Narcisismo

     Falar de um conceito tão complexo e abrangente, é falar de nós mesmos, enquanto sujeitos ligados a uma cultura que é cada dia mais narcisista. Basta ver os programas de TV de maior audiência: Big Brother Brasil, Ratinho, Domingão do Faustão, Domingo Legal, etc.; em que aparecer na mídia e ficar em evidência por alguns segundos vale tudo, até mesmo se expor as mais humilhantes situações.

            Entretanto, antes de falar em cultura, temos que olhar para algo mais específico, o desenvolvimento do ser humano.

            A sexualidade inicia com a libidinização da criança pelos pais. Colocada no papel de “sua majestade o bebê”, a criança na relação com a mãe vai aprendendo a saciar a sua fome ao mesmo tempo em que é despertada para o auto-erotismo, pois ao mamar ela sente prazer ao ser saciada e também no contato da mucosa da boca com o mamilo. Quando mais tarde leva o dedo aos lábios para sugá-lo ela está tentando reviver o prazer alcançado anteriormente da boca com o mamilo; temos aí a oralidade, uma das zonas erógenas que foi despertada pela pulsão autoconservadora e que depois se transformará em pulsão sexual.

            A boca não é a única zona erógena que será despertada na criança; no cuidado com a mesma, a mãe, ou quem exerce a maternagem, vai estimulando outras zonas erógenas – “qualquer revestimento cutâneo-mucoso susceptível de se tornar sede de uma excitação de tipo sexual; de forma mais específica, certas regiões que são funcionalmente sedes dessa excitação: zona oral, anal, uretro-genital, mamilo.”*

            Mesmo o olhar que a mãe dirige ao bebê, quando está amamentando libidiniza-o. É como se ela estivesse vendo a si mesma e parte de si nele, e o bebê estivesse se mirando nas “ águas da fonte de Téspias” (onde Narciso se viu e enamorou-se) – relação especular. Os dois se miram e se vêem nos olhos do outro. Os pais ficam tão embevecidos pela cria que depositam o seu narcisismo no bebê.

            Nasce assim o auto-erotismo, conceito que se apoia nas três características da sexualidade infantil: apoio na função vital (auto-preservação); auto-erótico (alucinando ou procurando pulsão parcial, chupar o dedo, por exemplo) e tudo isto comandada pelas zona erógenas. “De um modo mais específico, auto-erotismo é uma característica de um comportamento sexual infantil precoce pelo qual uma pulsão parcial, ligada ao funcionamento de um órgão ou à excitação de uma zona erógena, encontra a sua satisfação logo ali, isto é:

1-     sem recorrer a um objeto exterior;

2-     sem referência a uma imagem do corpo unificado, a um primeiro esboço de ego, tal como Freud caracteriza o narcisismo”. **

      Assim, a criança descobre que ela se dá prazer através das pulsões parciais, surgindo o narcisismo primário.

      É parte do papel dos pais a narcisização, colocando a criança no papel central, sua “majestade o bebê”. Mas também é parte da função dos mesmos ir aos poucos retirando-a deste papel para poder inseri-la na cultura. A criança então se volta à procura de um objeto que estabeleça com ela a mesma relação perdida com os pais.

      Nesta escolha de objeto, Freud confronta duas maneiras pelas quais o homem elege o objeto amado: a partir de sua própria imagem – “narcísico”; e a escolha “anaclítica” – de apoio. Apoio na função de autoconservação, um apoio no objeto, apoio na mãe.

      Este “apoio” é, na origem, um apoio da sexualidade infantil no instinto, se se compreende por instinto o que orienta esta “função corporal essencial à vida”, tratando-se da fome e da função alimentar.

      Depois da oralidade, primeira pulsão sexual parcial, o sujeito se voltará para outra zona erógena, a analidade. O erotismo anal é um dos componentes da pulsão sexual que, no decurso do desenvolvimento e de acordo com a educação que a nossa atual civilização exige, se tornarão inúteis para os fins sexuais. Os traços de caráter – a ordem, a parcimônia e a obstinação – com freqüência relevantes nos indivíduos que anteriormente eram anal-eróticos, serão os primeiros e mais constantes resultados da sublimação do erotismo anal.

      A limpeza, a ordem e a fidegnidade dão exatamente a impressão de uma formação reativa contra um interesse pela imundice perturbadora que não deveria pertencer ao corpo.

      O interesse erótico original na defecação está destinado a extinguir-se em anos posteriores. E não encontramos um acentuado grau de caráter anal nos indivíduos que conservaram na vida adulta o caráter erógeno da zona anal, os homossexuais.

