valores e integridade, diálogo e pensamento sistêmico”.

 

  • Programa:

 

Serão utilizadas duas metodologias:

  • Psicomotricidade de Simonne Ramain – através de exercícios motores leva a pessoa a uma atenção interiorizada, tomada de consciência de seu modo de agir e de relacionar com o mundo interno (fantasias, maneiras de pensar) e externo (a realidade externa), propiciando oportunidades de mudança e flexibilidade, gerando maior criatividade na resolução de problemas.
  • Programa de Enriquecimento Instrumental – P.E.I. – trabalhando a área do conhecimento, leva a pessoa a Aprender a Aprender, ensinando a fazer exploração e planejamento sistemático, a se autocontrolar, a identificar problemas, extrair idéias principais, a adquirir determinação e objetividade, a compartilhar, a se sentir competente, enfrentando desafios.

Os exercícios serão aplicados mesclando as duas metodologias e de acordo com as necessidades do grupo. Haverá momentos em que cada participante poderá verbalizar o que sentiu ao executar os exercícios e que contribuição tais exercícios trouxeram para o seu desenvolvimento, sendo também dado uma realimentação do que se observou de cada pessoa enquanto realizava os mesmos.

 

  • Carga Horária:

 

O trabalho será desenvolvido em dois módulos de 84 horas cada, quinzenalmente, aos sábados, quatro horas por encontro. Cada módulo terá uma duração aproximada de seis meses.

Se a empresa achar necessário, poderá se propor mais dois módulos avançados com a mesma carga horária.

 

 

  • Material Necessário:

 

Mesas e cadeiras dispostas em formato de “U”, um flip chart, que deverá ser providenciado pelo contratante; o restante do material necessário para desenvolver as duas metodologias será levado pela coordenadora e cobrado à parte, uma taxa de R$(____), para cada participante, em cada módulo.

Este material inclui os instrumentos do P.E.I., Programa de Enriquecimento Instrumental, folhas, lápis, tesouras, colas, etc., para a realização dos exercícios motores.

 

  • Proposta Comercial:

 

Cada encontro corresponderá a um investimento de R$ ________________

 

 

  • Curriculum:

 

*Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu, 59 anos; formada pela Faculdade Osvaldo Cruz.

Pedagoga, Psicopedagoga, Psicomotricista e Psicanalista. Professora do Instituto Pieron de Psicologia Aplicada de 1987 a 2008, responsável pela programação e aplicação do curso de especialização em Psicomotricidade; especialista no Programa de Enriquecimento Instrumental – P.E.I. e no Cognet – Rede de Enriquecimento Cognitivo; experiência em aplicação desta metodologia na equipe de profissionais da Empresa Network e nos profissionais da Escola de Educação Infantil Raízes. Psicanalista formada pelo Instituto Sedes Sapientiae e membro efetivo do Departamento Formação em Psicanálise da mesma instituição. Atendendo em consultório particular, crianças, adolescentes e adultos desde 1979, utilizando estas metodologias.

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“PSICOMOTRICIDADE UM CONCEITO COMPLEXO”

 

            O que é psicomotricidade? É uma área da psicologia, é uma área da pedagogia, ou quem sabe é uma área da neurologia, ou pode ser que seja da neurociência? É uma ciência ou uma técnica? É uma metodologia? Quais são seus objetivos? O que ela pretende?

            Difícil, não é mesmo?

            Basta participar de uma jornada de psicomotricidade para observar as dúvidas citadas acima. Até mesmo entre os teóricos que pretendem normatizar a psicomotricidade há controvérsias.

            Um diz que é uma ciência da educação, cujo objetivo é educar o movimento ao mesmo tempo em que põem em jogo as funções intelectivas. [1] Outro que é a evolução das relações recíprocas, incessantes e permanentes dos fatores neurofisiológicos, psicológicos e sociais, que intervêm na integração, elaboração e realização do movimento humano. [2]

            Citando apenas dois autores conhecidos e tidos como referências dentro desta área, ficamos em dúvida onde situarmos a psicomotricidade. Embora, ambos concordem que o enfoque principal é o movimento humano.

            Temos aí o objeto de estudo da psicomotricidade: o movimento humano.

            O movimento é a nossa resposta ao estímulo recebido do mundo externo e é o nosso modo de nos posicionar perante as motivações internas, nem sempre percebidas conscientemente.

            Algumas vezes não sabemos por que agimos dessa ou daquela maneira, não paramos para pensar, damos vazão às nossas emoções que vão se acumulando e de algum modo precisam ser extravasadas, agimos impulsivamente.

            Simonne Ramain, francesa, criadora da metodologia Ramain, dizia: “A psicomotricidade deve se propor a buscar um desenvolvimento global do indivíduo, por meio de sua estruturação mental, sendo enfocados igualmente aspectos afetivos, motores e intelectuais, levando-o a tomar consciência de si pela atitude e movimento”.

            Ela criou vários dossiês, para trabalhar várias etapas do desenvolvimento humano e, cada um deles composto por séries de exercícios que objetivam desenvolver a atenção do sujeito e assim conscientizá-lo de sua maneira de ser e fazer.            

            Simonne entendia que a qualidade dominante do ser é a “vigilância” e que esta qualidade desenvolve-se de uma atitude de “atenção interiorizada” que nos permite a consciência de nós mesmos e de nossos atos.

            Assim, a atenção para ela, não tem o caráter intelectual, mas está distribuída entre um conjunto de funções e cada função deve utilizá-la no momento adequado para permitir ao sujeito captar as impressões sob seus diversos aspectos e deixar que entrem em jogo a disponibilidade e a plasticidade indispensáveis ao ser humano. Neste sentido, Simonne relaciona quatro situações de atenção que devem atuar harmoniosamente:

  • atenção dirigida à percepção visual;
  • atenção dirigida à percepção auditiva;
  • atenção dirigida à percepção do contato com o corpo;
  • atenção interiorizada posta na percepção do esquema corporal.

            Estes quatro aspectos da atenção dirigem-se ao mesmo fim: desenvolver sujeitos harmoniosos, capazes de realizar voluntariamente esforços de atenção sem eleição preferencial.

            Quem pensa que trabalhar com psicomotricidade é apenas desenvolver as áreas de coordenação motora global e manual, de percepção visual, de lateralidade, de esquema corporal, de estruturação espacial e de orientação temporal, entre outras, acaba cometendo um equívoco. O homem é muito mais que um ser com capacidade neurológica, ele tem vontades, desejos, afetos, emoções, ele pensa, ele se relaciona e interage com o meio ambiente. A sua movimentação é a expressão de como ele está podendo se perceber e relacionar com o mundo que despeja sobre ele expectativas, imposições, desejos, que nem sempre correspondem ao que ele quer, necessita ou deseja.

            Os exercícios psicomotores propostos precisam transcender os aspectos cognitivos e neurológicos e desenvolver um sujeito que tenha o domínio sobre si, que seja autônomo e tome consciência de sua relação com o mundo, por meio da experiência vivida.

            Não há proposta de aprendizagem e adestramento para qualquer tipo de aperfeiçoamento e de desempenho. Não há fixação de valores de realização, nem estímulos a qualquer atitude competitiva. Cada experiência deve trazer uma renovação no sentido de quebrar automatismos e abrir caminhos para a criação de novas posturas do sujeito diante de si e do mundo.

            A experiência vivida pelo sujeito que realiza os exercícios do método Ramain se incorpora de uma maneira permanente em sua vida. O desenvolvimento do que Simonne Ramain chama “atenção interiorizada” não fica restrita aos momentos das sessões.

            Com o campo de consciência mais alargado, o sujeito passa a viver cada momento de forma mais presente e abrangente, atento a toda experiência direta que esteja contribuindo para a percepção de si.

            Se focarmos a área neurofisiológica, constatamos que a metodologia Ramain mobiliza principalmente as funções processadas no hemisfério direito. E este hemisfério elabora as informações de uma forma holística, gestáltica, sendo responsável pelas funções de orientação espacial, esquema corporal, relações viso-espaciais, formas espaciais, síntese espacial, analogias, música, melodias, ritmo, expressão de emoções, criatividade dinâmica e elaboração artística, entre outras. Estas funções são de importância fundamental na complementação das funções processadas predominantemente no hemisfério esquerdo, como a utilização e evocação de material verbal, cálculo, explicação, descrição, que compõem a atividade chamada intelectual, e não são suficientemente solicitadas no processo de desenvolvimento pessoal habitual. Uma metodologia que mobiliza também as funções do hemisfério direito irá concorrer para a ampliação das potencialidades do cérebro como um todo.

            Como a minha formação em psicomotricidade foi por meio da vivência da metodologia Ramain, tendo estudado outros autores mais tarde, o conceito de psicomotricidade é tão complexo, como abrangente, compreendendo-o como mobilização e desenvolvimento do ser humano; pois mobilização e desenvolvimento subentendem MOVIMENTO, são palavras dinâmicas, e o dinamismo nunca cessa.

 

[1] Costallat, D. – “Psicomotricidade” – Editora Globo – segunda edição – Porto Alegre, 1976.

[2] Fonseca, V. – “Psicomotricidade” – Martins Fontes – São Paulo, 1983.

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TRANSFORMANDO PROFESSORES EM EDUCADORES, ESSA SERÁ A GRANDE REVOLUÇÃO

Objetivos:

 Sensibilizar os professores que existem outros caminhos dentro da educação.

 Conhecer-se, é o primeiro passo para aceitar mudanças.

            No final do ano passado (2013), recebi um mail do meu filho (que também está comprometido com a educação, só que de empresários), com a palestra de Sir Ken Robison, cujo título era: “Façamos a revolução na aprendizagem”.

            Quando terminei de assistir refleti sobre a minha prática clínica, afastada indiretamente de instituições educacionais há quatorze anos; porque algumas vezes ainda visito escolas para conversar a respeito dos meus pacientes que atendo em psicopedagogia, ou em psicomotricidade, e ou na área emocional.

            Vi o quanto havia me afastado do meu talento inicial, que sempre foi o de participar do processo de aprendizagem. Lembro-me que quando criança, colocava na varanda de minha casa, em Belo-Horizonte, os meus amigos de infância e imitava as minhas professoras de pré-escola e do fundamental. Já estava traçada a minha carreira profissional, foi o que sempre quis ser, uma professora, depois mais tarde uma educadora.

            Descobri que professor qualquer um poderia ser, mais educador era para poucos. E descobri, quando comecei a me conhecer melhor, no curso Formação em Psicomotricidade Ramain-Thiers (metodologia vinda da França, criada por Simonne Ramain e disseminada no Brasil por Solange Thiers).  Isto porque no curso, os exercícios eram aplicados nos aprendizes para desenvolver a nossa consciência e aguçar a nossa percepção, primeiro de nós mesmos e depois dos outros que participavam da formação e por fim estar disponível para os que seriam entregues ao nosso cuidado. Foi um dos períodos mais fecundos da minha existência. Um simples exercício de cópia em folha de papel quadriculado levava-me a uma viagem profunda de mim mesma. Percebia como o meu raciocínio trabalhava, as interferências vindas do externo e os barulhos internos que estava começando a me permitir escutar (meus sentimentos), além da comunicação verbal, decodificada e interpretada, muitas vezes de modo diferente, das instruções para realizar o exercício; como eu não sabia escutar… Vivemos num mundo interessados em falar, mas não em escutar.

            Na época em que cursava a formação (três anos e meio para poder trabalhar com crianças e adolescentes), trabalhava numa grande instituição educacional e lecionava português e matemática para crianças de terceira e quarta séries do Fundamental I.  A primeira coisa que fiz foi tentar ampliar a percepção, a atenção e a escuta de meus alunos. Muitas das minhas estratégias (palavra que vem do militar) deram certo, meus alunos ficavam em silêncio quando precisava de sua atenção para desenvolver um novo tema, mas um silêncio participativo, de troca de ideias, uma comunicação onde havia ordem, porque todos queriam escutar o que seus colegas tinham a dizer a respeito.

