Autismo e Psicose Infantil – terceira parte.

Regressão ao Estado de Autismo Secundário (A.S.R.)

 

            Há certas situações patológicas em que a criança denota ter-se desenvolvido psicologicamente, embora sobre uma base bem precária, fato que se deve à circunstância de que grande parte de sua personalidade permaneceu autística, portanto fora da esfera de influência dos que cuidam dela, mas a quem reconhece como entes com limites corporais próprios. Essa situação ocorre quando a mãe lhe responde com demasiada adaptabilidade e de uma forma sedutora, o que nem sempre por isso quer dizer que a criança não se mostre extremamente passiva e pouco dada a integrar-se, fazendo o “bebê bom demais” que encontramos nas histórias clínicas. O tempo acabará provando que essa mútua adaptação não é tão boa como parecia, ou seja, que não há bebê nem mãe “modelos” e que a relação existente entre ambos é artificial. A criança deixará de se desenvolver na áreas da personalidade em que tinha progredido um pouco e seguirá um movimento regressivo. As fantasias, que geralmente indicam certo grau de desenvolvimento psicológico, serão preservadas e como que arrastadas para o modo autístico de funcionamento, centrado nas sensações.

A avaliação do aspecto fantasia do funcionamento mental da criança é forma bastante segura de estabelecer o diagnóstico diferencial entre o autismo regressivo e o autismo secundário encapsulado ,no primeiro ela cai num fantasiar que está intimamente ligado às sensações corporais; no segundo, ela pouco fantasia.

Bleuler (1913) descreveu um quadro de autismo com uma vida de fantasia muito primitiva e considerou-o típico da esquizofrenia do adulto, o que parece ser suficiente para justificar a idéia de que devemos reservar o termo esquizofrenia infantil para as crianças com autismo regressivo. A esquizofrenia do adulto e o autismo regressivo teriam em comum o seguinte:

  • a existência de fantasias,
  • uma interrupção do desenvolvimento psicológico que parecia seguir um curso normal.

 

Comparação entre A.S.R., A.S.E. e A.P.A.

 

Já foi dito que o autismo secundário regressivo (A.S.R.) se associa habitualmente à esquizofrenia infantil e o autismo secundário encapsulado (A.S.E.) à síndrome psicótica designada por autismo da infância primitiva.

Os processos de encapsulamento do A.S.E. não são mais do que uma intensificação dos processos de envolvimento extrusivo e intrusivo que fazem parte da maneira como a mente normal funciona, ao passo que aquilo que se observa no A.S.R., é um exagero dos processos que Melaine Klein designou por identificação projetiva. E que definiu assim (Klein, 1963, pág. 58): “A identificação por projeção implica uma combinação de divisão de partes do eu e de sua projeção sobre (ou melhor, dentro de) outra pessoa”.

Parte da dificuldade de entender esse conceito reside na confusão existente entre sujeito e objeto. O que está em jogo é uma espécie de reciprocidade empática em que a comunicação se faz através de certos canais, como o tom de voz, a tensão muscular, a expressão facial, a postura e o comportamento, todos eles meios de comunicação não-verbal que nos dão a possibilidade de sentirmos no lugar do próximo e nos entendermos uns aos outros. Quando os diversos aspectos do eu se fragmentam, em minúsculos pedaços espalhados por todo o lado e dispersos em vários depósitos independentes, podemos afirmar que esses processos passaram a ser patológicos. O grau de dispersão dos aspectos que foram banidos do eu, ajudará a estabelecer um prognóstico para o tratamento psicoterapêutico dessas crianças.

Winnicott (1958), se refere a uma situação de “dupla dependência” durante a infância primitiva, advertindo-nos de que “a noção de troca se baseia em ilusão”.

Uma das impressões que as crianças com A.P.A. deixam no observador, é que são incapazes de estabelecer diferenças como qualquer criança normal, ou que o fazem apenas de modo fragmentado, porque as mães impediram.

As criaanças com A.S.E. dão a impressão de se terem embrulhado em si mesmas, estão “completamente absortas em si mesmas” e que vivenciam os objetos externos como se estes fizessem parte do corpo, o que representa uma tentativa de enfrentar o traumatismo oral da perda da unidade primitiva com a mãe.

