NARCISISMO (CONSTITUIÇÃO DO EGO, EGO IDEAL E IDEAL DE EGO):
Se prestarmos atenção à atitude de pais ternos para com os filhos, temos de reconhecer que ela é uma revivescência e reprodução de seu próprio narcisismo, que há muito abandonaram. A criança concretizará os sonhos dourados que os pais jamais realizaram – o menino se tornará um grande homem e um herói em lugar do pai, e a menina se casará com um príncipe como compensação para sua mãe. No ponto mais sensível do sistema narcisista, a imortalidade do ego, tão oprimido pela realidade, a segurança é alcançada por meio do refúgio na criança. O amor dos pais, tão comovedor e no fundo tão infantil, nada mais é senão o narcisismo dos pais renascido, o qual transformado em amor objetal, inequivocamente revela sua natureza anterior.
Na escolha de objeto nas crianças de tenra idade, o que primeiro notamos foi que elas derivavam seus objetos sexuais de suas experiências de satisfação. As primeiras satisfações sexuais auto-eróticas são experimentadas em relação com funções vitais que servem a finalidade de autopreservação. As pulsões sexuais estão de início, ligadas à satisfação das pulsões do ego; somente depois é que elas se tornam independentes destes. Os primeiros objetos sexuais de uma criança são as pessoas que se preocupam com sua alimentação, cuidados e proteção, isto é, sua mãe ou quem quer que a substitua. Esse tipo e fonte de escolha objetal, que pode ser denominado o tipo anaclítico ou de ligação (apoio).
Em pessoas cujo desenvolvimento libidinal sofreu perturbação, que em sua escolha ulterior dos objetos amorosos elas adotaram como modelo não sua mãe, mas seus próprios eus; procuram inequivocamente a si mesmos como um objeto amoroso, e exibem um tipo de escolha objetal que deve ser denominado narcisista.
O ego tem início no sistema perceptivo, que é seu núcleo, e começa por abranger o pré-consciente, que é adjacente aos resíduos mnêmicos; mas o ego também é inconsciente. Quando acima foi falado das necessidades de cuidados que um bebê precisa para sobreviver, estávamos também falando da constituição de um aparelho psíquico, cujas trocas entre o bebê e o cuidador vão delineando um corpo e um ego, que não é simplesmente uma entidade de superfície, mas é, ele próprio a projeção de uma superfície. O ego em última análise deriva das sensações corporais, principalmente das que originam da superfície do corpo. Ele pode ser encarado como uma projeção mental da superfície do corpo. Também é inconsciente porque ao se relacionar com um objeto sexuado vai formando fantasias que são cenas de sua origem.
O ego é aquela parte do id que foi modificada pela influência direta do mundo externo, por intermédio do Perceptivo-Consciente; em certo sentido, é uma extensão da diferenciação de superfície. O ego procura aplicar a influência do mundo externo ao id e às tendências deste, e esforça-se por substituir o princípio de prazer (id) pelo princípio de realidade. Para o ego, a percepção desempenha o papel que no id cabe às pulsões.
A importância funcional do ego se manifesta no fato que o controle sobre as abordagens a motilidade compete a ele. O ego tem o hábito de transformar em ação a vontade do id, como fosse sua própria.
O ideal de ego é uma instância da personalidade resultante da convergência do narcisismo (idealização do ego) e das identificações com os pais, com os seus substitutos e com os ideais coletivos. Enquanto instância diferenciada, o ideal do ego constitui um modelo a que o indivíduo procura conformar-se. O ideal do ego é o herdeiro do complexo de Édipo e constitui também a expressão dos mais poderosos impulsos e das mais importantes vicissitudes libidinais do id. Erigindo esse ideal de ego, o ego dominou o complexo de Édipo, colocando-se em sujeição ao id. Enquanto o ego é essencialmente o representante do mundo externo, da realidade, o superego coloca-se como representante do mundo interno, do id. Os conflitos entre o ego e o ideal refletirão o contraste entre o que é real e o que é psíquico, entre o mundo externo e o mundo interno.
Já o ego ideal é uma formação intrapsíquica que certos autores, diferenciando-a do Ideal de Ego, definem como um ideal narcísico de onipotência forjado do modelo do narcisismo infantil.
ORGANIZAÇÃO PRÉ-GENITAL INFANTIL (ORAL, ANAL, GENITAL OU FÁLICA):
Freud observou que as crianças que mamam no peito, após a satisfação de sua fome, continuavam a ter uma série de movimentos labiais ou mesmo de toda a extremidade cefálica, inclusive chupando o dedo polegar ou a mão inteira. O princípio elementar a que o grande observador recorreu foi levantar a hipótese de que, se o bebê tinha satisfeito já os instintos que demandavam a alimentação específica, essa continuação dos movimentos era explicada por um excesso de energia não satisfeita e que demandava, em conseqüência, objetos não alimentícios (o ato de roçar a pele, as sensações de movimento músculo-esquelético, a sensação de suspensão ao colo, etc.).
