AUTISMO E PSICOSE INFANTIL – Resumo do livro de Frances Tustin – Primeira parte

O sentido que Tustin dá à palavra autismo tem implícitas duas idéias fundamentais: a primeira, de existência de uma situação muito primitiva do desenvolvimento psicológico, e a segunda, de desenvolvimento psicológico cujo curso se desviou do habitual.

Literalmente, autismo significa viver em termos do próprio eu (self). Uma criança em estado de autismo parece centrada em si mesma, já que pouco responde ao mundo que a rodeia. Mas, paradoxalmente, uma criança nesse estado não se dá conta do que ser um eu (self) significa.

Autismo da Infância Primitiva. Trata-se de um dos estádios habituais do desenvolvimento infantil normal. Um bebê não percebe claramente a existência de um mundo externo, vivendo-o da mesma forma que os órgãos, processos e zonas de seu corpo. E, se vai emergir desse estado psicológico, é porque tem em si uma disposição inata que lhe permitirá reconhecer padrões, semelhanças, repetições e continuidades. Através desses processos mentais a criança constrói uma representação interna da realidade aceita pelos outros e toma consciência de si própria.

Autismo e Psicose. Quando os processos cognitivos primários seguem um curso francamnte desviado do habitual, diz-se que a criança é psicótica. O que irá distingui-la de uma criança neurótica é a extensão da falta de contato com a realidade. Um bebê sadio e absolutamente normal, que começa seus dias por estar fora da realidade, não pode ser chamado de psicótico, mas seguramente de autista.

Tustin sugere que os processos autísticos primários normais consistem fundamentalmente em sensações, originadas em disposições internas que ainda não chegaram ao ponto de ser apreensão, mas que, se assim o permitirem as circunstâncias, nela hão de se tornar. As ditas circunstâncias têm a ver com a maneira como a criança é criada, estando contidas na totalidade dos cuidados com que os pais a rodeiam.

Isso é o que geralmente acontece quando o desenvolvimento psicológico se processa dentro dos moldes normais. Mas, se seguir o caminho do autismo patológico, significa que as referidas circunstâncias foram quase inexistentes ou, mais frequentemente, que a capacidade de a criança receber e fazer uso dos cuidados dos pais esteve seriamente bloqueada ou desorganizada (no caso de uma criança em estado de confusão). Ve-la-emos permanecer num estado psicológico caracterizado de sensações, no primeiro caso, e regressar a ele, quando já o tinha ultrapassado, no segundo. Dito de outra forma: a criança pode sofrer uma parada ou uma deteriorização do desenvolvimento emocional e cognitivo.

Isso leva-nos à conclusão de que os autismos normal e patológico são encarados mais como diferentes graus de uma mesma e única entidade, do que como dois tipos nosólógicos diferentes. Podendo-se dizer que o autimo normal é anterior à capacidade de pensar (pré-pensamento), ao passo que o autismo patológico é um estado de antipensamento.

Depressão Psicótica

“O período de profundo desgosto e luto interno que, segundo creio, precede inevitavelmente e anuncia um estado psicótico de completo divórcio da realidade, é algo que raramente temos ocasião de ver e poucas vezes tem sido descrito…”

                                                                      Margaret Mahler, 1961

 

Winnicott chamou-o de depressão psicótica, distinguindo-a da depressão reativa, que é uma forma consciente de reagir à perda de uma pessoa amada.

 

“Pode tratar-se, por exemplo, da perda de certos aspectos da boca que desapareceram[1] para o bebê, quando a mãe e o seio desapareceram.[2] Esse fenômeno, que se observa quando a separação aconteceu antes que a criança tenha atingido uma fase do desenvolvimento psicológico que providenciaria o equipamento necessário para fazer face à perda, já não se observaria alguns meses mais tarde, quando essa perda teria a ver apenas com o objeto, e não com uma parte do sujeito.” (Winnicott 1958, pág. 222).

 

Rank e Putnam, 1953, chegaram à conclusão de que a depressão psicótica – também chamada de “depressão primitiva” _ é o acontecimento que decide da parada do desenvolvimento emocional “das crianças atípicas”(psicóticas).

Tustin descreve um caso clínico de um menino de 3 anos e sete meses que foi tratado por ela durante 3 anos, tratamento intensivo (cinco vezes por semana). Diagnosticado primeiramente como suspeita de atraso mental e depois como suspeita de autismo primitivo. A autora considerou o caso como uma depressão psicótica.

Entre os que têm estudado e escrito sobre os primórdios da relação mãe-filho nas crianças autistas, destacam-se Kanner (1943, 1944), Bergman e Escalona (1949), Rank e McNaughton (1950), Mahler (1952, 1961) e, Meltzer (1963); a maioria desses autores pensa que fatores constitucionais da criança são seguramente necesários para que o autismo se desenvolva. Meltzer (1963) escreve que essas crianças frequentemente nascem “num período em que os pais estão separados e quando há enorme agitação na família, sobretudo depressão na mãe”, conclusão que, na experiência de Tustin, foi confirmado.

