“A ESCUTA”

“É através da arte de escutar que seu espírito se
enche de fé e devoção e que você se torna capaz
de cultivar a alegria interior e o equilíbrio da mente.
A arte de escutar lhe permite alcançar sabedoria,
superando toda ignorância. Então, é vantajoso
dedicar-se a ela, mesmo que isto lhe custe a vida.
A arte de escutar é como uma luz que dissipa a
escuridão da ignorância. Se você é capaz de manter sua
mente constantemente rica através da arte de escutar,
não tem o que temer. Este tipo de riqueza jamais
lhe será tomado. Essa é a maior das riquezas.”
Dalai – Lama

Lembro-me de todos os professores que me iniciaram na teoria kleiniana, lembro-me mais de alguns que de outros. Lembro-me da professora Maria Luiza Persicano, no segundo semestre do segundo ano do curso Formação em Psicanálise, dizendo:

“Não queiram anotar tudo que o professor fala em sala de aula, relaxem, deixem a teoria kleiniana penetrarem em vocês, “escutem”, somente assim poderão absorver algo tão visceral!”

Foi assim que aprendi a ficar menos inquieta para “escutar” meus professores e meus pacientes e quanto mais o faço, mais consigo entrar no jogo de relações e de associações que esta nossa tarefa de analistas nos cobra.
Vou tentar articular o que aprendi no seminário teórico da professora Cecília Noemi de Camargo, com um caso de uma adolescente que já atento há três anos em análise e que tem partes da personalidade psicótica; mas que iniciei o atendimento em psicomotricidade.
Quando vi Olga (nome fictício) pela primeira vez, então com oito anos e dez meses, observei que havia alguma coisa a mais e não apenas um atraso motor como a escola se queixava. Ela era diferente das outras crianças que eu já atendera. Seu comportamento não seguia as normas do chamado adequado, ela dava risada por qualquer coisa sem importância, babava, não tinha o chamado “freio inibitório”. Interrogava qualquer pessoa que via e ficava sem saber o que fazer quando era ignorada, normalmente perseverando até obter o que desejava, não era por birra, algo que não passava pelo âmbito dos limites, era diferente disso, parecia ser a única maneira como havia aprendido a se relacionar (fora da fronteira entre o eu dela e o eu do outro). Também não estava atrelada à deficiência cognitiva, sabia ler e escrever, embora sua orientação espaço-temporal estivesse defasada, não conseguindo se organizar numa folha de papel pautada e muitas vezes se negava a colocar a data nos trabalhos e quando o fazia era sempre além ou aquém da data corrente (uma maneira de cindir com a realidade externa, ficando preservada no seu mundo interno).
Fui buscar supervisão por não ter muito claro o que estava acontecendo com Olga. Segundo o supervisor, o que eu não estava podendo decodificar, neste caso, era o seu funcionamento psicótico. Naquela ocasião, há cinco anos, 1999, a demanda era para um trabalho psicomotor; fui pesquisar em livros teóricos o que seria um funcionamento psicótico, sugestões dadas pelo mesmo supervisor e que foram se ampliando quando, no segundo ano do curso Formação em Psicanálise, começou o aprofundamento no estudo da teoria kleiniana.
“Tenho uma mãe morta no meu colo!” (imagem dada pelo meu supervisor, nas nossas discussões sobre o caso). Compreendido por mim, que ele estava falando das relações objetais, de posições, de angústias e defesas. E é justamente sobre isso que autores como Klein, Bion, Rosenfeld, Segal, Colognese, Meltzer, Britton e Steiner chamam a nossa atenção.
Participar do seminário teórico da professora Cecília Noemi de Camargo foi “escutar”, no módulo kleiniano, o que estes autores nos diziam sobre a psicose; foi compreender melhor o funcionamento de Olga; foi fazer a síntese a respeito do que pude aprender até aqui, durante estes três anos, sobre a teoria das relações objetais.

KLEIN, ROSENFELD, SEGAL, BION, MELTZER, COLOGNESE, BRITTON, STEINER E “OLGA”.

