“Mudança de Visão e de Escuta” segunda parte.

No Dicionário do Pensamento Kleiniano de Hinshelwood (1992), ele escreve:

“As fantasias inconscientes estão subjacentes a todo processo mental e acompanham toda a atividade mental. Elas são a representação mental daqueles eventos somáticos no corpo que abrangem as pulsões, e são sensações físicas interpretadas como relacionamentos com objetos que causam essas sensações. Irrompendo a partir de sua instigação biológica as fantasias inconscientes são transformadas por duas maneiras:

  • Pela mudança através do desenvolvimento dos órgãos para a percepção à distância da realidade externa;
  • Pelo surgimento no mundo simbólico da cultura, a partir do mundo primário do corpo.”(pág. 46).

 

Possivelmente Olga tinha a fantasia inconsciente de não ter sido um bom bebê, ou o bebê que sua mãe gostaria de ter tido, por isso a raiva quando via bebês na rua, ou mesmo em fotografias. Conseguindo elaborar esta sua fantasia quando pode agredir com argila=fezes, numa equação simbólica, o bebê que encontrou na revista, iniciando então a reconstrução de um outro bebê.

Esta sua fantasia inconsciente gerava muita angústia, tendo que jogá-la para o corpo com medo da sua agressividade e da sua raiva que eram muito intensas. Por isso a sua hipotonia corporal, uma maneira de neutralizar o corpo para não agredir com veemência os objetos bons internalizados e também uma forma de não ser agredida por eles – “cuidado comigo, olha como sou frágil!     

No mesmo dicionário citado acima, Klein fala da criação de um círculo vicioso (pág. 65):

“A preocupação especial com a agressão, e as consequências vingativas que despertam medo e agressão, são autoperpetuantes. Os ataques aos perseguidores tornam-se mais daninhos, porque deles se imagina, na fantasia, que estejam ainda mais enraivecidos e dispostos à violência retaliatória. Quando os objetos são introjetados, o ataque que sobre eles é lançado com todas as armas do sadismo desperta no sujeito o pavor de um ataque análogo sobre si mesmo, partindo dos objetos externos e dos objetos internalizados. Este tipo de círculo vicioso representa um estado paranóide de hostilidade, com imensa desconfiança de quaisquer figuras boas”.

Outra forma de defesa presente era o seu pensamento onipotente. Muitas vezes Olga verbalizava: “Eu não quero crescer e quero mandar, eu mando na minha mãe e no meu pai!

“O sentimento de onipotência é importante nos mecanismos primitivos de defesa que se acham envolvidos com o rompimento das fronteiras do ego, de maneira a que as experiências de separação e inveja sejam evitadas”(Hinshelwood, 1992, pág. 396).

Num momento clínico mais avançado do processo analítico, embora não parecesse demonstrar tanta ansiedade em relação ao tempo, não perguntava se as sessões iriam demorar a acontecer, nem se a segunda-feira iria demorar a chegar, para poder rever os colegas; apresentava ansiedade por qualquer mudança do que estava acostumada. Numa das sessões em que o pai a deixa no portão do consultório e avisa que estará esperando na saída, no término da sessão, ela não parece preocupada com o tempo que durara a sessão, porém com o que foi introduzido de novidade: ninguém a estará aguardando na sala de espera como de hábito. Ela fica aflita quando não sabe o que acontecerá, numa tentativa de controlar a surpresa, necessitando de alguém ao seu lado que lhe diga o que ocorrerá para não cindir.

“A primeira realidade da criança é totalmente fantástica. Ela se vê cercada de objetos de ansiedade; os excrementos, os órgãos, os objetos, coisas animadas e inanimadas, que de início são igualadas umas às outras. À medida que o ego se desenvolve, uma relação verdadeira com a realidade vai se estabelecendo a partir dessa realidade irreal. Assim, o desenvolvimento do ego e a relação com a realidade dependem da capacidade do indivíduo tolerar a pressão das primeiras situações de ansiedade. É preciso um equilíbrio ideal entre os fatores envolvidos. É essencial que o ego possua a capacidade para tolerar a ansiedade a fim de elaborá-la de forma satisfatória.”(Klein, 1930, pág. 253).

Talvez Olga não tenha tido a capacidade para tolerar toda a ansiedade desse seu mundo fantástico e não tenha podido elaborá-la de maneira satisfatória, criando uma cisão e funcionando mergulhada na posição esquizoparanóide, como um modo de lidar com tamanha dor.

