O que é psicomotricidade? É uma área da psicologia, é uma área da pedagogia, ou quem sabe é uma área da neurologia, ou pode ser que seja da neurociência? É uma ciência ou uma técnica? É uma metodologia? Quais são seus objetivos? O que ela pretende?
Difícil, não é mesmo?
Basta participar de uma jornada de psicomotricidade para observar as dúvidas citadas acima. Até mesmo entre os teóricos que pretendem normatizar a psicomotricidade há controvérsias.
Um diz que é uma ciência da educação, cujo objetivo é educar o movimento ao mesmo tempo em que põem em jogo as funções intelectivas. [1] Outro que é a evolução das relações recíprocas, incessantes e permanentes dos fatores neurofisiológicos, psicológicos e sociais, que intervêm na integração, elaboração e realização do movimento humano. [2]
Citando apenas dois autores conhecidos e tidos como referências dentro desta área, ficamos em dúvida onde situarmos a psicomotricidade. Embora, ambos concordem que o enfoque principal é o movimento humano.
Temos aí o objeto de estudo da psicomotricidade: o movimento humano.
O movimento é a nossa resposta ao estímulo recebido do mundo externo e é o nosso modo de nos posicionar perante as motivações internas, nem sempre percebidas conscientemente.
Algumas vezes não sabemos por que agimos dessa ou daquela maneira, não paramos para pensar, damos vazão às nossas emoções que vão se acumulando e de algum modo precisam ser extravasadas, agimos impulsivamente.
Simonne Ramain, francesa, criadora da metodologia Ramain, dizia: “A psicomotricidade deve se propor a buscar um desenvolvimento global do indivíduo, por meio de sua estruturação mental, sendo enfocados igualmente aspectos afetivos, motores e intelectuais, levando-o a tomar consciência de si pela atitude e movimento”.
Ela criou vários dossiês, para trabalhar várias etapas do desenvolvimento humano e, cada um deles composto por séries de exercícios que objetivam desenvolver a atenção do sujeito e assim conscientizá-lo de sua maneira de ser e fazer.
Simonne entendia que a qualidade dominante do ser é a “vigilância” e que esta qualidade desenvolve-se de uma atitude de “atenção interiorizada” que nos permite a consciência de nós mesmos e de nossos atos.
Assim, a atenção para ela, não tem o caráter intelectual, mas está distribuída entre um conjunto de funções e cada função deve utilizá-la no momento adequado para permitir ao sujeito captar as impressões sob seus diversos aspectos e deixar que entrem em jogo a disponibilidade e a plasticidade indispensáveis ao ser humano. Neste sentido, Simonne relaciona quatro situações de atenção que devem atuar harmoniosamente:
- atenção dirigida à percepção visual;
- atenção dirigida à percepção auditiva;
- atenção dirigida à percepção do contato com o corpo;
- atenção interiorizada posta na percepção do esquema corporal.
Estes quatro aspectos da atenção dirigem-se ao mesmo fim: desenvolver sujeitos harmoniosos, capazes de realizar voluntariamente esforços de atenção sem eleição preferencial.
Quem pensa que trabalhar com psicomotricidade é apenas desenvolver as áreas de coordenação motora global e manual, de percepção visual, de lateralidade, de esquema corporal, de estruturação espacial e de orientação temporal, entre outras, acaba cometendo um equívoco. O homem é muito mais que um ser com capacidade neurológica, ele tem vontades, desejos, afetos, emoções, ele pensa, ele se relaciona e interage com o meio ambiente. A sua movimentação é a expressão de como ele está podendo se perceber e relacionar com o mundo que despeja sobre ele expectativas, imposições, desejos, que nem sempre correspondem ao que ele quer, necessita ou deseja.
Os exercícios psicomotores propostos precisam transcender os aspectos cognitivos e neurológicos e desenvolver um sujeito que tenha o domínio sobre si, que seja autônomo e tome consciência de sua relação com o mundo, por meio da experiência vivida.
Não há proposta de aprendizagem e adestramento para qualquer tipo de aperfeiçoamento e de desempenho. Não há fixação de valores de realização, nem estímulos a qualquer atitude competitiva. Cada experiência deve trazer uma renovação no sentido de quebrar automatismos e abrir caminhos para a criação de novas posturas do sujeito diante de si e do mundo.
A experiência vivida pelo sujeito que realiza os exercícios do método Ramain se incorpora de uma maneira permanente em sua vida. O desenvolvimento do que Simonne Ramain chama “atenção interiorizada” não fica restrita aos momentos das sessões.
Com o campo de consciência mais alargado, o sujeito passa a viver cada momento de forma mais presente e abrangente, atento a toda experiência direta que esteja contribuindo para a percepção de si.
Se focarmos a área neurofisiológica, constatamos que a metodologia Ramain mobiliza principalmente as funções processadas no hemisfério direito. E este hemisfério elabora as informações de uma forma holística, gestáltica, sendo responsável pelas funções de orientação espacial, esquema corporal, relações viso-espaciais, formas espaciais, síntese espacial, analogias, música, melodias, ritmo, expressão de emoções, criatividade dinâmica e elaboração artística, entre outras. Estas funções são de importância fundamental na complementação das funções processadas predominantemente no hemisfério esquerdo, como a utilização e evocação de material verbal, cálculo, explicação, descrição, que compõem a atividade chamada intelectual, e não são suficientemente solicitadas no processo de desenvolvimento pessoal habitual. Uma metodologia que mobiliza também as funções do hemisfério direito irá concorrer para a ampliação das potencialidades do cérebro como um todo.
Como a minha formação em psicomotricidade foi por meio da vivência da metodologia Ramain, tendo estudado outros autores mais tarde, o conceito de psicomotricidade é tão complexo, como abrangente, compreendendo-o como mobilização e desenvolvimento do ser humano; pois mobilização e desenvolvimento subentendem MOVIMENTO, são palavras dinâmicas, e o dinamismo nunca cessa.
[1] Costallat, D. – “Psicomotricidade” – Editora Globo – segunda edição – Porto Alegre, 1976.
[2] Fonseca, V. – “Psicomotricidade” – Martins Fontes – São Paulo, 1983.