“EU E TU” – MARTIN BUBER – I PARTE

Nota: Li num artigo de Leopoldo Fulgencio, considerações a respeito de onde teria Winnicott se baseado para desenvolver os seus conceitos, como: as noções de ser, falso self, de saúde, cuidado e do lugar em que vivemos, entre outros; nas noções encontradas no existencialismo, não propriamente nos textos dos filósofos, mas de textos que procuram mostrar a aplicabilidade clínica dessas noções. Entre os filósofos citados estaria Martin Buber. Como há algum tempo li o livro desse filósofo e fiz um resumo, poque achei que havia conceitos que se poderia aplicar à clinica e entender um pouco mais a relação do homem consigo mesmo, com o outro e com o mundo, compartilharei com vocês o que escolhi de mais interessante. Berenice F.L. de Abreu.

 

EU E TU

MARTIN BUBER

(Mais um pensador do que um filósofo ou um teólogo profissional)

 

A mensagem buberiana evoca no pensamento contemporâneo uma notável nostalgia do humano. Sua voz ecoa exatamente numa época que paulatina e inexoravelmente se deixa tomar por um esquecimento sistemático daquilo que é mais característico no homem: a sua humanidade.

O fato primordial do pensamento de Buber é a relação, o diálogo na atitude existencial do face-a-face.

A semente do Tu: o lugar dos outros é indispensável para a nossa realização existencial.

Via sua missão como uma resposta à vocação que havia recebido: a de levar os homens a descobrirem a realidade vital de suas existências e a abrirem os olhos para a situação concreta que estavam vivendo.

O maior compromisso de sua reflexão é com a experiência concreta, com a vida. Ele aliou, com rara felicidade, a postura e as virtudes de um homem atual com as raízes profundas do Judaísmo primitivo. Em realidade, ele encarnava o sábio e o profeta tentando simplesmente advertir os homens a respeito de sua situação. Não se tratava de receitas tradicionalmente conhecidas ou imperativos inadiáveis, mas um apelo aos homens para que vivessem sua humanidade mais profundamente, movidos pela nostalgia do humano.

A união dos contrários permanece um mistério na profunda intimidade do diálogo. Diálogo é plenitude.

É notável em Buber o sentido profundo de diálogo que se estabelece entre sua própria vida e sua reflexão. Ambas firmam um pacto de profundo e mútuo compromisso. São auto-determinantes. Para Buber, porém, o conteúdo vivido da experiência humana, em todas as suas manifestações, vale mais que qualquer sistematização conceitual.

Não devemos tratar nosso semelhante simplesmente como meio, mas também como um fim; nos diversos tipos de relação Eu-Tu, o homem é considerado como fim e não como meio.

De modo geral, não é difícil constatar que as obras de Buber revelam um profundo compromisso com a vida. A vida é realizada e confirmada somente na concretude do “cada-dia”.

Não há distinção entre a relação direta com Deus e a relação com o companheiro. Ademais, a ética não se limita a uma ação ou a uma regra determinada. No Hassidismo a Kabbalah se tornou ethos; este movimento não reteve da Kabbalah senão o necessário para a fundamentação teológica de uma vida inspirada na responsabilidade de cada indivíduo pela parte do mundo que lhe foi confiada.

A imanência de Deus não implica absorção do mundo por Deus. Pelo contrário, a doutrina hassídica pode ser qualificada de panenteísta, isto é, longe de uma identificação entre Deus e o mundo ela significa e afirma a realidade do mundo como mundo-em–Deus. “O comércio real do homem com Deus tem não só seu lugar, mas também seu objeto no mundo. Deus se dirige diretamente ao homem por meio destas coisas e destes seres que Ele coloca na sua vida: o homem responde pelo modo pelo qual ele se conduz em relação a estas coisas e seres enviados de Deus”.

Para Buber, o Hassidismo denunciou e afastou o perigo da separação entre “a vida em Deus”e “a vida no mundo”. Buber considera esta separação como o pecado original e a doença infantil de “toda a religião”. Ele “eliminou”definitivamente o muro que dividia o sagrado e o profano, ensinando a executar toda ação profana como santificada.

Podemos dizer que a principal intuição de Buber foi exatamente o sentido de relação para designar quilo que, de essencial, acontece entre os seres humanos e entre o Homem e Deus.

