A Falta de Amor
A inteligência sem amor te faz perverso. A justiça sem amor te faz implacável.
A diplomacia sem amor te faz hipócrita. O êxito sem amor te faz arrogante.
A riqueza sem amor te faz avaro. A docilidade sem amor te faz servil.
A pobreza sem amor te faz orgulhoso. A beleza sem amor te faz ridículo.
A autoridade sem amor te faz tirano. O trabalho sem amor te faz escravo.
A simplicidade sem amor te deprecia. A oração sem amor te faz introvertido.
A lei sem amor te deixa egoísta. A fé sem amor te deixa fanático.
A cruz sem amor se converte em tortura. A vida sem amor… Não tem sentido.
Autor desconhecido.[1]
Eu acrescentaria como diz Ryad Simon: “A interpretação sem afeto, é uma crueldade.”
Quando li este texto, várias associações se fizeram presentes, porém duas pareciam mais relevantes: o primeiro verso nos chama a atenção para a questão deste trabalho, a perversão; em seguida ele vai nos contando sobre as consequências da falta de amor. Se acontecem dessa forma, não sei… Entretanto, a associação mais importante foi que a minha permanência no curso de psicanálise se deveu ao acolhimento de dois professores. Este acolhimento, “esta não falta de amor”, começou desde a entrevista para a entrada no curso e, continuou através dos seminários clínicos, espaço em que um desses professores enfatizava a importância do leite com as famosas gotinhas de libido.
E ao chegar ao final do último semestre do quarto ano, do curso Formação em Psicanálise, vai ficando cada vez mais claro, a clínica nos mostra isso, como a falta das gotinhas de libido no leite desencadeia uma dinâmica mais conturbada no universo das relações objetais, já que o desamparo, do qual não escapulimos se torna maior, a angústia de aniquilamento aumenta, podendo ocorrer defesas que desfacelam o ego.
No seminário teórico do professor Armando Colognese Jr., o encadeamento dos textos, da maneira como o programa foi montado, permitiu visualizar essa dinâmica, a amálgama que se faz presente na perversão, como as gotinhas de libido não adicionadas no leite fazem a diferença, ou não, conforme o sujeito conseguiu recebê-las ou reconhecê-las.
COMPREENSÃO DO PSIQUISMO PERVERSO:
Em seus textos “Tendências Criminais em Crianças Normais” (1927), “Sobre a Criminalidade” (1934), Melanie Klein vai nos falar da perversão como desvios sexuais das ansiedades primitivas. Vai deixando de lado a teoria da libido e cria a teoria das posições. Os desvios das ansiedades primitivas eram os sintomas; o que importa é a organização psíquica que se constituiu. A questão da castração tem importância trazida à luz do Édipo primitivo. O mecanismo de recusa da realidade é usado para o desenvolvimento do conceito de Identificação Projetiva (conceito explicado mais adiante). O sadismo infantil tão ressaltado por ela, não tem nada a ver com a perversão, por estar desvinculado do sadismo adulto. A perversão é um desvio das ansiedades primitivas, ligado a um superego sádico. Perversão é uma doença do superego; é um mau funcionamento do superego que pode gerar essa organização psíquica. Na criminalidade há o sentimento de culpa, mas ele não se sustenta, o sujeito parte para o acting-out. Todo ato criminal é um ato violento da persecutoriedade pela atuação. Ela dá o exemplo da criança que “pede” para apanhar. Se os pais continuam batendo e a criança continua desafiando, é porque os pais foram enredados pela perversão da criança. O perverso necessita de um par perverso.
John Steiner, 1990, em seu texto “O Equilíbrio entre as Posições Esquizoparanóide e Depressiva” nos mostra o funcionamento psíquico dentro de cada posição, suas angústias e defesas, e como há um jogo entre as posições, o sujeito oscila entre as duas, como se estivesse numa dança de vai e vêm constantes; lembrando-me uma lei biológica que rege o desenvolvimento humano, chamada de lei da diferenciação, para cada conquista do indivíduo há uma regressão, como se tivesse que tomar um impulso para depois tornar a se desenvolver. Na posição esquizoparanóide, a angústia principal é a de aniquilamento do ego e, suas defesas principais são: cisão, identificação projetiva e idealização. As relações de objeto são vivenciadas de maneira cindida, não há integração entre o objeto bom e o mau, os dois são mantidos separados, divididos. Na posição depressiva a angústia principal é de aniquilamento do objeto, começando haver uma integração do objeto, surgindo a ambivalência, sentimentos de perda e de culpa, podendo ocorrer o luto e, em conseqüência o desenvolvimento da função simbólica e o surgimento da capacidade de reparar. A idéia de uma inter-relação entre as posições esquizoparanóide e depressiva é ampliada para incluir subdivisões em cada uma delas. Assim na posição esquizoparanóide pode acontecer desde uma fragmentação patológica, evoluindo para uma cisão normal e, na posição depressiva pode acontecer a cisão normal, evoluindo para o medo da perda do objeto, para a experiência da perda do objeto e depois para o luto. Cada posição pode ser pensada como estando em equilíbrio com as que estão em cada um de seus lados e vemos o movimento entre elas se manifestar nos nossos pacientes no curso de uma sessão, no decorrer de semanas, meses e anos dentro da análise, dependo de suas organizações psíquicas. O diferencial entre o movimento sadio e o patológico é o predomínio na maior parte do tempo de uma ou de outra angústia e das defesas que caracterizam as posições.
Rosenfeld, 1971[2], vai nos mostrando através dos textos de Freud, Abraham e Klein, como a pulsão de morte, em alguns sujeitos, captura a pulsão de vida e a coloca sob o seu julgo, aprisionando-a, libidinizando assim a pulsão de morte; não havendo o predomínio da cisão, mas um tipo de integração, aglomeração da pulsão de vida com a pulsão de morte, o que ele dá o nome de fusão patológica, cujo objetivo é tirar a força da pulsão de vida para dar força à pulsão de morte. E considera a fusão patológica uma característica da perversão, criando um tipo de funcionamento ‘mafioso’, onde existe uma sedução, mas não uma subjugação ao poder. Neste tipo de dinâmica, certos estados onipotentes narcísicos são dominados pelos mais violentos processos destrutivos, de tal modo que o self libidinal fica quase completamente ausente ou perdido.
John Steiner, 1985, no seu artigo “O Interjogo Entre Organizações Patológicas e as Posições Esquizoparanóide e Depressiva”, mostra os modos como as defesas podem ser reunidas em organizações patológicas que têm um profundo efeito sobre a personalidade e podem levar a estados mentais que se tornam fixados de modo que o paciente em análise não apresenta insights e tem resistência a mudanças. Como no seu artigo anterior, citado acima, continua insistindo no movimento contínuo entre as posições, de modo que nenhuma delas prevalece em qualquer grau de completude ou permanência. Somente quando os estados mentais se tornam fixados, é que acontece a organização patológica e, é nas transições que ela ocorre, tanto no interior da posição esquizoparanóide como na depressiva, que o sujeito parece estar mais vulnerável à influência dessa organização. Por exemplo, na passagem da cisão do objeto para a dor, perda do objeto, acontece este tipo de organização patológica.
[1] – Recebido por e-mail, em setembro de 2005.
[2] – Rosenfeld, H. – Uma Abordagem Clínica Para A teoria Psicanalítica das Pulsões de Vida e Morte: Uma Investigação dos Aspectos Agressivos do Narcisismo, in Melanie Klein Hoje, Volume I .