Ver e Escutar
Talvez por não ter tido a experiência de atender crianças, Freud se baseasse nas fases do desenvolvimento infantil para poder formular alguns de seus conceitos e construir sua ciência. No caso da histeria de angústia observou que a mesma é causada por um afeto convertido num terror imotivado, frente a um objeto, um ser vivo ou uma situação que não apresenta em si perigo real. Mais tarde, no quadro da segunda teoria da angústia, concluiu que ela surge perante um perigo exterior e que constitui para o sujeito uma ameaça real: a castração. No entanto, quando se fala em castração, estamos falando em uma fase pré-genital, a fálica, em que a criança estaria por volta dos três anos de idade.
Como Freud nos alerta: quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir pode observar o que o ser humano tenta esconder. Assim, ele orientava a nós, psicanalistas, a privilegiar a escuta e a observação se quiséssemos perceber o latente que se desenrola concomitante ao manifesto, bem debaixo do nosso nariz. E foi o que outros teóricos da área, que tiveram a experiência de trabalhar com crianças fizeram e descobriram angústias mais precoces no desenvolvimento infantil.
Klein descobre e passa a se interessar pelas fobias precoces, nas quais identifica angústias persecutórias e depressivas. Estas fobias seriam derivadas de angústias psicóticas, que têm sua origem no temor de ser devorado pelo superego precoce em decorrência de um aumento do sadismo oral canibalístico da posição depressiva.
Segal, discípula de Klein, concluiu pela observação de um caso de fobia grave, que a formação da fobia tem como função evitar situações catastróficas relacionadas a angústias psicóticas.
Jorge M. Mom, outro autor kleiniano, observou a fobia através do mecanismo de dissociação, postulando que a formação da fobia cria e recria uma dissociação por meio da externalização do objeto. Ele compreende a fobia como uma organização de defesa, porque o mecanismo fóbico se estrutura para evitar o fracasso da dissociação e para mantê-la e recriá-la. Sintetizando sua própria visão: o fóbico é um sujeito que, no plano histérico em que atua, controla obsessivamente suas angústias esquizóides.
Para Winnicott, a angústia nasce da falha do cuidado materno. Para ele, o cuidado materno é a condição básica para acontecer à integração. E o que ele observou em decorrência da falha é o aparecimento de angústias particulares: não-integração, gerando um sentimento de desintegração; falta de relacionamento entre a psique e soma, causando um sentimento de despersonalização; e que o centro da gravidade da consciência é transferido do cerne para a superfície. Ele também desenvolve o conceito do medo do colapso. Alguns medos comuns como o medo da morte, o medo da loucura ou do sentimento de vazio estão relacionados ao medo do colapso, que nos fenômenos psicóticos são defesas contra um colapso no estabelecimento do self unitário.
Faço aqui uma observação: talvez, se Freud tivesse ficado mais atento, no caso do pequeno Hans, para o que se desenrolava no ambiente familiar dessa criança, teria visto as falhas no cuidado deste menino e observaria que o sintoma, a fobia, não era somente uma consequência de causa exógena, mas vinha da relação mãe-bebê, criança muito libidinizada e depois rechaçada pelo comportamento ambíguo da mãe.
Fecho com a proposição ao falar em vários termos para um mesmo conceito: fobias, angústias persecutórias ou depressivas, de aniquilamento, angústias impensáveis ou medo de um colapso. O conceito ou o termo que escolhemos para representar simbolicamente um acontecimento na clínica vai depender do aporte teórico que para cada psicanalista faz mais sentido, ou está mais de acordo com a sua clínica. Não esquecendo, que por mais interessante que pareça visualizar tais fenômenos, estamos diante do sofrimento humano, e é preciso respeitá-lo e acolher.
E quem sabe, poderemos desenvolver outros conceitos, bastando ter olhos para ver e ouvidos para escutar.