O tu eterno é aquele que nunca poderá ser um Isso. Sobre a questão de Deus, a intuição fundamental de Buber é entender o novo tipo de relação que o homem pode ter com Ele, porque para o homem não importa talvez o que Deus é em sua essência, mas sim o que Deus é em relação a ele, homem. Deus é Aquele com o qual o homem pode estabelecer uma relação inter-pessoal. Buber encaminha o problema de Deus, ultrapassando a dicotomia sagrado-profano, através da realidade da existência humana.

O maior mérito que cabe a Buber está no fato de ter acentuado de um modo claro, radical e definitivo as duas atitudes distintas do homem face ao mundo ou diante do ser. As atitudes se traduzem pela palavra-princípio Eu-Tu e pela palavra- princípio Eu-Isso. A primeira é um ato essencial do homem, atitude de encontro entre dois parceiros na reciprocidade e na confirmação mútua. A segunda é a experiência e a utilização, atitude objetividade. Uma é atitude cognoscitiva e a outra atitude ontológica.

O mundo é múltiplo para o homem e as atitudes que este pode apresentar são múltiplas.

A atitude de abertura do homem e a doação originária do ser formam a estrutura da relação Eu-Ser. “A essência do ser se comunica no fenômeno.”

A própria condição de existência como ser-no-mundo é a palavra como diálogo. Há uma distinção radical entre as duas palavras-princípio. O Eu de uma palavra-princípio é diferente do Eu da outra. Isso não significa que existem dois “Eus” mas sim a existência de uma dupla possibilidade de existir como homem.

As duas palavras-princípio ao se atualizarem não só estabelecem dois modos de ser-no-mundo, mas também imprimem uma diferença no estatuto ontológico do outro. No entanto, o fundamento cabe à palavra-princípio Eu-Tu. Segundo Buber o Tu ou a relação são originários. O Tu se apresenta ao Eu como sua condição de existência, já que não há Eu em si, independente; em outros termos o si-mesmo não é substância mas relação. O Eu se torna Eu em virtude do Tu. Isto não significa que devo a ele o meu lugar. Eu lhe devo a minha relação a ele. Ele é meu Tu somente na relação, pois, fora dela, ele não existe, assim como o Eu não existe a não ser na relação.

Eu-Isso é proferido pelo Eu como sujeito de experiência e utilização de alguma coisa. Eu-Isso é posterior ao Eu-Tu. O Eu de Eu-Isso usa a palavra para conhecer o mundo, para impor-se diante dele, ordená-lo, estruturá-lo, vencê-lo, transformá-lo. Este mundo nada mais é que o objeto de uso e experiência.

O “entre”permitirá, como chave epistemológica, abordar o homem na sua dialogicidade; e só no encontro dialógico é que se revela a totalidade do homem. A ênfase sobre a totalidade acarreta, como corolário, a rejeição da afirmação da racionalidade da razão como característica distintiva do homem.

A atitude do Eu pode ser o ato essencial que revela a palavra proferida com a totalidade do ser, ou então uma postura noética, objetivante. Na primeira, o Eu é uma pessoa e o outro é o Tu; na segunda, o Eu é um sujeito de experiência, de conhecimento e o ser que se lhe defronta um objeto. A este segundo tipo de Eu, Buber chama de egótico, isto é, aquele que se relaciona consigo mesmo ou o homem que entra em relação com o seu si-mesmo. Eu-Tu e Eu-Isso traduzem diferentes modos de apreensão da realidade, ao mesmo tempo que instauram uma diferença ontológica no outro polo da relação, seja como Tu, seja como Isso.. A contemplação é a doação do ser como Tu ao Eu, pessoa que o aceita. Na contemplação, a atitude não é cognoscitiva, mas ontológica. No conhecimento ou na experiência a atitude não é presença do ser que se revela na contemplação, é um tornar-se presente ao ser e com o ser.

