“SE CORRER O BICHO PEGA, SE FICAR O BICHO COME!”
Em 1990, eu fazia parte de uma equipe multiprofissional formada por psicólogo, fonoaudióloga, psicopedagoga e psicomotricista.
Fomos procurados por um advogado, que na época, estava com 45 anos de idade, havia passado por um episódio de acidente vascular cerebral e conseguido se recuperar totalmente. Ele era casado com uma senhora de sessenta anos de idade e não haviam gerado filhos durante os vinte anos de casamento.
Resolveu então adotar uma criança porque, como conseguiu escapar do derrame, queria dar continuidade à família. Também não poderia ser uma criança muito pequena, porque sua esposa, já em idade avançada, não teria condições de cuidar de um bebê. Conversou com um colega advogado, que trabalhava na vara de menores, e ele lhe falou de uma menina que estava na FEBEM.
Foi conhecer a menina e gostou dela à primeira vista, só não a levou para casa imediatamente porque a assistente social o impediu, dizendo-lhe que a esposa também deveria conhecer a menina e seria necessária a aprovação dos dois.
Conseguido a aprovação da esposa, como advogado e sabendo dos trâmites, obteve a guarda quase que imediata da menina. Levou-a a médicos, dentista e agora estava trazendo-a para a clínica, onde na ocasião eu trabalhava, porque gostaria de saber se era possível recuperar sua defasagem cultural.
A criança, a quem chamarei de Juliana, tinha, supostamente, dez anos. A avaliação da idade foi feita por um dentista, através da arcada dentária. Ela havia sido trazida de uma cidade do interior, tinha por volta de sete anos, e abandonada pelos pais numa praça de São Paulo, sendo encaminhada para uma das unidades da FEBEM.
Na primeira entrevista somente o pai adotivo entrou na sala, porque trouxeram a menina e a mãe ficou com ela na sala de espera; apesar de terem sido orientados para não trazerem a criança, ele alegou não ter com quem deixar. Contou do acidente que sofreu e da razão da adoção, queixando-se que Juliana falava muito errado e ainda estava na segunda série do primeiro grau.
Na segunda entrevista marcada com o casal somente a mãe adotiva compareceu, deixou a menina na casa de um parente e o marido não pode vir porque estava trabalhando. Queixou-se de sua idade, havia passado por uma operação recentemente, sofria de depressão e tomava muitos remédios. Tentaram por vários anos uma gravidez, mas também não investigaram a causa, ficando essa elucidada quando teve que fazer uma cirurgia no baixo ventre e foi constatado que tinha o útero virado. A princípio não queria a adoção, mas o marido insistiu tanto e já estava tão apegado à criança que não havia mais jeito. Compraram roupas, sapatos, bonecas, etc.. A menina a todo o momento abria o guarda-roupa e contava os vestidos para ver se não havia sumido nenhum; porém também perdia as coisas com muita facilidade, tinha perdido dois lenços dos quatro que haviam comprado; ela suava muito nas palmas das mãos e no nariz. Chegou muito malcriada, respondia e batia as portas com força, não queria fazer a lição de casa, então tiveram que dar muitos corretivos, bater e colocar de castigo, até que melhorou. Agora, estava muito prestativa, ajudava nas tarefas de casa, fazia as lições da escola e escrevia num caderno as palavras que falava errado várias vezes; também tiveram que ensinar como fazer a sua higiene, pois veio como um “bichinho do mato”.[1] Ela ensinava algumas coisas e o marido outras, por exemplo, ela ensinou à Juliana a escovar os dentes e o marido ensinou-a se lavar e todo o dia na hora do banho ele ficava olhando para ver se ela fazia direito.
Uma coisa que contou, com certo constrangimento, foi que algumas vezes, a menina se colocava de cócoras em cima da cama do casal, abaixava as calcinhas e pedia que ela lhe batesse no “bumbum” com bastante força; perguntado onde havia aprendido aquilo, disse ter sido na FEBEM, que os monitores faziam isso com todas as crianças, principalmente com as meninas. Juliana também tinha lembranças de sua família, contando que moravam num barraco e que todos dormiam na mesma cama e que muitas vezes presenciara a cena primária entre seus pais e que uma vez viu uma gata parir e saiu muito sangue, mas não se lembrava do nome da cidade onde morava com os pais, ela era a do meio, entre cinco irmãos (SIC).
Juliana era uma menina de pele clara, olhos amendoados, não demonstrava ter a idade calculada pelo dentista, parecia ter entre oito e nove anos, franzina, seus botões mamários começavam a despontar; um pouco arredia e tímida, pouco falava, respondendo apenas às questões que lhe eram formuladas. Nos testes psicológicos, motores e pedagógicos apresentou regressão, entre seis e oito anos, mas não havia rebaixamento intelectual, o que realmente a prejudicava era a falta de estimulação e de informação.
Na devolutiva com os pais, informamos os nossos pareceres sobre a menina, propusemos um trabalho psicopedagógico e emocional e orientamos aos pais quanto à higiene da criança, já que ela era do sexo feminino, este encargo deveria ficar por conta da mãe. O pai poderia ajudar nas lições de casa, por exemplo. Lembro-me que a equipe discutiu muito a respeito do assunto, se deveria fazer ou não esta orientação.
Os pais não disseram quase nada durante a devolutiva, somente trocaram olhares na orientação da higiene da criança e ficaram de pensar quanto à questão do atendimento, porém nunca mais tivemos notícias de Juliana.
Naquela ocasião várias questões me inquietavam quanto ao destino daquela criança, abandonada pela família talvez por serem muito pobres, uma boca a menos para sustentar; colocada numa instituição cujo objetivo é reeducar crianças infratoras e acolhê-las, mas que sabemos que está muito longe deste propósito, embora não fosse infratora, aprende ali rituais pouco convencionais para uma menina de dez anos; é adotada por um casal atípico, com uma diferença de idade que sugere algo muito estranho quanto à escolha de objeto e que no momento da adoção estavam passando por uma crise conjugal, ela já velha e doente e ele querendo viver a todo vapor, já que a vida tinha lhe dado um alerta de que “para morrer basta estar vivo.” Veio a minha mente o provérbio popular de quando nos sentimos acuados e sem saída: “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come!” Era assim que eu conseguia enxergar o destino desta criança.
Durante o seminário teórico sobre perversão, várias vezes este caso voltou a minha memória e fui buscar no meu arquivo se ainda tinha guardado o relatório que faço com o resumo de cada caso que atendo. Para minha surpresa lá estava ele, folha amarelada pelo tempo, letras apagadas, porque a impressora era de fita e não a jato de tinta. E vieram outros questionamentos:
- Por quê um casal abandona um filho numa praça de uma grande cidade, deixando-o no desamparo total? Perversão, ou perversidade?
- Por quê um homem jovem, com vinte e cinco anos, casa-se com uma senhora com quarenta anos, o que estará por trás dessa escolha de objeto?
- Por quê, depois de uma grave doença, vai buscar uma menina de dez anos para adotar? Será que era mesmo para dar continuidade à família, ou por quê sua esposa já estava velha e não poderia mais corresponder aos seus desejos incestuosos?
- O ritual da menina, contado pela mãe adotiva, não lembra o texto de Freud – “Uma Criança é Espancada”?
- Por quê na primeira entrevista os pais trouxeram a menina? Será que não queriam ser confrontados ? Temiam caírem em contradição?
- Por quê será que a esposa aceitou a adoção, mesmo contra a sua vontade?
- Por quê era ele quem cuidava da higiene corporal da menina e não ela? Por quê nos contou este fato?
- Por quê querendo tanto ajudar à criança na “defasagem cultural”[2], não deram continuidade ao trabalho proposto?
- Por quê demonstraram indignação ao serem orientados na troca de papéis quanto aos cuidados com a menina?
Poderíamos fazer muito mais perguntas a respeito deste caso, mas acho que por hora já tenho muito em que me ocupar, e mesmo assim vamos ver se darei conta de responder a todas elas.