As crianças com A.S.R. conseguem diferenciar-se da mãe de forma precária, para voltarem a estar “absortas na mãe” quando o dito traumatismo prova ser excessivo para elas.

No desenvolvimento cognitivo: as crianças com A.P.A. têm “ilhas”, as crianças com A.S.E. denotam inibição do pensar que vem do fato de negarem a existência do mundo fora de si e as que têm A.S.R. pensam desintegradas e confusamente como resultado da divisão de aspectos do eu que confundem com aspectos que pertencem aos outros.

Na relação mãe-filho: a criança com A.P.A. estbelece pouca diferença entre si (seu corpo) e a mãe, a que tem A.S.E. transforma a mãe em um “nada” ou em um absurdo, e no A.S.R. a criança sente que a mãe é uma “misturada”.

A fala tanto pode ser muito limitada a uma “algaravia” no A.P.A.; não existir de todo (mudez), ou ser como um eco nas crianças com A.S.E., que às vezes se apresentam como uma espécie de linguagem privativa ( seja como for, quando elas chegam a falar fazem-no muito mais para aliviar a tensão do que para comunicar); e ser indistinta e mal organizada, ou então prolixa e confusa, no A.S.R.

As crianças com A.S.R. movem-se frequentemente de forma tosca e pesada que contrasta com a maneira ágil, graciosa e leve das que apresentam autismo da infância primitiva, o que é o mesmo que dizer que lhes falta a qualidade etérea destas últimas; quando olham para as pessoas parecem transpassá-las mais do que contemplá-las, assemelhando-se a uma pessoa muito idosa, já incapaz de focalizar os olhos enevoados, o que é um pouco diferente do que acontece com as crianças com A.S.E., as quais evitam completamente “olhar para”.

Experiências ulteriores realizadas por Tustin levaram-na a constatar que o autismo regressivo apresenta dois tipos de quadros diferentes, a que ela chamou de A.S.R. (1) e A.S.R. (2), respectivamente. Os primeiros estádios do autismo secundário regressivo são exatamente os mesmos que habitualmente levam ao autismo secundário encapsulado: quando confrontado com o fato de que é um ente separado da mãe, o bebê passa a distinguir entre o “eu” e o “não-eu”- “conhecido”e “desconhecido”- “familiar”e “estranho”. Por numerosas razões, o “não-eu”, desconhecido, estranho, é demasiaddo aterrador para ser tolerado. Para lidar com essa situação, usará diversos meios: o encapsulamento no A.S.E. – o que significa que o estado de separação é algo que foi completamente banido da esfera consciente; a dispersão de pedaços de si mesmo pelos (pedaços) dos objetos externos que passam a ser usados como uma espécie de dispositivo de segurança no A.S.R. – o que significa que aquilo de que a criança vai se defender, é de estar vagamente consciente de seu estado de separação. Se essa dispersão não for demasiado fragmentadora ou não tiver sido ativa por muito tempo, estaremos perante um quadro de A.S.R. (1). Essa forma de autismo incide em crianças pequenas e é tratável por psicoterapia. Se, a criança não for tratada, chegará a um estado de deterioração psicológica – sequela natural do processo de dispersão contra que o encapsulamento não é medida protetora adequada – que caracteriza o quadro de A.S. R. (2). ( as curas espontâneas, possíveis no caso do A.S.E., já não o serão no do A.S.R. (2), porque a mencionada deterioração vai tornar-se rapidamente irreversível.)

Tustin faz uma analogia na comunicação entre crianças considerdas psicóticas e ao depararmos com um estrangeiro cuja língua é para nós desconhecida. Temos a sensação delirante que se gritarmos o estrangeiro poderá nos entender. Ela diz: “se quisermos que a comunicação aconteça entre nós (terapeutas e essas crianças), teremos que aprender sua “língua”e entrar, tanto quanto humanamente possível, no mundo que elas vivem. Ou, nas palavras de Bion, teremos que ser capazes de “sonhar acordados”(reverie).

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