A afirmação da primazia do diálogo no qual o sentido mais profundo da existência humana é revelado não nos deve levar à conclusão de que a atitude Eu-Isso seja algo de negativo, inferior ou um mal. Ao contrário, ela é uma das atitudes do homem face ao mundo, graças à qual podemos compreender todas as aquisições da atividade científica e tecnológica da história da humanidade. Em si o Eu-Isso não é um mal; ele se torna fonte de mal, na medida em que o homem deixa subjugar-se por esta atitude, absorvido em seus propósitos, movido pelo interesse de pautar todos os valores de sua existência unicamente pelos valores inerentes a esta atitude, deixando, enfim, fenecer o poder de decisão e responsabilidade, de disponibilidade para o encontro com o outro, com o mundo e com Deus. A diferença entre as atitudes não é ética, mas ontológica. Não se deve distingui-las em termos de autencidade ou inaltenticidade. Enquanto humanas, as duas atitudes são autênticas. Quando, por esta razão, a relação perde o seu sentido de construtora do engajamento responsável para com a verdade do inter-humano, aí então, o Eu-Isso é destruição do si-mesmo, e o homem se torna arbitrário e submetido à fatalidade.

“Se o homem não pode viver sem o Isso, não se pode esquecer que aquele que vive só com o Isso não é homem.”

O critério de maior valor repousa sobre a reciprocidade. Assim a relação de maior valor existencial é o encontro dialógico, a relação inter-humana onde a invocação encontra sua verdadeira e plena resposta. Devemos estar alertas ao equívoco de atribuir ao Tu, em Buber, o significado simplista de pessoa e ao Isso o significado de coisa, objeto. Eu-Tu não é exclusivamente a relação inter-humana. Há muitas maneiras de Eu-Tu e o Tu pode ser qualquer ser que esteja presente no face-a-face: homem, Deus, uma obra de arte, uma pedra, uma flor, uma peça musical. Assim como o Isso pode ser qualquer ser que é considerado um objeto de uso, de conhecimento, de experiência de um Eu, Eu e Tu não aceita a distinção familiar entre as coisas e as pessoas.

O Eu não é uma realidade em si, mas relacional. Não se pode falar em Eu sem mundo, sem Isso, ou sem o Tu. Se o Eu decide-se por uma ou por outra atitude, significa que é o fenômeno da relação Homem-Mundo como um todo que define a possibilidade do Eu decidir.

O Tu orienta a atualização do Eu e este, pela sua aceitação, exerce sua ação na presentificação do outro, neste evento, é o seu Tu.

O amor não é algo possuído pelo Eu como se fosse um sentimento. Os sentimentos, o homem os possui; porém, o amor é algo que “acontece” entre dois seres humanos, além, do Eu e aquém do Tu na esfera “entre” os dois. Do mesmo modo, a “verdadeira comunidade não nasce do fato de que as pessoas têm sentimentos umas para com as outras (embora ela não possa, na verdade, nascer sem isso) ela nasce de duas coisas: de estarem todos em relação viva e mútua com um centro vivo e de estarem umas às outras em relação viva e mútua”.

A mensagem é a tarefa atribuída ao homem: realizar o “divino”no mundo, tornar possível uma teofania, ultrapassando o dogmatismo e o espírito objetivante das religiões estabelecidas pela religiosidade da existência concreta. Sem dúvida, há forte influênia do Hassidismo sobre Buber nesta proposta da responsabilidade do homem em realizar e instaurar o divino no mundo.

“Devo confessar que não gosto muito de religião e fico muito contente que esta palavra não se encontra na Bíblia.”

Nós podemos falar com Deus, o que significa voltar-se para Ele. O tema da “conversão”é importante em Eu e Tu. Conversão implica uma mudança radical.

Buber sentiu a exigência de procurar uma solução ao problema no qual estava mergulhada a humanidade, uma ruptura entre o homem e Deus. A tarefa a que Buber se impôs, foi a de buscar um meio para recuperar a relação com entre homem, Deus e o mundo, tornando de novo possível o diálogo entre Deu e o homem.

Realmente está no seio do próprio ser do homem o poder de sempre recomeçar.

Eu e Tu nos revela, como também a tradução buberiana da Bíblia, uma faceta importante do pensamento de Buber: a preocupação em captar o sentido originário das palavras. Como tradutor, ele foi um verdadeiro intérprete da Bíblia. Talvez a estranheza com que foi recebida sua tradução revele aquela força de ïndicação” de que nos fala Heráclito em seu fragmento 93: “O deus cujo oráculo está em Delfos, não fala nem esconde, ele indica”.

