Influências do Existencialismo Moderno no Pensamento de Winnicott – Parte I

Li num texto de Leopoldo Fulgencio: “Influências do Existencialismo Moderno no Pensamento de Winnicott” (2010), como o pediatra e psicanalista inglês pode ter se deixado influenciar pela filosofia existencialista moderna para construir alguns de seus conceitos mais importantes, como: falso e verdadeiro self, ser e continuidade de ser, fenômenos transicionais, tempo e espaço, etc.

Para Fulgencio, Winnicott se considerava um psicanalista, um admirador de Freud, que reconhecia que Freud nos deu um método para o desenvolvimento da psicanálise como ciência, e mesmo considerando que não concordava com tudo que Freud propôs, ele se achava um freudiano, talvez, para além de Freud.

Winnicott se apoiava também numa série de conceitos que constituem as bases empíricas da teoria e da prática psicanalítica (reconhecimento dos processos psíquicos inconscientes; a transferência e a resistência como fenômenos típicos sempre presentes nos tratamentos pelo método psicanalítico; a importância dada à sexualidade infantil, ao complexo de Édipo e ao complexo de Castração), ainda que tenha redescrito muitos destes conceitos não só ampliando seu sentido, mas também mudando seu lugar no quadro do processo de desenvolvimento emocional. Vemos, ainda, que mesmo reconhecendo a importância da presença das pressões instintuais no processo de desenvolvimento e no funcionamento dos indivíduos, ele introduziu na psicanálise a consideração de outros fenômenos determinantes na constituição do indivíduo e nas suas relações interhumanas, ampliando e mesmo reformulando o modelo ontológico de homem na psicanálise, mais ainda, introduzindo e reconhecendo fenômenos que não tinha sido até então considerados no quadro da psicanálise, tais como o falso e verdadeiro self, a questão de saber sobre o que versa a vida, etc., fenômenos e propostas que têm proximidade senão semelhança com os descritos no existencialismo moderno.

Fulgencio considera que as inovações propostas por Winnicott derivam de sua prática clínica com bebês e suas mães, como também do tratamento de pacientes psicóticos, associando este campo empírico com sua formação empirista e humanista, bem como, por uma certa influência, marcada pelo horizonte de sua época, na qual as concepções existencialistas se mostravam como um novo aporte possível para o desenvolvimento da psiquiatria e da psicologia (psicanálise).

A noção de ser, que reformula o modelo ontológico do que é o homem para a psicanálise, cuja proximidade com o que representa o Dasein parece evidente; a consideração do falso e do verdadeiro self, como modos de organização psíquica, que tem no verdadeiro self seu fundamento saudável, o que tem semelhança senão identidade com a noção de vida autêntica como fundamento estrutural do modo de ser humano; a afirmação de que é no campo dos objetos e fenômenos transicionais (fenômenos que consideram os objetos do mundo como criados e encontrados pelos indivíduos) que o homem constitui um lugar saudável para viver, para ser real e ter uma vida que vale a pena ser vivida, colocando aí a origem da vida ou do mundo cultural no qual o homem pode viver sem perda em demasia da sua espontaneidade, concepção esta que está também totalmente de acordo com a consideração estrutural do Dasein como sendo o modo de existência que faz a si mesmo e ao mundo em que vive, que se constitui no ser-com-o-outro, no cuidar de si e do outro; o reconhecimento da construção da relação com o tempo (temporalidade) e com o espaço (espacialidade), com a experiência de criar e encontrar o mundo como subjetivo-transicional-objetivo; como uma derivação necessária de todas estas concepções existencialistas, a formulação de uma noção de saúde, formulada por Winnicott em termos de ser a partir de si mesmo, ter uma vida experienciada como real e que vale a pena ser vivida, dado que é de acordo com a própria estrutura do Dasein; e, por fim, também como derivado necessário de uma concepção existencialista de homem, uma crítica à compreensão do que é o homem e sua existência em termos de analogias naturalistas (analogias biológicas, físicas, termodinâmicas) ou ainda outras (por exemplo, analogias com estruturas e equações matemáticas) que são de natureza díspar daquilo que caracteriza a especificidade da natureza humana.