Freud denominou a primeira classe de instintos (pulsões) de autoconservação e a segunda de instintos sexuais. A sexualidade infantil é composta por diversos fragmentos que agem como se fossem diversas estações que vão aparecendo e tomando lideranças e predominância dentro de todo um conjunto organizável, isto é, ela é composta por impulsos parciais. Só no adulto normal é que ela alcança níveis totais, integrativos, níveis sintetizadores desses fragmentos. Não há dúvida de que, sob o ponto de vista do ordenamento e do processo, este segue diversas etapas em seu desenvolvimento; sendo importante salientar que essas etapas não se dão nunca de um modo claro e seguindo uma cronologia etária definida. Existe uma evidente interpenetração das etapas que aumenta à medida que nos aproximamos das etapas genitais. A genitalidade é quem ordena todo o processo anterior enfileirado por trás dela.
Estágio Oral: é o primeiro período onde a fonte corporal das excitações pulsionais se dá predominantemente na zona bucal, mas também qualquer outro sistema ou atividade corporal que preencha os requisitos essenciais deste modelo – corpo oco, aconchegante, com movimentos de inclusão e expulsão, etc. – será entendido como boca. Assim, por exemplo: o complexo aerodigestivo; os órgãos da fonação e da linguagem; todos os órgãos dos sentidos; a pele. O objeto da etapa oral é o seio, ou seja, tudo aquilo que se refere ao seio materno ou o substitui. Seios também são os braços da mãe, os músculos que seguram o bebê, a voz que fala contemporaneamente à incorporação do leite, etc. é enorme a importância do vínculo seio-boca neste período, porque ele é herdeiro do vínculo estabelecido entre o feto e a mãe; isto é, o seio será o substituto do cordão umbilical. Neste período, a finalidade pulsional, o alcance ou a obtenção da descarga (satisfação), é duplo:
- A incorporação do sustento biológico, cujo representante é o leite, sem o qual o sujeito não pode subsistir, pulsão de autoconservação;
- Junto com a incorporação do leite, o sujeito obtém um plus de satisfação que é conseqüência de um excesso de energia que acompanha a pulsão oral de autoconservação, pulsão sexual, e sua satisfação se estendem além do limite espacial da boca em si mesma (estimulação lábio com lábio, dedos com dedos, dedos com boca, boca com dedos) e do limite temporal (antes e depois de mamar a pulsão se satisfaz em diversas partes do corpo).
Karl Abraham dividiu o período oral em dois subperíodos:
- Oral primário ou de sucção, que se estende até os seis meses de idade; é também conhecido como estágio narcísico-primário ou de incorporação, apresentando as seguintes características:
- Predominância da incorporação ;
- A satisfação auto-erótica;
- Indiferenciação entre o bebê e o objeto;
- A ausência de amor e de ódio propriamente ditos.
- Oral secundário ou Canibalístico, este estágio que transcorre do segundo semestre do primeiro ano de vida, é caracterizado pelo aparecimento dos dentes; a criança se vincula pela primeira vez com o mundo exterior, mordendo. A incorporação dos objetos é predominantemente sádica, destrutiva.
Estágio Anal: este estágio se denomina anal porque o ato de defecação ocupa um lugar importantíssimo no desenvolvimento psicossexual da criança; porém não se resume apenas no controle esfincteriano. Este serve de modelo para o controle motor em geral, sensações de domínio, prazer na expulsão ou na retenção, etc.
A fonte pulsional corporal, ou zona erógena parcial, de onde emanam as pulsões neste período é a mucosa ano-retal, que terá a seu cargo sensações conscientes de um processo muito importante para a autoconservação: a eliminação dos resíduos alimentares indigeríveis.
A mãe continua sendo o objeto privilegiado da criança, só que agora é um objeto visualizado por completo (objeto total). Porém, psicologicamente, passa a ser para a criança uma função que além de alimentar, dar aconchego e conter, demonstra interesse em sua capacidade de controlar ativamente esfíncteres, mãos, deslocamentos espaciais, etc. Para a criança “mãe” será tudo aquilo que tentar manipula-la e que ela também manipulará, tendo como modelo o controle e a “manipulação” das fezes.
Uma das primeiras descobertas da psicanálise foi justamente o controle e a manipulação que os neuróticos obsessivos fazem com os objetos reais, e até com os pensamentos, tratando-os como se fossem bolos fecais, que se retém, que se expulsam, e com os quais se obtém prazer.
O assim chamado “bolo fecal” se constitui num objeto intermediário entre a criança e o mundo exterior; é um verdadeiro “terceiro elemento” num conjunto em que haviam existido apenas dois. A importância que adquire o bolo fecal como campo de disputa e de controle entre os desejos dos objetos primários e os desejos da própria criança, torna-o apto para se constituir, por um lado, em herdeiro do objeto-peito da fase oral precedente – e, por outro, no antecessor do pênis, objeto privilegiado da fase psicossexual subseqüente.
