“Neurose Obsessiva, Uma Tentativa de Articular Conceitos que Demandam uma História Dentro da Vida de um Sujeito” III Parte e conclusão.

COMPLEXO DE CASTRAÇÃO E PONTOS DE FIXAÇÃO:

Depois que o menino conhece e sabe que é possuidor de um pênis e que existe um outro sexo caracterizado por essa falta, haverá uma superestimação, um superinvestimento dessa posse. Em primeiro lugar, como veículo instrumentador das fantasias masturbatórias. Em segundo lugar, esse superinvestimento do pênis outorga-lhe uma supervalorização narcísica, que tende a ser assimilada pelo resto da personalidade. Este narcisismo extremo servirá como couraça protetora frente aos danos fantasiados que seu pênis poderia vir a sofrer.

Há três passos na angústia de castração do menino:

  • Inicialmente, o menino tenta rejeitar a realidade e negar a diferença. Como se trata da rejeição de um elemento externo ao aparelho psíquico, esse mecanismo será mais corretamente chamado de renegação, repúdio, recusa, desmentido. Aceita-se que em torno desse mecanismo se originam as perversões e as psicoses.
  • Logo após esta rejeição da realidade, o menino tenta se reafirmar, atribuindo a ausência do pênis no outro sexo a uma mutilação sofrida no passado por parte da menina. Toda a fantasia de mutilação é atribuída pelo menino a uma punição infligida pelos pais para castigar desejos de prazeres similares aos que ele mesmo sente como proibidos.
  • O terceiro passo caracteriza-se pela recusa em estender a todas as mulheres esta carência essencial. Para ele, só aquelas mulheres que tiveram a fantasia de obter prazer pela masturbação são as que sofreram esse “castigo”. Essa recusa em estender a todas as mulheres a propriedade fundamental da carência do pênis se constata na fantasia, válida para o menino e para a menina, de uma mãe com pênis, conhecida com o nome de “mãe fálica”.

O desenvolvimento psicossexual da menina é praticamente idêntico ao do menino. A vagina é ignorada e a atividade sexual é clitoridiana. A passagem do clitóris para a vagina só se dá numa época posterior: a puberdade e a adolescência. Talvez o mais importante a destacar no que se refere à castração seja que, na menina, essa constatação, que proporciona o acesso ao real, e a grande frustração que sobrevém logo após, acontece antes do complexo de Édipo. A castração é justamente a comprovação que permite entrar no Édipo.

Também na menina observam-se três passos perante a castração:

  • O tema da reivindicação fálica. Também conhecido com o nome de Inveja do Pênis, este conceito é equivalente ao da renegação da diferença por parte do menino. A menina fantasiará que possuía um pênis e que alguém o tirou. Toda essa fantasia reforçará a idéia de reconquistá-lo.
  • O agente dessa perda imaginária (que curiosamente é duas vezes imaginária, pois se imagina ter perdido um pênis que nunca se teve) será a mãe. A menina responsabilizará sua mãe por tal fato, e isso precipitará a vinculação com seu pai. A entrada da menina na estrutura de Édipo e, por conseguinte, o acesso à genitalidade adulta, tem muito de reacional e defensivo, posto que “cai nos braços do pai para fugir à ameaça materna”.
  • Num estágio mais avançado, o tema da reivindicação se transforma. Já ligada com seu objeto-pai, a menina substituirá o desejo de ter um pênis pelo desejo de ter uma criança. Para poder entender a estrutura dessa substituição, devemos lembrar a assimilação inconsciente de diversos elementos que vão se substituindo ao longo da evolução psicossexual: útero, seio, fezes, pênis, valor, dinheiro, bebê.

O menino manifestará dois tipos de fixações. O primeiro é uma disposição a depositar uma intensa carga libidinal na mãe. Manifesta esta disposição usando de todos os recursos captativos e ainda agressivos que reafirmam seu direito de possuir o progenitor do sexo oposto. O segundo tipo de fixação é a fixação libidinal no pai, o qual deve suportar este investimento libidinal. O pai adquire significados de dois tipos: como rival a substituir e, simultaneamente, como modelo a imitar.

 

 

COMPLEXO DE ÉDIPO E RESOLUÇÃO EDÍPICA (COMPLEXO PATERNO E SUPEREGO).

O Complexo de Édipo, nome atribuído por Freud em analogia ao antigo mito relatado na obra de Sófocles, é uma estrutura, uma organização central e alicerçadora da personalidade humana. O importante a reter será que, desde que todo ser humano deve a sua origem a dois seres chamados Pai e Mãe, não haverá nada possível de escapar a esta triangulação que constitui o âmago essencial do conflito humano. Toda esta conflitiva problemática edipiana eclode entre os três e os cinco anos de idade.