            Depois fui requisitada para desenvolver e implantar um currículo para uma escola de educação infantil. A princípio a grade curricular seguia os parâmetros da cartilha ditada pelo MEC, que acabara de introduzir a motricidade no currículo da programação infantil. Por algum tempo foi satisfatório, mas sentia que ainda faltava algo, não era daquele jeito que queria levar adiante a educação das crianças que eram postas sob a minha orientação. As crianças não estavam felizes, muito menos eu.

            Resolvi implantar a metodologia Ramain-Thiers na escola, mas para isso precisava mudar a visão dos professores, necessitava transformá-los em educadores. Foi o que fizemos, eu e meus colaboradores, aqueles que acreditavam que os professores precisavam deixar suas antigas crenças, aquelas que aprenderam na escola e em sua formação. Teria que despertar seus espíritos, suas paixões e suas energias.

            Para isto, reuníamos toda a semana durante uma hora e meia e fazíamos um ou mais exercícios de psicomotricidade. Discutíamos o que eles tinham suscitado em cada um, como poderiam aproveitar as percepções descobertas para transpor para os alunos. Líamos textos de educadores que nos interessavam, refletíamos se algumas das ideias eram aproveitáveis ou não. E conversávamos sobre o comportamento de algum aluno que estava dificultando a convivência com as crianças do grupo a qual pertencia e quais seriam as medidas mais apropriadas a tomar.

            Os professores foram deixando de lado crenças educacionais que não cabiam mais numa escola que estava terminando um século e às portas de um novo milênio.  Foram se transformando, aprenderam a se escutar e a escutar o que as crianças tinham a dizer. Não éramos uma escola preocupada que nossos alunos entrassem nesta ou naquela escola de ensino fundamental que ficavam no mesmo bairro, porém eles iam tão despreocupados em prestar o tal vestibulinho, que entravam. Eles adquiriam a mesma confiança no vir a ser, que sentiam nos educadores que trabalhavam com eles.

            Na minha prática clínica, quando visito uma escola, tento escutar qual é a sua filosofia, qual a metodologia empregada, o que posso esperar de cooperação para podermos ajudar a criança que nos foi confiada e com a qual estamos trabalhando. A maioria das escolas se diz modernas, mas ainda são tradicionais, se preocupam em ensinar coisas para as crianças, que muitas vezes elas ainda não estão preparadas para aprenderem, porque há estágios de desenvolvimento que todos nós, como educadores, devemos respeitar. São escolas que estão preocupadas com a avaliação na aprovação do número de alunos no ENEM e ou vestibular. A que coloca mais alunos ganha a fama de ser a melhor. Estamos falando de escolas industriais, empresariais, que ficam de olho no número, na estatística.

            O grito que ouvi de alguns palestrantes no Youtube, como: Ken Robison, José Pacheco (Escola da Ponte), Luciano Meira, Sidarta Ribeiro; a respeito de educação, é que ela deve ser mudada para uma escola que personalize o educando, que o faça descobrir qual é o seu talento e com o que gostaria de trabalhar, precisamos de toda uma diversidade de profissionais e técnicos que gostem do que fazem. Para isto devemos mudar a escola de um modelo industrial para um agrícola, onde os sonhos possam ser cultivados, despertados e colocados em prática.

            Penso que há ainda um grande desafio nesta mudança, que é da maior importância: Fazer a revolução no campo da Formação de Educadores, não de professores, porque sem eles qualquer mudança emperra, porque a filosofia e a metodologia de uma escola dependem deles, das crenças que carregam.

            Paulo Freire e Ira Shor, no livro: “Medo e Ousadia” – falam de um educador libertador e de uma prática dialógica. Um educador que está mais comprometido em participar da formação dos alunos, do que em transferência de conhecimentos. Mas que também é competente e rigoroso no que quer trabalhar com os estudantes e não inflexível.

            Como fiz outrora, quando fui orientadora pedagógica de uma pré-escola, proponho que os professores possam se conhecer, saber quais são os seus desejos,

com quem se identificam, onde colocam suas projeções, aprendam a identificar as suas dificuldades para não confundir com as dos seus alunos, saibam separar o que é deles, o que é dos outros. Só então, após se conhecerem e saberem qual a sua disposição, poderão se comprometer e virem a se tornar educadores; porque a educação também é um ato político, não havendo pedagogia neutra.

            Proponho um curso de autoconhecimento, enriquecimento e desenvolvimento de talentos, aprendendo quais são os seus recursos naturais e como aprimorá-los para se transformar num autêntico EDUCADOR. Aquele que faz a diferença neste processo que se inicia agora, com esta revolução.

Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

Texto enviado ao congresso Formação de Educadores.

 

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PARCERIA DA ESCOLA COM OS PAIS PARA O DESENVOLVIMENTO DA CAPACIDADE EMOCIONAL E COGNITIVA DO ADOLESCENTE

Todo adolescente “adora” estudar, não tem dificuldades de atenção, de interesse, de motivação, de organização, de memória, não é mesmo?

            Os professores fazem malabarismos para que prestem atenção, pelo menos um minuto, no assunto que estão abordando. Com todo um mundo novo descortinando, quem vai se interessar por matemática, física, química ou biologia?

O período de latência cedeu lugar a uma explosão hormonal, o corpo muda dia a dia, o esquema corporal é outro, necessitando refazê-lo. Perguntas como: Quem sou eu? Como irei ficar? As espinhas irão desaparecer? Se fizer sexo será que nascerá um bebê? Será que poderei pegar doenças sexualmente transmissíveis? O que eu faço com a liberdade que se abre a minha frente? Que profissão irei escolher?

Com todas estas questões para resolver, nós ainda queremos que ele pense em algo emergencial como: “a soma do quadrado dos catetos é igual a soma do quadrado da hipotenusa.” Para que lhe serve isto? E suas questões não são mais importantes? O que lhes parece?

Entra aqui a parceria da escola com os pais, para desenvolver a competência, individuação, identidade e auto-estima. Fatores fundamentais para o desenvolvimento da inteligência formal, só possível pelo convívio social que interage entre a maturação e a experiência.

Os pais são considerados, atualmente, mediadores de aprendizagem, tanto quanto os professores, o estímulo, o exemplo, o modelo vem de casa. Piaget acreditava que a aprendizagem se dava pelo seguinte esquema: S – O – R, isto é, estímulo, organismo e resposta, considerada a aprendizagem direta ou explicação passiva; se o estímulo coincide com o indivíduo, produz a resposta. Podemos desenvolver a capacidade somente pela exposição a estímulos? Podemos fazer inferências somente pela resposta a estímulos? Para os novos pesquisadores do desenvolvimento da inteligência, como Reuven Feuerstein, o esquema de aprendizagem deve ser o seguinte: S – H – O – H – R (H traduzido pelo mediador humano). O mediador humano se interpõe entre o estímulo e o indivíduo, oferecendo estímulos e transformando, assegurando criações ótimas de interação, criando modos de perceber, confrontando os estímulos, abrindo novas formas de abstrair. O organismo adquire comportamentos apropriados, formas de aprendizagem e estruturas operacionais que modificam constantemente sua estrutura cognitiva como resposta a estimulação direta.

No período de latência (dos sete aos dez anos mais ou menos) a criança desenvolve as seguintes funções de pensamento, quer tenham ou não esta mediação: observação, comparação, classificação, imaginação, codificação, interpretação e obtenção e organização de dados. Alguns podem demorar mais, outros menos, porém a maioria chega lá.

Na adolescência deverá desenvolver as funções mais abstratas de pensamento, chamadas de operações formais, como: resumo, crítica, busca de suposições, levantamento de hipóteses, aplicação de fatos a novas situações, decisão, planejamento de projetos e pesquisas. No entanto só o fará se for bem mediado, se conviver socialmente, se fizer troca. Nesta fase a escola é de fundamental importância. É comum encontrar adultos que não desenvolveram algumas das operações formais, apresentando ainda pensamentos concretos.

Alguns dos comportamentos que comprometem o desenvolvimento das funções de pensamento formal são: impulsividade, dependência em relação aos pais ou professores, incapacidade de concentrar-se, dificuldade em perceber o significado, comportamento dogmático, rigidez, falta de confiança no pensamento pessoal, falta de disposição para pensar.

Alguns anos atrás se falava muito em Q.I. (quoeficiente de inteligência), medida dada por testes elaborados por pesquisadores, a maioria das vezes restritas a um contingente de população urbano, com certo grau de conhecimento e corrigido pelo número de respostas certas e pela velocidade dada às respostas. Como ficavam outras populações como os índios, meninos de rua, populações carentes? Confundia-se inteligência com cultura.

Agora se fala em Q.E. (quoeficiente emocional), a facilidade para detectar e resolver problemas, sendo necessárias qualidades como flexibilidade e criatividade (os tecnocratas têm o conhecimento, teorizam, mas as propostas para as soluções do dia a dia permanecem difíceis). Também se acredita em vários tipos de inteligência, as inteligências múltiplas: a musical, a linguística, a lógica-matemática, a espacial, a motora, etc..

Para desenvolver pessoas com Q.E. é proposto um trabalho com blocos de construção de pensamento e ferramentas de aprendizagem independente, interligados; a cada dia se propõe um bloco de pensamento e uma ferramenta, por exemplo: Exploração Sistemática (bloco de pensamento) e Sentimento de Competência (ferramenta de aprendizagem); ou Fazendo Comparação (bloco de pensamento) e Autodesenvolvimento (ferramenta independente); ainda, Fazendo a Memória Funcionar (bloco de pensamento) e Comportamento Compartilhado (ferramenta independente).

Se a escola e os pais estiverem sintonizados, compartilhando dúvidas e experiências, é possível desenvolver a capacidade do adolescente, transformando-o em um indivíduo consciente, autônomo e responsável.

 

 

Palestra realizada no Colégio Oswaldo Cruz para pais de adolescentes.

Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

 

 

 

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Palestra Para Pais

PALESTRA PARA PAIS

(palestra realizada no Núcleo Educacional Ser Feliz e SER – Sistema Educacional)

ASSUNTOS ABORDADOS:

  • Papel da escola x o papel da família;
  • Dificuldade de aprendizado ou estratégia de ensino inadequada;
  • Atualização do currículo da escola para atender as novas diretrizes que regem o Ensino Fundamental;
  • A escolha da escola que dará continuidade à pré-escola.

Apesar de a palestra ter sido dada em setembro de 2000, há abordagens ainda pertinentes ao ano vigente, reflexões a se fazer.

            Para falar sobre o papel da escola e o da família faz-se necessário fazer um pequeno retrocesso na história de vida escolar. Quem tiver na faixa dos 40 a 50 anos se lembrará do que vivenciou na sua época de escola. O papel fundamental da escola era transmitir informações (quanto mais, melhor) e o da família era educar (colocar limites). Não havia confusão. Os pais não iam à escola para saber o que ela estava dando de conteúdo, nem a escola cobrava dos pais a educação de seus filhos. As duas instituições (escola e família) eram soberanas e não se contestava as atitudes tomadas. Quando a criança reclamava para os pais a atitude da escola ou de algum professor, havia algumas variações no comportamento dos pais: ignorar; dizer que a escola tinha razão; puni-la por ter tido um mau comportamento.

            Esta era a escola tradicional. Os pais só compareciam em festas ou quando eram convidados. Não existia reunião de pais e mestres. Sabia-se do rendimento da criança através da caderneta escolar.

            Entretanto sempre existiram aqueles alunos que não conseguiam acompanhar o ensino da escola tradicional. As informações eram decoradas e quando se ousava perguntar o que se faria com toda aquela informação, isto é, onde seria aplicada? Respondiam: “Cultura!” (em minha opinião, deveriam dizer cultura inútil).

            Para atender as crianças que não conseguiam acompanhar, eram indicados professores particulares, que insistiam no mesmo tema, da mesma maneira. Ensinava-se para decorar. Passar de ano!

            Paralelamente, começaram a surgir escolas alternativas, que passaram a buscar fundamentação em metodologias e filosofias de teóricos que se preocupavam como o ser humano aprende. Maria Montessori foi uma delas (médica italiana – criou uma metodologia de atendimento individual, visando crianças deficientes). Cada aluno poderia seguir o seu próprio ritmo e para isso o número de crianças por classe era restrito. Ainda hoje, encontramos escolas que adotam o seu método, principalmente na alfabetização, incoerente para a nossa língua que é silábica e não fonética, gerando muitos distúrbios de leitura e escrita.

            Depois, o mais famoso de todos, Piaget, zoologista, pesquisador, matemático, filósofo e acima de tudo um epistemologista genético, preocupado em descobrir os processos mediante os quais os corpos de conhecimento crescem, tanto historicamente, quanto internamente organizados. Observou nos seus filhos este crescimento e viu que cada um constrói o seu próprio conhecimento apesar do estímulo ser o mesmo. Porém ele nunca afirmou que a criança deveria ser deixada sozinha e sem orientação para aprender.

            Mesmo assim estas escolas alternativas não conseguiam dar conta do recado, as crianças continuavam a apresentar dificuldades, por quê? Pegavam teorias novas e aplicavam sem um estudo prévio, achando que pelo simples fato de fugir às regras tradicionais poderia dar certo. No entanto, os pais já entravam nas escolas, participavam cada vez mais de eventos, reuniões; a velha caderneta foi substituída pelo boletim ou por relatórios de avaliação. Iniciou-se uma troca de informações entre as duas instituições; muitas vezes uma interferindo no modo de atuar da outra. A algazarra começou: uma apontando o dedo para a outra na luta para buscar um responsável pelo fracasso da criança. Até onde a escola pode interferir no relacionamento familiar? Até onde a família pode intervir na metodologia e filosofia de uma escola? De quem é a tarefa de educar a criança?

            Eu responderia: de ambas! Os pais não podem, nem devem delegar o seu papel de educar e orientar os seus filhos é de direito e dever deles. A escola deve participar desta educação promovendo a socialização da criança ao ambiente escolar e para que este ocorra harmoniosamente é preciso estabelecer regras; palestras para a orientação dos pais, trocar idéias sobre o comportamento de seus alunos com os respectivos pais. Contudo, a escola, não pode abrir mão de ter a sua filosofia e metodologia que nortei o caminho que ela acredita. Cabe aos pais escolher a escola que melhor se adapte ao que eles acreditam.

            O papel do professor também mudou muito nesta evolução histórica. De centralizador, quem detinha todo o poder do conhecimento; passou com as novas teorias (mal compreendidas) a ser a figura mais apagada da escola. Basta ver a desvalorização profissional que atualmente vive. Em algumas escolas o professor sofre deboches por parte dos alunos, muitas vezes sob os aplausos dos pais. E o respeito à pessoa humana, onde fica? Saiu-se do 80 para o 8. O aluno aprende sozinho não necessita mais do professor. Se isto fosse verdade não necessitaríamos mais de escolas, é só colocar a criança na frente de um computador que de lá sairia um gênio. O que vemos é que sem orientação, sem uma direção o aluno se aliena, pois não sabe qual é o estímulo adequado a seguir. A cada dia, um grande número de crianças chega aos consultórios de especialistas com distúrbios de atenção, devido, entre outras coisas, uma estimulação excessiva.

            Estamos falando de uma aprendizagem direta e de uma aprendizagem mediada. A primeira é a dos indivíduos considerados autodidatas e a segunda é a de experiências de aprendizagem; criada e desenvolvida por Vygotsky (um cientista social russo, psicólogo e filósofo). Ele desenvolveu uma pesquisa de campo para provar a sua hipótese de que o conhecimento só se dá pela troca social (gerando o sócio-construtivismo). A evolução das funções de pensamento só acontece se o indivíduo estiver inserido dentro de uma instituição que o estimule. Vemos muitos adultos operando com o pensamento concreto porque não tiveram a oportunidade de aprenderem a articular as funções mais abstratas.

            A escola que só coloca a criança diante da exposição direta seja dando muitas informações, ou deixando que escolha o que quer aprender, não está atendendo ao desenvolvimento natural da criança. Dar uma mediação adequada que oriente a criança no caminho a seguir e que tipo de informação necessita para resolver situações problemas, motivando-a a se tornar independente e autônoma, ensinando-a a pensar e não no que pensar, é a escola que atende ao desenvolvimento natural da criança.

            A teoria de Howard Gardner sobre as inteligências múltiplas vieram clarear questões como: porque algumas crianças gostam de matemática e outras de português; será que é apenas empatia com o professor/mediador; aquele que motiva e o outro não?

Em “Frames of Mind”, ele define sete principais tipos de inteligências:

  1. Linguística – escritores, debatedores, poliglotas;
  2. Musical – compõem ou executam músicas;
  3. Lógica matemática – matemáticos, cientistas e lógicos;
  4. Espacial – jogadores de xadrez, navegadores, arquitetos, artistas;
  5. Corporal cinestésica – dançarinos, atletas e certos tipos de inventores;
  6. Intrapessoal – compreensão poderosa e independente da própria vida emocional;
  7. Interpessoal – empatia pela vida emocional de outros indivíduos: políticos, líderes religiosos, professores e os que atuam em profissões de ajuda.

Então, é a criança que tem dificuldade de aprender ou são as escolas que não desenvolvem estratégias adequadas para atender os diferentes tipos de inteligências?

Com as novas diretrizes que regem o ensino fundamental as escolas terão que atualizar o currículo para atenderem os parâmetros que regem a lei Federal 9394/96.

Um dos parâmetros mais significativos desta nova lei é que o primeiro ciclo do ensino fundamental, do pré à quarta série, deve ser orientado para uma informação que eduque, isto é, que seja aplicada à vida do cidadão consciente, aprender a ser autônomo, levado ao conhecimento.

Quando li este parâmetro, fiquei refletindo como as grandes instituições, apoiadas no slogan que escola forte é aquela que enche o aluno de informações e cobra uma memorização, dando lições de casa repetitivas, para fixação do conteúdo, farão para aplicar esta diretriz sem perder a fama? Será que atualmente há necessidade de tanta informação sem aplicabilidade? Não é melhor desenvolver o potencial do indivíduo ensinando-o a pensar e a raciocinar e deixar que mais tarde ele pesquise a informação sobre a qual se interessa? Com a facilidade da Internet, é muito acessível buscarmos informações que desejamos. Portanto as informações supérfluas já não tem mais sentido!

Colocando todos estes pontos, acho que a tarefa dos pais ao procurarem uma escola adequada para seus filhos será um desafio e exigirá muito mais tempo de investigação e de reflexão. Apontarei algumas orientações que necessitam ser levadas em consideração na escolha:

  • A proximidade da escola, seja da casa ou do trabalho dos pais é fundamental, evitando o desgaste e o estresse do trânsito;
  • Uma escola que esteja preocupada com a formação do educando e não apenas com a informação;
  • Número de crianças por classe, só poderá atender as novas diretrizes da lei federal aquela que não tiver um número grande de alunos por classe;
  • O investimento na formação dos professores/educadores, para que possam atuar como mediadores;
  • Os valores que devem estar estabelecidos na filosofia da escola se batem com os valores da família;
  • Nem sempre uma escola grande que apresente um espaço físico bonito, atende às necessidades das crianças, ás vezes elas nem freqüentam todo o espaço;
  • Saber que a criança não é apenas um número na lista de chamada, mas é conhecido pelo nome, sobrenome e por suas características individuais;
  • Uma escola que esteja preocupada em desenvolver o potencial de cada aluno, lembrando das inteligências múltiplas, e que não aponte o dedo somente sobre o aluno que não aprende, mas que o direcione a ambos, ao mediador e ao aluno, perguntando-se o que acontece, porque a estratégia usada não está dando resultado?

Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

Pedagoga, psicopedagoga, psicomotricista e psicanalista.

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“NAVEGAR É PRECISO, VIVER NÃO É PRECISO”

 

Introdução:

 

 

 

Os Argonautas”

 

O barco, meu coração não agüenta tanta tormenta, alegria

 

Meu coração não contenta o dia, o marco, meu coração o porto, não

 

Navegar é preciso, viver não é preciso

 

Navegar é preciso, viver não é preciso

 

O barco, no teu tão bonito

 

Sorriso solto, perdido

 

Horizonte madrugada o riso, o arco da madrugada, o porto, nada

 

Navegar é preciso, viver não é preciso

 

Navegar é preciso, viver não é preciso

 

O barco o automóvel brilhante o trilho solto, o barulho

 

Do meu dente em tua veia

 

O sangue, o charco, barulho lento o porto, silêncio

 

Navegar é preciso, viver não é preciso…

 

 

 

            Como a própria música citada acima diz, lançar-se numa aventura náutica com todos os recursos disponíveis, toda a aparelhagem naval, ou não, só poderá levar-lhe para um porto seguro; mesmo que não se tenham as aparelhagens para navegar, mesmo que só tenhamos mapas para nos orientar, ainda assim, navegar é mais preciso que viver. Viver é uma aventura onde não há aparelhagem suficiente que lhe garanta chegar a porto nenhum. Há o desamparo, o não saber se daremos conta de organizar o nosso aparelho psíquico; a cada guinada, a cada solavanco, a cada onda mais alta, o navio pode naufragar, porém vamos seguindo, somos sobreviventes dentro dessa grande massa humana que chamamos de cultura, sociedade, vida.

 

            Este foi um dos meus primeiros aprendizados quando iniciei o curso Formação em Psicanálise, em 2002. O professor Ede de Oliveira Silva, no seminário clínico, fez a citação desse mesmo trecho da música, para me fazer compreender metaforicamente, o caso de uma menina, Lúcia[1]. Caso que inclusive levou-me a querer buscar novos conhecimentos, novos parâmetros, novas rotas, chegando à psicanálise.

 

            Quando vi Lúcia pela primeira vez, na época com oito anos e dez meses, observei que havia alguma coisa a mais, e não somente como dizia a escola, um atraso motor. Ela era diferente das outras crianças que eu já tinha atendido. Seu comportamento não seguia as normas do chamado “adequado”, ela dava risada por qualquer motivo, babava, não tinha o chamado freio inibitório[2] (não obedecia às regras sociais), interrogava qualquer pessoa que via e ficava sem saber o que fazer quando era ignorada, freqüentemente perseverando até obter o que desejava, não era por “birra”, algo que não passava pelo âmbito dos limites, era diferente disso, parecia ser a única maneira como havia aprendido a se relacionar (fora da fronteira entre o eu dela e o eu do outro). Também não estava atrelada à deficiência cognitiva, sabia ler e escrever, embora sua orientação espaço-temporal estivesse defasada, não conseguindo se organizar numa folha pautada e muitas vezes se negando a colocar a data nos trabalhos e quando o fazia era sempre além ou aquém da data corrente (uma maneira de cindir com a realidade externa, ficando preservada no seu mundo interno).

 

            Naquele momento da minha vida profissional, psicopedagoga e psicomotricista, não sabia o que era um paciente psicótico; já havia ouvido falar em psicose, porém ainda não havia lido nada a respeito. Foi preciso buscar supervisão para fechar o diagnóstico e saber qual o percurso a ser feito.

 

            A primeira aula do professor José Carlos Garcia, “Uma Introdução Sobre a Loucura” e em seguida ler o seu artigo publicado na revista Boletim, “Alguns Elementos Sobre a História da Loucura” [3], fez-me retroceder no tempo e reviver os mesmos sentimentos da ocasião em que estava tentado entender, tentando pesquisar, tentando achar um rumo, o que será que aquela menina tinha além do comprometimento motor? O seu último parágrafo veio me reconduzir à pesquisa de entender o que se passa com Lúcia:

 

 

 

            “A abordagem psicanalítica das psicoses significou uma transformação da concepção de loucura como forma de anomalia cerebral para outra na qual a loucura é entendida como um desfecho especial na trajetória histórica de um determinado indivíduo. Ou seja, o foco primordial do enfoque psicanalítico para a doença mental é a preocupação de compreender como a mente humana chega a esta forma de funcionamento psíquico e de como seria possível intervir terapeuticamente nesta patologia.”

