No artigo de Maurício Rodrigues de Souza, no livro: “A Fabricação do Humano”, ele compara um artigo de Freud, 1919, com um filme dirigido por Sofia Coppola, vencedor do Globo de Ouro e do Oscar de melhor roteito em 2004, “Encontros e Desencontros”.
A intenção do autor é debater as imbricações entre inconsciente e cultura, porque na virada do século XIX para o XX aconteceram os primeiros escritos de Freud e Breuer sobre a histeria e, também a projeção de imagens dos irmãos Lumière.
Para Maurício é a espantosa e necessária a capacidade de criação de uma realidade alucinatória que aproxima o sonho e a projeção cinematográfica da psicanálise. O seu foco recairá sobre os sabores e dissabores do trato com a alteridade, direcionando o olhar para a possibilidade presente tanto na clínica analítica quanto no filme em questão, do encontro com o inominável de si mesmo por intermédio de um estrangeiro. Trata-se de um entrechoque dialético entre o estranho mais íntimo e o íntimo mais estranho, vinculado ao processo primário, à lógica do inconsciente.
Para falar sobre alteridade em psicanálise, o autor irá buscar um escrito de Freud, 1919, traduzido como: “O Inquietante”, “O Estranho”, ou “O Sinistro”. Este texto apresenta uma ética peculiar à psicanálise: ao debater a alteridade, não aborda exatamente um estrangeiro, mas detecta a estranheza do inconsciente enquanto inominável de nós mesmos.
“O Inquietante”tem uma característica que o individualiza, trata-se de um texto que funciona como “dobradiça” entre as chamadas primeira e segunda tópicas freudianas, ocorrendo reformulações teóricas em dois planos: o tópico e o econômico. No tópico houve a organização do aparelho psíquico em “instâncias”; no econômico há o confronto da libido com as demandas de renúncia impostas pela cultura; sendo incluido ente as “instâncias”psíquicas o conceito de superego.
Freud havia proposto inicialmente a dominância do princípio do prazer, teorizando que todo organismo tenderia alcançar um grau estável de tensão mínima. Porém, a sua experiência clínica levou-o a questionar estas idéias e a acrescentar o que denominou de compulsão à repetição, uma tendência do psiquismo à reprodução de experiências desagradáveis e inviabilizadoras de satisfação.
“O Inquietante” representa uma importante transição na metapsicologia freudiana, precedendo a reorientação teórica da psicanálise rumo a uma nova teoria das pulsões. Agora a vida psíquica seria regida por dois princípios simultaneamente antitéticos e complementares: as pulsões de vida e morte. Neste texto, Freud, privilegia a questão aos domínios da estética – particularmente a literária.
Encontramos Freud (1919) às voltas com a capacidade da obra de arte de causar em nós a sensação de uma desconfortável inquietude, experiência esta relativa àquilo que seduz e, ao mesmo tempo, aterroriza. Todo prazer seria misturado, heterogêneo, havendo um estranhamento dos limites entre “positivo”e “negativo”.
Freud propõe duas vias para o estudo da sensação de dessassossego despertada pela criação artística. Uma de cunho etimológico, voltada ao desenvolvimento desta palavra no contexto de variadas culturas. Outra procurando elucidar uma essência do sinistro a partir da reunião de características particulares de coisas, pessoas e vivências capazes de despertar em nós tal impressão.
Freud utiliza o conto: “O homem de Areia”, do escritor alemão E. T. A. Hoffmann, para destacar que a experiência do inquietante nos remete a uma série de elementos, como o susto e a perda de sentido e realidade (suspensão do juízo de existência). Trata-se de emoções relativas ao desamparo infantil, as quais não se ligariam a nenhuma significação. Daí o surgimento da angústia enquanto representante pulsional afetivo indeterminado. Expõe a sua hipótese de que a vida psiíquica é essencialmente pulsional; dominada por um excesso de sentido intimamente vinculado a um impulso de repetição impossível de simbolização pela via de linguagem e que teima em reaparecer sob a inquietante forma do sinistro.
Para Freud, o caráter inquietante é provocado por qualquer sensação de um fim da distinção entre imaginação e realidade. Trata-se de uma (con) fusão entre o eu e o mundo para além do campo da linguagem representacional, quando aparece diante de nós como real algo que havíamos tomado por fantástico, quando um símbolo assume a plena operação e significado do simbolizado. Poderíamos perceber aí a presença de uma supervalorização da realidade psíquica em contraponto à realidade material, associada à chamada onipotência dos pensamentos.
“Encontros e Desencontros” apresenta ao público um tempero delicado e muito bem distribuído entre o trágico e o cômico. Um filme que instiga por nos convidar a um constante jogo de movimento e indefinição, de transição entre espaços, de impossibilidade de tradução – seja do si mesmo, seja do outro. Um filme sobre um mal-estar específico, sobre uma angústia ligada ao vazio, a um irrepresentável que pode vir a adquirir alguns contornos pelo contato com um estranho.
