O Perverso Diante de Freud, Klein e Seus Seguidores – Parte VI

Se pararmos para ler atentamente os pressupostos da construção de sujeito perverso em Freud, Klein e seus seguidores, veremos que não há grandes diferenças entre as duas teorias.
Freud, por ser o primeiro a observar e tentar descrever a organização psíquica deste sujeito, vai nos mostrando um histórico pelas suas pesquisas e descobertas. Desde a histeria, com a volúpia nas dores mais atrozes do sofrimento humano; passando pelas pulsões e a sexualidade humana. As pulsões que invadem o aparelho psíquico em busca de um meio de realização de desejo e, a sexualidade humana essencialmente pervesa-polimorfa, onde o gozo seria a finalidade. Desta maneira, as construções neuróticas seriam as formas de defesas contra as demandas imediatas de gozar, cujos produtos seriam os sintomas presos entre a cena perversa e os recalques do sujeito.
Quando descobre o fetichismo, percebe que é a maneira do sujeito de recusar a entrar em contato com a experiência de castração e a reconhecer a diferença sexual. O reconhecimento da castração materna é algo da ordem do horror, apresentando um efeito devastador no psiquismo: fragmentação do ego, excesso de investimento narcísico para fazer contraponto à fragmentação.
No funcionamento perverso, o desejo do outro não pode ser reconhecido e nem valorizado, porque a individualidade perversa seria lançada na devastação psíquica, sendo impedida de colocar em ação sua voracidade de poder.
Klein quando constrói a sua teoria das posições, percebe que há momentos em que o ego do sujeito está completamente estilhaçado e em outros há a integração do ego, podendo lidar melhor com a realidade; chama a primeira posição de esquizoparanóide e a segunda de depressiva. Uma das angústias da primeira posição é a angústia de aniquilamento do ego, identificando-se com o objeto persecutório, criando um superego mau para dar conta do objeto mau. O sentimento de culpa não se sustenta e o sujeito atua.
Vemos que nas duas teorias aparece a desintegração do ego ou um investimento narcísico exacerbado para dar conta da recusa em aceitar a castração.
No exemplo do romance de Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray, a personagem principal faz uma identificação projetiva, como defesa, ao projetar toda a sua culpa e perversidade no seu retrato, que é a fidedigna representação de si mesmo.
Piera Aulagnier vai nos remeter a uma estrutura psíquica, fundamentando esse seu parecer com três elementos que para ela aparecem no aparelho psíquico do sujeito perverso. A ‘recusa’ é ser o único representante do desejo da mãe; a ‘lei’ é o contrato estabelecido entre o perverso e seu companheiro(a), sendo o gozo um dever, um sacrifício; o ‘desafio’ é o escândalo que ele provoca, desafiando o real.
Rosenfeld cria o conceito de fusão patológica, quando a pulsão de morte captura a pulsão de vida e coloca-a sob o seu julgo, sendo então libidinizada por ela. Esta fusão patológica é uma das características da dinâmica da perversão. Estamos falando de fusão patológica em Klein, mas também em pulsão de vida e de morte, em Freud.
Há ainda a alusão ao casal perverso, onde a importância é dada ao olhar do outro, observado por Jean Clavreul, como o cúmplice do ato perverso. Para ele, a cumplicidade é necessária para a criação do campo da ilusão.
Perversão, para as duas teorias, é uma doença do superego; é um mau funcionamento do superego que pode gerar essa organização psíquica.
Flavio Carvalho Ferraz ainda vai chamar a nossa atenção para a recusa ao tempo, onde o sujeito se recusa a aceitar o conceito de temporalidade, porque o conceito de tempo é o que nos insere na realidade. Aceitar que estamos inseridos dentro de um espaço de tempo, é aceitar que envelhecemos e que não seremos para sempre o falo da mãe.

REFERÊNCIAS

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• CALICH, J. C. e BERLIM, G. I. – “Sobre Psicanálise e Psicanalistas” – Primeiro Livro de Entrevistas da Revista de Psicanálise da SPPA – Casa do Psicólogo, SP – 2003.

• CLAVREUL, J. – “O Desejo e A Perversão” – 1990 – Papirus Editora – SP –
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• COLOGNESE JR, A. – “Um Estudo Sobre A Perversão, in A Trama Do Equilíbrio Psíquico – Edições Rosari Ltda, SP – 2003.

• FERRAZ, F. C. – “Perversão” – 2001 – Casa do Psicólogo – SP – 2001.

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_ – “Fetichismo” – 1927 – Volume XXI – Imago Editora – RJ.

• JOSEPH, B. – “Uma Contribuição Clínica Para A Análise De Uma Perversão”, in Equilíbrio Psíquico E Mudança Psíquica – Imago, RJ – 1992.

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• MELTZER, D. – “Sexualidade Polimorfa Adulta”. “Sexualidade Polimorfa Infantil”. “Sexualidade Perversa”, in Estados Sexuais Da Mente – Imago, RJ – 1979.

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• ROSENFELD, H. – “Observações Sobre A Relação Da Homossexualidade Com A Paranóia, A Ansiedade Paranóide E O Narcisismo”, in Os Estados Psicóticos – Zahar Editores, RJ – 1968.

• SPAIRANI, P. A. – “A Perversão Como Estrutura” – Revista Latino Americana de Psicopatologia Fundamental – ano VI, n.3, Set/2003 – SP.

_ – “Observações Sobre A Feminilidade E Suas Transformações” – in O desejo E A Perversão – Jean Clavreul – Papirus Editora – Campinas – SP – 1967.

• SALEME, M.H. – “Perversão: Algumas Reflexões” – artigo (não tenho outras informações), professora do curso Formação Em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae – São Paulo, SP.

_ – “Sobre A Analisabilidade Da Histeria. Um Pouco de História” – artigo (não tenho outras informações), professora do curso Formação Em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae – São Paulo, SP.

• SALEME, M.H. e PERDOMO, M.C. – “Sedução – Perversão – Instituição: Ligações Perigosas” – professoras e supervisoras do curso Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae – São Paulo – SP.

• SEGAL, H. –“Uma Fantasia Necrofílica”, in A Obra De Hanna Segal – Imago, RJ – 1982.

• STEINER, J. – “O Equilíbrio Entre As Posições Esquizoparanóide E Depressiva, in Conferências Clínicas Sobre Klein E Bion. – Imago, RJ- 1992.

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• WILDE, O. – “O Retrato de Dorian Gray”- Irmãos Pongetti Editores, RJ – 1955.

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Ansiedades Primitivas: Em Direção ao Fracasso das Manifestações Na Sexualidade – Parte V

Beth Joseph, 1981, “O Vício Pela Quase Morte”, fala de um tipo de paciente onde existe uma destruição maligna de natureza de um vício à quase morte. Meltzer (1973); Rosenfeld (1971); Steiner (1982); falam da escravidão da parte do self que domina esses pacientes e não os deixa escapar, por mais que vejam a vida chamando-os lá fora. O paciente não fica dominado apenas por sua parte agressiva, que tenta controlar e destruir o trabalho do analista, mas esta parte é ativamente sádica em relação à outra parte do self que é masoquistamente capturada nesse processo, e que isto se torna um vício; fazendo-nos pensar num funcionamento psíquico sado-masoquista. É muito difícil para estes pacientes acharem que é possível abandonar estes terríveis deleites pelos prazeres incertos dos relacionamentos reais.

            Outra característica da organização psíquica do perverso é descrita por Eric Brenman, (1985)[1], a manutenção da prática da crueldade por meio de uma estreiteza mental que é posta em operação e tem a função de esvaziar a humanidade e impedir que a compreensão humana modifique a crueldade.  Nas primeiras relações objetais, quando o bebê começa a perceber a separação existente entre ele mesmo e o objeto, bloqueia o conceito de mãe humana inteira, o que restringe a imagem do mundo a um lugar cruel e sem amor.

            Em (1971)[2], Betty Joseph, escreve sobre a agressividade e passividade que aparecem em alguns pacientes. De premissa achamos o paciente muito passivo, mas essa aparente passividade esconde uma agressividade intensa. O que está latente nesta passividade é uma amálgama pulsional, a pulsão de morte não é mitigada pela pulsão de vida, ocorrendo a fusão patológica. O perverso apresenta duas articulações: o que eu apresento e o que eu realmente sou. O falso self assume o espaço potencial e não dá espaço para o verdadeiro self. Na análise com o perverso somente a tolerância, a indiferença e a interpretação quebram o círculo do mal.


[1] – Brenman, E. _ Crueldade e Estreitea Mental, in Melanie Klein, Volume I.

[2] – Joseph, B. – Sobre a Passividade e a Agressividade: Sua Interrelação, in Equilíbrio Psíquico e Mudança Psíquica.