O Complexo de Édipo se institui como o resultado da cultura veiculada pelos pais e atuando sobre o aparelho psíquico da criança. A ação efetiva desta cultura nas diferentes sociedades é transmitida através de uma troca de símbolos e que se constitui numa linguagem. É dentro desse contexto simbólico que se transmite uma lei fundamental nas relações sociais: a proibição do incesto. Este incesto é superposto ao período pré-edipiano, entre o nascimento e os quatro ou cinco anos de idade. A esta altura do desenvolvimento, existe impossibilidade biológica de consumar o ato sexual-genital do tipo adulto. Mas sob o ponto de vista psicanalítico, a íntima relação erótica com a mãe proporciona um gozo, um prazer de tal ordem que é equivalente ao incesto adulto. O problema é um complexo. Com efeito, a uma íntima relação “incestuosa” com a mãe corresponde, invariavelmente, uma certa ausência ou queda da figura funcional do pai.

Teoriando-se desta maneira chega-se à conclusão de que o incesto é o modelo mesmo do gozo. De gozar com a própria mãe e, portanto, proibido. Então, o gozo será a transgressão, a abolição do limite máximo que é o próprio corpo da mãe.

Há uma certa especificidade na maneira como é resolvida, em cada sexo, a situação edipiana.

  1. No menino, motivada pelo medo de perder seu pênis, há a renúncia aos desejos genitais pela mãe. Simultaneamente, há um abandono dos sentimentos hostis contra o pai. Freud ficou vacilante em muitos textos no que se refere à designação desse processo de desaparecimento da estrutura edipiana. Em alguns fala da “destruição”, em outros de “dissolução”, em lugar da clássica “repressão”. O que se destrói não pode voltar, mas o que se recalca sim. A saúde mental do sujeito dependerá ou estará intimamente vinculada à distinção entre estes dois processos.
  2. Em comparação com o menino, o processo da menina é muito mais gradual e menos completo. A complicada e ambivalente vinculação da menina com a mãe é o empecilho principal que retarda o processo. Embora a angústia de castração esteja presente, a força que adquire o medo de perder o amor da mãe é hierarquicamente superior e contribui para que a renúncia aos desejos pelo pai não seja tão drástica como é no menino. Em ambos os sexos, finalmente se cumprem um velho ditado: “Quem não possui, é”. Ou seja, ao estar vedado o acesso aos objetos primários, pai e mãe, há uma espécie de introversão-regressão da libido sobre o ego, isto é, o ego identificando-se com os objetos paternos proibidos, se apresenta ele próprio aos desejos libidinosos como um novo objeto de amor. Este processo, decorrente de uma perda, culmina com uma identificação com o objeto perdido (identificação secundária). O resultado é uma libertação energética, que irá a busca de novos objetos para investir.

O Superego, herdeiro do Complexo Edípico, é uma instância tardia. É a representação, conseqüência de uma perda, de uma recusa dos objetos paterno e materno em satisfazer o desejo (incestuoso) do sujeito. A função do Superego é solidária com o que ele realmente é: uma Identificação. Esta Identificação (produto de uma interiorização), agora denominada Superego, está carregada de pulsão. Na realidade o objeto apenas mudou de lugar, já que anteriormente a pulsão procurava objetos exteriores que eram os pais reais e concretos e esses pais se introjetaram, transformando-se num “monumento”: a Identificação, o Superego. O fator desencadeante da instância superegóica é a perda de uma grande ilusão: a fusão narcísica e total com os pais.

O Superego se manifesta em forma de impedimentos, obstáculos, empecilhos, proibições: “Não faça isto! Não faça aquilo! Não seja como seu pai!” (Esta última expressão exprime a proibição do incesto: Eu posso ter relacionamento sexual em “sua” mãe, você não!!!).

As funções superegóicas estão alinhadas nas exigências de ordem moral. Exercem uma função crítica que produz um efeito de dominação sobre o Ego. Esta crítica é quase totalmente inconsciente e Freud denominou-a “sentimento inconsciente de culpa”; também conhecido como “complexo paterno”. Mas é preciso ressalvar que, na clínica, esse sentimento inconsciente de culpa só se observa como uma necessidade de punição, de castigo.

 

CONCLUSÃO:

Depois de percorrer este longo caminho passando pela teoria sexual infantil implantada como apoio na pulsão de autoconservação, pelas fantasias originárias, auto-erotismo e repressão primária, narcisismo, pela organização genital infantil, complexo de castração e pontos de fixação, Complexo de Édipo e resolução edípica; volto a reiterar o que disse na introdução deste trabalho, Freud foi um cientista brilhante, que soube observar o manifesto e dele retirar o latente, ficando agora fácil compreender toda a estrutura da neurose obsessiva.