Leopoldo tem conhecimento de que não encontraremos correspondência, ponto a ponto, entre as concepções existencialistas modernas e as propostas de Winnicott, mais ainda, de que Winnicott fez tanto uma redescrição destas concepções, para poder integrá-las em seu sistema, como uma integração particular destas concepções com aquilo que a psicanálise descobriu sobre os fenômenos humanos, agrupando-os, pois, com a tradição psicanalítica (Freud, Klein, Anna Freud, Erikson, Fairbairn, os autores que compõem a denominada Psicologia do Self, Spitz, dentre outros) com contribuições que vieram de outros campos mais ou menos próximos desta tradição. O importante, aqui, é apontar proximidades conceituais e factuais que possam contribuir tanto para compreensão de Winnicott quanto para o desenvolvimento da teoria e da prática psicanalítica tomada como uma ciência objetiva da natureza humana, apontando um caminho ou campo de estudos para que exames mais detalhados destas influências possam ser perscrutuados e analisados.

Winnicott, a noção de SER e o Dasein

Dentre as diversas referências que Winnicott fez à noção de ser na sua obra, na sua grande maioria na década de 60, é no seu livro Natureza Humana que ele apresenta mais claramente a oposição entre ser e não-ser como fundamento do que é a natureza humana, se perguntando:

Qual é o estado do indivíduo humano quando o ser emerge do interior do não-ser? Onde fica a base da natureza humana em termos do desenvolvimento individual? Qual o estado fundamental ao qual todo ser humano, não importa a sua idade ou experiências pessoais, teria que retornar se desejasse começar tudo de novo?

 

O que interessava a Winnicott não é tanto a definição do que é o Ser, mas sim a experiência que o indivíduo tem de ser e continuar sendo, que ele caracteriza tanto como a mais simples de todas as experiências quanto como aquilo que caracteriza uma existência saudável, seja referido às experiências mais primitivas seja ao longo de toda a existência:

Gostaria de postular um estado de ser que é um fato no bebê normal, antes do nascimento e logo depois. Esse estado de ser pertence ao bebê, e não ao observador. A continuidade do ser significa saúde. Se tomarmos como analogia uma bolha, podemos dizer que quando a pressão externa está adaptada à pressão interna, a bolha pode seguir existindo. Se estivéssemos falando de um bebê humano, diríamos ‘sendo’. Se por outro lado, a pressão no exterior da bolha for maior ou menor do que aquela em seu interior, a bolha passará a reagir à intrusão. Ela se modifica como reação a uma mudança no ambiente, e não a partir de um impulso próprio. Em termos do animal humano, isto significa uma interrupção no ser, e o lugar do ser é substituído pela reação à intrusão.[1]

 

Ao colocar a questão “sobre o que versa vida”, questão para a qual somos levados ao tratar de pacientes psicóticos, a resposta recai justamente sobre este fundamento: ser a partir de si mesmo. Para que isto ocorra é necessário que o ambiente, no qual o indivíduo vive, não seja invasivo, a ponto de aniquilar a sua possibilidade de ação, obrigando-o a ter uma vida reativa (seja lá em que momento da existência isso ocorra). Diz Winnicott, neste sentido: “A alternativa a ser é reagir, e reagir interrompe o ser e o aniquila”[2]. Ser corresponde a ser a partir de si mesmo, sem ter um modo de vida cujo padrão é a reação. Isto não significa que o indivíduo não tenha que se adaptar ao mundo, mas o faz sem perda significativa da sua espontaneidade pessoal. A vida que vale a pena ser vivida, para Winnicott, corresponde àquela que é impulsionada e dirigida por este ser a partir de si mesmo, mesmo que isto implique numa vida difícil, numa vida com sofrimentos: “É somente pela continuidade da existência que o sentimento de si, do real e o sentimento de ser podem finalmente se estabelecer enquanto traço da personalidade individual”[3].