 

 

 

                Deixar-me ser conduzida pela programação do seminário: função materna, função paterna, Complexo de Édipo e psicose, o caso Schreber, pulsão e representação na clínica da psicose, foi de fundamental importância para ir tendo os insights e fazer as associações necessárias para poder articular a teoria aprendida com o caso clínico.

 

            Também assistir ao filme “A Fantástica Fábrica de Chocolate” , representou por meio da imagem, o que Schreber e Lúcia devem ter passado, vivendo à sombra do grande outro. O personagem Willy Wonka, criança ainda parece um monstro, com aparelhos dentários que o mantêm de boca aberta e com muita dificuldade de falar e de se alimentar, com a única finalidade de ficar com os molares perfeitos, submetendo-se ao despotismo paterno, deste pai que era dentista em Londres. A partir daí a história vai se desenrolando muito parecida com o caso Schreber e o de Lúcia. Lançarei mão de algumas imagens que ficaram impregnadas em minha mente e que podem contribuir como exemplos para esse meu trabalho.

 

 

 

 

 

Histórico Clínico:

 

 

 

                   Os pais de Lúcia, mãe com quarenta anos e pai com quarenta e dois anos (2001), funcionários públicos, professores doutores, tentaram uma gravidez durante oito anos. Não obtendo resultado positivo resolveram desistir e se voltaram para a carreira acadêmica que estava em andamento. A mãe conseguiu uma bolsa para o doutorado nos Estados Unidos e o marido a acompanhou, aproveitando para fazer cursos que complementariam a sua carreira. Nesta ocasião, já instalados naquele país, ficaram grávidos. A princípio, a mãe ficou muito irritada porque naquele momento seus planos eram outros. Depois de muito considerarem, resolveram pela gravidez e quando Lúcia nasceu, a avó e bisavó maternas foram morar junto com os pais para poderem cuidar da criança, já que os pais tinham que se dedicar aos estudos e pesquisas.

 

                        A mãe relatou que por volta de um ano e seis meses, após o nascimento da filha, começou a perceber as dificuldades motoras da criança: era toda mole, sentou e andou com atraso e não correspondia aos estímulos dados pelos pais. Quando retornaram ao Brasil, buscaram ajuda profissional neurológica; Lúcia foi encaminhada para fisioterapia, terapia ocupacional, natação e trabalho emocional.

 

                        Isto, na época, me fez pensar como teria evoluído a imagem corporal desta criança, já que Dolto (2002) fala da imagem de base que é um dos três aspectos dinâmicos da imagem do corpo.

 

 

 

               “O primeiro componente da imagem do corpo é a imagem de base.. A imagem de base é o que permite à criança sentir-se uma ‘mesmice de ser’, ou seja, em uma continuidade narcísica ou em uma continuidade espaço-temporal que permanece e vai preenchendo desde o nascimento, apesar das mutações de sua vida e dos deslocamentos impostos a seu corpo e, a despeito das provas a que ele é levado a submeter-se. É assim que eu defino o narcisismo: como a mesmice de ser, conhecida e reconhecida, indo-devindo para cada um no espírito de seu sexo.” (p. 38)

 

 

 

               Já Winnicott (1956) vai falar do ‘continuar a ser’, em seu texto “A Preocupação Materna Primária”:

 

 

 

               “A base para o estabelecimento do ego é um suficiente ‘continuar a ser’ não interrompido por reações à intrusão. Esse ‘continuar a ser’ será suficiente apenas no caso da mãe encontrar-se nesse estado que (conforme sugeri) é muito real no período próximo ao fim da gravidez e durante as primeiras semanas após o nascimento do bebê”.(p.403)

 

 

 

               Lúcia parece não ter tido esta ‘mesmice de ser’ ou o ‘continuar a ser’ dado pelos pais, pois na época de seu nascimento estavam voltados para a mesmice deles mesmos, empenhados em suas atividades acadêmicas. Talvez por isso essa dificuldade corporal e a necessidade de tantos profissionais empenhados na tarefa de estabelecer este primeiro componente da imagem corporal. Não teve a condição de suportar a angústia de aniquilamento de não ter sido cuidada por eles, principalmente pela mãe, que na ocasião parece não ter conseguido exercer a função materna, não conseguiu ‘adoecer’ para poder cuidar do seu bebê, delegando essa função para a sua mãe e para a sua avó. Segundo Winnicott (1956):

 

 

 

            “A falha materna provoca fases de reação à intrusão e as reações interrompem o ‘continuar a ser’ do bebê. O excesso de reações não provoca frustração, mas uma ameaça de aniquilação; ansiedade muito primitiva, muito anterior a qualquer ansiedade que inclua a palavra ‘morte’ em sua descrição”.(p.403)

 

 

            Aos seis anos, Lúcia estava estressada e seus pais também. Conversando com o neurologista resolveram parar com todos os atendimentos e colocaram-na numa escola próxima à residência em período integral. Ela repetiu o pré-primário e na primeira série, a escola me encaminhou com as seguintes queixas: hipotonia muscular, disgrafia (além de misturar letra cursiva com letra de forma), não produção de material gráfico em sala de aula, imaturidade e relacionamento apenas com adultos.

 

            Foi proposta uma avaliação motora, na qual foram observadas as seguintes questões: tônus muscular muito relaxado (segundo o neurologista nada tinha de físico); verbalização com vocabulário bem desenvolvido, mas apresentando ecolalia, perseverando numa tentativa de controlar as situações, agindo impulsivamente, parecendo querer esconder a sua capacidade e ver-se livre do que a incomodava; memória ativa muito presente, lembrando-se de pormenores; na área perceptivo-motora apresentou imaturidade, ficando na mediana entre quatro e cinco anos; o perfil motor oscilou muito, demonstrando dificuldade de equilíbrio, de coordenação dinâmica global e de movimentos simultâneos; não conseguiu integrar as instruções com a realização dos movimentos, por demonstrar dificuldade de trabalhar o seu corpo que aparentava ser o grande depositário de suas dificuldades, não conseguindo fazer sintonização entre o ritmo dado e o interno. Havia também uma questão quanto a não suportar crianças pequenas, principalmente bebês.

 

            Como uma criança que não teve a imagem de base pode evoluir e desenvolver o segundo aspecto dinâmico da imagem corporal que visa à realização de seu desejo, a imagem funcional?

 

 

                “O que passa pela mediação de uma demanda localizada no esquema corporal em um lugar erógeno onde se faz sentir a falta específica, é o que provoca o desejo. É graças à imagem funcional que as pulsões de vida podem, após serem subjetivadas no desejo, tender a manifestar-se para alcançar prazer, objetivar-se na relação com o mundo e com o outro”. (Dolto, 2002, p. 43)

 


Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

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Peversão, onde fica a Lei?!

“Bebe, come e vive bem com aqueles cujo poder é
grande. Dos bons aprenderás o bem; e com os maus,
se com eles te mesclares, acabarás perdendo o que
tens de bom “…

“Se possível fosse fabricar razão e colocá-la no
homem, grande fortuna ganhariam os que esse
segredo possuíssem”…

“Nunca um bom pai teria um filho mau, se este
fosse dócil aos sábios conselhos; mas jamais farás bom,
com simples lições, a um homem que seja mau”…

Como é difícil falar, pensar e escrever sobre perversão, já que o termo nos sugere várias conotações diferentes.
Antes de participar deste seminário teórico, perversão para mim era qualquer pessoa que se comportava como má, que não tinha respeito pelo outro, que recusava a castração e se colocava acima de qualquer lei. Não só os que participavam de práticas sexuais consideradas anormais, ou melhor, pouco comuns, como os sádicos, os masoquistas, os exibicionistas, os voyeuristas, etc…
Acho, já não tenho tanta clareza, que a minha resposta à questão formulada pelas mestras, no início deste seminário, a respeito do que entendíamos sobre o conceito de perversão, foi mais pela linha da maldade, do que o conceito dado pela psicanálise. E alguns teóricos colocam que há realmente esta confusão em função da amplitude de significados do termo.
No dicionário de língua portuguesa (Aurélio, 1995), perversão é:

1) Ato ou efeito de perverter (-se); 2) corrupção, desmoralização, depravação; 3) alteração, transtorno; 4) desvio ou perturbação de uma função normal, sobretudo no terreno psíquico.

Perverso é:

1) Que tem malíssima índole; muito mau; malvado; 2) que revela perversão; 3) indivíduo perverso.

Além dessa série de significados da palavra perversão, há ainda os que a consideram uma estrutura e outros que vêem a perversão como um modo de funcionamento psíquico, uma dinâmica psíquica, uma pulsão cujo objetivo é o gozo.
No Vocabulário da Psicanálise (Laplanche e Pontalis – 1998), definem o conceito da seguinte maneira:

“Desvio em relação ao ato sexual ‘normal’, definido este como o coito que visa a obtenção do orgasmo por penetração genital, com uma pessoa do sexo oposto.
Diz-se que existe perversão quando o orgasmo é obtido com outros objetos sexuais (homossexualidade, pedofilia, bestialidade, etc.) ou por outras zonas corporais (coito anal, por exemplo) e quando o orgasmo é subordinado de forma imperiosa a certas condições extrínsecas (fetichismo, travestismo, voyeurismo e exibicionismo, sadomasoquismo); estas podem mesmo proporcionar, por si sós, o prazer sexual.
De forma mais englobante, designa-se por perversão o conjunto do comportamento psicossexual que acompanha tais atipias na obtenção do prazer sexual.”

Talvez, também pela mesma razão citada anteriormente, eu tenha visto no filme “The Shape of Things” , a perversão na personagem principal feminina – Evelyn – já que ela desconsidera o outro, vendo-o apenas como um objeto que a ajudaria a demonstrar que toda superfície pode ser moldável, esculpida e, que o outro é apenas um pedaço de carne. Seduzindo o rapaz que havia escolhido não por acaso, mas porque já o havia conhecido anteriormente, numa vídeo-locadora, analisando-o, sabendo que seria fácil enredá-lo na trama que havia planejado, para que ele fizesse tudo por ela solicitado: emagrecer, cortar o cabelo, pente á-lo de outra maneira, fazer esporte para criar musculação, vestir-se de modo mais esportivo e até plástica de nariz, mentindo para ele dizendo que ela mesma também já havia feito. Não é só por esse motivo que fiz um diagnóstico de perversa, porém porque só revela o seu itento no momento da apresentação de sua tese. Deixando os envolvidos na trama da estória escandalizados e indignados; principalmente o casal amigo do rapaz escolhido para ser a sua amostra da tese de pós graduação em artes. Além do mais, ela se comporta de maneira exibicionista e voyeurista o tempo todo, fotografando e filmado todas as relações sexuais entre eles, sem contar para o Adam que aquilo não era uma maneira diferente de fazer amor, mas que iria ser exibido na apresentação de sua tese.
Eu, como espectadora fiquei chocada no final do filme, quando ela se vira para a câmera que a filmava e faz um gesto obsceno, mandando a todos que não concordavam com o que ela fez para “aquele lugar”. Não pelo gesto em si, mas por constatar que ela também nos enreda, não compartilhando com o espectador qual era o objeto de sua tese. Durante todo o tempo Evelyn diz que está trabalhando nela, porém o espectador fica sem saber qual é o seu escopo. Somente na apresentação, final do filme, percebe-se que o espectador também participou da trama como voyeurista e para a personagem só o que ela pensava era verdadeiro e só a arte importava, o resto é resto.
Jean Clavreul, 1967, em seu texto sobre “O Casal Perverso”, vai nos falar da importância do terceiro na relação entre o casal perverso:

… “Esse terceiro, que está necessariamente presente para assinar, ou melhor, para endossar a autenticidade de um vínculo amoroso normal, deveria ser excluído aqui, mas está exatamente presente numa posição tal como se ele fosse necessariamente cego, cúmplice ou impotente.”…

Depois da leitura desse texto ficou mais claro qual foi o motivo da minha indignação, foi o ter-me tornado cúmplice e ficado impotente diante de toda a trama de Evelyn, o que, como espectadores, só percebemos a posterirori.
Na discussão em classe, ficamos com três diagnósticos: perversa, histérica e psicótica. Entretanto, ainda não fiquei convencida que ela não agiu perversamente. Ela forma par perverso com o amigo de seu namorado, que a contesta por ter pichado a estátua, cujo pênis estava encoberto por uma folha de parreira. Com medo que ele destrua o seu objetivo, influenciando o Adam a deixá-la, também o seduz e tem um caso amoroso com ele, mesmo sabendo que estava noivo e nas vésperas do casamento. E porque também não agüenta se sentir rejeitada pelo sexo oposto, fazendo desta conquista um desafio.
Citando Piera Aulagnier- Spairani (1967):

“Dizer que o perverso é aquele que está consciente de ter escolhido o ‘mal’ porque é perfeitamente capaz de conhecer o que a ética do mundo onde ele vive designa sob o termo do ‘bem’, que ele decide desafiar toda lei e que ele sabe que, por seu agir, ultraja a lei do seu semelhante, o que significa que ela se opõe à sua, que ele insulta através do que, dentro de uma dada ordem social, é julgamento e referência moral, tudo isso não somente é verdadeiro, mas resta como o eco fiel do que o perverso fala e, acrescentaria eu, constitui a razão principal que me autoriza falar de estrutura perversa para um tal sujeito. O que tenho insistido é que a posição mais ‘pura’ do sujeito perverso é justamente esta reivindicação que faz de seu agir a conseqüência de uma escolha que ele diz justificada por um saber sobre a verdade do que é o bem, assim como do que é o mal em sua articulação fundamental no registro do desejo.”

