O falso e o verdadeiro self (análogos da vida autêntica e inautêntica)
Winnicott reconhecia diretamente a origem de suas concepções sobre o verdadeiro e o falso self, referindo-se ao que designamos acima como sendo a questão da autenticidade no pensamento existencialista moderno: “Este conceito em si não é novo. Aparece de várias formas em psiquiatria descritiva e especialmente em certos sistemas religiosos e filosóficos”. Mas Winnicott não passou a fazer um tipo de aplicação direta do que ele lera sobre isto, mas sim, vai à procura do significado clínico do que é o falso self, afirmando, na sequência do reconhecimento da origem deste conceito:
Por certo existe um estado clínico real que merece estudo, e o conceito se apresenta à psicanálise como um desafio quanto à etiologia. A psicanálise se interessa pelas perguntas:
- Como aparece o falso self?
- Qual é a sua função?
- Por que o falso self é exagerado ou enfatizado em alguns casos?
- Por que algumas pessoas não desenvolvem o sistema do falso self?
- Quais são os equivalentes do falso self nas pessoas normais?
- Que é que existe que poderia ser denominado de self verdadeiro?
Tendo indicado que sua proposta está influenciada no que psiquiatras e filósofos disseram sobre uma vida inautêntica, ainda que não tenha usado este termo, Winnicott segue seu texto procurando se colocar no interior da psicanálise e, por isso, afirma que o que ele está fazendo corresponde a um desenvolvimento do que Freud já fizera antes dele: “Particularmente, relaciono o que divido em self verdadeiro e falso com a divisão de Freud do self em uma parte central e controlada pelos instintos (ou pelo que Freud chamou sexualidade, pré-genital e genital), e a parte orientada para o exterior e relacionada com o mundo”.
O que procuro fazer, agora, é seguir explicitando o que é o verdadeiro e o falso self, em termos do que Winnicott considerava como estando referido à própria natureza humana, que ele definirá muito mais em função da noção de ser e continuar sendo do que em função de um aparelho que procura descargas para se manter termodinamicamente o mais estável possível, enfatizando, assim, aquilo que não foi explicitado por Winnicott como um conjunto de elementos que caracterizam o verdadeiro e o falso self.
A experiência de ser e continuar sendo a que se refere Winnicott, diz respeito a acontecimentos mais ou menos contínuos da história do indivíduo. Trata-se de um movimento ou afirmação existencial associada a um agir espontâneo, a partir de si mesmo, que é vivido tanto no início quanto no brincar infantil e no brincar do adulto. É neste quadro conceitual que Winnicott considera a distinção entre o self verdadeiro e o falso:
Durante os estágios iniciais, o verdadeiro self apresenta-se como uma posição teórica a partir da qual surge o gesto espontâneo e as ideias pessoais. O gesto espontâneo é o verdadeiro self em ação. Apenas o verdadeiro self pode ser criativo, e apenas ele pode sentir-se real. Considerando-se que o verdadeiro self sente-se real, a existência de um falso self resulta de um sentimento de irrealidade ou de inutilidade.
O verdadeiro self, corresponde, pois, à própria experiência de ser genuína, realizada a partir de si mesmo, antes mesmo que um EU tenha se constituído (um Eu separado do mundo, o que implica na consideração de um mundo interno e um externo, com seus objetos):
O self verdadeiro provém da vitalidade dos tecidos corporais e da atuação das funções do corpo, incluindo a ação do coração e a respiração. Está intimamente ligado à ideia de processo primário e é, de início, essencialmente não reativo aos estímulos externos, mas primário. […] É fundamental destacarmos que de acordo com a teoria formulada aqui, o conceito de uma realidade interna dos objetos para o indivíduo aplica-se a um estágio mais tardio do que aquele do conceito que foi denominado de verdadeiro self. O verdadeiro self surge assim que haja uma organização mental por parte do indivíduo, o que implica pouco mais do que o somatório da consciência sensório-motora.
Ainda que surja e até mesmo se confunda com a experiência de ser, o verdadeiro self corresponde também a um modo de vida que fornece ao indivíduo um lugar a partir do qual viver, também quando ele estiver integrado na unidade do sujeito psicológico ou, noutros termos mais próprios a Winnicott, quando ele estiver integrado como um EU, como uma pessoa inteira.
No entanto, quando ocorrem invasões ambientais, que não sustentam este agir espontâneo, o verdadeiro self reage e, para se proteger, cria outro self (falso) para relacionar-se com o ambiente e para, assim, proteger o verdadeiro self: esta é a função e o motivo de existência do falso self.
Isto corresponde tanto a um fato que ocorre na saúde, quando o falso self é uma forma operativa de lidar com o mundo sem ser o fator dominante, como também na patologia, ou seja, quando o padrão de existência do indivíduo torna-se o falso self.
