“Recalcamento – relaxamento da censura – formação de compromisso: este é o modelo básico da gênese não apenas de sonhos, mas também de muitas outras estruturas psicopatológicas e nesses casos podemos observar também que a formação de compromisso é acompanhada por processos de condensação e deslocamento e pelo emprego de associações superficiais com as quais nos familiarizamos no trabalho do sonho.” – Freud – Sobre os Sonhos – capítulo X – Volume V.
Recalque e defesa fazem parte da estrutura do indivíduo. O recalque é a operação em que o aparelho psíquico procura manter no inconsciente representações ligadas a uma pulsão. A defesa incide na excitação interna (pulsão) e numa das representações a que ela está ligada. O que descrevemos como nosso “caráter” baseia-se nos traços mnêmicos de nossas impressões, na primeira infância, e que são as que quase nunca se tornam conscientes. Não há maneira de se ter acesso direto ao inconsciente ficando este acessível quando sofre algum tipo de “tradução” para o pré-consciente e consciente. A matéria prima do inconsciente são as representações-coisa que não têm maneira de serem percebidas pelo pré-consciente e consciente.
A “tradução” está marcada pelo disfarce. Na formação de compromisso aceitamos a idéia que não queríamos saber, desde que esteja disfarçada. Forma que o recalcado vai buscar para ser admitido no consciente, retornando no sintoma, no sonho e em quaisquer outras formações do Ics.
O sonho tem um conteúdo manifesto que se relaciona com as idéias latentes inconscientes. Os quatro elementos que fazem parte do trabalho da construção do sonho são: condensação, deslocamento, figurabilidade e elaboração secundária.
O trabalho do sonho é apenas o primeiro em que se descobriu, dentre toda uma série de processos psíquicos responsáveis pela gênese de sintomas histéricos, fobias, obsessões e delírios; a condensação e, sobretudo o deslocamento são características invariáveis desses outros processos. A transmutação numa forma pictórica permanece como uma peculiaridade do trabalho dos sonhos.
No sonho a condensação traduz-se pelo fato do relato manifesto, comparado com o conteúdo latente, ser lacônico; constitui uma tradução resumida, mas nem por isso deve ser assimilada a um resumo.
No deslocamento, o interesse, a intensidade de uma representação ser susceptível de se soltar dela para passar a outras representações originariamente pouco intensas, ligadas à primeira por uma cadeia associativa. Esse fenômeno particularmente visível no sonho encontra-se na formação dos sintomas psiconeuróticos e, de um modo geral, em todas as formações do inconsciente.
Na figurabilidade o sonho recebe uma espécie de fachada, ele sofre uma seleção e uma transformação que o torna apto a ser representado em imagens, sobretudo visual; e assim recebe uma primeira interpretação preliminar que é apoiada por interpolações e ligeiras modificações.
A elaboração secundária entende o conteúdo com base em certas representações antecipatórias e o ordena já no momento de percebê-lo, segundo a pressuposição de que seja inteligível. Os sonhos que passaram por esse tipo de elaboração por parte de uma atividade psíquica completamente análoga ao pensamento de vigília podem ser descritos como “bem construídos”. Na produção da fachada do sonho empregam-se fantasias de desejos presentes nos pensamentos oníricos sob a forma pré-construída e que têm o mesmo caráter dos apropriadamente chamados “sonhos diurnos”, que nos são familiares na vida de vigília.
Também nas estruturas psicopatológicas há a formação de compromisso nos sintomas produzidos, a diferença aparece no destino do afeto (carga), o destino da representação é sempre o isolamento, o recalque.
Na histeria a representação incompatível é tornada inócua pela transformação de sua carga em algo somático, havendo conversão para o corpo.
Na obsessão a representação enfraquecida persiste na consciência separada de qualquer associação. Seu afeto livre liga-se a outras representações que não são incompatíveis e graças a essa “falsa ligação”, tais representações se transformam em representações obsessivas e o afeto transforma-se em ansiedade.
Na fobia a angústia liberada cuja origem sexual não deve ser lembrada, irá apoderar-se das fobias primárias comuns da espécie humana relacionada com animais, tempestades, escuridão, ou de coisas associadas com o que é sexual (micção, defecação, a sujeira e o contágio).
Na “confusão alucinatória” o eu rejeita a representação incompatível justamente com o seu afeto e se comporta como se a representação, jamais lhe tivesse ocorrido, mas a partir do momento em que isso é conseguido, o sujeito fica numa psicose.
Há indivíduos normais com vida psíquica inconsciente, que não padecem de uma sintomatologia neurótica, padecem de elementos provenientes de representações inconscientes, aparecendo na vida cotidiana associados a sonhos, a atos falhos ou chistes.
Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu.