PERSONIFICAÇÃO NO BRINCAR DAS CRIANÇAS

O objetivo de M. Klein neste artigo é examinar os principais mecanismos dos jogos em que a criança inventa “personagens” diferentes, distribui seus papéis e o elemento de desejos que ocorre nestes jogos.
Chega à conclusão, após examinar vários casos, de que a cisão do superego entre as identificações primárias introjetadas em diferentes estágios do desenvolvimento é um mecanismo semelhante à projeção, à qual está intimamente ligado; que estes mecanismos (cisão e projeção) são fatores da tendência de personificação no jogo. Através deles, a síntese do superego pode ser temporariamente abandonada e a tensão causada pela tentativa de manter uma trégua entre o superego como um todo e o id se reduz. O conflito intrapsíquico se torna menos violento e pode ser deslocado para o mundo externo. O prazer assim obtido fica ainda maior quando o ego descobre que esse deslocamento para o mundo externo oferece várias provas reais de que os processos psíquicos, com seus investimentos de ansiedade e culpa podem ter uma solução favorável e a ansiedade pode sofrer uma grande redução.
O significado do mecanismo de personificação está por trás de um fenômeno universal essencial para o trabalho analítico tanto com crianças quanto com adultos: a transferência.
A redução do conflito ou seu deslocamento para o mundo externo através dos mecanismos de cisão e projeção é dos principais incentivos para a transferência e uma das forças motrizes do trabalho analítico. Uma maior atividade da fantasia e uma capacidade de personificação mais abundante e positiva são os pré-requisitos para uma maior capacidade de transferência.
Partindo da conclusão que de que a transferência está baseada no mecanismo da representação de personagem, a modificação gradual do rigor excessivo do superego é atingido quando o analista assume os papéis que lhe são atribuídos na situação analítica. Em outras palavras, o analista deve ser apenas um meio em relação ao quais as diferentes imagos podem ser ativadas e as fantasias vividas, a fim de serem analisadas.
M.K. constata que aquilo que afirmou a respeito da personificação em sua forma mais explícita, também é indispensável para o tipo mais disfarçado e obscuro de personificação que está por trás da transferência. O analista que pretende chegar às imagos mais antigas e criadoras de ansiedade, isto é, cortar pela raiz a severidade do superego, não pode ter preferência por nenhum papel em particular; ele deve aceitar aquilo que lhe é oferecido na situação analítica.

Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

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