O bolo fecal vai representar um valor de troca entre a criança e o mundo exterior. Eis aqui o substrato psicossexual das equivalências descritas por Freud entre as fezes – presentes que se oferecem ou se recusam – e o dinheiro, constituindo-se entre os adultos na representação daquilo que se oferece em troca de alguma coisa e que adquire determinado valor.
Karl Abraham descreveu dois subestágios:
- Fase Expulsiva – o prazer desta fase é fornecido por três vias:
- A via fisiológica – agradáveis sensações na zona ano-retal, cada vez que se produz a eliminação de fezes (auto-erótico);
- A via social – apoiando-se na via anterior, outorga importâncias a estas funções anais e conduz a criança a reforçar o interesse na função evacuatória e em tudo o que ela conota: puxar, empurrar, fazer esforço, libertar-se de uma tensão, etc.;
- A via contingente, constituída pela introdução na zona anal de medicamentos como supositórios ou tomadas de temperatura, ou lavagens freqüentes, além de sua necessidade ocasional. Tais ações proporcionam uma série de sensações erógenas que podem se constituir, em conjunto com as outras vias citadas acima, em predisponentes para estruturas psicopatológicas da personalidade.
Esta primeira fase Anal Expulsiva proporciona dois aspectos que deverão ser salientados: o auto-erotismo e o aspecto sádico, sendo que para alguns autores considerado de tal importância que o denominam como estágio sádico-anal. Há uma dupla origem do sadismo na fase anal: por um lado, o ato fisiológico da expulsão, e as fezes em si, são vivenciados pela criança como atos e objetos de escasso valor e que é por isso mesmo que acontece o ato da expulsão; por outro lado o aspecto do sadismo está ligado a diversos fatores sociais, que “ensinam” a criança a instrumentalizar esta propriedade fisiológica para desafiar a autoridade dos pais, que querem justamente o contrário: ensina-lo a reter, a se limpar, a ser “educado”.
- A segunda fase ou Fase Retentiva – o prazer se encontra no ato de retenção das fezes, mas a origem desse prazer é igual nas duas fases, embora instrumentalizado de maneira diferente. Nesta fase se encontraria o prazer auto-erótico masoquista. Masoquista neste contexto quer dizer uma série de sensações despertadas passivamente, a criança sente que o acúmulo das fezes na parte terminal do intestino provoca-lhe sensações de prazer.
Erotismo e agressividade são encontrados nas duas fases da analidade: na primeira, há uma tendência a destruir o objeto exterior (expulsão), na segunda, conservá-lo com a finalidade de controlá-lo (retenção). Ambas as tendências são igualmente fonte de prazer. O problema do sadismo proporciona facetas interessantes, como propriedade privada (fezes podem ser oferecidas ou negadas) e noção de poder (poder sobre o seu próprio corpo e poder afetivo sobre os objetos do mundo exterior). Associados a estas duas noções estão os dois sentimentos peculiares e característicos dessa fase: os sentimentos de onipotência e de superestimação narcísica que a criança experimenta opondo-se aos desejos de controle dos objetos externos sobre ela.
Estágio Fálico: por volta do terceiro ano de vida, onde os órgãos genitais serão alvo da concentração energética pulsional, enfileirando-se todas as outras pulsões anteriores e parciais sob o seu comando. O conceito “sexo” é muito ambíguo, já que não existe, por parte da criança, uma conscientização da diferença sexual anatômica; o que conta é o órgão anatômico masculino, que adquire o monopólio de ser o único valor da existência, tanto para o menino, que realmente o possui, quanto para a menina, que dele carece. Neste período fálico do desenvolvimento sexual que, ajudada pela contingência das preocupações sociais de limpeza, a excitação natural da micção ficará exacerbada. Nessa época, os jogos manuais das crianças representam o que se costuma chamar de “masturbação primária”. Uma vez adquirida a disciplina do esfíncter vesical, este prazer, inicialmente ligado apenas à emissão da urina, procurará ser obtido de forma dissociada dela, ativa, e de maneira repetitiva. Isto é o que se chama de “masturbação secundária”, a qual geralmente todos se referem.
Por esse período, a partir do estágio fálico, que os pais passam a negar a possibilidade de satisfação de desejos recentemente descobertos. Desde o momento em que a criança descobre o sentido e a funcionalidade da diferença sexual anatômica, ela passa a desejar também ter filhos. Evidentemente, este desejo é mera ilusão e está fadado ao fracasso. Daí que, para a criança, a “descoberta” da diferença começa com sua negação e culminará com toda a estruturação das funções do Complexo de Édipo.
Em relação ao drama da descoberta sexual anatômica, o sujeito pode se colocar três questionamentos básicos. Um deles é: “de onde venho?” Este questionamento é respondido pela fantasia da Cena Primária. Um outro será: “de onde vem esta sensação que me impulsiona até os outros, ou até o outro sexo?” Esta questão é respondida pela fantasia da sedução. E um terceiro: “por quê não posso fazer sexo como papai ou com a mamãe?” Questão respondida pela fantasia da castração. Veja que voltamos novamente às fantasias originárias, nosso ponto de partida desse trabalho.