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PERVERSÃO: DUAS TEORIAS DIFERENTES QUE CONVERSAM SOBRE O MESMO CONCEITO – Parte IV – Berenice de Abreu

Ansiedades Primitivas: Manifestações na Sexualidade

Em seu texto “Observações sobre a Relação da Homossexualidade Masculina com a Paranóia, a Ansiedade e Narcisismo”, 1949, Rosenfeld demonstra como as ansiedades muito intensas da posição esquizoparanóide favorecem o desenvolvimento de tendências homossexuais como defesas; porque a homossexualidade está relacionada com a idealização do pai bom, como recurso para se defender contra o pai perseguidor; é um recurso usado pelo sistema de defesa maníaca cuja tríade é: o controle, o triunfo e o desprezo. Descreve a importância dos processos projetivos, onde a homossexualidade do tipo narcísico em que outro homem se identifica com o seu eu por meio da projeção. E esse mecanismo de identificação projetiva busca suas raízes nos impulsos infantis mais primitivos de forçar o eu para dentro da mãe. A fixação neste nível primitivo, posição esquizoparanóide, é responsabilizada pela combinação frequente da paranóia com a homossexualidade.
Betty Joseph, 1971, no artigo “Uma Contribuição Clínica para a Análise de Uma Perversão”, conta o caso de um paciente que na transferência atuava da mesma maneira que agia com a sua esposa e com as demais pessoas com quem mantinha contato, principalmente com as mulheres; ficava em silêncio, descaracterizava o que a analista dizia, inteletualizava, levando a analista a atuar. Esse paciente tinha uma espécie de fetiche, usar uma roupa de borracha no contato sexual. Este seu ‘artifício’ era, na realidade, para evitar contato, uma forma de proteção, um desligamento. Ele seduzia para em seguida frustrar, criando situações onde as pessoas necessitariam dele e experimentariam a dor de depender dele. O intuito era exercer o sadismo, o prazer subordinado à dor, o desejo era negado e o superego agia de modo sádico; toda vez que retornava o que era recusado, sentindo-se frustrado, erotizava a dor para evitar a angústia.
No texto de Hanna Segal, 1982, “Uma Fantasia Necrofílica”, é apresentado um caso de um paciente necrófilo, demonstrando por meio desse exemplo que na dinâmica do perverso aparece a fusão patológica, o sadismo e a sexualidade, isto é, a forma deste caso se expressa na sexualidade. Ela vai nos mostrando que a intenção não é só tirar a vida e devolver a vida, num constante liga-desliga, é uma evitação com o vínculo, porque numa relação sadia o risco é o estabelecimento do vínculo. No momento em que aparece o narcisismo, ponto mais frágil do paciente, ele se mostra moribundo, porque a relação que estabeleceu com o seio é de sadismo, o sugar muito para matar; para reavivar o seio precisa se identificar com ele. A relação com a analista ocorre na mesma linha, ou ela ou ele tem que morrer, como funcionava nas primeiras relações objetais.
Meltzer, 1968 , vai nos dar um novo elemento dentro da dinâmica perversa, a ética adoece, o paciente perverso fica fixado na sexualidade infantil polimorfa, onde aparece a imaturidade, o exibicionismo e o lúdico, para terminar numa ‘festa’, a masturbação; surgindo a onipotência para dar conta do sentimento de impotência, o aniquilamento do ego. Quando a ética está doente, o superego que deveria tolher, passa a ser permissivo. No adulto, quando a ética predomina, a sexualidade polimorfa só aparece nas preliminares; a sexualidade adulta é marcada pela privacidade, modéstia e humildade, o contrário da sexualidade infantil e a do perverso.
Armando Colognese Jr., 2003, em “Um Estudo Sobre a Perversão”, contribui para a compreensão do psiquismo perverso, levantando a questão que a única forma de sexualidade perversa é a sado-masoquista: primeiro porque perverte a pulsão, transformando a dor em prazer; segundo porque na fusão patológica, a genitalização se desenvolve precocemente numa tentativa de defender-se de uma angústia anal, tendo um prazer genital.

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PERVERSÃO: DUAS TEORIAS DIFERENTES QUE CONVERSAM SOBRE O MESMO CONCEITO – Parte II

ALÉM DE FREUD: PIERA AULAGNIER, JEAN CLAVREUL, MARIA HELENA SALEME , GEORGES LANTERI-LAURA.

Falar de perversão é ter que olhar para a feminilidade e reconhecer ou não as diferenças sexuais, as diferenças de gênero, a oposição entre feminilidade e falicidade; já que a perversão está baseada no fetichismo, na recusa à castração, na recusa às diferenças sexuais. Freud teve muita dificuldade em desvendar o feminino, quando olhava para ele era sempre pensando e confrontando com o masculino, mesmo porque o sexo feminino, como o conhecemos atualmente, só foi inventado no século XVIII, com o aparecimento da palavra ‘vagina’. O útero era chamado de ‘falo negativo’.

“Seguindo Freud, de Feminilidade e de Análise Terminável e Interminável, podemos dizer que a feminilidade é da esfera dessa primeira ligação da criança com a mãe e que está especialmente relacionada com a histeria. A histeria é uma neurose de defesa, pela qual o sujeito se protege da feminilidade por meio da falicidade. O corpo pode ser tomado pelo psíquico em uma tentativa insuficiente de representação, sendo a conversão uma tentativa de expressão desse excesso sem representação e, portanto, uma tentativa de autocura. A histeria é uma feminilidade fálica.”

Como a ‘neurose é o negativo da perversão’, o perverso não faz sintoma, não fica comprimido entre o seu desejo e o recalque, ele simplesmente se recusa a aceitar a não falicidade materna e a substitui por um objeto qualquer que lhe permite prosseguir com o seu desejo, sem se importar com o desejo do outro. Aliás, fico imaginando que para o perverso o desejo do outro nem existe. O que será isso? O outro tem desejo?
Para Piera Aulagnier-Spairani, citando Freud em seu texto sobre a Feminilidade:

“A descoberta da castração marca uma etapa decisiva na evolução da menininha. Três caminhos são oferecidos a ela: o primeiro desemboca na inibição sexual ou na neurose; o segundo, numa modificação de caráter, na formação de um complexo de virilidade; e o terceiro numa feminilidade normal.”(…) “O ponto indicado por Freud como aquele de onde devemos partir para nos interrogarmos sobre a feminilidade coincide com o ponto de onde se origina o fetichismo. Ora, que é que vê aquele que poderá tornar-se o futuro fetichista? Não que ele seja privado de algo, mas que a mãe não tem falo. A descoberta da castração tira daí sua determinante. Seu amor se dirigia a uma mãe fálica e não a uma mãe castrada”. (…) “Qualquer que seja o sexo do sujeito, essa descoberta obriga-o a um requestionamento de tudo que faz parte do desejo com relação à falta que constitui seu objeto.”

Numa nota de rodapé, do mesmo texto de Piera, ela explica melhor o que ela chama de requestionamento:

“A angústia de castração tal como é geralmente definida pelo homem – ‘medo de perder seu pênis’ – não passa de uma outra maneira de formular essa verdade. Se o objeto de desejo por excelência não tem o falo, objeto privilegiado de seu desejo, então nada poderá garantir ao sujeito que ele como objeto do desejo materno não possa da mesma forma tornar-se carente dele.”

