Neste artigo irei refletir sobre um casos clínico, que marcou a minha vida profissional de várias maneiras. Fez com que me deparasse com questões até então pouco avaliadas e chegasse a me perguntar se o que eu estava fazendo era válido no sentido de ser efetivo para os meus pacientes, ou se havia algo mais que pudesse atendê-los melhor? Meus casos clínicos eram quase sempre distúrbios de aprendizagem, que depois de uma avaliação motora eram constatadas disfunções motoras.[1]
Quando vi Olga (nome fictício) pela primeira vez, na época com oito anos e dez meses, observei que havia alguma coisa a mais, e não somente, como dizia a escola, um atraso motor. Ela era diferente das outras crianças atendidas por mim. Seu comportamento não seguia as normas do chamado “adequado”, ela dava risada por qualquer coisa sem importância, babava, não tinha o chamado freio inibitório[2] (não obedecia às regras sociais), interrogava qualquer pessoa que via e ficava sem saber o que fazer quando era ignorada, normalmente perseverando até obter o que desejava, não era por “birra”, algo que não passava pelo âmbito dos limites, era diferente disso, parecia ser a única maneira como havia aprendido a se relacionar (fora da fronteira entre o eu dela e o eu do outro). Também não estava atrelada à deficiência cognitiva, sabia ler e escrever, embora sua orientação espaço-temporal estivesse defasada, não conseguindo se organizar numa folha pautada e muitas vezes se negava a colocar a data nos trabalhos e quando o fazia era sempre além ou aquém da data corrente (uma maneira de cindir com a realidade externa, ficando preservada no seu mundo interno).
O vínculo entre nós se estabeleceu rapidamente e fui buscar supervisão por não ter claro o que estava acontecendo com Olga.
“Anne Alvarez cita Stern ao que chama de estados mentais partilhados, tenha de preceder a empatia e a empatia tenha de preceder a simpatia”. (Trabalho apresentado na Sociedade Breasileira de Psicanálise de São Paulo – Níveis de Trabalho Analítico e Níveis de Patologia – abril de 2004)
Segundo o supervisor as hipóteses motoras estavam corretas e o que eu não sabia decodificar estava no seu funcionamento psicótico e recomendou-me a leitura de um livro que foi marco na minha vida profissional: “Companhia Viva”de Anne Alvarez, Artes Médicas, 1994.
Ele me disse que este livro seria muito importante na ajuda de poder entender Olga e que ao mesmo tempo era o que ela necessitava, de “uma companhia viva”. Saí da supervisão preocupada, perguntando: Será que teria condições profissionais de atendê-la? O que será que significava ser uma companhia viva?
Já na primeira página do livro a autora diz:
“As crianças que tiveram a mente e o corpo danificados por intrusões de abuso sexual, violência, ou negligência e aquelas outras, muito diferentes destas, que foram prejudicadas por sua própria e misteriosa sensibilidade exagerada que as tornou extremamente vulneráveis a privações, podem viveniar um tipo de profundo desespero e ceticismo que requer um tratamento prolongado e põe à prova, ao máximo, a resistência do psicoterapeuta”.
E na página próxima ao sumário ela cita Bion:
“Não tenho dúvida nenhuma da necessidade de alguma coisa, na personalidade, que propicie contato com a qualidade psíquica. (W. Bion, 1962)
Três coisas me chamaram atenção nestas citações: Será que Olga havia sido negligenciada, ou será que fora prejudicada por sua própria e misteriosa sensibilidade exagerada? Ou ambas? E mais preocupante: Será que eu teria condições de aguentar e persistir, mesmo tendo tido um feedback de ser “uma companhia viva”? Será que teria a qualidade psíquica dita por Bion?
Como curiosa que sou, fui procurar o que seria um funcionamento psicótico e encontrei uma citação de Bion no livro “Conferências Clínicas sobre Klein e Bion” (pág. 104):
“A diferenciação entre a personalidade psicótica e a não-psicótica depende de uma cisão, em pedaços mínimos, de toda aquela personalidade que se relaciona com a percepção da realidade interna e externa, e da expulsão deste fragmentos, de forma que eles ou penetram em seus objetos, ou os engolfam”.