Mais ainda, este ser a partir de si mesmo não implica, nem leva a um modo de vista egoísta ou individualista, dado que o ser humano se faz com o outro, o que fica mais explícito (na verdade , é descrito por Winnicott) quando ele mostra o fundamento da ação de brincar, na qual o indivíduo cria e encontra o mundo, lembrando que, para ele, a vida cultural nada mais é do que, justamente, a expansão da área do brincar, ou dizendo de outra maneira, a vida cultural é a expansão do ser-com-o-outro na ação de brincar, ação que leva, paradoxalmente, a si mesmo e ao outro: “É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self)”[4].

Ao caracterizar os objetos e fenômenos transicionais como referindo-se a um mundo que, paradoxalmente, é criado e encontrado, Winnicott também acaba propondo que o homem cria o lugar em que vive. Este criar é referido tanto à ação a partir do self verdadeiro, como à ação de brincar, ação que envolve o mundo como algo que é e não é uma criação do indivíduo:

 

É com base no brincar [na ação de brincar], que se constrói a totalidade da existência do homem. Não somos mais introvertidos ou extrovertidos. Experimentamos a vida na área dos fenômenos transicionais, no excitante entrelaçamento da subjetividade e da observação objetiva, e numa área intermediária entre a realidade interna do indivíduo e a realidade compartilhada do mundo externo aos indivíduos.

 

Para Winnicott, o lugar em que vivemos (quer dizer, o lugar em que vivemos a partir da ação criativa do verdadeiro self) não é nem o mundo interno, nem o mundo externo, ele é criando e encontrado, tal como são os objetos transicionais, de modo que, num mesmo gesto, num mesmo tipo de ação, o indivíduo encontra a si mesmo (busca do self) e cria o mundo no qual se encontra. A experiência cultural, o encontro do homem com o homem, na tradição cultural e na comunicação individual, corresponde a um tipo de produção humana que não é redutível nem ao mundo interno nem ao mundo externo, ele é um entre: “O lugar em que a experiência cultural se localiza está no espaço potencial [espaço onde podem existir os objetos e fenômenos transicionais] existente entre o indivíduo e o meio ambiente (originalmente, o objeto). O mesmo se pode dizer do brincar. A experiência criativa começa com o viver criativo, manifestado primeiramente na brincadeira”[5].

A essência do Dasein, para Heidegger, é que ele cria a si mesmo e o mundo no qual ele vive! Ora, a maneira como Winnicott descreve como o brincar leva ao encontro de si mesmo e como este mesmo brincar, fruto do gesto espontâneo (ação do verdadeiro self), leva à criação dos objetos e fenômenos transicionais que, por sua vez, constituem o lugar em que vivemos, parece estar de acordo com a definição do que caracteriza a estrutura do modo de ser do ser humano, ainda que não exista uma correspondência direta entre o que Winnicott aponta como referente do termo ser e o que Heidegger define como sendo o Dasein.

As expressões que caracterizam o Dasein: ser-com, ser-para-a-morte, ser-no-mundo, ser e cuidar etc., parece que encontramos, em Winnicott, uma descrição fenomenológica, factual, não só de como isto ocorre nas vidas pessoais, mas como isto é gerado ao longo do processo de desenvolvimento emocional, explicitando como as relações com o outro, com o mundo, com o ambiente, agem na construção dessas experiências e dos seus sentidos existenciais. Talvez, nesse sentido, a proposta de Winnicott, pudesse ser caracterizada como uma psicanálise ontogenética.

[1] (Winnicott, 1988, p. 148).

[2] Winnicott (1960c, p. 47).

[3] Winnicott (1971f, p. 24).

[4] Winnicott (1971r, p. 80).

[5] (Winnicott, 1967b, p. 139).

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