O modo como Buber apresenta Eu e Tu, como ele nos fala, lança a nós um desafio: qual é o modo pelo qual vamos entrar em contato com a obra?

A palavra-princípio Eu-Tu só pode ser proferida pelo ser na sua totalidade.

A palavra-princípio Eu-Isso não pode jamais ser proferida pelo ser em sua totalidade.

Aquele que profere uma palavra-princípio penetra nela e aí permanece.

O experimentar não participa do mundo: a experiência se realiza “nele”e não entre ele e o mundo.

O mundo não toma parte da experiência.

Ele se deixa experienciar, mas ele nada tem a ver com isso, pois, ele nada faz com isso e nada disso o atinge.

Graças a tudo aquilo que se torna presente, nós vislumbramos a orla do Tu eterno, nós sentimos em cada Tu um sopro provindo dele, nós o invocamos à maneira própria de cada esfera.

Entretanto pode acontecer que simultaneamente, por vontade própria e por uma graça, ao observar a árvore, eu seja levado a entrar em relação com ela; ela já não é mais um isso. A força de sua exclusividade apoderou-se de mim.

Ninguém tente debilitar o sentido da relação; relação é reciprocidade.

Eu não experiencio o homem a quem digo Tu. Eu entro em relação com ele no santuário da palavra-princípio. Somente quando saio daí posso experienciá-lo novamente. A experiência é o distanciamento do Tu.

O Tu encontra-se comigo por graça; não é através de uma postura que é encontrado. Mas endereçar-lhe a palavra-princípio é um ato de meu ser, meu ato essencial.

O Tu encontra-se comigo. Mas sou eu quem entra em relação imediata com ele. Tal é a relação, o ser escolhido e o escolher, ao mesmo tempo ação e paixão. Com efeito, a ação do ser em sua totalidade como suspensão de todas as ações parciais, bem como dos sentimentos de ação, baseados em sua limitação – deve assemelhar-se a uma passividade.

Toda vida atual é encontro.

Todo meio é obstáculo. Somente na medida em que todos os meios são abolidos, acontece o encontro.

O instante atual e plena mente presente, dá-se somente quando existe presença, encontro-relação. Somente na medida em que o Tu se torna presente a presença se instaura.

Presença não é algo fugaz e passageiro, mas o que aguarda e permanece diante de nós. Objeto não é duração, mas estagnação, parada, interrupção, enrijecimento, desvinculação, ausência de presença.

Os sentimentos , nós os possuímos, o amor acontece. Os sentimentos residem no homem mas o homem habita em seu amor. Isto não é simples metáfora mas a realidade. O amor não está ligado ao Eu de tal modo que o Tu fosse considerado um conteúdo, um objeto: ele se realiza, entre o Eu e o Tu. Aquele que desconhece isso, e o descobre na totalidade de seu ser, não conhece o amor, mesmo que atribua ao amor os sentimentos que vivencia, experimenta, percebe, exprime. O amor é uma força cósmica. Àquele que habita e contempla no amor, os homens se desligam do seu emaranhado confuso próprio das coisas: bons e maus, sábios e tolos, belos e feios, uns após outros, tornam-se para eles atuais, tornam-se Tu, isto é, seres desprendidos, livres, únicos, ele os encontra cada um face-a-face. A exclusividade ressurge sempre de um modo marailhoso; e então ele pode agir, ajudar, curar, educar, elevar, salvar. Amor é responsabilidade de um Eu para om um Tu: nisto consiste a igualdade daqueles que amam, igualdade que não pode consistir em um sentimento qualquer, igualdade que vai do menor, ao maior do mais feliz e seguro, daquele cuja vida está encerrada na vida de um ser amado, até aquele cucificado durante sua vida na cruz do mundo por ter podido e ousado algo inacreditável: amar os homens.

Relação é reciprocidade. Meu Tu atua sobre mim assim como eu atuo sobre ele. Nossos alunos nos formam, nossas obras nos edificam. O “mau”se torna revelador no momento em que a palavra-princípio sagrada o atinge. Quando aprendemos com as crianças e com os animais! Nós vivemos no fluxo torrencial da reciprocidade universal, irremediavelmente encerrados nela.

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