Fobias, Medos, Angústia de Aniquilamento e Angústias Impensáveis – Parte IV

Dois Garotos Angustiados e Fóbicos

A fobia de Hans por cavalos e a de Carlos por cães, simbolizam bem os conflitos enfrentados por duas crianças que temem animais que podem mordê-los, mas que ao mesmo são admirados e, por seus sentimentos agressivos contra os mesmos, podem castrá-los.
Freud em “Totem e Tabu” (1913), escreve que as fobias de crianças do sexo masculino em relações a animais eram, no fundo, medo do pai, que havia sido deslocado para cavalos, cães e outros. Ao lado do caso do pequeno Hans, cita outros, como o apresentado pelo Dr. Wulf, em que o medo que o menino sentia contra cães, era o medo do pai deslocado para estes animais e ligado a proibição de se masturbar.
Mas Freud não está falando apenas do pai de Hans e de outros casos aleatórios. O pai de Totem e Tabu é o pai imaginário, o pai onipotente da horda primitiva que possui todas as mulheres, castra seus filhos e que morto, dá origem à lei. A figura paterna passa a ser um elemento central da constituição do psiquismo humano. Porque ao interditar a mãe e mostrar à criança a existência de regras e normas para convivência entre as pessoas, ele a introduz na sociedade dos seres humanos. A criança deixa de ser um apêndice do corpo materno para tornar-se um indivíduo social, capaz de conviver com outros indivíduos sociais. Deixa de ser ‘falo’ para transformar-se em gente.
Mas o Complexo de Édipo em ‘Totem e Tabu’ também é visto como aquilo que dá origem à civilização. No antepassado mítico do clã repousa a lei. A refeição totêmica, que estava de alguma forma rememorando o assassinato do pai violento, tirânico, é o ponto de partida da organização das sociedades e de toda a sua produção posterior. O animal totêmico, portanto, estaria substituindo o pai morto – a refeição totêmica serviria igualmente para reafirmar os compromissos firmados entre os irmãos assassinos – para a sua própria segurança e continuidade cada qual renuncia uma parte de sua liberdade de exercer violentamente a força para que seja possível uma vida em comum. Em ‘Totem e Tabu’, Freud ancora o Complexo Edípico não apenas nas fantasias dos neuróticos, mas no ponto de origem da civilização, propondo assim também a universalidade do Complexo de Édipo.
Está aí posta toda a angústia e o conflito dos meninos. Como podem se sentir seguros se o pai internalizado não é um pai tirânico que estabelece a lei? Pelo contrário, é um pai passivo, companheiro, a quem só podem dedicar amor, não há lugar para o ódio. Não há outra saída a não ser deslocar o seu medo para o animal totêmico, o cavalo ou o cão, dependendo da representação que ocupam dentro do imaginário de cada um. A angústia surge toda vez que buscam segurança no superego e não encontram a lei estabelecida, a lei está fora, não foi internalizada.
Quanto sofrimento e quanta energia despendida desnecessariamente, pois a angústia vem a todo o momento em que um perigo externo assinala uma tensão motora, uma excitação vinda de dentro se junta numa combinação que determina uma ansiedade constante. Por isso o meu espanto diante da ansiedade exacerbada de Carlos, do seu querer se aproximar e antecipar um rechaço, pois a lei não foi instaurada e ele não sabe como se comportar socialmente, ainda se encontrava como um apêndice da mãe.
Estudar a histeria de angústia, através do caso do pequeno Hans, ajudou-me a entender melhor o que se passava com Carlos e a acolhê-lo com maior facilidade, compreendendo o seu sofrimento e a sua angústia, em transferência, causada por pais que não sabiam como lidar com uma criança muito querida e desejada, mas que talvez não preenchesse as expectativas deles, pais.

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