Os pais de Olga, mãe com trinta e nove anos e pai com quarenta dois anos (1999), funcionários públicos, professores doutores, tentaram uma gravidez durante oito anos. Não obtendo resultado positivo resolveram desistir e se voltaram para a carreira acadêmica que estava em andamento. A mãe conseguiu uma bolsa para o doutorado nos Estados Unidos e o marido a acompanhou, aproveitando para fazer cursos que complementariam a sua carreira universitária. Nesta ocasião, já instalados no país, ficaram grávidos. A princípio, a mãe ficou muito irritada porque naquele momento seus planos eram outros. Depois de muito considerar, resolveu pela gravidez e quando Olga nasceu, a avó e bisavó maternas foram morar junto com os pais para poderem cuidar da criança, porque os pais “tinham” (SIC) que se dedicar aos estudos e pesquisas.
A mãe relatou que por volta de um ano e seis meses, começou a perceber as dificuldades motoras da filha: era toda mole, tinha hipotonia , sentou e andou com atraso, e não correspondia aos estímulos dados por eles. Ao retornarem ao Brasil, buscaram ajuda profissional neurológica, sendo a criança encaminhada para fisioterapia, terapia ocupacional, natação e trabalho emocional.
Isto me fez pensar como teriam evoluído as relações objetais dessa criança? Klein,1958, vai nos dizer o seguinte:

“Atribuo ao ego, desde o começo da vida, uma necessidade e uma capacidade não apenas de cindir mas também de integrar a si mesmo. A integração, que vai gradualmente chegar ao ápice na posição depressiva, depende da preponderância da pulsão de vida e implica em certa medida a aceitação, pelo ego, do trabalho da pulsão de morte. Vejo a formação do ego como uma entidade a ser em grande parte determinada pela alternância entre a cisão e repressão, de um lado, e integração em relação a objetos, do outro.”(p.279)

Fico imaginando um bebê, ávido pela relação com a mãe, tentando receber as gotinhas de libido junto com o leite, que não vêm, porque a mãe está voltada para outros interesses. Quais recursos que tem senão o processo de cisão para dar conta das projeções e introjeções do objeto persecutório, o seio mau? Este ego fica extremamente fragilizado e estilhaçado, porque não consegue alternar entre a cisão e repressão e nem fazer integração em relação a objetos. Ele não tem só um objeto, tem mais três além da mãe, mas parece que nenhum deles dá conta de conter tamanha ansiedade. Até a sua hipotonia, é uma maneira de dizer, no latente, “tome conta bem de mim, porque sou frágil!”
Em seu texto “Sobre a teoria da Ansiedade e da Culpa”, 1948, Klein chega a duas conclusões fundamentais para entendermos de onde surge à ansiedade:

“Pode-se tirar duas conclusões (…): (a) em crianças pequenas, é a excitação libidinal, não satisfeita que se converte em ansiedade; (b) o conteúdo mais arcaico de ansiedade é a sensação de perigo experimentada pelo bebê de que suas necessidades não sejam satisfeitas porque a mãe está “ausente”.” (p.47)

Olga não tinha a excitação libidinal satisfeita, pelo menos a que ela ansiava o cuidado da mãe, tinha as das avós, mas será que para ela era o suficiente? Não era fantasia dela que a mãe estava ausente, a mãe realmente não estava presente. Estava cuidando de sua tese de doutorado.
Na segunda entrevista com os pais, eles também se queixaram que Olga não podia ver bebês na rua, ou em fotos, pois entrava em pânico, gritando e, às vezes, chorando desesperadamente. Fiquei me perguntando qual a origem desse fato? E o que a levava a reagir daquela maneira frente a bebês?… Depois de um tempo de trabalho com Olga, numa sessão em que escolheu trabalhar com argila, foram colocadas revistas velhas na mesa, como forração, começou a folhear uma delas e se deparou com uma foto de bebê que tomava conta da página inteira, ela teve um acesso de raiva e amassou o rosto da criança com argila, sujando toda a página, quando terminou estava mais calma, procurou outra página e trabalhou tranqüilamente com a argila, moldando um boneco. Interpretei que depois de ter colocado a sua raiva contra o bebê que ela não tinha podido ser, havia conseguido montar um bebê mais integrado e aceito por ela. Após esse episódio, os pais não assinalaram mais a sua pouca tolerância quanto às crianças pequenas, interessando-se em observá-las. Será que a relação transferencial com a analista, “companhia viva” , deu-lhe suporte para poder elaborar a marca de um bebê pouco acolhido pelos pais? Ou será que pôde estabelecer a construção de um ego mais integrado, com capacidade para suportar melhor as frustrações entre o que havia estabelecido em fantasia, de projetar no objeto substâncias nocivas e introjetar como partes de seu self esses mesmos elementos, podendo neste instante construir de outra maneira e se ver livre deles?