Respondendo a primeira delas, alguns autores dizem que perversão não tem nada haver com perversidade, mas um casal que não se importa com os filhos, sendo estes apenas consequências da pulsão sexual, que é o gozo, que não se importa em ter relações sexuais mesmo com a presença deles na cama e que não pensa se terá condição de sustentá-los ou não, e quando a fome apertar será capaz de abandoná-los numa praça pública, numa grande cidade, isto não é perversão? Acho que sim, e nenhum sociólogo me fará mudar de idéia dizendo que a grande culpada é a falta de educação, a exposição à miséria constante que os fazem agir dessa maneira. Será? Então por quê outros com o mesmo tipo de vida, a mesma pobreza, não são capazes de abandonarem os filhos? Todos ficam juntos, ainda que passando fome. Abandonar uma criança, deixá-la no desamparo total não é negar-lhe a sua filiação, não é negar as suas características? Segundo Hanna Arendt (apud Maria Helena Saleme – Perversão: algumas reflexões):
“…na perversão o mal se tornou banal.”[3]
Ainda neste mesmo artigo ela cita outros autores, como Roberto Stoller, que definem perversão pelo desejo de fazer o mal, porque o gozo estaria em acabar com a qualificação do objeto; isto, sim, é fazer o mal. Nestes autores, o sadismo seria o componente primordial da perversão. Saleme prefere pensar que o mal é um acidente de percurso e não um objetivo, embora nestas pessoas o sofrimento do outro não provoque paralisação e sim excitação, o perverso passa ao ato sem culpa, pois não se identifica com a dor do outro.[4]
Fico imaginando a cena, um casal com vários filhos, tentando distrair uma garotinha entre seis e sete anos de idade, para que ela não perceba que está sendo abandonada. E ao constatar que seus pais e irmãos não estão mais ali, qual será a fantasia desta criança? Por quais sofrimentos deve ter passado? Será que este mesmo casal não voltou outras vezes a São Paulo para repetir o mesmo ato anterior, porque novamente a prole cresceu e não têm como sustentar, ou abrigar? Por quê será que Juliana foi à escolhida e não um outro de seus irmãos? Será que este casal, em nenhum momento sentiu culpa? Acho que não, porque no perverso a pulsão sexual fala mais alto.
Para responder a minha segunda questão recorro à escolha de objeto, que recairá na maioria das vezes sobre o objeto de apoio na primeira infância, sem necessariamente ter que ser tão fidedigno e concreto como o casal do qual estamos falando se nos apresenta; sugerindo uma tendência para a substituição da mãe, ou quem sabe uma recusa à castração, havendo apenas um deslocamento de objeto, já que não pode casar com a própria mãe, casa-se com alguém mais próximo de sua idade e que poderia funcionar como a mãe que ele não quer abandonar. A respeito disso Freud vai fazer uma formulação da função da recusa:
“Esta anomalia que se pode colocar entre as perversões baseia-se, sabe-se, no fato de que o paciente trata-se quase sempre de um homem – recusa-se a crer na falta de pênis na mulher, sendo para ele essa falta muito penosa porque prova a possibilidade de sua própria castração. É por isso que ele recusa-se a admitir, apesar do que a sua própria percepção sensorial permitiu-lhe constatar, que a mulher seja desprovida de pênis e se entrega à convicção oposta. Mas a percepção, ainda que negada, não deixou de agir e o sujeito, apesar de tudo, não ousa pretender que viu realmente um pênis. O que ele vai fazer? Ele escolhe alguma outra coisa, uma parte do corpo, um objeto ao qual atribui o papel desse pênis do qual não pode se abster. Em geral, trata-se de algo que o fetichista viu no momento em que olhava os órgãos genitais femininos ou de um outro objeto suscetível de substituir simbolicamente o pênis (…) Trata-se aí de um compromisso estabelecido com o auxílio de um deslocamento análogo àqueles que o sonho nos familiarizou. Mas nossas observações não param por aí. O sujeito criou para si um fetiche a fim de destruir toda e qualquer prova de uma possibilidade de castração, e para assim escapar ao medo da castração. Se, como outras criaturas vivas, a mulher tem um pênis, não há razão para temer que seu próprio pênis lhe seja tirado.”[5]
Talvez o seu fetiche seja a idade avançada da esposa, que corresponderia à idade da mãe, ou quem sabe a grande diferença de idade; o que nos levaria para a resposta da terceira questão. No momento em que sua esposa está velha e doente, já não mais corresponde ao seu fetiche, ele casou-se com a sua mãe e não com a sua avó. Está ainda no vigor da idade e a vida o confronta com o princípio de realidade, ele também está fadado a morrer, precisa compensar estes vinte anos em que esteve casado com a mãe, precisa agora de um objeto jovem que o faça reviver os anos de juventude perdidos, mas alguém que não ameace o seu casamento, que mantenha o status quo.