Charlotte (Scarlett Johanson) é uma jovem recém-casada e recém-formada. Curiosamente uma filósofa incapaz de representar a si mesma após frustrações nos campos da fotografia e da escrita. Não se reconhece e tampouco é reconhecida pelo olhar do marido – que é um fotógrafo, um profissional do olhar – um estranho com o qual trocou alianças e divide um quarto de hotel no Japão.
A figura de Charlotte, filósofa graduada por uma das mais importantes faculdades dos Estados Unidos (Yale), torna-se muito representativa, já que a personagem não dá conta de si mesma em termos de desejo, presente, futuro ou relações objetais.
Bob (Bill Murray) se apresenta como um homem de meia-idade, ator de considerável sucesso em filmes da década de 1970, mas que vai a Tóquio para promover um uísque por vantajosa soma em dinheiro. Como Charlotte, também sugere uma imagem de decadência e despersonalização. Ele apresenta uma relação de estranheza com a esposa e filhos que ficaram na América. Diante da solidão e das inquietações com a própria vida e relações familiares, se refugia na bebida e na companhia de estranhos em um bar de hotel.
As vivências dos personagens principais de Encontros e Desencontros nos apresentam imagens de desfiliação, de desnaturalização e da busca pelo olhar tradutor de um outro. E é a partir da resposta deste último que advém a abertura ao novo, à possibilidade de diferentes olhares dos personagens sobre a cidade-alteridade e sobre as suas próprias vidas.
Embora trazendo consigo idades distintas e também diferentes experiências de vida, ambos apresentam pelo menos duas coisas em comum: uma insatisfação quanto ao presente, aliada à angústia em relação ao futuro. Na verdade, é a própria temática do duplo que aparece na relação entre os dois personagens, ao mesmo tempo tão diferentes e tão próximos a ponto de quase se confundirem.
Há uma inquietação que permanece, um não definido, um não traduzido, um persistente bordejar entre o contato com o outro e o mergulho nas próprias incertezas. Temos a idéia de vidas paralelas, de ditintas motivações e buscas de sentido para as próprias histórias de vida.
Torna-se digna de nota a inquietação imposta ao expectador pelo filme em termos de indefinição da relação entre seus dois personagens principais. Flertarão? Consumarão um encontro apaixonado ou irão se manter suspensos e desencontrados?
Aparece também no filme o lusco-fusco de sono (sonho) e vigília que marca as trajetórias de Bob e Charlotte. Quando se está dormindo? Quando se está acordado? O que é – ou parece- real e o que é imaginação? Temos um Oriente enquanto ambiente étnico e cultural distinto (por vezes inóspito), mas que também aparece como portador de duplos na forma de pastiches que remetem ao “american way life”.
Nas suas idas e vindas pela cidade, o próprio retorno de Bob e Charlotte acaba sempre por se dar em um lar que não é exatamente um lar por se tratar de um hotel – projetado para ser impessoal – e os quartos que ocupam podem ser pensados como metáforas do próprio sujeito do inconsciente. Afinal, trata-se de espaços do próximo, do familiar e, ao mesmo tempo, do distante – e, por isto mesmo – inquietante outro de si.
Encontros e Desencontros nos coloca frente a frente com pessoas que insistem em dizer a outras o que fazer em uma lígua desconhecida, isto é, que não provoca ou traz sentido. Em tal entrechoque entre o eu e o outro é possível perceber o peso do cotidiano da vida a dois, e nela o que por vezes pode soar demasiado medíocre ou superficial, levando os personagens a reflexões do tipo: ainda terá meu/minha companheira (o)/ alguma importância? Serei eu mesmo ainda importante? Tudo isto acompanhado da difícil constatação de que tal dúvida também atormenta o outro.
No texto de Freud (1919) e no filme Encontros e Desencontros – faz-se presente a simultaneidade de duas curiosas afirmações: uma relativa a um mal-estar, à angustiante presença do inominável na sombra do aparentemente familiar. Outra, inseparável da anterior, afirma que seria possível entrar em contato com ele por intermédio de um outro, de um estrangeiro com o seu olhar mais ou menos referente. É o entrechoque entre o estranho mais íntimo e o íntimo mais estranho, relativo a um não elaborado que inquieta por estar vinculado ao que temos de mais íntimo: o processo primário, o registro do inconsciente, algo pouco ou rudimentalmente representável e que, por isto mesmo, insistimos em repetir.
Eis portanto, o abismo imposto pela alteridade, revelando um inquietante que põe em cheque a nossa própria ilusão de autonomia. Já que não nos livramos de tal desconforto, resta fazer algo criativo.
Em última análise, trata-se mesmo da afirmação de um campo do possível que justifique renovadas aproximações entre inconsciente e cultura. Com a ressalva de que esta última seja pensada enquanto potência criativa que, resistindo à tentação de encarcerar o desejo, evite assim transformá-lo em uma espécie de mandamento.
Resumo feito por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu
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