ANSIEDADES PRIMITIVAS: MANIFESTAÇÕES NA SEXUALIDADE:
Em seu texto “Observações sobre a Relação da Homossexualidade Masculina com a Paranóia, a Ansiedade Paranóide e Narcisismo”, 1949, Rosenfeld demonstra como as ansiedades muito intensas persecutórias da posição esquizoparanóide favorecem o desenvolvimento de tendências homossexuais como defesas; porque a homossexualidade está relacionada com a idealização do pai bom, como recurso para se defender contra o pai perseguidor; é um recurso usado pelo sistema de defesa maníaca, cuja tríade é: o controle, o triunfo e o desprezo. Descreve a importância dos processos projetivos, onde a homossexualidade do tipo narcísico em que outro homem se identifica com o seu eu por meio da projeção. E esse mecanismo de identificação projetiva busca suas raízes nos impulsos infantis mais primitivos de forçar o eu para dentro da mãe. A fixação neste nível primitivo, posição esquizoparanóide, é responsabilizada pela combinação freqüente da paranóia com a homossexualidade.
Ruth Malcom, 1970, em seu artigo “O Espelho: Uma Fantasia Sexual Perversa Em Uma Mulher Vista Como Defesa Contra Um Colapso Psicótico”, vai utilizar o conceito de Bion a respeito de partes psicóticas da personalidade para explicar o funcionamento psíquico perverso de uma paciente, como defesa contra um colapso psicótico. A autora chama a nossa atenção como surge esse funcionamento na transferência, que o psiquismo da paciente está atuando na perversão, uma parte de sua personalidade psicótica é perversa. E que a organização patológica pode se manifestar na sexualidade. A perversão não é uma sexualidade perversa, é uma mente perversa. A questão sexual é humana, não definindo uma organização perversa. A paciente teve uma atuação perversa homossexual com a irmã, interpretado como atuação psicótica; uma fragmentação psicótica ou atuação na perversão. Quando a cisão não funciona, o jeito de se identificar e controlar seriam ficar num surto de sadismo, dinâmica onde há satisfação. Os agentes paranóides que interferiam na frustração, na onipotência, na discriminação, visando o propósito de manutenção da facilidade, desviam-se deste propósito, afrontando a regra, criando regras para triunfar, humilhar, vingar-se, o que causa prazer. Na perversão são criadas regras próprias para manter um mundo humilhado, a seus pés. Quando a sexualidade é sádica, procura-se alguém que a satisfaça ao ser humilhada, erotizando a dor.
Já Betty Joseph, 1971, no artigo “Uma Contribuição Clínica para a Análise de Uma Perversão”, conta o caso de um paciente que na transferência atuava da mesma maneira que agia com a sua esposa e com as demais pessoas com quem mantia contato, principalmente com as mulheres; ficava em silêncio, descaracterizava o que a analista dizia, intelectualizava, levando a analista a atuar. Esse paciente tinha uma espécie de fetiche, usar uma roupa de borracha no contato sexual. Este seu ‘artifício’ era, na realidade, para evitar contato, uma forma de proteção, um desligamento. Ele seduzia para em seguida frustrar, criando situações onde as pessoas necessitariam dele e experimentariam a dor de depender dele. O intuito era exercer o sadismo, o prazer subordinado à dor, o desejo era negado e o superego age de modo sádico; toda vez que retorna o que é recusado, o sujeito sentindo-se frustrado, erotiza a dor para evitar a angústia.
No texto de Hanna Segal, “Uma Fantasia Necrofílica”, é apresentado um caso de um paciente necrofílico, demonstrando por meio desse exemplo que na dinâmica do perverso aparece a fusão patológica, o sadismo e a sexualidade, isto é, a forma deste caso se expressa na sexualidade. Ela vai nos mostrando que a intenção não é só tirar a vida e devolver a vida, num constante liga-desliga, é uma evitação com o vínculo, porque numa relação sadia o risco é o estabelecimento do vínculo. No momento em que aparece o narcisismo, ponto mais frágil do paciente, ele se mostra moribundo, porque a relação que estabeleceu com o seio é de sadismo, o sugar muito para matá-lo; para reavivar o seio precisa se identificar com ele. A relação com a analista ocorre na mesma linha, ou ela ou ele tem que morrer, como funcionava nas primeiras relações objetais.
Meltzer, 1968[1], vai nos dar um novo elemento dentro da dinâmica perversa, a ética adoece, o paciente perverso fica fixado na sexualidade infantil polimorfa, onde aparece a imaturidade, o exibicionismo e o lúdico, para terminar numa ‘festa’, a masturbação; surgindo a onipotência para dar conta do sentimento de impotência, o medo de aniquilamento do ego. Quando a ética está doente, o superego que deveria tolher passa a ser permissivo. No adulto, quando a ética predomina, a sexualidade polimorfa só aparece nas preliminares; a sexualidade adulta é marcada pela privacidade, modéstia e humildade, o contrário da sexualidade infantil polimorfa e a do perverso.
Armando Colognese Jr., 2003, “Um Estudo Sobre a Perversão”, contribui para a compreensão do psiquismo perverso, levantando a questão que a única forma de sexualidade perversa é a sado-masoquista: primeiro porque perverte a pulsão, transformando a dor em prazer; segundo porque na fusão patológica, a genitalização se desenvolve precocemente numa tentativa de defender-se de uma angústia anal, tendo um prazer genital.
[1]– Meltzer, D. – “Sexualidade Polimorfa Adulta, Sexualidade Polimorfa Infantil, Sexualidade Perversa.”, in Estados Sexuais da Mente.