Sabe-se lá qual informação que pediu ao amigo advogado da vara de menores, a respeito do objeto ao qual estava interessado, e porque se apaixonou à primeira vista. O que sabemos foi que esta menina se encaixava perfeitamente em seus planos, não tinha registro, fora abandonada pelos pais, não sabia dizer em que cidade morava e seu nome de família; havia passado por uma instituição que não lhe proporcionou grande ganho, pelo contrário, aprendeu ritual atípico, enfim não tinha a quem recorrer e não haveria do que reclamar. Ensiná-la a se banhar e ficar observando se o fazia direito não era nada se levando em conta o que ela já havia passado.
“Um sentimento de culpa é invariavelmente o fator que converte o sadismo em masoquismo. Certamente, porém, não é este conteúdo total do masoquismo. (…) ‘O meu pai me ama’ queria expressar um sentimento genital; devido à repressão, converte-se ‘O meu pai está me batendo’ (estou sendo espancado pelo meu pai). Esse ‘ser espancado’ é agora uma convergência do sentimento de culpa e do amor sexual. Não é apenas o castigo pela relação genital proibida, mas também o substituto regressivo daquela relação. Deriva a excitação libidinal que se liga à fantasia a partir de então, e que encontra escoamento em atos masturbatórios, que é a essência do masoquismo.”[6]
Juliana havia presenciado a cena primária várias vezes, possivelmente o que lhe despertou a sexualidade bem cedo; fora abandonada pelos pais desenvolvendo um sentimento de culpa terrível, o que será que ela havia feito para ser desamparada daquela maneira, possivelmente a fantasia de ser espancada aliviava este sentimento horroroso, do qual era vítima. Quando na FEBEM lhe impigem tal castigo, o ato vem ao mesmo tempo como uma punição e como uma satisfação auto-erótica. Dar continuidade a ele, pedindo que sua mãe adotiva repita o mesmo gesto, é colocar-se duplamente nas mãos de seu algoz. Porque ela também recebia corretivos quando era malcriada e batia as portas com força, pelo menos que fosse do jeito que sentia mais prazer.
Respondendo a minha quinta pergunta, lembrei-me que quem marcou a entrevista por telefone foi o pai adotivo, a quem foi solicitado que não trouxesse a criança na mesma. Como advogado talvez tenha fantasiado uma espécie de acareação, onde ele e a esposa iam ser interrogados do por quê da escolha desta criança para adoção e tinha medo das respostas da esposa comprometer todo o seu plano, sabendo que ela não estava de acordo e havia aceitado por imposição dele, tendo se submetido a um casamento de 20 anos e estando agora com idade avançada, numa posição mais de ser cuidada do que de oposição. Trazendo a menina para a primeira entrevista não correria o risco de ser denunciado, pois alguém teria que ficar com ela na sala de espera, pelo que pudemos desprender da segunda entrevista, a posteriori, realizada apenas pela mãe, onde se arranjou um lugar para Juliana ficar e ele tinha a desculpa do trabalho. Segundo Jean Clavreul quando nos perguntamos o que acontece com o parceiro do jogo perverso:
“É claro que é como portador de um olhar que o Outro será o parceiro, ou seja, antes de tudo o cúmplice do ato perverso. Aqui tocamos naquilo que distingue radicalmente a prática perversa em que o olhar do Outro é indispensável porque é necessário à cumplicidade, sem o que não existiria o campo da ilusão, e o fantasma perverso, que não somente se adapta muito bem à ausência do olhar do outro mas exige, para concluir, satisfazer-se na solidão do ato masturbatório. Se o ato perverso distingue-se sem equívoco do fantasma que age, é portanto nesta linha em que se inscreve o olhar do Outro que distinguimos suas fronteiras, olhar cuja cumplicidade é necessária para o perverso, enquanto é denunciador para o normal e para o neurótico.”[7]
Ela não deveria denunciá-lo, pelo menos não na sua frente e nem na primeira entrevista, porque não poderia correr o risco de ser reforçada pelos profissionais que a decisão deveria ser tomada em comum acordo, já que a adoção de uma criança dependeria do compromisso do casal e não só de uma das partes. Ele queria a cumplicidade dos profissionais, a da esposa ‘por direito’ já tinha, mesmo sem tê-la.