A falta de poder de discriminação do bebê de tenra idade e a capacidade de adaptação da mãe, que resulta de sua identificação empática com ele sob forma de reverie (Bion, 1961, pág. 309), completam-se reduzindo a brecha existente entre as ilusões primitivas da criança e a realidade. Tais “projeções”do bebê tornar-se-ão difíceis para uma mãe com áreas de insegurança não formulada, que lhe ficaram da própria infância, e que ela só muito dificilmente consegue tolerar, e ainda mais se lhe faltar o apoio de um ambiente que a ajude a suportá-las. “Deixar ao filho a liberdade de se mover, agir e excitar-se”é, segundo Winnicott (1958, pág. 310), tarefa difícil para essas mães. Se o bebê for, além disso, uma criança particularmente ansiosa, chega-se a uma situação dolorosa ao extremo. Sente que a sua ansiedade não será “contida”, sarada ou modificada pelo que a mãe lhe dá ou faz.

A capacidade de dar apoio a um bebê inseguro parece estar relacionada com a de dar atenção. Se a mãe for insegura e infeliz, sucumbirá facilmente ante os ataques à sua capacidade de dar atenção ao filho, ou seja, de o “conter”por sua impossibilidade de estar alerta. Os ditos ataques tanto podem vir de si mesma, de problemas infantis irresolvidos, como das pessoas e acontecimentos externos, do próprio filho e, de todos eles combinados. Se a mãe está presente em corpo, mas não em espírito, provoca a mesma vivência no filho. Há que sublinhar que não é porque quer, mas que não pode fazer de outra forma, que ela está espiritualmente ausente, e que a “a situação contensora”também pode ser afetada pela relação existente entre os pais, na medida em que esta condicionará a forma como a mãe vai lidar com a criança, que é quem está a mais.

Se essa situação não for desmantelada, deixará o bebê sozinho face a ansiedades intoleráveis e desproporcionais e às custas de enorme esforço e tensão que se vão acumulando. E o veremos fazendo uso do próprio corpo como se fosse o da mãe e a usar o dela como seu, o que lhe vai dar uma ilusão de continuidade, proteção psicológica de que tanto necessita, mas não irá deixá-lo sair do estado de indiferenciação e confusão com a mãe.

São diversos os fatores que podem levar ao sentimento de desenraizamento traumático, ou seja, de ser brutalmente arrancado da ilusão primitiva de ser um com a mãe. Um deles é a separação geográfica real; outro, as doenças físicas nos primeiros meses de vida; e um terceiro fator possível são as perturbações intra-uterinas. Rubinfine (1961) menciona que as crianças expostas a esse tipo de experiência, “dar-se-ão prematuramente conta de que o objeto é algo separado do eu”. Bergman e Escalona (1949) sugerem como quarto fator, a existência de hipersensibilidade constitucional combinada com uma experiência precoce de separação corporal, numa situação em que foi impossível fazer uso do “escudo protetor materno contra os estímulos”, e Winnicott (1958) opina que essas crianças tiveram que “reagir demasiado cedo”.

Quando o bebê – criatura em que a integração psicológica é muito frouxa – sofre o impacto da separação corporal, entra num estado de alarme, feito de susto e raiva, vivenciado como estar túrgido, cheio de substâncias venenosas. Com coisas que ela sente se expelirem do corpo, fabricará uma espécie de capa de segurança, que porá em volta do objeto, tornando-o assim parte da estrutura frouxa de que se sente composta. Como não há esperança de integração para o objeto, ele será novamente expulso e com os mesmos resultados, à medida que o terror da criança aumenta. Isso quer dizer que o núcleo do objeto de pesadelo é um terror de morte de que ela tenta escapar ao sair do próprio corpo e entrar noutro, que fez para si. Trata-se de uma manobra cíclica que se destina a por fim a um estado de coisas altamente indesejável.

Contanto que as diversas camadas de “concha”protetora dessas crianças não se tenham amalgamado irreversilvelmente, será ainda possivel ajudá-las a desenvolver-se psicologicamente. Segundo Tustin, é mais provável que uma criança “crustácea”seja tratada com êxito do que uma criança “amebiana”. Por “amebianas”, designa as crianças passivas e flácidas cujo comportamento está muito mais próximo de uma resposta fisiológica automática – como uma crise de tremor muscular, uma série de espirros, bocejar e tossir – do que qualquer outra forma, mais elaborada, de reação. Sugar a própria língua, fazer bolhas de saliva, pular no meio de grande excitação, estalar os dedos e retesar os músculos serão suas formas de tentar não se dar conta de um choque a que as crianças mais flácidas teriam certamente sucumbido. Ou seja, as “crustáceas” tentam fazer face à depressão psicótica encapsulando-se. O trágico é que se arriscam a ficarem para sempre isoladas da vida e das pessoas, já que têm uma concha externa particularmente desenvolvida, em lugar de um simples seio interno.

Quando estudamos o autismo primário, estamos claramente estudando um eu (self) em forma embrionária.

