Todo adolescente “adora” estudar, não tem dificuldades de atenção, de interesse, de motivação, de organização, de memória, não é mesmo?
Os professores fazem malabarismos para que prestem atenção, pelo menos um minuto, no assunto que estão abordando. Com todo um mundo novo descortinando, quem vai se interessar por matemática, física, química ou biologia?
O período de latência cedeu lugar a uma explosão hormonal, o corpo muda dia a dia, o esquema corporal é outro, necessitando refazê-lo. Perguntas como: Quem sou eu? Como irei ficar? As espinhas irão desaparecer? Se fizer sexo será que nascerá um bebê? Será que poderei pegar doenças sexualmente transmissíveis? O que eu faço com a liberdade que se abre a minha frente? Que profissão irei escolher?
Com todas estas questões para resolver, nós ainda queremos que ele pense em algo emergencial como: “a soma do quadrado dos catetos é igual a soma do quadrado da hipotenusa.” Para que lhe serve isto? E suas questões não são mais importantes? O que lhes parece?
Entra aqui a parceria da escola com os pais, para desenvolver a competência, individuação, identidade e auto-estima. Fatores fundamentais para o desenvolvimento da inteligência formal, só possível pelo convívio social que interage entre a maturação e a experiência.
Os pais são considerados, atualmente, mediadores de aprendizagem, tanto quanto os professores, o estímulo, o exemplo, o modelo vem de casa. Piaget acreditava que a aprendizagem se dava pelo seguinte esquema: S – O – R, isto é, estímulo, organismo e resposta, considerada a aprendizagem direta ou explicação passiva; se o estímulo coincide com o indivíduo, produz a resposta. Podemos desenvolver a capacidade somente pela exposição a estímulos? Podemos fazer inferências somente pela resposta a estímulos? Para os novos pesquisadores do desenvolvimento da inteligência, como Reuven Feuerstein, o esquema de aprendizagem deve ser o seguinte: S – H – O – H – R (H traduzido pelo mediador humano). O mediador humano se interpõe entre o estímulo e o indivíduo, oferecendo estímulos e transformando, assegurando criações ótimas de interação, criando modos de perceber, confrontando os estímulos, abrindo novas formas de abstrair. O organismo adquire comportamentos apropriados, formas de aprendizagem e estruturas operacionais que modificam constantemente sua estrutura cognitiva como resposta a estimulação direta.
No período de latência (dos sete aos dez anos mais ou menos) a criança desenvolve as seguintes funções de pensamento, quer tenham ou não esta mediação: observação, comparação, classificação, imaginação, codificação, interpretação e obtenção e organização de dados. Alguns podem demorar mais, outros menos, porém a maioria chega lá.
Na adolescência deverá desenvolver as funções mais abstratas de pensamento, chamadas de operações formais, como: resumo, crítica, busca de suposições, levantamento de hipóteses, aplicação de fatos a novas situações, decisão, planejamento de projetos e pesquisas. No entanto só o fará se for bem mediado, se conviver socialmente, se fizer troca. Nesta fase a escola é de fundamental importância. É comum encontrar adultos que não desenvolveram algumas das operações formais, apresentando ainda pensamentos concretos.
Alguns dos comportamentos que comprometem o desenvolvimento das funções de pensamento formal são: impulsividade, dependência em relação aos pais ou professores, incapacidade de concentrar-se, dificuldade em perceber o significado, comportamento dogmático, rigidez, falta de confiança no pensamento pessoal, falta de disposição para pensar.
Alguns anos atrás se falava muito em Q.I. (quoeficiente de inteligência), medida dada por testes elaborados por pesquisadores, a maioria das vezes restritas a um contingente de população urbano, com certo grau de conhecimento e corrigido pelo número de respostas certas e pela velocidade dada às respostas. Como ficavam outras populações como os índios, meninos de rua, populações carentes? Confundia-se inteligência com cultura.
Agora se fala em Q.E. (quoeficiente emocional), a facilidade para detectar e resolver problemas, sendo necessárias qualidades como flexibilidade e criatividade (os tecnocratas têm o conhecimento, teorizam, mas as propostas para as soluções do dia a dia permanecem difíceis). Também se acredita em vários tipos de inteligência, as inteligências múltiplas: a musical, a linguística, a lógica-matemática, a espacial, a motora, etc..
Para desenvolver pessoas com Q.E. é proposto um trabalho com blocos de construção de pensamento e ferramentas de aprendizagem independente, interligados; a cada dia se propõe um bloco de pensamento e uma ferramenta, por exemplo: Exploração Sistemática (bloco de pensamento) e Sentimento de Competência (ferramenta de aprendizagem); ou Fazendo Comparação (bloco de pensamento) e Autodesenvolvimento (ferramenta independente); ainda, Fazendo a Memória Funcionar (bloco de pensamento) e Comportamento Compartilhado (ferramenta independente).
Se a escola e os pais estiverem sintonizados, compartilhando dúvidas e experiências, é possível desenvolver a capacidade do adolescente, transformando-o em um indivíduo consciente, autônomo e responsável.
Palestra realizada no Colégio Oswaldo Cruz para pais de adolescentes.
Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.