Apontando para o fato de que o modo de vida falso-self corresponde a um tipo de desvio da própria essência da natureza humana, Winnicott volta a se referir ao fato de que outros pensadores já haviam se referido a este fenômeno: “Poetas, filósofos e profetas sempre estiveram envolvidos com a ideia de um verdadeiro self. A traição ao self tem sido um exemplo típico daquilo que é inaceitável”. Assim, para Winnicott, nos casos de falso self patológico, é comum que o indivíduo mostre-se, por um lado, bem sucedido na sua relação com o mundo e com os outros (o falso self foi criado para isto), e, por outro, sente-se vazio, inútil ou fútil, o que pode levá-lo a um tipo de colapso (às vezes confundido com o que popularmente se caracteriza como sendo a crise da meia-idade), o falso self se desfaz procurando, assim, dar lugar para que o verdadeiro tenha a sua chance; noutros casos, mais graves, reconhecendo que o verdadeiro não terá chances, o indivíduo caminha e realiza o suicídio (já que o verdadeiro self não poderia ter chances de viver, também não há razão alguma para que o falso exista).
A noção de saúde de acordo com o Dasein e a vida autêntica
Há, em Winnicott, uma noção positiva da saúde, formulada em termos descritivos, o que não encontramos nem em Freud nem em Melanie Klein. Ao afirmar o que é um indivíduo saudável (o que não significa dizer, um indivíduo normal), ele parece conjugar tanto aquilo que implicaria em conquistas integradoras do processo de desenvolvimento emocional do ponto de vista da tradição freudiana e kleiniana da psicanálise (reconhecer-se a si mesmo como uma pessoa inteira, relacionar-se consigo mesmo e com os outros reconhecendo a si e ao outro como pessoas inteiras, integrar os impulsos amorosos com os destrutivos podendo administrar sua vida instintiva nas relações interpessoais no e para além do cenário edípico etc.), quanto uma série de modos de ser-viver que não estariam até então reconhecidos na psicanálise como fatores ou variáveis a serem consideradas (tais como ser real, ser a partir do verdadeiro self, ser criativo, ter uma vida que valha a pena ser vivida, ter um determinado tipo de relação mais ou menos dependente do ambiente etc.):
A vida de um indivíduo são se caracteriza mais por medos, sentimentos conflitantes, dúvidas, frustrações do que por seus aspectos positivos. O essencial é que o homem ou a mulher se sintam vivendo sua própria vida, responsabilizando-se por suas ações ou inações, sentindo-se capazes de atribuírem a si o mérito de um sucesso ou a responsabilidade de um fracasso. Pode-se dizer, em suma, que o indivíduo saiu da dependência para entrar na independência ou autonomia.
Note-se que esta caracterização da saúde não se refere a um indivíduo fora do mundo, pelo contrário, faz parte da saúde, estar no mundo, criar o mundo no qual se vive, estar-com-o-outro e até mesmo, como fundamento, cuidar de si e do outro, cuidar de si e do mundo no qual se vive:
A maturidade do ser humano é uma palavra que implica não somente crescimento pessoal, mas também socialização. Digamos que na saúde, que é quase sinônimo de maturidade, o adulto é capaz de se identificar com a sociedade sem sacrifício demasiado da espontaneidade pessoal; ou, dito de outro modo, o adulto é capaz de satisfazer suas necessidades pessoais sem ser anti-social, e, na verdade, sem falhar em assumir alguma responsabilidade pela manutenção ou pela modificação da sociedade em que se encontra. Encontramos certas condições sociais, e isso é um legado que temos que aceitar, e, se necessário, alterar; e é isso que eventualmente passaremos adiante àqueles que se seguirem a nós.
A saúde, pois, corresponde a ser a partir da própria estrutura do modo específico de ser do ser humano, redescrita no quadro da teoria psicanalítica que leva em conta, além das características estruturais do Dasein, uma série de outras características relativas à administração das relações inter-humanas impulsionadas tanto pela vida instintual como pelas necessidades do ego (ou necessidades de ser).
Considerações finais
O reconhecimento destas influências faz com que Fulgencio defenda que a proposta de Winnicott corresponde a uma segunda tentativa de síntese (a primeira foi feita por Binswanger) entre a psicanálise e o existencialismo. Estas concepções de Winnnicott ampliam o campo de ação clínica da psicanálise, possibilitando reconhecer e tratar de problemas existenciais pensados, agora, em conjunção com as neuroses advindas de experiências traumáticas no processo de desenvolvimento emocional; bem como levam a uma redefinição dos objetivos do tratamento psicanalítico, em função de uma noção de saúde que é construída no quadro da estrutura do Dasein, construída via relação com o outro, via relação de dependência com o outro, sem desconsiderar a tarefa, que tem todo ser humano que se integra numa unidade como pessoa inteira, de administrar a vida instintual (nos seus aspectos amorosos e destrutivos) nas relações interpessoais.
