“EU SEI, MAS MESMO ASSIM…

Frase de Mannoni (1973). Com essa fórmula: “eu sei, mas mesmo assim”, o sujeito opera a subversão entre o verdadeiro e o falso, produzindo a prevalência do singular sobre o universal.

Eudardo Leal, no livro: “A Fabricação do Humano”; vai articular pesquisas recentes sobre o estatuto da perversão no contemporâneo com estudos anteriores em torno da relação entre as categorias de desmentido (Verleugnung) de Freud e de simulacro (Baudrillard).

A perversão tem sido um recurso frequente em tentativas de dar conta de aspectos singulares do mundo contemporâneo, seja em relação ao funcionamento subjetivo, individual, seja em relação aos modos de organização social, o que faria apontar tanto para a produção de subjetividades perversas quanto para uma sociedade perversa.

Desde a publicação dos Três Ensaios sobre a Sexualidade (Freud, 1905), o uso da noção de perversão parece ter-se deslocado do campo propriamente sexual para o domínio do laço social, passando a se referir de modo mais amplo às modalidades de gozo que atravessam a relação com esse outro e seu corpo no campo da coletividade, de modo que a perversão social se tornou uma expressão corrente (Peixoto Jr.,1999).

O perverso típico deixou de ser o masoquista frequentador do submundo dos sexclubs ou o exibicionista inconveniente para se apresentar como funcionário padrão da máquina burocrática, por vezes cidadão modelo e dedicado pai de família, ou ainda cientista enredado nos aparelhos de Estado ou mesmo o mais exemplar dos agentes da lei. A monstruosidade perversa já não será predominantemente sexual, mas se ligará de modo cada vez mais forte à dominação, à violência e à crueldade.

Então, teríamos não uma multidão de perversos, mas a reunião de neuróticos em uma montagem perversa. Não se trata de transgredir ou desafiar a lei, porém de fazer dessa lei uma lei absoluta, da qual sou parte e instrumento, não sendo por ela interrogado enquanto sujeito. “Não é a situação da crise política e econômica em nosso país??!!”

Para parte significativa dos autores que criticam o mundo atual que se valem do recurso ao termo perversão, sobretudo em sua forma adjetiva, pode-se dizer que é a prevalência do dementido como operador em destaque no funcionamento psíquico dos sujeitos contemporâneos que faz com que a perversão retome o centro da cena, embora não necessariamente como classificação diagnóstica e sim como categoria descritiva do tipo possível de relação com o outro na atualidade.

O que se pretende é explorar a presença do mecanismo do desmentido na contemporaneidade, a partir de dois diferentes personagens em cujo funcionamento psíquico aparece clara a presença do mecanismo de desmentido: predadores e perdedores.

O desmentido se configura em mecanismo psíquico necessário a certas formas presentes de resistência a modos de organização e regulação do laço social; em seu sentido moral, no qual o perverso aparece como contaponto de uma série de ideais e valores que parecem ainda fundamentais para que possamos nos reconhecer uns aos outros como humanos.

Dirigindo o olhar para os laços entre saber e perversão, é possível encontrar vínculos evidentes entre a perversão e o modo como se percebe a realidade, de maneira que a experiência perversa se baseie em um modo particular de relação com a verdade, marcado pela busca do saber total e absoluto.

Entre a transformação do outro em objeto de gozo, marca do uso corrente de perversão, e a brincadeira infantil, desenha-se esta outra marca possível para experiência que se poderia descrever como perversa: a ininteligilibilidade. A categoria de perversão apareceria para enunciar aquilo que no humano figura-se como ininteligível e é situado fora das fronteiras da humanidade.

No mundo contemporâneo, encontramos dois personagens que nos parecem trafegar nesse território de fronteira entre o infantil e o monstruoso que marcaria nosso encontro com que há de ininteligível no próprio humano, diante do qual a experiência perversa pode apresentar-se como destino possível. Um deles aproxima-se mais da crueldade, enquanto o outro parece perdido nos domínios de suas próprias ilusões: o predador e o perdedor.

O predador contemporâneo não é propriamente um assassino, mas encontra-se capturado pelo fascínio do aniquilamento do outro. Ancorado em uma crença absoluta na divisão do mundo entre vencedores e perdedores, sem poder de barganha, ele se submente ao funcionamento automático do extermínio. Ao recusar o lugar da vítima, ele sabe que sua única escolha é tomar o lugar do carrasco e a encenação do ato é o fantasma que lhe serve de guia e determina a sua posição no mundo.

A cultura do narcisismo para Lasch (1983), instala a divisão radical do mundo entre vencedores e perdedores e a felicidade torna-se direito exclusivo dos primeiros enquanto os ditos vencidos são destinados ao banimento e à exclusão do jogo econômico e social, tornados assim espécie de restos da sociedade de consumo, pobres e viscosos.

Com a fórmula “eu sei, mas mesmo assim”, o sujeito opera a subversão entre o verdadeiro e o falso, produzindo a prevalência do singular sobre o universal. Instala-se o sujeito no que descreveríamos como regitro do simulacro.

Tem-se aqui a simulação como arma no enfrentamento dos discursos de poder, o que podemos perceber na experiência das histéricas do século XIX, ao se colocarem diante do saber médico que invadia seu corpo e esquadrinhava sua alma.

A simulação operando tal subversão entre o falso e o verdadeiro, produziria uma fissura nos discursos de poder que pretendem instituir uma verdade tão absoluta quanto espetacular. “A máxima dos políticos perversos: uma mentira contada repetidamente acaba-se por tornar uma verdade”.

O que há de assustador na cena da predação, o que fascina e aprisiona o sujeito é a possibilidade do gozo absoluto. O que de algum modo libera o perdedor é precisamente o reconhecimento de que não pode gozar. De um lado nega-se a insuficiência sustentando um gozo que só é possível como simulacro. Para o predador há apenas uma lei, a do gozo absoluto implicado no aniquilamento do outro. Para o perdedor, não há reconhecimento da lei, apenas regras que podem, como em qualquer jogo, ser burladas.

O nosso argumento é que tais recursos e condições de possibilidade dizem respeito precisamente aos modos possíveis de relação com o real e produção de um saber. Saber que se dá como absoluto, inegociável, ao qual só nos resta a submissão, como no caso do predador, da paixão da instrumentabilidade e do aniquilamento do outro. Saber que se dá como jogo, desmentindo a realidade e, como na fantasia e no brincar das crianças, permitindo a instalação de um regime de simulacros no qual a verdade e o absoluto simplesmente se perdem.

“Eles nos diziam: todas as nossas ações são para beneficiar os mais carentes, os humildes, para os ricos nada, porque eles já têm! Esse era o saber absoluto! O que estava por trás, o simulacro, era o enriquecimento ilícito através das verbas que se diziam doar às populações pobres. O jogo era uma distração para que não percebéssemos a falcatrua dos roubos de nossas estatais.!

Resumo do texto: “A dupla face do desmentido na atualidade: entre o aniquilamento do outro e a felicidade em simulacro.” Eduardo Leal Cunha.

Comentários de Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

Referências no livro: A Fabricação do Humano, páginas 58 a 60.

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