Na sexta-feira passada fui assistir a uma palestra sobre a releitura do caso Dora. O palestrante, um filósofo e psicanalista conceituado, falou da abordagem de Freud e uma nova visão do caso, tendo como base o pensamento de Lacan. Também se falou de como Ferenczi viu o posicionamento de Freud, ao interpretar para a paciente que ela estava apaixonada pelo Sr. K. Muito se falou da falta de identificação de Dora e se a sua escolha sexual era hetero ou homossexual. Guardadas as prerrogativas que Freud estava começando a entender a histeria e que Dora só lhe deu três meses de análise para poder entender o que se passava no seu inconsciente, e porque havia desenvolvido uma dinâmica histérica; fiquei pensando num aspecto que na minha opinião, ainda não se falou a respeito: Dora tinha quatorze anos quando descobriu o relacionamento de seu pai com a Sra. K. Época do desabrochar da adolescência, quando a moça está retomando o seu complexo de Édipo para poder fazer a sua escolha de objeto. Fiquei imaginando o impacto da descoberta, e o desamparo que deve ter sentido, principalmente ao se deparar com a atitude do pai em sugerir um relacionamento dela com o Sr. K. para que o seu relacionamento com a Sra. K. ficasse desempedido.
Não sei se qualquer garota que estivesse no mesmo posicionamento não desenvolveria os mesmos sintomas histéricos, ou até mesmo não apresentasse traços psicóticos como forma de defesa. Não se esqueçam que esse “romance familiar” se desenrola no final do século XIX e início do XX, onde os padrões morais ainda eram muito rígidos.
Um trabalho de análise cuja a demanda era que os ataques histéricos da filha não atrapalhassem o relacionamento do pai fora do casamento, com a esposa de um casal amigo e de quem Dora tomava conta dos filhos.
Freud não soube responder a questão: “O que é ser uma mulher?” questão essa demonstrada por Dora de modo inconsciente. Qual o meu papel nisto tudo? O que devo fazer? Ainda havia uma mãe que estava apenas interessada em manter a casa excessivamente limpa, que não ocupava a sua posição de esposa em relação a seu pai.
Qual a saída para essa moça? Ficar divagando sobre hipóteses de como conduzir a análise deste caso, na nossa época autal é muito fácil. O difícil é sentar-se na cadeira de Freud e olhar para o seu divã não tendo ele os conhecimentos que temos hoje tanto sobre o caso, como quanto ao que foi desenvolvido sobre a teoria.
Por Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.