Um exemplo disso nos é dado quando Freud tenta analisar o comportamento sexual de Leonardo da Vinci, em seu texto: “Uma lembrança infantil de Leonardo da Vinci”, 1910. Embora não tenha ficado claro o seu homossexualismo, ele se cercava de garotos que eram tomados como ajudantes e discípulos, numa tentativa de reviver o amor da mãe que lhe foi dedicado quando ainda menino e rapaz. Para Freud Leonardo recusa-se a enxergar a castração materna e a vê investida de emblemas fálicos, então seu objeto de amor só poderia ser alguém tão fálico quanto sua mãe.
Como já citado acima, na introdução, Piera se faz a pergunta: “Pode-se falar da perversão como uma estrutura?” E irá ressaltar os pontos que serviram de referência para justificar a sua resposta: “Recusa, Lei e Desafio”. Quanto à recusa ela falará do desejo da criança que tem como dimensão identificatória o desejo materno, de ser o único representante do desejo da mãe. O pensamento onipotente infantil é acreditar-se o desejo da mãe e que a força do seu desejar possa também influenciar o desejo materno. Assim o menino recusa-se a reconhecer que o objeto do desejo materno está em outro lugar que não ele mesmo. Num outro momento, com o princípio de realidade, a descoberta do sexo feminino, que ele irá se defrontar com um mundo de gozo do qual ele está excluído e ao qual a mãe tem acesso somente através do pai. Aparecendo neste momento, o fantasma da castração, fantasma que só poderá ser elaborado no momento em que percebe a diferença entre o corpo sexuado e o poder do gozo.
Para a menina essa descoberta tem um efeito de fascinação, no momento em que descobre que não há jeito de desfazer a diferença, transformando o que poderia se tornar em horror (permanecendo para o perverso) em algo fascinante. A inveja do pênis se transforma em ‘inveja de um filho do pai’. É nisto que reside, para a mulher, a sua relação com a feminilidade.
Aceitar a castração é sair do paradigma – ‘a mãe foi castrada pelo pai’- e substituí-lo por outro: ‘a mãe é desejada pelo pai e é desejante dele’. É este ponto que falha no perverso, ele não faz a passagem de um paradigma para o outro, fica fixado no primeiro.
Já a lei para Piera, na estrutura perversa, está claramente explicada no contrato estabelecido entre o perverso e o seu companheiro ou companheira; nada neste contrato lembra uma declaração de amor, o imperativo imposto ao sujeito é o de gozo, o gozo como um dever, como um sacrifício. O estatuto que o perverso tenta se dar enquanto sujeito da lei, é que se deve ter que desejar. A lei sempre estará em lugar diferente daquele onde se coloca para o outro; ela é o seu saber secreto, a razão de ser de seu desafio.
O desafio aparece explicitamente no comportamento do perverso, pois o seu objetivo é o escândalo, chocando aos que tentam observar ‘os bons costumes’. O que é escandaloso para o espectador é trazer à luz algo que compartilha com o perverso. O que o perverso desafia sem saber é o real. E se ele desafia esse real pelo viés da lei é porque a lei vem, em nome do saber, designar e codificar a realidade. Toda lei está baseada sobre um postulado de um saber que se quer verdade porque esse saber tem a pretensão de encontrar suas fontes no real.
O perverso desafiará a realidade do sexo feminino, seja através do fetiche em sua função de véu, seja disfarçando a mulher como agente da castração, dando-lhe esse poder absoluto, tornando-se o mestre que lhe proporcionará o prazer, o gozo; e do lado da mulher, encontraremos as noções de escravo e de dor. Porém há uma diferença: se o masoquista demanda a dor, o sádico demanda que o outro demande sofrer. O masoquista, como o sádico, pouco importa o lugar de partida do sujeito, postula que o outro, sujeito de uma demanda, é aquele que ignora o que é o objeto do seu desejo e que é ele, o próprio perverso, o único que sabe a verdade a respeito do gozo do outro; ponto importante da temática perversa.
Georges Lanteri-Laura em seu livro: “Leitura das Perversões”, discute exaustivamente se a perversão, no parecer psiquiátrico e psicanalítico, em vários autores, no decorrer da história, é vista como uma estrutura, como constituição ou como condutas de comportamentos. E conclui dizendo:

“Da primeira revolução russa até a crise mundial, o discurso psicanalítico, afigurou-se, a princípio, subversivo e escandaloso: fez do perverso alguém próximo do normal e lembrou ao normal que ele não passava de um perverso honorário. Vimos que, posteriormente, esse discurso evoluiu através de múltiplos meandros, primeiro os de Freud e, depois, os de seus discípulos, dos ortodoxos e dos outros, fazendo advir a noção de estrutura perversa, que desempenhou, quarenta anos depois de E. Dupré, exatamente o mesmo ofício da noção de constituição, e também restaurando um neo-moralismo em que o acesso ao estádio genital garantia uma função normativa, da qual a cultura não parece poder libertar-se.
Assim, elucidamos de que maneiras a apropriação dos comportamentos perversos pelo discurso psiquiátrico acarretou, ao mesmo tempo, a elaboração parcial de um certo conhecimento da sexualidade e o fornecimento permanente à cultura de regulamentação das condutas, assegurada por um referencial admissível. Está fora de dúvida que, sem essa função social, esse conhecimento jamais teria encontrado condições eficazes de realização. Aliás, a única perversão autêntica talvez seja apenas a inibição do gozo”.

Jean Clavreul vai nos chamar a atenção para um outro modo de funcionar, a formação do par perverso, ou do casal perverso. Ele vai nos dizer sobre os mesmos componentes já citados por outros autores, que acabam atraindo e ligando o casal, porém o mais importante é a importância dada ao olhar do outro:

“Voltando mais diretamente a nosso assunto, iremos nos perguntar o que acontece com o outro no caso, ou seja, com o parceiro do jogo perverso. É claro que é como portador de um olhar que o Outro será o parceiro, ou seja, antes de qualquer coisa o cúmplice do ato perverso. Aqui tocamos naquilo que distingue radicalmente a prática perversa em que o olhar do Outro é indispensável porque é necessário à cumplicidade, sem o que não existiria o campo da ilusão, e o fantasma do perverso, que não somente se adapta muito bem à ausência do olhar do outro mas exige, para concluir, satisfazer-se na solidão do ato masturbatório. Se o ato perverso distingue-se sem equívoco do fantasma que age, é portanto nessa linha em que se inscreve o olhar do Outro que distinguimos suas fronteiras, olhar cuja cumplicidade é necessária para o perverso, enquanto é denunciador para o normal e para o neurótico.”

Um exemplo da necessidade desse olhar ficou-me claro quando no filme “Dogville”, no último ato (o filme é apresentado como uma peça de teatro), a personagem principal, filha de um gangster, concorda com o pai em exterminar os moradores da vila, que haviam abusado sexualmente dela, tornando-a uma escrava também. Um dos participantes da gangue pede aos dois, pai e filha, que abram as cortinas do carro, para que eles, os componentes da gangue, possam também participar, através da observação, do ato da chacina. Ou, quando a personagem principal dá a ordem para matar os filhos de uma das habitantes da cidadezinha em sua presença e só parar se a mãe conseguir ficar olhando e não chorar.

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PERVERSÃO: DUAS TEORIAS DIFERENTES QUE CONVERSAM SOBRE O MESMO CONCEITO – Parte III – Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

Compreensão do Psiquismo Perverso em Klein, John Steiner e Rosenfeld.

Em seus textos: “Tendências Criminais em Crianças Normais” (1927) e “Sobre a Criminalidade” (1934), Melanie Klein vai nos falar da perversão como desvios sexuais das ansiedades primitivas. Deixa de lado a teoria da libido e constrói a teoria das posições. Os desvios das ansiedades primitivas eram os sintomas; o que importa é a organização psíquica que se constituiu. A questão da castração tem importância trazida à luz do Édipo primitivo. O mecanismo da recusa da realidade é usado para o desenvolvimento de Identificação Projetiva (o bebê introjeta na mãe as suas ansiedades). O sadismo infantil tão ressaltado por Klein, não tem nada a ver com a perversão, por estar desvinculado do sadismo adulto. A perversão é um desvio das ansiedades primitivas, ligado a um superego sádico. Perversão é uma doença do superego; é um mau funcionamento do superego que pode gerar essa organização psíquica. Na criminalidade há o sentimento de culpa, mas ele não se sustenta, o sujeito parte para o acting-out. Todo ato criminal é um ato violento da persecutoriedade pela atuação. Klein dá o exemplo da criança que “pede” para apanhar. Se os pais continuam batendo e a criança continua desafiando, é porque os pais foram enredados pela perversão da criança. O perverso necessita de um par perverso.
John Steiner, (1990), em seu texto: “O Equilíbrio entre as Pulsões Esquizoparanóide e Depressiva” nos mostra o funcionamento psíquico dentro de cada posição, suas angústias e defesas, e como há um jogo entre as posições, o sujeito oscila entre as duas, como se estivesse numa dança de vai e vem constante, lembrando-me uma lei biológica que rege o desenvolvimento humano, chamada de ‘lei da diferenciação, onde para cada conquista do indivíduo há uma regressão, como se tivesse que tomar um impulso, fazendo um retrocesso, para depois tornar a se desenvolver. Na posição esquizoparanóide, a angústia principal é a de aniquilamento do ego e, suas defesas principais são: cisão, identificação projetiva e idealização. As relações de objeto são vivenciadas de maneira cindida, não há integração entre o objeto bom e o mau, os dois são mantidos separados, divididos. Na posição depressiva a angústia principal é de aniquilamento do objeto, começando a aparecer uma integração do objeto, surgindo a ambivalência, sentimentos de perda e de culpa, podendo ocorrer o luto e, em consequência, o desenvolvimento da função simbólica, surgindo a capacidade de reparar. A ideia de uma inter-relação entre as posições esquizoparanóide e depressiva é ampliada para incluir subdivisões em cada uma delas. Assim, na posição esquizoparanóide pode ocorrer desde uma fragmentação patológica, evoluindo para uma cisão normal e, na posição depressiva pode ocorrer a cisão normal, evoluindo para o medo da perda do objeto, para a experiência da perda do objeto e depois para o luto. Cada posição pode ser pensada como estando em equilíbrio com as que estão em cada um de seus lados e observamos o movimento entre elas se manifestar nos nossos pacientes no curso de uma sessão, no decorrer de semanas, meses e anos dentro da análise, dependendo de suas organizações psíquicas. O diferencial entre o movimento sadio e o patológico é o predomínio da maior parte do tempo de uma ou de outra angústia e das defesas que caracterizam as posições.
Rosenfeld, 1971 , nos mostra através dos textos de Freud, Abraham e Klein, como a pulsão de morte, entre alguns sujeitos, captura a pulsão de vida e a coloca sob o seu julgo, aprisionando-a, libidinizando assim a pulsão de morte; não havendo o predomínio da cisão, mas um tipo de integração, aglomeração da pulsão de vida com a pulsão de morte, o que ele dá o nome de fusão patológica, cujo objetivo é tirar força da pulsão de vida para dar à pulsão de morte. E considera a fusão patológica uma característica da perversão, criando um tipo de funcionamento ‘mafioso’, onde existe uma sedução, mas não uma subjugação ao poder. Neste tipo de dinâmica, certos estados onipotentes narcísicos são dominados pelos mais violentos processos destrutivos, de tal modo que o self libidinal fica quase completamente ausente ou perdido.
John Steiner, 1985, no seu artigo: “O Interjogo Entre Organizações Patológicas e as Posições Esquizoparanóide e Depressiva”, mostra os modos como as defesas podem ser reunidas em organizações patológicas que têm um profundo efeito sobre a personalidade e podem levar a estados mentais que se tornam fixados de modo que o paciente em análise não apresenta insights e tem resistência à mudanças. Como no seu artigo anterior, citado acima, continua insistindo no movimento contínuo entre as posições, de modo que nenhuma delas prevalece em qualquer grau de completude ou permanência. Somente quando os estados mentais se tornam fixados, é que acontece a organização patológica e, é nas transições que elas ocorrem, tanto no interior da posição esquizoparanóide como na depressiva, que o sujeito parece estar mais vulnerável à influência dessa organização. Por exemplo, na passagem da cisão do objeto para a dor, perda do objeto, ocorre este tipo de organização patológica.
Vamos construindo com estes autores a compreensão do psiquismo perverso. Klein contribui nos mostrando como a angústia de aniquilamento do ego não permite a integração do objeto, identificando-se com o objeto persecutório para dar conta do mesmo. Cria-se um superego mau para dar conta do objeto mau. O sentimento de culpa não se sustenta e o sujeito atua. A organização psíquica fica presa num círculo vicioso do mal. Steiner apresenta a necessidade de equilíbrio entre as posições e neste constante interjogo pode acontecer organizações patológicas, principalmente nas transições que ocorrem entre as posições, ou dentro de uma mesma posição, quando o sujeito se encontra mais vulnerável. Rosenfeld cria o conceito de fusão patológica, quando a pulsão de morte captura a pulsão de vida e coloca-a sob o seu julgo, sendo então libidinizada por ela. E que esta fusão patológica é uma das características da dinâmica da perversão.

