Se pararmos para ler atentamente os pressupostos da construção de sujeito perverso em Freud, Klein e seus seguidores, veremos que não há grandes diferenças entre as duas teorias.
Freud, por ser o primeiro a observar e tentar descrever a organização psíquica deste sujeito, vai nos mostrando um histórico pelas suas pesquisas e descobertas. Desde a histeria, com a volúpia nas dores mais atrozes do sofrimento humano; passando pelas pulsões e a sexualidade humana. As pulsões que invadem o aparelho psíquico em busca de um meio de realização de desejo e, a sexualidade humana essencialmente pervesa-polimorfa, onde o gozo seria a finalidade. Desta maneira, as construções neuróticas seriam as formas de defesas contra as demandas imediatas de gozar, cujos produtos seriam os sintomas presos entre a cena perversa e os recalques do sujeito.
Quando descobre o fetichismo, percebe que é a maneira do sujeito de recusar a entrar em contato com a experiência de castração e a reconhecer a diferença sexual. O reconhecimento da castração materna é algo da ordem do horror, apresentando um efeito devastador no psiquismo: fragmentação do ego, excesso de investimento narcísico para fazer contraponto à fragmentação.
No funcionamento perverso, o desejo do outro não pode ser reconhecido e nem valorizado, porque a individualidade perversa seria lançada na devastação psíquica, sendo impedida de colocar em ação sua voracidade de poder.
Klein quando constrói a sua teoria das posições, percebe que há momentos em que o ego do sujeito está completamente estilhaçado e em outros há a integração do ego, podendo lidar melhor com a realidade; chama a primeira posição de esquizoparanóide e a segunda de depressiva. Uma das angústias da primeira posição é a angústia de aniquilamento do ego, identificando-se com o objeto persecutório, criando um superego mau para dar conta do objeto mau. O sentimento de culpa não se sustenta e o sujeito atua.
Vemos que nas duas teorias aparece a desintegração do ego ou um investimento narcísico exacerbado para dar conta da recusa em aceitar a castração.
No exemplo do romance de Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray, a personagem principal faz uma identificação projetiva, como defesa, ao projetar toda a sua culpa e perversidade no seu retrato, que é a fidedigna representação de si mesmo.
Piera Aulagnier vai nos remeter a uma estrutura psíquica, fundamentando esse seu parecer com três elementos que para ela aparecem no aparelho psíquico do sujeito perverso. A ‘recusa’ é ser o único representante do desejo da mãe; a ‘lei’ é o contrato estabelecido entre o perverso e seu companheiro(a), sendo o gozo um dever, um sacrifício; o ‘desafio’ é o escândalo que ele provoca, desafiando o real.
Rosenfeld cria o conceito de fusão patológica, quando a pulsão de morte captura a pulsão de vida e coloca-a sob o seu julgo, sendo então libidinizada por ela. Esta fusão patológica é uma das características da dinâmica da perversão. Estamos falando de fusão patológica em Klein, mas também em pulsão de vida e de morte, em Freud.
Há ainda a alusão ao casal perverso, onde a importância é dada ao olhar do outro, observado por Jean Clavreul, como o cúmplice do ato perverso. Para ele, a cumplicidade é necessária para a criação do campo da ilusão.
Perversão, para as duas teorias, é uma doença do superego; é um mau funcionamento do superego que pode gerar essa organização psíquica.
Flavio Carvalho Ferraz ainda vai chamar a nossa atenção para a recusa ao tempo, onde o sujeito se recusa a aceitar o conceito de temporalidade, porque o conceito de tempo é o que nos insere na realidade. Aceitar que estamos inseridos dentro de um espaço de tempo, é aceitar que envelhecemos e que não seremos para sempre o falo da mãe.
REFERÊNCIAS
• BIRMAN, J. – “Mal-Estar na Atualidade” – Civilização Brasileira – Rio de Janeiro – RJ – 2003.
• BRENMAN, E. – “Crueldade e Estreiteza Mental”, in Melanie Klein Hoje, Vol. I – Imago, RJ – 1991.