Com esse caso clínico, fui aprendendo a relacionar a teoria com o que observava nas sessões. Fez-se necessário, também, que eu aprendesse a estar ao lado de Olga e desenvolvesse o “marcar o lugar”, para que ela não se sentisse tão solitária e com medo de abandono, podendo evoluir da posição esquizoparanóide para a posição depressiva, mesmo que isso demandasse tempo, muito tempo.

Anne Alvarez cita Bruner, 1968:

“Precisei aprender que crianças muito prejudicadas não tinham condições para o tipo de pensamento espacial, temporal e causal envolvido no que Bruner chama de pensamento de dois trilhos. A suposição de que essas crianças tinham ego e self aos quais eu pudesse me dirigir e senso nítido de objeto ao qual eu pudesse me referir era falsa.” (Anne Alvarez 2004)

Aprendi que às vezes não poder falar sobre os seus sentimentos e querer “fazer algo”, não é só uma maneira de se afastar da frustração, com a qual tem muita dificuldade em lidar. Mas é também um modo mais arcaico de se comunicar, é uma identificação projetiva utilizada para a comunicação com outros objetos, uma comunicação não verbal. Um dos mecanismos projetivos utilizados pelos psicóticos, que é uma distorção ou intensificação do relacionamento infantil normal, uma comunicação entre o bebê e a mãe, são impulsos, partes do self e ansiedades difíceis demais para o bebê suportar que são projetados para dentro da mãe, que é instintivamente capaz de responder, contendo a ansiedade do bebê e aliviando-o com seu comportamento. O paciente projeta impulsos e partes do seu self para dentro do analista, para que o mesmo sinta e compreenda suas experiências e seja capaz de contê-las, de tal modo que elas percam sua qualidade assustadora ou insuportável e tornem-se significativas pela capacidade do analista colocá-las em palavras através das interpretações.

Muitas vezes, nas sessões, ficava frustrada porque Olga parava de conversar comigo e se voltava para “o fazer”, fazer passatempos em revistas recreativas, ou ler revistas em quadinhos, ou colar figurinhas em álbuns, como se ela tivesse cortado a comunicação comigo e se voltado para o seu mundo de fantasia. Quando em supervisão era me dito: “Tente ver o que ela está querendo lhe dizer, tente traduzir!”- não o conseguia. Acho que o meu inconsciente ficava impregnado por estes impulsos primitivos e também me sentia incapaz de me colocar, em transferência, como o objeto primitivo. Hoje, tenho outra escuta, vejo novos processos se descortinando diante dos meus olhos e me sinto mais apta para poder trabalhar nestas situações.

Aprendi muito sobre transferência. Na teoria kleiniana o fato do bebê viver, inicialmente como um ser não integrado, não quer dizer que ele não se relacione com os objetos que cuidam dele. A relação do bebê com a mãe não se dará como uma figura materna sentida como inteira e exterior ao bebê, mas como uma gama de objetos parciais (seio bom, seio mau, pênis, pênis-mamilo), que agem independentemente um do outro e são experimentados como prazerosos ou desagradáveis, de aordo com o estado de espírito do bebê no momento. O que acontece é que desde o princípio os objetos são revestidos de um colorido afetivo correspondente aos impulsos do bebê. Haveria primeiramente a projeção das sensações provocadas pelo objeto para dentro do mesmo e, em seguida, este objeto passaria a habitar o interior do bebê, incorporado justamente com os impulsos anteriormente projetados.

Essa dinâmica de projeções e introjeções é, para Klein, a base de todos os tipos de relacionamento humano e do mundo dos objetos internos de cada pessoa. Nesse contexto cabe ressaltar que o que é descrito como próprio funcionamento psíquico de um bebê não exclui a possibilidade de que recursos idênticos ou semelhantes sejam utilizados por pessoas adultas, em diferentes etapas e circunstânias da vida, de acordo com o seu maior ou menor nível de amadurecimento. A partir daí, pode-se entender o processo, utilizado normalmente pelo bebê, de expulsar, banir para fora de si sentimentos que de tão violentos não poderiam ser tolerados e depositá-los sobre os objetos; também é um mecanismo possível de ser utilizado, em menor ou maior escala, por indivíduos das mais diferentes idades. A este processo Klein deu o nome de “Identificação Projetiva”, cuja função básica é permitir ao bebê que vivencie seus impulsos mais hostis e agressivos fora de si, como se fossem pertencentes ao objeto, de modo que o bebê seria poupado de uma perturbação possivelmente excessiva e insuportável.