Também fui procurar o que era “uma companhia viva”, achando a resposta no próprio livro da Anne Alvarez, já citado acima, (pág. 71):
“O conceito de continência materna de Bion é o seguinte: ele descreve como a mãe, através de seu revèrie, faz um tipo de digestão mental que, devido aos seus processos digestivos mentais mais maduros, possibilita-lhe vivenciar de uma forma suportável a angústia, a raiva ou o medo do bebê (1962). Assim, ela é capaz, sem um superenvolvimento sujeito a pânicos frequentes, mas também sem um afastamento demasiado grande, de confortá-lo e acalmá-lo. Bion discute isso como função materna normal e comum. Todavia, é importante considerar algo mais: o que fazem as mães comuns quando seus bebês comuns estão deprimidos – isto é, não que eles estão expressando ou mostrando sua angústia, mas quando não conseguem fazê-lo porque perderam temporariamente o interesse ou a esperança e ficaram um tanto retraídos. Em minha opinião, as mães funcionam como alentadoras e estimuladoras de seus bebês”.
Entendi que a terapeuta deveria fazer o papel dessa mãe alentadora e estimuladora de seus pacientes, tornando-se uma “companhia viva”, quando eles não estão em condições de se interessarem pelo mundo externo.
Aceitei o desafio e iniciei o atendimento psicomotor. Olga vinha duas vezes por semana e comecei a entender o que a Anne Alvarez falava em por a prova a resistência do terapeuta, pois à menor frustração e contrariedade ela se negava a fazer os exercícios, mesmo quando havia sido ela quem tinha escolhido o queria fazer. Também quando já vinha com alguma contrariedade acontecida fora das sessões, com os seus pais, transferindo-a para mim. Na época não entendia muito de transferência, mas algumas vezes por intuição conseguia perceber o que estava acontecendo e traduzia para ela, às vezes aceitava, outras negava com veemência e outras ficava me olhando com um ponto de interrogação estampado no rosto. Aos poucos fomos nos entendendo melhor, as dificuldades de contato de ambas as partes foram cedendo e ela chegava na sessão com um sorriso e me perguntava: “O que temos para hoje?”
Aprendi com este caso clínico algumas defesas da posição esquizoparanóide, que se fizeram presentes desde o início, isto é, desde a avaliação motora: projeção, introjeção, cisão, idealização, negação, identificação projetiva e identificação introjetiva; principalmente a cisão, que aparecia com mais constância. Um exemplo disso apareceu numa das sessões de movimento, ainda trabalhando em psicomotricidade, Olga escolheu jogar “golfe”. Separou o material, bastões e uma bola pequena, colocou as regras e deu muita risada enquanto estava ganhando. Ao começar a perder, desanimou e pediu para mudar de jogo; afastando o principio de realidade, tentando e esquivar da frustração, fazendo uma cisão, para não lidar com a quebra do seu pensamento onipotente: “Eu criei esse jogo, portanto sou eu que tenho que ganhar, o jogo é meu!”
O trabalho psicomotor foi iniciado em junho de 1999 e gradativamente foram acontecendo modificações na sua postura, tanto ao nível físico, quanto nas reações e respostas ao que lhe era solicitado, parando para ouvir as instruções e realizar as atividades de maneira menos impulsiva; seu tônus muscular[3] foi se equilibrando e sua auto-estima progredindo, estabelecendo relacionamentos com os colegas de classe. Verbalizava que tinha medo de mostrar sua capacidade, nos momentos de maior dificuldade dizia que não queria crescer e que queria continuar sendo sempre cuidada pelos pais.
“A ansiedade psicótica infantil, principalmente a ansiedade paranóide (mais tarde muda o termo para ansiedade persecutória), é presa e modificada pelos mecanismos obsessivos que aparecem muito cedo”. (Klein, 1935, pág. 305).
Este conceito explicava a avidez de Olga em se agarrar ao conhecido, menos persecutório, já que crescer significa lidar com o desconhecido, travar contato com outros objetos, com outra realidade, que não é a sua realidade, persistindo no mundo da fantasia. Por isso a sua perseveração em querer fazer sempre as mesmas coisas e até em repetir as palavras (ecolalia[4]), como para manter presente em sua mente algo já conhecido, afastando a persecutoriedade.
