Peversão, onde fica a Lei?!

“Bebe, come e vive bem com aqueles cujo poder é
grande. Dos bons aprenderás o bem; e com os maus,
se com eles te mesclares, acabarás perdendo o que
tens de bom “…

“Se possível fosse fabricar razão e colocá-la no
homem, grande fortuna ganhariam os que esse
segredo possuíssem”…

“Nunca um bom pai teria um filho mau, se este
fosse dócil aos sábios conselhos; mas jamais farás bom,
com simples lições, a um homem que seja mau”…

Como é difícil falar, pensar e escrever sobre perversão, já que o termo nos sugere várias conotações diferentes.
Antes de participar deste seminário teórico, perversão para mim era qualquer pessoa que se comportava como má, que não tinha respeito pelo outro, que recusava a castração e se colocava acima de qualquer lei. Não só os que participavam de práticas sexuais consideradas anormais, ou melhor, pouco comuns, como os sádicos, os masoquistas, os exibicionistas, os voyeuristas, etc…
Acho, já não tenho tanta clareza, que a minha resposta à questão formulada pelas mestras, no início deste seminário, a respeito do que entendíamos sobre o conceito de perversão, foi mais pela linha da maldade, do que o conceito dado pela psicanálise. E alguns teóricos colocam que há realmente esta confusão em função da amplitude de significados do termo.
No dicionário de língua portuguesa (Aurélio, 1995), perversão é:

1) Ato ou efeito de perverter (-se); 2) corrupção, desmoralização, depravação; 3) alteração, transtorno; 4) desvio ou perturbação de uma função normal, sobretudo no terreno psíquico.

Perverso é:

1) Que tem malíssima índole; muito mau; malvado; 2) que revela perversão; 3) indivíduo perverso.

Além dessa série de significados da palavra perversão, há ainda os que a consideram uma estrutura e outros que vêem a perversão como um modo de funcionamento psíquico, uma dinâmica psíquica, uma pulsão cujo objetivo é o gozo.
No Vocabulário da Psicanálise (Laplanche e Pontalis – 1998), definem o conceito da seguinte maneira:

“Desvio em relação ao ato sexual ‘normal’, definido este como o coito que visa a obtenção do orgasmo por penetração genital, com uma pessoa do sexo oposto.
Diz-se que existe perversão quando o orgasmo é obtido com outros objetos sexuais (homossexualidade, pedofilia, bestialidade, etc.) ou por outras zonas corporais (coito anal, por exemplo) e quando o orgasmo é subordinado de forma imperiosa a certas condições extrínsecas (fetichismo, travestismo, voyeurismo e exibicionismo, sadomasoquismo); estas podem mesmo proporcionar, por si sós, o prazer sexual.
De forma mais englobante, designa-se por perversão o conjunto do comportamento psicossexual que acompanha tais atipias na obtenção do prazer sexual.”

Talvez, também pela mesma razão citada anteriormente, eu tenha visto no filme “The Shape of Things” , a perversão na personagem principal feminina – Evelyn – já que ela desconsidera o outro, vendo-o apenas como um objeto que a ajudaria a demonstrar que toda superfície pode ser moldável, esculpida e, que o outro é apenas um pedaço de carne. Seduzindo o rapaz que havia escolhido não por acaso, mas porque já o havia conhecido anteriormente, numa vídeo-locadora, analisando-o, sabendo que seria fácil enredá-lo na trama que havia planejado, para que ele fizesse tudo por ela solicitado: emagrecer, cortar o cabelo, pente á-lo de outra maneira, fazer esporte para criar musculação, vestir-se de modo mais esportivo e até plástica de nariz, mentindo para ele dizendo que ela mesma também já havia feito. Não é só por esse motivo que fiz um diagnóstico de perversa, porém porque só revela o seu itento no momento da apresentação de sua tese. Deixando os envolvidos na trama da estória escandalizados e indignados; principalmente o casal amigo do rapaz escolhido para ser a sua amostra da tese de pós graduação em artes. Além do mais, ela se comporta de maneira exibicionista e voyeurista o tempo todo, fotografando e filmado todas as relações sexuais entre eles, sem contar para o Adam que aquilo não era uma maneira diferente de fazer amor, mas que iria ser exibido na apresentação de sua tese.
Eu, como espectadora fiquei chocada no final do filme, quando ela se vira para a câmera que a filmava e faz um gesto obsceno, mandando a todos que não concordavam com o que ela fez para “aquele lugar”. Não pelo gesto em si, mas por constatar que ela também nos enreda, não compartilhando com o espectador qual era o objeto de sua tese. Durante todo o tempo Evelyn diz que está trabalhando nela, porém o espectador fica sem saber qual é o seu escopo. Somente na apresentação, final do filme, percebe-se que o espectador também participou da trama como voyeurista e para a personagem só o que ela pensava era verdadeiro e só a arte importava, o resto é resto.
Jean Clavreul, 1967, em seu texto sobre “O Casal Perverso”, vai nos falar da importância do terceiro na relação entre o casal perverso:

