“Eu e Tu” – Martin Buber – III e última parte.

O que o vidente extasiado chama unificação, é a dinâmica extasiada da relação; não é uma unidade surgida no instante do tempo universal na qual viriam fundir-se o Eu e o Tu, mas é o dinamismo da própria relação que, colocando-se diante dos sustentadores desta relação, firmemente postos um diante do outro, pode confundi-la com o sentimento do vidente extasiado.

Aqui, se coloca a exigência de outra doutrina da absorção, segundo a qual o universo e o si – mesmo são idênticos de tal modo que nenhum dizer-Tu pode garantir uma última atualidade.

“Quando se dorme em sono profundo e sem sonhos, tal é o si – mesmo, tal é o mortal, o certo, o universal”. “Em tal estado, o Sublime, ninguém sabe algo sobre o si – mesmo: ‘Isso sou eu’ e não: ‘isso são os entes’.”

O homem que emerge deste aniquilamento, pode reconhecer a experiência através da expressão-limite da não-dualidade, sem, no entanto, podê-la chamá-la unidade.

A absorção não quer conservar senão o que é puro, autêntico, durável e se desfazer de tudo o mais; a concentração não considera o instintivo como impuro, assim como não considera o sensível como superficial e o emotivo como fugaz; tudo deve ser incluído, integrado. Ela não deseja o si mesmo abstrato, mas o homem inteiro, integral. Ela quer a atualidade, ela é a atualidade.

Um sujeito que dispensa um objeto anula a sua própria atualidade.

Buda, o “perfeito”, e o que aperfeiçoa não fala. Ele se recusa a opinar sobre se a unidade existe ou se não existe; ele não diz se aquele que passou por todas as provações da absorção subsiste, depois da morte, na unidade, ou se ele não subsiste. Esta recusa, este “nobre silêncio” pode ser interpretado de dois modos: um teórico, porque a perfeição escapa às categorias do pensamento e do discurso; o outro prático, porque a revelação de sua essência não basta para fundamentar uma verdadeira vida de salvação. As duas interpretações se completam como verdade: aquele que faz do ente um objeto de uma proposição, leva-o para o mundo da divisão, para a antítese do mundo do Isso – no qual não existe vida de salvação. “Oh! Monge, quando a opinião de que a alma é uma coisa e o corpo outra prevalece, não pode, também, haver vida de salvação.” No mistério contemplado, como na realidade vivida o que reina não é o “assim” nem o “não é assim”, não é nem o não-ser, mas o assim-e-de-outro modo, o ser-e-o-não-ser, o indissolúvel. Apresentar-se indiviso em face do mistério indiviso é condição originária de salvação.

Toda doutrina da absorção repousa sob a ilusão gigantesca do espírito humano, voltado para si mesmo, de que ele existe no interior do homem. Na verdade ele existe a partir do homem, entre o homem e o que não é o homem. Na medida em que o espírito voltado sobre si renuncia a este seu sentido, ao sentido da relação, ele é obrigado a colocar no homem aquilo que não é o homem, ele é obrigado a reduzir o mundo e Deus a um estado de alma. Esta é a ilusão psíquica do espírito.

A contradição mental inerente ao vínculo com o Isso é abolida pelo vínculo com o Tu que não me separa do mundo senão para ligar-me a ele.

Enquanto alguém se liberta somente em seu si-mesmo, não pode fazer nem bem nem mal ao mundo, não importa ao mundo. Somente aquele que crê no mundo pode ter algo a ver com o mundo. Se ele se arrisca nele, não permanece privado de Deus. Se amamos o mundo atual, que não quer deixar-se abolir, realmente, em todos os seus horrores, se ousarmos enlaçá-lo com os braços de nosso espírito, então nossas mãos encontrarão as mãos que suportam o mundo.

O sentido da situação é, de um lado, que ela deve ser vivida com todas as suas antinomias, e, de outro, que ela só pode ser vivida sem cessar, sempre nova, imprevisível, inimaginável, impossível de ser prescrita.

Como é poderosa a continuidade do mundo do Isso! E como são frágeis as aparições do Tu!

Quem conhece Deus, conhece, sem dúvida, o distanciamento de Deus, e o tormento da seca que ameaça o coração angustiado, mas não a ausência de presença. Nós é que não estamos sempre presentes.