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PERVERSÃO: DUAS TEORIAS DIFERENTES QUE CONVERSAM SOBRE O MESMO CONCEITO – PARTE I

                                                      Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

INTRODUÇÃO 

A inteligência sem amor, te faz perverso.
A justiça sem amor, te faz implacável.
A diplomacia sem amor, te faz hipócrita.
A riqueza sem amor, te faz avaro.
A docilidade sem amor, te faz servil.
A pobreza sem amor, te faz orgulhoso.
A beleza sem amor, te faz ridículo.
A autoridade sem amor, te faz tirano.
O trabalho sem amor, te faz escravo.
A simplicidade sem amor, te deprecia.
A oração sem amor, te faz introvertido.
A lei sem amor, te deixa egoísta.
A fé sem amor, te deixa fanático.
A cruz sem amor, se converte em tortura.
A vida sem amor… não tem sentido.
(autor desconhecido)
Acrescentaria, como diz Ryad Simon: “A interpretação sem afeto, é uma crueldade”.
Ler este texto remeteu-me a várias associações, a primeira delas foi sobre o verso um que fala diretamente sobre o tema deste artigo.: a perversão… Depois, lendo e relendo cada verso, conclui que todos eles falam sobre o mesmo tema, porque a falta de amor é a mola propulsora de tudo aquilo que é contrário ao que deveria fazer parte da natureza humana: o amor. Porque vão contra todos os princípios em que acreditamos serem benéficos às representações de cada palavra-conceito colocada no início de cada verso e o final de cada um deles está marcado pelo reverso da proposta inicial. Assim: inteligência, justiça, diplomacia, riqueza, docilidade, pobreza, beleza, autoridade, trabalho, simplicidade, oração, lei, fé, cruz, vida, afeto, são o contraponto ao que nos leva à falta de sensibilidade para com o outro: perverso, implacável, hipócrita, avaro, servil, orgulhoso, ridículo, tirano, escravo, depreciativo, introvertido, egoísta, fanático, torturador e crueldade.
Segundo André Green, perverso não é aquele que é sado-masoquista, fetichista, voyeurista ou exibicionista; porque todos nós, na relação com o objeto, lançamos mão de um ou outro tipo de funcionamento, com permissão do objeto, para nos satisfazer sexualmente. Porém, o perverso é aquele que usa deste tipo de funcionamento com a finalidade de ‘gozar’, sem se importar com a condição do outro, sem se importar com o desejo do outro. Para ele, o perverso é desde o que não segue as éticas de conduta com o outro, como aquele que se despe na frente de uma criança com a finalidade de se excitar, por exemplo. Neste sentido, o perverso é aquele que passou pelo processo de castração, curvou-se ao mesmo, mas recusa-se a aceitá-lo .
Assim, falar sobre o referido tema é tentar seguir o caminho trilhado por Freud, suas descobertas, seus avanços e retrocessos e complementar com outros autores que também partiram dele.
Quando Freud começou a estudar a histeria percebeu que havia algo mais que a dor física expressa pela paralização de algum membro por exemplo, existia a volúpia nas dores mais atrozes do sofrimento humano. Os sintomas entrelaçados pela dor mostravam ao mesmo tempo a paixão que estava por detrás e que possuía o sujeito e o colocava contra a parede. A proibição psíquica e o medo da discriminação social faziam com que os indivíduos não pudessem ver o que havia de mais repugnante em seu desejo.
Freud percebeu que os sintomas eram formações de compromisso do sujeito, procurando arrumar um modo de transitar entre os desejos e as proibições dadas pela sociedade da qual fazia parte, recalcando. Como formação de compromisso, o sintoma ficava numa situação insustentável, fazendo parte das exigências que não poderiam ser conciliadas. Porém, mesmo assim, o sintoma revelava uma força, uma energia, denunciando o que muitas vezes era negado pelo discurso do indivíduo (briga sempre presente entre o manifesto e o latente, as formações de compromisso).
Na “Interpretação dos Sonhos” Freud nos fala que o sonho é a realização de um desejo inconsciente que se manifesta através de formações de compromisso, como: condensações, figurabilidade, deslocamentos e elaborações secundárias. Começa também a perceber que há uma semelhança entre os sonhos e os sintomas que aparecem na clínica, fornecendo dados para a interpretação.
Essas percepções acabaram por se transformar em elaborações teóricas, fazendo-o pensar nas pulsões e na sexualidade humana. As pulsões seriam essa força, esse desejo, que demanda dos limites do corpo e que invade o aparelho psíquico, em busca de um meio de realização desse desejo. Nessa sua pesquisa descobre que a sexualidade humana seria essencialmente perverso-polimorfa, formada por pulsões parciais e anárquicas, buscando de forma constante o prazer. A finalidade da sexualidade seria o gozo. Assim, a reprodução da espécie seria algo secundário, o primário visaria o gozo e o prazer.
Em sua escuta na clínica, e na observação constante do ser humano, Freud vai percebendo que a sexualidade não é instintiva, vai sendo dada e desenvolvida na relação mãe-filho e nas relações com as demais pessoas que fazem parte do universo da criança, e a perversão não é uma forma de degeneração.
No deslocamento do conceito de instinto para o de pulsão, a sexualidade sai da inscrição orgânica do sexo e da necessidade, passando para o campo psíquico. Em consequência, o corpo passa a ser pensado, por Freud, no registro do imaginário e do simbólico.
Ao afirmar que a sexualidade humana seria perversa em sua essência, não existindo a sexualidade sem estar atravessada pelas pulsões parciais e pelas formas polimorfas de gozar, Freud retira a perversão do negativismo. Formula então o importante enunciado: “a neurose é o negativo da perversão”. As construções neuróticas seriam formas de defesas, formações de compromisso, contra as demandas imediatas de gozar, cujos produtos seriam os sintomas, presos entre a cena perversa fantasiada e os recalques do sujeito.
Entretanto, somente vinte anos depois, com a apresentação de seu artigo sobre o fetichismo, é que se pode estabelecer significativamente a diferença fundamental entre a teoria perverso-polimorfa e uma leitura psicanalítica da perversão. Assim, o fetichismo foi elevado à condição de maneira de ser mais importante da experiência psíquica fundamentalmente perversa. O fetichismo é o modo pelo qual o sujeito se recusa a entrar em contato com a experiência de castração e a reconhecer a diferença sexual. A castração faz com que o sujeito lance um olhar sobre a figura materna, sendo destituída de sua falicidade e reconhecida em sua diferença sexual.
Se a diferença sexual não se constitui no indivíduo, este não é propriamente um sujeito, pois o desejo não se constitui como tal. Falar da existência do sujeito aceitando a diferença é dizer que este só pode ser constituído se o sujeito do desejo também se formar ao mesmo tempo. A consequência é que a intersubjetividade e a experiência da alteridade se constituem quando o sujeito é permeado pela diferença e pelo desejo.
Isto seria evitado pela individualidade regulada pelo funcionamento perverso. O fetiche seria um objeto que recusaria a perceber o corpo materno, preferindo falicizar a figura materna. O reconhecimento da castração materna é algo da ordem do horror.
O não poder perceber a diferença sexual e o terror provocado quando reconhecido tem efeitos devastadores no psiquismo do sujeito: fragmentação do ego, excesso de investimento narcísico para fazer contraponto à fragmentação e à impossibilidade de reconhecimento de qualquer outro.
No funcionamento perverso, o desejo do outro não pode ser reconhecido e nem valorizado, porque a individualidade perversa seria lançada na devastação psíquica, sendo impedida de colocar em ação sua voracidade de poder. Como exemplo temos o livro: “O Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde. Onde um jovem desafortunado recebe uma herança e é inserido numa sociedade frívola e cheia de si, esnobe. Ele é muito bem recebido pela sua beleza e acaba por seduzir a todos os que se aproximam dele. Dorian se apaixona por uma atriz de teatro e com promessas de casamento enreda a moça a ceder a seus caprichos. Ela engravida e pede-lhe que cumpra suas promessas, mas por medo de perder a influência que exercia sobre as figuras mais nobres dessa sociedade, nega-se a cumprir o que havia prometido e a moça se suicida. Ele começa a acumular muitos outros crimes sobre os seus ombros, porém não é ele quem sofre ou se transforma num monstro, mas o seu espelho, o retrato, que havia sido pintado por um artista muito conceituado dentro dessa mesma sociedade, a quem ele mata, para que seus segredos não fossem revelados. Podemos pensar que Dorian tem um triste destino, precisa reafirmar a sua potência, necessita crer que sua força de sedução é maior do que qualquer princípio, o desejo é maior do que qualquer outra coisa. É essa máxima da perversão. O desejo é maior do que a dor, do que os valores, do que qualquer outra coisa. A vida do perverso está voltada para provar a teoria de que nada barra seu próprio desejo. Por que ter que provar essa teoria? Será que é só disso que se trata?
Talvez possa responder a estas questões com o texto da Piera Aulagnier-Spairani: “A Perversão como Estrutura”; onde ela nos fala de três componentes que fazem parte do funcionamento do perverso: recusa, lei e desafio. Para ela, existe a lei do desejo que envolve toda uma dialética pré-genital mãe-filho e que se resume no binômio: ser o falo – ter o falo, com a condição de se lembrar que os dois enunciados se dirigem ao desejo do Outro (ser o falo da mãe – recebê-lo dela como prova de sua impossível castração). No entanto esta lei do desejo é somente um dos fatores que fazem parte do funcionamento do perverso, temos que levar em conta também à recusa em aceitar a castração e o desafio que é escandalizar aqueles que o julgam pela ofensa aos costumes.