Vemos na personagem Evelyn a constante reivindicação do que ela afirma ser o correto, mesmo indo contra as leis da sociedade na qual está inserida. Quando ela picha a estátua e diz que foi uma declaração, um manifesto contra uma sociedade hipócrita que resolve encobrir o pênis da estátua com uma folha de parreira, insultando o artista que havia se esmerado para produzir tão bela obra de arte. Ou quando ela manipula o seu parceiro sexualmente, para conseguir dele o que deseja, transformá-lo numa obra de arte, como se ela estivesse utilizando o martelo e o cinzel para esculpir em mármore. Ou quando não agüenta que o amigo de seu namorado a rejeite e também o seduz, formando um triângulo amoroso para poder levar adiante o seu objetivo. O seu fetiche é a arte, e essa está acima de qualquer lei.
Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

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“A ESCUTA”

“É através da arte de escutar que seu espírito se
enche de fé e devoção e que você se torna capaz
de cultivar a alegria interior e o equilíbrio da mente.
A arte de escutar lhe permite alcançar sabedoria,
superando toda ignorância. Então, é vantajoso
dedicar-se a ela, mesmo que isto lhe custe a vida.
A arte de escutar é como uma luz que dissipa a
escuridão da ignorância. Se você é capaz de manter sua
mente constantemente rica através da arte de escutar,
não tem o que temer. Este tipo de riqueza jamais
lhe será tomado. Essa é a maior das riquezas.”
Dalai – Lama

Lembro-me de todos os professores que me iniciaram na teoria kleiniana, lembro-me mais de alguns que de outros. Lembro-me da professora Maria Luiza Persicano, no segundo semestre do segundo ano do curso Formação em Psicanálise, dizendo:

“Não queiram anotar tudo que o professor fala em sala de aula, relaxem, deixem a teoria kleiniana penetrarem em vocês, “escutem”, somente assim poderão absorver algo tão visceral!”

Foi assim que aprendi a ficar menos inquieta para “escutar” meus professores e meus pacientes e quanto mais o faço, mais consigo entrar no jogo de relações e de associações que esta nossa tarefa de analistas nos cobra.
Vou tentar articular o que aprendi no seminário teórico da professora Cecília Noemi de Camargo, com um caso de uma adolescente que já atento há três anos em análise e que tem partes da personalidade psicótica; mas que iniciei o atendimento em psicomotricidade.
Quando vi Olga (nome fictício) pela primeira vez, então com oito anos e dez meses, observei que havia alguma coisa a mais e não apenas um atraso motor como a escola se queixava. Ela era diferente das outras crianças que eu já atendera. Seu comportamento não seguia as normas do chamado adequado, ela dava risada por qualquer coisa sem importância, babava, não tinha o chamado “freio inibitório”. Interrogava qualquer pessoa que via e ficava sem saber o que fazer quando era ignorada, normalmente perseverando até obter o que desejava, não era por birra, algo que não passava pelo âmbito dos limites, era diferente disso, parecia ser a única maneira como havia aprendido a se relacionar (fora da fronteira entre o eu dela e o eu do outro). Também não estava atrelada à deficiência cognitiva, sabia ler e escrever, embora sua orientação espaço-temporal estivesse defasada, não conseguindo se organizar numa folha de papel pautada e muitas vezes se negava a colocar a data nos trabalhos e quando o fazia era sempre além ou aquém da data corrente (uma maneira de cindir com a realidade externa, ficando preservada no seu mundo interno).
Fui buscar supervisão por não ter muito claro o que estava acontecendo com Olga. Segundo o supervisor, o que eu não estava podendo decodificar, neste caso, era o seu funcionamento psicótico. Naquela ocasião, há cinco anos, 1999, a demanda era para um trabalho psicomotor; fui pesquisar em livros teóricos o que seria um funcionamento psicótico, sugestões dadas pelo mesmo supervisor e que foram se ampliando quando, no segundo ano do curso Formação em Psicanálise, começou o aprofundamento no estudo da teoria kleiniana.
“Tenho uma mãe morta no meu colo!” (imagem dada pelo meu supervisor, nas nossas discussões sobre o caso). Compreendido por mim, que ele estava falando das relações objetais, de posições, de angústias e defesas. E é justamente sobre isso que autores como Klein, Bion, Rosenfeld, Segal, Colognese, Meltzer, Britton e Steiner chamam a nossa atenção.
Participar do seminário teórico da professora Cecília Noemi de Camargo foi “escutar”, no módulo kleiniano, o que estes autores nos diziam sobre a psicose; foi compreender melhor o funcionamento de Olga; foi fazer a síntese a respeito do que pude aprender até aqui, durante estes três anos, sobre a teoria das relações objetais.

KLEIN, ROSENFELD, SEGAL, BION, MELTZER, COLOGNESE, BRITTON, STEINER E “OLGA”.

Os pais de Olga, mãe com trinta e nove anos e pai com quarenta dois anos (1999), funcionários públicos, professores doutores, tentaram uma gravidez durante oito anos. Não obtendo resultado positivo resolveram desistir e se voltaram para a carreira acadêmica que estava em andamento. A mãe conseguiu uma bolsa para o doutorado nos Estados Unidos e o marido a acompanhou, aproveitando para fazer cursos que complementariam a sua carreira universitária. Nesta ocasião, já instalados no país, ficaram grávidos. A princípio, a mãe ficou muito irritada porque naquele momento seus planos eram outros. Depois de muito considerar, resolveu pela gravidez e quando Olga nasceu, a avó e bisavó maternas foram morar junto com os pais para poderem cuidar da criança, porque os pais “tinham” (SIC) que se dedicar aos estudos e pesquisas.
A mãe relatou que por volta de um ano e seis meses, começou a perceber as dificuldades motoras da filha: era toda mole, tinha hipotonia , sentou e andou com atraso, e não correspondia aos estímulos dados por eles. Ao retornarem ao Brasil, buscaram ajuda profissional neurológica, sendo a criança encaminhada para fisioterapia, terapia ocupacional, natação e trabalho emocional.
Isto me fez pensar como teriam evoluído as relações objetais dessa criança? Klein,1958, vai nos dizer o seguinte:

“Atribuo ao ego, desde o começo da vida, uma necessidade e uma capacidade não apenas de cindir mas também de integrar a si mesmo. A integração, que vai gradualmente chegar ao ápice na posição depressiva, depende da preponderância da pulsão de vida e implica em certa medida a aceitação, pelo ego, do trabalho da pulsão de morte. Vejo a formação do ego como uma entidade a ser em grande parte determinada pela alternância entre a cisão e repressão, de um lado, e integração em relação a objetos, do outro.”(p.279)

Fico imaginando um bebê, ávido pela relação com a mãe, tentando receber as gotinhas de libido junto com o leite, que não vêm, porque a mãe está voltada para outros interesses. Quais recursos que tem senão o processo de cisão para dar conta das projeções e introjeções do objeto persecutório, o seio mau? Este ego fica extremamente fragilizado e estilhaçado, porque não consegue alternar entre a cisão e repressão e nem fazer integração em relação a objetos. Ele não tem só um objeto, tem mais três além da mãe, mas parece que nenhum deles dá conta de conter tamanha ansiedade. Até a sua hipotonia, é uma maneira de dizer, no latente, “tome conta bem de mim, porque sou frágil!”
Em seu texto “Sobre a teoria da Ansiedade e da Culpa”, 1948, Klein chega a duas conclusões fundamentais para entendermos de onde surge à ansiedade:

“Pode-se tirar duas conclusões (…): (a) em crianças pequenas, é a excitação libidinal, não satisfeita que se converte em ansiedade; (b) o conteúdo mais arcaico de ansiedade é a sensação de perigo experimentada pelo bebê de que suas necessidades não sejam satisfeitas porque a mãe está “ausente”.” (p.47)

Olga não tinha a excitação libidinal satisfeita, pelo menos a que ela ansiava o cuidado da mãe, tinha as das avós, mas será que para ela era o suficiente? Não era fantasia dela que a mãe estava ausente, a mãe realmente não estava presente. Estava cuidando de sua tese de doutorado.
Na segunda entrevista com os pais, eles também se queixaram que Olga não podia ver bebês na rua, ou em fotos, pois entrava em pânico, gritando e, às vezes, chorando desesperadamente. Fiquei me perguntando qual a origem desse fato? E o que a levava a reagir daquela maneira frente a bebês?… Depois de um tempo de trabalho com Olga, numa sessão em que escolheu trabalhar com argila, foram colocadas revistas velhas na mesa, como forração, começou a folhear uma delas e se deparou com uma foto de bebê que tomava conta da página inteira, ela teve um acesso de raiva e amassou o rosto da criança com argila, sujando toda a página, quando terminou estava mais calma, procurou outra página e trabalhou tranqüilamente com a argila, moldando um boneco. Interpretei que depois de ter colocado a sua raiva contra o bebê que ela não tinha podido ser, havia conseguido montar um bebê mais integrado e aceito por ela. Após esse episódio, os pais não assinalaram mais a sua pouca tolerância quanto às crianças pequenas, interessando-se em observá-las. Será que a relação transferencial com a analista, “companhia viva” , deu-lhe suporte para poder elaborar a marca de um bebê pouco acolhido pelos pais? Ou será que pôde estabelecer a construção de um ego mais integrado, com capacidade para suportar melhor as frustrações entre o que havia estabelecido em fantasia, de projetar no objeto substâncias nocivas e introjetar como partes de seu self esses mesmos elementos, podendo neste instante construir de outra maneira e se ver livre deles?

