Lendo o artigo de Isabel Fortes: “A função da dor na apropriação do corpo”, no livro A Fabricação do Humano, veio na minha lembrança os questionamentos que fazia aos professores no curso Formação em Psicanálise, a respeito de um assunto que muito me interessava por lidar na clínica com crianças, adolescentes e adultos que tinham dificuldade em trabalhar, reconhecer e se posturar diante da vida de um modo mais organizado com o seu corpo.
Os professores geralmente me respondiam: na psicanálise, Berenice, o que interessa é o corpo erógeno. Eu compreendia a resposta, mas ficava pensando como separar um do outro, já que Freud afirmava que nosso ego é corporal.
Então vamos ver o que resumidamente Isabel vai nos contando sobre o reconhecimento do corpo através da dor.
Ela começa nos dizendo que o tema da angústia hipocondríaca já aparece nos primeiros escritos, quando Freud descreve as neuroses e mais tarde, em 1914, no ensaio sobre o narcisismo é trabalhada a associação entre a dor e o corpo. Tal associação é importante no que concerne à formação do ego na proposição da segunda tópica, na qual o componente da dor comparece nas elaborações teóricas acerca do ego em sua articulação com a dor corporal.
Ver se entendo: ele, Freud, está falando de uma dor psíquica, angústia, e dores relacionadas a um ego que funciona narcisicamente, retirando a libido do mundo real, para um mundo fantasioso, onde o órgão eleito para ficar doente nem sempre é a causa, somente o sintoma de que algo no aparelho psíquico não está bem. Mas e os sujeitos ditos hipotônicos (musculatura flácida), ou hipertônicos (musculatura rígida), os catatônicos, será que em vez de elgerem um órgão, não elegeram o corpo todo, ignorando-o, ou usando-o como um escudo, dissociando e utilizando apenas a área cognitiva para não enfretarem a realidade, psicotizando?
Isabel continua o seu discurso dizendo: a oposição entre a doença real e a doença “imaginária” encontra-se relativizada pelo fato de que em ambas ocorre uma retração psíquica, oriunda da estase libidinal do eu. O paciente hipocondríaco retira a libido dos objetos do mundo exterior para concentrá-la de modo narcísico sobre o órgão que o incomoda.
Fico me perguntando: o corpo é um objeto do mundo externo ou interno? Onde fica o limite? A pele, o contorno do corpo, o que vemos no espelho é o externo e o que está dentro da pele é o interno? E como ficam as anorexas que se vêem no espelho como estando gordas, quando na verdade estão pele e osso? Qual é o limite do corpo físico em contraposição com o corpo psíquico? Na psicomotricidade não separamos um do outro, vemos como um todo, com uma dinâmica desorganizada, por isso em sofrimento. O sujeito muitas vezes não se reconhece no corpo em que habita e nem presta atenção nele, por incomodá-lo. Trabalhamos com o “movimento” para que o sujeito vá percebendo o seu corpo, apropriando-se de como ele se articula, qual é o espaço que ele ocupa e quais são as possibilidades de movimentá-lo dentro de um espaço e tempo, numa tentativa de integrá-lo com a sua dinâmica psíquica.
Freud se esforçou em delimitar os sintomas corporais nos diversos quadros de neurose de angústia, demonstrando a sua intuição quanto às estreitas relações entre a angústia e corpo, tendo papel essencial ao longo de sua obra.
A hipocondria se caracteriza pela sua relação com a paranoia, pois o corpo passa a ocupar o lugar do objeto perseguidor. Freud mostrou como o hipocondríaco não percebe o seu mal como vindo de dentro, considerando-o como exógeno, apontando por essa via um mecanismo similar à projeção que não se dirige ao mundo dos objetos, mas ao próprio corpo, fazendo deste uma entidade exteriorizada em relação ao eu.
Para Tausk[1] (1911), a paranóia somática direciona os núcleos persecutórios para o corpo do sujeito, produzindo alterações físicas e psíquicas. O inimigo não se encontra encarnado em uma pessoa do mundo exterior, mas no próprio corpo do paciente, vivido como estranho ao sujeito. Esta análise oferece um estatuto de estrangeiridade radical do corpo, na medida em que ele não é reconhecido como integrando uma unidade psíquica com o eu.
Neste sentido, fiquei pensando como alguns professores de seminários clínicos, com os quais tive o prazer de compartilhar os meus pacientes, pediam que prestássemos atenção não só na linguagem verbal dos sujeitos, mas também na não verbal, expressa pelo corpo, pelos gestos e expreessões faciais que nos chamassem atenção para tentar entender melhor o latente e então fazer nossas interpretações; o corpo fala, muitas vezes no verbal estamos dizendo algo contrário com o que estamos demonstrando com o corpo.
Ali onde dói, há para o paciente a sinalização da presença do aparelho. Trata-se de uma concepção de corpo sobre o qual podemos dizer não somente que se trata de uma exterioridade, mas que pode ser conectado ao eu por meio da dor.
Na psicomoticidade também dizemos que só percebemos que temos um dedinho do pé, quando topamos com ele na quina de um móvel. Urramos e pulamos de dor e às vezes até “xingamos”. Assim, o que não estava “presente”, por se achar muito distante, no extremo do corpo, pela dor passamos a representá-lo e a tomar cuidado para não repetir a façanha de topá-lo contra algo duro, para não sofrermos. Passamos a integrá-lo ao nosso corpo.