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FOBIAS, MEDOS, ANGÚSTIA DE ANIQUILAMENTO, E ANGÚSTIAS IMPENSÁVEIS. Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu – ParteV

Ver e Escutar

Talvez por não ter tido a experiência de atender crianças, Freud se baseasse nas fases do desenvolvimento infantil para poder formular alguns de seus conceitos e construir sua ciência. No caso da histeria de angústia observou que a mesma é causada por um afeto convertido num terror imotivado, frente a um objeto, um ser vivo ou uma situação que não apresenta em si perigo real. Mais tarde, no quadro da segunda teoria da angústia, concluiu que ela surge perante um perigo exterior e que constitui para o sujeito uma ameaça real: a castração. No entanto, quando se fala em castração, estamos falando em uma fase pré-genital, a fálica, em que a criança estaria por volta dos três anos de idade.
Como Freud nos alerta: quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir pode observar o que o ser humano tenta esconder. Assim, ele orientava a nós, psicanalistas, a privilegiar a escuta e a observação se quiséssemos perceber o latente que se desenrola concomitante ao manifesto, bem debaixo do nosso nariz. E foi o que outros teóricos da área, que tiveram a experiência de trabalhar com crianças fizeram e descobriram angústias mais precoces no desenvolvimento infantil.
Klein descobre e passa a se interessar pelas fobias precoces, nas quais identifica angústias persecutórias e depressivas. Estas fobias seriam derivadas de angústias psicóticas, que têm sua origem no temor de ser devorado pelo superego precoce em decorrência de um aumento do sadismo oral canibalístico da posição depressiva.
Segal, discípula de Klein, concluiu pela observação de um caso de fobia grave, que a formação da fobia tem como função evitar situações catastróficas relacionadas a angústias psicóticas.
Jorge M. Mom, outro autor kleiniano, observou a fobia através do mecanismo de dissociação, postulando que a formação da fobia cria e recria uma dissociação por meio da externalização do objeto. Ele compreende a fobia como uma organização de defesa, porque o mecanismo fóbico se estrutura para evitar o fracasso da dissociação e para mantê-la e recriá-la. Sintetizando sua própria visão: o fóbico é um sujeito que, no plano histérico em que atua, controla obsessivamente suas angústias esquizóides.
Para Winnicott, a angústia nasce da falha do cuidado materno. Para ele, o cuidado materno é a condição básica para acontecer à integração. E o que ele observou em decorrência da falha é o aparecimento de angústias particulares: não-integração, gerando um sentimento de desintegração; falta de relacionamento entre a psique e soma, causando um sentimento de despersonalização; e que o centro da gravidade da consciência é transferido do cerne para a superfície. Ele também desenvolve o conceito do medo do colapso. Alguns medos comuns como o medo da morte, o medo da loucura ou do sentimento de vazio estão relacionados ao medo do colapso, que nos fenômenos psicóticos são defesas contra um colapso no estabelecimento do self unitário.
Faço aqui uma observação: talvez, se Freud tivesse ficado mais atento, no caso do pequeno Hans, para o que se desenrolava no ambiente familiar dessa criança, teria visto as falhas no cuidado deste menino e observaria que o sintoma, a fobia, não era somente uma consequência de causa exógena, mas vinha da relação mãe-bebê, criança muito libidinizada e depois rechaçada pelo comportamento ambíguo da mãe.
Fecho com a proposição ao falar em vários termos para um mesmo conceito: fobias, angústias persecutórias ou depressivas, de aniquilamento, angústias impensáveis ou medo de um colapso. O conceito ou o termo que escolhemos para representar simbolicamente um acontecimento na clínica vai depender do aporte teórico que para cada psicanalista faz mais sentido, ou está mais de acordo com a sua clínica. Não esquecendo, que por mais interessante que pareça visualizar tais fenômenos, estamos diante do sofrimento humano, e é preciso respeitá-lo e acolher.
E quem sabe, poderemos desenvolver outros conceitos, bastando ter olhos para ver e ouvidos para escutar.

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Fobias, Medos, Angústia de Aniquilamento e Angústias Impensáveis – Parte IV