Rosenfeld (1964) vai nos mostrando que pacientes em estados psicóticos usam a transferência como defesa, numa relação de objeto narcísica, onde a onipotência desempenha um papel preponderante. O objeto, geralmente um objeto parcial, o seio, pode ser onipotentemente incorporado, implicando ser tratado como propriedade do bebê. Mais para frente, neste mesmo texto, ele nos fala o seguinte:

“Nas relações de objeto narcísicas, as defesas contra todo o reconhecimento da separação existente entre o eu e o objeto constituem uma parte predominante. A percepção da separação conduziria a sentimentos de dependência do objeto e, conseqüentemente, à ansiedade. A dependência do objeto implica amor por ele e reconhecimento do seu valor, o que ocasiona agressividade, ansiedade e sofrimento, por causa das frustrações inevitáveis e suas conseqüências. Além disso, a dependência estimula a inveja, quando se reconhece a bondade do objeto. As relações de objeto narcísicas onipotentes evitam, por conseguinte, tanto os sentimentos agressivos causados pela frustração como toda percepção da inveja”. (p.195)

Quando me deparei com este trecho de seu texto, lembrei-me que no final da maioria das sessões, Olga se queixava de ter que ir embora, muitas vezes negando-se a levantar da cadeira para sair, dizendo que queria permanecer comigo. Era necessário convencê-la que logo teríamos outra sessão e que então poderíamos ficar mais tempo juntas; ela sempre dizia que a outra sessão demoraria a chegar. Entretanto, assim que saía da sala e encontrava a sua mãe, “grudava” nela e perguntava-lhe o que iriam fazer depois dali, ignorando-me totalmente; na saída mal se despedia, era como se eu fosse transparente. Tive então o insight do que esteve sempre acontecendo, Olga não podia se separar de mim, porque ao fazê-lo sentia-se frustrada e ansiosa por perceber a dependência existente; como a separação era inevitável, voltava-se imediatamente para outro objeto por não poder conseguir lidar com os sentimentos agressivos que surgiam a cada separação. Numa das últimas sessões, já na saída, desejei-lhe bom final de semana e disse-lhe: “até terça-feira!” Ao que ela respondeu, sem olhar para trás: “Estou de férias!” Frase que traduzi da seguinte maneira: “Você não quis ficar mais tempo comigo, agora que parei com a escola, parei também com você, não virei, não adianta esperar por mim!”

Segal vai falar muito da dificuldade da formação de símbolos em pacientes esquizóides e em esquizofrênicos, ela diz que a verbalização é uma forma particular e altamente desenvolvida de simbolismo, sendo uma das grandes conquistas da posição depressiva, onde a capacidade do indivíduo de integrar e conter aspectos mais primitivos de suas experiências vai acontecer, incluindo as equações simbólicas mais primitivas. Para que os processos de simbolização progridam há a necessidade de que o sujeito também deva estar evoluindo para a posição depressiva, suportando a diferenciação entre o eu e o outro, suportando que o objeto vem e vá.
No início de nosso trabalho, Olga sempre ficava preocupada com a sua mãe, onde ela estaria, quando a mãe não ficava esperando por ela. Perguntava-me: “Berenice, aonde a minha mãe foi?” Quando lhe respondia não saber, ela ficava ansiosa e atenta à campainha, perguntando se era a mãe quem havia chegado. Quando foi formando um vínculo maior e podendo experenciar que a mãe sempre voltava para buscá-la, passou a não se importar mais com as saídas da mãe, permanecendo tranqüila na sala de espera, mesmo quando não vinham buscá-la ao término da sessão. Nesta mesma ocasião a escola me assinalou vários progressos na área cognitiva: elaboração de textos com início, meio e fim; respostas adequadas às questões formuladas; a dispensa da participação da mãe na realização das tarefas. Olga estava conseguindo evoluir para a posição depressiva, havia a possibilidade de reparação, elaborando o luto patológico, já não havia mais a imagem de “tenho uma mãe morta nos meus braços”, vivida com tanta intensidade.
“A teoria kleiniana sempre achou que experiências boas podem modificar a percepção do objeto e do self. Mas de que natureza seria estas experiências boas? Segundo Bion, a experiência boa para o bebê é aquela em que o objeto continente modifica de algum modo a parte que foi projetada para dentro dele. Ele descreve como a permanência temporária dentro do seio parece melhorar as partes projetadas.(…) Quando o bebê introjeta o seio como continente que pode desempenhar o que Bion designa como função alfa de converter os elementos beta em alfa, este é um continente que pode suportar ansiedade de modo suficiente para não expelir os elementos beta como descarga imediata de desconforto. Uma identificação com um continente bom capaz de desempenhar a função alfa é a base de um aparelho mental sadio.” (Segal, p.63/64)

Em muitas sessões, Olga chegava contando o que havia acontecido com ela na escola, ou em casa, para logo em seguida parar de fazê-lo e pedir para realizar atividades, como: desenhar, montar quebra-cabeças, fazer passatempos de revistas recreativas, ler livros de estórias infantis, etc. Passava para uma comunicação não verbal, tentando se livrar dos elementos beta que surgiam em nossa comunicação verbal. Quando isto lhe era interpretado, ela confirmava ou ia para o banheiro, dependendo do quanto estava podendo suportar de ansiedade, ou do quanto a analista conseguia ser continente o suficiente para desempenhar a função alfa.
Num dado momento da análise Olga passou por um período bem confuso, quando um colega, com quem ela tinha uma relação amorosa, pediu-lhe que ela se afastasse por um tempo, porque ele não queria ser mais amigo dela. Ela não se conformava com a situação oscilando entre a agressividade e sentimentos libidinosos. Nesta época seu rendimento escolar desabou e a mãe veio pedir socorro. Olga não sabia como agir, ora telefonava para ele, agredindo-o e chorando desesperadamente, ora mandava-lhe bilhetes amorosos, pedindo-lhe que voltasse a ser seu amigo. Rosenfeld, 1950 vai nos dizer sobre estes estados confusionais que aparecem nos pacientes quando fracassa a diferenciação normal entre os impulsos agressivos e libidinosos e entram em cena novos mecanismos de divisão ou se intensificam as tendências de divisão existentes.

“Quando a divisão se acentua, a confusão e ansiedade desaparecem, mas há, clinicamente, uma deterioração do estado do paciente, de vez que a divisão ocasiona a desintegração progressiva do ego. Pode ocorrer um estado confusional agudo quando os processos de divisão diminuem, seja espontaneamente ou pela análise, e tanto se podem intensificar os impulsos libidinosos e os agressivos como podem temporariamente, predominar os impulsos agressivos e dificultar o esforço de recuperação”.(p.73).

CONCLUSÃO:
Ainda havia muito para falar a respeito desse desenvolvimento da minha “escuta”, que, penso eu, a cada dia se torna mais intenso. Havia mais para falar sobre Rosenfeld, muito mais sobre Bion, sobre Meltzer, Colognese, Britton e Steiner. Porém o espaço disponível é curto, ficando para um próximo trabalho. Trabalho este aqui que tive muito prazer em desenvolver, porque consegui acompanhar o entusiasmo da professora que “traduziu” muitas vezes para nós, alunos, de uma maneira mais simples e clara, quando nos perdíamos nas formas mais rebuscadas de alguns autores ao discorrerem sobre a teoria.
A idéia de Steiner sobre os refúgios psíquicos, estados mentais em que o paciente fica fora do alcance do analista, surgindo a partir de um poderoso sistema defensivo, deu-me o que pensar. Só para finalizar, liguei esta idéia ao fato de Olga, algumas vezes cortar comigo a comunicação verbal, se relacionando unicamente através do “fazer”, realizar alguma atividade, cindindo com a realidade externa, tentando preservar-se em seu mundo interno.
Dependendo da maneira como reajo, se sentindo compreendida ou não, Olga volta a restabelecer a comunicação comigo de maneira mais direta, ou se refugiando em alguma área onde fica difícil alcançá-la.
Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

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SOMENTE O AMOR CONSTRÓI!

INTRODUÇÃO:

A Falta de Amor
A inteligência sem amor te faz perverso. A justiça sem amor te faz implacável.
A diplomacia sem amor te faz hipócrita. O êxito sem amor te faz arrogante.
A riqueza sem amor te faz avaro. A docilidade sem amor te faz servil.
A pobreza sem amor te faz orgulhoso. A beleza sem amor te faz ridículo.
A autoridade sem amor te faz tirano. O trabalho sem amor te faz escravo.
A simplicidade sem amor te deprecia. A oração sem amor te faz introvertido.
A lei sem amor te deixa egoísta. A fé sem amor te deixa fanático.
A cruz sem amor se converte em tortura. A vida sem amor… Não tem sentido.
Autor desconhecido.
Eu acrescentaria como diz Ryad Simon: “A interpretação sem afeto, é uma crueldade.”

Quando li este texto, várias associações se fizeram presentes, porém duas pareciam mais relevantes: o primeiro verso nos chama a atenção para a questão deste trabalho, a perversão; em seguida ele vai nos contando sobre as consequências da falta de amor. Se acontecem dessa forma, não sei… Entretanto, a associação mais importante foi que a minha permanência no curso de psicanálise se deveu ao acolhimento de dois professores. Este acolhimento, “esta não falta de amor”, começou desde a entrevista para a entrada no curso e, continuou através dos seminários clínicos, espaço em que um desses professores enfatizava a importância do leite com as famosas gotinhas de libido.
E ao chegar ao final do último semestre do quarto ano, do curso Formação em Psicanálise, vai ficando cada vez mais claro, a clínica nos mostra isso, como a falta das gotinhas de libido no leite desencadeia uma dinâmica mais conturbada no universo das relações objetais, já que o desamparo, do qual não escapulimos se torna maior, a angústia de aniquilamento aumenta, podendo ocorrer defesas que desfacelam o ego.
No seminário teórico do professor Armando Colognese Jr., o encadeamento dos textos, da maneira como o programa foi montado, permitiu visualizar essa dinâmica, a amálgama que se faz presente na perversão, como as gotinhas de libido não adicionadas no leite fazem a diferença, ou não, conforme o sujeito conseguiu recebê-las ou reconhecê-las.

COMPREENSÃO DO PSIQUISMO PERVERSO:

Em seus textos “Tendências Criminais em Crianças Normais” (1927), “Sobre a Criminalidade” (1934), Melanie Klein vai nos falar da perversão como desvios sexuais das ansiedades primitivas. Vai deixando de lado a teoria da libido e cria a teoria das posições. Os desvios das ansiedades primitivas eram os sintomas; o que importa é a organização psíquica que se constituiu. A questão da castração tem importância trazida à luz do Édipo primitivo. O mecanismo de recusa da realidade é usado para o desenvolvimento do conceito de Identificação Projetiva (conceito explicado mais adiante). O sadismo infantil tão ressaltado por ela, não tem nada a ver com a perversão, por estar desvinculado do sadismo adulto. A perversão é um desvio das ansiedades primitivas, ligado a um superego sádico. Perversão é uma doença do superego; é um mau funcionamento do superego que pode gerar essa organização psíquica. Na criminalidade há o sentimento de culpa, mas ele não se sustenta, o sujeito parte para o acting-out. Todo ato criminal é um ato violento da persecutoriedade pela atuação. Ela dá o exemplo da criança que “pede” para apanhar. Se os pais continuam batendo e a criança continua desafiando, é porque os pais foram enredados pela perversão da criança. O perverso necessita de um par perverso.
John Steiner, 1990, em seu texto “O Equilíbrio entre as Posições Esquizoparanóide e Depressiva” nos mostra o funcionamento psíquico dentro de cada posição, suas angústias e defesas, e como há um jogo entre as posições, o sujeito oscila entre as duas, como se estivesse numa dança de vai e vêm constantes; lembrando-me uma lei biológica que rege o desenvolvimento humano, chamada de lei da diferenciação, para cada conquista do indivíduo há uma regressão, como se tivesse que tomar um impulso para depois tornar a se desenvolver. Na posição esquizoparanóide, a angústia principal é a de aniquilamento do ego e, suas defesas principais são: cisão, identificação projetiva e idealização. As relações de objeto são vivenciadas de maneira cindida, não há integração entre o objeto bom e o mau, os dois são mantidos separados, divididos. Na posição depressiva a angústia principal é de aniquilamento do objeto, começando haver uma integração do objeto, surgindo a ambivalência, sentimentos de perda e de culpa, podendo ocorrer o luto e, em conseqüência o desenvolvimento da função simbólica e o surgimento da capacidade de reparar. A idéia de uma inter-relação entre as posições esquizoparanóide e depressiva é ampliada para incluir subdivisões em cada uma delas. Assim na posição esquizoparanóide pode acontecer desde uma fragmentação patológica, evoluindo para uma cisão normal e, na posição depressiva pode acontecer a cisão normal, evoluindo para o medo da perda do objeto, para a experiência da perda do objeto e depois para o luto. Cada posição pode ser pensada como estando em equilíbrio com as que estão em cada um de seus lados e vemos o movimento entre elas se manifestar nos nossos pacientes no curso de uma sessão, no decorrer de semanas, meses e anos dentro da análise, dependo de suas organizações psíquicas. O diferencial entre o movimento sadio e o patológico é o predomínio na maior parte do tempo de uma ou de outra angústia e das defesas que caracterizam as posições.
Rosenfeld, 1971 , vai nos mostrando através dos textos de Freud, Abraham e Klein, como a pulsão de morte, em alguns sujeitos, captura a pulsão de vida e a coloca sob o seu julgo, aprisionando-a, libidinizando assim a pulsão de morte; não havendo o predomínio da cisão, mas um tipo de integração, aglomeração da pulsão de vida com a pulsão de morte, o que ele dá o nome de fusão patológica, cujo objetivo é tirar a força da pulsão de vida para dar força à pulsão de morte. E considera a fusão patológica uma característica da perversão, criando um tipo de funcionamento ‘mafioso’, onde existe uma sedução, mas não uma subjugação ao poder. Neste tipo de dinâmica, certos estados onipotentes narcísicos são dominados pelos mais violentos processos destrutivos, de tal modo que o self libidinal fica quase completamente ausente ou perdido.
John Steiner, 1985, no seu artigo “O Interjogo Entre Organizações Patológicas e as Posições Esquizoparanóide e Depressiva”, mostra os modos como as defesas podem ser reunidas em organizações patológicas que têm um profundo efeito sobre a personalidade e podem levar a estados mentais que se tornam fixados de modo que o paciente em análise não apresenta insights e tem resistência a mudanças. Como no seu artigo anterior, citado acima, continua insistindo no movimento contínuo entre as posições, de modo que nenhuma delas prevalece em qualquer grau de completude ou permanência. Somente quando os estados mentais se tornam fixados, é que acontece a organização patológica e, é nas transições que ela ocorre, tanto no interior da posição esquizoparanóide como na depressiva, que o sujeito parece estar mais vulnerável à influência dessa organização. Por exemplo, na passagem da cisão do objeto para a dor, perda do objeto, acontece este tipo de organização patológica.