A sexta questão, ela mesma nos responde em sua entrevista no manifesto: “A princípio não queria a adoção, mas o marido insistiu tanto e já estava tão apegado à criança que não havia mais jeito.” O que ela nos dizia no latente era que não dava para bater de frente com um homem apaixonado e com quem não tinha voz ativa, nunca teve, ela era apenas o objeto de um desejo que já havia passado e sabemos que o mais inconstante na vida do perverso é o objeto, o ponto de fixação é o fetiche, mas o objeto é mutável.
“Uma conclusão importante de Stoller, apud Ferraz, é a de que todo o trabalho de construção da fantasia a ser encenada pelo perverso tem por corolário a desumanização do objeto sexual. Este não é e nem pode ser – sob pena de colocar em risco a montagem perversa – encarado como pessoa ou alteridade. Muito embora, na prática, o objeto seja uma pessoa real com sua personalidade, o perverso nele procura vislumbrar uma criatura sem humanidade ou simplesmente um fragmento anatômico ou de personalidade. Isto explica por que o objeto é sempre descartável. (…) Em relação ao fragmento anatômico, Stoller parece referir-se ao que Freud chamava de objeto parcial: um órgão sexual ou qualquer outra parte do corpo do parceiro.”[8]
Ela nos conta que o marido é quem cuida da higiene pessoal da menina, principalmente do banho, respondendo a minha sétima questão, porque está com ciúmes. O marido não trouxe uma filha para casa, trouxe uma amante, ou uma futura amante, e ela sabe que foi destituída do lugar do desejo.O seu papel agora é de espectadora e tem se conformar com isto ou ficar no desamparo, depois de vinte anos de casamento. Ou agora, ela foi colocada no lugar da mãe? Da mãe que assiste ao filho tomar outra mulher como esposa?
“Para Stoller, a perversão masculina é, no fundo, um transtorno de gênero construído sobre uma tríade da hostilidade: raiva, medo e vingança. O menino tem raiva da identificação inicial com a mãe, tem medo de não conseguir escapar de sua órbita e almeja vingar-se dela porque sente que ela o colocou nessa condição.”[9]
Respondendo as minhas duas últimas questões, talvez eles tenham vindo buscar cúmplices para o seu ato perverso, na esperança de alimentarem a sua ilusão, de que estavam fazendo o ‘bem’ para aquela criança; ao serem denunciados na orientação da higiene que não estava de acordo com a moral comum, foram pegos de surpresa e não tiveram outra alternativa do que postergar uma decisão que não mais seria tomada, pelo menos com aqueles profissionais, de ajudarem a uma criança a se desenvolver sadiamente. Porque não era isto que buscavam. Isto reforça a minha posição de ter sido a mãe adotiva a denunciar, talvez por ciúmes e, com a esperança de voltar a ser o objeto de desejo de seu marido.
Triste destino desta menina, ser abandonada pelos pais e ficar numa instituição que nada tem de recomendável, ou ser adotada por um casal que ao meu ver formam um par perverso, será que se sentiu amparada por eles, ou foi mais um dos objetos parciais na mão destes ‘pais’, se é que podemos chamar isto de pais? …Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come…
[1] Grifo meu, fala da mãe adotiva.
[2] Grifo meu.
[3] Citação do livro “Eichmann em Jerusalém. Um Relato Sobre a Banalidade do Mal” de Arendt Hannah – 1963 – Companhia das Letras – São Paulo – 2000. No artigo de Maria Helena Saleme – “Perversão: algumas reflexões.”
[4] Stoller – “ Lê désir de faire mal” – Paris, Gallimard – 1980 – apud Maria Helena Saleme, no mesmo artigo citado acima.
[5] S. Freud, “Breve Resumo da Psicanálise”, volume XVIII, S.E., pág 139/207.
[6] S. Freud – “Uma Criança é Espancada” – Volume XVII – 1919 – p. .225
[7] J. Calvreul – “O casal perverso” – 1967 – p.132
[8] Stoller apud F. C. Ferraz – “Perversão” – Casa do Psicólogo – 2001- p..59.
[9] Idem ao item anterior, p. 62