“Golfe – Sete lições para o jogo da vida”

Um livro surpreendente, não é um simples livro de auto-ajuda,  faz-nos refletir como a vida pode ser vivida sem complicações exageradas, sem dramalhões mexicanos (ambivalências constantes e conflitos sem propósitos), se nos dispusermos a conhecer as nossas capacidades e defeitos, lidando com elas de um modo mais sereno, despretensioso, menos arrogante.

            Comparando a vida com o jogo de golfe, o autor vai ensinando-nos a trabalhar alguns elementos que fazem parte de nosso desenvolvimento para atingirmos o objetivo final, que é jogar bem o golfe, e jogar bem o golfe é viver plenamente a vida.

            Fala da percepção, das emoções e das idéias: a percepção deve ser ampliada, clara; as emoções precisam ser enfrentadas e trabalhadas; e as idéias necessitam ser criativas, não se vence uma partida se seu modo de pensar é rígido, assim como não se vence na vida se não somos flexíveis.

            O livro nos devolve a esperança de vivermos a inocência do brincar pelo brincar, do jogar pelo jogar, onde não há perdedores e nem vencedores, somente jogadores. Mostra como a frustração provoca a amargura e a raiva destrói a capacidade de sentir alegria. Através de pequenas perdas, mais do que grandes privações, que esquecemos a inocência do viver.

            Através de sete lições, o autor nos ensina como sair das armadilhas que construímos para nós mesmos.

  • Manter a mente indivisa, o que será que isso significa? O desenvolvimento da percepção é a grande chave para este aprendizado (quem tem um funcionamento psicótico não consegue apreender esta lição).
  • Deixe o swing acontecer, dance conforme a música. As soluções se formam num nível profundo; as regiões sutis do seu eu não avançam com a velocidade que a mente exige. O que vem do fundo torna-se realidade (associações livres).
  • Encontre o agora e você encontrará a tacada; viva o agora e saberá o que fazer. “Grande parte do tempo é cedo demais. E quando não é cedo demais, é tarde demais. Se você esperar demais, pode não ser nunca.” Trata-se do momento presente, que pode ser resumida numa frase: o agora não acontece depressa; ele acontece com profundidade.
  • Jogue com o coração em direção ao buraco. Confie mais no que você sente do que no que você pensa.
  • Vitória é paixão com desapego. Ganhar ou perder é totalmente incerto. Não controlamos o desconhecido. A maior alegria da vida tem lugar quando as experiências internas e externas se igualam.
  • A bola tudo sabe. Quando você golpeia a bola, tudo muda. Nada pode ser o mesmo de novo. Uma nova dimensão é acrescentada.
  • Deixe o jogo conduzi-lo. Sinta o desconhecido. Não ficar preso à opinião dos outros, recusar-se a prestar atenção ao medo.

 

            Se pararmos para refletir sobre as sete lições, veremos que são muito semelhantes à técnica da psicanálise.

            A primeira diz respeito a ficar na atenção flutuante, escutar atentamente o que o paciente nos conta, para compreendermos o latente, o que ele nos comunica inconscientemente.

            A segunda, sair do controle, a sessão é do paciente, ele falará ou não se quiser e quando quiser. O não falar também é uma forma de comunicação. As elaborações e os insights devem partir dele.

            Terceira: saber esperar o momento certo para fazer uma interpretação, não é a todo o momento que o paciente está preparado. A angústia pode ser do analista.

            Desenvolver a sensibilidade para compreender o sofrimento humano é mais analítico do que tentar elaborar interpretações mirabolantes, intelectuais. É o que nos diz a quarta lição.

            Uma sessão é única, não acontecerá novamente. Não sabemos o que o paciente trará na próxima, ou se virá. Quando conseguimos nos fazer entender o que percebemos no latente, as experiências internas e externas se igualam; quinta lição.

            A bola é o inconsciente se manifestando através da comunicação. Se ficarmos atentos a ela, conseguiremos enxergar o buraco, o que realmente está acontecendo; sexta lição.

            Na sétima lição citarei uma máxima de Bion: “Sem memória e sem desejo”. Não ficar preso ao histórico do paciente e nem aos relatos anteriores, sessões passadas; não ficar com medo de perder o fio da meada.

            Para sermos analistas há que ampliar a percepção (desenvolvendo a escuta e a observação), trabalhar nossas emoções para não misturá-las com as dos pacientes e continuar aprendendo sempre, para desenvolver as idéias.

 

 

– Golfe, sete lições para o jogo da vida – Deepak Chopra – Editora Rocco ltda., Rio de Janeiro, RJ – 2003.

 

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