Freud, Hans e Carlos
Histeria de angústia foi o nome dado por Freud, a um tipo diferente de histeria, que também reprime, porém no lugar de fazer uma conversão, desloca para outro objeto o afeto, causando uma fobia, transformando o afeto em ansiedade, angústia. Num primeiro momento, até 1926, é a angústia que causa o recalque.
Se pararmos para pensar na semântica da palavra ansiedade, verificamos que ela vem de ‘anseio’, desejar algo, ou alguém. A aflição de se separar do objeto, de ficar sem ele. A ansiedade é uma reação a uma situação de perigo. Criam-se sintomas a fim de evitar uma situação de perigo cuja presença foi assinalada pela geração de ansiedade.
Através da análise da uma fobia de um menino de cinco anos, o pequeno Hans, Freud vai descobrir e desenvolver toda a sua teoria sobre a histeria de angústia, como em todo o seu trabalho, ele irá construir, reformular e retornar ao que ele havia dito inicialmente. No texto ‘Inibição, Sintoma e Ansiedade’ (1926), ele reformula, desenvolvendo uma segunda teoria de angústia. Freud se pergunta qual é o motivo da angústia? E responde que a causa da angústia é o recalque, sendo necessário que haja um perigo para que o ego recalque; um perigo vindo do exterior: a castração.
Escolhi desenvolver esta parte do meu artigo comparando a análise do caso Hans, com o caso de um menino de seis anos, a quem chamarei de Carlos (nome fictício).
Os pais de Carlos vieram até o meu consultório por indicação da escola que o menino frequentava. Carlos nasceu depois de 14 anos de tentativas, tendo sido realizada uma inseminação, numa reprodução assistida. O parto foi cesárea e a mãe teve depressão puerperal durante seis meses. Contrataram uma babá, ficando a mãe sempre por perto, porque tinha medo de não dar conta do bebê.
Do sexto ao décimo segundo mês, por recomendação do pediatra, a mãe colocava–o para dormir sobre o seu corpo, para que pudessem ter um contato maior de pele, já que não tinha sido gerado de maneira convencional e porque a mãe não o tinha segurado suficientemente em razão de sua depressão.
Até os três anos dormia em seu quarto. Quando se mudaram para o interior, em busca de qualidade de vida, o pai não os acompanhou, visitando-os nos finais de semana e feriados, em função do seu trabalho. A mãe ficava muito insegura de dormir sozinha à noite e trancava-se com o filho no mesmo quarto. Mesmo quando o pai estava presente, dormiam os três juntos, pois o menino podia se ressentir de ser excluído em razão da presença do pai.
Carlos começou a ficar muito inquieto e a apresentar comportamentos inadequados: pegava uma faca e simulava que se mataria; tentou pular da janela da escola, que ficava no terceiro andar e desenvolveu fobia por cães. Os pais tentaram: ‘caras feias’, atenção maior, palmadas e castigos, como contensão. O que pareceu surtir algum efeito foram os castigos.
A hipótese levantada pela escola era de hiperatividade. Porém a mãe questionava, porque Carlos conseguia assistir a filmes inteiros e quando se interessava por um brinquedo ou brincadeira, ficava entretido por um longo período. A própria criança começou a pedir para ir numa psicóloga.
Esse histórico chamou-me a atenção em alguns pontos:
• A ansiedade excessiva dessa criança;
• A fobia a cães;
• A questão deste casal.
Também no caso do pequeno Hans, há alguns aspectos que saltam aos nossos olhos:
• Uma criança muito vivaz e muito libidinizada, entregue a si mesmo;
• A fobia a cavalos;
• A questão do casal.
Quando vi Carlos pela primeira vez fiquei muito impressionada com o nível de ansiedade presente e com a dificuldade em estabelecer contato, ficando entre o querer se mostrar, se aproximar e o medo de fazê-lo e ser rechaçado. Chegou perguntando se no consultório havia cachorro e, enquanto ficou na sala de espera aguardando o horário da sessão, assobiou, fez batucada na parede. No momento em que foi chamado para entrar em sessão se esquivou, correndo para perto da mãe. Perguntei-lhe se sabia o meu nome e ele disse: “Berenice Hepatite”. Mas não veio comigo para a sala, solicitando à mãe que o acompanhasse. Quando conseguiu entrar se mostrou muito arredio, não se interessando por nenhum brinquedo ou brincadeira proposta.