Na relação perfeita, o meu Tu engloba o meu si-mesmo, sem no entanto, ser o si-mesmo; o meu reconhecimento limitado se expande na possibilidade ilimitada de ser reconhecido.

O Tu eterno é, segundo sua essência, um Tu; é nossa natureza que nos obriga a inseri-lo no mundo do Isso e na linguagem do Isso.

Podemos pressentir o duplo movimento – de um lado o distanciamento da fonte primordial graças ao qual o Todo, o Universo se mantém no devir, de outro lado, a volta para a fonte primordial graças a qual o universo se redime – como a forma primordial metacósmica inerente ao mundo como totalidade em seu vínculo com aquilo que não é mundo, dualidade cuja forma humana é a dualidade de atitudes, das palavras-princípio e dos aspectos do mundo. Este duplo movimento por força do destino, se desdobra no tempo e está encerrado por graça, na criação intemporal, que inconcebivelemente, é ao mesmo tempo liberação e preservação, libertação e ligação. O nosso conhecimento a respeito da dualidade silencia diante do paradoxo do mistério originário.

São três as esferas nas quais o mundo da relação se constrói.

A primeira é a vida com a natureza onde a relação permanece no limiar da linguagem.

A segunda esfera é a vida com os homens onde a relação toma forma de lintuagem.

A terceira é avida com os seres espirituais onde a relação embora sem linguagem gera a linguagem.

Da vida com a natureza podemos extrair o mundo “físico”, o mundo da consistência; da vida com os homens, o mundo psíquico”e da afetibilidade; da vida com os seres espirituais, o mundo “noético”, o da validade. Todas as esferas perdem sua transparência e portanto o seu sentido; cada uma tornou-se utilizável e opaca, e permanece opaca mesmo que nós lhes atribuamos nomes brilhantes como Cosmos, Eros, Logos. Na verdade, não há Cosmos para o homem senão quando o universo se torna uma moradia com terra sagrada, na qual ele apresenta a sua oferta; não há Eros para ele, senão quando os seres se lhe tornam imagens do eterno e a comunidade com eles torna-se revelação; não há Logos para ele senão quando ele se dirige ao ministério através da obra e do serviço no espírito.

Entre as três esferas uma se destaca: é a vida com os homens. Aqui a linguagem se completa como sequência no discurso e na réplica. Somente aqui, a palavra explicada na linguagem encontra sua resposta. Somente aqui, a palavra-princípio é dada e recebida da mesma forma, a palavra da invocação e a palavra da resposta vivem numa mesma língua, o Eu e o Tu não estão simplesmente na relação, mas também na firme integridade. Aqui, e somente aqui, há realmente o contemplar e o ser-contemplado, o reconhecer e o ser-reconhecido, o amar e o ser-amado.

É esta a entrada principal em cuja abertura abrangente incluem-se as duas portas laterais.

“Quando um homem está intimamente unido a sua mulher, estão envolvidos pelo sopro das colinas eternas”.

A relação com o ser humano é a verdadeira imagem da relação com Deus, na qual a verdadeira invocação participa da verdadeira resposta. Só que na resposta de Deus tudo, o Todo se revela como uma linguagem.

Embora Deus nos envolva e habite em nós, jamais o possuímos em nós. E podemos falar com ele somente na medida em que nada mais falar em nós.

Quando um homem ama uma mulher de tal modo que ele a torna presente em sua vida, o Tu do olhar dela lhe permite vislumbrar um raio do Tu eterno.

Aquele que se apresenta diante da Face, ultrapassou o dever e a falta, não porque tenha se afastado do mundo, mas pelo contrário, porque realmente dele se aproximou. Não se tem dever e culpa senão para com os estranhos; para com os familiares tem-se afeição e ternura.

A verdade é que recebemos algo que não possuíamos antes e o recebemos de tal modo que sabemos que isto nos foi dado. Em linguagem bíblica: “Aqueles que esperam em Deus receberão a força em troca”. E, como diz Nietzsche, fiel à realidade até em sua descrição: “Toma-se sem perguntar quem dá”.