Retomando, agora, o próprio fundamento do que é o modo de ser humano, do ponto de vista do existencialismo moderno, podemos renunciar a característica essencial do Dasein: ele faz a si mesmo no tempo com os outros. Numa perspectiva semelhante, Winnicott diz que o homem faz a si mesmo, sustentado pelo ambiente, no exercício da criatividade originária, do gesto espontâneo, do brincar e do cuidado consigo e com o mundo em que se vive. Ao enunciar o que é a natureza humana como aquilo que existe no tempo (vindo do não ser, onde ele não é, e surgindo como ser-no-mundo-com-os-outros, como aquele que é e continua sendo a partir de si mesmo, até o momento em que faz a experiência da morte última das experiências, voltando para o não ser), Winnicott parece renunciar a máxima existencialista (“o homem é a sua existência”) ou a frase de Heidegger definindo o Dasein (“O homem é o lugar-tenente do nada”), afirmando: “A human being is a time-sample of a human nature.
Referências:
Abram, Jan. (2012a). Donald Winnicott Today. London and New York: Routledge.
Abram, Jan. (2012b). On Winnicott’s clinical innovations in the analysis of adults. International JOurnal of Psychoanalysis, 93(1461-1473).
Assoun, Paul-Laurent. (2006). Le symptôme humain: Winnicott a-métapsychologue La nature humaine à l´épreuve de Winnicott. Paris: PUF.
Blass, Rachel B. (2012). ‘‘On Winnicott’s clinical innovations in the analysis of adults’’: Introduction to a controversy. The International Journal of Psychoanalysis, 93, 1439-1448.
Bonaminio, Vincenzo. (2012). On Winnicott’s clinical innovations in the analysis of adults. The International Journal of Psychoanalysis, 93, 1475-1485.
Caldwell, Lesley, & Joyce, Angela. (2011). General Introduction of Reading Winnicott. In L. Caldwell & A. Joyce (Eds.), Reading Winnicott. London: Routledge.
Caldwell, Lesley, & Joyce, Angela. (2012). Winnicott in his time Winnicott´s Children (pp. 1-40). London and New York: Routledge.
Eigen, Michael. (2012). On Winnicott’s clinical innovations in the analysis of adults. The International Journal of Psychoanalysis, 93, 1449-1459.
Ellenberger, Henri Friederic. (1958). A Clinical Introduction to Psychiatric Phenomenology and Existential Analysis Existence. A New Dimension in Psychiatry and Psychology. New York: Basic Books.
Fulgencio, Leopoldo. (2010). Aspectos gerais da resdescrição winnicottiana dos conceitos fundamentais da psicanálise freudiana. Psicologia USP, 21(1), 99-125.
Fulgencio, Leopoldo. (2011). A ética do cuidado psicanalítico para D. W. Winnicott. A PESTE: Revista de Psicanálise e Sociedade e Filosofia, 3(1 & 2), 91-111.
Heidegger, Martin. (2009 [1996]). Introdução à Filosofia. São Paulo: WMF Martins Fontes.
Loparic, Zeljko. (2001). Esboço do paradigma winnicottiano. Cadernos de história e filosofia da ciência, 11(2), 7-58.
Loparic, Zeljko. (2002). Binswanger, leitor de Heidegger: um equívoco produtivo? Revista de Filosofia e Psicanálise Natureza Humana, 4(2).
Loparic, Zeljko. (2012). From Freud to Winnicott: aspects of a paradigm change Donald Winnicott Today. London and New York: Routledge.
May, Rollo, Angel, Ernest, & Ellenberger, Henri Friederic. (1958). Existence. A New Dimension in Psychiatry and Psychology. New York: Basic Books.
Winnicott, Donald Woods. (1965d). Os Objetivos do Tratamento Psicanalítico O Ambiente e os Processos de Maturação (pp. 152-155). Porto Alegre: Artmed, 1983.
Winnicott, Donald Woods. (1965m). Distorção do Ego em Termos de Falso e Verdadeiro Self O Ambiente e os Processos de Maturação (pp. 128-139). Porto Alegre: Artmed, 1983.
Winnicott, Donald Woods. (1965r). Da Dependência à Independência no Desenvolvimento do Indivíduo. O Ambiente e os Processos de Maturação (pp. 79-87). Porto Alegre: Artmed, 1983.
Winnicott, Donald Woods. (1965vc). Provisão para a criança na saúde e na crise. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas,1983.
Winnicott, Donald Woods. (1967b). A Localização da Experiência Cultural O Brincar & a Realidade (pp. 133-143). Rio de Janeiro: Imago Ed., 1975.
Winnicott, Donald Woods. (1971f). O Conceito de Indivíduo Saudável Tudo Começa em Casa (pp. 3-22). São Paulo: Martins Fontes, 1999.
Winnicott, Donald Woods. (1971q). O lugar em que vivemos O Brincar & a Realidade (pp. 145-152). Rio de Janeiro: Imago Ed.,1975.
Winnicott, Donald Woods. (1971r). O Brincar: A Atividade Criativa e a Busca do Eu (Self) O Brincar & a Realidade (pp. 79-93). Rio de Janeiro: Imago Ed., 1975.
Winnicott, Donald Woods. (1986e). O conceito de falso self Tudo Começa em Casa (pp. 53-58). São Paulo: Martins Fontes, 1999.
Winnicott, Donald Woods. (1988). Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990.