Dois Garotos Angustiados e Fóbicos

A fobia de Hans por cavalos e a de Carlos por cães, simbolizam bem os conflitos enfrentados por duas crianças que temem animais que podem mordê-los, mas que ao mesmo são admirados e, por seus sentimentos agressivos contra os mesmos, podem castrá-los.
Freud em “Totem e Tabu” (1913), escreve que as fobias de crianças do sexo masculino em relações a animais eram, no fundo, medo do pai, que havia sido deslocado para cavalos, cães e outros. Ao lado do caso do pequeno Hans, cita outros, como o apresentado pelo Dr. Wulf, em que o medo que o menino sentia contra cães, era o medo do pai deslocado para estes animais e ligado a proibição de se masturbar.
Mas Freud não está falando apenas do pai de Hans e de outros casos aleatórios. O pai de Totem e Tabu é o pai imaginário, o pai onipotente da horda primitiva que possui todas as mulheres, castra seus filhos e que morto, dá origem à lei. A figura paterna passa a ser um elemento central da constituição do psiquismo humano. Porque ao interditar a mãe e mostrar à criança a existência de regras e normas para convivência entre as pessoas, ele a introduz na sociedade dos seres humanos. A criança deixa de ser um apêndice do corpo materno para tornar-se um indivíduo social, capaz de conviver com outros indivíduos sociais. Deixa de ser ‘falo’ para transformar-se em gente.
Mas o Complexo de Édipo em ‘Totem e Tabu’ também é visto como aquilo que dá origem à civilização. No antepassado mítico do clã repousa a lei. A refeição totêmica, que estava de alguma forma rememorando o assassinato do pai violento, tirânico, é o ponto de partida da organização das sociedades e de toda a sua produção posterior. O animal totêmico, portanto, estaria substituindo o pai morto – a refeição totêmica serviria igualmente para reafirmar os compromissos firmados entre os irmãos assassinos – para a sua própria segurança e continuidade cada qual renuncia uma parte de sua liberdade de exercer violentamente a força para que seja possível uma vida em comum. Em ‘Totem e Tabu’, Freud ancora o Complexo Edípico não apenas nas fantasias dos neuróticos, mas no ponto de origem da civilização, propondo assim também a universalidade do Complexo de Édipo.
Está aí posta toda a angústia e o conflito dos meninos. Como podem se sentir seguros se o pai internalizado não é um pai tirânico que estabelece a lei? Pelo contrário, é um pai passivo, companheiro, a quem só podem dedicar amor, não há lugar para o ódio. Não há outra saída a não ser deslocar o seu medo para o animal totêmico, o cavalo ou o cão, dependendo da representação que ocupam dentro do imaginário de cada um. A angústia surge toda vez que buscam segurança no superego e não encontram a lei estabelecida, a lei está fora, não foi internalizada.
Quanto sofrimento e quanta energia despendida desnecessariamente, pois a angústia vem a todo o momento em que um perigo externo assinala uma tensão motora, uma excitação vinda de dentro se junta numa combinação que determina uma ansiedade constante. Por isso o meu espanto diante da ansiedade exacerbada de Carlos, do seu querer se aproximar e antecipar um rechaço, pois a lei não foi instaurada e ele não sabe como se comportar socialmente, ainda se encontrava como um apêndice da mãe.
Estudar a histeria de angústia, através do caso do pequeno Hans, ajudou-me a entender melhor o que se passava com Carlos e a acolhê-lo com maior facilidade, compreendendo o seu sofrimento e a sua angústia, em transferência, causada por pais que não sabiam como lidar com uma criança muito querida e desejada, mas que talvez não preenchesse as expectativas deles, pais.

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FOBIAS, MEDOS, ANGÚSTIA DE ANIQUILAMENTO, E ANGÚSTIAS IMPENSÁVEIS. Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu- Parte III

Freud, Hans e Carlos

Histeria de angústia foi o nome dado por Freud, a um tipo diferente de histeria, que também reprime, porém no lugar de fazer uma conversão, desloca para outro objeto o afeto, causando uma fobia, transformando o afeto em ansiedade, angústia. Num primeiro momento, até 1926, é a angústia que causa o recalque.
Se pararmos para pensar na semântica da palavra ansiedade, verificamos que ela vem de ‘anseio’, desejar algo, ou alguém. A aflição de se separar do objeto, de ficar sem ele. A ansiedade é uma reação a uma situação de perigo. Criam-se sintomas a fim de evitar uma situação de perigo cuja presença foi assinalada pela geração de ansiedade.
Através da análise da uma fobia de um menino de cinco anos, o pequeno Hans, Freud vai descobrir e desenvolver toda a sua teoria sobre a histeria de angústia, como em todo o seu trabalho, ele irá construir, reformular e retornar ao que ele havia dito inicialmente. No texto ‘Inibição, Sintoma e Ansiedade’ (1926), ele reformula, desenvolvendo uma segunda teoria de angústia. Freud se pergunta qual é o motivo da angústia? E responde que a causa da angústia é o recalque, sendo necessário que haja um perigo para que o ego recalque; um perigo vindo do exterior: a castração.
Escolhi desenvolver esta parte do meu artigo comparando a análise do caso Hans, com o caso de um menino de seis anos, a quem chamarei de Carlos (nome fictício).
Os pais de Carlos vieram até o meu consultório por indicação da escola que o menino frequentava. Carlos nasceu depois de 14 anos de tentativas, tendo sido realizada uma inseminação, numa reprodução assistida. O parto foi cesárea e a mãe teve depressão puerperal durante seis meses. Contrataram uma babá, ficando a mãe sempre por perto, porque tinha medo de não dar conta do bebê.
Do sexto ao décimo segundo mês, por recomendação do pediatra, a mãe colocava–o para dormir sobre o seu corpo, para que pudessem ter um contato maior de pele, já que não tinha sido gerado de maneira convencional e porque a mãe não o tinha segurado suficientemente em razão de sua depressão.
Até os três anos dormia em seu quarto. Quando se mudaram para o interior, em busca de qualidade de vida, o pai não os acompanhou, visitando-os nos finais de semana e feriados, em função do seu trabalho. A mãe ficava muito insegura de dormir sozinha à noite e trancava-se com o filho no mesmo quarto. Mesmo quando o pai estava presente, dormiam os três juntos, pois o menino podia se ressentir de ser excluído em razão da presença do pai.
Carlos começou a ficar muito inquieto e a apresentar comportamentos inadequados: pegava uma faca e simulava que se mataria; tentou pular da janela da escola, que ficava no terceiro andar e desenvolveu fobia por cães. Os pais tentaram: ‘caras feias’, atenção maior, palmadas e castigos, como contensão. O que pareceu surtir algum efeito foram os castigos.
A hipótese levantada pela escola era de hiperatividade. Porém a mãe questionava, porque Carlos conseguia assistir a filmes inteiros e quando se interessava por um brinquedo ou brincadeira, ficava entretido por um longo período. A própria criança começou a pedir para ir numa psicóloga.
Esse histórico chamou-me a atenção em alguns pontos:

• A ansiedade excessiva dessa criança;
• A fobia a cães;
• A questão deste casal.

Também no caso do pequeno Hans, há alguns aspectos que saltam aos nossos olhos:

• Uma criança muito vivaz e muito libidinizada, entregue a si mesmo;
• A fobia a cavalos;
• A questão do casal.