No final das sessões de observação fiquei sem saber se concordava com a hipótese da escola e indicava um neurologista para medicar, ou se toda essa atuação que apresentava era fruto de uma angústia muito intensa? Acabei optando por indicar um trabalho emocional e apostar na segunda hipótese.
Quando estamos atendendo um caso e temos dúvida do diagnóstico, ficamos aliviados ao encontrar na teoria outro parecido que venha em nosso socorro, ajudando a elucidar alguns aspectos. Foi assim que fui me sentindo ao ler os textos sobre Histeria de Angústia.
O estudo do caso de Hans foi me trazendo tranquilidade e me amparando na confirmação da minha hipótese, já que havia vários pontos em comum.
Iniciarei esta comparação pela questão que mais me chamou a atenção: ‘os pais’. Quem eram os pais? Como era a vida deles e o casamento? Qual a função desse filho na vida do casal?
Antes do nascimento da criança, os pais desenvolvem uma grande atividade imaginária. A imagem que cada um dos pais tem de si mesmo, a perspectiva educativa que concebeu – anterior até mesmo a qualquer encontro, casamento, ou ideia de um casal constituído – predeterminam sua relação ulterior com a criança. Cada um dos pais, portanto, vive separadamente, muitas vezes, à sua própria revelia, o porvir de sua descendência.
A espera de um filho é momento crucial na vida do casal e, em muitos aspectos, um momento essencial para o futuro desta criança. Colore, de fato, todos os desejos, propaga-se, irradia-se, ao mesmo tempo em que, pela primeira vez, coloca os pais frente a dimensões temporais e às conseqüências de sua relação.
Se por um lado a criança se insere na expectativa dos pais, a expectativa do filho se instala muitas vezes como um desafio. É um desafio ao tempo, um desafio à morte, perpetuação tão esperada. Para o adulto, trata-se principalmente de vencer o efêmero. Portanto, as pessoas ‘fazem’ um filho tanto para si mesmas, quanto para ele próprio. Em vários aspectos, apesar de desejar conscientemente que o filho se realize, os pais pedem-lhe que realizem a eles, pais; encarregam-no, muitas vezes até de projetos pessoais abortados. É por essa razão que observamos com freqüência, nos comportamentos educativos dos pais, aspectos desconcertantes, ambíguos e até contraditórios.
Max Graf era um dos integrantes do grupo de estudo de Freud. Em 1903 nasce seu filho: Herbert Graf (o pequeno Hans). Em 1905, Freud escreve os ‘Três Ensaios Sobre A Teoria da Sexualidade’, escandalizando a sociedade vienense. Ele precisava provar que a sua teoria não era mera ficção científica. Assim, Max passa a observar o seu filho, escrevendo para Freud o que ia notando no comportamento do menino que comprovava a teoria escrita pelo seu professor e mestre. Ele agrega ao papel de pai o de observador e de cientista, que tolera todas as pequenas perversões do filho em nome da ciência. A criança acaba ficando entregue a sua própria mercê. De um lado havia uma mãe muito sedutora que ‘mimava’ (fazer carinhos) a seu filho e, de outro um pai que não exercia a função de interditar esta ligação libidinosa entre mãe e filho para poder comprovar a teoria da sexualidade infantil de que toda criança é um pequeno perverso polimorfo.
O pequeno Hans é a perspectiva do pai de salvar o mestre e para a mãe a de completude, o falo que lhe foi negado pelo nascimento e adquirido, simbolicamente, através do filho. Porém, como foi dito anteriormente, há contradições no comportamento dos pais. A própria mãe que tanto o desejava como representante de uma falta, é quem introduz a castração quando o flagra se masturbando e lhe diz que ele poderia ficar sem o seu pipi. O pai que não exerce a função educativa paterna, mas que fica preocupado quando o filho passa a não querer mais sair de casa e apresentar medo por cavalos.