Rosenfeld (1964) vai nos mostrando que pacientes em estados psicóticos usam a transferência como defesa, numa relação de objeto narcísica, onde a onipotência desempenha um papel preponderante. O objeto, geralmente um objeto parcial, o seio, pode ser onipotentemente incorporado, implicando ser tratado como propriedade do bebê. Mais para frente, neste mesmo texto, ele nos fala o seguinte:

“Nas relações de objeto narcísicas, as defesas contra todo o reconhecimento da separação existente entre o eu e o objeto constituem uma parte predominante. A percepção da separação conduziria a sentimentos de dependência do objeto e, conseqüentemente, à ansiedade. A dependência do objeto implica amor por ele e reconhecimento do seu valor, o que ocasiona agressividade, ansiedade e sofrimento, por causa das frustrações inevitáveis e suas conseqüências. Além disso, a dependência estimula a inveja, quando se reconhece a bondade do objeto. As relações de objeto narcísicas onipotentes evitam, por conseguinte, tanto os sentimentos agressivos causados pela frustração como toda percepção da inveja”. (p.195)

Quando me deparei com este trecho de seu texto, lembrei-me que no final da maioria das sessões, Olga se queixava de ter que ir embora, muitas vezes negando-se a levantar da cadeira para sair, dizendo que queria permanecer comigo. Era necessário convencê-la que logo teríamos outra sessão e que então poderíamos ficar mais tempo juntas; ela sempre dizia que a outra sessão demoraria a chegar. Entretanto, assim que saía da sala e encontrava a sua mãe, “grudava” nela e perguntava-lhe o que iriam fazer depois dali, ignorando-me totalmente; na saída mal se despedia, era como se eu fosse transparente. Tive então o insight do que esteve sempre acontecendo, Olga não podia se separar de mim, porque ao fazê-lo sentia-se frustrada e ansiosa por perceber a dependência existente; como a separação era inevitável, voltava-se imediatamente para outro objeto por não poder conseguir lidar com os sentimentos agressivos que surgiam a cada separação. Numa das últimas sessões, já na saída, desejei-lhe bom final de semana e disse-lhe: “até terça-feira!” Ao que ela respondeu, sem olhar para trás: “Estou de férias!” Frase que traduzi da seguinte maneira: “Você não quis ficar mais tempo comigo, agora que parei com a escola, parei também com você, não virei, não adianta esperar por mim!”

Segal vai falar muito da dificuldade da formação de símbolos em pacientes esquizóides e em esquizofrênicos, ela diz que a verbalização é uma forma particular e altamente desenvolvida de simbolismo, sendo uma das grandes conquistas da posição depressiva, onde a capacidade do indivíduo de integrar e conter aspectos mais primitivos de suas experiências vai acontecer, incluindo as equações simbólicas mais primitivas. Para que os processos de simbolização progridam há a necessidade de que o sujeito também deva estar evoluindo para a posição depressiva, suportando a diferenciação entre o eu e o outro, suportando que o objeto vem e vá.
No início de nosso trabalho, Olga sempre ficava preocupada com a sua mãe, onde ela estaria, quando a mãe não ficava esperando por ela. Perguntava-me: “Berenice, aonde a minha mãe foi?” Quando lhe respondia não saber, ela ficava ansiosa e atenta à campainha, perguntando se era a mãe quem havia chegado. Quando foi formando um vínculo maior e podendo experenciar que a mãe sempre voltava para buscá-la, passou a não se importar mais com as saídas da mãe, permanecendo tranqüila na sala de espera, mesmo quando não vinham buscá-la ao término da sessão. Nesta mesma ocasião a escola me assinalou vários progressos na área cognitiva: elaboração de textos com início, meio e fim; respostas adequadas às questões formuladas; a dispensa da participação da mãe na realização das tarefas. Olga estava conseguindo evoluir para a posição depressiva, havia a possibilidade de reparação, elaborando o luto patológico, já não havia mais a imagem de “tenho uma mãe morta nos meus braços”, vivida com tanta intensidade.
“A teoria kleiniana sempre achou que experiências boas podem modificar a percepção do objeto e do self. Mas de que natureza seria estas experiências boas? Segundo Bion, a experiência boa para o bebê é aquela em que o objeto continente modifica de algum modo a parte que foi projetada para dentro dele. Ele descreve como a permanência temporária dentro do seio parece melhorar as partes projetadas.(…) Quando o bebê introjeta o seio como continente que pode desempenhar o que Bion designa como função alfa de converter os elementos beta em alfa, este é um continente que pode suportar ansiedade de modo suficiente para não expelir os elementos beta como descarga imediata de desconforto. Uma identificação com um continente bom capaz de desempenhar a função alfa é a base de um aparelho mental sadio.” (Segal, p.63/64)