A dor hipocondríaca que manifesta a estase libidinal no eu tem paradoxalmente a função de proteger o corpo, já que o investe de energia psíquica. A concentração de libido narcísica acaba sendo uma proteção e um modo de assunção do próprio corpo.
Assim, observamos que a dor física ou a dor psíquica podem ser índices que sinalizam a presença do corpo.
Trabalhando com crianças muito regredidas, observei que após o trabalho corporal, movimento, elas passam a integrar melhor o corpo, registrando-o em desenhos, com maior detalhes, que antes não eram percebidos.
Quando não é possível descarregar a angústia através das produções psíquicas, sejam elas neuróticas ou psicóticas, a descarga toma o corpo como alvo, fazendo dele o local por excelência para a expressão da dor. A hipocondria já apontava desde o início para a relação que se faria em textos posteriores entre o órgão dolorido e o conhecimento do próprio corpo.
Para nós, psicomotricistas, tomar consciência do próprio corpo é a maneira mais rápida de sabermos o que está acontecendo conosco. Por quê fazemos certa parte do corpo, ou algum órgão, sofrer? Qual é a razão de andarmos nas pontas dos pés, ou colocando o pé todo no chão? Por quê nos encurvamos ou nos mantemos eretos? Porque ao tomarmos a consciência do que fazemos com ele, o corpo, temos a possibilidade de elaborar e nos conhecermos melhor.
Se o eu é “antes de tudo um eu corporal”, a dor adquire uma função central nesta compreensão, como meio pelo qual o eu adquire a assunção do corpo próprio. Neste sentido, a dor seria um sinal que indica ao eu a presença do corpo para o eu.
Assim, ao realizarmos movimentos, o eu toma consciência das partes do corpo e do todo com suas partes, observando as posibilidades de agir e realizar movimentos cada vez mais precisos, mais harmoniosos e com menos perda de energia. Deslocando-se por um espaço e por entre objetos, desenvolvendo as noções de espaço e de tempo do próprio corpo e do mundo do qual fazemos parte; sem necessariamente ter que enfrentar dores, talvez a dor em se perceber.
Leclaire (1979)[2], o corpo erógeno se constrói a partir do caráter fragmentário. A parte erógena surge de maneira indiscriminada neste ou naquele ponto da superfície corporal. Este modo de entender o corpo erógeno o inscreve na ordem da dispersão e da anarquia, não sendo remissível ao domínio de uma totalização.
A dor oferece a possibilidade de apropriação do corpo, mas mantendo neste o seu caráter fragmentário. Ao apontar a dor como índice de conhecimento geral do corpo Freud não faz deste uma entidade unificadora, mas mantém a referência a ele enquanto um ser constituído por partes.
Se Freud afirmou que o nosso ego é corporal, mas não há como vê-lo ou senti-lo por inteiro, já que é o corpo é constituído por partes, significa que o nosso ego também é fragmentado?!!!
Então, como compreender o órgão em psicanálise?
O órgão, para a psicanálise, é importante como parte corporal que pode ser atravessada pela libido (Ortega, 2008).[3]
O registro do órgão na teoria freudiana liga-se às dimensões de prazer e de excitação, indicando que o órgão é portador de excitabilidade, sendo este o caráter que interessa no órgão quando investigado pela psicanálise. A noção de “prazer do órgão” indica parcialidade, pois consiste no próprio modo de satisfação das pulsões parciais que emanam de diversos lugares e regiões do corpo. Pelo “prazer do órgão”, a zona erógena encontra o caminho da satisfação no próprio lugar onde ocorre a excitabilidade, de maneira independente das outras zonas.
Assim, o órgão na psicanálise é visto a partir da lógica do prazer, da excitação e da libido; interessando na medida em que se constitui como veículo de dor, prazer e libido.
Analisar o registro do órgão em psicanálise implica também valorizar o lugar do corpo enquanto partes, concebendo-as como estando sempre atreladas ao campo da libido, do prazer, da dor e da excitação.
Talvez por isso, as crianças gostem de fazer movimentos, os adolescentes sentem certa vergonha e os adultos inibição. Porque a excitação, a libido e o prazer estão sempre presentes. Mas depois de um tempo vão percebendo que elaboram e quebram paradigmas ao observarem a maneira como seus corpos respondem ao serem observados do lado de dentro, o que chamamos de atenção interiorizada.
A atenção interiorizada é desenvolvida quando o sujeito recebe a instrução do movimento que realizará, mentaliza-a e compara com a sua execução, tentando adequá-la ao que foi solicitado. Quando passam a conseguir realizar o que foi pedido na instrução, passam a prestar maior atenção ao corpo e a elaborar o que acontece interiormente entre o jogo do recebido, a instrução, e o do devolvido, a realização do movimento. Notamos que o ego vai se tornando mais integrado e a dinâmica muda.
Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.
Referências completas na página 68 do livro: “A Fabricação do Humano”, Joel Birman, Zagodoni Editora, São Paulo, 2014.
[1] Tausk – Da gênese do “aparelho de influenciar”no curso da esquizofrenia – 1911.
[2] – Leclaire, S. – O corpo érogeno. Escuta, São Paulo, 1979.
[3] – Ortega F. – O corpo incerto: corporeidade, tecnologias médicas e cultura contemporânea. Garamond, Rio de Janeiro, 2008.