ANSIEDADES PRIMITIVAS: MANIFESTAÇÕES NA SEXUALIDADE:

Em seu texto “Observações sobre a Relação da Homossexualidade Masculina com a Paranóia, a Ansiedade Paranóide e Narcisismo”, 1949, Rosenfeld demonstra como as ansiedades muito intensas persecutórias da posição esquizoparanóide favorecem o desenvolvimento de tendências homossexuais como defesas; porque a homossexualidade está relacionada com a idealização do pai bom, como recurso para se defender contra o pai perseguidor; é um recurso usado pelo sistema de defesa maníaca, cuja tríade é: o controle, o triunfo e o desprezo. Descreve a importância dos processos projetivos, onde a homossexualidade do tipo narcísico em que outro homem se identifica com o seu eu por meio da projeção. E esse mecanismo de identificação projetiva busca suas raízes nos impulsos infantis mais primitivos de forçar o eu para dentro da mãe. A fixação neste nível primitivo, posição esquizoparanóide, é responsabilizada pela combinação freqüente da paranóia com a homossexualidade.
Ruth Malcom, 1970, em seu artigo “O Espelho: Uma Fantasia Sexual Perversa Em Uma Mulher Vista Como Defesa Contra Um Colapso Psicótico”, vai utilizar o conceito de Bion a respeito de partes psicóticas da personalidade para explicar o funcionamento psíquico perverso de uma paciente, como defesa contra um colapso psicótico. A autora chama a nossa atenção como surge esse funcionamento na transferência, que o psiquismo da paciente está atuando na perversão, uma parte de sua personalidade psicótica é perversa. E que a organização patológica pode se manifestar na sexualidade. A perversão não é uma sexualidade perversa, é uma mente perversa. A questão sexual é humana, não definindo uma organização perversa. A paciente teve uma atuação perversa homossexual com a irmã, interpretado como atuação psicótica; uma fragmentação psicótica ou atuação na perversão. Quando a cisão não funciona, o jeito de se identificar e controlar seriam ficar num surto de sadismo, dinâmica onde há satisfação. Os agentes paranóides que interferiam na frustração, na onipotência, na discriminação, visando o propósito de manutenção da facilidade, desviam-se deste propósito, afrontando a regra, criando regras para triunfar, humilhar, vingar-se, o que causa prazer. Na perversão são criadas regras próprias para manter um mundo humilhado, a seus pés. Quando a sexualidade é sádica, procura-se alguém que a satisfaça ao ser humilhada, erotizando a dor.
Já Betty Joseph, 1971, no artigo “Uma Contribuição Clínica para a Análise de Uma Perversão”, conta o caso de um paciente que na transferência atuava da mesma maneira que agia com a sua esposa e com as demais pessoas com quem mantia contato, principalmente com as mulheres; ficava em silêncio, descaracterizava o que a analista dizia, intelectualizava, levando a analista a atuar. Esse paciente tinha uma espécie de fetiche, usar uma roupa de borracha no contato sexual. Este seu ‘artifício’ era, na realidade, para evitar contato, uma forma de proteção, um desligamento. Ele seduzia para em seguida frustrar, criando situações onde as pessoas necessitariam dele e experimentariam a dor de depender dele. O intuito era exercer o sadismo, o prazer subordinado à dor, o desejo era negado e o superego age de modo sádico; toda vez que retorna o que é recusado, o sujeito sentindo-se frustrado, erotiza a dor para evitar a angústia.
No texto de Hanna Segal, “Uma Fantasia Necrofílica”, é apresentado um caso de um paciente necrofílico, demonstrando por meio desse exemplo que na dinâmica do perverso aparece a fusão patológica, o sadismo e a sexualidade, isto é, a forma deste caso se expressa na sexualidade. Ela vai nos mostrando que a intenção não é só tirar a vida e devolver a vida, num constante liga-desliga, é uma evitação com o vínculo, porque numa relação sadia o risco é o estabelecimento do vínculo. No momento em que aparece o narcisismo, ponto mais frágil do paciente, ele se mostra moribundo, porque a relação que estabeleceu com o seio é de sadismo, o sugar muito para matá-lo; para reavivar o seio precisa se identificar com ele. A relação com a analista ocorre na mesma linha, ou ela ou ele tem que morrer, como funcionava nas primeiras relações objetais.
Meltzer, 1968 , vai nos dar um novo elemento dentro da dinâmica perversa, a ética adoece, o paciente perverso fica fixado na sexualidade infantil polimorfa, onde aparece a imaturidade, o exibicionismo e o lúdico, para terminar numa ‘festa’, a masturbação; surgindo a onipotência para dar conta do sentimento de impotência, o medo de aniquilamento do ego. Quando a ética está doente, o superego que deveria tolher passa a ser permissivo. No adulto, quando a ética predomina, a sexualidade polimorfa só aparece nas preliminares; a sexualidade adulta é marcada pela privacidade, modéstia e humildade, o contrário da sexualidade infantil polimorfa e a do perverso.
Armando Colognese Jr., 2003, “Um Estudo Sobre a Perversão”, contribui para a compreensão do psiquismo perverso, levantando a questão que a única forma de sexualidade perversa é a sado-masoquista: primeiro porque perverte a pulsão, transformando a dor em prazer; segundo porque na fusão patológica, a genitalização se desenvolve precocemente numa tentativa de defender-se de uma angústia anal, tendo um prazer genital.

ANSIEDADES PRIMITIVAS: EM DIREÇÃO AO FRACASSO DAS MANIFESTAÇÕES NA SEXUALIDADE:

Beth Joseph, 1981, “O Vício Pela Quase Morte”, fala de um tipo de paciente onde existe uma destruição maligna de natureza de um vício à quase morte. Meltzer 1973; Rosenfeld 1971; Steiner 1982; falam da escravidão da parte do self que domina esses pacientes e não os deixa escapar, por mais que vejam a vida chamando-os lá fora. O paciente não fica dominado apenas por sua parte agressiva, que tenta controlar e destruir o trabalho do analista, mas esta parte é ativamente sádica em relação à outra parte do self que é masoquistamente capturada nesse processo, e que isto se torna um vício; fazendo-nos pensar num funcionamento psíquico sado-masoquista. É muito difícil para estes pacientes acharem que é possível abandonar estes terríveis deleites pelos prazeres incertos dos relacionamentos reais.
Outra característica da organização psíquica do perverso é descrita por Eric Brenman, 1985 , a manutenção da prática da crueldade por meio de uma estreiteza mental que é posta em operação e tem a função de esvaziar a humanidade e impedir que a compreensão humana modifique a crueldade. Nas primeiras relações objetais, quando o bebê começa a perceber a separação existente entre ele mesmo e o objeto, bloqueia o conceito de mãe humana inteira, o que restringe a imagem do mundo a um lugar cruel e sem amor.
Em 1971 , Betty Joseph, escreve sobre a agressividade e passividade que aparecem em alguns pacientes. De premissa achamos o paciente muito passivo, mas essa aparente passividade esconde uma agressividade intensa. O que está latente nesta passividade é uma amálgama pulsional, a pulsão de morte não é mitigada pela pulsão de vida, ocorrendo a fusão patológica. O perverso apresenta duas articulações: o que eu apresento e o que eu realmente sou. O falso self assume o espaço potencial e não dá espaço para o verdadeiro self. Na análise com o perverso somente a tolerância, a indiferença e a interpretação quebram o círculo do mal.

CONCLUSÃO:

Vamos construindo com estes autores a compreensão do psiquismo perverso. Klein contribui nos mostrando como a angústia de aniquilamento do ego não permite a integração do objeto, identificando-se com o objeto persecutório para dar conta do mesmo. Cria-se um superego mau para dar conta do objeto mau. O sentimento de culpa não se sustenta e o sujeito atua. A organização psíquica fica presa num círculo vicioso do mal. Steiner apresenta a necessidade de equilíbrio entre as posições e neste constante interjogo podem acontecer organizações patológicas, principalmente nas transições que ocorrem entre as posições, ou dentro de uma mesma posição, quando o sujeito se encontra mais vulnerável. Rosenfeld cria o conceito de fusão patológica, quando a pulsão de morte captura a pulsão de vida e coloca-a sob o seu julgo, sendo então libidinizada por ela. E que esta fusão patológica é uma das características da dinâmica da perversão.
Já as ansiedades primitivas persecutórias podem causar manifestações na sexualidade da organização psíquica perversa, embora essas manifestações sejam apenas uma forma de manifestação e não a sua expressão. Autores como Rosenfeld, Malcom, Joseph, Segal, Meltzer e Colognese Jr., falam de um sadismo constante operando nessas organizações e que a única forma característica da sexualidade perversa é a sado-masoquista, pervertendo a pulsão, transformando a dor em prazer, fusão patológica, e que a genitalização se desenvolve precocemente numa tentativa de defender-se contra a angústia anal, tendo um prazer genital.
Autores como Steiner, Joseph e Brenman vão apontando outras formas de atuação da organização perversa, onde o fracasso das manifestações na sexualidade acontece: a perversão é uma doença da ética, surgindo a onipotência para dar conta da impotência, o medo de aniquilamento do ego; quando a ética está doente, o superego que deveria tolher, é permissivo; uma estreiteza mental é posta em operação e tem a função de esvaziar a humanidade e impedir que a compreensão humana modifique a crueldade; pode aparecer uma passividade aparente para esconder uma agressividade latente.
Estes mesmos autores, citados acima, nos chamam atenção para o fato que o perverso atua na transferência, não só apresentando uma reação terapêutica negativa, mas agindo da mesma forma que o faziam com as suas relações objetais mais primitivas e que o analista deve tomar cuidado para também não atuar.
Na análise, com essa forma de organização psíquica, somente a tolerância, a indiferença (no sentido de falta de desejo) e a interpretação podem quebrar o círculo do mal descrito por Klein em seus textos: “Sobre a Criminalidade” e “Tendências Criminais em Crianças Normais”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