Por volta do final de outubro do mesmo ano, Olga parou de babar, sua hipotonia corporal[5] estava desaparecendo, ainda conservava a de mãos, e a escola me relatou que ela estava mais interessada nas atividades e já não se jogava no chão, fazendo suas lições sentada, e havia conseguido estabelecer amizade com uma colega.
Numa sessão em que escolheu trabalhar com argila, foram colocadas revistas velhas na mesa como forração, começou a folhear uma delas e se deparou com um bebê que tomava conta da página inteira, ela teve um acesso de raiva e amassou o rosto do bebê com argila, sujando toda a página. Quando terminou estava mais calma, procurou outra página e trabalhou tranquilamente com a argila, moldando um boneco. Interpretei que depois de ter colocado a sua raiva contra o bebê que ela não tinha podido ser, havia conseguido moldar um outro bebê mais integrado e aceito por ela. Depois deste evento, os pais não assinalaram mais sua pouca tolerância quanto às crianças pequenas, passando a se interessar em observá-las. Será que a relação transferencial com a terapeuta, que tentava ser uma companhia viva, deu-lhe suporte para elaborar a marca de um bebê que não correspondeu às expectativas dos pais? Ou será que pôde estabelecer a construção de um ego mais fortalecido, com capacidade para suportar melhor as frustrações entre o que havia estabelecido em fantasia, de projetar no objeto substâncias nocivas e introjetar como partes do seu self esses mesmos elementos, podendo neste instante construir de uma outra maneira e ser ver livre deles?
No ano seguinte, Olga mudou de escola, indo para longe de casa, permanecendo apenas meio período, numa escola alternativa, onde os alunos progridem por grupos e os conteúdos exigidos são conforme o avanço da classe.
Conforme eu ia adquirindo novos conhecimentos ao nível motor e pedagógico, propunha mudanças no atendimento aos pais e à criança, no que era correspondida de imediato, pois os ganhos no desenvolvimento da menina eram visíveis. Embora, a princípio, sempre houvesse uma certa resistência de Olga, em aceitar mudanças. Ficava motivada com a novidade para logo em seguida se negar a realizar a proposta, dizendo que era difícil. Nestes momentos eu dizia a ela que entendia o seu medo de algo novo, da mudança, mas que também estava vendo uma menina que estava querendo “moleza”e para isso teria que comer “pudim”ou “geladina”. Ela dava risada, executando os exercícios.
Na metade de 2002, já cursando o curso Formação em Psicanálise, no Instituto Sedes Sapientiae, chamei os pais novamente, conversamos sobre os ganhos e paradas de Olga e solicitei uma nova mudança, não mais um trabalho psicomotor, e sim um trabalho psicanalítico. Eles entenderam e concordaram; Olga foi quem teve mais dificuldade em entender, porque se acostumou com “um fazer atividades” e estranhou falar de seus sentimentos e dificuldades.
Depois de um ano e seis meses de análise, passou a contar mais sobre as coisas que aconteciam com ela na escola espontaneamente; ampliou seus relacionamentos com os colegas e ficava muito preocupada no final de semana quando permaneceria distante de seus amigos, que nossas sessões iriam custar a chegar, fazendo carinho na minha mão e muitas vezes não querendo ir embora, dizendo que não sabia para onde iria e com quem ficaria. Dizia-lhe para perguntar a sua mãe e ela o fazia na sala de espera.
Olga estava demonstrado com maior frequência as suas contrariedades, raivas e frustrações e reconhecia quando magoou outra pessoa, pedindo desculpas, muitas vezes fazendo um jogo de sedução; quando isto lhe era apontado dava risada e dizia que era verdade.