Quando vi Carlos pela primeira vez fiquei muito impressionada com o nível de ansiedade presente e com a dificuldade em estabelecer contato, ficando entre o querer se mostrar, se aproximar e o medo de fazê-lo e ser rechaçado. Chegou perguntando se no consultório havia cachorro e, enquanto ficou na sala de espera aguardando o horário da sessão, assobiou, fez batucada na parede. No momento em que foi chamado para entrar em sessão se esquivou, correndo para perto da mãe. Perguntei-lhe se sabia o meu nome e ele disse: “Berenice Hepatite”. Mas não veio comigo para a sala, solicitando à mãe que o acompanhasse. Quando conseguiu entrar se mostrou muito arredio, não se interessando por nenhum brinquedo ou brincadeira proposta.
No final das sessões de observação fiquei sem saber se concordava com a hipótese da escola e indicava um neurologista para medicar, ou se toda essa atuação que apresentava era fruto de uma angústia muito intensa? Acabei optando por indicar um trabalho emocional e apostar na segunda hipótese.
Quando estamos atendendo um caso e temos dúvida do diagnóstico, ficamos aliviados ao encontrar na teoria outro parecido que venha em nosso socorro, ajudando a elucidar alguns aspectos. Foi assim que fui me sentindo ao ler os textos sobre Histeria de Angústia.
O estudo do caso de Hans foi me trazendo tranquilidade e me amparando na confirmação da minha hipótese, já que havia vários pontos em comum.
Iniciarei esta comparação pela questão que mais me chamou a atenção: ‘os pais’. Quem eram os pais? Como era a vida deles e o casamento? Qual a função desse filho na vida do casal?
Antes do nascimento da criança, os pais desenvolvem uma grande atividade imaginária. A imagem que cada um dos pais tem de si mesmo, a perspectiva educativa que concebeu – anterior até mesmo a qualquer encontro, casamento, ou ideia de um casal constituído – predeterminam sua relação ulterior com a criança. Cada um dos pais, portanto, vive separadamente, muitas vezes, à sua própria revelia, o porvir de sua descendência.
A espera de um filho é momento crucial na vida do casal e, em muitos aspectos, um momento essencial para o futuro desta criança. Colore, de fato, todos os desejos, propaga-se, irradia-se, ao mesmo tempo em que, pela primeira vez, coloca os pais frente a dimensões temporais e às conseqüências de sua relação.
Se por um lado a criança se insere na expectativa dos pais, a expectativa do filho se instala muitas vezes como um desafio. É um desafio ao tempo, um desafio à morte, perpetuação tão esperada. Para o adulto, trata-se principalmente de vencer o efêmero. Portanto, as pessoas ‘fazem’ um filho tanto para si mesmas, quanto para ele próprio. Em vários aspectos, apesar de desejar conscientemente que o filho se realize, os pais pedem-lhe que realizem a eles, pais; encarregam-no, muitas vezes até de projetos pessoais abortados. É por essa razão que observamos com freqüência, nos comportamentos educativos dos pais, aspectos desconcertantes, ambíguos e até contraditórios.
Max Graf era um dos integrantes do grupo de estudo de Freud. Em 1903 nasce seu filho: Herbert Graf (o pequeno Hans). Em 1905, Freud escreve os ‘Três Ensaios Sobre A Teoria da Sexualidade’, escandalizando a sociedade vienense. Ele precisava provar que a sua teoria não era mera ficção científica. Assim, Max passa a observar o seu filho, escrevendo para Freud o que ia notando no comportamento do menino que comprovava a teoria escrita pelo seu professor e mestre. Ele agrega ao papel de pai o de observador e de cientista, que tolera todas as pequenas perversões do filho em nome da ciência. A criança acaba ficando entregue a sua própria mercê. De um lado havia uma mãe muito sedutora que ‘mimava’ (fazer carinhos) a seu filho e, de outro um pai que não exercia a função de interditar esta ligação libidinosa entre mãe e filho para poder comprovar a teoria da sexualidade infantil de que toda criança é um pequeno perverso polimorfo.
O pequeno Hans é a perspectiva do pai de salvar o mestre e para a mãe a de completude, o falo que lhe foi negado pelo nascimento e adquirido, simbolicamente, através do filho. Porém, como foi dito anteriormente, há contradições no comportamento dos pais. A própria mãe que tanto o desejava como representante de uma falta, é quem introduz a castração quando o flagra se masturbando e lhe diz que ele poderia ficar sem o seu pipi. O pai que não exerce a função educativa paterna, mas que fica preocupado quando o filho passa a não querer mais sair de casa e apresentar medo por cavalos.
Já no caso de Carlos, há um casal que espera por um filho por quatorze anos, lançam mão de recursos não convencionais e quando a criança nasce a mãe entra em depressão, com medo de não dar conta de cuidar do filho que tanto queria. O pai, de origem oriental, vem de uma cultura onde a educação da criança fica por conta da mãe, posicionando-se apenas como provedor. Acata todas as decisões da esposa, deixando que a família se mude para o interior sem que ele possa acompanhá-los. Não interfere quando a mãe resolve se trancar no quarto com o filho, mesmo quando ele está presente nos finais de semana. Começa a se preocupar somente quando o filho demonstra comportamentos inadequados de querer se matar e apresentar fobia por cães.
Em seu livro, ‘Infertilidade e Reprodução Assistida’, Marina Ribeiro (2004), nos fala sobre o desejo narcísico de ter um filho: “Afinal, por que é importante gerar um filho? Por que é tão dramático quando um casal se vê impossibilitado de realizar esse desejo? A situação da infertilidade parece promover ou reativar uma profunda ferida narcísica nos casais, revelada por intensos sentimentos de inferioridade diante dos outros, de vergonha e baixa auto-estima.” (pág. 56)
O desejo de um filho, no período fálico feminino, é de que a mãe dê um filho para a menininha e de que esta também possa dar um filho para a mãe. O desejo que mobiliza a menina a voltar-se para o pai, é o de possuir o pênis que foi negado pela mãe. O desejo pelo pênis deve ser substituído pelo desejo por um bebê. Há uma primitiva equivalência simbólica pênis-bebê. Poderíamos dizer que, para Freud, o desejo da mulher de ter um filho é um tipo de compensação pelo fato de não possuir um pênis.
Se não ter um filho gera uma falta, tê-lo significa preenchê-la? Então porque este casal, com a falta preenchida, não consegue contê-lo? Será que a espera foi tão longa que Carlos não pode dar conta de todas as expectativas desses pais? Ou o narcisismo deles é tão grande que o filho não pode preenchê-lo?
Tanto Hans como Carlos ficam à mercê de uma experiência científica com a qual não sabem lidar. Hans e Carlos ficam sem a função paterna, sem a interdição do incesto, criando uma angústia avassaladora. As mães dos meninos investem toda a libido nos falos que as complementam, os filhos, mas depois caem na própria armadilha, de não saberem como lidar com as angústias dos mesmos.
Outra questão é a ansiedade excessiva apresentada por essas duas crianças. De onde vem toda essa ansiedade? Freud vai dizer que a angústia tem a ver com a sexualidade. O mecanismo da neurose de angústia deve ser buscado numa deflexão da excitação sexual somática da esfera psíquica e no consequente emprego anormal dessa excitação.
A neurose de angústia é produto de todos os fatores que impedem a excitação sexual somática de ser psiquicamente elaborada. As manifestações da neurose de angústia aparecem quando a excitação somática que foi desviada da psique é subcorticalmente despendida em reações totalmente inadequadas.
A psique é invadida pelo afeto de angústia quando se sente incapaz de lidar com uma tarefa (um perigo) vinda de fora; e fica presa de uma neurose de angústia quando se percebe incapaz de equilibrar a excitação sexual vinda de dentro, ela se comporta como se estivesse projetando tal excitação para fora. O afeto e a neurose a ele correspondente estão firmemente inter-relacionados. O primeiro é uma reação a uma excitação exógena, e a segunda, uma reação à excitação endógena análoga. O afeto é um estado que passa rapidamente, enquanto a neurose é um estado crônico, porque, enquanto a excitação exógena age num único impacto, a excitação endógena atua como uma força constante; criando-se assim o círculo vicioso pernicioso.
Hans e Carlos ficaram presos numa teia de excitação que não sabiam como se desvencilhar. De fora toda a euforia de ter um objeto de amor só para eles, de mães que os levam para a cama no intuito de protegê-los e ‘mimá-los’. De dentro todo um desejo e uma excitação sexual que acompanha este ficar junto e com o qual não sabem lidar.
Uma histeria de angústia tende a desenvolver-se mais e mais para uma fobia (terceiro aspecto que me chamou a atenção). Nada lhe resta, a não ser cortar o acesso a todo possível motivo que possa levar ao desenvolvimento da ansiedade, erigindo barreiras mentais de natureza de precauções, inibições ou proibições; e são essas estruturas protetoras que aparecem sob a forma de fobias e que constituem a essência da doença.
Tanto Carlos como Hans se vêem numa trilha de mão única, ter que cortar todo acesso possível que possa gerar ansiedade; já que não existe a castração vinda de fora, colocada pelos pais, têm que fazer um deslocamento para outro objeto que contenha a possibilidade de realização de seus desejos. Hans deslocou para o cavalo com medo que o mordesse e arrancasse o seu pipi e, Carlos deslocou para cães.
A reação ao perigo é uma mistura de afeto, ansiedade e de ação defensiva; causando um estado de preparação para o perigo, havendo um aumento da atenção sensória e da tensão motora. Este estado de preparação termina na geração de ansiedade. Uma pessoa se protege do medo por meio da ansiedade. O que reúne a combinação descrita acima é a repetição de alguma experiência significativa determinada; sensações desprazíveis, perigo mortal, repetida como estado de ansiedade.
Se a angústia está sempre vinculada à repressão da sexualidade, Freud introduz o Complexo da Castração como fator que desencadearia o estabelecimento das diferenças sexuais (ausência ou presença do pênis); o menino evocaria e temeria a castração como a realização da ameaça paterna em resposta às suas atitudes sexuais; enquanto a menina se ressentiria da ausência do pênis como um dano sofrido que seria preciso negar, compensar ou reparar.
Sob a primazia do Complexo da Castração, operam-se reorganizações profundas na criança. Permitem, em particular, estabelecer as identificações maternas e paternas e organizar de outra forma às trocas individuais; mas para que essas novas leis de circulação das trocas possam ocorrer convenientemente, para que todas essas operações sejam realmente organizadoras, para que dêem à personalidade uma maior coerência e unidade, é preciso ainda que o indivíduo integre sua sexualidade e adquira de alguma maneira, o sentido de seu sexo. Melhor dizendo, é preciso que ele consiga vencer o Complexo de Castração e que não reviva, sem cessar, a angústia da perda.
Carlos e Hans revivem sem cessar a angústia de perda, a perda do objeto amado, que lhes foi retirado subitamente, não por uma interdição paterna, mas por circunstâncias da vida. Hans, com o nascimento da irmã, é retirado do quarto dos pais de maneira repentina; e Carlos, com o retorno para São Paulo, também é retirado do quarto dos pais.
Tanto Hans, como Carlos estavam respondendo às atitudes fálicas de suas mães e a uma aceitação passiva de seus pais em relação às esposas. Os pais eram quem tinham os pênis, porém eram pais desvalorizados pelas mães.
A criança fóbica busca um objeto externo para tentar resolver seus conflitos. Diante da problemática conflitiva edípica, o problema em questão é aceitar a impossibilidade de realizar seu desejo e de afrontar sua raiva, seu ciúme, sua rivalidade e acima de tudo, seu sentimento de ser incapaz.
O filho edípico é tanto um filho com o genitor do sexo oposto quanto um filho com o genitor do mesmo sexo. A bissexualidade é responsável pelo conflito edipiano dar-se tanto em sua forma positiva quanto em sua forma negativa, e pela ambivalência nas relações com os pais. Freud no seu texto ‘O Ego e o Id’ (1923), escreve:
“Um estudo mais aprofundado geralmente revela o Complexo de Édipo mais completo, o qual é dúplice, positivo e negativo, e devido à bissexualidade originalmente presente na criança. Isto equivale a dizer que um menino não tem simplesmente uma atitude ambivalente para com o pai e uma escolha objetal afetuoso pela mãe, mas que, ao mesmo tempo, também se comporta como uma menina e apresenta uma atitude afetuosa feminina para com o pai e um ciúme e uma hostilidade correspondente em relação à mãe. É este elemento complicador introduzido pela bissexualidade (…). Pode mesmo acontecer que a ambivalência demonstrada nas relações com os pais deva ser atribuída inteiramente à bissexualidade”. (pág. 47)
Talvez por isso, por esse amor ao pai e hostilidade em relação à mãe, Carlos e Hans precisaram deslocar o medo para animais, preservando o objeto bom internalizado, sendo o superego a instância que não lhes permitiu se sentirem castrados pelos pais, pois um pai tão amoroso não pode ser odiado por ficar com o objeto que tanto queriam para eles, a mãe.