Para que o bebê possa enveredar pelo caminho da integração psicológica, será necessário, que possua um sentimento interno que é capaz de “ligar”, sentimento este que derivará das experiências de satisfação, que ele vive quando se sente a circundar o mamilo com a boca, ou quando se ente envolvido pelos braços da mãe e contido no clima criado pela atenção afetuosa desta. Integração significa a combinação das várias áreas da personalidade num todo, e a do eu emergente com os vários elementos de uma situação em que outros “quereres”, além do seu, existem. A ausência desse aentimento de ligação primária levará à hipertrofia compensadora dos processos de centralização no próprio corpo. Adquirindo todas as características de um sistema fechado, comparável a um cão correndo atrás do próprio rabo! Seu desenvolvimento psicológico passará a ser descontrolado e “falso”daí em diante, já que falho da integridade básica essencial à insercão na realidade externa.

É praticamente impossível dizer quando é que a criança entra no estado de autismo primário normal, por duas razões fundamentais: porque lhe falta a possibilidade verbal de transmiti-lo; porque nós mesmos não estamos de posse da recordação consciente do fato. Bion sugere que quando a mãe “sonha acordada”, está cmo que abrindo uma porta para o filho entrar naquele estado, e Winnicott chama a atenção para o fato de que a ausência da “situação contensora”primária dará ao bebê a certeza de que ela existe, deixando implícito que uma maneira de aprofundar nosso conhecimento sobre o autismo primário, cosistirá em estudar crianças em que esse processo não parece ter-se desenvolvido de forma normal, tendo os processos de autismo secundário tomado seu lugar. Daí a conclusão de que é mais fácil investigar o autismo patológico do que o normal.

Nota-se que o autismo patológico é muito diferente do autismo primário normal, sobretudo devido à rigidez, perseveração e falta de receptividade que o caracterizam.

Quando o desenvolvimento psicológico se processa normalmente, as respostas de uma mãe atenta às comunicações corporais do filho vão conter em si nem mais nem menos do que aquela pequena diferença qualitativa que é tudo quanto este consegue suportar. O que significa que a mãe não está tão cheia de suas próprias inquietações que não possa ajudá-lo a fazer face às suas. Ela não se sente de pés e ãos atadados, como se sentiria se sofresse as mesmas dores que o filho – se reagisse com demasiada empatia. Quando lhe tem simpatia, ou seja, quando se sente envolvidamente desapaegada dele, estará contribuindo para lhe aliviar o sofrimento.

O processo de identificação com um ser humano ordinário, em lugar de um objeto extraordinário feito à imagem e semelhança das substâncias e dos processos de seu corpo, terá começado para o autista. Esse estado psicológico é essencialmente caracterizado pela possibilidade de estabelecer uma certa diferença entre pessoas e “coisas”, marcando o início do caminho da introjeção e identificação com uma mãe que é capaz de tolerar a dor de ser um ente com limites corporais próprios. É o momento em que a criança começa a ser percebida como pessoa viva e pensante. É o ponto em que a psique, se inicia, e em que, de psicologicamente viável, a criança passa a ser psicologicamente continente. A enorme capacidade das crianças de fazerem isso por si mesmas, quando auxiliadas por um profissional que as estimule, nos surpreende e nos obriga a sermos humildes.

Para que isso ocorra, o bebê necessitará primeiro aprender a tolerar o fato de que as pessoas (do mundo que o rodeia) nem sempre são conforme o modelo de bem-aventurança que lhe completa as atividades instintuais, ou seja, necessitará aprender a tolerar a “divina insatisfação”.

Sensações que contêm em si a expectativa de uma forma de satisfação muito além das possibilidades humanas – por isso mesmo voltada a nunca encontrar a resposta esperada e a contribuir para aumentar sua frustração – tornam cumulativa essa situação. Essa situação cumulativa tem sido designada por autismo secundário patológico.

Tem sido clinicamente deduzido que não é possível ao bebê esperar por quem cuida dele, devido ao sentimento interno de “eriçada” frustração que a espera origina, com o consequente aumento da necessidade de mobilizar sensações corporais internas que o façam sentir-se “como se” tivesse, ali à mão, o cuidado de que precisa. Isso quer dizer que o bebê está constantemente entrando em ação, como se impulsionado por uma mola, devido a um sentimento de aguilhoamento interno que deriva da frustração de sentir que o fluxo de matéria corporal chegou ao fim. Essa inclinação natural pode eventualmente ser reforçada por uma mãe que tenda a propulsioná-lo a atuar, incrementando sua tendência a reagir exageradamente aos estímulos. As crianças psicóticas têm várias maneiras de escapar a esse aguilhoamento – que vem de si mesmas e dos outros. No caso concreto dos estados de autismo, a impressão de que a criança se sente quase permanentemente “confortável” reflete aquele sentimento de satisfação consigo própria e de pseudo-auto-suficiência, tão característico dos processos autísticos e tão responsável pela enorme dificuldade em revertê-los, sobretudo quando datam de muitos anos.

[1] Está aqui implícito que a representação psicológica que o bebê tem de sua boca é que sofre a perda.

[2] O desaparecimento tem mais a ver com o distanciamento físico da mãe (ou seu substituto).

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