Deslocando essa visão do funcionamento do bebê para a observação dos fenômenos vivenciados na clínica, pode-se considerar que o paciente projeta aspectos de sua personalidade, partes de seu self, objetos e impulsos amorosos e hostis para o analista.

A relação com o analista passaria a uma relação com alguém que é visto como portador de atributos que, na verdade, são características pertencentes ao próprio paciente. Betty Joseph afirma que na base da transferência o que se tem é a identificação projetiva.

Na prática clínica não é possível apreender o material das sessões, qualquer que seja ele, sem que se leve em consideração às relações de objeto empreendidas pela pessoa, observando como estas se insinuam, se atualizam e se revelam no presente, no contexto do setting analítico e no contato entre analista e analisando. Se a análise é sempre a análise da transferência, nota-se como é importante o estudo das teorias sobre as relações do sujeito com os objetos. Afinal, as relações de objeto constituem nada mais, nada menos que o próprio material da transferência.

Como disse, no início deste artigo, ao iniciar o atendimento com Olga pouco sabia sobre transferência, mas percebia como as relações objetais, acontecidas fora do setting, influenciavam a sessão. Posso citar um exemplo, agora mais perceptível aos meus olhos: quando ela chega com o pai e tenta beijá-lo várias vezes na minha frente; o pai pede que ela pare porque não quer beijos a todo momento. Ela entra no consultório sem graça e dentro da sala me pergunta se gosto dela? Interpreto que por eu ter visto o pai não querendo os seus beijos, ela ficou com medo que eu pudesse fazer o mesmo, que eu não quisesse mais contato com ela. Ela me pergunta: “E você vai querer?” Digo-lhe que sim e que também vi uma menina querendo causar ciúmes em mim. Olga sorri e diz: “Ele é bobo, não percebeu nada disso! Às vezes tenho ciúmes quando ele beija a minha mãe.” Digo-lhe: Assim como você tem ciúmes quando vê outra criança chegar depois de você. Ela concorda com a cabeça e fica mais cooperativa no restante da sessão.

Para finalizar gostaria de citar duas frases de psicanalistas a quem tenho muita admiração: Gilberto Safra e Winnicott, respectivamente:

“Quando achamos que somos analistas é porque não o somos e, ao contrário, quando achamos que não o somos, neste momento estamos sendo.” (palestra proferida no Instituto Sedes Sapientiae, segundo semestre de 2002).

“Aos meus pacientes, que pagaram para me ensinar”. (verso da folha de rosto do livro O Brincar e a Realidade, 1975).

E ainda expressar a minha gratidão aos meus mestres Kleinianos que tanto contribuíram para o meu crescimento, neste caminho de sobreviventes que se faz necessário manter relações objetais para se desenvolver como ser humano, nem que para isso façamos, algumas vezes, identificações projetivas e introjetivas.

 

 

REFERÊNCIAS:

  • Klein, M. – Amor, Culpa e Reparação – Cap. 12(1930), 13(1930), 14(1931), 15(1933), 16(1934), 17(1935), 18(1936), 20(1940) e 21(1945) – Imago – Rio de Janeiro, RJ – 1996;
  • _________ – Inveja e Gratidão – Cap. 1(1946), 2(1948), 4(1952), 6(1952) e 10(1957) – Imago – Rio de Janeiro, RJ – 1991;
  • Hinshelwood, R. D. – Dicionário do Pensamento Kleiniano – Artes Médicas – Porto Alegre, RS – 1992;
  • Alvarez, A. – Companhia Viva – Artes Médicas – Porto Alegre, RS – 1994;
  • ____________ – Níveis de Trabalho Analítico e Níveis de Patologia – Trabalho apresentado na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, SP – abril de 2004;
  • Dolto, F. – A Imagem Inconsciente do Corpo – Editora Perspectiva – São Paulo, SP – 2002;
  • Anderson, R. – Conferências Clínicas – Imago – Rio de Janeiro, RJ – 1994;
  • Segal, H. – Sonho, Fantasia e Arte – Imago – Rio de Janeiro, RJ – 1993;
  • Rosenfeld, H. – Os Estados Psicóticos – Zahar Editores – Rio de Janeiro, RJ – 1965;
  • ________________ – A Psicose de Transferência no Paciente Fronteriço – Revisa Brasileira de Psicanálise – volume XXIII – 1989;
  • O’Shaughnessy, E. – Uma Identificação Melancólica com Um Objeto Original em Um Menino de 3 Anos e Meio de Idade – Revista Brasileira de Psicanálise – Volume XXV – n. 2 – 1991.

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