CONCLUSÃO:
Vamos construindo com estes autores a compreensão do psiquismo perverso. Klein contribui nos mostrando como a angústia de aniquilamento do ego não permite a integração do objeto, identificando-se com o objeto persecutório para dar conta do mesmo. Cria-se um superego mau para dar conta do objeto mau. O sentimento de culpa não se sustenta e o sujeito atua. A organização psíquica fica presa num círculo vicioso do mal. Steiner apresenta a necessidade de equilíbrio entre as posições e neste constante interjogo podem acontecer organizações patológicas, principalmente nas transições que ocorrem entre as posições, ou dentro de uma mesma posição, quando o sujeito se encontra mais vulnerável. Rosenfeld cria o conceito de fusão patológica, quando a pulsão de morte captura a pulsão de vida e coloca-a sob o seu julgo, sendo então libidinizada por ela. E que esta fusão patológica é uma das características da dinâmica da perversão.
Já as ansiedades primitivas persecutórias podem causar manifestações na sexualidade da organização psíquica perversa, embora essas manifestações sejam apenas uma forma de manifestação e não a sua expressão. Autores como Rosenfeld, Malcom, Joseph, Segal, Meltzer e Colognese Jr., falam de um sadismo constante operando nessas organizações e que a única forma característica da sexualidade perversa é a sado-masoquista, pervertendo a pulsão, transformando a dor em prazer, fusão patológica, e que a genitalização se desenvolve precocemente numa tentativa de defender-se contra a angústia anal, tendo um prazer genital.
Autores como Steiner, Joseph e Brenman vão apontando outras formas de atuação da organização perversa, onde o fracasso das manifestações na sexualidade acontece: a perversão é uma doença da ética, surgindo a onipotência para dar conta da impotência, o medo de aniquilamento do ego; quando a ética está doente, o superego que deveria tolher, é permissivo; uma estreiteza mental é posta em operação e tem a função de esvaziar a humanidade e impedir que a compreensão humana modifique a crueldade; pode aparecer uma passividade aparente para esconder uma agressividade latente.
Estes mesmos autores, citados acima, nos chamam atenção para o fato que o perverso atua na transferência, não só apresentando uma reação terapêutica negativa, mas agindo da mesma forma que o faziam com as suas relações objetais mais primitivas e que o analista deve tomar cuidado para também não atuar.
Na análise, com essa forma de organização psíquica, somente a tolerância, a indiferença (no sentido de falta de desejo) e a interpretação podem quebrar o círculo do mal descrito por Klein em seus textos: “Sobre a Criminalidade” e “Tendências Criminais em Crianças Normais”.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
- Brenman, E. – “Crueldade e Estreiteza Mental” – 1970 – in Melanie Klein Hoje – Volume I – Imago – Rio de Janeiro, 1991.
- Colognese Jr., A. – “Um Estudo Sobre a Perversão”, in A Trama do Equilíbrio Psíquico – Edições Rosari Ltda – São Paulo, 2003.
- ______________ – “A compreensão na Transferência – Algumas Reflexões Sobre a Importância da Identificação Projetiva na Transferência como Situação Total”, in A Trama do Equilíbrio Psíquico – Edições Rosari Ltda – São Paulo, 2003.
- Joseph, B. – “Uma Contribuição Clínica Para a Análise de uma Perversão”, 1971, in Equilíbrio Psíquico e Mudança Psíquica – Imago – Rio de Janeiro, 1992.
- ________ – “O Vício Pela Quase Morte”, in Melanie Klein Hoje – Volume I- Imago – Rio de Janeiro, 1991.
- ________ – “Sobre Passividade e Agressividade: sua Interrelação”, 1971, in Equilíbrio Psíquico e Mudança Psíquica – Imago – Rio de Janeiro, 1992.
- ________- “Transferência a Situação Total”, 1985, in Equilíbrio Psíquico e Mudança Psíquica – Imago – Rio de Janeiro,1992.
- Klein, M. – “Tendências Criminais em Crianças Normais”, 1927, “Sobre a Criminalidade”, 1934, in Amor, Culpa E Reparação – Imago – Rio de Janeiro, 1996.
- Malcom, R. – “O Espelho: Uma Fantasia Sexual Perversa em uma Mulher Vista Como Defesa Contra um Colapso Psicótico”, 1970, in Melanie Klein Hoje – Volume I – Imago – Rio de Janeiro, 1990.
- Meltzer, D. – “Sexualidade Polimorfa Adulta” , “Sexualidade Polimorfa Infantil”, “Sexualidade Perversa”, in Estados Sexuais da Mente – Imago – Rio de Janeiro, 1979.
- Rosenfeld, H. – “Uma Abordagem Clínica Para A Teoria Psicanalítica Das Pulsões de Vida e de Morte: Uma Investigação dos Aspectos Agressivos do Narcisismo”, 1971, in Melanie Klein Hoje – Volume I – Imago – Rio de Janeiro, 1988.
- _________- “Observações sobre a Relação da Homossexualidade com a Paranóia, a Ansiedade Paranóide e o Narcisismo”, 1949, in Os Estados Psicóticos – Zahar Editores – rio de Janeiro, 1968.
- Segal, H. – “Uma Fantasia Necrofílica”, In A Obra de Hanna Segal – Imago – Rio de Janeiro, 1982.
- Steiner, J. – “O Equilíbrio entre as Posições Esquizoparanóide e Depressiva”, 1990, in Conferências Clínicas Sobre Klein e Bion – Imago – Rio de Janeiro, 1992.
- ________ – “O Interjogo entre Organizações Psicopatológicas e as Posições Esquizoparanóide e Depressiva”, 1985, in Melanie Klein Hoje – Volume I – Imago – Rio de Janeiro, 1988.
- _______ – “Relações Perversas entre Partes do Self: Um Exemplo Clínico”, 1981, in Melanie Klein, Evoluções – Escuta – São Paulo, 1989.
- Anotações das aulas do seminário teórico Perversão – Uma Visão Kleiniana, ministrado pelo professor Armando Colognese Jr.