– Brenman, E. – “Crueldade e Estreiteza Mental” – 1970 – in Melanie Klein Hoje – Volume I – Imago – Rio de Janeiro, 1991.
– Colognese Jr., A. – “Um Estudo Sobre a Perversão”, in A Trama do Equilíbrio Psíquico – Edições Rosari Ltda – São Paulo, 2003.
– ______________ – “A compreensão na Transferência – Algumas Reflexões Sobre a Importância da Identificação Projetiva na Transferência como Situação Total”, in A Trama do Equilíbrio Psíquico – Edições Rosari Ltda – São Paulo, 2003.
– Joseph, B. – “Uma Contribuição Clínica Para a Análise de uma Perversão”, 1971, in Equilíbrio Psíquico e Mudança Psíquica – Imago – Rio de Janeiro, 1992.
– ________ – “O Vício Pela Quase Morte”, in Melanie Klein Hoje – Volume I- Imago – Rio de Janeiro, 1991.
– ________ – “Sobre Passividade e Agressividade: sua Interrelação”, 1971, in Equilíbrio Psíquico e Mudança Psíquica – Imago – Rio de Janeiro, 1992.
– ________- “Transferência a Situação Total”, 1985, in Equilíbrio Psíquico e Mudança Psíquica – Imago – Rio de Janeiro,1992.
– Klein, M. – “Tendências Criminais em Crianças Normais”, 1927, “Sobre a Criminalidade”, 1934, in Amor, Culpa E Reparação – Imago – Rio de Janeiro, 1996.
– Malcom, R. – “O Espelho: Uma Fantasia Sexual Perversa em uma Mulher Vista Como Defesa Contra um Colapso Psicótico”, 1970, in Melanie Klein Hoje – Volume I – Imago – Rio de Janeiro, 1990.
– Meltzer, D. – “Sexualidade Polimorfa Adulta” , “Sexualidade Polimorfa Infantil”, “Sexualidade Perversa”, in Estados Sexuais da Mente – Imago – Rio de Janeiro, 1979.
– Rosenfeld, H. – “Uma Abordagem Clínica Para A Teoria Psicanalítica Das Pulsões de Vida e de Morte: Uma Investigação dos Aspectos Agressivos do Narcisismo”, 1971, in Melanie Klein Hoje – Volume I – Imago – Rio de Janeiro, 1988.
– _________- “Observações sobre a Relação da Homossexualidade com a Paranóia, a Ansiedade Paranóide e o Narcisismo”, 1949, in Os Estados Psicóticos – Zahar Editores – rio de Janeiro, 1968.
– Segal, H. – “Uma Fantasia Necrofílica”, In A Obra de Hanna Segal – Imago – Rio de Janeiro, 1982.
– Steiner, J. – “O Equilíbrio entre as Posições Esquizoparanóide e Depressiva”, 1990, in Conferências Clínicas Sobre Klein e Bion – Imago – Rio de Janeiro, 1992.
– ________ – “O Interjogo entre Organizações Psicopatológicas e as Posições Esquizoparanóide e Depressiva”, 1985, in Melanie Klein Hoje – Volume I – Imago – Rio de Janeiro, 1988.
– _______ – “Relações Perversas entre Partes do Self: Um Exemplo Clínico”, 1981, in Melanie Klein, Evoluções – Escuta – São Paulo, 1989.
– Anotações das aulas do seminário teórico Perversão – Uma Visão Kleiniana, ministrado pelo professor Armando Colognese Jr.

Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

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A Escola dos Deuses

Duas semanas atrás sugeri a leitura do livro: “A Escola dos Deuses” de Elio D’Anna. Hoje, destaquei alguns parágrafos que achei interessantes e quero mostrar como um livro dirigido à economistas tem muitas conecções com a psicanálise.
Ele, o autor, começa dizendo que a única realidade é o sonho, o ser humano que não sonha está fadado a viver de repetições, numa mesmice contínua. A psicologia humana precisa mudar, o homem não pode viver de crenças e preconceitos ultrapassados, ele deve se auto-observar para poder se conhecer e se transformar. A realidade externa é uma contínua projeção, não podemos culpar eventos e circunstãncias que acontecem fora, porque fomos nós que a criamos. As doenças e a morte são nossas limitações internas, nossos conflitos e o medo de responsabilizar pela vida e se comprometer.
Será que conseguem visualizar alguma ligação com a psicologia de Freud? Trazer o inconsciente para o consciente não é uma maneira de se conhecer? O sonho não é o modo mais potente de nos autoregular? Por que será que recalcamos tanto os nossos sonhos? Não será uma maneira de nos autoboicotar? Culpar os acontecimentos externos não será um modo de não nos responsabilizarmos pelo que nos acontece, a projeção? E a pulsão de morte, também não será um jeito de nos limitarmos, dizendo: “Vou morrer mesmo, o que adianta me comprometer?”
Vou parar de especular e levantar hípoteses e deixar que vocês vejam o que o autor tem para nos dizer (não esqueçam que são parágrafos selecionados po mim).
A ESCOLA DOS DEUSES
Elio D’Anna
Para mudar o destino do ser humano é preciso mudar sua psicologia, seu sistema de convicções e crenças. É preciso extirpar de seu âmago a tirania de uma mentalidade conflituosa, frágil, mortal. A doença mais temida do planeta não é o Câncer nem a AIDS, mas o pensamento conflituoso do homem. É esse o esteio sobre o qual se apóia a habitual visão do mundo, o verdadeiro assassino planetário.
Sonhei uma revolução individual
Capaz de mudar completamente os paradigmas mentais da velha humanidade
E libertá-la para sempre dos conflitos,
Da dúvida, do medo, da dor.

Sonhei uma escola que edifique
Uma nova geração de líderes
E capacite-os a harmonizar os aparentes antagonismos de sempre:
Economia e ética, ação e contemplação,
Poder financeiro e amor.

Pode-se ensinar se não se sabe. Quem realmente sabe, não ensina!
Aquilo que compreendemos, o que realmente possuímos, não se pode transferir.
A felicidade, a riqueza, o conhecimento, a vontade, o amor não podem ser adquiridos fora, não podem ser dados, mas somente recordados. São bens inalienáveis do ser e, por isso, patrimônio natural de todo ser humano.
Nenhuma política, religião ou sistema filosófico pode transformar a sociedade. Somente uma revolução individual, um renascimento psicológico, um restabelecimento do ser, de cada ser humano, célula por célula, poderá conduzir a um bem-estar planetário, a uma civilização mais inteligente, mais verdadeira, mais feliz.
Pode dizer EU somente quem conhece a si mesmo, é dono da própria vida… Quem possui uma vontade. Observe-se… Descubra quem você é! Ser uma multidão significa ficar preso num sistema irreal, inescapável, um sistema autocriado de falsas crenças e mentiras.
A dependência é a negação do sonho. A dependência é a máscara que os homens vestem para esconder a ausência de liberdade, a renúncia à vida.
Um dia, uma sociedade que sonha não trabalhará mais. Uma humanidade que ama será suficientemente rica para sonhar, e infinitamente rica porque sonha. O universo é abundante, é uma cornucópia transbordante de tudo o que o coração de um humano pode desejar… Em um universo assim é impossível temer privação.
Pobreza significa não ver os próprios limites. Ser pobre significa ter cedido os próprios direitos de artífice em troca de um trabalho que não ama, que não foi escolhido por você.
Acorde!… Faça a sua revolução… Insurja-se contra si próprio! Sonhe a liberdade… A liberdade de todas as limitações. Você é o único obstáculo a tudo que possa desejar. Sonhe… Sonhe… Sonhe sem descanso! O Sonho é a coisa mais real que pode existir.
Um homem para renascer deve primeiro morrer! Morrer significa reverter completamente a própria visão. Morrer significa desaparecer de um mundo grosseiro, governado por sofrimento, para então reaparecer em um nível de ordem superior.
Tudo que acontece fora de você precisa de sua aprovação interna para se manifestar. Isto significa que qualquer coisa que acontece em sua vida é o fiel reflexo da sua vontade.
Lembre-se! Todas as possibilidades estão no agora!
Ninguém pode jamais prevalecer sobre os outros! A idéia de prevalecer sobre os outros é uma ilusão… Um preconceito da velha humanidade conflituosa, predatória, perdedora.
Se um homem muda sua atitude em relação àquilo que lhe acontece, no decorrer do tempo isso modificará a própria natureza dos eventos que encontra. Nosso ser cria nossa vida.
O homem está irremediavelmente hipnotizado. Atrás de cada infortúnio encontra-se o mal dos males: a crença irremovível na inevitabilidade da morte. O primeiro passo em direção à liberdade, o mais difícil, é compreender que esse medo governa tiranicamente toda a sua vida.
Para conquistar aquela especial condição de liberdade do ser, de conhecimento, de poder… são necessários anos de trabalho sobre si mesmo. É preciso perdoar-se dentro.
Perdoar-se dentro não é o exame de consciência de um santo obtuso, mas o verdadeiro fazer de um homem de ação, o resultado de um longo processo de atenção… de auto-observação. Significa entrar nas sinuosidades, nas partes mais íntimas da própria existência, bem lá onde é ainda lacerada… Significa lavar e curar as feridas ainda abertas… Liquidar todas as contas não pagas. Perdoar-se dentro tem o poder de transformar o passado com toda a sua carga.
Tudo é aqui, agora! Passado e futuro estão agindo juntos neste instante na vida de cada ser humano. O futuro, como o passado, está sob os seus olhos, mas você não pode ainda vê-los.
Auto-observação é olhar de cima a própria vida. É como submeter eventos, circunstâncias e relações do passado a um raio de luz.
Auto-observação é autocorreção. Auto-observação é cura… uma conseqüência natural do distanciamento que se cria entre o observador e o observado. A auto-observação permite a um ser ver tudo aquilo que o mantém grudado à esteira rolante do mundo: pensamentos absoletos, sentimentos de culpa, preconceitos, emoções negativas, previsões de desgraças… É uma operação de distanciamento, de desipnotizar, de despertar…
Coloque em ação o observador que existe em você! A auto-observação é a morte daquela multidão de pensamentos e emoções negativas que sempre governaram sua vida. Se você se observa internamente, o que é certo começa a acontecer e aquilo que não é começa a se dissolver.
Um ser humano pode olhar milhares de luas durante todos os seus anos, mas muito provavelmente, no final de sua vida, não terá encontrado tempo de observar ao menos uma… E isso está fora. Imagine o quão mais difícil é para o ser humano observar-se, inverter a posição da própria atenção. A auto-observação é só o início da arte de sonhar.
Tudo se repete na sua vida… Os fatos são recorrentes, sempre os mesmos, porque você não quer mudar… Ainda se lamenta, ainda acusa o mundo, certo de que alguém de fora possa prejudicá-lo ou ser a causa dos seus infortúnios… O ser humano comum, aprisionado na circularidade do tempo, não tem futuro de verdade, mas somente um passado que se repete e repete…
A morte física é apenas a materialização de milhões de mortes que a cada dia acontecem dentro de nós; é a cristalização da crença emprestada de uma humanidade que se acorrenta na dor e ama sofrer. Os seres humanos fizeram da morte sua via de fuga.
O corpo é indestrutível!… Ainda assim querem tornar o inevitável o impossível… Um ser humano não pode morrer; pode tão somente matar-se! Para conseguir isso, deve dedicar-se intensamente e fazer da autocomiseração e da autossabotagem um trabalho de tempo integral. A morte é sempre um suicídio. Quando esse modo de pensar se tornar carne da sua carne, sua visão mudará radicalmente e, com ela, sua realidade.
Os seres humanos veneram a morte e não a suprimiriam jamais, nem mesmo se pudessem, porque a consideram solução para os seus problemas, o fim do sofrimento e das inúmeras mortes psicológicas que se infligem… Mas a morte não é nunca uma solução!
Como em uma verdadeira cura, o processo deve vir de dentro… É o nosso ser que cria o mundo e não vice-versa! Como todas as pessoas, você sempre acreditou que fossem os eventos os geradores dos estados que você vive, e as circunstâncias externas, as responsáveis por fazê-lo infeliz e inseguro. Agora você sabe que essa é uma visão invertida da realidade.
(Esta é a primeira parte selecionada, em outra oportunidade publicarei mais.)
Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

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