… “Esse terceiro, que está necessariamente presente para assinar, ou melhor, para endossar a autenticidade de um vínculo amoroso normal, deveria ser excluído aqui, mas está exatamente presente numa posição tal como se ele fosse necessariamente cego, cúmplice ou impotente.”…

Depois da leitura desse texto ficou mais claro qual foi o motivo da minha indignação, foi o ter-me tornado cúmplice e ficado impotente diante de toda a trama de Evelyn, o que, como espectadores, só percebemos a posterirori.
Na discussão em classe, ficamos com três diagnósticos: perversa, histérica e psicótica. Entretanto, ainda não fiquei convencida que ela não agiu perversamente. Ela forma par perverso com o amigo de seu namorado, que a contesta por ter pichado a estátua, cujo pênis estava encoberto por uma folha de parreira. Com medo que ele destrua o seu objetivo, influenciando o Adam a deixá-la, também o seduz e tem um caso amoroso com ele, mesmo sabendo que estava noivo e nas vésperas do casamento. E porque também não agüenta se sentir rejeitada pelo sexo oposto, fazendo desta conquista um desafio.
Citando Piera Aulagnier- Spairani (1967):

“Dizer que o perverso é aquele que está consciente de ter escolhido o ‘mal’ porque é perfeitamente capaz de conhecer o que a ética do mundo onde ele vive designa sob o termo do ‘bem’, que ele decide desafiar toda lei e que ele sabe que, por seu agir, ultraja a lei do seu semelhante, o que significa que ela se opõe à sua, que ele insulta através do que, dentro de uma dada ordem social, é julgamento e referência moral, tudo isso não somente é verdadeiro, mas resta como o eco fiel do que o perverso fala e, acrescentaria eu, constitui a razão principal que me autoriza falar de estrutura perversa para um tal sujeito. O que tenho insistido é que a posição mais ‘pura’ do sujeito perverso é justamente esta reivindicação que faz de seu agir a conseqüência de uma escolha que ele diz justificada por um saber sobre a verdade do que é o bem, assim como do que é o mal em sua articulação fundamental no registro do desejo.”

Vemos na personagem Evelyn a constante reivindicação do que ela afirma ser o correto, mesmo indo contra as leis da sociedade na qual está inserida. Quando ela picha a estátua e diz que foi uma declaração, um manifesto contra uma sociedade hipócrita que resolve encobrir o pênis da estátua com uma folha de parreira, insultando o artista que havia se esmerado para produzir tão bela obra de arte. Ou quando ela manipula o seu parceiro sexualmente, para conseguir dele o que deseja, transformá-lo numa obra de arte, como se ela estivesse utilizando o martelo e o cinzel para esculpir em mármore. Ou quando não agüenta que o amigo de seu namorado a rejeite e também o seduz, formando um triângulo amoroso para poder levar adiante o seu objetivo. O seu fetiche é a arte, e essa está acima de qualquer lei.
Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

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