Já no caso de Carlos, há um casal que espera por um filho por quatorze anos, lançam mão de recursos não convencionais e quando a criança nasce a mãe entra em depressão, com medo de não dar conta de cuidar do filho que tanto queria. O pai, de origem oriental, vem de uma cultura onde a educação da criança fica por conta da mãe, posicionando-se apenas como provedor. Acata todas as decisões da esposa, deixando que a família se mude para o interior sem que ele possa acompanhá-los. Não interfere quando a mãe resolve se trancar no quarto com o filho, mesmo quando ele está presente nos finais de semana. Começa a se preocupar somente quando o filho demonstra comportamentos inadequados de querer se matar e apresentar fobia por cães.
Em seu livro, ‘Infertilidade e Reprodução Assistida’, Marina Ribeiro (2004), nos fala sobre o desejo narcísico de ter um filho: “Afinal, por que é importante gerar um filho? Por que é tão dramático quando um casal se vê impossibilitado de realizar esse desejo? A situação da infertilidade parece promover ou reativar uma profunda ferida narcísica nos casais, revelada por intensos sentimentos de inferioridade diante dos outros, de vergonha e baixa auto-estima.” (pág. 56)
O desejo de um filho, no período fálico feminino, é de que a mãe dê um filho para a menininha e de que esta também possa dar um filho para a mãe. O desejo que mobiliza a menina a voltar-se para o pai, é o de possuir o pênis que foi negado pela mãe. O desejo pelo pênis deve ser substituído pelo desejo por um bebê. Há uma primitiva equivalência simbólica pênis-bebê. Poderíamos dizer que, para Freud, o desejo da mulher de ter um filho é um tipo de compensação pelo fato de não possuir um pênis.
Se não ter um filho gera uma falta, tê-lo significa preenchê-la? Então porque este casal, com a falta preenchida, não consegue contê-lo? Será que a espera foi tão longa que Carlos não pode dar conta de todas as expectativas desses pais? Ou o narcisismo deles é tão grande que o filho não pode preenchê-lo?
Tanto Hans como Carlos ficam à mercê de uma experiência científica com a qual não sabem lidar. Hans e Carlos ficam sem a função paterna, sem a interdição do incesto, criando uma angústia avassaladora. As mães dos meninos investem toda a libido nos falos que as complementam, os filhos, mas depois caem na própria armadilha, de não saberem como lidar com as angústias dos mesmos.
Outra questão é a ansiedade excessiva apresentada por essas duas crianças. De onde vem toda essa ansiedade? Freud vai dizer que a angústia tem a ver com a sexualidade. O mecanismo da neurose de angústia deve ser buscado numa deflexão da excitação sexual somática da esfera psíquica e no consequente emprego anormal dessa excitação.
A neurose de angústia é produto de todos os fatores que impedem a excitação sexual somática de ser psiquicamente elaborada. As manifestações da neurose de angústia aparecem quando a excitação somática que foi desviada da psique é subcorticalmente despendida em reações totalmente inadequadas.
A psique é invadida pelo afeto de angústia quando se sente incapaz de lidar com uma tarefa (um perigo) vinda de fora; e fica presa de uma neurose de angústia quando se percebe incapaz de equilibrar a excitação sexual vinda de dentro, ela se comporta como se estivesse projetando tal excitação para fora. O afeto e a neurose a ele correspondente estão firmemente inter-relacionados. O primeiro é uma reação a uma excitação exógena, e a segunda, uma reação à excitação endógena análoga. O afeto é um estado que passa rapidamente, enquanto a neurose é um estado crônico, porque, enquanto a excitação exógena age num único impacto, a excitação endógena atua como uma força constante; criando-se assim o círculo vicioso pernicioso.
Hans e Carlos ficaram presos numa teia de excitação que não sabiam como se desvencilhar. De fora toda a euforia de ter um objeto de amor só para eles, de mães que os levam para a cama no intuito de protegê-los e ‘mimá-los’. De dentro todo um desejo e uma excitação sexual que acompanha este ficar junto e com o qual não sabem lidar.
Uma histeria de angústia tende a desenvolver-se mais e mais para uma fobia (terceiro aspecto que me chamou a atenção). Nada lhe resta, a não ser cortar o acesso a todo possível motivo que possa levar ao desenvolvimento da ansiedade, erigindo barreiras mentais de natureza de precauções, inibições ou proibições; e são essas estruturas protetoras que aparecem sob a forma de fobias e que constituem a essência da doença.