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FOBIAS, MEDOS, ANGÚSTIA DE ANIQUILAMENTO, E ANGÚSTIAS IMPENSÁVEIS. Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu – Parte II

CONFUSÃO DE LÍNGUAS, DE CONCEITOS, OU DE TERMOS?

Como apaixonada que sou pela psicanálise, pelo seu fundador, criador, e seus seguidores, não poderia deixar de tentar esclarecer um pouco a confusão dos termos que apareceram na descrição de um sintoma que atualmente se presentifica cada vez mais na clínica.
Fobia – termo derivado do grego phobos e utilizado na língua francesa como sufixo, para designar o pavor de um sujeito em relação a um objeto, um ser vivo ou uma situação.
Tal como utilizado em psiquiatria por volta de 1870, como substantivo, o termo designa uma neurose cujo sintoma central é o pavor contínuo e imotivado que afeta o sujeito, frente a um ser vivo, um objeto ou uma situação que, em si mesmos, não apresentam nenhum perigo real.
A utilização da expressão histeria de angústia deu lugar a palavra fobia; introduzida por Wilhem Stekel em 1908 e retomada por Freud, a histeria de angústia é uma neurose de tipo histérico, que converte uma angústia num terror imotivado, frente a um objeto, um ser vivo ou uma situação que não apresentam em si nenhum perigo real.
Entre os sucessores de Freud, a palavra tende a se sobrepor à ideia de histeria de angústia. (Dicionário De Psicanálise – Elisabeth Roudinesco e Michel Plon, pág. 243).
A seguir alguns conceitos de angústia, aniquilamento e medo:
Angústia Real – (Realangst) termo utilizado por Freud no quadro da sua segunda teoria da angústia: angústia perante um perigo exterior que constitui para o sujeito uma ameaça real. (Vocabulário da Psicanálise – Laplanche e Pontalis, pág. 26)
Angústia Automática – (Automatishche Angst) reação do sujeito sempre que se encontra numa situação traumática, isto é, submetido a um afluxo de excitações, de origem externa ou interna, que é incapaz de dominar. A angústia automática opõe-se para Freud ao sinal de angústia. (ibidem – pág. 26 e 27).
Aniquilamento – Klein, em 1946, assumiu a visão de que, central à experiência mais arcaica, está o medo da aniquilação pessoal, semelhante ao que é sentido por pacientes psicóticos, sendo esta a maneira pela qual a pulsão de morte é experienciada como operando dentro da personalidade.
O medo da aniquilação foi postulado por diversos psicanalistas, Jones (1927), por exemplo, postulou a existência de uma perda catastrófica, a afanisias, um temor que se estendia, mais além da castração, a uma privação de todos os instrumentos possíveis de prazer e, portanto, da existência. (Dicionário do Pensamento Kleiniano – Hinshelwood, pág. 232).
Medo da Loucura – Para Ferenczi, todo medo da loucura é o medo de re-experimentar o trauma, ou seja, o medo de reviver uma experiência de loucura já experienciada. A ausência de um registro consciente dessa vivência de enlouquecimento se deve exatamente ao fato de o paciente ter fracionado seu ego no momento do trauma. Em outros casos, a situação traumática ocorre em um momento tão inicial do desenvolvimento emocional do sujeito, em que não existe ainda um ego que possa registrar essa experiência. O que resta é apenas uma sombra de enlouquecimento pairando ameaçadora sobre o paciente. (Dicionário do Pensamento de Sándor Ferenczi: Uma Contribuição à Clínica Psicanalítica Contemporânea – Kahtuni, H. e Sanches G., pág. 249).
Medo do Colapso – Winnicott fala de uma situação em que o medo é da loucura, um medo à ausência de ansiedade na regressão ao estado não-integrado, ou à falta do sentimento de viver dentro do corpo etc. O medo, portanto, é de que não haja ansiedade, o que implicaria numa regressão da qual não haja volta: a desintegração da organização do ego. (Winnicott, 2000, pág. 167) “Em linguagem leiga, o colapso significa o surto psicótico.” (Lowen, 1980, pág. 158).
Observem: fobia, histeria de angústia, angústia real, angústia automática, aniquilamento, medo da loucura, ansiedade e medo do colapso. Todas as definições pesquisadas apontam para um sofrimento mental que tanto poderá ser real ou inexistente (fantasioso), não importa, entretanto mobilizam paralisações de um viver de maneira mais criativa, sem tantas dependências, gerando um círculo vicioso pernicioso. O sujeito não consegue se livrar do sofrimento, ou consegue por certo período para depois retomar, vê-se pouco progresso na análise, porque o paciente permanece “inventando” situações conflitantes, situações ansiógenas, que possam justificar o seu medo, porque, para ele, as ansiedades já são velhas conhecidas e espera por elas, enquanto viver situações onde não há conflito parece ser um risco. Segundo Balint: “Quanto pior, melhor”. (1955)
Na clínica, tenho pacientes que não conseguem se desvencilhar do cônjuge pelo medo da solidão, por mais que já vivam na solidão a dois sem o perceber; vivenciaram na infância um ambiente hostil e permanecem na dependência do outro com medo de não darem conta da existência se estiverem sozinhos, sentindo-se impotentes. Atendo crianças com medo de crescerem e até de aprender, pois se conseguirem integrar, as defesas cairão por terra; também a primeira infância não foi tranquila, não podendo dar “continuidade de ser”, desenvolveram ansiedades associadas a falhas nas técnicas do cuidar, ansiedades que as fariam sentir-se ameaçadas pela loucura. Jovens adolescentes procuram uma maneira de poder escolher a profissão, baseados no seu interesse e não nas expectativas dos pais, mas têm medo de decepcionar, de deixar de serem amados, ou de não suportarem a pressão das expectativas desses pais.
Se vocês leitores prestarem atenção nas definições de angústia ou fobia, dadas pelos vários autores, verão que há uma diferença entre a definição postulada por Freud e as de outros teóricos da psicanálise. Para Freud a questão reside no medo da castração, fase fálica. Ferenczi, Klein e Winnicott falam de uma ansiedade que se dá no início da história do indivíduo, onde ainda não há o desenvolvimento do ego, nos primeiros registros mnêmicos. Atendi um paciente que entrava em fobia quando não sentia o cheiro característico de sua casa, porque ainda bebê foi deixado na casa dos avôs para ser cuidado por eles, porque a mãe e o pai necessitavam trabalhar. Toda vez que ia de férias para a casa dos tios telefonava para os pais solicitando que fossem buscá-lo, porque estava angustiado, o cheiro da casa dos tios não era o mesmo da casa dele.
Outros autores, não psicanalistas, chamam a atenção para o atual momento contemporâneo vivido pelo homem: “A doença mais temida do planeta não é o câncer, nem a aids, mas o pensamento conflituoso do homem. É esse o esteio sobre o qual se apoia a habitual visão do mundo, o verdadeiro assassino planetário.” (Elio D’Anna, pág. 10)
E prossegue dizendo que a dependência é medo. “A dependência é uma doença do ser!… Nasce de sua própria incompletude. Depender significa deixar de acreditar em si mesmo. (Idem, pág 19)
Ora, qual será a origem do pensamento conflituoso do sujeito? O ser humano nasce totalmente dependente e necessita de outro ser humano para ampará-lo enquanto ainda não consegue se sustentar sozinho. Winnicott nos fala de uma dependência total, passando por uma dependência parcial até conseguirmos a nossa independência. Então, o que deveria se tornar algo comum, gera conflitos e muitas vezes não conseguimos viver a independência por medos. Mas medo do quê? O que no nosso caminho para a independência, para o crescimento gerou o medo? Autores que trabalharam com crianças nos apontam algumas direções para pesquisarmos na descoberta destes conflitos geradores de dependência e de medo. Pais e mães que vivenciaram um conflito transgeracional, transmitem para seus filhos o mesmo conflito, infligindo dependência e medo? O que poderemos fazer quanto a isso, somente entender e acolher? Será que somente esta atitude ajudará àqueles que sentem medo? Como será que poderemos desenvolver a confiança e a atitude positiva de se acreditar, se muitas vezes na infância o sujeito só recebeu mensagens negativas e de autodestruição? Será que só a escuta e a compreensão bastarão?

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