      Freud viu nos homossexuais outra forma de escolha de objeto, diferente da escolha de apoio – anaclítica, a escolha narcísica:

  • o que ela própria é ( a imagem dela mesma);
  • o que ela própria foi ( na infância o objeto de amor dos pais);
  • o que ela gostaria de ser ( uma pessoa famosa, por exemplo);
  • alguém que foi uma vez parte dela mesma (figura de identificação com ela mesma – homossexual).

Para melhor compreendermos o narcisismo secundário temos que nos voltar para o estudo da doença orgânica; para a hipocondria e para a vida erótica dos sexos.

Avaliar a influência da doença orgânica sobre a distribuição da libido, levou Freud a observar que uma pessoa atormentada pela dor, deixa de se interessar pelas coisas do mundo externo, porque elas não dizem respeito ao seu próprio sofrimento. Retira também o interesse libidinal  de seus objetos amorosos.

O hipocondríaco também retira o interesse e a libido, a segunda de forma acentuada, dos objetos do mundo externo, concentrando ambos no órgão que lhe prende a atenção.

A diferença entre a hipocondria e a doença orgânica está que na segunda as  sensações aflitivas baseiam-se em mudanças demonstráveis, na primeira isso não ocorre.

Na hipocondria e parafrenia há o represamento da libido no ego. Na neurose histérica e obsessiva há o represamento da libido no objeto (recalcamento).

Os primeiros objetos sexuais de uma criança são as pessoas que se preocupam com a sua alimentação, cuidados e proteção, isto é, sua mãe ou quem quer que a substitua. Esse tipo e fonte de escolha objetal pode ser denominado o tipo anaclítico, ou de ligação, ou de apoio.

Em pessoas cujo desenvolvimento libidinal sofreu alguma perturbação, tais como pervertidos e homossexuais que em sua escolha ulterior dos objetos amorosos elas adotaram como modelo não sua mãe, mas seus próprios eus. Procuram a si mesmos como um objeto amoroso e exibem um tipo de escolha objetal que deve ser denominado narcisista.

Quando Freud vai buscar no mito de Narciso o termo para designar o conceito de narcisismo, não poderia ter feito escolha melhor. Pela definição do Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis: “Narcisismo – em referência ao mito de Narciso, amor que se tem pela imagem de si mesmo”. Uma das características da mitologia e de todo o mito é a onipotência de pensamento. Neste mito a onipotência de pensamento é acreditar que nos bastamos e que não há ideal de ego melhor do que o nosso. É tentar esconder o nosso desamparo com o pensamento onipotente de poder se bastar.

Por este motivo, o conceito de narcisismo está mais para a psicose do que para a neurose. Na neurose o conflito é com o objeto amoroso, havendo o recalcamento; na psicose há o desinvestimento do objeto e investimento da libido maior no ego, há o desligamento do objeto, negação do desamparo. O que torna necessário para o desenvolvimento da vida mental sadia é ultrapassar os limites do narcisismo e ligar a libido a objetos. Devemos começar a amar a fim de não adoecermos e estamos destinados a cair doentes se formos incapazes de amar.

A escolha narcísica do tipo que ela própria gostaria de ser é o mal da sociedade atual, onde o que vale é o “aparecer”, o se mirar nos olhos dos outros, o voltar a se mirar “nas águas da fonte de Téspias”; onde a nossa imagem é o que importa, estar sob o olhar de milhares de pessoas, mesmo virtualmente, por alguns segundos, nem que seja de maneira degradante.

 *Laplanche e Pontalis – Vocabulário da Psicanálise – Martins Fontes Editora Ltda – décima edicão brasileira; setembro de 1988.

**id, ibidem.

Referências Bibliográficas:

Freud, S. – Caráter e Erotismo Anal – Volume IX – 1908 – Imago.

________ – Um Tipo Especial de Escolha de Objeto feita pelos Homens – Vol. XI – 1910 – Imago.

________ – A Depreciação na Esfera do Amor – Vol. XI – 1912 – Imago.

 ________ – Sobre o Mecanismo da Paranóia – Vol. XII – 1910/1911 – Imago.

_______ – Totem e Tabu – Animismo, Magia e Onipotência dos Pensamentos –  Vol. XIII 1912/1913 – Imago.

_______ – Sobre o Narcisismo – Uma Introdução – Vol. XIV – Caps. 1, 2 e 3 – 1909  Imago.

 Laplanche, P. – Vida e Morte em Psicanálise – 1985 – Artes Médicas.

 Green, A. – Narcisismo de Vida e Morte em Psicanálise.

 Laplanche, P.; Pontalis; J.B. – Vocabulário da Psicanálise – Martins Fontes.

Anotações do Seminário Clínico administrado pelo Prof. Oscar Migueles.

Por  Berenice Ferreira Leonhardt de Abreu

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