Tanto Carlos como Hans se vêem numa trilha de mão única, ter que cortar todo acesso possível que possa gerar ansiedade; já que não existe a castração vinda de fora, colocada pelos pais, têm que fazer um deslocamento para outro objeto que contenha a possibilidade de realização de seus desejos. Hans deslocou para o cavalo com medo que o mordesse e arrancasse o seu pipi e, Carlos deslocou para cães.
A reação ao perigo é uma mistura de afeto, ansiedade e de ação defensiva; causando um estado de preparação para o perigo, havendo um aumento da atenção sensória e da tensão motora. Este estado de preparação termina na geração de ansiedade. Uma pessoa se protege do medo por meio da ansiedade. O que reúne a combinação descrita acima é a repetição de alguma experiência significativa determinada; sensações desprazíveis, perigo mortal, repetida como estado de ansiedade.
Se a angústia está sempre vinculada à repressão da sexualidade, Freud introduz o Complexo da Castração como fator que desencadearia o estabelecimento das diferenças sexuais (ausência ou presença do pênis); o menino evocaria e temeria a castração como a realização da ameaça paterna em resposta às suas atitudes sexuais; enquanto a menina se ressentiria da ausência do pênis como um dano sofrido que seria preciso negar, compensar ou reparar.
Sob a primazia do Complexo da Castração, operam-se reorganizações profundas na criança. Permitem, em particular, estabelecer as identificações maternas e paternas e organizar de outra forma às trocas individuais; mas para que essas novas leis de circulação das trocas possam ocorrer convenientemente, para que todas essas operações sejam realmente organizadoras, para que dêem à personalidade uma maior coerência e unidade, é preciso ainda que o indivíduo integre sua sexualidade e adquira de alguma maneira, o sentido de seu sexo. Melhor dizendo, é preciso que ele consiga vencer o Complexo de Castração e que não reviva, sem cessar, a angústia da perda.
Carlos e Hans revivem sem cessar a angústia de perda, a perda do objeto amado, que lhes foi retirado subitamente, não por uma interdição paterna, mas por circunstâncias da vida. Hans, com o nascimento da irmã, é retirado do quarto dos pais de maneira repentina; e Carlos, com o retorno para São Paulo, também é retirado do quarto dos pais.
Tanto Hans, como Carlos estavam respondendo às atitudes fálicas de suas mães e a uma aceitação passiva de seus pais em relação às esposas. Os pais eram quem tinham os pênis, porém eram pais desvalorizados pelas mães.
A criança fóbica busca um objeto externo para tentar resolver seus conflitos. Diante da problemática conflitiva edípica, o problema em questão é aceitar a impossibilidade de realizar seu desejo e de afrontar sua raiva, seu ciúme, sua rivalidade e acima de tudo, seu sentimento de ser incapaz.
O filho edípico é tanto um filho com o genitor do sexo oposto quanto um filho com o genitor do mesmo sexo. A bissexualidade é responsável pelo conflito edipiano dar-se tanto em sua forma positiva quanto em sua forma negativa, e pela ambivalência nas relações com os pais. Freud no seu texto ‘O Ego e o Id’ (1923), escreve:
“Um estudo mais aprofundado geralmente revela o Complexo de Édipo mais completo, o qual é dúplice, positivo e negativo, e devido à bissexualidade originalmente presente na criança. Isto equivale a dizer que um menino não tem simplesmente uma atitude ambivalente para com o pai e uma escolha objetal afetuoso pela mãe, mas que, ao mesmo tempo, também se comporta como uma menina e apresenta uma atitude afetuosa feminina para com o pai e um ciúme e uma hostilidade correspondente em relação à mãe. É este elemento complicador introduzido pela bissexualidade (…). Pode mesmo acontecer que a ambivalência demonstrada nas relações com os pais deva ser atribuída inteiramente à bissexualidade”. (pág. 47)
Talvez por isso, por esse amor ao pai e hostilidade em relação à mãe, Carlos e Hans precisaram deslocar o medo para animais, preservando o objeto bom internalizado, sendo o superego a instância que não lhes permitiu se sentirem castrados pelos pais, pois um pai tão amoroso não pode ser odiado por ficar com o objeto que tanto queriam para eles, a mãe.