Não vinha demonstrado tanta ansiedade em relação ao tempo, portando-se muito bem quando a mãe se ausentou por quinze dias em viagem a trabalho. Tem-se voltado mais para o social, preocupando-se com os colegas, interagindo de modo mais efetivo, convidando-os no final de semana para irem ao cinema. Tem trazido perguntas, colocado suas dúvidas e ficado na expectativa das respostas, principalmente quando são inesperadas. Embora quanto à falta de ansiedade eu deveria ficar em alerta, porque Klein (1946) chama a nossa atenção:
“Essa falta de ansiedade em pacientes esquizóides é apenas aparente. Pois os mecanismos esquizóides implicam uma dispersão das emoções, inclusive da ansiedade, mas esses elementos dispersos ainda existem no paciente”. (pág. 40)
Isso foi se confirmando nas sessões seguintes: desapareceu a ansiedade quanto a questão do tempo, mas surgiram outras ligadas ao seu desenvolvimento, a necessidade de ajuda para lidar com a menstruação, com o namoro, com o luto de um corpo infantil, com a questão edípica, com a ambivalência da separação. Numa sessão conta que vai haver um acampamento com a escola e está excitada porque o colega de quem mais gosta também irá, ela irá dormir perto dele e ficar dois dias inteiros com ele; mas ao mesmo tempo está angustiada porque terá que faltar numa de nossas sessões.
Participando do seminário teórico, “Angústia e Superego Arcaico”, ministrado por Maria Luiza Persicano, ficou claro como a angústia (tradução de ansiedade, proposto pela professora) excessiva nos primeiros meses de vida prejudica o desenvolvimento do ego, interferindo no desenvolvimento das relações objetais. Klein acredita que as ansiedades esquizoparanóides dominam os primeiros três, quatro ou cinco meses de vida da criança e, por isso, chama esta fase de sadismo máximo, de “posição esquizoparanóide”. O ponto de fixação da doença psicótica está no final da posição esquizoparanóide e no início da posição depressiva; quando ocorre a regressão a pontos primitivos do desenvolvimento, perde-se o sentido de realidade e o bebê terá um funcionamento psicótico.
O conceito de posição depressiva e a sua ligação com os estados maníacos-depressivos, onde o bebê desenvolve os sentimentos depressivos durante e depois do desmame, o seio e o leite representando: o amor, a bondade e a segurança; pode também desenvolver uma melacolia em statu nascendi, perdendo tudo como resultado de suas incontroláveis fantasias e impulsos destrutivos.
Estes conceitos me ajudaram a ampliar o entendimento do caso que discuto: Olga não teve a atenção da mãe voltada para ela, como uma mãe continente, como uma “companhia viva”, já que estava mais empenhada em sua tese de doutorado; teve a atenção de avós que tentaram fazer a função materna, mas que não foi o suficiente para aplacar as angústias de Olga. Ela não conseguiu fazer o luto normal, perdendo o amor, a bondade e a segurança dados pelo seio bom, em razão de seus impulsos e fantasias destrutivas incontroláveis, projetando neste seio toda a sua angústia de aniquilamento, de desamparo. Na sua fantasia inconsciente fica a imagem de um bebê destruído, de um bebê que não deu conta de interessar a sua mãe numa relação de troca, criando um processo de cisão para dar conta das angústias persecutórias que a invadiam constantemente.
[1] Disfunção motora – termo utilizado em psicomotricidade para designar a falta de coordenação motora dinâmica ou motora fina, ou ambas.
[2] Freio inibitório – é a parada que o sujeito deve fazer para acompanhar um ritmo, por exemplo; ou para parar de escrever, de pintar, dentro de um espaço delimitado; ou para saber qual tipo de comportamento mais adequado para um determinado momento.
[3] Tônus muscular – é a tensão que colocamos na nossa musculatura, que nos auxilia na manutenção da nossa postura: sentada e em pé; muito relaxado causa a hipotonia, muito tenso causa a hipertonia. O ideal é o tônus equilibrado.
[4] Ecolalia – é um distúrbio de linguagem, onde o sujeito que a apresenta repete a última palavra dita pelo seu interlocutor, ou a última frase. Não porque não entendeu, mas por perserveração, uma maneira de confirmar aquilo que ouviu, fazendo “eco”do que escutou.
[5] Hipotonia – é o relaxamento excessivo dos grandes músculos, parecendo não haver um esqueleto muscular, como se o indivíduo fosse só osso e carne; não há contratura muscular e a aparência é de um sujeito que se arrasta, como se não tivesse força suficiente para se sustentar.