            “Em uma neurose é contra as exigências da libido que o ego se defende e não contra as de qualquer outra pulsão. O impulso agressivo flui principalmente da pulsão destrutiva. O amor pela mãe, ou agressividade pelo pai?”

            Nesta frase Freud resume tudo o que foi dito até agora, isto é, se a criança é libidinizada pela mãe que lhe dá apoio no desamparo do nascimento (pulsão de autoconservação) e, o bebê se auto-erotiza numa busca de compensação pela falta que sente contra a perda do objeto amado, criando cenas imaginárias que são questões voltadas para o seu drama de desenvolvimento: cena primitiva, da sedução e da castração. Logo que o ego reconhece o perigo da castração dá o sinal de ansiedade e inibe através da instância do prazer-desprazer o iminente processo catexial no id. Acriança já na fase fálica (descoberta da castração), volta-se como defesa para uma fase anterior, a anal, fixando-se aí e agindo com toda a ansiedade e ambivalência que este estágio do desenvolvimento psicossexual desencadeia, ser dominado (seguir o complexo paterno), ou ser o dominador, ditar as suas próprias leis e agir de acordo com os seus desejos.

Nas neuroses obsessivas, o medo que o ego tem é de seu superego, o perigo está agora totalmente internalizado, o temor é uma extensão do castigo de castração, castigo imposto contra a lei do incesto. A ansiedade é uma reação a uma situação de perigo, criando-se sintomas para evitar uma situação de perigo cuja presença foi assinalada pela geração da ansiedade.

A análise de ansiedade revela a existência de: caráter específico de desprazer; atos de descarga; percepções desses atos. Tudo isto aparece na fase anal que controla a motilidade dos atos; isto é, o prazer ou o desprazer de reter ou expulsar as fezes, conforme são sentidas como produtos bons, ou como porcarias; o poder ou não controlar os seus atos motores, sentir-se potente, capaz de executar bem as praxias; perceber estes atos a serviço de algo produtivo, ou como movimentos parasitas que só servem para aplacar a ansiedade.

À medida que continua o desenvolvimento do ego, as situações de perigo mais antigas tendem a perder a sua força e a ser postas de lado, podemos dizer que cada período da vida do indivíduo tem seu determinante apropriado de ansiedade (fases do desenvolvimento psicossexual, ou organização pré-genital infantil).

O perigo de desamparo psíquico é apropriado ao perigo de vida quando o ego do indivíduo é imaturo; o perigo da perda do objeto está ligado a primeira infância, quando a criança ainda é dependente dos outros; o perigo da castração está ligado a fase fálica; e o medo do superego se estende por todo o período de latência.

Na neurose obsessiva o perigo que é externo, passa ser vivido como algo interno, culpa social e moral que o indivíduo carrega (origem do superego); a angústia de morte é a vivência da perda do superego protetor (perda dos pais dessexualizados), vivido como o superego pulsional, pais persecutórios, estágio sádico-anal-erótico.

Embora não possamos esquecer que é na puberdade que a neurose obsessiva é deflagrada, quando o sujeito percebe que neste momento poderá concretizar o ato sexual, o perigo vem à tona e o ego tenta se defender de todas as maneiras possíveis do desejo libidinal que até aquele momento estava adormecido.

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

 

  • Laplanche, J. e B. Pontalis, J. – “Fantasia Originária, Fantasia das Origens, Origens da Fantasia” – Jorge Zahar Editor – Rio de Janeiro, RJ – 1988;

 

  • Kusnetzoff, J. C. – “Introdução à Psicopatologia Psicanalítica” – Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, RJ – 1982 – sexta edição;

 

  • Freud, S. – “A Disposição à Neurose Obsessiva” – 1913 – Volume XII – Imago Editora Ltda – Rio de Janeiro, RJ – segunda edição;

 

 

  • _______ – “Inibição, Sintoma e Angústia” – 1926 – Capítulos V, VI, VII, IX – Volume XX – Imago Editora Ltda – Rio de Janeiro, RJ – segunda edição;

 

  • _______ – “Introdução ao Narcisismo” – 1914 – Volume XIV – Imago Editora Ltda – Rio de Janeiro, RJ – segunda edição;

 

 

  • _______ – “O Ego e o Id” – 1923 – Capítulos II e III – Imago Editora Ltda – Rio de Janeiro, RJ – segunda edição;

 

– Anotações das aulas do seminário teórico “Neurose Obsessiva”, ministradas pelo professor Homero Vettorazzo Filho do Curso Formação em Psicanálise, terceiro ano, primeiro semestre de 2004.

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