“NEUROSE OBSESSIVA, UMA TENTATIVA DE ARTICULAR CONCEITOS QUE DEMANDAM UMA ‘HISTÓRIA’ DENTRO DA VIDA DE UM SUJEITO”. I Parte

INTRODUÇÃO:

Falar sobre neurose obsessiva é entrar em contato com o pensamento de um homem que sabia observar e traduzir para os leitores aquilo que acontecia com seus pacientes e que ele ia tecendo em sua teoria, pensando, repensando, reformulando, deixando conceitos para trás à medida que novos eventos vinham lhe mostrar outras maneiras de pensar que não estavam presentes no momento anterior. Certamente estou falando de Freud, uma mente brilhante, que transformava a sua atenção flutuante e as associações livres dos pacientes em conceitos e teorias comprovadas pelo modo de agir e “atuar” daqueles que se dispunham a serem analisados por ele.

A neurose obsessiva foi isolada por Freud nos anos 1894-95, colocando-a como afecção autônoma e independente, começando por analisar o mecanismo psicológico das obsessões em sintomas, como sentimentos, idéias, comportamentos compulsivos, etc.; reagrupando-a depois numa afecção psiconeurótica. Para ele dúvidas e inibições são conseqüências de um conflito que mobiliza e bloqueia as energias do indivíduo.

Freud definiu sucessivamente a especificidade etiopatogênica da neurose obsessiva do ponto de vista dos mecanismos (deslocamento do afeto para representações mais ou menos distantes do conflito original, isolamento, anulação retroativa); do ponto de vista da vida pulsional (ambivalência, fixação na fase anal e regressão); e, por fim, do ponto de vista tópico (relação sado-masoquista interiorizada sob a forma de tensão entre o ego e um superego particularmente cruel). Esta elucidação da dinâmica subjacente à neurose obsessiva e, por outro lado, a descrição do caráter anal e das formações reativas que o constituem, permitem ligar à neurose obsessiva a quadros clínicos em que os sintomas propriamente ditos não são evidentes à primeira vista.

 

TEORIA DA SEXUALIDADE IMPLANTADA COMO APOIO E AUTOCONSERVAÇÃO (FANTASIA ORIGINÁRIA):

O ser humano nasce totalmente indefeso e dependente do outro para sobreviver, o outro é um ser sexualizado, fonte de prazer e desprazer, conforme supre ou não as necessidades do desamparo da criança. A criança nasce sem o ego e este vai se constituir, como organizador das defesas através da relação com o outro; sendo lhe colocado um afluxo de excitação que na maioria das vezes ficam sem tradução. O que dá continência para o aparelho não descarregar é a fantasia, na troca com o outro, na ligação dos traços mnêmicos que vão formando a rede do aparelho psíquico, o ego se torna apoiado nas primeiras fantasias originárias.

As fantasias originárias constituem as fantasias inconscientes que a análise pode descobrir em todos os neuróticos e em todas as crianças. Em seu próprio conteúdo, em seu tema (cena primitiva, castração, sedução), as fantasias originárias indicam também essa postulação retroativa: elas reportam às origens. À semelhança dos mitos, elas pretendem proporcionar uma representação e uma solução ao que, para a criança, oferece-se como importantes enigmas; elas dramatizam como momentos de emergência, como origem de uma história. Na cena primitiva, é a origem do indivíduo que se vê figurada; nas fantasias de sedução, é a origem, o surgimento, da sexualidade; nas fantasias de castração, é a origem da diferença dos sexos. Em seus temas, encontra-se, portanto, significado de forma redobrada, o estatuto de já existente das fantasias originárias.

Freud pôde fazer de uma fantasia uma teoria científica, descobrindo por esse desvio a própria função da fantasia; é porque procurava explicar, em termos de origem, o modo como a sexualidade ocorre no ser humano.

Fala de dois tipos de fantasia, a inconsciente, conteúdo primário dos processos mentais inconscientes e, as imaginações conscientes, cujo protótipo é o devaneio diurno. A diferença ocorre no inconsciente: as fantasias inconscientes ou sempre foram inconscientes e formadas no inconsciente, ou, o que é o caso mais freqüente, foram outrora fantasias conscientes, devaneios diurnos, e depois esquecidos intencionalmente, tendo chegado ao inconsciente por meio do recalcado.

 

AUTO-EROTISMO E REPRESSÃO PRIMÁRIA:

Quando Freud se indaga se existe no homem algo comparável ao instinto dos animais, não é nas pulsões que ele aponta esse equivalente, mas nas fantasias originárias. A fantasia encontra sua origem alucinatória do desejo, reproduzindo o bebê sob forma alucinada, na ausência do objeto real, a experiência de satisfação original. Nesse sentido, as fantasias mais fundamentais seriam aquelas que tendem a reencontrar os objetos alucinatórios vinculados às primeiras experiências do afluxo e da resolução do desejo.

O surgimento da fantasia situa-nos no curso real da história da criança, no desenvolvimento de sua sexualidade, ligando-a ao aparecimento do auto-erotismo: momento em que, do mundo das necessidades, destacam-se aquelas funções de importância vital, cujas metas e cujos aparelhos estão assegurados, cujos objetos estão pré-formados – não como prazer encontrado na realização de uma função, no apaziguamento da tensão que faz nascer a necessidade, mas como produto marginal –aquilo que Freud chama a recompensa de prazer.

Quando Freud fala de auto-erotismo, ele não tem a intenção de negar a existência de uma relação primária com o objeto; pelo contrário, indica que a pulsão só se torna auto-erótica depois de ter perdido o seu objeto. Pode-se dizer do auto-erotismo que é sem objeto, não é porque tenha aparecido anteriormente a toda e qualquer relação com um objeto, nem mesmo porque, com o seu surgimento, todo o objeto deixasse de estar presente na busca de satisfação, mas porque o modo natural de apreensão do objeto se encontra clivado: a pulsão sexual separa-se das funções não sexuais, nas quais ela se apóia e que lhe indicavam sua meta e seu objeto.

A origem do auto-erotismo seria aquele momento no qual a sexualidade se desprende de todo o objeto natural, vê-se entregue à fantasia e desse modo se forma como sexualidade.

A satisfação auto-erótica define-se por um traço muito preciso: produto da atividade anárquica das pulsões parciais, estreitamente ligada à excitação de zonas erógenas especificadas – excitação que nasce e se apazigua in loco – não é prazer global de função, mas prazer fragmentado, prazer de órgão estritamente localizado.

Ao situar a origem da fantasia no tempo do auto-erotismo, assinala-se a ligação da fantasia com o desejo. Mas a fantasia não é objeto do desejo, é cena. Sem deixar de estar presente na fantasia, o sujeito pode aí figurar sob uma forma dessubjetivada, ou seja, na própria sintaxe da seqüência em questão. Por outro lado, na medida em que o desejo não é puro surgimento da pulsão, mas está articulada na fase da fantasia, esta constitui o lugar das operações defensivas mais primitivas, tais como a volta contra si, a inversão, a projeção, a denegação; essas defesas estão até indissoluvelmente ligadas à função primordial da fantasia – a encenação do desejo – o próprio desejo constitui-se como interdito, porque o conflito é conflito originário. Como tentativa para não se enredar neste conflito utiliza-se da repressão como uma operação psíquica tendente a fazer desaparecer da consciência um conteúdo desagradável ou inoportuno.

 

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