TRANSFORMANDO PROFESSORES EM EDUCADORES, ESSA SERÁ A GRANDE REVOLUÇÃO

Objetivos:

 Sensibilizar os professores que existem outros caminhos dentro da educação.

 Conhecer-se, é o primeiro passo para aceitar mudanças.

            No final do ano passado (2013), recebi um mail do meu filho (que também está comprometido com a educação, só que de empresários), com a palestra de Sir Ken Robison, cujo título era: “Façamos a revolução na aprendizagem”.

            Quando terminei de assistir refleti sobre a minha prática clínica, afastada indiretamente de instituições educacionais há quatorze anos; porque algumas vezes ainda visito escolas para conversar a respeito dos meus pacientes que atendo em psicopedagogia, ou em psicomotricidade, e ou na área emocional.

            Vi o quanto havia me afastado do meu talento inicial, que sempre foi o de participar do processo de aprendizagem. Lembro-me que quando criança, colocava na varanda de minha casa, em Belo-Horizonte, os meus amigos de infância e imitava as minhas professoras de pré-escola e do fundamental. Já estava traçada a minha carreira profissional, foi o que sempre quis ser, uma professora, depois mais tarde uma educadora.

            Descobri que professor qualquer um poderia ser, mais educador era para poucos. E descobri, quando comecei a me conhecer melhor, no curso Formação em Psicomotricidade Ramain-Thiers (metodologia vinda da França, criada por Simonne Ramain e disseminada no Brasil por Solange Thiers).  Isto porque no curso, os exercícios eram aplicados nos aprendizes para desenvolver a nossa consciência e aguçar a nossa percepção, primeiro de nós mesmos e depois dos outros que participavam da formação e por fim estar disponível para os que seriam entregues ao nosso cuidado. Foi um dos períodos mais fecundos da minha existência. Um simples exercício de cópia em folha de papel quadriculado levava-me a uma viagem profunda de mim mesma. Percebia como o meu raciocínio trabalhava, as interferências vindas do externo e os barulhos internos que estava começando a me permitir escutar (meus sentimentos), além da comunicação verbal, decodificada e interpretada, muitas vezes de modo diferente, das instruções para realizar o exercício; como eu não sabia escutar… Vivemos num mundo interessados em falar, mas não em escutar.

            Na época em que cursava a formação (três anos e meio para poder trabalhar com crianças e adolescentes), trabalhava numa grande instituição educacional e lecionava português e matemática para crianças de terceira e quarta séries do Fundamental I.  A primeira coisa que fiz foi tentar ampliar a percepção, a atenção e a escuta de meus alunos. Muitas das minhas estratégias (palavra que vem do militar) deram certo, meus alunos ficavam em silêncio quando precisava de sua atenção para desenvolver um novo tema, mas um silêncio participativo, de troca de ideias, uma comunicação onde havia ordem, porque todos queriam escutar o que seus colegas tinham a dizer a respeito.

            Depois fui requisitada para desenvolver e implantar um currículo para uma escola de educação infantil. A princípio a grade curricular seguia os parâmetros da cartilha ditada pelo MEC, que acabara de introduzir a motricidade no currículo da programação infantil. Por algum tempo foi satisfatório, mas sentia que ainda faltava algo, não era daquele jeito que queria levar adiante a educação das crianças que eram postas sob a minha orientação. As crianças não estavam felizes, muito menos eu.

            Resolvi implantar a metodologia Ramain-Thiers na escola, mas para isso precisava mudar a visão dos professores, necessitava transformá-los em educadores. Foi o que fizemos, eu e meus colaboradores, aqueles que acreditavam que os professores precisavam deixar suas antigas crenças, aquelas que aprenderam na escola e em sua formação. Teria que despertar seus espíritos, suas paixões e suas energias.

            Para isto, reuníamos toda a semana durante uma hora e meia e fazíamos um ou mais exercícios de psicomotricidade. Discutíamos o que eles tinham suscitado em cada um, como poderiam aproveitar as percepções descobertas para transpor para os alunos. Líamos textos de educadores que nos interessavam, refletíamos se algumas das ideias eram aproveitáveis ou não. E conversávamos sobre o comportamento de algum aluno que estava dificultando a convivência com as crianças do grupo a qual pertencia e quais seriam as medidas mais apropriadas a tomar.

            Os professores foram deixando de lado crenças educacionais que não cabiam mais numa escola que estava terminando um século e às portas de um novo milênio.  Foram se transformando, aprenderam a se escutar e a escutar o que as crianças tinham a dizer. Não éramos uma escola preocupada que nossos alunos entrassem nesta ou naquela escola de ensino fundamental que ficavam no mesmo bairro, porém eles iam tão despreocupados em prestar o tal vestibulinho, que entravam. Eles adquiriam a mesma confiança no vir a ser, que sentiam nos educadores que trabalhavam com eles.

            Na minha prática clínica, quando visito uma escola, tento escutar qual é a sua filosofia, qual a metodologia empregada, o que posso esperar de cooperação para podermos ajudar a criança que nos foi confiada e com a qual estamos trabalhando. A maioria das escolas se diz modernas, mas ainda são tradicionais, se preocupam em ensinar coisas para as crianças, que muitas vezes elas ainda não estão preparadas para aprenderem, porque há estágios de desenvolvimento que todos nós, como educadores, devemos respeitar. São escolas que estão preocupadas com a avaliação na aprovação do número de alunos no ENEM e ou vestibular. A que coloca mais alunos ganha a fama de ser a melhor. Estamos falando de escolas industriais, empresariais, que ficam de olho no número, na estatística.

            O grito que ouvi de alguns palestrantes no Youtube, como: Ken Robison, José Pacheco (Escola da Ponte), Luciano Meira, Sidarta Ribeiro; a respeito de educação, é que ela deve ser mudada para uma escola que personalize o educando, que o faça descobrir qual é o seu talento e com o que gostaria de trabalhar, precisamos de toda uma diversidade de profissionais e técnicos que gostem do que fazem. Para isto devemos mudar a escola de um modelo industrial para um agrícola, onde os sonhos possam ser cultivados, despertados e colocados em prática.

            Penso que há ainda um grande desafio nesta mudança, que é da maior importância: Fazer a revolução no campo da Formação de Educadores, não de professores, porque sem eles qualquer mudança emperra, porque a filosofia e a metodologia de uma escola dependem deles, das crenças que carregam.

            Paulo Freire e Ira Shor, no livro: “Medo e Ousadia” – falam de um educador libertador e de uma prática dialógica. Um educador que está mais comprometido em participar da formação dos alunos, do que em transferência de conhecimentos. Mas que também é competente e rigoroso no que quer trabalhar com os estudantes e não inflexível.

            Como fiz outrora, quando fui orientadora pedagógica de uma pré-escola, proponho que os professores possam se conhecer, saber quais são os seus desejos,

com quem se identificam, onde colocam suas projeções, aprendam a identificar as suas dificuldades para não confundir com as dos seus alunos, saibam separar o que é deles, o que é dos outros. Só então, após se conhecerem e saberem qual a sua disposição, poderão se comprometer e virem a se tornar educadores; porque a educação também é um ato político, não havendo pedagogia neutra.

            Proponho um curso de autoconhecimento, enriquecimento e desenvolvimento de talentos, aprendendo quais são os seus recursos naturais e como aprimorá-los para se transformar num autêntico EDUCADOR. Aquele que faz a diferença neste processo que se inicia agora, com esta revolução.

Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

Texto enviado ao congresso Formação de Educadores.

 

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