Em muitas sessões, Olga chegava contando o que havia acontecido com ela na escola, ou em casa, para logo em seguida parar de fazê-lo e pedir para realizar atividades, como: desenhar, montar quebra-cabeças, fazer passatempos de revistas recreativas, ler livros de estórias infantis, etc. Passava para uma comunicação não verbal, tentando se livrar dos elementos beta que surgiam em nossa comunicação verbal. Quando isto lhe era interpretado, ela confirmava ou ia para o banheiro, dependendo do quanto estava podendo suportar de ansiedade, ou do quanto a analista conseguia ser continente o suficiente para desempenhar a função alfa.
Num dado momento da análise Olga passou por um período bem confuso, quando um colega, com quem ela tinha uma relação amorosa, pediu-lhe que ela se afastasse por um tempo, porque ele não queria ser mais amigo dela. Ela não se conformava com a situação oscilando entre a agressividade e sentimentos libidinosos. Nesta época seu rendimento escolar desabou e a mãe veio pedir socorro. Olga não sabia como agir, ora telefonava para ele, agredindo-o e chorando desesperadamente, ora mandava-lhe bilhetes amorosos, pedindo-lhe que voltasse a ser seu amigo. Rosenfeld, 1950 vai nos dizer sobre estes estados confusionais que aparecem nos pacientes quando fracassa a diferenciação normal entre os impulsos agressivos e libidinosos e entram em cena novos mecanismos de divisão ou se intensificam as tendências de divisão existentes.

“Quando a divisão se acentua, a confusão e ansiedade desaparecem, mas há, clinicamente, uma deterioração do estado do paciente, de vez que a divisão ocasiona a desintegração progressiva do ego. Pode ocorrer um estado confusional agudo quando os processos de divisão diminuem, seja espontaneamente ou pela análise, e tanto se podem intensificar os impulsos libidinosos e os agressivos como podem temporariamente, predominar os impulsos agressivos e dificultar o esforço de recuperação”.(p.73).

CONCLUSÃO:
Ainda havia muito para falar a respeito desse desenvolvimento da minha “escuta”, que, penso eu, a cada dia se torna mais intenso. Havia mais para falar sobre Rosenfeld, muito mais sobre Bion, sobre Meltzer, Colognese, Britton e Steiner. Porém o espaço disponível é curto, ficando para um próximo trabalho. Trabalho este aqui que tive muito prazer em desenvolver, porque consegui acompanhar o entusiasmo da professora que “traduziu” muitas vezes para nós, alunos, de uma maneira mais simples e clara, quando nos perdíamos nas formas mais rebuscadas de alguns autores ao discorrerem sobre a teoria.
A idéia de Steiner sobre os refúgios psíquicos, estados mentais em que o paciente fica fora do alcance do analista, surgindo a partir de um poderoso sistema defensivo, deu-me o que pensar. Só para finalizar, liguei esta idéia ao fato de Olga, algumas vezes cortar comigo a comunicação verbal, se relacionando unicamente através do “fazer”, realizar alguma atividade, cindindo com a realidade externa, tentando preservar-se em seu mundo interno.
Dependendo da maneira como reajo, se sentindo compreendida ou não, Olga volta a restabelecer a comunicação comigo de maneira mais direta, ou se refugiando em alguma área onde fica difícil alcançá-la.
Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.

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