• CALICH, J. C. e BERLIM, G. I. – “Sobre Psicanálise e Psicanalistas” – Primeiro Livro de Entrevistas da Revista de Psicanálise da SPPA – Casa do Psicólogo, SP – 2003.
• CLAVREUL, J. – “O Desejo e A Perversão” – 1990 – Papirus Editora – SP –
1967.
• COLOGNESE JR, A. – “Um Estudo Sobre A Perversão, in A Trama Do Equilíbrio Psíquico – Edições Rosari Ltda, SP – 2003.
• FERRAZ, F. C. – “Perversão” – 2001 – Casa do Psicólogo – SP – 2001.
• ___ – “Tempo e Ato na Perversão – Casa do Psicólogo, SP – 2005.
• FREUD, S. – “Três Ensaios Sobre A Teoria Da Sexualidade” – Primeiro Ensaio – Imago Editora – RJ – 1905.
• _ – “Uma Lembrança Infantil De Leonardo Da Vinci” – Imago Editora – RJ – 1910.
• _ – “Uma Introdução Ao Narcisismo” – 1914 – Volume XIV – Imago Editora – RJ.
• _ – “Breve Resumo Da Psicanálise” – Volume XVIII – Imago Editora – RJ
• _ – “Fetichismo” – 1927 – Volume XXI – Imago Editora – RJ.
• JOSEPH, B. – “Uma Contribuição Clínica Para A Análise De Uma Perversão”, in Equilíbrio Psíquico E Mudança Psíquica – Imago, RJ – 1992.
• __ – “O Vício Pela Quase Morte”, in Melanie Klein Hoje, Vol. I – Imago, RJ – !991.
• _ – “Sobre Passividade E Agressividade: Sua Interrelação”, in Equilíbrio Psíquico E Mudança Psíquica – Imago, RJ – 1992.
• LANTERRI, L. G. – “Leitura Das Perversões” – Jorge Zahar Editor, RJ – 1994.
• MELTZER, D. – “Sexualidade Polimorfa Adulta”. “Sexualidade Polimorfa Infantil”. “Sexualidade Perversa”, in Estados Sexuais Da Mente – Imago, RJ – 1979.
• ROSENFELD, H. – “Uma Abordagem Clínica Para A Teoria Psicanaíltica Das Pulsões De Vida E De Morte: Uma Investigação Dos Aspectos Agressivos Do Narcisismo”, in Melanie Klein Hoje, Vol. I – Imago, Rj – 1988.
• ROSENFELD, H. – “Observações Sobre A Relação Da Homossexualidade Com A Paranóia, A Ansiedade Paranóide E O Narcisismo”, in Os Estados Psicóticos – Zahar Editores, RJ – 1968.
• SPAIRANI, P. A. – “A Perversão Como Estrutura” – Revista Latino Americana de Psicopatologia Fundamental – ano VI, n.3, Set/2003 – SP.
• _ – “Observações Sobre A Feminilidade E Suas Transformações” – in O desejo E A Perversão – Jean Clavreul – Papirus Editora – Campinas – SP – 1967.
• SALEME, M.H. – “Perversão: Algumas Reflexões” – artigo (não tenho outras informações), professora do curso Formação Em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae – São Paulo, SP.
• _ – “Sobre A Analisabilidade Da Histeria. Um Pouco de História” – artigo (não tenho outras informações), professora do curso Formação Em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae – São Paulo, SP.
• SALEME, M.H. e PERDOMO, M.C. – “Sedução – Perversão – Instituição: Ligações Perigosas” – professoras e supervisoras do curso Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae – São Paulo – SP.
• SEGAL, H. –“Uma Fantasia Necrofílica”, in A Obra De Hanna Segal – Imago, RJ – 1982.
• STEINER, J. – “O Equilíbrio Entre As Posições Esquizoparanóide E Depressiva, in Conferências Clínicas Sobre Klein E Bion. – Imago, RJ- 1992.
• _ – “O Interjogo Entre Organizações Psicopatológicas E As Posições Esquizoparanóide E Depressiva”, in Melanie Klein Hoje, Volume I – Imago, RJ, 1998.
• WILDE, O. – “O Retrato de Dorian Gray”- Irmãos Pongetti Editores, RJ – 1955.