Assim como nenhuma prescrição pode conduzir-nos ao encontro, do mesmo modo nenhuma nos faz dele sair. Somente a aceitação da presença é exigida não só para ir-para-ele, mas também, em um novo sentido, para sair-dele. Assim como se chega ao encontro, com um simples Tu nos lábios, do mesmo modo, se é enviado ao mundo com o Tu nos lábios.

Tão intensa é sua sede de continuidade que o homem não se satisfaz com o ritmo vital da relação pura onde se alternam atualidade e latência, onde é a nossa força de relação que diminui, por isso, a presença, e não a presença originária. Ele aspira à extensão temporal, à duração. Deus se torna um objeto de fé. Originariamente a fé completa no tempo, os atos de relação e gradualmente, ela os substitui. Em lugar do ritmo essencial e sempre renovado do recolhimento e da expansão, estabelece-se uma estabilidade em torno de um Isso no qual se crê. A confiança obstinada do lutador que conhece a distância e a aproximação de Deus se transforma cada vez mais completamente na segurança do usufrutuário persuadido de que nada pode lhe acontecer, pois ele crê que existe Alguém que não permite algo lhe suceder.

A verdadeira garantia da continuidade consiste no fato de que a relação pura pode realizar-se transformando os seres em Tu, elevando-os ao Tu, de modo que nele, ressoe a palavra-princípio sagrada.

As poderosas revelações que as religiões invocam se assemelham às revelações silenciosas que se passam em todo tempo e lugar. As revelações poderosas que estão na origem das grandes comunidades, nos movimentos de transição das etapas da humanidade, nada mais são do que eterna revelação. A revelação, no entanto, não é derramada sobre o mundo através de seu destinatário, como se fosse através de um funil; ela chega a ele, ela o toma em sua totalidade, em todo o seu modo de ser e se amalgama a ele. Também o homem, que é a “boca”, é exatamente a boca e não um porta-voz, não é um instrumento, mas um órgão que soa segundo suas próprias leis e soar é transformar.

A estrutura clara e sólida da relação Eu-Tu, familiar a todo aquele de coração aberto e que possui coragem para se engajar, não é de natureza mística. Para compreendê-la, devemos, às vezes, nos desligar de nossos hábitos de pensamentos sem, no entanto, renunciar às normas originais que determinam o modo próprio de o homem pensar aquilo que é atual. Como no reino da natureza, do mesmo modo, a ação que se exerce sobre nós no reino do espírito – do espírito que se prolonga na mensagem e na obra, do espírito que aspira tornar-se mensagem e obra – deve ser compreendida como uma ação que provém do Ser.

Para auxiliar a realização das melhores possibilidades existenciais do aluno, o professor deve apreendê-lo como esta pessoa bem determinada em sua potencialidade e atualidade, mais explicitamente, ele não deve ver nele uma simples soma de qualidades, tendências e obstáculos, ele deve compreendê-lo como uma totalidade e firmá-lo nesta sua totalidade. Isto só se lhe torna possível, no entanto, na medida em que ele o encontra, cada vez, como seu parceiro em uma situação bipolar. E, para que sua influência sobre ele tenha unidade e sentido, ele deve experienciar esta situação, a cada manifestação e em todos os seus momentos, não só de seu lado, mas também do lado de seu parceiro; ele deve exercitar o tipo de realização que eu chamo envolvimento. Entretanto, se acontecer com isso, de ele despertar também no discípulo a relação Eu-Tu, de tal modo que este apreenda e o confirme igualmente como esta pessoa determinada, a relação específica educativa poderia não ter consistência se o discípulo, de sua parte, experimentasse o envolvimento, isto é, se ele experenciasse na situação comum, a parte própria do educador. Do fato de a relação Eu-Tu terminar ou de ela tomar um caráter totalmente diferente de uma amizade, fica clara uma coisa: a mutualidade não pode ser plenamente atingida na relação educativa como tal.

A palavra de Deus aos homens penetra todo evento da vida de cada um de nós, assim como cada evento do mundo que nos envolve, tudo o que é biográfico e tudo o que é histórico, transformando-o para você e para mim, em mensagem e exigência. A palavra pessoal torna capaz e exige, evento após evento, situação após situação, da pessoa humana firmeza e decisão. Acreditamos muitas vezes, que nada há a perceber, mas obstruímos há muito tempo, nossos ouvidos.

 

 

 

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